crítica, poesia

Poesia reunida de Francisca Júlia

Qualquer cousa afinal de belo escolher devo
para em verso plasmar no esforço da obra-prima:
flor que viceja à sombra, asa que paira em cima,
aroma de um poema ou de um campo de trevo.

Aroma, ou asa, ou flor… tudo o que diga e exprima
perde, ao moldar-se em verso, o seu próprio relevo,
porque sinto, mau grado a glória com que escrevo,
presa a imaginação no limite da rima.

Não val pois provocar, e sem que isto te praza,
minh’alma, e por amor d’arte que se não doma,
a mágoa que te dói e a febre que te abrasa:

o aroma, sente! est’asa, admira! esta flor, toma!
Mas deixa continuar inexprimidas a asa,
a beleza da flor e a frescura do aroma.

(“Desejo inútil”, poema de abertura de Esfinges (1920))

Francisca_Julia_1905Já falamos de Francisca Júlia anteriormente aqui no escamandro, comentando como, comparativamente com outros poetas contemporâneos seus (e.g. Bilac), sua poesia permanece obscura. Há alguns exemplares em sebos de seus dois livros publicados em vida, entre 1895 e 1920, Mármores e Esfinges, indo a valores exorbitantes, e seus poemas só foram reunidos e reeditados muito depois, em 1961, no volume Poesias, organizado pelo Péricles Eugênio da Silva Ramos e publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – e nunca mais após. Apesar de estar em domínio público, não me parece haver nenhum recurso online que disponibilize de forma confiável e organizada toda a sua obra (como faz o Project Gutenberg com diversos autores ingleses, por exemplo), por isso achei que seria útil que eu mesmo me encarregasse dessa tarefa. Digo, é possível ter acesso a uma edição digitalizada de Mármores e Esfinges no site da Biblioteca Brasiliana da USP (clique aqui), o que é uma preciosidade (pessoalmente, eu gosto muito dos comentários absurdos do autor do prefácio de Mármores), mas o fato de a edição ser a original do século XIX (com a grafia de época) e o .pdf digitalizado ser um pouco problemático para cópia do texto, imaginei que não faria mal disponibilizar algo um pouco mais conveniente (o link para o arquivo está aqui no final do post, então quem quiser vê-lo de uma vez e se poupar da discussão, é só descer a rolagem).

Algumas palavras a serem ditas sobre a empreitada, então: como deixa claro o comentário do Péricles Eugênio, a grande parte obra de Francisca Júlia é na verdade um livro só ampliado e reestruturado ao longo da sua vida. Começando a escrever por volta de 1890, com apenas 19 anos, e, após publicar poemas em jornais, em 1895 sai seu primeiro livro, Mármores. Como vocês podem ver olhando a digitalização da USP, Mármores não é apenas um apanhado aleatório de poemas, mas um volume muito bem estruturado, de forma simétrica: há uma primeira metade, formada pela seção intitulada Prólogo, com 18 poemas (todos eles sonetos), e uma segunda metade chamada Balada, também com 18 poemas, mas mais formalmente diversificados – e, entre os dois, traduções do alemão (por via francesa) de Goethe (Lieder) e Heine (Intermezzo). Infelizmente, esse cuidado estrutural se perde na reedição do Péricles, que prefere organizar os poemas por eixo temático. Desse modo, os sonetos “Musa impassível” I e II que são os primeiros poemas em Poesias, em Mármores são os versos que abrem e fecham o livro, numa estrutura circular que é digna de atenção. Mas falaremos mais sobre isso mais adiante.

Depois de Mármores, em 1899, F. Júlia publica um livro de prosa e verso didático, chamado Livro da infância, destinado “às crianças que já tenham feito seu curso elementar de leitura”, do qual 6 poemas parecem ter se destacado, que ela decide então incluir como parte da sua obra principal (em 1912 ela publicaria um novo livro de mesmo teor, Alma infantil, junto com o irmão). Publicado em 1903, Esfinges é o Mármores versão 2.0, com alguns poemas retirados (7, ao todo; no geral, pelo que se pode reparar, parecem ser os seus poemas mais antigos e de um tom mais ingênuo, como “Laura” ou “No boudoir”) e muitos poemas novos – 20, se não me engano, dos quais 6 são os poemas do Livro da infância. A crítica, em geral, reconhece nos outros 14 poemas acrescentados uma guinada simbolista, em contraste com o que seriam os ares mais puramente parnasianos de Mármores. Apesar de que acredito que ainda há e houve desde o princípio a predominânica de uma forte atmosfera romântica (a presença de Goethe e Heine não é à toa), mas um romantismo fortemente imagético e não apenas sentimental, essa leitura parece fazer sentido quando comparamos, por exemplo, um poema como “A cega” (p. 58 no arquivo) com “Os cegos”, de Baudelaire, onde há semelhanças não só de temática como também de tom (apesar de que F. Júlia é um pouco mais contida no tocante ao escárnio baudelairiano), vocabulário (note o uso em ambos da palavra “sonâmbula”) e imagem (a cega e os cegos olhando para o céu). Ao mesmo tempo, os temas religiosos que já dão as caras em Mármores (vide “De joelhos” ou “Prece”) se desenvolvem em poesia mística e devocional, como em “Profissão de fé” (o poema mais abertamente religioso do livro), “Ângelus”, “Crepúsculo” e “Adamah” (“terra”, em hebraico, e, segundo a tradição exegética, origem da palavra adam, “homem”, que dá o Adão bíblico), e que pode até mesmo ser observada no tom transcendental dos versos finais que reveste a linguagem mais violenta de um soneto como “Natureza”. Como aponta o Péricles Eugênio, a 4º capa de Esfinges sugere que haveria uma futura publicação planejada, um volume que teria o título Místicas, supostamente desenvolvendo esse lado da sua poética, mas foi um projeto que nunca chegou a ser concretizado. O mesmo aconteceu com o projeto do livro Versos áureos (uma referência à razão áurea de Pitágoras), esboçado enquanto ela aprofundava seus estudos sobre misticismo e corpo astral. O que chegou a ser publicado foi uma segunda edição ampliada de Esfinges, em 1920 (ano de morte da poeta), ao qual foram acrescentados 13 novos poemas – alguns metapoéticos, como “Desejo inútil”, escolhido como poema de abertura do volume, mas, em sua maioria, de temática religiosa.

esphinges-capa

Capa da edição de 1920 de Esfinges.

 

Esfinges também apresenta uma organização distinta da de Mármores: primeiro que os sonetos “Musa impassível” deixam de aparecer no começo e no fim do livro – em vez disso eles estão justapostos, como uma sequência I e II, no final da primeira seção, que não se chama mais Prólogo e sim Esfinges. Os mesmos sonetos estão lá, mais os sonetos novos, mas a ordem é alterada. Goethe perde sua posição de destaque no centro do livro, que é ocupado apenas por Heine, e os Lieds passam a figurar apenas na segunda parte, intitulada então não mais como Balada, mas O Mergulhador, por conta do poema homônimo que abre a seção. De novo, tem-se os mesmos poemas, formalmente diversos (em oposição à primeira parte, composta apenas de sonetos), porém em outra ordem e com os poemas novos adicionados. Na última edição, conta-se 30 poemas na seção Esfinges, mais 4 do Intermezzo de Heine e outros 33 em O Mergulhador, formando uma estrutura outra vez de certa forma simétrica, com 33 poemas de um lado (30 sonetos + 3 poemas de Heine), 33 do outro, e o último poema da seção de Heine como pivô de todo o livro. Em comparação com a primeira edição de Esfinges, nota-se que a maioria dos poemas acrescentados na segunda edição (como “Humanidade redimida” e “Caridade”) se situam no final da seção O Mergulhador.

Em Poesias, Péricles Eugênio, apesar de demonstrar um esforço notável para marcar quais poemas apareceram originalmente em qual livro e quais emendas foram feitas (permitindo, assim, algum acompanhamento cronológico das publicações), acaba negligenciando esse aspecto estrutural, e Poesias se organiza com base em temas, contendo 5 seções: “Musa impassível” (poemas mais parnasianos), “Musa mística” (poemas mais simbolistas e religiosos), “Musa inicial” (juvenília, poemas escritos entre 1890 e 1893, anteriores a Mármores), “Musa didática” (com os 6 poemas do Livro da Infância que entraram em Esfinges) e “Traduções e paráfrases” (auto-explicativo). Obviamente, não é o caso de condenarmos a divisão que o organizador fez: a disposição temática tende a privilegiar, de fato, os poemas que me soam como os melhores da autora, aos quais o leitor é exposto mais prontamente durante a leitura, deixando os menos interessantes para depois da metade do livro, o que é uma estratégia muito produtiva para a produção de um livro. No entanto, ela dificulta um pouco para se ter uma noção do desenvolvimento da poética de F. Júlia, ao mesmo tempo em que dá de barato essa divisão, algo ginasial, entre simbolismo e parnasianismo. Teria sido bom se ele tivesse nos fornecido alguma nota, por mais breve que fosse, sobre a organização dos livros originais, já que ela demonstra algum tipo de intencionalidade, um planejamento do livro não como um apanhado aleatório de poemas, mas como uma unidade coesa de experiência de leitura.

Com o trabalho feito aqui de transcrição e compilação dos poemas (com a grafia atualizada), portanto, o objetivo é reunir num só arquivo (com texto copiável, para quem precisar usá-lo) toda a produção poética de Francisca Júlia, mantendo a estrutura dos livros conforme possível. Assim sendo, foi feito um arquivo com três seções, contendo Mármores e Esfinges em suas configurações originais e uma terceira com poemas não publicados em livro antes de Poesias. No caso de Esfinges, foi priorizada a versão de 1920, com notas marcando os poemas acrescentados na passagem da primeira para a segunda edição e os poemas de Mármore que se repetem.

O ideal seria que fosse publicada oficialmente mesmo uma nova edição com notas e comentários de um teor crítico mais elevado (de novo, isso não é uma desfeita ao importante trabalho do Péricles, mas é fato que muita água rolou na crítica de 61 para cá), mas, enquanto isso não ocorre, o mínimo que podemos fazer é disponibilizar uma edição online facilmente acessível para todos.

Essa ediçãozinha pode ser visualizada e baixada clicando aqui.

Adriano Scandolara

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Francisca Júlia (1871 – 1920)

francisca-julia

Talvez seja algo estranho que eu tenha tido contato pela primeira vez com a poesia da parnasiana Francisca Júlia (1871 – 1920) através do Tratado de Metrificação de Glauco Mattoso, onde o nosso célebre poeta/podólatra cita e comenta o seu soneto “Dança de Centauras”. Nascida na cidade de Xiririca (hoje Eldorado, em SP), como comenta Péricles Eugênio da Silva Ramos, pouco se sabe de sua biografia pessoal, além do que temos documentado sobre sua carreira (que começa no jornal O Estado de São Paulo, com um poema publicado em 6 de setembro de 1891), seu casamento e viuvez com Filadelfo Edmundo Munster, que contrai tuberculose em 1916 e morre da doença em 1920, ao que se segue o (presumido) suicídio da poeta. Deixou-nos uma obra pequena, porém digna de alguma atenção – tanto quanto de qualquer outro poeta da época, pelo menos.

Os episódios famosos de sua carreira envolvem a demonstração, nada anacrônica, diga-se de passagem, de um duradouro machismo à brasileira por parte dos poetas que lhe foram contemporâneos. Severiano de Rezende, por exemplo, lhe sugerira: “Minha senhora, há ocupações mais úteis: dedique-se aos trabalhos de agulha”. Após ser publicada, em meados da década de 1890, no periódico A Semana, de Valentim Guimarães, o poeta e dramaturgo Artur de Azevedo também declara: “não acreditei [que esses versos] saíssem de mãos femininas”, e o mesmo pensou o poeta, crítico e filólogo João Ribeiro, que imaginou que fosse um caso de “mistificação” e atribuiu a autoria dos poemas à Raimundo Correia, aproveitando para publicar um poema em resposta sob o pseudônimo de Maria Azevedo, com a declaração: “Eu respondo a esta imaginária poetisa”.

Mas Francisca Júlia era bem real e mais tarde foi autora de dois volumes de poesia, Mármores (1895) e Esfinges (1903), além dos infanto-juvenis Livro da Infância (1899) e Alma Infantil (1912). O primeiro livro é considerado mais parnasiano, enquanto o segundo, além de reunir poemas do primeiro, apresenta novos poemas onde se nota influências simbolistas, por sua temática mais mística e contemplativa, por vezes chegando ao devocional, sobretudo nos poemas adicionados na segunda edição. Quem tiver algum grau de TOC com datas (mea culpa) há de notar aqui a mínima diferença cronológica que separa o seu livro de estreia do de Olavo Bilac, Poesias (1888) – Bilac então tinha 23 anos, e Júlia, 17, publicando Mármores depois aos 24. Ele próprio, aliás, a elogia, e diz de seu português que era “o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”. Bem, é um comentário que não diz muita coisa (antigo português remoçado? tipo, com renew? com botox?), mas é um elogio vindo do Bilac, ainda assim.

É complicado discutir qual a situação canônica atual de Francisca Júlia, em parte porque o próprio parnasianismo ainda existe como uma espécie de gigante antigo e anacrônico derrotado pela estética modernista – e que, justamente por ter sido uma estética dominante e porque as nossas sensibilidades já não batem, nem de longe, com as deles (e eu digo isso como alguém que passou as últimas semanas mergulhado nos sonetos do “Via Láctea”), não me parece que será revisto tão cedo. Mas não sei, pode ser que isso seja só impressão minha.

De qualquer modo, F. Júlia parece em algum grau ter sido aceita já como um dos grandes nomes do nosso parnasianismo, e encontra-se o nome dela em sites de educação aqui e ali, e há alguns trabalhos acadêmicos disponíveis online (quem tiver interesse, pode consultar dois deles clicando aqui e aqui)… sua presença e disponibilidade, no entanto, ainda são bem reduzidas. O único volume de poemas dela publicado após sua morte é o Poesias, de 1961, organizado por Péricles Eugênio da Silva Ramos, que também é responsável pelo texto introdutório e notas. Só para exemplificar: neste momento, ao todo, há 30 livros de autoria dela na Estante Virtual (alguns sendo edições raras e caras como as das primeiras edições de Mármores e Esphinges), ao passo que uma procura por Olavo Bilac retorna 980 resultados. Também não me parece fácil encontrar sua obra completa disponível online para download, apesar de estar em domínio público.

Enfim, essas são questões inevitáveis de se ponderar ao entrar em contato com a poesia de Francisca Júlia, e, por isso, gostaria de compartilhar alguns de seus poemas abaixo, extraídos de ambos os seus livros, conforme constam em Poesias.

Adriano Scandolara

PS: o poeta e crítico Emmanuel Santiago tem um ensaio bastante interessante sobre a poeta em seu blogue Antenas de Marfim, intitulado “Impassibilidade, frigidez e masoquismo: uma leitura erótica da poesia parnasiana de Francisca Júlia”, que pode ser lido clicando aqui. O poeta, crítico e tradutor Ricardo Domeneck também já tinha feito um comentário sobre Júlia e outras figuras femininas importantes da poesia brasileira, como Patrícia Galvão e Henriqueta Lisboa e muitas outras, em seu blogue pessoal e no blogue da Modo de Usar & Co., no texto intitulado “A textualidade em algumas poetas brasileiras do século XX e início do XXI”.

           

            poemas publicados pela primeira vez em Mármores:

Em Sonda

Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda,
A boa espia… Em cima estende-se a folhagem
Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda,
Com a sua noturna e amorosa bafagem.

Um luar mortiço banha a floresta de Sonda,
Desde a copa da faia à esplêndida pastagem;
O ofidiano, escondido, olhos abertos, sonda…
Vai passando, tranqüilo, um búfalo selvagem.

Segue o búfalo, só… mas suspende-lhe o passo
O ofidiano cruel que o ataca de repente,
E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço.

Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta;
Mas tomba de cansaço e morre… Tristemente
No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta…

           

Rainha das Águas

            a Alberto de Oliveira

Mar fora, a rir, da boca o fúlgido tesouro
Mostrando, e sacudindo a farta cabeleira,
Corta a planura ao mar, que se desdobra inteira,
Na esguia concha azul orladurada de ouro.

Rema, à popa, um tritão de escâmeo dorso louro;
Vão à frente os delfins; e, marchando em fileira,
Das ondas a seguir a luminosa esteira,
Vão cantando, a compasso, as piérides em coro.

Crespas, cantando em torno, as vagas, à porfia,
Lambem de popa à proa o casco à concha esguia,
Que prossegue, mar fora, a infinda rota, ufana;

E, no alto, o louro sol, que assoma, entre desmaios,
Saúda esse outro sol de coruscantes raios
Que orna a cabeça real da bela soberana.

           

A Noite

                  A Venceslau de Queiroz

Um vento fresco e suave entre os pinhais murmura;
A Noite, aos ombros solta a desgranhada coma,
No seu plaustro de crepe, entre as nuvens, assoma…
Tornam-se o campo e o céu de uma cor mais escura.

Um novo aspecto em tudo. Um novo e bom aroma
De látiros exala a amplíssima verdura.
Num hausto longo, a Noite, aos ares a frescura
Doce, entreabrindo a flor dos negros lábios, toma…

Por vales e rechãs caminha, passo a passo,
Atento o ouvido, à escuta… E no seu plaustro enorme
Cujo rumor desperta a placidez do espaço,

À encantada região das estrelas se eleva…
E, ao ver que dorme o espaço e o mundo inteiro dorme,
Volve, quieta, de novo, à habitação da treva.

           

A Ondina

Rente ao mar, que soluça e lambe a praia, a ondina,
Solto, às brisas da noite, o áureo cabelo, nua,
Pela praia passeia. A alvacenta neblina
Tem reflexos de prata à refração da lua.

Uma velha goleta encalhada, a bolina
Rota, pompeia no ar a vela, que flutua
E, de onda em onda, o mar, soluçando em surdina,
Empola-se espumante, à praia vem, recua…

E, surdindo da treva, um monstro negro, fito
O olhar na ondina, avança, embargando-lhe o passo…
Ela tenta fugir, sufoca o choro, o grito…

Mas o mar, que espreitando-a, as ondas avoluma,
Roja-se aos pés da ondina e esconde-a no regaço,
Envolvendo-lhe o corpo em turbilhões de espuma.

           

À Noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar… De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso…

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma…

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

           

            poemas publicados pela primeira vez em Esfinges:

Dança de Centauras

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece…

           

Adamah

            A Júlia Lopes de Almeida

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terra substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…

           

Crepúsculo

Tôdas as cousas têm o aspecto vago e mudo
Como se as envolvesse uma bruma de incenso;
No alto, uma nuvem, só, num nastro largo e extenso,
Precinta do céu calmo a caris de veludo.

Tudo: o campo, a montanha, o alto rochedo agudo
Se esfuma numa suave água-tinta… e, suspenso,
Espalhando-se no ar, como um nevoeiro denso,
Um tom neutro de cinza empoeirando tudo.

Nest’hora, muita vez, sinto um mole cansaço,
Como que o ar me falta e a fôrça se me esgota…
Som de Ângelus, moroso, a rolar pelo espaço…

Neste letargo que, pouco a pouco, me invade,
Avulta e cresce dentro em mim essa remota
Sombra da minha Dor e da minha Saudade.

           

Natureza

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.

           

(poemas de Francisca Júlia)

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poesia, tradução

8 poemas de Paul Verlaine, em 3 tradutores

Caricatura-Paul-Verlaine-Les-Hommes-Daujour-dhui-por-Emile-CohlHá exatamente um ano eu postei umas traduções minhas e da editora e tradutora Heloisa Jahn de alguns poemas eróticos de Verlaine, em comemoração aos 168 anos do poeta – ao que acompanhou, logo na sequência, um outro post com traduções e notas do Leo Gonçalves, sobre o mesmo assunto.  Retornamos agora ao velho poeta maldito para relembrarmos, desta vez, a parte mais “séria”, por assim dizer, da sua poesia.

A esta altura acredito que todos já conheçam em alguma medida as características principais da poesia simbolista, como a importância da musicalidade, o gosto pelo preciosismo das palavras, a ideia de que a poesia deve sugerir – ideias, imagens, sensações – em vez de declarar, etc. São todas elas características que norteiam boa parte da poesia de Verlaine – conforme declarado, inclusive, em seu famoso poema “Arte poética” –, embora devamos lembrar que há ainda algum grau de sobreposição entre o simbolismo e o parnasianismo, visto que, na França, ambos os grupos se reuniam, conversavam e eram publicados juntos nas mesmas antologias (Mallarmé e Verlaine, por exemplo, foram ambos publicados no periódico O Parnaso Contemporâneo, de 1866-1876). É sempre bom apontar que essas coisas de categorização são complicadas, sobretudo quando pensadas cronologicamente. Lembrem-se que até 1885 Victor Hugo, o maior expoente do romantismo francês, ainda estava vivo e ativo…

Do “Big 4” do simbolismo francês, eu arriscaria dizer que Verlaine é o mais virtuosista no emprego e na variedade do metro e da rima (mais que Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, eu diria), uma característica que, no entanto, não lhe valeu muito para a posteridade, na medida em que, dentre esses 4, ao passo em que é forte a influência de Verlaine na poesia do século XIX (em português, visível em Cruz e Souza e Alphonsus de Guimarães), os outros 3 parecem ter sido muito mais influentes para os movimentos do século XX, do surrealismo ao concretismo. Isso não quer dizer que não encontremos em sua obra poemas que agradem à nossa sensibilidade moderna, mas a consequência dessa menor popularidade é que não temos ainda uma obra completa do poeta. A melódica e romântica “Canção de outono” é, sem dúvida, o seu poema mais famoso e musicado em mais de uma voz (de Charles Trenet e Leo Ferré a uma banda contemporânea de shoegaze chamada Les Discrets), enquanto as cores urbanas de “A voz dos botequins” (especialmente como traduzido por Guilherme de Almeida, puxando para o tom mais popularesco) e o tom irônico de “Colóquio sentimental” (cujo diálogo me lembra, com o perdão da referência tosca, coisas que diriam o personagem do Al Bundy da sitcom Married with Children) sejam o que, talvez, nos chame mais a atenção.

Vide a "Canção de outono". E não é verdade?

Vide a “Canção de outono”. E não é verdade?

Não por acaso esses poemas foram traduzidos mais de uma vez, e mais ou menos no mesmo período, ao que tudo indica. Tenho em mãos aqui uma edição antiga, de 1945, que achei por acaso num sebo (completa com dedicatória assinada por alguém já bem velhinha ou falecida agora), intitulada Poesias Escolhidas, de seleção e tradução de Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987), juntamente com outro volume (de 1944), de traduções de Guilherme de Almeida (1890 – 1969), reeditada pela ed. Hedra. O que é curioso é que me parece que ambos os tradutores se focaram, com frequência, sobre os mesmos poemas (convém comentar, no entanto, que a seleção de Pennafort é mais extensa, mas talvez menos instigante que a tradução de Guilherme de Almeida, na minha opinião).

Daí a ideia para esta postagem: contrapor 2 traduções para cada um desses 8 poemas. No último caso, como Pennafort não traduziu o “Arte poética”, para não desfazer a dinâmica de manter as traduções sempre em dupla, contrapus a tradução de Guilherme de Almeida com a de Augusto de Campos (retirada do volume O Anticrítico). Portanto, 8 poemas, 3 tradutores. Uma introdução razoável, acredito, a quem tiver curiosidade pelo poeta.

Adriano Scandolara

                                                 

                                                  De Poèmes saturniens (1866):

                        

Mon rêve familier

Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime,
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d’être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l’ignore.
Son nom? Je me souviens qu’il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des voix chères qui se sont tues.
                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Meu sonho familiar

Muitas vezes, o sonho estranho me surpreende
de uma ignota mulher que eu amo e que me adora,
e que a mesma não é, certamente, a toda hora,
não sendo outra, porém, e me ama e me compreende.

Todo o meu coração deixo que ela o desvende.
Ela somente o faz transparente e o avigora,
E se eu sofro, se a dor minha fronte descora,
ela é o consolo ideal que sobre mim se estende.

É ela trigueira, ou loira, ou ruiva? – Eu o ignoro.
Seu nome? Apenas sei que ele é doce e sonoro
como o de quem se amou e da vida fugiu.

Seu olhar, como o olhar de uma estátua, é sem alma,
e tem na sua voz, grave, longínqua e calma,
a inflexão de uma voz cara que se extingiu.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Meu sonho familiar

Sonho às vezes o sonho estranho e persistente
De não sei que mulher que eu quero e que me quer,
E que nunca é, de fato, uma única mulher
E nem outra, de fato, e me compreende e sente.

Compreende-me, e este meu coração, transparente
Para ela, não é mais um problema qualquer,
Só para ela, o meu suor de angústia, se quiser,
Chorando, ela transforma em frescura envolvente.

Se é morena, ou se loura, ou se ruiva – eu ignoro.
Seu nome? É como o nome ideal, doce e sonoro,
Dos amados que a vida exilou para além.

Seu olhar lembra o olhar de alguma estátua antiga,
E sua voz longínqua, e calma, e grave, tem
Certa inflexão de emudecida voz amiga.

                        

Chanson D’Automne
 
Les sanglots longs
Des violons
     De l’automne
Blessent mon cœur
D’une langueur
     Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
     Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
     Et je pleure;

Et je m’en vais
Au vent mauvais
     Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
     Feuille morte.
                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Canção do outono

Os longos sons
dos violões,
     pelo outono
me enchem de dor
e de um langor
     de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
     bater a hora,
lembrando os dias
e as alegrias
     e ais de outroa.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
     me transporta
de cá p’ra lá,
como faz à
     folha morta.

    

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Canção de outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
     Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
     De sono.

E soluçando,
Pálido quando
     Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doudos
     De outrora.

E vou à-toa
No ar mau que voa,
     Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
     E morta.                     

    

                         De Fêtes galantes (1869):

                        
L’amour par terre

Le vent de l’autre nuit a jeté bas l’Amour
Qui, dans le coin le plus mystérieux du parc,
Souriait en bandant malignement son arc,
Et dont l’aspect nous fit tant songer tout un jour!

Le vent de l’autre nuit l’a jeté bas ! Le marbre
Au souffle du matin tournoie, épars. C’est triste
De voir le piédestal, où le nom de l’artiste
Se lit péniblement parmi l’ombre d’un arbre,

Oh! c’est triste de voir debout le piédestal
Tout seul! Et des pensers mélancoliques vont
Et viennent dans mon rêve où le chagrin profond
Évoque un avenir solitaire et fatal.
    
Oh! c’est triste! – Et toi-même, est-ce pas! es touchée
D’un si dolent tableau, bien que ton oeil frivole
S’amuse au papillon de pourpre et d’or qui vole
Au-dessus des débris dont l’allée est jonchée.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O amor por terra

O vento da outra noite atirou em baixo o Amor
que num canto do parque, o mais misterioso,
brandindo o arco traidor, sorria, malicioso,
e que um dia nos fez sonhar com tanto ardor!

O vento da outra noite o derrubou! O mármore
à brisa matinal rola, esparso. E contrista
olhar-se o pedestal, onde o nome do artista
se lê dificilmente entre as sombras de uma árvore.

Oh! como é triste ver somente o pedestal
de pé! E, no meu pobre e atormentado sonho,
os pensamentos maus vão e vêm, no medonho
pressentimento de um futuro ermo e fatal.

Como é triste! E tu mesma estás enternecida
com esse quadro, se bem que te distraia o olhar
aquela borboleta, ouro e púrpura, a voar
sobre as ruínas do Amor que juncam a avenida.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

O amor por terra

O vento derrubou ontem à noite o Amor
Que, no recanto mais secreto do jardim,
Sorria retesando o arco maligno, e assim
Tanta coisa nos fez todo um dia supor!

O vento o derrubou ontem à noite. À aragem
Da manhã gira, esparso, o mármore alvo. E à vista
É triste o pedestal, onde o nome do artista
Já mal se pode ler à sombra da ramagem.

É triste ver ali de pé o pedestal
Sozinho! e pensamentos graves vêm e vão
No meu sonho em que a mais profunda comoção
Imagina um porvir solitário e fatal

É triste! – E tu, não é?, ficas emocionada
Ante o quadro dolente, embora olhando à toa
A borboleta de oiro e púrpura que voa
Sobre os destroços de que a aléa está juncada.

                                                 

En Sourdine

Calmes dans le demi-jour
Que les branches hautes font,
Pénétrons bien notre amour
De ce silence profond.

Fondons nos âmes, nos coeurs
Et nos sens extasiés,
Parmi les vagues langueurs
Des pins et des arbousiers.

Ferme tes yeux à demi,
Croise tes bras sur ton sein,
Et de ton coeur endormi
Chasse à jamais tout dessein.

Laissons-nous persuader
Au souffle berceur et doux
Qui vient à tes pieds rider
Les ondes de gazon roux.

Et quand, solennel, le soir
Des chênes noirs tombera,
Voix de notre désespoir,
Le rossignol chantera.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Em surdina

Calmo, na paz que difunde
a sombra nos altos ramos,
que o nosso amor se aprofunde
neste silêncio em que estamos.

Coração, alma e sentidos
se confundam com estes ais
que exalam, enlanguescidos,
medronheiros e pinhais.

Fecha os olhos mansamente
e cruza as mãos sobre o seio.
Do teu coração dolente
afasta qualquer anseio.

Deixemo-nos enlevar
ao embalo desta brisa
que a teus pés, doce, a arrulhar,
a relva crestada frisa.

E quando a noite sombria
dos carvalhos for baixando,
o rouxinol a agonia
da nossa alma irá cantando.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Em surdina

Calmos, na sombra incolor
Que dos galhos altos vem,
Impregnemos nosso amor
Deste silêncio de além.

Juntemos os corações
E as almas sentimentais
Entre as vagas lassidões
Das framboesas, dos pinhais.

Cerra um pouco o olhar, no teu
Seio pousa a tua mão,
E da alma que adormeceu
Afasta toda intenção.

Deixemo-nos persuadir
Pelo sopro embalador
Que vem a teus pés franzir
As ondas da relva em flor.

A noite solene, então,
Dos robles negros cairá,
E, voz da nossa aflição,
O rouxinol cantará.

                        

Colloque sentimental

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l’heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l’on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

– Te souvient-il de notre extase ancienne?
– Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne?

– Ton coeur bat-il toujours à mon seul nom?
Toujours vois-tu mon âme en rêve? – Non.

Ah ! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches! – C’est possible.

– Qu’il était bleu, le ciel, et grand, l’espoir!
– L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Colóquio sentimental

No velho parque frio e abandonado
duas sombras passaram, há bocado.

Dos olhos mortos, seus lábios, tristes, pendem
e as palavras que dizem mal se entendem.

No velho parque frio e abandonado,
dois espectros evocam o passado.

– Recordas-te do nosso enlevo, outrora?
– Para que queres que me lembre agora?

– Ainda, se ouves meu nome, o coração
te bate? Ainda me vês em sonho? – Não.

– Ai, o bom tempo de êxtase indizível
em que as bocas unimos! – É possível.

– Como era azul o céu e esperançoso!
– A esperança se foi no céu umbroso.

Tais, pela relva trêmula seguiam
e só a noite ouviu o que diziam.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Colóquio sentimental

No velho parque frio e abandonado
Duas formas passaram, lado a lado.

Olhos sem vida já, lábios tremendo,
Apenas se ouve o que elas vão dizendo.

No velho parque frio e abandonado,
Dois vultos evocaram o passado.

– Lembras-te bem do nosso amor de outrora?
– Por que é que hei de lembrar-me disso agora?

– Bate sempre por mim teu coração?
Vês sempre em sonho minha sombra? – Não.

– Ah! aqueles dias de êxtase indizível
Em que as bocas se uniam! – É possível.

– Como era azul o céu, e grande, o sonho!
– Esse sonho sumiu no céu tristonho.

Assim por entre as moitas eles iam,
E só a noite escutou o que diziam.

                                                 

                         De La bonne chanson (1870):

                        
Le foyer, la lueur

Le foyer, la lueur étroite de la lampe;
La rêverie avec le doigt contre la tempe
Et les yeux se perdant parmi les yeux aimés;
L’heure du thé fumant et des livres fermés;
La douceur de sentir la fin de la soirée;
La fatigue charmante et l’attente adorée;
De l’ombre nuptiale et de la douce nuit,
Oh ! tout cela, mon rêve attendri le poursuit
Sans relâche, à travers toutes remises vaines,
Impatient mes mois, furieux des semaines!
                        

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O lar, o resplendor

O lar, o resplendor da lâmpada velada;
o divagar com a fronte entre as mãos apoiada
e os olhos se perdendo entre os olhos amados;
a hora do chá sutil e dos livros fechados;
o êxtase de sentir a tarde agonizante;
o lânguido cansaço; a espera inebriante
da sombra nupcial dentro da noite mansa…
Oh! atrás disso tudo o meu sonho se lança,
a contar, apesar de demoras insanas,
impacientemente, os meses e as semanas!

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

O lar, a estreita luz

O lar, a estreita luz de uma lâmpada honesta:
O desvaneio com um dedo contra a testa
E os olhos a sumir nos olhos bem-amados;
A hora do chá cheiroso e dos livros fechados;
O prazer de sentir o fim de uma noitada;
A adorável fadiga e a espera idolatrada
De uma sombra nupcial e de uma noite doce,
A tudo isso o meu sonho terno dedicou-se
Sem tréguas, contra vãs dilações cotidianas,
Devorando, impaciente, os meses e as semanas!

                        

                        
Le bruit des cabarets

Le bruit des cabarets, la fange des trottoirs,
Les platanes déchus s’effeuillant dans l’air noir,
L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,
Et roule ses yeux verts et rouges lentement,
Les ouvriers allant au club, tout en fumant
Leur brûle-gueule au nez des agents de police,
Toits qui dégouttent, murs suintants, pavé qui glisse,
Bitume défoncé, ruisseaux comblant l’égout,
Voilà ma route — avec le paradis au bout.

 

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O ruído dos cafés

O ruído dos cafés; a lama das calçadas;
os plátanos pelo ar desfolhando as ramadas;
o ônibus, furacão de rodas e engrenagens,
enlameado, a ranger num rumor de ferragens
e girando o olho verde e rubro das lanternas;
os operários a caminho das tavernas,
com os cachimbos à boca a afrontarem os guardas;
paredes a ruir; telhados de mansardas;
sarjetas pelo chão resvaladiço e imundo, –
tal meu caminho, – mas com o paraíso ao fundo.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

A voz dos botequins

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
Os plátanos largando no ar as folhas pretas,
O ônibus, furacão de ferragens e lodo,
Que entre as rodas se empina e desengonça todo,
Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
Cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
Paredes e beirais transpirando imundícia,
A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.

                     

                         De Jadis et naguére (1884):

                        
Art poétique

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.

C’est des beaux yeux derrière des voiles,
C’est le grand jour tremblant de midi,
C’est, par un ciel d’automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles !

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance !
Oh ! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor !

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L’Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l’Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine !

Prends l’éloquence et tords-lui son cou !
Tu feras bien, en train d’énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l’on n’y veille, elle ira jusqu’où ?

O qui dira les torts de la Rime ?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d’un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime ?

De la musique encore et toujours !
Que ton vers soit la chose envolée
Qu’on sent qui fuit d’une âme en allée
Vers d’autres cieux à d’autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym…
Et tout le reste est littérature.
                                                 

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Arte poética

                         a Charles Morice

Música acima de qualquer cousa,
E prefere o Ímpar, menos vulgar,
Que é bem mais vago e solúvel no ar,
Que nada pesa e que em nada pousa.

É bom também que saibas medir
Teus termos, não sem certo descuido:
Nada melhor do que o poema fluido
Que ao Indeciso o Preciso unir.

É um lindo olhar entre rendas raras,
É a luz que treme ao sol vertical,
É, por um céu de calma outonal,
A mescla azul das estrelas claras!

Nós só queremos o meio-tom,
Nada de Cor, somente a Nuança!
Oh! A Nuança é que faz a aliança
Do sonho ao sonho e do som ao som!

Evita sempre a Ponta daninha,
O cruel Espírito e o Riso alvar,
Que apenas fazem o Azul chorar,
E esse alho, enfim, de baixa cozinha!

Toma a eloquência e esgana-a! Farás
Bem em agir energicamente,
Tornando a Rima um tanto obediente.
Quem sabe lá do que ela é capaz?

Oh! quem diria os males da Rima?
Que criança surda, ou negro imbecil
Terá forjado essa joia vil
Que soa falsa e vã sob a lima?

Música, sempre e cada vez mais!
Seja o teu verso a cousa evolada
Que vem a nós de uma alma exilada
Em outros céus para outros ideais.

Seja o teu verso a boa aventura
Esparsa ao áspero ar da manhã,
Que vai cheirando a giesta e hortelã…
E tudo mais é literatura.

                        

                         tradução de Augusto de Campos:

Arte poética

                         A Charles Morice

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto, o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Pesar palavras será preciso,
Mas com certo desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
O lusco-fusco no meio-dia
A turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a Nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
nuance, só, que nos afiance
o sonho ao sonho e a flauta na alma!

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,
Frase de espírito, Riso alvar,
Que o olho do Azul faz lacrimejar,
Alho plebeu de baixa cozinha!

A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
E convém empregar de uma vez
A rima com certa sensatez
Ou vamos todos parar no fosso!

Quem nos dirá dos males da rima!
Que surdo absurdo ou que negro louco
Forjou em jóia este toco oco
Que soa falso e vil sob a lima?

Música ainda, e eternamente!
Que teu verso seja o vôo alto
Que se desprende da alma no salto
Para outros céus e para outra mente.

Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enche de aroma ótimo e a hortelã…
E todo o resto é literatura.

                        

(poemas de Paul Verlaine, traduções de Guilherme de Almeida, Onestaldo de Pennafort e Augusto de Campos)

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