Valediction de John Donne, por Pedro Mohallem e Matheus Mavericco

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Esse aqui é o famoso poema do compasso. Coleridge uma vez escreveu, salvo engano num diário ou uma coisa assim, que ninguém além de Donne poderia ter escrito este poema. De fato: posto pela primeira vez numa folha de papel chamex reciclado (pode acreditar, foi assim mesmo) em 1611 ou 1612, antes de Donne fazer uma viagem para o continente europeu, “A Valediction: Forbidding Mourning” foi dedicado à esposa do poeta, Anne. Só em 1633, todavia, é que o poema sairia na coletânea Songs and Sonnets, três anos antes de sua morte.

Quem quiser tentar entender o que é a tal da poesia metafísica pode ler um poema desses e pronto. Missão cumprida. Helen Gardner, respeitável especialista em poesia barroca inglesa, disse que a poesia desses caras se assemelha a um epigrama expandido. É difícil chegar a outra conclusão quando se lê, por exemplo, as três últimas estrofes de “Forbidding Mourning”. Depois desse período, diz Eliot em sua arquifamosa resenha para a antologia de poesia metafísica feita por um camarada chamado Herbert Grierson, ocorreria uma dissociação da sensibilidade, no sentido de que “A tought in Donne was an experience; it modified his sensibility” – sensibilidade, aqui, entendida em contraponto com o que Browning ou Tennyson séculos depois sentiriam, isto é, “they are poets, and they think; but they do not feel their thought as immediately as the odour of a rose.” A comparação com Eliot poderia seguir em frente, é claro, se nos lembrarmos que uma imagem como a do compasso é bem o que Eliot tinha em mente ao cunhar o conceito do “correlato objetivo”: objetos, imagens, descrições que consigam dar concreção àquilo que é vago, abstrato. A poesia metafísica fez isso como ninguém, e não espanta que Augusto de Campos peça para que comparemos o “Forbidding Mourning” a textos como “Mulher vestida de gaiola” de João Cabral: em Donne “os conceitos são coisificados por uma sensibilidade simultaneamente sintética e analítica, que lhes dá um corpo para, à força de dissecá-lo, nomear o impalpável.”

O argumento do poema é simples: o amor que o poeta tem para com sua amada é um amor diferente. Allen Tate fala até de um lugar-comum cristão: por meio de um amor maior e mais elevado, o amor físico dos amantes se expande e se apura. Não é o “Dull sublunary lover’s love”, isto é, aquele amor comum que existe no plano terrestre, todo sujo de dedos humanos, e que fica por aí mesmo (“Whose soul is sense”). O poeta começa comparando a despedida com a morte de um homem virtuoso: ora, uma pessoa virtuosa é alguém que consegue projetar sua alma para além de seu corpo, fazendo com que sua fama chegue muito mais longe do que ele, em vida, conseguiu chegar. A brandura com que esse homem virtuoso morre é um modo de apaziguar a esposa a quem o poema é dedicado, mesmo porque não adiantaria que ele começasse falando de uma despedida violenta (algo como uma peixeirada no estômago). Que sentido faria, se o poema surgiu como “se acalme, voltarei logo, tamo junto”? A segunda estrofe consegue mostrá-lo muito bem. Não adianta fazer todo um escarcéu. O mesmo com a terceira: por mais que no plano terrestre as coisas se deem de maneira abrupta, no plano das esferas a trepidação, “Though greater far, is innocent.”

Como a alma dos amantes se desprendeu de planícies mundanas e se enlaçou num âmbito maior, tornando-se apenas uma, então, por conseguinte, se os dois se encontram separados, isto não quer dizer que tenham deixado de estar juntos. Na verdade, a separação momentânea dos dois é um modo de expandir o alcance daquele amor: “but an expansion”, dirá o poeta estrofes depois. A mesma lógica da alma do homem virtuoso, só que, aqui, comparada à ideia do compasso. Quer dizer: sabemos que a poesia barroca se viu numa dualidade essencial entre a vida do espírito, a investigação metafísica e a investigação científica do mundo ao redor. Que Donne tenha incorporado uma invenção relativamente recente, o compasso (que alguns chegam a atribuir a Galileu, contemporâneo do poeta), a um poema que retrata a persistência do amor especialmente numa zona “so much refined”, é surpreendente (se bem que Aíla de Oliveira Gomes diz que o par de compassos é o “mais discutido conceit da poesia metafísica daquela época”).

O círculo é um símbolo clássico da perfeição, e o círculo com um ponto no meio é um símbolo alquímico do ouro. A esse respeito, lembre-se do verso “Like gold to airy thinnes beat”, mas lembre-se também (e quem faz este comentário de grande perspicácia é o Pedro) que o poema todo possui 36 versos, um número que é correspondente direto do 360 (o número de graus de uma circunferência) e que é divisível por 9, número que representa a quase perfeição. É a firmeza da amada servindo de esteio, de baliza, de alicerce para a peregrinação prestes a ser feita, que permitirá ao eu lírico terminar onde começou, ou seja, fechando o círculo.

A tradução que vocês lerão abaixo é do meu amigo Pedro Mohallem, já apresentado aqui no escamandro. Tradução eu considero excelente e muito criativa, com soluções que demonstram que o Pedro entendeu direitinho o que Donne estava fazendo: basta que se observe o caso de “elementares / Princípios” ou “se move consoante o traço”, ou mesmo uma rima com a palavra “imos”. A maneira com que ele consegue criar uma tradução fluida é também admirável, se lembrarmos o comentário do Herbert Grierson de que a poesia do Donne tinha um desejo de se aproximar de uma linguagem prosaica (no que ele fecha com uma frase lapidar: “Poetry is always a balance, sometimes a compromise, between what has to be said and the prescribed pattern to which the saying of it is adjusted”).

De um modo geral quando o assunto é João Donne nós nos lembramos muito das versões que Augusto de Campos fez em meados da década de 50, muitas publicadas no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, sob a batuta de Mário Faustino. Claro que elas depois seriam ampliadas em Verso, reverso e controverso e depois em O anticrítico, mas começou foi aí. Tudo, aliás, começou aí: algumas das primeiras traduções da carreira do Augusto foram traduções de Donne. Se você quiser sentir um pouco o que representou para alguém em 1957 abrir o jornal e se deparar com uma bela tradução de um poema barroco, feita por um jovem desconhecido, você pode clicar nesse link aqui.

Todavia, apesar disto, é preciso ter em mente que pelo menos outros dois tradutores ilustres forneceram versões para este poema: Paulo Vizioli e Aíla de Oliveira Gomes. Do primeiro, faço notar que a versão a que tive acesso foi a inclusa no seu Poetas de Inglaterra, grande antologia que Péricles Eugênio da Silva Ramos havia organizado na década de 60 e que contava com algumas participações de Vizioli. Sabemos que na década de 80 Vizioli publicaria um livro com traduções de Donne (John Donne: o poeta do amor e da morte), livro este que inclusive deu ensejo a uma polêmica danada. Pois bem: esta segunda versão apresenta aqui e ali algumas diferenças, coisas bem pontuais ao que me consta, para com a versão primitiva da tradução. Como não tive acesso a esta segunda tradução de maneira completa, opto por reproduzir apenas a primeira, que é a que eu tenho aqui do meu lado.

 

Matheus Mavericco

* * *

DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Pedro Mohallem [2017]

Como os virtuosos que, a expirar, divisem,
Sussurrando-lhe adeus, o corpo da alma,
Enquanto alguns de seus amigos dizem
“Já não respira”, e outros dizem “Calma”,

Assim nos dissipemos, sem alarde,
Sem escarcéus de dor ou rios de pranto;
Fora nossa alegria profanar
Dizer aos leigos deste nosso encanto.

O abalo da terra aflige e apavora,
E o que ele traz em si todo homem sente;
O trepidar do firmamento, embora
Bem mais vasto se mostre, é inocente.

Maçante amor de amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não tolera
A ausência, que remove elementares
Princípios sob os quais se compusera.

Mas nós, por um amor tão refinado
Que sequer conhecemos os seus imos,
O pensamento mútuo-assegurado,
De olhos, lábios e toque prescindimos.

Assim, mesmo que eu parta, não serão
Partidas duas almas feitas uma:
Em vez de um rompimento, uma expansão,
O ouro batido à aérica espessura.

Sejam duas, o são à semelhança
Das duas rijas pernas do compasso:
Tua alma, a ponta fixa, não avança,
Porém se move consoante o traço;

E embora bem ao centro ela se assente
Ainda que a outra no horizonte suma,
Inclinando-se, busca-a atentamente,
E vendo-a regressar, logo se apruma.

Tal serás para mim, que ora preciso,
Como a outra perna, obliquamente andar;
Tua firmeza torna-me preciso
E faz-me onde começo terminar.

§

EM DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Augusto de Campos
em: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, 28/10/56.
Verso, reverso, controverso, Perspectiva, 1978, p. 140-143.
O anticrítico, Cia das Letras, 1986, p. 50-53.

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

 

§

DESPEDIDA PARA EVITAR O PRANTO
trad. Paulo Vizioli [1970]
em: Poetas de Inglaterra, Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo de SP, 1970, p. 74-75.

Como o doce passar dos virtuosos,
Que às suas almas sussurram que se vão,
Enquanto alguns amigos dizem tristes:
O sôpro vai-se agora, ou, ainda não;

Assim nos confundamos, sem ruídos,
Cheias de pranto, ou ventos de clamor;
Seria profanação de nosso júbilos
Aos leigos anunciar o nosso amor.

Mêdos e danos traz o terremoto,
Calcula-se o que fêz, ou tinha em mente;
O trepidar, no entanto, das esferas,
Ainda que bem maior, é inocente.

O obtuso amor de amantes sublunares
(No qual o tato é essência) não tolera
A ausência, uma vez que esta remova
O que seus próprios fundamentos era.

Nós, porém, com amor tão refinado
Que nem sabemos o que venha a ser,
Firmes no espírito, cuidamos menos
De olhos, de lábios e de mãos perder.

Então nossas duas almas, que são uma,
Mesmo com meu partir, ruptura séria
Não poderão sofrer, mas a expansão
Do ouro maleado a uma espessura etérea.

Se fôrem duas, serão duas como
As duas pernas gêmeas de um compasso:
Tua alma, a perna fixa, não se altera,
Mas se move, se eu, – a outra perna –, o faço.

E embora ela no centro permaneça,
Se a outra se distancia a viajar,
Inclina-se por esta e a segue atenta,
E se ergue enfim, quando ela volta ao lar.

Tal serás para mim, cuja viagem
À da outra perna, a oblíqua, se compara;
Tua firmeza justo faz meu círculo,
E faz-me terminar onde iniciara.

§

UMA DESPEDIDA: PROIBIDO CHORAR
trad. Aíla de Oliveira Gomes
em: Poesia metafísica, Cia das Letras, 1991, p. 48-49.

Como homens de virtude passam sem alarde,
Meio a sussurros em que entregam a sua alma,
Enquanto alguns amigos tristes dizem, é tarde,
Já não respira; e outros, inda não, tem calma:

Assim choremos nós, quietos, sem alarido,
Sem dilúvios causar ou mover tempestade,
Que nossa emoção se profana em alheio ouvido –
Falar de nosso amor, só muito à puridade.

Os movimentos da terra causam tremores,
E o homem calcula seus efeitos consequentes;
Mas trepidações nas esferas, tão maiores
Que abalos sísmicos, estas são inocentes.

No amor, os amantes do mundo sublunar
(Cuja alma está só nos sentidos) não suportam
Ausência – que ela pode desarticular
Os elementos que no seu amor se entrosam.

Mas nós – o nosso amor é tão mais refinado
Que nem podemos sondar seus múltiplos folhos,
Nosso espírito é tão coeso e afinado
Que nem ligamos para mãos, lábios ou olhos.

Embora eu tenha de partir, eu te asseguro
Que em nossas almas não haverá separação.
Elas são uma, e, assim como bloco de ouro
Que é distendido em folha, juntas ficarão.

Ou se elas são duas, serão duas apenas
Como duas, as hastes gémeas de um compasso:
Tu és a haste fixa, mas moves-te em verdade
Todas as vezes que a outra alma avança um passo.

E, enquanto a outra lã bem longe circunvaga,
Essa em seu centro, p’ra ela inclina-se depressa,
Solícita; e só se ergue de novo erecta
Quando a outra haste de sua viagem regressa.

Assim és tu p’ra mim, que, como a haste oblíqua,
Obliquamente vago distante de ti;
Tua permanência faz perfeitos meus circuitos
E ajuda-me a voltar ao ponto de que parti.

 

§

A VALEDICTION: FORBIDDING MOURNING
John Donne

As virtuous men pass mildly away,
And whisper to their souls to go,
Whilst some of their sad friends do say
“The breath goes now,” and some say “No”;

So let us melt, and make no noise,
No tear-floods, nor sigh-tempests move;
‘Twere profanation of our joys
To tell the laity our love.

Moving of th’ earth brings harms and fears;
Men reckon what it did and meant;
But trepidation of the spheres,
Though greater far, is innocent.

Dull sublunary lovers’ love
(Whose soul is sense) cannot admit
Absence, because it doth remove
Those things which elemented it.

But we, by a love so much refined
That ourselves know not what it is,
Inter-assurèd of the mind,
Care less, eyes, lips, and hands to miss.

Our two souls, therefore, which are one,
Though I must go, endure not yet
A breach, but an expansion
Like gold to airy thinness beat.

If they be two, they are two so
As stiff twin compasses are two:
Thy soul, the fixed foot, makes no show
To move, but doth, if th’ other do.

And though it in the center sit,
Yet when the other far doth roam,
It leans, and hearkens after it,
And grows erect, as that comes home.

Such wilt thou be to me, who must
Like the other foot, obliquely run;
Thy firmness makes my circles just,
And makes me end, where I begun.

Um soneto sacro de John Donne, por Matheus Mavericco

John Donne, por  Martin Droeshout, 1633
John Donne, por Martin Droeshout, 1633

John Donne (1572 – 1631) faz parte daquele grupo de poetas ingleses que posteriormente recebeu a imprecisa alcunha de “poetas metafísicos”. Após uma juventude boêmia, da qual resultaram alguns dos poemas mais tesos da língua inglesa, Donne entrou numa carreira clerical e foi ordenado pastor pela Igreja Anglicana em 1615. É dessa fase, não necessariamente após sua conversão ao anglicanismo, que datam os chamados “Sonetos Sacros”. Junto ao conjunto também de sonetos “La Corona”, são exemplares acerca não só da faceta sacra que a poesia de Donne assumiria a partir de então, como também exemplares no contexto geral da poesia barroca inglesa (vide, por exemplo, a poesia de George Herbert e Richard Crashaw) e da poesia barroca de modo geral (basta lembrar as dualidades profanas e sacras de Gregório de Mattos).

O soneto aqui traduzido é o décimo da sequência dos dezenove “Sonetos Sacros”. Dizem que Donne se adoentou por essa época e quase morreu. Mas sua fé era maior e a própria concepção de morte havia mudado o suficiente para que ele não se amedrontasse. Seu temor e sua devoção eram a Deus tão somente: outros sonetos da sequência, por exemplo o décimo quarto (que guarda a infeliz efeméride de ter batizado a experiência Trinity, o primeiro teste nuclear da história…), se inscrevem numa postura de flagelamento em prol da fé. A um poeta que em poemas anteriores havia conseguido poetizar o impoetizável, como ao falar de uma pulga, ou unir elucubração de matizes filosóficos e strip-tease, como na sua décima elegia (que foi parcialmente musicada por Caetano Veloso tendo como base a tradução de Augusto de Campos), Donne adota uma espécie de postura sacro-sadomasoquista. Veja-se a primeira estrofe do soneto XIV:

Meu coração, Trindade Santa, sova
Pra que o abata, abrande, brilhe e emende
E eu de novo levante; e então distende
E vergue e quebre e queime e me renova.

Houve quem dissesse que na sua poesia religiosa Donne quietou o faixo, se comparada com a poesia da juventude, mas não é bem por aí. Frank Kermode já mostrou que o famoso “wit” (algo parecido com o conceito de “engenho” na poesia ibérica) não havia abandonado o poeta nestes seus sonetos. É impossível não observar a inventividade metafórica, imagética e argumentativa que os poemas continuam ostentando, por exemplo. No caso do décimo soneto sacro, é só observar o terceiro quarteto, que, valendo-se de um esquema enumerativo nos dois primeiros versos que remetem à ideia certo modo onipresente que a Morte assumia no medievo, cai, nos dois restantes, no tom geral de desafio do soneto, mesclando inclusive uma referência a ervas que fazem dormir. Não é o tipo de coisa que se espera encontrar num poema religioso…

Pois a respeito disso que me referi sobre a mudança de concepção acerca da Morte, é salutar se compararmos o soneto de Donne com o poema “Os Versos da Morte”, de Hélinand de Froidmont. Escrito durante o século XIII, o poema é um dos primeiros a personificar a morte e a descrevê-la em seus tons implacáveis ainda hoje correntes. A Morte vem e acaba com tudo, é o que o poema quer nos dizer, sem deixar, claro, de manter um poderoso fundo religioso (Froidmont foi monge e também teve um passado libertino). Valendo-me da tradução de Heitor Megale para a edição da Ateliê, bastaria olharmos o começo da estrofe 28: “O que vale o que o século faz? / A morte logo tudo desfaz.” A sobreposição do poder temporal sobre o poder secular é visível, e, embora na estrofe 14 denuncie os falsos clérigos, na estrofe 46 diz: “A Igreja sabe, há muito tempo, / Qual é o bom, qual é o mau”. A concepção da morte, sendo assim, espelha uma maneira de manter a ordem na Cidade de Deus, cada um no seu quadrado e se preocupando, acima de tudo, em manter a fé (visto em especial na estrofe 26). A outra via, a de se aproveitar a vida partindo do princípio que, como não há como escapar da morte mesmo!…, característica do “carpe diem” (apregoado à exaustão por Robert Herrick, por exemplo, contemporâneo de Donne), é tratado no poema de Froidmont de maneira caricatural (estrofes 34 a 39).

O que muda com Donne é em grande parte uma mudança histórica. O homem barroco, frente ao infinito, ao fausto advindo das Grandes Navegações, ao nascedouro das ciências e das nações (e a Inglaterra, sem dúvidas, era ponta de lança em todo este processo, embora não tenha se lançado direta ou ostensivamente na predação colonial), adotava uma postura dúbia em relação à religião. A poesia dos “metafísicos” é rica em exemplos acerca disto; mas, para me limitar ao soneto em questão, posso muito bem apontar a já aludida valentia com que o eu lírico desafia a Morte, chegando até mesmo a dizer que a Morte morrerá. Quantos de nós, mesmo hoje, teríamos a audácia de dizer algo assim?! Em Froidmont, a fé era, como em Donne, fortaleza; mas Froidmont não chega a negar o poderio da Morte, mesmo considerando que você seja uma pessoa de fé inabalável. No caso de Donne é diferente, pois, mesmo na sua poesia religiosa, ele ressalta caracteres humanos. Se no soneto XIV, como creio que o leitor possa ter percebido só na primeira estrofe, o desejo era de que o corpo estraçalhado ao infinito como que refletisse o influxo da Santa Trindade no corpo da pessoa, aqui é a Morte corporificada que é levada a suas tensões mais basilares. Donne, como de certo modo todo barroco, é um poeta exagerado, e, do mesmo modo que sua postura penitencial no soneto XIV chegou às raias do masoquismo, sua compreensão da morte em sua dimensão humana, no soneto X, chegou às raias do pé de igualdade. Não quer dizer que, de todo, Donne tenha realmente menosprezado a morte. Na verdade, ele tem confiança pois está ao lado de Deus, e essa confiança de estar ao lado de Deus o permite menosprezar a morte: a morte morrerá depois do Juízo Final.

Fiquemos com o soneto. Quem quiser um excelente texto a respeito dos Sonetos Sacros de Donne poderá ler a dissertação de mestrado (UFSM, 2005) de Marcus De Martini, O sacro e o oblíquo: para uma tradução dos Sonetos Sacros de John Donne. É de Martini, em conjunto com Lawrence Flores Pereira, Traduzindo La Corona, de John Donne (2009). A tradução da faceta sacra da poesia de Donne é um fruto do terceiro momento de Donne no Brasil, conforme a divisão de José Garcez Ghirardi (John Donne e a crítica brasileira, editora AGE). Enquanto o primeiro foi representado pelas traduções de Augusto de Campos (primeiro em Verso, Reverso, Controverso, editora Perspectiva, e depois, expandido, em O Anticrítico, editora Cia das Letras), o segundo é representado por Paulo Vizioli (John Donne, poeta do amor e da morte, editora JC Ismael), o qual, apesar de ter traduzido alguns dos sonetos sacros, deu um enfoque muito maior à poesia juvenil do autor barroco. Já o terceiro, representado por Afonso Félix de Sousa, foi o que realmente se interessou de forma mais intensiva pela faceta sacra de Donne, o que a tradução do ciclo completo, mais La Coronna, facilmente o atesta. Seguem-se nomes como o de Aíla de Oliveira Gomes (Poesia Metafísica, editora Cia das Letras), Marcus de Martini, Paulo Henriques Britto (volume 4 da revista Inimigo Rumor) e, há um mês atrás, André Vallias (aqui).

A tradução de Afonso Félix de Sousa aparece aqui de forma parcial pois não tive acesso à obra (Sonetos de Meditação, editora Villa Rica). Cito com base no trecho analisado da dissertação de Marcus De Martini.

Matheus Mavericco

§

trad. Matheus “Mavericco”.

Morte, não te enalteças. Quem chamar-te
Forte e terrível, erra, pois não és,
E quem pensas matar, Morte, ao invés,
Não morre, nem matar-me é tua arte.
Descanso e sono, que de ti são parte,
Aprazem ― mais aprazem através
De ti, e os homens curvam-se a teus pés
Logo que o espírito do corpo aparte.
Serva da aflição, reis, destino e sorte,
Tu moras no veneno, guerra e doença;
Porém se ervas nos dão a sonolência,
Então por quê intumesces tanto, ó Morte?
Na vida eterna acorda ele que jaz:
Morte não é mais. Morte, morrerás.

§

trad. Jorge de Sena.

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
Poderosa e terrível, porque tal não és,
Já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
Não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.
Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
Muito maior prazer se tira em teu revés,
Pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
Ossos te deita e não seu esprito libertado.
Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
Magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
Melhores do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?
Despertamos no Eterno um breve adormecer,
E a morte não será, que Morte hás-de morrer.

§

trad. Paulo Vizioli.

Oh, Morte, não te orgulhes, pois ruim
Como dizem não és, medonha e forte;
Quem pensas que abateste, pobre Morte,
Não morre; nem matar podes a mim.
Se o sono, o teu retrato, agrada assim,
Contigo fluirá melhor a sorte;
E o bom, ao conhecer o teu transporte,
Descansa o corpo e se liberta enfim.
Serva de reis, destino, acasos e ânsia,
À droga, à peste e à guerra te associas;
E adormecem-nos ópios e magias
Mais que teu golpe. Então, por que a jactância?
Um breve sono a vida eterna traz,
E, vai-se a morte. Morte, morrerás.

§

trad. Afonso Félix de Sousa.

Orgulhosa não sejas, morte, embora te pensem
Poderosa e medonha, porque não és assim;
Porque esses, a quem pensas ter dado um fim,
Não morrem, pobre morte, e nem a mim tu vences.
Se do repouso e sono, tua imagem de calma,
Vem prazer, muito mais de ti deve fluir,
E contigo os melhores se aprontam para ir
Descansar dos seus ossos, e libertar sua alma.
(…)
E a morte sumirá. Morte, tu morrerás.

§

trad. André Vallias.

Donne Vallias

“A Segunda Vinda” de Yeats na Eutomia

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Saiu esta semana o vol. 1, n. 11 (jan/jun. 2013) da revista Eutomia. Pode-se acessar a tabela de conteúdos dela clicando aqui.

De minha parte, eu contribuí com a tradução de um dos poemas mais famosos do irlandês William Butler Yeats (1865 – 1939), “The Second Coming”, que reproduzo abaixo, junto com o original. Mas é óbvio que tem bem mais coisas legais por lá, incluindo um artigo interessantíssimo de autoria do poeta e tradutor Claudio Willer sobre poetas malditos, de Nerval a Baudelaire a Piva (aqui).

E aproveitando que estamos falando da Eutomia, numa edição anterior (edição 10, ano V, dez/2012), três de nós do escamandro (eu, o Guilherme e o Vinicius) contribuímos com um artigo sobre a nossa tradução do Paraíso Reconquistado de John Milton (clique aqui).

Bem, para não deixar este post muito sem nexo, só digo que de Milton a Yeats, há, segundo o crítico Harold Bloom, uma linhagem direta na ordem de influência, que passa por Shelley no meio do caminho. E, para efeitos de contraste, compartilho também a tradução de Paulo Vizioli, do (raro) volume W. B. Yeats (Cia. das Letras, 1992), à qual, digo desde já, acabei não tendo acesso quando fiz a minha, ainda que os resultados tenham sido bastante parecidos em alguns versos.

Adriano Scandolara

           

A Segunda Vinda

Gira e gira no vórtice crescente
Não escuta o falcão ao falcoeiro;
As coisas vão abaixo; o centro cede;
Mera anarquia é solta sobre o mundo,
Solta a maré de sangue turva, afoga-se
Por toda parte o rito da inocência;
Falta fé aos melhores, já os piores
Se enchem de intensidade apaixonada.

Por certo, há revelações a vir;
Por certo, há a Segunda Vinda a vir.
Segunda Vinda! Mal saem tais palavras,
E a vasta imagem do Spiritus Mundi
Perturba-me a visão: lá no deserto
Um vulto de leão com rosto de homem,
O olhar vago, impiedoso como o sol,
As lentas coxas move, tendo em torno
Sombras de iradas aves do deserto.
Cai a treva outra vez, mas ora sei
Que o pétreo sono de seus vinte séculos
Vexou-se ao pesadelo por um berço.
Que besta bruta, de hora enfim chegada,
Rasteja até Belém para nascer?

(tradução de Adriano Scandolara)

           

A Segunda Vinda

Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.

É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?

(tradução de Paulo Vizioli)

           

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

(poema de Yeats, traduções de Adriano Scandolara e Paulo Vizioli)