poesia

Emily Dickinson e suas traduções – Parte I

Emily_Dickinson

[esta é a primeira parte deste ciclo de postagens; para as postagens posteriores: parte II (sobre a tradução de Ivo Bender), parte III (sobre a tradução de Isa Mara Lando), parte IV (sobre a tradução de Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

Fazia um tempo já que eu andava querendo redigir um post sobre a poeta Emily Dickinson (1830 – 1886). Mas acontece que eu sou uma pessoa metódica. Gosto de chegar aos poetas primeiro lendo alguns poemas menores, porém importantes, depois passar para um ou outro “grande poema”, por assim dizer, para ter uma impressão geral, aí depois ir lendo os outros (“poemas secudários”, por assim dizer) e, para não perder o costume, pensando daí em começar a traduzir a sério. Foi assim que eu fiz com Shelley, por exemplo, lendo primeiro poemas curtos como “Ozimândias”, “Ode ao Vento Oeste” e tal, depois o Prometeu Desacorrentado e O Triunfo da Vida, ou com Mallarmé, lendo os poemas famosos (“Brinde”, os túmulos, “Santa”, etc), depois “A Tarde de um Fauno” e “Um Lance de Dados” para então ir atrás dos poemas menos famosos, e assim por diante. A obra de Dickinson, no entanto, é a completa antítese desse tipo de método de leitura: ela é composta de nada menos do que 1775 poemas curtos, dentre os quais alguns se destacam, mas não há um grande projeto ou um grande poema. Também não há divisões em livros, então não se pode dizer algo como “comece pelo livro tal”, como se pode sugerir para alguém que queira começar a ler, digamos, Wallace Stevens, para que comece pelo seu Harmonium. É uma sensação um pouco desorientante.

Desnecessário dizer que essa sensação continua quando se pensa em traduzi-la. No geral, eu gosto de ter em mente quais poemas já foram traduzidos, por quem e como, antes de começar a empreitada. Via de regra, dou preferência para os poemas de um determinado autor que ainda não foram traduzidos. Se um determinado poema for difícil de traduzir, já tiver sido traduzido nos mesmos moldes que eu empregaria (no condizente a metro e rima, por exemplo) e o tradutor tiver feito um bom trabalho, ainda que possa sempre ser feito o argumento da inesgotabilidade das traduções, corre-se o risco de ter a impressão de estar chovendo no molhado. É óbvio que esse não é o caso quando 1) o poema não é particularmente trabalhoso de se traduzir (vide o nosso post sobre os carrinhos vermelhos de mão), 2) eu e o tradutor anterior tenhamos uma proposta de tradução diferente, ou 3) o tradutor fez um trabalho ruim – e eu comecei a traduzir Shelley justamente por achar que o trato que José Lino Grünewald lhe deu foi, para sermos francos, péssimo. Enfim, esta é apenas uma preferência pessoal, mas creio que haja outros tradutores que possam se comportar de forma semelhante. Imagino por isso que, tendo em mente essa dificuldade de sequer começar a ler Dickinson, dê para ver o porquê de eu ainda não ter arriscado traduzir nenhum poema dela. Pois bem, considerando que temos já aqui no escamandro alguma “tradição”, por assim dizer, de postagens comparativas de traduções, meu propósito agora é, com esta e mais 4 postagens futuras, além de prestar a devida homenagem a esta imensa voz (acho que poucos irão de discordar da opinião de que ela e Whitman são os dois grandes poetas nascidos nos EUA que escreveram no século XIX), fazer o devido trabalho de apresentar cada um dos livros de tradução de poesia de Dickinson, pelo menos os 4 que tenho comigo em minha biblioteca – há outros volumes de que tenho notícia, mas ainda estou desenvolvendo o meu acervo aos poucos.  Quem quiser pode conferir o projeto da UNESP, clicando aqui que lista, senão todos, quase todos os volumes de tradução de Dickinson para o português… meus agradecimentos à Denise Bottmann por ter me mostrado esse projeto nos comentários. E, com isso, planejo também catalogar quais poemas cada tradutor verteu para o português e como – um trabalho que eu imagino que poderá ser útil para qualquer um que tenha interesse por traduzir a autora.

Esses 4 volumes são os seguintes: Poemas escolhidos (L&PM Pocket, 2005), tradução de Ivo Bender, Não Sou Ninguém (Ed. da UNICAMP, 2008), tradução de Augusto de Campos, Loucas Noites / Wild Nights (edição da tradutora, 2009) de Isa Mara Lando, e A Branca Voz da Solidão (ed. Iluminuras, 2011), tradução de José Lira. Uma vez feito esse trabalho inicial com esses 4 livros, imagino que eu poderei mais tarde dar continuidade ao projeto, conforme minha biblioteca for crescendo.

Só tracemos antes, então, uma brevíssima biografia de Dickinson: nascida em 10 de dezembro de 1830, em Amherst, no estado de Massachusetts, ela recebeu a sua educação formal na Amherst Academy, onde pôde estudar todas as disciplinas que o currículo científico do século XIX podia ofertar – astronomia, botânica (uma das favoritas dela), química, geologia, matemática, história natural, filosofia natural e zoologia –, o que, curiosamente, acabou tendo um reflexo posterior considerável em sua poesia. Não que Dickinson seja particularmente científica em seu tratamento do mundo, mas nota-se que há toda uma atenção às minúcias do mundo natural (sobretudo no tocante a insetos e plantas, num uso que vai muito além da simbologia comum dos mesmos que se pode encontrar nos poemas do século XIX) e que parece ser própria dela. Apesar de alguns de seus poemas, porém, terem um toque espiritualizado, o ensino religioso na escola não era muito de seu interesse. No mais, porém, os estudos que Dickinson recebeu nos parecem surpreendentemente modernos (lembremos, era a metade do século XIX!), quando se considera que a Amherst Academy tinha quase o mesmo currículo para meninos e meninas e enfatizava o crescimento intelectual das moças, com os deveres domésticos sendo subordinados aos acadêmicos. Enfim, ao que me parece, ela estava longe de ser uma escola que educasse as mulheres “para arranjar marido”.

Dickinson sai da Amherst Academy aos quinze anos, para entrar no Mount Holyoke Female Seminary e adquirir o grau final de educação formal disponível às mulheres da época – mas ela passa apenas um ano lá, antes de voltar para casa. No entanto, se os estudos pareciam demonstrar um grande avanço para a situação das mulheres, a sociedade ainda era – desnecessário glosar – extremamente hostil para qualquer mulher que se pretendesse independente, e das filhas solteiras esperava-se que cuidassem dos trabalhos domésticos – uma subordinação à qual Dickinson, é claro, tinha aversão.

Foi na década de 1850 que ela começou a escrever poesia, e muitos de seus poemas foram lidos por sua amiga Susan Gilbert, a quem Dickinson enviou mais de 300 cartas. Mais tarde, após Susan casar-se, as duas começaram a se afastar, e Emily passou a fazer amizades com pessoas de outros círculos, das quais destacamos o jornalista Samuel Bowles e o crítico Thomas Wentworth Higginson, que passou a ser o seu grande leitor e interlocutor a partir de 1862. O período entre 1855 e 1865, que lhe rendeu uma má fama de “reclusa” (que derivava, na verdade, de uma indisposição a dedicar tanto tempo, como era o costume à época, a reuniões sociais e visitas e todo o trabalho doméstico que isso acarretava), foi dos mais produtivos, e ela compôs 1.100 poemas ao longo dessa década. Foi Bowles quem primeiro publicou seus poemas entre 1858 e 1868 – sempre brutalmente mutilados, no entanto, visando neutralizar a estranheza dos versos de Dickinson e adequá-los para os padrões estéticos e gramaticais da época, apagando, inclusive, o excesso de travessões que viria a se tornar algo como uma marca registrada da poeta. O mesmo se sucedeu com as publicações de Higginson e com o seu primeiro livro de poemas publicados de fato em 1890, quatro anos após Dickinson morrer e legar à sua irmã Lavinia inúmeros fascículos costurados a mão contendo sua obra. Mesmo com as alterações, o livro foi um sucesso, mas o primeiro volume completo só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1955, editado por Thomas H. Johnson. Mesmo essa edição, no entanto, ainda portava as cicatrizes das alterações causadas pelas edições anteriores, e a edição definitiva, completa e restaurada, é assustadoramente recente: 1998, editada por R.W. Franklin.

Como disse, em português, de que tenho notícia, há esses quatro volumes de traduções, mas deve haver um número muito maior de poemas publicados em periódicos e coletâneas e antologias por aí. O infame Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, por exemplo, organizado e traduzido por José Lino Grünewald, conta com os poemas “A word is dead”, “I never saw a moor”, “The pedigree of honey”, “I died for Beauty” e “Because I could not stop for death”. Grünewald, porém, mantendo o espírito do século XIX, se esforça para enquadar as particularidades de Dickinson dentro de uma normalidade (de pontuação, aliás) e acaba, inclusive, cortando o seu uso dos travessões (e não dá nem para dizer que ele o faz por ter tido acesso a uma versão anterior dos originais ou algo assim… a edição é bilíngue, você pode ver os travessões sendo engolidos no caminho). Por isso, por propósitos de catalogamento, listo aqui os poemas que Grünewald traduz, mas não os compartilho.

Em vez disso, gostaria de compartilhar com vocês uma tradução de Paulo Henriques Britto do poema “There’s a certain Slant of light”. Uma coisa que eu precisava comentar é a forma dos poemas de Dickinson: a maioria deles (não posso arriscar dizer todos, evidentemente) é escrita na forma do ballad meter, i.e. quadras rimadas em esquema abab (ou xaxa, em que x indica uma não-rima) alternando tetrâmetros com trímetros jâmbicos. Num artigo intitulado “Uma forma humilde”, Britto propõe a possibilidade de se traduzir essa forma do inglês, muito ligada à poesia popular, para a forma, também associada à poesia popular lusófona, da redondilha maior. Além disso, os versos de Dickinson apresentam irregularidades métricas, muitas vezes ocorrendo a omissão de um pé métrico, o que Britto viu por bem adaptar inserindo irregularidades métricas nos seus heptassílabos, fazendo com que alguns versos tivessem ora 7 versos, de fato, ora 6, ora 8. Uma solução engenhosa.

Nos próximos posts, então, eu planejo dar continuidade a este trabalho, apresentando cada um dos volumes de tradução de Dickinson, com uma descrição da abordagem e listagem dos poemas inclusos: de Ivo Bender, de Augusto de Campos, de Isa Lando e de José Lira.

PS: há mais alguns poemas da Dickinson em tradução de Maurício Santana Dias e Silvana Moreli Vicente Dias que foram publicados recentemente na Modo de Usar & Co (clique aqui).

(Adriano Scandolara)

        

Às vezes, em Tardes de Inverno

Às vezes, em Tardes de Inverno,
Uma Luz Enviesada —
Como o Som das Catedrais
Opressora, Pesada —

Nos fere com Dor Divina —
Porém cicatriz não fica
Senão no fundo de nós,
Onde o Sentido habita —

É o Selo do Desespero —
A ele — Nada lhe Falta —
Angústia imperial
Que nos desce do alto

Quando vem, a Terra atenta —
Sombras — param no ar —
Quando vai, é como a Morte
Ao Longe, a se afastar —

        

There’s a certain Slant of light

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —

(Emily Dickinson, tradução de Paulo Henriques Britto)

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crítica, poesia

As verdadeiras formas do nada

É difícil negar que Paulo Henriques Britto seja um dos principais nomes da poesia brasileira contemporânea – bem como da tradução literária também (tendo recentemente traduzido o beemote que é o Contra o Dia, de Thomas Pynchon). E o certo frisson causado nos círculos literários pelo lançamento de seu último livro de poemas, Formas do Nada (Cia das Letras), há alguns meses já, é prova disso. Sendo assim, não poderíamos ficar sem comentá-lo aqui no escamandro, uma tarefa que se provou ser mais difícil do que eu esperava, em parte porque o problema que apontarei neste comentário no desenvolvimento da poética de Britto é um problema com o qual eu também preciso aprender a lidar pessoalmente.

Para quem não conhece o autor, indico esta resenha do meu amigo Irinêo Baptista Netto, que saiu no jornal Gazeta do Povo, em abril, onde está apresentada de uma forma muito clara – a clareza que só os jornais podem ter – a trajetória do autor, seu currículo, publicações, etc, e o que podemos ver como um dos apelos de sua poética, que é como ele atinge o poético através do banal e do cotidiano, com a própria linguagem do cotidiano (nenhuma novidade para quem tem contato com uma certa tradição oralizante, de Horácio a Wordsworth e além, mas digno de nota pelo modo como Britto incorpora isso).

Quem, porém, já conhece Britto de outros carnavais, não deve ter se surpreendido com Formas do Nada, encontrando nele, além daquilo comentado no artigo da Gazeta, a já esperada preferência pelas formas fixas (sobretudo a do soneto) e rimadas (com algum gosto pela rima toante e imperfeita), com poemas às vezes escritos em grupos (“Cinco sonetos frívolos”, “Seis sonetos soturnos”, etc), a dicção que mescla o erudito e o cotidiano, com uma certa timidez, que me soa como bastante típica de quem passa a vida na companhia dos livros, além de, claro, o seu típico tom pessimista/melancólico. Tudo bastante familiar. Pois Britto não é Ferreira Gullar, que transitou entre o neoconcretismo, a poesia de cordel, a poesia engajada, a poesia suja e hoje anda fazendo estranhas revisitações sentimentais da poesia do século XX. Em vez de procurar a experimentação e a variedade, Britto foi atrás da definição de uma voz poética, símbolos e temáticas muito próprias e distintivas, a contrapelo do que quer que se estivesse em voga na época – e isso fica evidente desde os seus primeiros livros, na medida em que Liturgia da Matéria, publicado em 1982, em nada lembra o que se esperaria de um poeta carioca dos anos 80. Não deixa de ser louvável que ele tenha conseguido se estabelecer como poeta sem o apoio de uma cena, um grupo de outros poetas semelhantes.

E acredito que Britto tenha mantido bem o seu fôlego poético ao longo dos anos, como espero demonstrar com os poemas que selecionei e transcrevi abaixo – 3 poemas tirados de seu último livro, que, além de compartilharem o fato de serem o número 5 nas séries em que aparecem (pura coincidência, juro), são também particularmente fortes.

Cinco sonetos frívolos

    V

Súbito? Não. A coisa morre à míngua,
um risco vira traço e o traço, ponto.
Por exemplo: uma manhã de domingo, a
mesa posta pro café, tudo pronto
pra não se fazer nada – ou então
a noite de uma terça-feira inane,
sob o quebranto da televisão –
mas isso não importa; que se dane
o tempo, e o lugar também (um boteco?
o elevador?) – pois chegou ao final
um processo previsível, perverso,
trivial, que reduziu o universo
a uma bolinha de papel, da qual
você se livra com um peteleco.

Biographia literaria

    V

Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo. É talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda

não está na foto, não – não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou se estivesse sem foco, ou tremida,

ou se fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo

você não lembra. A foto é muito boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.

Seis sonetos soturnos

    V

As coisas sempre podem piorar.
Não há limite para o abismo estreito
que se abre justamente no lugar
onde a relação entre causa e efeito
parece indicar que a crosta é mais dura
e é mais remoto o risco da ruptura.

E no entanto, aberta a fenda, uma vez
desmascarada a aparência enganosa
de integridade e estrita solidez,
a mente busca uma saída honrosa
e com algo assim por fim se contenta:
Agora sei onde a corda arrebenta.

Refeita, pois, do golpe, e sem temer mais nada,
expõe um novo flanco à próxima porrada.

*

Como eu disse, Britto tem mantido um estilo mais ou menos estável desde o seu início de carreira, mas, pelo que fica evidente sob um olhar mais detido, uma análise de sua trajetória poética revela o que eu gostaria de chamar de um processo de destilação do seu estilo.

Explico. Se observarmos, por exemplo, os seus primeiros livros, Mínima Lírica e Liturgia da Matéria, veremos técnicas e procedimentos que Britto abandonou no caminho, de modo análogo a como as impurezas vão sendo deixadas para trás por um processo de destilação – digamos, num alambique. Não que esses procedimentos, sobre os quais me deterei agora, sejam “impurezas” por si, mas, em alguns casos, eles talvez diluíssem um pouco aquilo que Britto tinha a dizer, que agora ele declara quase que sem distrações.

A primeira coisa que me salta aos olhos na comparação com os livros anteriores é a falta de poemas de temática amorosa, que apareciam sobretudo nos primeiros livros e um pouco ainda nos poemas em inglês em Macau, de forma mais comedida – e, em se falando de poemas em inglês, eles também são uma minoria em Formas do Nada, se resumindo ao poema “Lagniappe” (uma palavra estranha que quer dizer, talvez algo significativamente, um brinde) e às auto-traduções.

Em segundo lugar, sumiram o humor e a escatologia. A sujeira, a preocupação com as coisas mais baixas do corpo, de poemas como “Concerto campestre” (Liturgia), “Um pouco de Strauss” (Trovar Claro) e “O Metafísico Constipado” (Tarde), por exemplo, estão ausentes aqui. Contraste também as aberturas, sempre metapoéticas (outra constante) de Macau, que se inicia com o poema “Biodiversidade” (e só), com a sequência de vários poemas metapoéticos que abrem Formas do Nada: contra a imagem absurda e cômica do poema como um cágado virado com as pernas pro ar, temos agora versos tácitos como “A coisa vai mal”. E isso reflete ainda outra perda, que é a das imagens – pense na imagética de “9 variações sobre um tema de Jim Morrison”, também em Macau, ou outras imagens de efeito, como, anteriormente, “Bendita a boca, / essa ferida funda e má” (“Elogio do mau”, Liturgia) e “O tempo era uma lagarta enorme / sem patas” (“Mantra”, Mínima Lírica), etc. Alguma coisa imagética ainda sobrevive aqui e ali, como em “Pequeno manual de retórica”, ou o verso “Dias de amarrar barbante ao redor /do nada, e capturar um deus menor”, no primeiro dos “cinco sonetos frívolos”; mas a impressão que se tem é que Formas do Nada é o mais realista até então, onde reina nem mesmo uma realidade banal vista sob a ótica do fantástico, mas o mero banal. E ponto. Um poema como “Tríptico para hotel e sirene”, em três partes, é um sinal disso, assim como os sonetos que postei acima.

Tríptico para hotel e sirene

II

Esta é a hora inaugural da noite.
Toda a energia esbaldada do dia
agora se recolhe compungida
por trás das persianas. Seis e oito.

Escurece. Os prédios olham de esguelha
pro trânsito feroz, domesticado
a custo. Uma sirene desgrenhada
se esvai, desafinando. Seis e meia.

Alguém no quarto ao lado liga um rádio.
No corredor, uma risada breve
responde a um inaudível comentário.

Mais risos soltos: a noite promete.
Lá fora está escuro – estamos em maio,
o inverno se aproxima. Quase sete.

*
Mas o que mais se sente falta é daquela pontinha de experimentalismo, que deu resultados muito desengonçados no começo de carreira, como “Barcarola”, mas culminou no genial “Até segunda ordem” (Trovar Claro), escrito como uma série de mensagens que dão a entender o acontecimento de alguma atividade ilegal e clandestina, que fica sugerido ser o próprio ato poético. Talvez esse seja o passo para trás dado no desenvolvimento da poética que agora nos traz Formas do Nada. Sem todas essas coisas para dourar a pílula, como se diz, o que refulge aqui é algo que já aparecia lá em Liturgia, que é o tema do completo fracasso: “Falhei até no fracasso” (“Balancete”), “Então viver é isso” (“Duas Bagatelas”): o vazio, o nada (daí, evidentemente, o título). Do fracasso de uma empreitada qualquer falida ao fracasso definitivo do corpo, da memória, da vida, todas as coisas contra as quais não temos poder. A poesia que, em sua encarnação moderna, nasce do fracasso da palavra, da impossibilidade de se expressar claramente o que se queria e deveria expressar, é, assim, também outro fracasso, e, se a atividade de escrever para quase ninguém soava engraçadinho antes, agora já não se ri mais.

E assim vamos chegando ao principal problema de Formas do Nada. Há um probleminha, menor, de ser também um livro um pouco desigual – sobretudo por conta dos poemas que usam a forma fixa das quadras rimadas em redondilha –, mas o que talvez incomode mais seja esse vazio existencial que, sem nada que o dilua, acaba por tomar conta do livro e lembrar as noções do absurdismo – de Albert Camus (O Mito de Sísifo), Samuel Beckett, etc – de que a existência não tem sentido e que sofremos por tentar encontrar sentido nisso tudo, mas que se deve continuar vivendo mesmo assim, apesar disso, ainda que os autores absurdistas sejam, como os existencialistas, dos mais dolorosos e (com perdão do trocadilho sartreano) nauseantes de se ler. A única tentativa de restaurar algum “otimismo” aqui parte da tradução que Britto faz da ode 1.11 de Horácio (intitulada “Horácio no baixo” e postada já aqui, junto com tantas outras traduções), mas que, no contexto, não convence, nem anima, o carpe diem sendo facilmente incorporado pelo absurdismo. A questão acaba sendo não tanto se vale a pena incorporar (ainda que não declaradamente, mas as semelhanças são difíceis de ignorar) um pensamento nascido no pós-guerra, o momento indiscutivelmente mais desiludido e desesperado da história do Ocidente, mas ao que isso leva? Em Beckett, que melhor encarna o absurdismo, ainda que também seja muitíssimo cômico a princípio, a culminação é o silêncio, a pantomima, as micro-peças que duram entre 5 minutos e 30 segundos (vide Breath), o “nada a fazer” de Didi e Gogo.

Enfim, não é que eu esteja fazendo pouco caso de Formas do Nada – e, afinal, quem sou eu para isso? Não é essa a questão. É um livro de poemas sólido e, ainda que não meu favorito da carreira de Britto (para mim, esse lugar pertence a Macau), é muito acima da média, como espero ter demonstrado com os 3 sonetos que compartilhei, de evidente força emocional (“Você ainda era vivo”, um soco no estômago). No contexto da poesia brasileira contemporânea, então, especialmente em contraste com o que é produzido em alguns círculos, a poesia de Britto é ainda mais preferível por ter o mérito de conseguir manter sempre em vista o humano, algo que alguns escritores e leitores por vezes esquecem na empolgação frenética com a parafernália e a pirotecnia da linguagem. A questão é que, uma vez destilada e nua, a poética de Britto nos leva a isso: ao nada, sem as distrações do humor, das imagens impactantes, das relações humanas, e feito tão evidente por esse processo de destilação que está aberto e escancarado na própria capa.

(Adriano Scandolara, poemas de Paulo Henriques Britto.)

(Agradecimentos ao Irinêo, pela resenha e pelas conversas à época do lançamento do livro; ao Guilherme por ter me acompanhado na discussão e na evolução do pensamento sobre o assunto todo; e à Letícia, pela empréstimo da metade da bibliografia que me faltava)

PS: para quem caiu aqui procurando uma análise para o vestibular da UFMG: utilizem minhas opiniões por sua conta e risco. Não me responsabilizo pelo resultado de ninguém no vestibular.

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crítica de tradução, poesia, tradução

horácios na ode 1.11 “a leuconoe”

a imagem acima resume o ponto: esta ode de horácio é a mais pop, mesmo que nem tanta gente a tenha lido integralmente. o mote expresso no carpe diem é o resumo de um topos clássico para viver o agora, sem confianças no que possa vir ou não, no dia seguinte.

não pretendo aqui fazer uma apresentação da poesia de quinto horácio flaco (65 a.c. – 8 a.c.), das suas quatro obras (epodos, sátiras, odes & epístolas); mas, como tem virado uma praxe aqui no blog, mostrar uma série de traduções & terminar com a minha.

não pretendo aqui fazer uma crítica digna de cada tradução. em resumo, eu diria que elas são bem variadas (amém!), mas tendem para duas escolhas mais gerais: a) o uso dos versos mais tradicionais (decassílabos e hexassílabos, em geral com mistura entre eles; com o caso do britto, que opta por dodecassílabos na sua recriação); e b) verso livre (tanto do augusto de campos e do paulo leminski, com a visualidade centralizando o texto, quanto o verso mais longo e de levada anapéstica de leandro cardoso). da minha parte, como projeto que tem me consumido ultimamente (a saber, traduzir TODAS as odes de horácio, para o doutorado), tentei recriar o poema com um verso mais longo, ligeiramente anapéstico, que pudesse recriar o efeito de estranheza que o metro original devia ter gerado num romano, pouco acostumado aos metros que horácio incorporou dos gregos em suas odes (catulo também já tinha feito isso com certa sistematicidade, mas com um uso bem mais restrito quanto ao número de formas poéticas). além disso, tentei passar um pouco da secura do poema, seu tom austero e moral, sem penduricalhos (ou, como diria horácio, persicos apparatus).

antologia tradutória, ou quantos horácios cabem num poema?

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

(quintus horatius flaccus)

* * *

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

(filinto elísio)

* * *

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

(elpino duriense)

* * *

A Leucônidis

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto:
Os vaticínios babilônios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os assentes da Sorte.

Ou Jove te destine mais invernos
À curta idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as taças
De doce vinho, apouca as esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no futuro.

(josé agostinho de macedo)

* * *

A Leucótoe

            Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
            Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão-de ser, se curtas, se compridas;

            Se o escuro lago Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
            Se neste hórrido inverno
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

            Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
            Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

(andré falcão de resende)

* * *

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
            a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
            melhor é suportar
            tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
            quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
            cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
            corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
            Enquanto conversamos
            foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

(péricles eugênio da silva ramos)

* * *

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
            Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

(ezra pound)

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
            Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

(ezra pound via adriano scandolara)

* * *

não me perguntes
                                – é vedado saber –
o fim
que a mim
e a ti
                               darão os deuses
                                                           Leucônoe
                               nem babilônios
números consultes                           antes
                               o que for           recebe
quer te atribua Júpiter muitos invernos
quer o último
                        que o mar tirreno debilita com abruptas
r
o
c
h
a
s
bebe o vinho                      sabe a vida                       e corta
a longa esperança
                                    enquanto falamos
                                                                        foge
                                                                                  invejoso
o tempo:          
                 curte o dia
                                       desamando amanhãs

(augusto de campos)

* * *

não me perguntes
                                 saber não presta
Leuconoe
                    que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
                        números de Babel
como se fosse o máximo – o que vier: fature

se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
                      agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
                                                                 sorva os coos
                                                                        prazo breve
                                                                        corta
                                                                        a espera
a era já era
                                                                antes do tempo de dizer
estamos conversados

pega este dia
                        crer no próximo
                                                      não vale um nihil

(paulo leminski)

* * *

ODES I, 11

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

Horácio no Baixo
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

(paulo henriques britto)

* * *

I, 11

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

(leandro cardoso)

* * *

1.11

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

(guilherme gontijo flores)

* * *

para os obcecados que chegaram até aqui & não se saciaram, um link com um punhado de versões para o inglês

guilherme gontijo flores

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poesia, tradução

6 icebergs imaginários

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é um caso interessante, sobretudo para nós brasileiros: tendo recebido uma espécie de bolsa de viagem em 1951, ela veio ao Brasil, onde era para passar apenas 2 semanas, mas acabou ficando por 15 anos. Por aqui ela morou em Petrópolis e Ouro Preto, tendo um longo relacionamento com a arquiteta Lota de Macedo Soares e conhecendo (tanto literaria quanto pessoalmente) vários poetas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, entre outros. Ela mesma fez traduções para o inglês – que planejo ainda apresentar aqui no blog – de poemas como “Poema de sete faces”, “Tragédia brasileira” e trechos de “Morte e vida severina” e ainda sambas e marchinhas carnavalescas.

Mas, apesar da alegria das viagens (entre a Europa, o Brasil, os EUA), sua história de vida foi bastante sofrida, com a morte do pai e a loucura da mãe, na infância, e, na idade adulta, a luta contra o alcoolismo e o suicídio de Lota em 1967. No entanto, ao contrário de tantos outros poetas de sua geração, que recorreram a um estilo altamente confessional, incluindo detalhes sórdidos de sua vida em seus poemas, Bishop ficou conhecida pelo caráter “objetivo” de sua poesia. De fato, ela raramente recorre a detalhes biográficos, exceto talvez em alguns detalhes, como a referência às três casas que ela perdeu no poema “Uma arte”, já postado aqui, (sendo elas as casas em Key West, Petrópolis e Ouro Preto) ou ao ritual do banho de xampu com Lota no terraço em Petrópolis no poema “Banho de xampu”. Sobre esse aspecto objetivo de sua poética, Paulo Henriques Britto – que traduziu cerca de 60 de seus poemas (ou seja, cerca de metade de toda a reduzida obra de Bishop) no volume O Iceberg Imaginário e outros poemas, lamentavelmente esgotado e com o preço extremamente inflacionado nos sebos – comenta que essa sua objetividade de observação deriva da influência do modernismo americano e que, nela, deriva de um “efeito do ‘interesse interiorizante’ que a guia na contemplação do mundo”.

Na minha opinião, a habilidade de Bishop repousa em um dom de romancista para captar detalhes narrativos, que ela passa a desenvolver cada vez mais a partir do 3º livro, Questões de Viagem, escrito já no Brasil. Poucos poemas seus são do tipo contemplativo-focado-no-próprio-umbigo, por assim dizer, e tendem a expor um rico mundo exterior com personagens, histórias e fundos interessantes. Vide, por exemplo, o poema “Posto de gasolina” (“Filling station”), onde as latas de óleo esso sugerem um “so, so, so” para os carros, que, em inglês, é o que se diz para se acalmar um cavalo nervoso, e esse tipo de detalhe prosaico, acredito, não seria estranho em um grande romancista americano.

O poema que compartilhamos aqui vem de seu primeiro livro, Norte e Sul, e é talvez o mais famoso (depois de “Uma arte”) e o apresentamos em 5 versões diferentes – mais o original, portanto, seis icebergs imaginários, à moda dos nossos muitos carrinhos de mão de William Carlos Williams. São traduções de Paulo Henriques Britto (retirada do volume homônimo e supracitado) e de Horácio Costa, mais uma minha e do Guilherme Gontijo Flores, daqui do escamandro, além de uma de um nome inédito por aqui que é o de Anderson Lucarezi. Lucarezi é um poeta novo, só um ano mais velho que eu, que tem poemas publicados na antologia do III Festival de Literatura da Letras/USP e muito recentemente lançou seu primeiro livro, Réquiem, pela editora Patuá. Ele também mantém o blog literário Tudo Está Dito, onde posta principalmente traduções de poemas (de Hart Crane, cummings, Jerome Rothenberg, entre outros), além de alguns poemas próprios.

Como com os carrinhos de mão de Williams, a ideia não é tentar superar-nos uns aos outros, mas de apresentar várias possibilidades da inesgotabilidade da tradução – várias facetas, talvez, cortadas por dentro.

Adriano Scandolara

The Imaginary Iceberg

We’d rather have the iceberg than the ship,
although it meant the end of travel.
Although it stood stock-still like cloudy rock
and all the sea were moving marble.
We’d rather have the iceberg than the ship;
we’d rather own this breathing plain of snow
though the ship’s sails were laid upon the sea
as the snow lies undissolved upon the water.
O solemn, floating field,
are you aware an iceberg takes repose
with you, and when it wakes may pasture on your snows?

This is a scene a sailor’d give his eyes for.
The ship’s ignored. The iceberg rises
and sinks again; its glassy pinnacles
correct elliptics in the sky.
This is a scene where he who treads the boards
is artlessly rhetorical. The curtain
is light enough to rise on finest ropes
that airy twists of snow provide.
The wits of these white peaks
spar with the sun. Its weight the iceberg dares
upon a shifting stage and stands and stares.

The iceberg cuts its facets from within.
Like jewelry from a grave
it saves itself perpetually and adorns
only itself, perhaps the snows
which so surprise us lying on the sea.
Good-bye, we say, good-bye, the ship steers off
where waves give in to one another’s waves
and clouds run in a warmer sky.
Icebergs behoove the soul
(both being self-made from elements least visible)
to see them so: fleshed, fair, erected indivisible.

Elizabeth Bishop. North & South. 1946.

O Iceberg Imaginário

    por Paulo Henriques Britto:

O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo comm as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?

Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.

É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como jóias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Bishop, E. O Iceberg Imaginário e outros poemas. SP: Companhia das Letras, 2001.

    por Horácio Costa:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora isto significasse o fim da viagem.
Embora ele estivesse melancólico, como pedra de nuvem
e todo o mar em volta fosse moção de mármore.
Preferimos o iceberg ao navio;
preferimos esta planície de neve que respira,
embora as velas do navio jazessem no mar
como segue no mar sem dissolver-se a neve.
Campo flutuante, solene, perceberás
que contigo um iceberg repousa,
que a seu despertar pastará as tuas neves?

Por esta cena um marinheiro daria os olhos.
O navio é ignorado. O iceberg sobe
e afunda de novo; seus pináculos de vidro
corrigem elípticas no céu.
Quem dissimular ante esta cena parecerá
artificialmente retórico. A cortina é o suficiente leve
para levantar-se a partir dos fios invisíveis
que as volutas de neve inventam.
As centelhas destas arestas brancas
competem com as do sol. O iceberg invade
com seu peso um cenário cambiante, e pára, e observa.

Este iceberg lapida-se de dentro as faces.
Como jóias deixadas num sarcófago
preserva-se perpetuamente e só a si
enfeita; talvez também o faça a neve
que tanto nos surpreendeu à flor d’água, inteira.
Adeus, dizemos, adeus, o navio se afasta
até onde as ondas a outras ondas cedem passo
e as nuvens correm por um céu mais cálido.
Os icebergs pedem à alma
(ambos se autoproduzem com elementos pouco visíveis)
vê-los assim: corpóreos, puros, eretos, indivisíveis.

Bishop, E. Poesias. SP: Companhia das Letras, 1990.

    por Guilherme Gontijo Flores:

Melhor seria o iceberg que o navio,
mesmo que fosse o fim da viagem.
Mesmo parado feito pedra, nuvem-pedra,
num mar de mármore revolto.
Melhor seria o iceberg que o navio;
melhor é este chão de neve, vivo,
mesmo que as velas tombem sobre o mar
feito neve insoluta sobre as ondas.
Solene campo flutuante,
sabe que um iceberg dorme contigo e, em breve
quando acordar, só pasta em tua neve?

Pela cena um marujo daria seus olhos.
Ignora-se o navio. O iceberg sobe
e afunda; o píncaro de vidro
corrige elípticas no céu.
Pela cena, quem passa nesta prancha
tem retórica tosca. A leve
cortina sobe em cordas finas
criadas no ar convulso em neve.
A astúcia das agulhas brancas
confronta o sol. Seu peso, o iceberg ousa
num palco instável, então olha e pousa.

O iceberg corta as facetas que há por dentro.
Feito joias na tumba,
eternamente salva-se e adorna
somente a si, talvez à neve,
que nos surpreende sobre o mar.
Adeus, dizemos,  e o navio parte
onde as ondas dão ondas uma à outra,
e as nuvens correm para um céu mais quente.
Um iceberg cabe à alma
(os dois se inventam do menos visível),
por vê-lo assim: carnal, concreto, indivisível.

    por Adriano Scandolara:

Preferíamos o iceberg ao navio,
ainda que fosse o fim da viagem.
Ainda que imóvel, nebulosa rocha,
e o mar todo fosse ondas de mármore.
Preferíamos o iceberg ao navio;
esta planície tão viva de neve
por mais que as velas estejam ao mar
como na água a neve indissoluta.
Campo flutuante e solene,
tens ciência de que o iceberg descansa
contigo e pasta sua neve quando levanta?

Pela cena um marujo daria os olhos.
Ignorado o navio. O iceberg sobe
E afunda outra vez. Seus píncaros vítreos
corrigem elipses no céu.
Pela cena quem pisa no convés
Vira um retórico sem arte. Leve,
Sobe a cortina nas mais finas cordas
das voltas aéreas da neve.
A astúcia desses alvos cumes
enfrenta o sol. Num palco móvel, para
O iceberg, disputa seu peso e encara.

O iceberg corta suas facetas por dentro.
Como joia tumular
ele salva a si, sempre, e adorna
somente a si, talvez as neves
que tanto surpreendem sobre o mar.
Adeus, damos adeus, parte o navio
aonde as ondas a outras ondas cedem
e as nuvens correm num céu mais morno.
Icerbergs clamam à alma
(ambos são de elementos invisíveis)
que os veja assim: carnais, firmes, indivisíveis.

    por Anderson Lucarezi:

Preferimos o iceberg ao navio,
embora indique o fim da viagem.
embora seja fixo em nuvem pétrea
e o mar um mármore que é móvel.
Preferimos o iceberg ao navio;
Preferimos ar do campo nevado
embora as velas tombem sobre o mar
enquanto jaz a neve sobre as águas.
Ó solene campo flutuante,
tens noção de que junto a ti repousa um iceberg
que ao acordar poderá pastar em tuas neves?

Tal cena um marujo paga pra ver.
O navio obscuro. O iceberg sobe
e afunda de novo; seu pico vítreo
corrige as elipses céu acima.
Quem quer que pise dentro desta cena
expõe retórica reles . O pano
é leve o bastante pras finas cordas
que frágeis flocos de neve fornecem.
Todo o engenho destes lumes brancos
duela com o sol. Seu peso o iceberg enfrenta
em cima do palco instável no qual se assenta.

O iceberg corta facetas por dentro.
Tal joias que há em um jazigo
ele se salva eternamente e adorna
apenas a si, talvez as neves
que surpreendem ao jazer no mar.
dizemos adeus, o navio se afasta
onde ondas cedem a outras ondas
e nuvens correm em um céu mais morno.
Estes icebergs incumbem à alma
(ambos feitos de elementos pouco visíveis)
de assim vê-los: encorpados, indivisíveis.

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poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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