Mac Adams, exposição e dois diálogos

 

No dia 18 de abril, quarta-feira, o artista britânico, naturalizado norte-americano, Mac Adams (Brynmawr, 1943) abrirá a exposição inédita Mens Rea: a cartografia do mistério, no Centro Cultural Fiesp. Além de apresentar dezessete obras e uma instalação in situ criada  para a exposição, a mostra conta também com a participação de textos literários. A partir de uma seleção de obras feita pela curadoria da exposição, foi realizado um convite para autores de diversos gêneros, faixas etárias e nacionalidades, com o objetivo de construir um diálogo com a narrativa visual de Mac Adams, um dos fundadores do Narrative Art, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Os nomes são Tal Nitzán (Israel), Ricardo Domeneck (Brasil), Dylan Thomas Hayden (Estados Unidos), Pascal Marquilly (França), Marcus Fabiano (Brasil), Johannes CS Frank (Reino Unido/ Alemanha), Victor Heringer (Brasil), Guilherme Gontijo Flores (Brasil) e Matilde Campilho (Portugal).

Os autores convidados tiveram a liberdade na interpretação da imagem e na escolha do gênero literário para cada texto. “O único desafio para cada autor foi usar o conceito Mens Rea na construção de cada texto, pois este é o elemento principal utilizado também pelo Mac Adams na sua obra”, com diz Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição junto com Anne-Céline Borey.

O período expositivo vai de 18 de abril a 8 de julho de 2018, na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp: Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp), de terça a sábado, das 10h às 22h, e domingo, das 10h às 20h. Na abertura, no dia 17 de abril (terça-feira), às 18h, será feita a palestra “Fios soltos: construção e desconstrução de uma arte narrativa”, com o próprio Mac Adams e os curadores Luiz Gustavo Carvalho e Anne-Céline Borey.

Além de poder contribuir com um texto meu parao díptico “The Whisper”, tive a chance de traduzir os textos de Pascal Marquilly  e de Johannes CS Frank. Seguem abaixo o poema feito por Tal Nitzán, em tradução de Moacir Amâncio, para o díptico “Orian”.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Mac Adams, Díptico “Orianr”, 1980. Series Mysteries.


(Tal Nitzán)

Não é um banco verde no quarto das crianças
é um crocodilo
não é um crocodilo
é o futuro:

Eis o movimento lento dos seus olhos
Eis o bater das suas mandíbulas terríveis

Mas onde estão as crianças?
Este não é mesmo o quarto das crianças
Este é o quarto da infância.

Eis que tu te encontras nele
em teu vestido pequeno e a tua boca fechada
e todos os teus crocodilos diante de ti.

(trad. Moacir Amâncio)

§

Mac Adams, Díptico “The Whisper”, 1976-7. Series Mysteries.

Dito isso
a partir de “The Whisper” de Mac Adams
(Guilherme Gontijo Flores)

Mas escuta-me ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela. Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor; estais realmente casado? Há segurança?

Dito isso.

Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vai atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tornar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o poste de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quiser que vos servisse com outras cânulas de clister… Oh! Por enquanto estais bem afinados, mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu se gente honesta. Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites; é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira.

Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixento e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbedos, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a sequela, meu barco correrá com vento e vela. Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!… A vida é quente, soldado é gente… Soldado… que leva a breca! Mais vinho, rapazes!

Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa como a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar no seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhe emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. E agora duas coisas: sobre Cássio falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança.

Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem. Sendo assim, considero Cássio honesto. Acautelai-vos, senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras! Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: não deixes de fazer, mas em segredo. Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada. Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço… Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade. Instantemente vos peço não tirar do meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

Dito isso.

Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da Sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de início, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano.

Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como ser mais alvar, quando embriagado. Contudo vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las. Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas, mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmuravam “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!” Mas tudo isso era somente sonho. Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não viste porventura não mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. Ficai calmo. Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de ideia. E eu me declaro vosso por toda a vida. Será crível tal coisa? Beijar às escondidas! Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções. Se nada fazem, é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa… Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse. A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço… E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria, depois de convencida — de indiscretos falam por toda parte. Sim senhor. Mas podeis ter certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento. Oh céu! Que tinha… Que sei eu?… Que tinha… Deitado… Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

Dito isso.

Trabalha meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

Dito isso.

Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

Dito isso.

Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

( Todo o texto é feito de recortes de falas de Iago, no Otelo Shakespeare, a partir da tradução de Carlos Alberto Nunes.)

tal nitzán

Tal Nitzán

tal nitzán é uma poeta, editora & tradutora (sobretudo de literatura hispânica para o hebraico) israelense nascida em jafa; já viveu em buenos aires, bogotá & nova york, para então se estabelecer em tel aviv. até o momento, lançou 5 livros de poesia: Doméstica (2002, prêmio do ministério da cultura para livro de estreia), Uma noite comum (2006, prêmio da associação de editores de israel), Café soleil bleu (2007), A primeira a esquecer (2009, venceu o concurso da sociedade de artistas e escritores) e Olhar a mesma nuvem duas vezes (2012). sua poesia já foi traduzida para mais de 20 idiomas, tais como castelhano, francês, italiano, lituano, português &c.

o pequeno livro O ponto da ternura (2013, lumme & artes vertentes) uma antologia de 40 poemas tirados de 4 livros da autora, foi majoritariamente traduzido por moacir amancio, mas também conta com versões realizadas por maria teresa mota, flavio britto, maria joão cantinho, luiz gustavo carvalho, lucar argel & a própria tal nitzán (sempre como parceira de algum lusófono). claro que não sou capaz de contrastar original & tradução, mas, como vocês podem conferir logo abaixo, elas têm impacto, a poesia de nitzán nos atinge em português. comento aqui os 4 poemas que selecionei para o post.

penso que a força da poesia de tal nitzán reside no estreitamento entre o espaço público & o privado, principalmente porque ela escreve no & para o contexto em que vive, com os constantes conflitos entre judeus & palestinos — & a desigualdade óbvia de forças entre esses dois povos. essa potência crítica está clara já em títulos de poemas como “khan yunis” (um subúrbio de gaza), ou no desenvolvimento de “tishrê” (trata-se do primeiro mês do calendário hebraico, quando se realiza o Iom haQipurim, dia do perdão).

em “História curta”, a espera pela redenção — expressa pela angústia que aperta traqueia e peito — se perde diante dos retornos infinitos do mal, numa espécie de ciclo de carmas representados pelo cotidiano de formigas, queimaduras & cortes de faca na cozinha (a banalidade do cotidiano, inversamente, atinge o cerne do mal). na última estrofe, com dois símiles, atinge o ponto: o lixo da construção num monte de detritos soa como a chuva; os gemidos soa como gemido; em resumo, o segundo símile não é símile de nada — o gemido não se compara a outra coisa que o alivie como imagem, mas nos fere diretamente. daí o desejo de uma desgraça para acabar com todas as desgraças, porque o ciclo da violência não terminará num declínio suave em nome do bem.

no entanto, em poemas como ”Graça”, a fusão entre vida pública & privada é ainda mais violenta: vemos o fracasso de um tu (o leitor, a poeta, o estado – não há clareza) em sanar a fome do pobre, as desgraças contínuas de uma vida de guerras (reparem como os imperativos negativos evocam os dez mandamentos agora pelo viés da impotência diante do mal), que assim só pode retornar ao lar — na estrofe de um só verso, ponto de virada do poema — em busca do afeto possível, representado na imagem de um gato amarelo, que é o dono da casa. esse retorno ao afeto possível, entretanto, não é mero fracasso, porque é talvez ali que se inicie um ponto de ternura que reverta a lógica do massacre.

é provável que essa esperança no amor/afeto, como máquina de reversão/compensação do mal histórico & cotidiano. é bem o que lemos em “Assim”, quando em contraposição à alegria de um gato ou de crianças (incapazes de saber “como a dor ataca”), surge a figura da poeta que permanece como fiel aluna de piano, “pela música, ou pela fragilidade”, alguém que assim preserva o amor em tempos de alienação & guerra: há um clima de persistência na derrota, como o de alguém que se apega a isso como a uma tábua de salvação (se lembramos de “Alguns gostam de poesia”, da polonesa wislawa szymborska): é preciso preservar o amor, mesmo morto.

não é à toa, portanto, que nitzán escreve poemas amorosos (ou que se permitem à leitura como poemas de amor) que revigoram nossa tradição. é o caso, por exemplo, de “Tesouro”. nos primeiros versos, temos uma série de ataques, em crescendo: no inverno, um habitante do jardim (do éden? um simples animal? um palestino?) tem sua pele arrancada, um do grupo “não verá o dia” para dar calor a outro ser; em seguida, numa cena primaveril, vemos molotovs incendiando casas assinaladas (aqui os sentidos são menos equívocos); por fim, surge a poeta buscando se aninhar no corpo amado, “como um menino se abriga no pé de morango”. é uma comparação inusitada: que abrigo um minúsculo pé de morango poderia oferecer, além de seu alimento? trata-se, então, de um abrigo frágil, ameaçado, de quem não quer “ver nuvens de veneno e de ocaso”. ao fim desse cenário de perdas, resta o casal que se deseja a sobrevivência pela pobreza já anunciada, sem pele, sem casas, sem abrigos: ser um tesouro oculto contra a mão deles, contra o saber deles. & quem são eles? não haverá resposta simples.

guilherme gontijo flores

ps: vocês encontram mais poemas de nitzán em português aqui & aqui.

ps 2: convém lembrar que a poeta também é ativista engajada pela paz entre israel & palestina & já organizou a antologia Com caneta de ferro: poesia de protesto israelense 1984 – 2004, reunindo textos contra a invasão de território palestino por israel. há uma entrevista em português sobre o assunto aqui.

ps 3: aqui uma lista de alguns dos autores já traduzidos por nitzán: borges, cortázar, garcía márquez, antonio machado, lorca, onetti, neruda, paz, pavese, pizarnik, vallejo, vargas llosa, &c.

* * *

História curta

Entre nós já não há quem se lembre
há quanto tempo esperamos
pela onda branca e cega que apagará o
que basta lembrar para que volte
e nos apertar o peito de manhã
e a traqueia à noite.

Porque o enxame de formigas repelido
volta a enegrecer a nossa casa, e a água fervente
das xícaras de porcelana atinge nossos rostos,
e facas, enjoadas da carne dos morangos,
agora procuram os dedos.

Quando se acalmarão os pedaços de papel que
circulam pelo ar, se aquietarão
no pó inúteis farrapos de sortilégio?

O que soava como chuva era lixo da construção
jogado num monte de detritos,
o que soava como um gemido era um gemido.
há tempos precisamos de uma nova desgraça
para acabar com o que sobrou da nossa desgraça.

(trad. moacir amancio)

§

Graça

O insulto da fome ao pobre tu não aplacarás
e o desvelo do vingador tu não aclamarás
e a casa a ser demolida tu não protegerás com teu corpo
e o carrinho da bebê impulsionado ao céus por um redemoinho
tu não apanharás nem baixarás suavemente
e o reino do mal tu não expulsarás.

volta-te então para sua casa

para aquele que te ama
para o único que é teu
para o apelo amarelo nos seus olhos estreitos
e enterra o teu rosto em seu pelo.

Uma carícia
para um gato
no mundo

(trad. luca argel & tal nitzán)

§

Tesouro

No inverno os guardas arrancaram o cobertor da
pele dos habitantes do jardim. Um deles não verá o dia.

Na primavera foram lançadas garrafas cegas
nas casas assinaladas, que se incendiaram.

À noite busquei refúgio em teu corpo
como um menino se abriga no pé de morango.

Ouvir somente a tua respiração
apoiar-me em ti da cabeça aos pés e por um instante

não ver nuvens de veneno e de ocaso
acumulando-se pesadas.

Que mais direi.

Que és na minha pobreza o tesouro oculto
que a mão deles não alcançará.

Que eu seja na tua pobreza o tesouro oculto
que o saber deles não alcançará.

(trad. moacir amancio)

§

Assim

O gato escapando em um perfeito arco
sobre a cerca, as crianças, rindo atrás do muro,
não saberão como a dor ataca
como uma voz que incessantemente lamentava,
e de repente é ouvida.
Que brava paciência
teve o frágil professor de piano, como,
quando os demais deixaram um por um,
olhar para baixo, eu permaneci a última
pela música, ou pela fragilidade,
as mãos ainda apertam o livro
quando os olhos se fecham,
assim deve-se preservar o amor
porque, como uma estrela, ele nos abriga nas noites
mesmo morto.

(trad. luiz gustavo carvalho & tal nitzán)

Ronny Someck

ronny_someckRonny Someck nasceu em 1951 em Bagdá, no Iraque, se mudou para Israel quando era criança e estudou literatura e filosofia hebraica na Universidade de Tel Aviv. É autor de dez volumes de poesia e já foi traduzido para diversas línguas, incluindo árabe, catalão, francês, alemão, dinamarquês, etc.  – segundo o site do autor, sua presença em antologias e revistas já soma 39 línguas.

Pessoalmente, conheci a poesia de Someck através de uma coletânea organizada e traduzida pela estudiosa, tradutora e romancista Tsipi Keller, chamada Poets on the Edge (Suny Press, 2008), que, além dele, apresenta em tradução inglesa também muitos outros nomes importantes da poesia hebraica contemporânea, como Yehuda Amichai, T. Carmi, Dan Pagis, Shin Shifra, Dahlia Ravikovitch, Raquel Chalfi, etc. A própria Tsipi Keller (nascida em Praga, mas residente nos EUA atualmente) é também uma figura importante da tradução de autores israelenses, responsável por diversas coletâneas de tradução para o inglês de poesia e prosa em hebraico moderno. Alguns dos poemas de Someck presentes na coletânea de Keller (retirados do volume de Someck Rice Paradise – Selected Poems 1976-1996) me chamaram a atenção e resolvi vertê-los para o português.

No geral, costumo ser cauteloso no condizente a traduções indiretas. Acredito que o meu comentário anterior sobre Byron, Paulin Paris e Castro Alves exponha alguns dos problemas inerentes à prática (resultantes, no caso de Byron, principalmente de desatenções por parte do primeiro tradutor), mas expôs também o mais importante que é o resultado final ser boa poesia – como é, na minha opinião, no caso da tradução de Castro Alves e também no das traduções ou transcriações de Rumi feitas pelo nosso colega de escamandro Bernardo Lins Brandão, via Coleman Barks.

Enfim, foi após ter selecionado e traduzido alguns dos poemas de Someck que descobri haver já um volume, muitíssimo recente, por sinal, de seus poemas em português. O nome da edição é Gol de Esquerda, pela editora Annablume, e data do final de 2012. O tradutor é Moacir Amâncio, poeta, jornalista e professor de língua e literatura hebraica na FFLCH da USP. Como a minha encomenda ainda não chegou, reproduzo a seleção de poemas apresentados pelo Estadão em novembro de 2012, da ocasião do encontro entre Someck e o poeta iraquiano Khalid Al-Maaly. Chamo atenção à nossa escolha mútua (tri-mútua, na verdade, pois eu mesmo só escolhi já dentro da seleção da Keller) pelo poema da linha da pobreza, que vocês leitores poderão ler, então, tanto na minha tradução indireta quanto na tradução direta de Amâncio.

Bet_Lid_Maabara_1949

Enfim, há muitas coisas que eu poderia comentar, como as tensões entre o passado e todo o imaginário religioso-literário da Torá, do Talmude e da Cabala, e o presente político e militar delicado, que parecem (não surpreendentemente) marcar a maior parte da poesia em hebraico moderno (pendendo um pouco mais para o presente do que para o passado, no caso de Someck, ao que tudo indica), ou ainda glosar algumas das palavras que aparecem nos poemas (Ma’abara, ou os nomes de Ibn Gabirol, David Ben Gurion e Umm Kulthoum), mas a glosa, no caso da curiosidade, pode ser feita pelo Google, e o comentário é algo melhor deixado para após uma maior leitura e ponderação futuras.

Adriano Scandolara

A Linha da Pobreza

Como se fosse possível traçar uma linha e dizer: Abaixo disso, a pobreza.
Aqui o pão que com lápis baratos de olho
ficou preto
assim como as azeitonas no pires
na toalha de mesa.
Pelo ar os pombos voavam em formação de continência
ao repique do sino do vendedor de querosene na carroça vermelha,
ao som das galochas pisando a lama.
Eu era um menino na casa que chamavam de barraco,
numa comunidade que chamavam de Ma’abara.
A única linha que eu via era a do horizonte e abaixo dela era tudo
pobreza.

                       

Jasmin. Um Poema na Lixa

Fairuz ergue os lábios
para o céu.
Que chova jasmim
sobre todos que se conheceram
e não sabiam que estavam apaixonados.
Eu a ouvia cantar no Fiat de Muhammad,
ao meio dia na rua Ibn Gabirol:
Uma cantora libanesa a cantar num carro italiano,
conduzido por um poeta árabe de Baqa-al-Gharbiyye,
numa rua com o nome de um poeta hebraico da Espanha medieval.
E o jasmim?
Se cair dos céus do Armagedom
virará
por um instante
uma verde
luz
no próximo cruzamento.

                       

Trinta Segundos para Carregar o Bico

Tínhamos trinta segundos para carregar o bico.
Era um morrinho
subindo ao lado do curso de obstáculos do treinamento básico.
Sobre ele, o colarinho do céu era passado a ferro, engomado em nuvens
e o cáqui das dunas podia ser, numa paisagem distinta, um verso de um poema sobre a natureza.
Mas cadê o verso e cadê a natureza,
quando dois cantis pulam na sua cintura,
uma Uzi na mão,
e uma pá rente à espinha.
Tudo que se podia fazer era, em fantasia, sorver os bicos
da escrivã da esquadra que dormia sempre
no jipe do comandante,
e lembrar-se do pintor Gauguin a debater se comia o frango
que tinha ou se o pintava.
Lá, diante do morro, todos tínhamos fome.

                       

Em Resposta à Pergunta: Quando Sua Paz Começou?

Na parede de um café perto da Ma’abara
penduraram David Ben Gurion com seu cabelo à prova de vento
e perto dele, numa moldura parecida, a cara bochechuda
da Umm Kulthoum.
Era o ano de ’55 ou ’56 e eu pensava que se eles penduravam
um homem e uma mulher lado a lado
era porque eram marido e mulher.

(traduções de Adriano Scandolara, via tradução inglesa de Tsipi Keller)

                       

Linha da pobreza

Como se fosse possível traçar uma linha e dizer “abaixo disso é a pobreza”.
Aqui está o pão colorido de maquiagem barata
que ficará preto
e as azeitonas no pires
sobre a toalha da mesa.
Pelo ar, pombas fizeram um voo de continência
ao tilintar da sineta na mão do vendedor de querosene numa carroça vermelha,
havia também o barulho do chafurdar das botas de
borracha na terra barrenta.
Eu era menino, na casa que chamavam de barracão,
no bairro que chamavam de campo de trânsito dos
imigrantes.
A única linha que eu via era a linha do horizonte e
abaixo dela tudo parecia
pobreza.

               

Bagdá, fevereiro 1991

Por aquelas ruas bombardeadas empurravam meu carrinho de bebê.
As jovens de Babilônia beliscavam meu rosto e abanavam com palmas de tamareiras
os meus cabelos loiros.
O que ficou desse tempo escureceu muito,
como Bagdá
e como o carrinho de bebê que tiraram do abrigo antiaéreo
nos dias de espera anterior a outra guerra.
Oh, Tigres, oh Eufrates, mimosas cobrinhas no primeiro mapa da minha vida,
como trocaram de pele e se tornaram víboras.

               

Poema patriótico

Eu sou iraquiano-pijama, minha mulher é romena
e nossa filha é o ladrão de Bagdá.
Minha mãe continua a ferver o Tigre e o Eufrates,
minha irmã aprendeu a preparar pirushki com a mãe russa
do marido dela.
Nosso amigo, faca-marrocos, crava o garfo
de aço inglês no peixe que nasceu na costa norueguesa.
Somos todos trabalhadores despedidos que fizeram descer dos andaimes da torre
que pretendíamos construir na Babilônia.
Somos todos lanças enferrujadas que Dom Quixote brandiu
perante os moinhos de vento.
Nós todos ainda atiramos nas estrelas deslumbrantes
um momento antes que elas sejam engolidas
pela Via Láctea.

NT – Iraquiano-pijama, clichê aplicado aos judeus iraquianos em Israel porque teriam hábito de vestir pijama o dia todo. Faca-marrocos – clichê popularmente aplicado a judeus marroquinos e obviamente associado a violências que seriam praticadas por eles quando chegaram em massa a Israel nos anos 1950 e 1960.

               

Bloody Mary

A poesia é a garota dos bandidos
no banco de trás de um carro americano.
Os olhos dela são apertados como um gatilho e a pistola dos seus cabelos dispara
balas loiras que lhe deslizam pelo pescoço.
Digamos que a chamam Mary, Bloody Mary,
e de sua boca as palavras são espremidas feito suco do ventre de um tomate
previamente retalhado
no prato de salada.
Ela sabe que a gramática é a polícia da língua
e a antena redonda na orelha dela
identifica de longe a sirene.
O som desviará o carro do ponto de interrogação
para o ponto final,
ela abrirá a porta
e estacará na beira da rua tipo metáfora para a palavra
puta.

(traduções de Moacir Amâncio)