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XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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tradução

3 traduções para 1 poema de Paul Celan

celan-paul

recentemente eu conversava com a poeta adelaide ivánova sobre o poema “engführung” do celan. ela me explicava os versos bonitos e falava sobre as traduções existentes para o português. fiquei encafifado com o dito poema e no começo dessa semana pedi ao guilherme gontijo flores que o traduzisse. ele, pronta e maniacamente, traduziu. em pouquíssimas horas. o resultado é esse que vocês podem conferir abaixo.

como o poema é demasiado grande, deixarei linkadas as outras traduções que encontrei na internet, pra não deixar o post irritantemente longo. encontrei, na revista zunái, uma tradução feita por simone homem de mello (clique aqui). uma outra tradução encontrada foi a feita por claudia cavalcante (clique aqui). infelizmente, não consegui encontrar online a tradução feita por flávio kothe.

 

sergio maciel

 

* * *

 

ENGFÜHRUNG

VERBRACHT ins
Gelände
mit der untrüglichen Spur:

Gras, auseinandergeschrieben. Die Steine, weiß,
mit den Schatten der Halme:
Lies nicht mehr – schau!
Schau nicht mehr – geh!

Geh, deine Stunde
hat keine Schwestern, du bist –
bist zuhause. Ein Rad, langsam,
rollt aus sich selber, die Speichen
klettern,
klettern auf schwärzlichem Feld, die Nacht
braucht keine Sterne, nirgends
fragt es nach dir.
*

Nirgends
fragt es nach dir –

Der Ort, wo sie lagen, er hat
einen Namen – er hat
keinen. Sie lagen nicht dort. Etwas
lag zwischen ihnen. Sie
sahn nicht hindurch.

Sahn nicht, nein,
redeten von
Worten. Keines
erwachte, der
Schlaf
kam über sie.
*

Kam, kam. Nirgends
fragt es –

Ich bins, ich,
ich lag zwischen euch, ich war
offen, war
hörbar, ich tickte euch zu, euer Atem
gehorchte, ich
bin es noch immer, ihr
schlaft ja.
*

Bin es noch immer –

Jahre.
Jahre, Jahre, ein Finger
tastet hinab und hinan, tastet
umher:
Nahtstellen, fühlbar, hier
klafft es weit auseinander, hier
wuchs es wieder zusammen – wer
deckte es zu?
*

Deckte es
zu – wer?

Kam, kam.
Kam ein Wort, kam,
kam durch die Nacht,
wollt leuchten, wollt leuchten.

Asche.
Asche, Asche.
Nacht.
Nacht-und-Nacht. – Zum
Aug geh, zum feuchten.
*

Zum
Aug geh,
zum feuchten –

Orkane.
Orkane, von je,
Partikelgestöber, das andre,
du
weißts ja, wir
lasens im Buche, war
Meinung.

War, war
Meinung. Wie
faßten wir uns
an – an mit
diesen
Händen?

Es stand auch geschrieben, daß.
Wo? Wir
taten ein Schweigen darüber,
giftgestillt, groß,
ein
grünes
Schweigen, ein Kelchblatt, es
hing ein Gedanke an Pflanzliches dran –

grün, ja
hing, ja
unter hämischem
Himmel.

An, ja,
Pflanzliches.

Ja.
Orkane, Par-
tikelgestöber, es blieb
Zeit, blieb,
es beim Stein zu versuchen – er
war gastlich, er
fiel nicht ins Wort. Wie
gut wir es hatten:

Körnig,
körnig und faserig. Stengelig,
dicht;
traubig und strahlig; nierig,
plattig und
klumpig; locker, ver-
ästelt –: er, es
fiel nicht ins Wort, es
sprach,
sprach gerne zu trockenen Augen, eh es sie schloß.

Sprach, sprach.
War, war.

Wir
ließen nicht locker, standen
inmitten, ein
Porenbau, und
es kam.

Kam auf uns zu, kam
hindurch, flickte
unsichtbar, flickte
an der letzten Membran,
und
die Welt, ein Tausendkristall,
schoß an, schoß an.
*

Schoß an, schoß an.
Dann –

Nächte, entmischt. Kreise,
grün oder blau, rote
Quadrate: die
Welt setzt ihr Innerstes ein
im Spiel mit den neuen
Stunden. – Kreise,

rot oder schwarz, helle
Quadrate, kein
Flugschatten,
kein
Meßtisch, keine
Rauchseele steigt und spielt mit.

*

Steigt und
spielt mit –

In der Eulenflucht, beim
versteinerten Aussatz,
bei
unsern geflohenen Händen, in
der jüngsten Verwerfung,
überm
Kugelfang an
der verschütteten Mauer:

sichtbar, aufs
neue: die
Rillen, die

Chöre, damals, die
Psalmen. Ho, ho-
sianna.

Also
stehen noch Tempel. Ein
Stern
hat wohl noch Licht.
Nichts,
nichts ist verloren.

Ho-
sianna.

In der Eulenflucht, hier,
die Gespräche, taggrau,
der Grundwasserspuren.
*

(– – taggrau,
der
Grundwasserspuren –
Verbracht
ins Gelände
mit
der untrüglichen
Spur:

Gras.
Gras,
auseinandergeschrieben.)

 

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Ruínas da Grande Sinagoga do Gueto de Varsóvia, 16 de maio de 1943.

ESTREITO

Enviados ao
terreno
com o inequívoco rastro:

capim, escrito à parte. As pedras, brancas,
com as sombras dos talos:
Leia não — olhe!
Olhe não — vá!

Vá, tua hora
não tem irmãs, você está —
está em casa. Uma roda, lenta,
gira em si mesma, os raios
sobem,
sobem em campo breu, a noite
não pede estrela, nenhures
perguntam por você.

*

Nenhures
perguntam por você —

O lugar onde jaziam tem
um nome — tem
nenhum. Não jaziam ali. Algo
jazia entre eles. Não
viam através.

Não viam, não,
falavam de
palavras. Nenhum
despertou, o
sono
veio sobre todos.

*

Veio, veio. Nenhures
perguntam —

Eu sou, eu,
eu jazia entre vocês, estava
aberto, estava
audível, tiquei pra vocês, seu alento
assentiu, sou
eu ainda, vocês
dormem sim.

*

Sou eu ainda —

anos.
Anos, anos, um dedo
tateia acima, abaixo, tateia
em torno:
Suturas, palpáveis, aqui
tudo se fende à parte, aqui
tudo se junta outra vez — quem
o cobriu?

*

O cobriu —
quem?

Veio, veio.
Veio uma palavra, veio,
veio pela noite.
queria luzir, queria luzir.

Cinzas.
Cinzas, cinzas.
Noite.
Noite-e-noite. — Vá
no olho, no úmido.


no olho,
no úmido —

ciclones.
ciclones, desde sempre,
borrasca de partículas, o outro,
você
bem sabe, nós
o lemos no livro, era
opinião.

Era, era
opinião. Como
nos tocamos —
como com
estas
mãos?

Também está escrito que.
Onde? Nós
fizemos silêncio sobre isso,
veneno-estático, imenso,
um
verde
silêncio, um sépalo, nele
pende um pensamento de vegetal —

verde, sim
pende, sim
sob um perverso
céu.

De, sim,
vegetal.

Sim.
Ciclones, borras-
cas de partículas, sobrou
tempo, sobrou,
pra tentar com a pedra – ela
foi acolhedora, ela
não cortava a palavra. Como
estávamos bem:

granulada,
granulada e fibrosa. Hasteada,
densa;
uval e radiante; renal,
plana e
grumosa; porosa, rami
ficada – ela, isso
não cortava a palavra,
falava:
falava com gosto a olhos secos, antes de cerrá-los.

Falava, falava.
era, era.

Nós
não cedemos, paramos
de pé no meio, um
prédio-poro, e
ele veio.

Veio sobre nós, veio
através, remendou
invisível, remendou
na última membrana,
e
o mundo, um milicristal,
medrou, medrou.

Medrou, medrou.
Então —

Noites, desmistas. Círculos
azuis ou verdes, rubros
quadrados: o
mundo põe seu mais íntimo
em jogo com as novas
horas. — Círculos,
rubros ou negros, claros
quadrados, sem
sombra de voo,
sem
prancheta, sem
alma-fumo que sobe e segue o jogo.

Sobe e
segue o jogo —

No voo da coruja, junto
à lepra pétrea,
junto
às nossas mãos fugidas, na
mais nova recusa,
sobre
o para-balas no
paredão enterrado:

visível, de
novo: os
sulcos, os

coros, outrora, os
salmos. Ho, ho-
sianna.

Assim
estão de pé os templos. Uma
estrela
talvez mantenha a luz.
Nada,
nada está perdido.

Ho-
sianna.

No voo da coruja, aqui
as conversas, gris-dia,
dos rastros de aquíferos.

( — — gris-dia,
dos rastros de aquíferos —

Enviados ao
terreno
com
o inequívoco
rastro:

Capim.
Capim,
escrito à parte.)

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poesia, tradução

Ingeborg Bachmann

Nascida em Klagenfurt, Áustria, em 1926, Ingeborg Bachmann se tornou uma das mais interessantes poetas de língua alemã do pós-guerra. Influenciados pela poesia de Rilke e Celan, mas também por filósofos como Heidegger e Wittgenstein (doutorou-se em filosofia pela Universidade de Viena com a tese Recepção Crítica da Filosofia Existencial de Martin Heidegger), seus poemas, repletos de evocações da natureza e imagens herméticas apontam para o silêncio que está além das palavras e para o tempo que contém em si a própria superação.

Também refletem, como seria de se esperar em uma obra poética em língua alemã que se desenvolve sobretudo nos anos 50 (seus dois grandes livros de poesia, Die gestundete ZeiteAnrufung des grossen Baren são respectivamente de 1953 e 1956), a inquietação de um mundo que viu suas ilusões serem destruídas por bombardeios e câmaras de gás.

Todos esses temas, obviamente, não são capazes de explicar a beleza de seus poemas. É antes na maneira como os aborda, como os transforma em linguagem e símbolo que está sua força. Apesar de seu trabalho filosófico, Bachmann não foi autora de um tratado sobre o ser e o tempo, mas de um livro chamado Tempo Aprazado.

Aliás, esse também é o título de uma coletânea em português de sua poesia, que apesar dissopossui poemas de suas diversas fases, publicada, em uma edição bilingue, pela editora Assírio & Alvim de Portugal em 1992, tendo como tradutores João Barrento e Judite Berkemeier. É dessa edição que seleciono os três poemas que se seguem:

 

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

 

TEMPO APRAZADO

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areai sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães

Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

 

DIZER TREVAS

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.

Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.

Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.

A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.

E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.

Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.

 

bernardo lins brandão

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crítica, poesia, tradução

paul celan (20 de abril)

o corpo de paul celan (pseudônimo anagramático de paul antschel, nascido em 1920, na romênia, em czernowitz, hoje pertencente à ucrânia, filho de pais judeus falantes de alemão, que foram deportados e mortos num campo de concentração, em 1942; sendo que o próprio celan também viria a ser confinado, mas sobreviveria) foi encontrado no rio sena no dia 1 de maio de 1970. em geral, costuma-se estimar a data do seu suicídio no dia 20 de abril, talvez pela coincidência terrível/irônica com o aniversário de adolf hitler… por isso, hoje, esta postagem, à guisa de comemoração melancólica (& deixemos hitler em sua cova).

mas ela – a minha estória com celan – começa antes, lá por 2007, quando me (re)deparei com a sua poesia, numa edição bilíngue alemão-francês do livro atemwende (título de tradução difícil, que já recebeu roupagens portuguesas como “mudança de ar”, “mudança de respiração”, “sopro, viragem”, e eu mesmo considero a possibilidade mais inusitada de “ar-reverso”), que me assombrou no exercício de tradução/leitura, a partir de um alemão manco e de um grande esforço de dicionário. acabei traduzindo o livro inteiro, hoje devidamente engavetado, à moda horaciana, esperando sua maturação.

(aqui um intermezzo: eu já conhecia um pouco de celan, pela tradução de cláudia cavalcanti, mas antes de conhecer o alemão, & admito que aqueles versos pouco me interessaram – mais parecia estar diante de outro poeta surrealista. foi só diante do original que sofri este novo impacto, sempre amoroso, que só pode resultar em tradução, impetuosa, descontrolada, o único modo de conviver com uma obra de nos abala por completo: dar-lhe uma forma na pátria da língua).

foi pouco depois de terminar uma primeira versão, em 2008, que conheci mariana camilo de oliveira, que na época defendeu uma dissertação sobre a poesia de celan. conversamos, planejamos publicações com ensaio dela & tradução minha, mas vida veio e me levou – meu celan ficou na gaveta, e a dissertação dela, bem… acabou de sair pela 7letras!

essa foi minha grata surpresa da semana passada: já decidido a postar pelo aniversário de morte de celan, esbarrei no volume recém-lançado, uma finura, belo trabalho, cuidadoso, sensível, sensato; então, depois de devidamente devorá-lo, faço o seguinte: mostro trechos do livro, como uma espécie de comentário à poesia de celan, e depois exponho, pela primeira vez, algumas daquelas traduções de gaveta.

antes disso, apenas elenco uma bibliografia das traduções de celan em português. felizmente, o poeta tem recebido cada vez mais espaço no brasil – & encontro já os inevitáveis ecos de sua obra sobre os poemas de gente de peso, como cláudia roquette-pinto, age de carvalho e eduardo sterzi, dentre outros.

CELAN EM PORTUGUÊS:

A morte é uma flor: poemas do Espólio. Tradução de João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998.
Arte poética: o meridiano e outros textos. Tradução de João Barrento e
Vanessa Milheiro. Lisboa: Cotovia, 1996.
Cristal. Seleção e tradução de Cláudia Cavalcanti. São Paulo: Iluminuras, 1999.
Sete rosas mais tarde: antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.
Hermetismo e hermenêutica: Paul Celan: poemas II. Tradução de Flávio René Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; São Paulo: Instituto Hans Staden, 1985.

guilherme gontijo flores

COMENTÁRIOS:

“Realidade poética, texto que se projeta sobre si mesmo, que se constitui como realidade, pode-se dizer: como coisa. […] a hora que não tem irmãs é a hora da morte; a poesia não mais descreve a realidade, mas faz existir o campo enegrecido. O texto não está a serviço da representação, ou melhor: passa-se do texto-representação ao texto-realidade. Há […] uma preocupação do poeta em respeitar a realidade estética de sua poesia, quase inteiramente debruçada sobre a memória dos mortos.”

* * *

“A poesia de Celan não se cala diante do indizível, mas o cala. O silêncio é o modo de expressão adequado, o poema fala por seu silêncio. Mas o silêncio deve se manifestar, não pode existir só sem ser reduzido a nada– o silêncio não é, enfim, o nada. Algo que os poemas revelam e que devemos reter: o silêncio ruidoso que faz falhar a linguagem, não-mudo, que se faz ouvir.
Não devemos, contudo, apegar-nos a esta fórmula sem que isso tenha sido presentificado através do procedimento poético de Celan: seus cortes no interior mesmo da palavra, rupturas de unidades de sentidos, novas relações de sentido, isolamentos de palavras, prefixos e proposições em uma linha, traços (‘quando a matilha o atacou pelas costas –’, bem como ‘vescrevi cartas a –’), estrofes irregulares, questões sem resposta (‘a suave, a dolorosa, a rima alemã?’), brancos, interrupções violentas ou pausas, escalonamentos espaciais,389 asteriscos, linhas pontilhadas. Todas as marcas graficas, técnicas de silêncio ou de dizer o indizível, enfatiza Pajevic, são falantes. O silêncio – tal como é tematizado e explicitado através de tais técnicas – é a resposta poética ao uso abusivo da língua.”

* * *

“‘Escrevemo-nos’ – schreiben wir uns– Celan utiliza esta articulação atípica na língua alemã neste contexto no qual uma data-meridiano, por assim dizer, ressignifica ou reescreve um poema e nós nos escrevemosem direção às datas. O poeta parece querer reivindicar, também, seu gesto de recorrer aos fatos reais (não ser surrealista, como se lhe atribui durante um período). Reage com frustração e raiva, como comenta Harbusch, com a incompreensão a seus poemas: ‘Totalmente não herméticos’ – consta na dedicatória do livro Die Niemandsrose a seu tradutor inglês Michael Hamburger. O poeta diz a um amigo,em 1968: ‘Meu último livro é considerado cifrado. Acredite-me, cada palavra foi escrita com referência direta à realidade. Mas não, isso é o que não querem absolutamente entender…’”

* * *

“[O] excurso biográfico revela o intenso sofrimento do poeta nos últimos anos de vida, de uma vida dolorosa, intimamente imbricada à escrita – seja nos pedidos de socorro à Poesia, na retomada epistolar, nos intensos trabalhos de tradução e composição de poemas (inclusive e, por vezes, especialmente durante as internações), no caso Goll e sua permanente revivescência do “roubo” daquilo que era tão caro ao poeta – um trauma, talvez, ainda mais grave, que o priva de sua palavra; seja, também e de maneira especial, no convívio aturado com o constante fragmentar e fazer reviver a língua alemã (sempre materna e dos assassinos). A poética de Celan encontra-se em território próximo à morte, à retomada da língua e necessidade de fraturá-la. Trabalha-se às voltas com a morte – aquela que está no entorno da língua alemã, a morte produzida naquela língua, a morte daquelalíngua. A cicatriz na língua está sempre na iminência de ser aberta, é tecido frágil que não cerra.”

(In: OLIVEIRA, Mariana Camilo. “A dor dorme com as palavras”: A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.)

POEMAS DE ATEMWENDE / AR-REVERSO

DU DARFST mich getrost
mit Schnee bewirten:
sooft ich Schulter an Schulter
mit dem Maubeerbaum schritt durch den Sommer,
schrie sein jüngstes
Blatt.

TU PODES sem medo
servir-me de neve:
sempre que eu ombro a ombro
à amoreira atravessava o verão,
gritava sua mais nova
folha.

STEHEN, im Schatten
des Wundenmals in der Luft.

Für-niemand-und-nichts-Stehn.
Unerkannt,
für dich
allein.

Mit allem, was darin Raum hat,
auch ohne
Sprache.

DE PÉ, na sombra
da chaga aberta ao ar.

Por-nada-e-ninguém-De-pé.
Irreconhecido,
por ti,
só.

Com tudo que aqui tem espaço,
mesmo sem
língua.

SINGBARER REST – der Umriß
dessen, der durch
die Sichelschrift lautlos hindurchbrach,
abseits, am Schneeort.

Quirlend
unter Kometen-
brauen
die Blickmasse, auf
die der verfinsterte winzige
Herztrabant zutreib
mit dem
draußen erjagten Funken.

– Entmündigte Lippe, melde,
daß etwas geschieht, noch immer,
unweit von dir.

RESTO CANTÁVEL – silhueta
dele, que através
da escrita-foice trespassou silente,
à parte, ao lugar da neve.

Revirando
sob cometas-
sobrancelhas
a massa do olhar, na qual
deriva o coração-satélite
eclipsado miúdo
com a
centelha alcançada lá fora.

Lábio interdito, anuncia
que algo ainda acontece
perto de ti.

KEINE SANDKUNST MEHR, kein Sandbuch, keine Meister.

Nichts erwürfelt. Wieviel
Stumme?
Siebenzehn.

Dei Frage – deine Antwort.
Dein Gesang, was weiß er?

Tiefimschnee,
                       Iefimnee,
                                              I – i – e.

CHEGA DE ARTE-AREIA, chega de livro-areia, chega de mestre.

Sem lançar dados. Quantos
mudos?
Dez-e-sete.

Tua pergunta – tua resposta.
Teu canto, o que ele sabe?

Dentroemneve,
                               Entemeve,
                                               E – e – é.

WEGGEBEIZT vom
Strahlenwind deiner Sprache
das bunte Gerede des An-
erlebten – das hundert-
züngige Mein-
gedicht, das Genicht.

Aus gewirbelt,
frei
der Weg durch den menschen-
gestaltigen Schnee,
den Büßerschnee, zu
den gastlichen
Gletscherstuben und -tischen.

Tief
in der Zeitenschrunde,
beim
Wabeneis
wartet, ein Atemkristall,
dein unumstößliches
Zeugnis.

CAUTERIZADO pelo
vento em raios de tua fala
o palavrório multicor do con-
vivido – centi-
língua o meu/mau-
poema, o noema.

Des-
revolto,
livre
o caminho pela neve
antropomórfica,
neve penitente, às
hospitaleiras
salas e mesas glaciais.

Fundo
na fenda do tempo,
junto
ao gelo em favos,
aguarda, hausto-cristal,
o teu irrefutável
testemunho.

EINMAL,
da hörte ich ihn,
da wusch er die Welt,
ungesehen, nachtlang,
wirklich.

Eins und Unendlich,
vernichtet.
ichten.

Licht war. Rettung.

UMA VEZ,
eu o ouvi,
lavava o mundo,
invisível, noturno,
real.

Uno e Infidável,
desapareceu,
euou.

Luz nasceu. Salvação.

(trad. guilherme gontijo flores)

UM VÍDEO, POST-DICTUM
maurício cardozo empresta sua voz (e tradução) a paul celan, todesfugefunesfuga

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poesia, tradução

6 perspectivas do século XX sobre a morte

Aproveitando que hoje é o dia dos mortos, decidimos fazer uma pequena seleção de poemas curtos que tematizem ou de algum modo discutam a morte, a partir de seis poetas distintos do século XX (e dois deles ainda vivos no século XXI), de línguas e/ou nacionalidades distintas. Da língua portuguesa, os sempre populares Fernando Pessoa (o ortônimo no caso) e Carlos Drummond de Andrade; do inglês, Wallace Stevens, com o trecho número 5 do poema mais longo “Manhã de Domingo”, em tradução minha; do alemão, “PAISAGEM com seres de urna…” do romeno Paul Celan, em tradução do nosso próprio guilherme gontijo flores; do francês, “Esse Pedaço de Céu…” de Jacques Roubaud, traduzido por Inês Oseki-Dépré no volume Algo Preto, pela editora Perspectiva, livro dos poemas de Roubaud dedicados à sua mulher falecida (e o poema postado em questão seria, significativamente, o último do livro); e, por último, mas não menos importante, temos, do polonês, o poema “Álbum” da ganhadora do Nobel, Wislawa Szymborska, traduzido por Regina Przybycien, do volume intitulado simplesmente Poemas recentemente publicado pela Companhia das Letras.

Arnold Böecklin - A Ilha dos Mortos

Iniciação
– Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
…………………………………………….
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
…………………………………………….
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre ciprestes.
…………………………………………….

Neófito, não há morte.

Os Ombros Suportam o Mundo
– Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Manhã de Domingo
– Wallace Stevens

5

Diz ela, “Ainda que contente, sinto
Carência duma graça imperecível.”
A morte é mãe do belo; e dela vem,
Só, a realização dos nossos sonhos
E desejos. Embora espalhe as folhas
Da obliteração em nossas vias,
A via da mágoa enferma, as várias vias
Onde há o férreo clangor do triunfo, ou
O amor sussurra um pouco por ternura,
Ela faz o chorão tremer ao sol
Pra donzelas que sentam-se e observam
Por sobre a relva, entregues até os pés.
Faz rapazes num prato empilhar novas
Peras e ameixas. As donzelas provam
E apaixonadas vagam nos folhedos.

(tradução de Adriano Scandolara)

PAISAGEM com seres de urna...
Paul Celan

PAISAGEM com seres de urna.
Conversa
de boca-fumo a boca-fumo.

Comem:
a trufa-sanatório, fatia
de poesia insepulta,
achou língua e dente.

Um lágrima reflui ao seu olho.

A canhota, órfã
parte do marisco-
peregrino – elas se ofertaram
depois te enlaçaram –
reluz à espreita no espaço:

o jogo de clinques contra a morte
pode começar.

(tradução de guilherme gontijo flores)

ESSE PEDAÇO DE CÉU…
– Jacques Roubaud

Este pedaço de céu
doravante
te é consagrado

em que a face cega
da igreja
se encurva

complicada
por uma castanheira,

o sol, ali
hesita
deixa

um vermelho
ainda

antes que terra
emita

tanta ausência

que teus olhos
se exprimem

de nada

(tradução de Inês Oseki-Dépré)

Álbum
– Wislawa Szymborska

Ninguém na família nunca morreu de amor.
O que passou, passou, mas nada que alimente um mito.
Romeus tísicos? Julietas diftéricas?
Alguns até atingiram uma idade senil.
Nenhuma vítima de falta de reposta
a uma carta manchada de lágrimas!
Ao fim e ao cabo sempre aparecia algum vizinho
de pincenê carregando um buquê.
Nunca ninguém sufocou num armário estiloso
porque o marido da amante voltou de repente!
Nenhuma mantilha, babado ou fita
nunca impediu ninguém de aparecer na foto.
E nunca na alma o Bosch infernal!
E nunca com uma pistola pelo quintal!
(Faleceram de bala na cabeça, mas por outros motivos
e em macas de campanhas.)
Mesmo essa de coque extático
e olheiras fundas como depois de uma folia
se foi em meio a uma grande hemorragia
mas não para ti, dançarino, e não com pena.
Talvez alguém muito antes do daguerreótipo –
mas desses no álbum, nenhum, que eu tenha sabido.
As tristezas se desfaziam em risos, corriam os dias
e eles consolados sumiam-se de gripe.

(tradução de Regina Przybycien)

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