poesia, tradução

a poema, a línguagem, a tradução

alejandra-pizarnik-dibujo1

[desenho de alejaandra pizarnik, em seu diário]

em lugar de prefácio

invento palavras pra dizer o poema
palavras linhas palavras flechas rumo ao alvo
o contra-alvo um crivo palavras-água
transbordamento e forma
invento palavras que de-sabem a forma
palavras acesso pra o poema
pra amor o pasme a imobilidade a morte
enfim
acesso
e o poema acontece diante os olhos os ossos
abro possibilidades diante o poema
como quem escava e escava uma cidade
qualquer buenos aires ova morada um rastro gases em auschwitz
e digo mãe soldado lavadeira poeta fantasma

penso —
“uma língua diz tanto pelo que diz quanto pelo que cala, não é possível interpretar seu silêncio”
para traduzir:
fracasso
tal como a poesia a usar coisas e objetos da realidade objetiva
uma dobra na linguagem y sua articulação
uma escrita outra que só funciona
na linguagem como a metáfora que é dispersão desvio
desequilíbrios no poema que dão formas de se mover
cisão entre o que aparece e não aparece corte
na cadeia significante que rompe sentidos para abrir
outros y otros
ouço o que manca o que gagueja
ouço aquele momento da falha
uma linguagem tradução sem formas uma fala de loucos
digo não digo ainda
a língua monumento que com o uso cotidiano se cobre de limo e lodo
tento como a poema
polir a palavra língua alcançar a poema
dizer um dizer um inaugural devir-poema
desde o agora pra o eterno
uma tradução que só se concretiza quando lida
uma tradução ao limite do pensamento-poesia
rio a tradução a linguagem
pode fazer isso a linguagem não-lugar onde tudo é possível
traduzir o impossível
brincar de
o que não há na aparência mas há não
está próximo mas está
entre o que é e não é
uma tradução quer e não quer
– ‘querer e não querer é sempre a mesma coisa –
ser concretizada

ouça:
uma tradução quer te levar
não é chegada
um entre-lugar
“vizinha súbita das coisas não semelhantes”
quer rasurar uma certeza qualquer
certeza encontrar emoção no ritmo
encontrar mil traduções
nenhuma poderá ser inferior

ouça:
encontre sua maneira diferente e única de ler o poema
a tradução que quer gaguejar

penso no inconveniente de comer goiabas
traduzir:
o mesmo de se ter os dentes quebrados
nenhum equilíbrio, ó! a gota que treme na folha e cai
despenca pra o nada
e

[nina rizzi, em alguma dissertação à beira do silêncio]

§

 

Nesta noite, neste mundo

A Martha Isabel Moia

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morta
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castramento
a língua é um orgão de conhecimento
do fracasso de todo poema
castrado por sua própria língua
que é o orgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não o da res-surreição
de algum modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

no
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água beberei?
se digo pão comerei?
nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que acontece com a alma é o que não se vê
o que acontece com a mente é o que não se vê
o que acontece com o espírito é o que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
eu corri todos
oh fica um pouco mais entre nós!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem tem uma faca alçada na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais entre nós!

as deficiências das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fez do dom do sexo?
oh meus mortos
os comi e me engasguei
não posso mais com não poder

palavras abafadas
tudo se desliza
até à negra liquefação

e o cachorro de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh me ajuda a escrever o poema mais prescindível

o que não sirva nem para
se inservível

me ajuda a escrever palavras
nesta noite neste mundo

[tradução de nina rizzi] 

 

En esta noche, en este mundo

A Martha Isabel Moia

en esta noche en este mundo 
las palabras del sueño de la infancia de la muerta 
nunca es eso lo que uno quiere decir 
la lengua natal castra 
la lengua es un órgano de conocimiento 
del fracaso de todo poema 
castrado por su propia lengua 
que es el órgano de la re-creación 
del re-conocimiento 
pero no el de la re-surrección 
de algo a modo de negación 
de mi horizonte de maldoror con su perro 
y nada es promesa 
entre lo decible 
que equivale a mentir 
(todo lo que se puede decir es mentira) 
el resto es silencio 
sólo que el silencio no existe

no 
las palabras 
no hacen el amor 
hacen la ausencia 
si digo agua ¿beberé? 
si digo pan ¿comeré? 
en esta noche en este mundo 
extraordinario silencio el de esta noche 
lo que pasa con el alma es que no se ve 
lo que pasa con la mente es que no se ve 
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades? 
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he corrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo
lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre las piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder

palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra licuefacción

y el perro del maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema

hablo
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible

el que no sirva ni para
ser inservible

ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo

[Alejandra Pizarnik,  «Árbol de Fuego», Caracas, dezembro de 1971]

§

[sem título]

a língua do poema
é outra língua
não necessita de tradução
a língua do poema
idioma sem
possibilidade de decifração
matemática
arquitetura
música
liame que ata palavras e sons
e o ritmo do sangue
do próprio sangue
a língua do poema
é outra língua
vallejo me Isten
é outra língua
não necessita de tradução
vallejo me Isten
não necessita de tradução
vallejo me Isten

esta ranhura
não necessita
de tradução
a língua do poema é outra língua.

[para a conversa às pressas com Mara e Mila, e Vallejo na boca de Granados. é outra língua]

  • micheliny verunschk, recolhido no facebook

***

 

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uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

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2 poemas inéditos de Nina Rizzi

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Nina Rizzi (SP, 1983), historiadora, tradutora e poeta, vive atualmente em Fortaleza/ CE (Brasil). Tem poemas, textos e traduções publicados em diversas revistas, jornais, suplementos e antologias. Autora de tambores pra n’zinga (poesia, Orpheu/ Ed. Multifoco, 2012), caderno-goiabada (prosa ensaística, Edições Ellenismos, 2013), Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução, Edições Ellenismos, 2013), A Duração do Deserto (poesia, Ed. Patuá, 2014),  Romério Rômulo: ¡Ah, si yo fuera Maradona! (versão em espanhol), geografia dos ossos (poesia, Douda Correria, Portugal). Edita a Revista Ellenismos – Diálogos com a Arte, e escreve seus textos literários no quandos. Os poemas abaixo são de seu livro inédito “ainda te esqueço”.

* * *

em lugar de desenho,

três gatos pintados me olham da sala
essa menina tá dançada
tanto sol tanta praia a coluna ereta e nada

umas unhas pintadas de azul
um nome tingido de encarnado
o buraco negro na parede fora de órbita

olho os gatos pintados
e meus músculos brincam
de fazer casinhas indianas
meus olhos brincam de ficar estáticos

até que os dentes se cruzam no absurdo
numa dentada de tigre que não se vê
que espreita espreita pronto prontinho a atacar

fico com um nome um nome seu
a estalar nos dentes
‘linha metafísica dos ossos’

o nome estala junto de um mar
que invento no riso e rio pra os gatos
os dedos em figa pra garramento nos ossos

cada um dos seus ossos
são bons os seus ossos penso-
os escondidos por trás dos pelos
da camisa tão inútil e freak

os dias estão quentes daqui
e esses ossos me atravessam como
o nome antes como palavras tão bem
arranjadas a meter essa coisa nos dentes

eu revejo fotos procurando os ossos
por trás da câmera e eu não vejo
mais que um poema

este poema que profanasse o tempo
a metafísica vinteminutos e que se abre
a um desejo tão puro de pegar
cada um desses ossos tão bons

dos ossos sei dos dedos que me segura
a clavícula quer dizer eu sei dos meus ossos
que estalam com o toque tão sutil
e ingênuo do poema que se abre na manhã

rio olhando os gatos e assim
tão paradinhos gatinhos pintados
eles me lambem a linha do joelho

ainda que não haja gatos
seguro forte essa linha que captura o nome
um mesmo osso e nome m.

[e não desenho]

§

suíte buendía

«Whan that Aprille with his shoures soote
The droghte of March hath perced to the roote …» – Chaucer

o espanto longe
pedra abaixo

porisso estou
sem memória

a olhar as vacas
que te distraem

uma folha
que dá sombra

aos teus olhos
tão lindos

tão longes
o ar que busco

lume do teu sangue
em minha boca

teu nome
próprio e verbo

a derradeira palavra

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jacobo fijman, por nina rizzi

fijman

 

James/Jacobo Fijman (Orhei, Bessarábia, atual Moldova, 25 de janeiro de 1898 – Buenos Aires, 1970). De família judia-russa, mudou para Argentina aos seis anos. Fez parte da avant-garde literária de Martín Fierro, que também estava ligada a Jorge Luis Borges e Oliver Girondo. Além de poeta, foi ensaísta, tradutor, violinista e pintor; desenvolveu vários trabalhos irregulares, e a partir de 1921 começou a sofrer ‘colapsos mentais’, adepto do misticismo, se converteu ao catolicismo em 1930, e colaborou em diversas revistas religiosas antes de ser internado definitivamente com atestado de psicose delirante em 1942, até morrer em 1970 praticamente abandonado. Publicou: Molino Rojo (1926), Hecho de estampas (1930), Estrella de la mañana (1931) e San Julián el pobre (relatos, publicado postumamente em 1985).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente. A tradução é de Nina Rizzi.

Nina Rizzi (SP, 1983), escritora historiadora e tradutora. Tem textos, traduções e poemas em diversas antologias, revistas e suplementos; publicou tambores pra n’zinga (poesia; Multifoco/ Orpheu, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística; Edições Ellenismos); Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução; Edições Ellenismos, 2013) e A Duração do Deserto (poesia; Patuá, 2014).

PS: a Nina já apareceu aqui no blogue anteriormente, com poemas próprios e tradução.

escamandro

 

POEMA VI

Minha voz caiu, minha última voz, que ainda guarda meu nome.
Minha voz:
Pequena linha, pequena canção que nos separa das coisas.

Estamos distantes de minha voz e do mundo, vestidos de umidades brancas.
Estamos no mundo com os olhos na noite.
Minha voz fria e suja como a pele dos mortos.

 

POEMA VI

Ha caído mi voz, mi última voz, que aún guarda mi nombre.
Mi voz:
pequeña líneas, pequeña canción que nos separa de las cosas.

Estamos lejos de mi voz y el mundo, vestidos de humedades blancas.
Estamos en el mundo y con los ojos en la noche.
Mi voz fría y sucia como la piel de los muertos.

(poema de Jacobo Fijman, tradução de Nina Rizzi)

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nina rizzi (1983)

Nina Rizzi1

nina rizzi nasceu em sampa, 1983, é formada em artes dramáticas pela usp e em história pela unesp. mora na beleza que é fortaleza, onde edita a revista ellenismos – diálogos com a arte, além de tocar seu blog pessoal. já publicou poemas, textos, ensaios & traduções em diversas revistas, em especial o conto “anos” de cesare pavese, que saiu aqui no escamandro faz pouco tempo. em 2012, lançou tambores pra n’zinga & agora prepara uma tradução completa da poesia da argentina alejandra pizarnik & 2 livros novos: um de poesia, outro de contos. logo abaixo, vão 2 poemas com tradução & recriação visual, tudo por conta dela. o poema “terceiro estudo pra o desapego” já apareceu publicado dentro da uma série, que vocês podem conferir aqui, ó: desenredo.

só queria finalizar – como sempre na brevidade – dizendo que reparem, reparem, reparem (!) na delicadeza dos textos. num tempo de poemas onde tudo parece querer explosão, pirotecnia, ou deriva sem retorno, estas poesias da nina rizzi corre no mínimo, mas sem cerebralismo algum – pedra de toque.

una scartola di sette o cinquanta sterline

ela me pede pra lhe dizer uma coisa bonita.

tento lembrar que não resta bondade
além das impolutas flores

amarelas.

ecoam em seus pedidos latidos de cãs,

um ato de contrição

"una scatola di sete o cinquanta sterline", imagem & poema de nina rizzi

“una scatola di sete o cinquanta sterline”, imagem & poema de nina rizzi

*

terceiro estudo pra o desapego

não esvaziarei a caçarola da torta
vegana que cospe. a parte
que me cabe na festa de recaritó
serão os doces mais doces, como
você gosta e eu não sabia e eu não sabia
fazer. ficará sobre o fogão, leve
quando vier buscar meus olhos.

"terceiro estudo pra o desapego", imagem & poema de nina rizzi

“terceiro estudo pra o desapego”, imagem & poema de nina rizzi

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tradução

“anos”, de cesare pavese

em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto – eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo – apresentado & traduzido pela poeta & editora nina rizzi (aguardem alguns poemas dela aqui, meus caros).

guilherme gontijo flores

AVE CESARE! UM ESCRITOR SOFRIDO

por Nina Rizzi

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo.

Escritor de vasta obra em prosa e verso, Pavese completaria hoje 105 anos. Quando publicou seu livro mais famoso Lavorare Stanca/ Trabalhar Cansa, já era reconhecido, tanto por sua literatura quanto por seus estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea (reunidos num volume La letteratura americana e altri saggi, publicado postumamente em 1951), e por suas traduções de Daniel Defoe (Moll Flanders), Charles Dickens, Herman Melville (Moby Dick e Benito Cereno), James Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, e Gertrude Stein.

Pavese foi uma alma atormentada e nada, ou muito pouco, feliz em sua vida amorosa. Criou uma obra impressionante em que vivem — sim, em sua escrita tudo está vivo, morre, e pronto a ressuscitar — demônios interiores e exteriores que o assolaram física, moral e mentalmente. Sua literatura está repleta de reflexões sobre a solidão, família, sexo, amor e, sobretudo, a morte.

Além de sua poesia, em especial seu mais famoso título “Verrà la morte e avrà i tuoi occhi/ Virá a morte e terá seus olhos” (escrito pouco antes de ele morrer), seu diário revela o lado trágico da vida a que perseguiu: “o suicídio é um homicídio tímido”. Suas últimas palavras foram à imprensa italiana: “Sem mais palavras, só um gesto. Nunca voltarei a escrever”.

Suicidou-se aos 41 anos em 1950, em um hotel de Turim, sua cidade natal e literária. Essa morte tão jovem sempre foi creditada à solidão amorosa que sentia, mas pensamos que esta estava aliada também aos acontecimentos políticos de seu país – lembremos que sua obra foi escrita entre a 2ª Guerra mundial e a Guerra Fria e que ficou preso por um ano em Brancaleone.

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

ANOS

Do que eu era então não resta nada: apenas homem, era ainda um menino. Eu sabia há muito tempo, mas tudo aconteceu no final do inverno, uma tarde e uma manhã. Vivíamos juntos, quase escondidos, em uma casa que dava para uma avenida. Silvia me disse naquela noite que eu tinha que ir, ou ela iria: já não tínhamos nada que fazer juntos. Supliquei que deixasse que tentássemos de novo, estava deitado ao seu lado e a abraçava. Ela me disse:

– Para quê? – Falávamos com a voz baixa, às escuras.

Logo Silvia dormiu e eu fiquei até de manhã com um joelho colado ao seu. A manhã apareceu como sempre havia aparecido e fazia muito frio; Silvia tinha o cabelo sobre os olhos e não se movia. Na penumbra eu olhava passar o tempo, sabia que passava e corria e que lá fora havia névoa. Todo o tempo que havia vivido com Silvia naquele quarto era como um só dia e uma noite, que agora terminava pela manhã. Então compreendi que nunca voltaria a sair comigo por entre a névoa fresca.

Era melhor que me vestisse e partisse sem despertá-la. Mas agora tinha uma coisa em mente para lhe perguntar. Esperei, tentando adormecer.

Quando despertou, Silvia me sorriu. Seguimos conversando. Ela disse:

– É bonito ser sincero, como nós.

– Oh, Silvia! – sussurrei -, que farei ao sair daqui? Para onde irei?

Era isto que tinha para lhe perguntar. Sem tirar a nuca do travesseiro, ela sorriu de novo, beatífica:

– Bobo – disse – irá para onde quiser. Não é fabuloso ser livre? Conhecerá muitas garotas, fará todas as coisas que quiser. Palavra que te invejo!

Agora a manhã enchia o quarto e só havia um pouco de calor na cama. Silvia esperava paciente.

– Você é como uma prostituta – disse a ela – e sempre foi.

Silvia não abriu os olhos.

– Sente-se melhor por me dizer isto? – me disse.

Então fiquei ali como se ela não estivesse, olhava o teto e chorava sem ruído. As lágrimas me enchiam os olhos e corriam sobre a almofada. Não valia a pena que notasse. Muito tempo passou, e agora sei que aquelas lágrimas mudas foram a única coisa de homem que fiz com Silvia; sei que chorava não por ela, senão porque havia entrevisto meu destino. Do que eu era então não restou nada. Apenas que havia compreendido quem seria no futuro.

Depois Silvia me disse:

– Já basta. Tenho que me levantar.

Levantamo-nos juntos, os dois. Não a vi se vestir. Fiquei logo de pé, na janela; e olhava vislumbrando as plantas. Detrás da névoa estava o sol, o sol que tantas vezes havia entibiado o quarto. Também Silvia se vestiu rápido, e me perguntou se não levaria minhas coisas. Disse que primeiro queria esquentar o café, e acendi o fornilho.

Silvia, sentada na borda da cama, começou a fazer as unhas. No passado sempre as fez na mesa. Parecia absorta e o cabelo lhe caía continuamente sobre os olhos. Então sacudia a cabeça e se liberava. Eu perambulei pelo quarto e recolhi minhas coisas. Fiz um amontoado sobre uma cadeira e de repente Silvia levantou e correu para apagar o café que derramava.

Depois peguei a maleta e coloquei as coisas. Enquanto isso, por dentro me esforçava em recolher todas as recordações desagradáveis que tinha de Silvia: suas futilidades, seus mal-humores, suas frases irritantes, suas rugas. Isso me levava de seu quarto. O que deixava era uma névoa.

Quando terminei, o café estava pronto. O tomamos em pé, junto do fornilho. Silvia disse algo, que neste dia iria ver um sujeito, para falar de um assunto. Pouco depois deixei a xícara e parti com a maleta. Lá fora a névoa e sol cegavam.

(Cesare Pavese, trad. de Nina Rizzi)

***

GLI ANNI

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo. Lo sapevo da un pezzo, ma tutto avvenne alla fine dell’inverno, una sera e un mattino. Stavamo insieme, quasi nascosti, in una stanza che dava su un viale. Silvia mi disse, quella notte, che dovevo andarmene, o andarsene lei -non avevamo più niente da fare insieme. La supplicai di lasciare che provassimo ancora; ero disteso al suo fianco e l’abbracciavo. Lei mi disse:

– A che scopo? – Parlavamo a voce bassa, nel buio.

Poi Silvia s’addormentò, e io tenni sino al mattino un ginocchio contro il suo. Comparve il mattino com’era sempre comparso, e faceva molto freddo; Silvia aveva i capelli negli occhi e non si muoveva. Nella penombra io guardavo il tempo passare, sapevo che passava e correva, e che fuori c’era la nebbia. Tutto il tempo che ero stato con Silvia in quella stanza, era come una sola giornata e una notte, che adesso finiva al mattino. Allora capii che non sarebbe mai piu’ uscita con me nella nebbia fresca.
Era meglio se mi vestivo e me ne andavo senza svegliarla. Ma adesso avevo in mente ancora una cosa da chiederle. Aspettai, cercando di assopirmi.

Quando fu sveglia, Silvia mi fece un sorriso. Riprendemmo a parlare.
Lei disse:

– E’ bello essere sinceri come noi.

– Oh Silvia, – bisbigliai, – che cosa farò uscendo di qui? dove andrò? – Era questo che avevo da chiederle.

Senza staccar la nuca dal cuscino, lei sorrise di nuovo, beatamente.

– Sciocco, – disse, – andrai dove vuoi. Non è bello esser liberi? Conoscerai tante ragazze, farai tutte le cose che vuoi. Parola, che t’invidio.

Adesso il mattino riempiva la stanza e non c’era un po’ di calore che
nel letto. Silvia aspettava paziente.

– Tu sei come una prostituta, – le dissi, – e lo sei sempre stata.

Silvia non aprì gli occhi.

– Ora che lo hai detto stai meglio? – mi disse.

Allora me ne stetti come se lei non ci fosse, e guardavo il soffitto e piangevo senza rumore. Le lacrime mi riempivano gli occhi e colavano sul guanciale. Non valeva la pena di farmene accorgere. Tanto tempo è passato, e adesso so che quelle lacrime mute furon l’unica cosa da uomo che feci con Silvia; so che piangevo non per lei ma perchè avevo intravisto il mio destino. Di quel che ero allora non resta piu’ niente. Resta soltanto Che avevo capito chi sarei stato in avvenire.

Poi Silvia mi disse:

– Adesso basta. Devo alzarmi.

Ci alzammo insieme, tutt’e due. Non la vidi vestirsi. Fui presto in piedi, alla finestra, e guardavo le piante trasparire. Dietro la nebbia c’era il sole, il sole che tante volte aveva intiepidito la stanza. Anche Silvia fu presto vestita, e mi chiese se non portavo con me la mia roba. Le dissi che prima volevo scaldarmi il caffè, e accesi il fornello.

Silvia, seduta alla sponda del letto, si mise a rifarsi le unghie. In passato se l’era sempre rifatte al tavolino. Sembrava soprapensiero e i capelli le cadevano continuamente negli occhi. Allora dava scosse con La testa e si liberava. Io girai per la stanza e raccolsi la roba. Ne feci um mucchio su una sedia e a un tratto Silvia saltò in piedi e corse a spegnere il caffè che versava.

Poi tirai la valigia e ci misi la roba. Intanto, dentro mi sforzavo di raccogliere tutti i ricordi spiacevoli che avevo di Silvia – le futilità, i malumori, le parole irritanti, le rughe. Questo portavo via dalla sua stanza. Quel che lasciavo era una nebbia.

Quande’ebbi finito era pronto il caffè. Lo prendemmo in piedi, accanto al fornello. Silvia disse qualcosa, che quel giorno sarebbe andata da um tale, a parlare di una faccenda. Poco dopo, deposi la tazza e me ne andai con la  valigia. Fuori la nebbia e il sole accecavano.

Cesare_Pavese_Signature

IN: PAVESE, Cesare. Racconti (fragmentos de histórias e contos inéditos, seguidos de Notte di festa e Feria d’agosto). Raccolta póstuma. Torino: Einaudi, 1960.

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