crítica, poesia

Mais textos de Murilo Mendes

Aproveitando o texto sobre o eterno nas letras brasileiras modernas que postei aqui, gostaria de indicar alguns links para outros textos de Murilo Mendes que estão no Anuário de Literatura, n. 9, 2001, da UFSC. São artigos interessantes para compreendermos melhor as concepções filosóficas que estão no fundo de alguns dos poemas de Murilo dos anos 30-40, bem como para mostrar o seu trabalho como crítico literário e cultural.

Eis os links:

A revista: Anuário de Literatura, n. 9.

E alguns dos textos de Murilo:

Breton, Rimbaud e Baudelaire

Perfil do catolicão

Carta aos fariseus

Poesia católica

 

bernardo lins brandão

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O eterno nas letras brasileiras

Gostaria de apresentar aqui um interessante artigo crítico de Murilo Mendes, escrito para o boletim da sociedade Felipe d’Oliveira, sobre o eterno nas letras brasileiras modernas, de 1936. O texto é útil não apenas para entendermos melhor as concepções artísticas e filosóficas que estão por trás de alguns livros escritos por Murilo como Tempo e Eternidade e O Visionário, mas também por apresentar um panorama da poesia brasileira até a metade dos anos 30 do ponto de vista da noção de eternidade.

Na verdade, a partir da leitura desse texto, acredito que a intenção de Murilo nessa época era dotar a poética modernista e surrealista de profundidade metafísica, o que tentou fazer através dos pressupostos da filosofia essencialista de Ismael Nery. O essencialismo, aliás, apesar de citado apenas de modo rápido e alusivo no artigo, parece-me ser a grande inspiração de suas análises, o que é bastante visível na passagem que se refere a Jorge de Lima:

“um documento importante da necessidade das coisas permanentes é a parte de Jorge de Lima no livro Tempo e Eternidade. É um protesto formidável contra a concepção burguesa da religião, é um tiro no efêmero, é uma volta ao transcendente, à concepção antiquíssima e sempre nova da poesia, é uma penetração no mistério, uma homenagem ao Cristo, portanto à Eternidade, sem par nas nossas letras poéticas. O avolumar crescente das forças econômicas e políticas não detêm a marcha ascendente desse poeta. Quanto mais gritam contra a poesia, mais a vida e a obra desse poeta respondem a favor”.

Perdido em uma revista da década de 30, o texto não é fácil de ser encontrado. Por isso, estou disponibilizando aqui uma versão de uma cópia que fiz em alguma biblioteca, não me lembro mais qual, durante a pesquisa para minha monografia de conclusão do curso de Letras, isso em 2003 ou 2004 (é, o tempo anda ficando apressado; mas, diria Murilo a esse respeito, para usar uma frase do artigo, “a vida eterna começa nesse mundo mesmo”).

O pdf está é esse aqui: o eterno nas letras brasileiras

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O essencialismo de Ismael Nery

Ainda na série sobre a filosofia essencialista de Ismael Nery e sua relação com a poesia do próprio Nery e de Murilo Mendes, transcrevo aqui a parte inicial do texto O Essencialismo de Ismael Nery, que foi publicado como capítulo do livro Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.

bernardo brandão


O essencialismo de Ismael Nery

A arte de Ismael Nery, diz-nos Jorge Burlamaqui, “não é só uma percepção da vida pelos sentidos. A grande produção artística deixada por Ismael obedece a um conjunto filosófico gerado de um pensamento constantemente preocupado com o absoluto, o essencial e com a unidade”. Esse “conjunto filosófico” foi batizado por Murilo Mendes de essencialismo. Não é fácil, no entanto, dizer em que consiste essa filosofia. Ismael não nos deixou nada substancial escrito sobre o tema. Dizia que “se suas idéias eram verdadeiras, haveriam de se transmitir na sucessão das idades, não importando que aparecessem com o nome dele ou de outro”.

Nossas principais fonte são os textos escritos por Jorge Burlamaqui e pelo próprio Murilo Mendes, aos quais Ismael de preferência expunha as suas idéias. Nas Recordações, Murilo sintetiza a filosofia essencialista do seguinte modo:

 Ismael tinha apenas 25 ou 26 anos de idade, e já os seus próximos sabiam que havia construído um sistema filosófico muito original, apesar de o não escrever. Era o essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço, na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade, na evolução sobre si mesmo para a descoberta do próprio essencial, na representação das noções permanentes que darão à arte a universalidade. Já se vê que ele não improvisou um tal sistema. Suas raízes vinham de longe: embora muito pouco dado a leituras, era Ismael extremamente curioso de todas as experiências humanas, passando sempre em revista as teorias mais diversas. Sua vida e as poucas notas que deixou provam que Ismael Nery viveu seu sistema, julgado por ele próprio uma introdução ao catolicismo.

A relação da filosofia essencialista com o catolicismo deve ser notada. Murilo Mendes nos conta que, nos anos 20 e 30, os intelectuais brasileiros eram, na sua grande maioria, avessos à religião: “o catolicismo era sinônimo de obscurantismo, servindo só para base de reação. Não era possível, sobretudo a uma pessoa de bom gosto, ser católica”. Mas, apesar de imerso nesse meio intelectual, Ismael Nery era um católico fervoroso. Sabendo da indisposição existente na época contra as idéias de sua religião, Ismael resolveu apresentar algumas delas de um modo laico, buscando fundamentá-las racionalmente. Eis uma nota sua sobre o assunto, citada nas Recordações:

A grande e única tragédia consiste no desvirtuamento do objetivo do homem: eis por que sou católico. No catolicismo aprendo a priori o que verifiquei no curso da vida. A vida é construtiva e o homem desvirtuado precisa demolir. Eis por que criei o essencialismo, que não passa de um método para ajudar o homem a ser homem. Ele sendo homem será católico: atingindo a justiça será santo, desejo máximo de Deus e interesse máximo do homem.

Não se deve, no entanto, pensar a partir dessas considerações que o essencialismo seja uma mera repetição de dogmas religiosos. Como escreveu Murilo Mendes: “o essencialismo é uma teoria filosófica e artística criada por Ismael Nery sobre bases católicas. Ismael imprimiu-lhe o caráter da sua fortíssima personalidade, sujeitando-a, porém, aos eternos princípios do catolicismo”. De acordo com Jorge Burlamaqui, o essencialismo podia ser dividido em três campos: o filosófico, o moral e o artístico. Na verdade, o método filosófico do essencialismo, baseado na abstração do espaço e do tempo, fundamentava as idéias morais e artísticas de Ismael Nery. É esse método que dava unidade ao conjunto da filosofia essencialista. No entanto, se de acordo com o próprio Nery, o essencialismo tinha como objetivo “ajudar o homem a ser homem”, era o campo moral a principal aplicação essencialista. Por sua vez, foi na arte que a filosofia de Ismael atingiu seus mais duradouros resultados, ao se concretizar na sua produção artística, bem como na de alguns de seus amigos.

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Poemas de Ismael Nery

Continuando a série sobre poesia essencialista, posto aqui os poemas completos de Ismael Nery, ao menos os que chegaram até nós.

 

bernardo brandão

 

POEMA POST-ESSENCIALISTA (1931)

O silencio provocou-me uma necessidade irreprimível de correr. Abalei como uma flecha através dos mares e montanhas com incrível facilidade e sem cansaço. Eis-me agora sentado diante de uma paisagem em formação, ainda não colorida. O meu pensamento agora é que percorre o que acabei de percorrer, e admiro-me, então, de nada ter encontrado, senão ao chegar o rastro fosforescente que deixei ao partir. Os mares são agora ridículos lençóis d’água, de uns três ou quatro palmos de profundidade. As montanhas são nuvens estáticas, que o eterno medo dos homens transformará em granito. Tudo é pavorosamente desabitado. Não há leões nem elefantes nos desertos da África. Não existem as pirâmides nem a Torre Eiffel. Existe apenas eu mesmo, que me percebo inversamente por uma idéia que chamo mulher e que paira rarefeita sobre a superfície do globo – idéia incompreensível porque nada existe na terra além de mim mesmo. Volto a percorrer novamente o espaço, porém, desta vez, com a lentidão do crescimento das plantas, multiplicando-me progressivamente na minha idéia para mostrar-me a mim mesmo. Os mares, agora, são profundos e as montanhas se solidificaram. Aparecem leões e elefantes nos desertos da África. Construíram as pirâmides no Egito e levantaram a Torre Eiffel, em Paris, no ano em que um outro eu nascia em Belém do Pará. Tudo se povoou transbordantemente. Acho-me agora sentado na prisão, olhando sereno através das grades, aguardando o julgamento do crime nefando que cometi de usar a mim mesmo, na minha mãe, mulher, filha, neta, bisneta, tataraneta, nora e cunhada. Voltarei, ainda uma vez, para ser o meu próprio Juiz. Nada existe, além de mim mesmo, senão para mim.
Silêncio.

POEMA (1931)

Estou com o olho no telescópio que está dentro da barriga aberta da cúpula. Observo a lua, a filha da lua, a neta da lua, toda a família da lua, menos o marido dela. Eu gosto da cor da lua mas acho incompleta a sua forma. A lua é uma mulher gorda, que parece magra, magríssima, abstrata. Eu gosto das mulheres abstratas que vêm ao mundo sem pai nem mãe nem irmãos, e que não nasceram em nenhum país nem tão pouco no mar. Gosto mais de ter uma mulher em pé na minha cabeça do que pendurada em meu pescoço. O meu pescoço, às vezes, não agüenta bem o peso da minha cabeça, porque ela está cheia de coisas que quase sempre eu não gosto. Tenho uma formidável atração pelo que detesto, inclusive eu mesmo. Ismael Nery: nunca consegui ouvir nem dizer este nome sem sentir uma comoção – mas não sei bem que espécie de comoção eu sinto ouvindo ou dizendo este nome. Há nomes também que me emocionam e me obrigam a inventar um físico para eles. Nunca vi ninguém que escapasse completamente a uma crítica minha – nem eu próprio. Terei que captar a minha sinceridade em alguém que não seja eu, e até muito pelo contrário – que seja bem diferente de mim. Preferiria olhar as mulheres de cabeça para baixo e suspenso por um fio de aço, do que de outra maneira qualquer. A desorganização das coisas não me agrada, também como a organização .Gostaria de ter um criado moral para arrumar o meu cérebro e consolar nas minhas ausências aqueles que moram comigo, de mim e para mim. O meu maior instinto é o da paternidade que aplico a tudo e a todos. A minha maior vontade era ser a sombra de tudo e de todos, afim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos. Não haverá um homem que me determine moral e fisicamente? Sou o gérmen de um Deus, toda a gente o é também.

A VIRGEM INÚTIL (1932)

Eu não lhe pertenci porque não quis
Não fui de ninguém e nem sou minha.
Nasci no dia 9 de julho de 1909
E não sei quando morrerei.
Fui criança que não brincou
E moça que não namorou.
Sou mulher que não tem desejos.
Serei velha sem passado.
Só gosto de estar deitada
Olhando não sei p’ra onde.
Passo horas sem pensar,
Passo dias sem comer,
Passo anos sem mexer
No quarto azul que me deram.
Nasci nele, vivo nele e nele talvez morrerei.
Se não aparecer aquele
Que sempre esperei sem cansaço
Que me fará levantar, andar e pensar,
Que me ensinará o nome de meus pais e das partes do meu corpo.
Eu espero alguém que talvez não venha
Mas sei que existe,
Porque sei que existo.

A NOIVA DO POETA (1932)

A minha noiva se reparte toda nas minhas quatro amantes,
Sarah, Esther, Ruth e Rachel.
Sarah tem o seu ar e o seu corpo,
Esther tem a sua cor e seus cabelos,
Ruth tem o seu olhar e seu andar,
Rachel tem sua boca e sua voz.
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.

ISMAELA (1932)

A minha irmã é minha edição feminina e meu castigo.
Dá a todos o que eu nunca de mulher alguma recebi.
Se eu não soubesse que sou também o seu castigo
Há muito tempo que seria fratricida ou suicida.

POEMAS PRÉ-ESSENCIALISTAS (1932)

1

Três mulheres pariram de mim três filhos iguais
Samuel, Ismael e Israel.
O primeiro no mar, o segundo no ar, o terceiro no fogo.
A terra toda percorreram os três irmãos
Sem nunca se terem encontrado,
Sem nunca terem sabido o nome de seu pai
Que com eles andou,
Que pra eles deixou três mulheres iguais
Com as quais tiveram três filhos,
Samuel, Ismael e Israel.

2

Desde Eva que tu te repetes em formas inúteis
Para Samuel
Para Ismael
Para Israel
De quem és filha, mulher e mãe.
Ainda não atinaste, ó mulher!
Que só em mim, que só pra mim e só comigo
Não repetirás mais as tuas formas inúteis?!

3

Os filhos de minhas noras se parecem comigo
No andar
No pensar
No falar
E no ciúme que tenho
Da minha mãe,
Da minha mulher,
Da minha filha.
Os filhos das minhas noras se parecem com a avó.
Gostam de mim!

A MANHà(1932)

Acordei hoje com a desagradável e estranha sensação de que sou o único ser humano sobre a superfície da terra. Os outros homens me parecem animais que nenhuma relação poderão estabelecer comigo. Olho-os com uma indiferença notável – nem mesmo a profunda piedade que costumo ter por eles estou sentindo hoje. Recordo-me de fatos da minha vida, como se fossem histórias que me contaram. Noto que não me deixara marca nenhuma. A vida para mim está parecendo a coisa menos importante deste mundo. Poderei continuar a viver como poderei morrer neste instante. Isto me é absolutamente indiferente. Não sinto a necessidade de me mover nem de tomar resoluções. Uma senhora passou e me cumprimentou. Confesso que não a reconheci. Meu espírito está vagando sem curiosidade alguma sobre todas as coisas e idéias. Talvez por hábito. As vozes das pessoas que estão perto de mim me parecem ruídos sem nenhuma significação, como, por exemplo, o barulho que está fazendo a água que cai na caixa do banheiro. Olhei-me no espelho e achei excessiva a anatomia do meu corpo, sobretudo da minha cara. Para que olhos, para que boca, para quer nariz? Minha barbicha no queixo me parece mais inútil do que um seio para uma mulher que não foi mãe. O homem deveria ser uma bola com pensamentos. E das mulheres, que penso eu hoje? Nada! Aliás sempre pensei nelas muito pouco. Só costumo pensar no que me interessa. Creio que não existem neste mundo três mulheres que me possam interessar – pelo menos ao ponto de pensar nelas. E dos homens, que penso eu? Penso que foram feitos para as mulheres, muito mais do que o contrário . E de mim? Creio que eu seja uma coisa qualquer sem classificação, apenas com um a aparência humana. Será que minha inapetência pela vida seja resultado de falta de compreensão dela? Não creio! Creio mesmo o contrário. Mais do que o instinto de conservação, penso que seja a curiosidade a mola que nos impele para a vida – digo isto por experiência própria. Tenho a impressão de que nada mais poderei apreender e descobrir na vida. Esta deve ser a única razão do meu desinteresse por ela e do meu profundo desânimo. E a outra vida, como desejaria eu que ela fosse? Um repouso eterno numa paz infinita? Não! Isto mais ou menos foi o que eu sempre tive!… Eu queria que ela fosse a correção da minha vida da terra numa progressão infinita. Eu sou bastante medíocre!

A UMA MULHER (1932)

Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros.
Eu queria ser tua camisa que te conhece em segredo,
Eu queria ser o leito onde te abandonas ao teu próprio frio.
Eu queria ser teu filho e teu amante.
Eu queria que fosses eu.
Eu queria ser teu amor e teu Deus.
Eu queria não existir.

INÉRCIA

O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

O ENTE DOS ENTES (1933)

A minha mão gigante rasgou o céu e apareceu a figura do Ente dos entes. Houve confusão tremenda e os homens se misturavam, gritando; gritos de alegria, de dor, de espanto e de medo. Os sentidos dos homens se aperfeiçoaram e eles viram, ouviram e sentiram o que nunca tinham visto, ouvido e sentido. Houve, depois, consciência e todos se calaram. E olhavam pasmos a figura do Ente dos entes, que, para os homens era uma mulher e para as mulheres era um homem, e que apontava para três estrelas que giravam loucamente em volta de uma grande esfera de aço polido, que tinha a cabeleira como a de uma mulher e que, serena, caminhava girando sobre si mesma, para o ocidente. Depois, o Ente dos entes abriu suas vestes e mostrou no seu corpo fosforescente três nódoas vermelhas, duas na altura do ventre e uma em cima do coração. E falou em linguagem desconhecida. Ninguém entendeu o que disse o Ente dos entes, mas todos, no fim, sentiram um grande consolo. Na noite deste acontecimento os homens amaram como nunca tinham amado as suas amadas e estas conceberam filhos para que pudessem ver também o Ente dos entes, que prometeu voltar.
Houve paz temporária.

CONFISSÃO (1933)

Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável.
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus.
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.

PRIMEIRA PARTE DO MEU POEMA (1933)

Os gemidos das nossas mães se misturaram na noite.
— A tua te punha na vida para mim,
A minha me lançava no mundo para todas.
És porém a minha grande favorita!
Tudo o tenho tem um pouco de ti.
— Os meus filhos, por exemplo,
Que aliás são teus.

POEMA PARA ELA (1933)

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para eterna lembrança do maior amor.

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A poesia de Ismael Nery

Saindo um pouco da Pérsia e chegando ao Brasil da primeira metade do século XX, gostaria de tratar aqui no Escamandro da poesia de Ismael Nery, Murilo Mendes e Jorge de Lima que foram inspirados, em muitos de seus poemas que parecem seguir fielmente os preceitos surrealistas, pela filosofia essencialista formulada pelo próprio Ismael nos anos 20. Começo minha série sobre o assunto com um ensaio que escrevi para a revista pequena morte.

bernardo brandão

Ismael Nery, poeta essencialista

Ismael Nery foi um dos pintores mais singulares do Brasil dos anos 1920 e 1930. Fortemente influenciado pela arte de vanguarda da época — Picasso, Chagall, o surrealismo etc. —, teve uma carreira curta, morrendo aos 33 anos em 1934. Em vida, teve o talento reconhecido apenas no seu círculo de amizades, do qual faziam parte Murilo Mendes e Aníbal Machado. Foi apenas nos anos 1960 que a crítica descobriu seu trabalho, que teve a consagração definitiva em 1972, quando seu Auto-retrato, com o Pão de Açúcar e a Torre Eiffel ao fundo, alcançou em um leilão o maior preço até então pago por um quadro no Brasil.

Em Ismael Nery, poeta essencialista, artigo dedicado à “teoria da poesia segundo Ismael Nery”, Murilo Mendes resumia a fórmula poética do amigo: “sensibilidade micrométrica mais visão intemporal dos acontecimentos.” Para Nery, era necessário organizar a matéria poética obtida através dos sentidos pelo método essencialista, seu sistema filosófico, baseado na abstração do espaço e do tempo, o que possibilitaria a contemplação da totalidade e a realização de uma vida essencial, na qual o repulsivo à moral e o supérfluo seriam eliminados. Dessa forma, acreditava que, melhor que escrever poesia, era praticá-la. “A vida de Ismael Nery é o maior monumento de sua poesia.” [4]

Talvez seja por isso que Nery só tenha passado a escrever poemas nos últimos anos de vida, a partir de 1931. Antes disso, quando interpelado por Murilo Mendes sobre tal possibilidade, dizia que “não desejava ser poeta oficial”. [5] De fato, ele parece ter dado ainda menos importância à sua obra escrita que às suas pinturas. Eis o que diz José Fernando Carneiro, seu amigo e médico no Sanatório Correias, em carta dirigida a Antônio Bento:

Os poemas de Ismael, ele os escrevia em pedaços de papel, que depois a arrumadeira do sanatório recolhia e jogava no lixo. Ele jamais se preocupou em guardar qualquer poema que houvesse composto.

Essa indiferença de Ismael pela publicação de suas obras vinha da noção profunda de que não havia pressa em divulgá-las. Elas viriam a ser conhecidas, senão já, amanhã, ou seja, no dia do Juízo Final. O espaço entre o hoje e o amanhã do Juízo Final se lhe afigurava curto demais. Havia no Sanatório uma menina de 12 a 13 anos, que se chamava Adelaide. Era uma menina boa, simples e, por acaso, ficou hospitalizada num quarto próximo ao de Ismael. Ele então fazia poemas de brincadeira e dava-os a Adelaide, que depois os jogava fora. Interceptei alguns desses poemas, escritos – ora em português, ora em francês. Não tenho comigo o número de A ordem de 1935. Mas, se a memória não me falha; se a memória (que é um sentido conexo à imaginação) não distorceu os fatos, eu creio que os poemas publicados nessa revista foram exatamente esses que eu recolhi. [6]

Ismael Nery esteve internado no Sanatório Correias de 1931 a 1933. Foram justamente os três anos de sua produção poética. É provável que parte desta produção tenha sido perdida:

Os poemas de Ismael, ele os escrevia em pedaços de papel, que depois a arrumadeira do sanatório recolhia e jogava no lixo (o mesmo acontecia – acrescento eu – com os seus desenhos, que as empregadas domésticas também recolhiam, a pedido de Murilo Mendes). Ele jamais se preocupou em guardar qualquer poema que houvesse composto. [7]

Edições

Em parte pela despreocupação de Nery, seus poemas nunca chamaram a atenção. Apesar disso, sua poesia possui qualidade, tendo sido admirada por aqueles que a leram: Fernando Carneiro considerava “belíssimo” o poema Para ela, e Antônio Bento afirmou que “é realmente fantástica a atmosfera do Poema post-essencialista”. [8] Murilo Mendes, o amigo mais exaltado, considerava o Poema post-essencialista e O ente dos entes, “depois de os ter relido inúmeras vezes, extraordinários, com uma atmosfera única na poesia brasileira” [9], que os poemas Os filhos de DeusA virgem inútil e Eu comoveriam a todos por sua “complexa substância poética e pelas suas raízes biológicas” [10]. Ainda, já no fim de sua vida, no prefácio ao livro de Antônio Bento, Murilo escreveu: “além de quadros e desenhos, Ismael deixou também alguns textos escritos nos últimos anos: poesias, poemas em prosa. (Dois ao menos destes, Poema post-essencialista e O ente dos entes, devem ser inseridos entre os mais altos da espécie escritos no Brasil)”. [11]

A totalidade dos poemas de Ismael Nery que chegaram até nós foi publicada por Murilo Mendes nas revistas A ordem e Boletim de Ariel. Na edição de fevereiro de 1935 de A ordem, apareceram oPoema post-essencialista (escrito por Ismael em 1931), O ente dos entes (1933), a Oração (1933), Virgem inútil (1932), Poema(1933), Confissão (1933), A noiva do poeta (1932), Ismaela(1932), Primeira parte do meu poema (1933), Fragmentos do meu poema (1933). Na revista de março, Eu (1933), Confissão do poeta (1933), Poemas pré-essencialistas (1932), Manhã (1932),Poema (1932), A uma mulher (1932), Poema para ela (1933),Vontade de quem? (1933), Inércia (1932) e Poema (1931). NoBoletim de Ariel de junho de 1935 foram publicados Eu (1933), A uma mulher (1933), Poema (1933), A virgem imprudente (1932) eA virgem prudente (1932). Na edição de agosto de 1935, o poemaMusa decadente. Murilo Mendes ainda publicou seus dois poemas preferidos de Ismael, O Poema post-essencialista e O ente dos entes no suplemento Letras e artes do jornal A manhã de 20 de junho de 1948.

Manuel Bandeira também incluiu alguns poemas de Nery na suaColetânea de poetas bissextos contemporâneosOraçãoA virgem inútilConfissãoA noiva do poetaPrimeira parte do meu poema,PoemaPoema para ela e Vontade de quem? , coletânea que também incluía poemas de Afonso Arinos, Di Cavalcanti, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Pedro Nava e outros.

Em 1973, Antônio Bento incluiu os poemas OraçãoFragmentos do meu poemaPara elaInérciaA uma mulherPoemas pré-essencialistasA noiva do poetaPoema (1933) Fragmentos do meu poemaConfissãoPrimeira parte do meu poema e Eu no quinto capítulo de seu livro Ismael Nery. [12] Ali, também menciona as lembranças de Fernando Carneiro sobre o início e do fim do texto original em francês de Para ela (“Les temps sont finis” e “Pour l’eternel souvenir du plus grand amour”) e fragmentos de um poema que se perdeu, que também fora escrito em francês (apesar da citação feita em português):

Somos como dois líquidos jogados num mesmo vaso.
……………………………………………………………………
Eu era vermelho, tu eras branca.
Agora somos róseos, etc.

Os poemas foram ainda publicados em livros dedicados como Ismael Nery, 50 anos depois, editado por ocasião dos 50 anos da morte de Nery e Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito (no centenário do nascimento).

A poesia

Formalmente, a poesia de Nery é totalmente livre: alguns poemas em prosa, versos brancos, sem metrificação e imagens inusitadas de influência surrealista. Mas, antes de tudo, é uma experiência essencialista que deve transcender o espaço e o tempo e buscar a totalidade. Isso é bem claro nestes versos de Confissão:

… Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável,
Crescente…

O essencialismo também aparece no Poema post-essencialista(1931), que consiste em uma aplicação sistemática do método. A abstração do espaço é empregada já nas primeiras frases:

O silêncio provocou-me uma necessidade irreprimível de correr. Abalei como uma flecha através dos mares e montanhas com incrível facilidade e sem cansaço.

Por sua vez, a abstração do tempo é usada a partir do segundo parágrafo. No início dos tempos, apenas existe o poeta, que contempla o desenvolvimento da vida:

…Não há leões nem elefantes nos desertos da África. Não existem pirâmides nem a Torre Eiffel. Existe apenas eu mesmo, que me percebo inversamente por uma idéia que chamo mulher e que paira rarefeita sobre a superfície do globo – idéia incompreensível porque nada existe na terra além de mim mesmo. Volto a percorrer novamente o espaço, porém, desta vez, com a lentidão do crescimento das plantas, multiplicando-se progressivamente na minha idéia para mostrar-me a mim mesmo…

Em seguida, contempla a sua própria história de vida e o futuro, misturando realidade (o seu nascimento em Belém do Pará) e ficção:

…Aparecem leões e elefantes nos desertos da África. Construíram pirâmides no Egito e levantaram a Torre Eiffel, em Paris, no ano em que um outro eu nascia em Belém do Pará. Tudo se povoou transbordantemente. Acho-me agora sentado na prisão, olhando sereno através das grades, aguardando o julgamento do crime nefando que cometi de usar a mim mesmo na minha mãe, mulher, filha, neta, bisneta, tataraneta, nora e cunhada…

O poema termina de um modo enigmático, que só pode ser corretamente compreendido tendo-se em mente uma premissa fundamental do método essencialista: “deve o essencialista procurar manter-se na vida sempre como se fosse o centro dela, para que possa ter sempre a perfeita relação entre as idéias e fatos” [13]:

Nada existe, além de mim mesmo, senão para mim.
Silêncio.

Essa mesma centralidade necessária constitui um dos motivos de Eu (1933). Aqui, a idéia de um poeta essencialista, que contempla a totalidade e concilia os opostos se encontra em um crescendode grande força e expressividade:

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe e entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos,
Eu sou o marido e a mulher,
Eu sou um deus com princípio
Eu sou poeta!

Em Arte e artista, Ismael Nery diz que “a idéia justa das coisas só poderemos conseguir pelo método essencialista, que consiste em receber sem parti-pris todas as emoções que operem em nosso inconsciente e que se transformem em afinidades ou repulsas segundo a dose que temos de instinto de conservação, ponteiro da moral”. É necessário emoções variadas e opostas ao essencialista. Estas podem ser vividas concretamente ou apenas intelectualmente, retiradas do patrimônio “acumulado pelos homens de outras épocas”. [14]

A poesia, dessa forma, transforma-se em um campo privilegiado para a aplicação do método essencialista, pois é capaz de exprimir tais emoções de um modo preciso. É por isso que, entre tais poemas, encontramos representações de experiências interessantíssimas que não poderiam ter sido vividas por seu autor. Para Nery, como para Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”.

Em Confissão do poeta (1933), Nery fala de “sua esposa falecida”. Ora, Adalgisa Nery, sua verdadeira esposa, morreria mais de 30 anos depois dele. Mais do que uma confissão autobiográfica ou “cultivo do temperamento”, repudiado em Arte e artista, este poema é uma exploração de desejos intensos – um ciúme terrível, uma saudade mortal, o desejo de ser o outro ou o nada:

Eu tenho um ciúme terrível da minha sogra e do meu genro
E uma saudade mortal da minha esposa falecida.
Eu queria ter sido meu pai ou ser agora a minha nora.
Ou ter morrido como meu irmão…
No instante em que nasci.

Da mesma forma, em Ismaela (1932), o poeta fala sobre a sua irmã, que nunca existiu na realidade, mas que torna possível a exploração dos paradoxos do homem em face à alteridade feminina:

A minha irmã é minha edição feminina e meu castigo,
Dá a todos o que eu nunca de mulher alguma recebi.
Se eu não soubesse que sou também o seu castigo
Há muito tempo que eu seria fratricida ou suicida.

O tema da relação entre o homem e a mulher, sua complementaridade, tendência à união e os problemas que surgem pela distância entre o ideal e a realidade também aparece em A uma mulher (1932):

Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros… [15]

Por trás de todos os motivos que aparecem na poesia de Nery, o anseio que animou todos eles e lhes deu unidade foi o desejo pela totalidade, por “ser a sombra de tudo e de todos, a fim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos” [16]. Esse desejo, que mediado pelo essencialismo não se conformava “nem com o espaço nem com o tempo/ Nem com o limite de coisa alguma” [17] deu origem a “uma preocupação constante com o essencial, o absoluto e a unidade” [18], o que, para seus amigos, era a grande marca do artista.

NOTAS

[1] MENDES, M. Recordações de Ismael Nery. São Paulo: Edusp, 1996, p. 29.
[2] Ibid. 
[3] MENDES, M. “Ismael Nery, poeta essencialista”. Boletim de Ariel, ano III, n. 10, julho de 1934.
[4] Ibid.
[5] MENDES, 1996, p. 29.
[6] BENTO, A. Ismael Nery. São Paulo: Brunner, 1973, p. 35.
[7] Ibid.
[8] Ibid., p. 36.
[9] MENDES, 1996, p. 30.
[10] MENDES, 1935
[11] BENTO, 1973, p. 8.
[12] BENTO, 1973, p. 34-40
[13] MENDES, 1996, p. 52.
[14] Ibid., p. 51.
[15] Trecho inicial de A uma mulher.
[16] Poema (1933).
[17] Confissão (1933).
[18] BURLAMAQUI, J. “Abstração do espaço e do tempo”. A ordem, fev./março de 1934.

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