entrevista

Entrevista com Pádua Fernandes

 

unnamed

Dwayne “The Rock” Johnson no programa The Tonight Show Starring Jimmy Fallon. | Montagem de Ari Felipe Miaciro.

para ler as outras entrevistas do site clique aqui.

* * *

 

SM – Quando do meu primeiro contato com a sua obra, através de Código negro, um professor-amigo me disse que sua obra era uma obra política. Em primeiro lugar, quero saber se você concorda com isso: você acha sua obra política? Se sim, o que há de político, para você, em escrever e ler poesia?

PF – É possível que sempre se possa ver uma obra literária a partir de um ponto de vista político; ademais, há tantos desses pontos de vista, e tantos referenciais teóricos diferentes sobre a política. Mas você perguntou algo diferente, se eu considero minha obra política; raramente penso em termos de “minha obra” (na verdade, até esqueço o que já fiz). Já que você perguntou a partir do Código negro, que foi um livro que consegui publicar há poucos anos, uma década depois de escrito, tento pensar a partir dele. Trata-se, evidentemente, de um livro de amor. Porém, há livros com essa temática em que se nota que o poeta não tem consciência do espaço público e das relações de poder nesse espaço e na família. Essas coisas estão nesse livro, e lembro que um daqueles poemas de amor tem como título “Reforma urbana”, um assunto que é importante para mim também no campo do direito urbano. Nesse sentido, creio que talvez mais do que nos outros livros, que tem temáticas mais comuns para o que se chama de poesia política, o Código negro demonstre que eu tendo a compreender politicamente o mundo e a literatura. A poesia pode trazer um projeto de reformar a cidade? Creio que sim, e a leitura que faço de outros poetas em geral passa pelas questões de criação, debate e decisão sobre o que é comum, ou seja, o político.

SM – Eu tenho feito essa pergunta a todos os entrevistados. Portanto, Pádua, o que é poesia pra você?

PF – Esta forma de conhecimento a que Murilo Mendes se referiu no Poliedro:

A Górgone apresentou-me a tripleface. “Conheço-a de vista e de ouvido”, respondi rangendo os dentes.

SM – O Ismar Tirelli Neto fez, recentemente, uma pergunta que me parece fundamental: O que você espera de um poema? Pensando nesses modos de leitura da poesia que você acabou de nomear, algo que poderia criar(-se) a partir do caos, a partir do horror, repito a pergunta aqui a você e ainda a faço, novamente, com uma leve modificação: O que você espera de um poema escrito agora?

PF – Talvez seja, de fato, uma questão fundamental, mas acho que nunca me pergunto sobre isso. Em geral, creio que vou bem desarmado para uma leitura, no sentido de que não espero que um poema adote um certo programa ético ou estético, tampouco exijo determinada forma, já que há tantos diferentes mundos dentro da poesia, e esperar algo determinado bem pode configurar uma recusa daquilo que não se espera e que talvez seja o mais interessante que a poesia possa fazer. Por isso, em respeito ao inesperado, posso responder que espero que um poema faça diferença. É o que espero de poemas de qualquer tempo. Dizendo isso, acabei por me lembrar do Pound, da referência à literatura como “news that stays news”.

SM – Eu tenho pedido aos poetas que tenho entrevistado para falarem um pouco sobre a produção da poesia que lhes é contemporânea, ou seja, para que eles digam como veem a produção de seus pares. Como você vê, portanto, a atual produção da poesia no Brasil?

PF – Em uma enquete como esta sobre poesia contemporânea brasileira, creio que a pergunta deveria realmente aparecer. Prefiro imaginar que leio uma produção de ímpares. Talvez a forma como eu veja (creio que sua pergunta inflaciona o que fiz, pois penso que nunca cheguei a configurar uma forma própria) a produção daquela poesia apareça nos textos que escrevi sobre, entre outros (tento listar os últimos sobre que escrevi), Adriano Scandolara, Alberto Pucheu, Alexandre Rodrigues da Costa, André Dahmer, Angélica Freitas, Annita Costa Malufe, Dennis Radünz, Dimitri BR, Donizete Galvão (prematura e recentemente falecido), Eduardo Jorge, Eduardo Sterzi, Fabio Weintraub, Francisco Maciel, Guilherme Gontijo Flores, Josoaldo Lima Rêgo, Leandro Rafael Perez, Leonardo Gandolfi, Marcelo Ariel, Marília Garcia, Nuno Ramos, Paloma Vidal, Paulo Ferraz, Renan Nuernberger, Reuben da Rocha, Ricardo Domeneck, Ricardo Rizzo, Zeh Gustavo, Zulmira Ribeiro Tavares e até de Sergio Maciel, bem como os poetastros Garotinho e José Sarney. Também entrevistei Sérgio Alcides. Escrevi uma nota sobre poesia e golpe para a Cão celeste em que aparecerão mais dois autores, além de mais uma mirada sobre a poesia de Alberto Pucheu, que acho muito marcante com seus desguarnecimentos de fronteira entre verso e prosa, poesia e ensaio, palavra e inarticulado, o individual e o comunitário. No entanto, o poeta contemporâneo do continente que acho mais interessante é um argentino, Julián Axat, e, quanto aos da língua portuguesa, creio que o mais notável é o português Alberto Pimenta. Creio realmente que se trata de ímpares entre si. No entanto, nesse recorte tão parcial (ainda não consegui sentar para escrever, por exemplo, algumas ideias sobre Sérgio Medeiros, Bruna Beber e Ricardo Aleixo), é possível ver algumas linhas de força que perpassam alguns deles. Em 2016, escrevi um artigo sobre a poesia contemporânea brasileira e a perda da terra, e que saiu na Cão celeste número 10, sobre nove dos poetas que mencionei, e, depois, ampliado, com onze deles, para uma coletânea de ensaios ainda inédita a que Gustavo Silveira Ribeiro me convidou. Quis ver como o tópos da perda da terra aparece naqueles autores, seja na figura dos sem-teto, dos sem-cidade, sem-aldeia, sem-floresta e sem-planeta, o que acho muito importante neste momento em que estamos cada vez mais sem-país. No entanto, há também autores, muitos deles jovens, que estão jogando do outro lado, isto é, o dos saqueadores, que roubam teto, cidade, aldeia, floresta e planeta, e se comportam como subjetividades de rede social, isto é, como mercadorias que anunciam a si mesmas incessantemente, seguindo fielmente o modo de produção da devastação. Ouvi, recentemente, alguém naquela cidade onde foi plenamente exitoso o projeto de país gestado pelo neoescravismoteologicoliberal, o Rio de Janeiro, perguntar sobre poesia: “mas o que não é marketing?” Eu respondo que, se é marketing, não é poesia. Daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe, em que uma subjetividade plena apenas de seu valor de troca expõe-se para ganhar likes, gerando textos que chamam emojis para si, mais nada. Nada disso resistirá como literatura, pois esse pessoal não critica o modo de produção dessas subjetividades, mas é interessante registrar essa moda que aconteceu neste momento histórico.

SM – Curioso que você, não sei se sem querer, acabou fornecendo múltiplas respostas para a segunda pergunta que lhe fiz, aquela sobre o que é poesia. Assinalou, retomando Pound, que ela mantém o novo sempre novo e que é também uma forma de crítica da subjetividade. Quero focar, entretanto, num trecho da sua resposta, quando você diz que “daí surge uma produção poetizante sem nenhum interesse formal, em geral informe”. Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, e pensando nessa produção que você menciona, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

PF – Não vou ocupar o lugar mítico do profeta que aponta aos outros o que devem fazer, que é o que certos críticos fazem, irrefletidamente, a partir de uma reprodução automática dos clichês do seu papel no sistema literário, ou, simplesmente, de uma vontade de prestígio. Cada poeta deve dar sua resposta, até porque uma resposta única seria fatalmente etnocêntrica, tendo em vista os papéis diferentes que as várias categorias de poetas exercem em sociedades diversas, e em algumas ele terá um papel social muito importante de animar os símbolos da comunidade.Talvez sua pergunta parta de uma certa mistificação do risco de escrever poesia, pois ele não é geral: nem todo mundo está na posição de Mandelstam. Eu não estou nessa posição, mas sei que muitos escritores no mundo estejam sob o risco da censura, processos judiciais, tortura e execuções sumárias. Desde sempre, aliás, veja-se Ovídio. O número de poetas exilados na atualidade ainda não foi calculado, creio, seja dos que continuam banidos, seja dos que conseguiram voltar após uma revolução, como Alberto Pimenta. E há também o chamado exílio interno. Ademais, relativizando o “risco de escrever poesia”, tanta coisa é arriscada; para certos grupos sociais, até dormir é perigoso: para os sem-teto em cidades como São Paulo, é mais seguro dormir de dia, a noite é mais propícia aos ataques. Outros diriam: a noite é propícia para a poesia… Em relação à minha resposta sobre a “tarefa”, cabe aos críticos tentar descobri-la; eu apenas procuro. E leio o que outros tentaram responder. Lispector aconselhou o silêncio, bem sei, mas a poesia toda hora envolve como dizê-lo, assim como a música. Eu gosto da resposta de Nâzim Hikmet em “Meus irmãos”: “É preciso atrelar nossos poemas/ à charrua do boi magro/ É preciso que este se enterre até aos joelhos/ Na vasa dos arrozais/ […]/ É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos/ Balizem as estradas/ É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário/ É preciso que batam tambor na selva” (tradução de Rui Caeiro, na edição da &etc de Poemas da prisão e do exílio). Não considero, porém, que todo poeta tenha que adotar esse tipo de compromisso, explicitamente político. Respeito a grande poesia lírica, o que não é o caso das anotações poetizantes a que me referi na outra questão da enquete.

SM – Quero pedir licença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

PF – Qual é a coisa mais importante do mundo? Terminar bem. Como o fim do Moses und Aron, de Schönberg. O compositor tinha escrito o libreto do terceiro ato, mas nunca logrou escrever-lhe a música. A obra forçou-o a terminar após a frase “Tu, palavra, que me falta”. Sempre faltará, mas devemos terminar mesmo assim. Em uma transmissão ao vivo em cinemas de uma apresentação da Lucia di Lammermoor, de Donizetti, Renée Fleming, que era a entrevistadora naquele dia, perguntou à protagonista, Natalie Dessay, por que ela tinha mudado a cadência na cena de loucura, em relação a uma outra apresentação. Dessay respondeu que nem queria se lembrar do que havia feito em outra récita, o que é uma ética artística, e disse que cantava sempre como se estivesse interpretando o papel pela última vez, “porque nunca se sabe realmente”. Também concordo com isso. Mas, para terminar bem, é necessário saber começar. Meu fim está em meu começo. E vice-versa.

Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? Depende da pessoa. Mas desconfiar do indivíduo é uma boa sugestão. Afinal, somos feitos por tantos e de tantos.

E o que é amor? Permito-me citar um poema de O palco e o mundo, que aborda o assunto:

– explique-me as duas overdoses, os três assaltos, as chantagens dos policiais, os setenta garotos de programa por mês, a cicatriz no umbigo; as seringas descartáveis reutilizadas e o sêmen idem; todo o pandemônio de metais através da língua, do nariz, dos mamilos e genitais (são armas em que guerra?); as inscrições e imagens no peito, na bunda, no dorso e nos membros (imagens de que deus?); os vinte quilos de calda de chocolate e as pernas de sapo; por que as luvas cirúrgicas e os anéis denteados (que corpo deseja extirpar-se de si mesmo?)
– porque tenho direito ao amor
– solte-me das correntes, qual o porquê
– porque o amor liberta

Anúncios
Padrão
crítica, xanto

XANTO| A falha que te torna em ti mesmo: “Tresmalhado”, de Jorge Roque, por Pádua Fernandes

O último livro de Jorge Roque, Tresmalhado (Lisboa: Averno, 2016), mantém a forma do poema em prosa que caracteriza o autor, com o mesmo tipo de sujeito que observa a si mesmo ou aos outros com um tom amargo, na poética descrita em “Som rouco”, de Broto sofro (Lisboa: Averno, 2008, com pinturas de Guilherme Faria): “Ouviu um som rouco que lhe saiu da garganta, espécie de ronco de animal ferido. […] Desligou a música, abriu o caderno, e segurando o lápis, começou a escrever o som medonho que ouviu.”

Tresmalhado confirma também o intercâmbio de imagens entre vidas animais humanas e não humanas. Um animal capturado pode, com empenho e sorte, tresmalhar-se; o homem, se se reconhecer animal, pode fazer o mesmo e escapar? Não neste livro, onde os seres vivos estão cativos:

Não, por este andar não vou lá. E não vejo que outras pernas possa ter, nem que outro chão possa pisar. A cerca está erguida, o animal encurralado. Um quadrado perfeito, traçado a régua e esquadro, as estacas cravadas a intervalos regulares, a rede de malha estreita, devidamente presa e esticada, rigoroso ministério de quem sabe o que faz, sabe o que quer, não admite a falha.

O trecho vem do poema “Ida e volta”, um dos mais irônicos do livro, que trata dos escritores e do sistema literário, ou seja, de bestas que amam o cativeiro. Jorge Roque não dispensa esse tipo de imagem apenas a essa categoria, no entanto, ela é mais abrangente: “rendo-me à evidência, o estado português é um negócio de trocar porcos por chouriços. E como os porcos são escassos, esgotada a ruinosa criação, somos nós que tomamos o seu lugar, trocando vida, trabalho, justiça, por um chouriço.” (“Certificados de aforro”).

Não podemos deixar de lembrar, nesse passo, do livro escrito todo a partir de imagens da mesma espécie animal, Senhor porco (Lisboa: &etc, 2004), com textos de Roque e pinturas de Guilherme Faria, sobre que escrevi uma resenha para o extinto K Jornal de Crítica (disponível aqui). Algo similar à “condição de animal de criação na empresa desses quantos, cujo negócio é precisamente a classe privilegiada de que fazem parte” (“Um exemplar falhado da espécie”, poema de Nu contra nu, publicado pela Averno em 2014).

Entregam-se a destino semelhante os ratos do poema “Tresmalhado” do livro novo: “subterrâneos, diligentes, os despudorados servidores da oportunidade e do medo, comandados, claro está, pelos inescrutáveis senhores”. Tais seres que gozam da ou na servidão não possuem real companhia no cativeiro: a identidade do destino não associa os cativos. O poema “Coelho no tacho”, que alude ao apelido de um político e a um prato da culinária portuguesa, acaba numa fuga discreta, como se o locutor descrito, depois do instantâneo sucesso de sua piada no meio de um café, não fosse digno nem mesmo de pisar o chão depois disso. Nesse sentido, o tresmalhado é aquele que está separado dos outros e, por isso, não tem uma ação política, nem mesmo contra o político que é ironizado.

Hugo Pinto Santos bem escreveu que “Em Tresmalhado, sem se intentar fazer poesia política, a escrita está imersa no mundo. E, se não há um desígnio político, em sentido estrito — é sobretudo de ética que se deveria falar —, os dados da realidade são tematizados por um prisma que é também político.” (“Corpo político”, O Público, 23 jan. 2017, acesso aqui).

De fato, o livro não é bem-sucedido no poema que se apresenta como abertamente político, “Salmo dos novos velhos liberais”, com estas lamentações: “Meu Deus, meu Deus, porque me tiraste emprego, reforma, sistema de saúde e segurança social? São os novos velhos liberais, descobriram uma solução: riqueza para uns poucos, pobreza para quase todos, exclusão para os que estão a mais […]”.

Note-se que esses liberais se apoderaram do poder também no Brasil. Brasileiros, por sinal, poderão rir ou reconhecer-se em outro poema, que satiriza a “filha de pai português e mãe espanhola” que afirma “sou toda Europa, somente nasci no Brasil” (“Queen Margarete”). “Leis da humana física” realiza algo parecido, parodiando o discurso que defende o liberalismo como lei natural. Outro momento que deixa um sorriso encontra-se na primeira parte de “Inferno”, na fala imaginária ao sargento, não na imagem banal do “lasso e venal cu”, mas no fim, na lembrança de que ambos morrerão: “se vivesse a sua vida, como eu tento, como sem dúvida falho, mas falhando, encontro-me, retomo-me”.

Temos nesse ponto algo de mais geral. Na poesia portuguesa, ocorre há tempos o cruzamento entre o fracasso pessoal e o plano coletivo da história de Portugal, fazendo com que imagens do declínio da nação sejam transportadas para outros tipos, particulares ou privados, de malogro. A terceira parte de “Inferno” começa desta forma: “Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.” Se pensarmos no muro como a fronteira espanhola, está aí outra descrição, agora infeliz, do “Jardim da Europa à beira-mar plantado”, segundo o célebre poema de Tomás Ribeiro “A Portugal”.

Quando esse poema oitocentista foi escrito, o declínio de Portugal já era secular, e o Brasil estava independente há décadas. Tomás Ribeiro sabia disso, por isso exortou à “pátria”: “recorda ao mundo ingrato as priscas eras/ em que tu lhe ensinaste a erguer altares./ Mostra-lhe os esqueletos das galeras/ que foram descobrir mundos e mares…” É típico dessa época que o autor, a respeito do antigo colonialismo, lembrasse dos ossos metafóricos dos navios, mas não dos concretos restos mortais das vítimas nas terras invadidas, conquistadas e exploradas a custo de extermínio e escravismo.

Se lermos Roque em paralelo com Ribeiro, não podemos deixar de ver um gesto irônico no poema que segue a “Inferno” e conclui Tresmalhado: “Flash”. O poema recebe o título do nome de um peixe de aquário, “Pequeno e pouco combativo”, cuja comida era roubada pela carpa, e que “teve um AVC ou algo parecido”. Por causa disso, foi escolhido: “inepto, absurdo, votado ao fracasso”, somos “iguais a ele”, pois “O Flash, repito, tenta ainda.”

Do esqueleto das caravelas ao peixinho doente no aquário, quase um século e meio se passaram na história do imaginário poético português. Termino, de forma apropriada, voltando a “Inferno”:

A história perfeita de um falhado. O retrato concreto e exacto de um falhado. Sem o conforto da ironia ou a evasão da gargalhada. Sem tão pouco a consciência tranquila do esforçado trabalho e da pequena conquista, curso honesto de uma vida que, valer-te-ia isso, se valer pudesse, foste. Sem ao menos isso. Sem sequer. Com os olhos postos nesse erro, nessa falta, as órbitas vazias do rosto que falhaste tornado teu.

Pádua Fernandes

Padrão
xanto

XANTO | Consciência do cadafalso (sobre ‘Últimos poemas’, de José Miguel Silva), por Pádua Fernandes

Últimos poemas (Lisboa: Averno, 2017) parece fechar um ciclo na obra de José Miguel Silva. Em seu primeiro livro, O sino de areia (Porto: Gilgamesh, 1999), incluiu alguns poemas a partir de filmes, indicando-os nos títulos. Da filmografia japonesa selecionada, interessava ao poeta “O último dos homens” (“Viver – A. Kurosawa”), um “abrigo” “Antes que da noite o lobo venha/ devorar o que nos resta.” (“O intendente Sanshô – K. Mizoguchi”), a volta impossível à pátria daquele “que na guerra/ ergueu uma pá/ para juntar/ a cinza dos vivos/ ao lume dos mortos.” (“A harpa birmanesa – R. Ichikawa”).

Esses poemas foram retomados, com pouca alteração, em Movimentos no escuro (Lisboa: Relógio D’Água, 2005), todo dedicado a esse diálogo com o cinema.

Naqueles poemas do século passado, a questão do tema do fim da sociedade ou do mundo se articulava a uma reflexão sobre a arte. Algo de semelhante ocorre no livro mais recente, Últimos poemas, por tratar de uma consciência do último, do fim: da literatura (a primeira metade) e da civilização industrial e da espécie humana (a segunda).

O título da primeira metade, “Pastéis que sobraram da festa e seria uma pena deitar fora”, indica de pronto que tratará dos restos monumentais da literatura. Autores como Gore Vidal e Proust são tratados com ironia algo condescendente, tom comum em José Miguel Silva; Gide (“o pujante pioneiro”) recebe uma interessantíssima homenagem, Ernst Jünger (“Era um homem para pegar/ num grão de areia e dividi-lo por dez mãos/ exigentes”) e Pound também (“muitas vezes nos deu guarida/ em sua casa”). No entanto, essa literatura não teria mais condições sociais de interessar ao grande público. Lemos em “Musa, sinceramente” este divertido passa-fora para a pobre inspiradora:

 

Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? […]

 

O autor declara a poesia derrotada de antemão pelos meios de entretenimento de massa.

A segunda parte, “Corredor da morte”, pressupõe a ideia de que a humanidade já está condenada por si mesma, e que “só podíamos seguir/ o planograma do genoma e perecer.” (“Fim”). O interesse de José Miguel Silva por assuntos da genética já passou por esferas mais privadas (“Um deslize do genoma/ soterrou-lhe o coração.”, escreveu em “Na feira do livro II”, de Ulisses já não mora aqui, livro editado originalmente em 2002). Desta vez, trata-se de uma catástrofe coletiva, da espécie. A condenação parece, nesta seção, abranger tanto a ordem biológica quanto a política, o que é reiterado em “Teatro político”, em que o teatro serve de excessivamente convencional metáfora para a mentira. O poema apresenta um rol de decomposições:

 

a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

 

O brilhante “Homem do lixo” imagina um faxineiro, o último a chegar à festa, e que tem o dever de varrer “o subproduto da embriaguez/ organizada”. Os foliões dormem, ele dança com a vassoura, tentando enganar-se que não está desiludido. Imaginamos que seja este o nosso tempo: chegamos para recolher o lixo da festa. No entanto,

 

Findo o trabalho, tem ainda tempo
para se apiedar dos vindouros,
que da festa não terão sequer notícia,
que nunca poderão participar
sequer remotamente em algo
tão aparentado com a felicidade.

 

As próximas gerações estarão ainda mais longe da felicidade, que hoje só pode existir como resíduo, que estamos a jogar fora. Nem os restos persistirão. Um tempo mais desesperançado, pois, do que o concebido por Carlos Drummond de Andrade em “Resíduo”, poema de A rosa do povo: “fica sempre um pouco de tudo./ Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

As duas partes não são estanques: na segunda, “Misantropia à parte” é uma denúncia do público que não digere a poesia, público descrito nestes termos pouco lisonjeiros:

 

O aparelho cognitivo do porco não consegue digerir
a pérola. O porco, porque é porco e omnívoro,
come o que lhe dão: abocanha a pérola, engole
a pérola, fá-la viajar nos intestinos, devolvendo-a
depois à luz do dia. Com esse trânsito de merda,
o porco nada ganhou, e a pérola ainda menos.

 

A literatura está morta, este livro vem apenas “alegrar o velório” (“Lamento e exortação”), talvez não passe de “Mais um dia de estrume para roseira nenhuma” (“Parte poética”); o mundo está caminhando para estado semelhante (“não cabe/ mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.”, diz em “Fala o director-geral”).

tumblr_ot6qj5nzcg1qbcs7jo1_1280

A catástrofe está próxima, como em poema de Ulisses não mora mais aqui (Lisboa: & etc, 2002), “Estela funerária”, que termina com esta constatação: “caiu para o desastre,/ chegou à nossa frente.”

A dissertação de mestrado de Vitor Bruno Dantas Ramalhosa, Não sei se a culpa é minha ou de ninguém: a poesia política de José Miguel Silva (defendida em 2016 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto [clique aqui]), lembra que José Miguel Silva “prefere, ironicamente, ser um ‘desmancha-prazeres’ (título de um blog seu) que ‘não contribui para aligeirar o déficit na balança cultural’, mas que, ao invés, e tal como Alberto Pimenta, contribui com o que pode ‘para a lixeira cultural’.” Trata-se de uma alta comparação, eis que provavelmente nenhum outro autor português logrou desafinar tanto o coro nacional quanto o autor d’O discurso sobre o filho-da-puta.

Este livro, embora não seja tão dissonante assim, persiste na honrosa vocação de todos descontentes e eu também. Seu desencanto e nostálgico elitismo podem incomodar tanto setores das esquerdas quanto das direitas (veja-se esta gozação: “Como a formiga,/ o diamante, a bactéria, a água é cem por cento/ de direita, não acredita em nada, nem sequer/ no ciclo da água.”, trecho de “Põe os olhos na água”), e é certo que esses dois lados opostos do espectro ideológico podem ter muito em comum na defesa da sociedade da produção industrial, que Últimos poemas critica.

No entanto, o discurso racional e irônico, típico deste autor, tem tudo para agradar os leitores do descontentamento, que esperam, sem culpa, os próximos poemas. Afinal, neste verso de Últimos poemas encontramos uma característica da poesia: “O álibi do mal é fazer-se desejar.”

Picture 16

Padrão
poesia, tradução

Julián Axat (1976) por Pádua Fernandes

Julián-AxatJulián Axat (La Plata, 1976) é um dos nomes mais notáveis da poesia argentina contemporânea. Publicou os livros de poesia Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003), Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), Médium (Poética belli) (Buenos Aires: Paradiso, 2006), Ylumynarya (City Bell: Libros de la talita dorada, 2008), Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado, 2013) e Musulmán o biopoética (City Bell: Libros de La Talita dorada, 2013). Organizou a antologia de poesia argentina contemporânea Si Hamet duda lo daremos muerte (City Bell: 2010) e edita a coleção Los detectives salvajes, na editora Libros de la talita dorada, que recupera os escritos dos mortos e desaparecidos pelo terror de Estado e publica autores contemporâneos atentos a essas práticas autoritárias.

Axat é membro da organização HIJOS, criada por filhos desses desaparecidos e mortos. Seus pais foram sequestrados pelos agentes da repressão quanto ele tinha seis meses, e jamais seus corpos foram encontrados. Como jurista, era Defensor Judicial para menores em Plata; agora atua como coordenador do programa Agencia Territorial de Acceso a La Justicia (ATAJO), de acesso comunitário à justiça, do Ministério Público argentino.

O livro musulmán o biopoética refere-se, desde o título, à biopolítica (a que a “biopoética”, nome criado por Axar, faz contraponto) e à figura do “muçulmano” segundo Agamben: não se trata de um islâmico, e sim do preso, nos campos de concentração, que já não mais falava, que estava apartado de tudo. Essa figura, no livro, é o menor em conflito com a lei e as instituições, ou o menor apanhado por instituições em conflito com os direitos humanos, empregando práticas autoritárias que remontam aos tempos da última ditadura.

No poema escolhido, há uma referência à ESMA, Escola Superior de Mecânica da Armada, que serviu de centro de tortura e execução, e foi transformada em um memorial dos crimes da última ditadura. Axat lida com o material de seus processos como defensor na primeira parte, “Mal sobre ruínas del bien”, e expõe na segunda parte do livro, “Pasajes em espejo”, os materiais (jornalísticos e jurídicos) que usou nos poemas da primeira. Trata-se de uma possibilidade de forma poética benjaminiana a partir do Livro das Passagens (que recebeu um texto aqui no escamandro como “extensa obra de colagem deixada inacabada”).

Neo alude ao filme Matrix e seus jogos entre planos de realidades. O poema escolhido alude ao imaginário de Bolaño e sua busca pela poesia e/ou pelos poetas, em um futuro após 2666 (esse ano deu o título do monumental romance do autor chileno publicado postumamente). Andrew Wylie é o agente literário que editou Bolaño em inglês.

O terceiro poema foi retirado de um dos blogues de Axat, El niño rizoma; seu outro é Detectives por la Memoria. Embora o primeiro se concentre em temas jurídicos e o segundo, em assuntos editoriais, em ambos se encontra poesia, e creio que esse é o fundo comum a todas as atividades de Axat.

(Pádua Fernandes)

 

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) é autor dos livros de poesia O palco e o mundo (Lisboa: &etc, 2002), Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012 e, na tradução para o espanhol de Anibal Cristobo, City Bell: Libros de la Talita Dorada, 2013) e Código negro (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013). Organizou a única antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil, A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004). Escreve no blogue O palco e o mundo.

 

de musulmán o biopoética (City Bell: De la talita dorada, 2013)

Mal sobre ruínas do bem

33.
o futuro não / um ossário cheio de vermes

Nadando no extermínio encontrarás / a palavra
“extermínio” /
novamente submersa a encontrarás / e assim / em todas as
camadas do extermínio /
seguirás como possesso / até dar com o último verme /
a gota não exterminada que / levarás a tua garganta
em um gole /
para procurar / um novo dizer

 

Mal sobre ruinas del bien

33.
el futuro no / un osario agusanado

Nadando en el exterminio hallarás / la palabra
“exterminio” /
debajo otra vez la hallarás / y así / en todas las
capas del exterminio /
seguirás como poseso / hasta dar con el último gusano /
la perla no exterminada que / llevarás a tu garganta
de un sorbo /
para procurar / un nuevo decir

 

Passagens em espelho (Bitácora)

33. o futuro não é um ossário cheio de vermes

… cadáveres … / cemitérios de carros afogados no vazio / a memória dos crimes do passado / todo o tempo / a memória dos crimes do presente / como na poesia / escrever Direito depois da ESMA / encontrar “a palavra justa” / escrita / nos expedientes judiciais do porvir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

Pasajes en espejo

33. el futuro no es un osario agusanado

… cadáveres … / cementerios de fojas ahogados en vacio / la memoria de los crímenes del pasado / todo el tiempo / la memoria de los crímenes del presente / como en la poesía / escribir Derecho después de la ESMA / encontrar “la palabra justa” / escrita / en los expedientes judiciales del porvenir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

de Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado Ediciones, 2013)

Bolaño & co.

a Dani Krupa

na noite passada sonhei
com nossa fuga
visitávamos poetas
menores
perdidos
tomávamos vinho
com um poeta prestes a morrer
no ano 2745
nos dizia
já não têm retorno
nesta bolha do tempo
ou buraco ou terceiro olho
as portas da percepção
se se abriram
não se fecham
para vocês
e essa será sua felicidade
a viagem
até o último verso
de mãos dadas
o verso final
escrito com fogo
o verão apagar-se
e dizer
fumarão as cinzas
acharão a saída
para voltar a fugir

Despertei
com um manuscrito do meu lado
chamei Andrew Wylie
o negro literário era eu

Agora tomo daiquiris
e filmo o Ulisses de minha vida
dê-me um filho
que farei dele um criminoso ou um santo

 

Bolaño & co.

a Dani Krupa

anoche soñé
en nuestra fuga
visitábamos poetas
menores
perdidos
tomábamos vino
con un poeta a punto de morir
en el año 2745
nos decía
ya no tienen retorno
en esta burbuja del tiempo
o el agujero o tercer ojo
las puertas de la percepción
si se abrieron
no se cierran
para ustedes
y esa será su felicidad
el viaje
hasta el último verso
agarrados de la mano/
el verso final
escrito con fuego
lo verán apagarse
y decir
se tragarán las cenizas
hallarán la salida
para volverse a fugar

Desperté
con un manuscrito a mi lado
llamé a Andrew Wylie
el negro literario era yo

Ahora tomo daikiris
y filmo el Ulises de mi vida
dadme un niño
que yo haré de él un criminal o un santo

 

Antologia de maus poetas

(retirado do blogue El niño rizoma)

Quero montar una antologia de maus poetas mas ninguém se inclui

eu me incluiria sem falsa modéstia quem mais

os maus poetas buscam a lua e tropeçam no sol

se autoeditam pedem licença ou subornam para figurar em antologias

e na maior parte do tempo / como são maus / ferem o silêncio

até que um dia escrevem de passagem o verso da eternidade mas depois

continuam sendo maus

os maus poetas assaltam bancos perseguem moinhos se disfarçam de funcionários públicos buscam a palavra justa em lixeiras de que não saem senão injustos

por isso os maus poetas de minha futura antologia dão tudo o que têm

por um punhado de sonhos de absolutos escritos malformes segundo os bons poetas

esses que são bons e ponto

Antología de malos poetas

Quiero armar una antología de poetas malos pero nadie se anota

yo me anotaría sin falsa modestia quién más

los malos poetas buscan la luna y tropiezan con el sol

se autoeditan piden permiso o coimean para figurar en antologías

y la mayor parte del tiempo / como son malos / hieren el silencio

hasta que un día escriben al pasar el verso de la eternidad pero después

siguen siendo malos

los malos poetas asaltan bancos persiguen molinos se disfrazan de empleados públicos buscan la palabra justa en basurales de los que no salen sino injustos

por eso los malos poetas de mi futura antología se juegan todo lo que tienen a mano

por un puñado de sueños de absolutos escritos malformes a la vista de los buenos poetas

esos que son buenos y punto

 

(poemas de Julián Axat, tradução de Pádua Fernandes)

Padrão