Elizabeth Barrett Browning (1806 – 1861), por Matheus Mavericco

Elizabeth_Barrett_BrowningDo pensador político William Godwin & a pioneira do feminismo Mary Wollstonecraft (e sua filha e genro, Mary e Percy Shelley) até, digamos, Sartre & Beauvoir, temos muitos exemplos fascinantes de casais de escritores famosos na história da literatura e das humanidades em geral, mas me parece que são poucos os casais de poetas propriamente dito – o que faz com que eles sejam casos ainda mais fascinantes, como Arthur Rimbaud & Paul Verlaine, Sylvia Plath & Ted Hughes, Pagu & Oswald de Andrade, Leminski & Alice Ruiz… e, como vocês já devem ter antecipado pelo título da postagem, Robert & Elizabeth Barrett Browning. Já postamos em dois momentos aqui poemas de Robert Browning, e agora enfim, por sorte, me surgiu a oportunidade de compartilhar com vocês, leitores do escamandro, algo da Elizabeth.

Nascida Elizabeth Barrett Moulton-Barrett em 1806, ela foi autora de alguns livros de poesia, dos quais podemos comentar a sua impressionante juvenília The Battle of Marathon (1820, um poema em imitação homérica, imaturo ainda, claro, mas mesmo assim melhor do que qualquer coisa que qualquer um de nós teria escrito aos 14) e An Essay on Mind, with Other Poems (1826), mais a tradução de Ésquilo Prometheus Bound (1833, depois revisada, melhorada e republicada em 1838) e depois os volumes The Seraphim and Other Poems (1838) e Poems (1844) – que fez com que ela ficasse famosa praticamente da noite para o dia em todo o mundo anglófono. Como coloca a sua biografia no site da Poetry Foundation, foi então que ela deixou de ser só mais uma “jovem poeta promissora” e se tornou uma “celebridade internacional”, “aclamada como uma das grandes vozes vivas da Inglaterra”. Por causa desse livro, Robert Browning (6 anos mais novo que ela, aliás) se interessou por Elizabeth e começou a lhe escrever, e foi essa relação entre os dois que inspirou os seus “Sonnets from the Portuguese”, um ciclo de sonetos amorosos disfarçados como traduções do português (tanto por motivos de privacidade quanto por causa da admiração dos dois poetas por Camões). O título é um pouco complicado de traduzir, já que pode ser entendido como “sonetos dos portugueses”, “sonetos (traduzidos) do (idioma) português” ou “sonetos da portuguesa”, considerando a perspectiva feminina deles e que “minha portuguesinha” era um dos apelidos carinhosos que Robert tinha por Elizabeth (não me perguntem). Escrito entre 45 e 46, ano em que os dois se casam, esse ciclo de sonetos foi incluído na reedição de 1850 de Poems. Ela também depois escreve o longo poema narrativo Aurora Leigh (1857), em 9 livros, e o seu último volume publicado chama Last Poems (1862), organizado por Robert um ano após a sua morte precoce, causada por uma doença misteriosa e o seu tratamento com láudano (ópio em solução alcoólica) que lhe deixou com a saúde ainda mais debilitada.

Do outro lado do Atlântico, Elizabeth foi uma influência imensa para poetas como Edgar Allan Poe e Emily Dickinson e, em nosso idioma, foi admirada e traduzida por figuras como Pessoa e Bandeira. De meu conhecimento, temos pelo menos três volumes de traduções de poemas dela: Sonetos da Portuguesa, de Leonardo Fróes (ed. Rocco), e Três Mulheres Apaixonadas, de Sérgio Duarte (Companhia das Letras), num volume que inclui, junto da Browning, também traduções de Gaspara Stampa e Louise Labé – e a esses dois volumes, soma-se também uma tradução em português lusitano chamada Sonetos Portugueses, de Manuel Corrêa de Barros (ed. Relógio d’Água).

Dito isso, deixo vocês com o nosso colaborador-convidado do dia, Matheus de Souza Almeida, conhecido como “Mavericco”. Eu “descobri” o Mavericco por acaso via o seu blog “Quanto ganha por ano em dólares Pedro Velásquez, em Havana”, onde ele posta traduções e comentários críticos sobre poetas diversos – leitura que recomendo a todos os nossos leitores, aliás. O Mavericco é goiano, nascido em 1992 e estudante de Direito e se descreve como “Aprendiz de tradutor e crítico mirim, tem a convicção de que quem não gosta de poesia contemporânea é doente do pé”. Ele me mandou 6 traduções (primorosas, eu diria) dos “Sonnets from the Portuguese”, mais um texto introdutório comentando a poeta e as suas traduções para o português, que eu compartilho abaixo.

E, ah, como um bônus também para os mais sentimentais, vocês podem conferir as cartas de Elizabeth (incluindo as trocadas com seu então futuro esposo) digitalizadas e publicadas online pela biblioteca da Baylor University, clicando aqui.

(Adriano Scandolara)

***

"Why how could I hate to write to you; dear Mr. Browning?" 3 de fevereiro de 1845, carta de Elizabeth a Robert.
“Why how could I hate to write to you; dear Mr. Browning?”
3 de fevereiro de 1845, carta de Elizabeth a Robert.

Elizabeth Barrett Browning (1806 – 1861) é quase que uma poeta nacional. Chamada carinhosamente por Mário de Andrade de Belinha Barreto, a autora encontrou nas mãos de Manuel Bandeira um intérprete que a fez se tornar um clássico quase tão firme quanto o é em sua língua de partida. Certo que existe todo um debate se as traduções de Bandeira são traduções mesmo; se olharmos de maneira mais detida, vamos observar que estão mais para paráfrases. Seja como for, é inegável a felicidade das recriações, ponhamos assim, de Bandeira, tanto que, sem espanto nenhum, ele incluiu algumas de suas traduções da autora (ao todo quatro) dentro do coração de sua obra: Libertinagem.

Sobre a vida da autora, o que primeiro impressiona é sua infância a um só tempo prodigiosa e mantida sob a égide da opressão patriarcal. Quem quiser procurar por informações acerca disso encontrará várias fofocas que demonstram o verdadeiro crápula que seu pai, Edward Moulton-Barrett, era. Por exemplo, lembram-se do Flush, aquele cãozinho simpático que a Virginia Woolf depois retrataria num romance delicioso? Pois é. Dizem que, quando a Elizabeth se casou, o pai dela matou o Flush… Aí vocês vejam que, basicamente, a vida de Belinha foi a vida de uma poeta de grande talento que até conheceu o biscoito fino de seu tempo, como um Wordsworth, mas que viveu presa num ambiente familiar graças às garras paternas e graças à sua saúde frágil. À sua personalidade também, podemos dizer.

Sua vida mudou inteiramente quando conheceu Robert Browning, o grande poeta vitoriano. Aí foi uma história de amor danada de linda, com direito a casamento escondido e troca de poemas, especialmente por parte de Elizabeth, até o momento em que ela conseguiu engravidar e viver sua vida curta de maneira alegre e pacata.

Do cortejo amoroso que travou com Robert, surgiram os Sonetos da portuguesa. Ao todo 44, são certamente uma das coletâneas poéticas mais queridas de toda a história da língua inglesa. Postos comumente ao lado de Shakespeare, é de se notar o apreço especial que Elizabeth tinha para com nosso Camões, donde uma das possibilidades de análise do título original (Sonnets from the portuguese). Ambiguidade esta que, dado conteúdo íntimo que percorrem os sonetos, encontra razão de ser. Lógico que em muitos sentidos isso é de uma hipocrisia enorme, pois o que os sonetos de Elizabeth expressam não é nada de mais, especialmente se comparados com os momentos mais acalorados do Bardo. Mas o machismo da época era assim e nós sabemos que até hoje ele não deixou muito de ser.

Elizabeth também escreveu o longo poema Aurora Leigh, cujo resumo é o de, numa estrutura até certo ponto autobiográfica, descrever o percurso da heroína rumo à carreira literária. Um retrato da artista quando jovem, digamos assim. Um forte contraponto ao The Prelude de Wordsworth.

Em relação à minha tradução, desde já eu deponho loas no caminho para os tradutores que vieram antes de mim, e aqui eu me refiro em especial ao próprio Manuel Bandeira, a Leonardo Froés e a Sérgio Duarte. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos.

Em Bandeira podemos louvar o pioneirismo e, malgrado o fato de que, enquanto traduções, deixam a desejar, podemos louvar também, é claro, os bons resultados a que chegou enquanto textos e enquanto divulgação da obra da autora em solo nacional. É um projeto que particularmente gosto de colocar ao lado do de Fernando Pessoa ao traduzir o “Catharina to Camoens”, onde, mais uma vez, podemos ver muito mais de Pessoa do que de Elizabeth.

Em Leonardo Froés, podemos destacar a grande seriedade em traduzir a obra toda, malgrado o fato de que aqui e ali ele acabe incorrendo em inversões sintáticas nem sempre presentes no texto original. E já em Sérgio Duarte, que talvez tenha sido o mais equilibrado entre os três, podemos perceber um contato em verdade mais próximo com os sonetos de Elizabeth especialmente no que tange a estrutura sintática tortuosa mas muitas das vezes clara, ou seja, veiculada sem inversões, mas com frequentes interrupções que até me lembram Emily Dickinson e a posterior aventura rumo ao monólogo interior, e no pequeno detalhe de que Sérgio Duarte traduziu os sonetos mantendo estritamente o esquema rímico do original.

Em meu projeto, quis manter a radicalidade das estruturas sintáticas de Elizabeth, algumas vezes até de forma mais radical que ela mesma, e adicionar um clima de pessoalidade ao substituir o “tu” por “você”. Em relação ao esquema rímico, busquei manter o ABBA/ABBA nos quartetos enquanto, nos tercetos, me vali de um esquema mais livre. A explicação acaba sendo simples, pois, na história do soneto, os tercetos sempre foram, digamos, muito problematizados, encontrando vários esquemas rímicos mesmo em Camões, enquanto os quartetos, por sua vez, no começo sempre ostentaram o esquema interpolado com dois ecos.

(Matheus de Souza “Mavericco” Almeida)

 

SONETOS DA PORTUGUESA

(…ou do português, ou dos portugueses, ou da portuguesinha)

VII.

O mundo inteiro está mudado, penso,
Desde que ouvi tua alma se movendo
Perto, perto de mim, entre o horrendo
Extremo do decesso óbvio e denso

E eu mesma, onde eu, em meu naufrágio intenso,
Fui pega pelo amor e o mais que vem do
Afeto: a vida em novo ritmo. Tendo
Aceito o pouco que Deus dá, convenço

A mim a mesma a louvá-Lo, e a te louvar.
E então o nome dos países muda
Tão logo você venha a se mudar;

E isto… esta canção!, agora muda,
(Os anjos sabem) com a tua ajuda
Eu sei que um dia irá se eternizar.

VII.

The face of all the world is changed, I think,
Since first I heard the footsteps of thy soul
Move still, oh, still, beside me, as they stole
Betwixt me and the dreadful outer brink
Of obvious death, where I, who thought to sink,
Was caught up into love, and taught the whole
Of life in a new rhythm. The cup of dole
God gave for baptism, I am fain to drink,
And praise its sweetness, Sweet, with thee anear.
The names of country, heaven, are changed away
For where thou art or shalt be, there or here;
And this… this lute and song… loved yesterday,
(The singing angels know) are only dear
Because thy name moves right in what they say.

 

XI.

E porque amar pode ser deserto,
Não sou de todo indigna. Rosto tal
Como o que você vê, joelhos mal
Aguentando um coração tão incerto —

Velho menestrel — certa vez desperto
Pra que escale o Aorno, e que igual
Ao rouxinol se põe a cantar, tal
Modo é triste — mas por quê disserto

Acerca disso? Amado, é simples: não
Sou digna de você! E, todavia,
Em te amar, eu recebo da paixão

A graça sem culpa de que eu te ame
Ainda, embora de forma vazia —
Pra te negar, por mais que eu te proclame.

 

XI.

And therefore if to love can be desert,
I am not all unworthy. Cheeks as pale
As these you see, and trembling knees that fail
To bear the burden of a heavy heart,–
This weary minstrel-life that once was girt
To climb Aornus, and can scarce avail
To pipe now ‘gainst the valley nightingale
A melancholy music,–why advert
To these things? O Beloved, it is plain
I am not of thy worth nor for thy place!
And yet, because I love thee, I obtain
From that same love this vindicating grace
To live on still in love, and yet in vain,–
To bless thee, yet renounce thee to thy face. 

XII.

De fato este amor é minha vanglória,
A qual, crescendo de meu rosto ao peito,
Me enaltece com joias de tal jeito
Nobres, que deixa aos outros bem notória

Minh’alma — meu amor, a minha glória,
Deste amor eu jamais terei proveito,
A não ser que você lembre o sem jeito
Com que cruzamos nossa trajetória

E amor se disse amor. Assim, não posso
Dizer do amor enquanto coisa minha:
Minhas forças sem forças, sem esforço

Você raptou e pôs em alto posto —
E o que sinto (ó alma!, eu desejo, eu torço!)
É por você, a quem amo sozinha.

XII.

Indeed this very love which is my boast,
And which, when rising up from breast to brow,
Doth crown me with a ruby large enow
To draw men’s eyes and prove the inner cost,–
This love even, all my worth, to the uttermost,
I should not love withal, unless that thou
Hadst set me an example, shown me how,
When first thine earnest eyes with mine were crossed,
And love called love. And thus, I cannot speak
Of love even, as a good thing of my own:
Thy soul hath snatched up mine all faint and weak,
And placed it by thee on a golden throne,–
And that I love (O soul, we must be meek!)
Is by thee only, whom I love alone.
XIII.

E que você me faça falar desse
Amor que sinto, procurando frases,
E guarde a chama, enquanto em nossas faces
O vento é áspero — pra que a acendesse

Em nós? — Jogo-a a teus pés. A mim me desse
A força de afastar meus capatazes
De mim — de mim — e as frases mais capazes
De dizer meu amor — que eu as professe!

Mas não. Que meu silêncio de mulher
Me faça ser mulher — e por você —,
Vendo que não me entrego ao que se exprime

Como amor — dando a joia mais sublime
Por insignificâncias — a não ser que,
Coragem muda, eu conte o que me oprime.

XIII.

And wilt thou have me fashion into speech
The love I bear thee, finding words enough,
And hold the torch out, while the winds are rough,
Between our faces, to cast light on each?–
I drop it at thy feet. I cannot teach
My hand to hold my spirits so far off
From myself–me–that I should bring thee proof
In words, of love hid in me out of reach.
Nay, let the silence of my womanhood
Commend my woman-love to thy belief,–
Seeing that I stand unwon, however wooed,
And rend the garment of my life, in brief,
By a most dauntless, voiceless fortitude,
Lest one touch of this heart convey its grief.

 

XX.

Meu amor, meu amor… E imaginar que
Você há um ano atrás vivia além,
Quando sozinha eu sentei sobre a neve e, em
Não ver você, via ninguém deixar

Que você me falasse… mas, me abarque
Toda, e me acorrentasse, como bem
Não soubesse que um golpe seu, meu bem,
A arrasaria num possível ataque…

Bebo a taça da vida! Deslumbrante,
Não ver você, de noite ou dia, adiante,
Com fala ou ato pessoal — colher

Presciência no branco florescer
Que você viu!… É tolo o ateísta
Que não pressente Deus à sua vista.

XX.

Beloved, my Beloved, when I think
That thou wast in the world a year ago,
What time I sat alone here in the snow
And saw no footprint, heard the silence sink
No moment at thy voice, but, link by link,
Went counting all my chains as if that so
They never could fall off at any blow
Struck by thy possible hand,–why, thus I drink
Of life’s great cup of wonder! Wonderful,
Never to feel thee thrill the day or night
With personal act or speech,–nor ever cull
Some prescience of thee with the blossoms white
Thou sawest growing! Atheists are as dull,
Who cannot guess God’s presence out of sight.

 

XXVI.

Convivi com visões por companhia
E não com homens e mulheres, há
Anos, e os tive por amigos, já
Que um bem maior que este eu desconhecia.

Mas logo sua glória se perdia
No poeira de tudo, e a canção vinha a
Acabar e, sob seu efêmero olhar,
Eu definhava. — E você veio — e ia

Ser tudo o que eles foram: a aparência,
A música e o esplendor (o mesmo, e mais,
Como as águas em santa confluência)

Se encontram em você — e em você ponho
O regojizo que encontrei jamais:
Frente a Deus, quão pequeno é o nosso sonho!

 

XXVI.

I lived with visions for my company
Instead of men and women, years ago,
And found them gentle mates, nor thought to know
A sweeter music than they played to me.
But soon their trailing purple was not free
Of this world’s dust, their lutes did silent grow,
And I myself grew faint and blind below
Their vanishing eyes. Then thou didst come–to be,
Beloved, what they seemed. Their shining fronts,
Their songs, their splendours, (better, yet the same,
As river-water hallowed into fonts)
Met in thee, and from out thee overcame
My soul with satisfaction of all wants:
Because God’s gifts put man’s best dreams to shame.

 

(poemas de Elizabeth Barrett Browning, tradução de Matheus de Souza “Mavericco” Almeida)

A minha última duquesa – Robert Browning

Agnolo_Bronzino_-_Ritratto_di_Lucrezia_de_Medici
Agnolo Bronzino – Ritratto de Lucrezia (di Cosimo) de’ Medici (1559)

Num momento anterior fiz uma postagem aqui no escamandro sobre um poema chamado “O amante de Porfíria”, do poeta vitoriano Robert Browning, em tradução minha (clique aqui). Na ocasião, mencionei a existência de um volume de traduções já para o português de alguns dos seus monólogos dramáticos, vertida por João Almeida Flor – uma edição, no entanto, infelizmente rara. Mas, por sorte, graças ao Flávio Penteado, um estudioso da poesia de Pessoa que esteve há pouco em Lisboa (agradeço enormemente, Flávio!), eu tive acesso ao volume e gostaria de compartilhar uma de suas traduções aqui.

O Monólogos Dramáticos (publicado em 1980 pela editora A Regra do Jogo) conta com 12 poemas, a saber: “O amante de Porfíria”, “A minha última duquesa (Ferrara)”, “Pictor ignotus (Florença 15 – )”, “O bispo encomenda o seu túmulo na igreja de Santa Praxedes”, “Confessionário (Espanha)”, “Evelyn Hope”, “Mulher fácil”, “Uma tocata de Galuppi”, “A nossa última cavalgada”, “Na opinião de um contemporâneo”, “Na Campagna a dois” e “Prospice”. Não parece ser muita coisa, mas, como é uma edição bilíngue e os poemas são longos, chega fácil a 91 páginas. O método de tradução usado por Almeida Flor é orientado mais pela semântica, optando pelo verso livre no lugar do metro e da rima. Não é o nosso modus operandi mais típico no escamandro (eu arriscaria dizer que me parece também que é mais comum esse tipo de tradução de poesia em Portugal do que no Brasil, mas não posso afirmar isso com muita certeza), e eu também acredito que as diferenças entre o português brasileiro e lusitano hão de dificultar um pouco uma avaliação mais razoável da minha parte. Em todo caso, é um trabalho ainda assim muito digno de atenção.

Este poema, “My last duchess”, é mais uma vez um monólogo na voz de um homem frio e cruel, como era o amante-assassino de Porfíria, mas desta vez a figura é um pouco mais próxima da vida real: é reconhecido que se trata de uma representação de Alfonso II d’Este, duque de Ferrara (1533–1598). Sua “última duquesa”, a quem o poema alude, foi Lucrécia de Médici, com quem ele se casou quando ela tinha apenas 14 anos (e ele, 25) e que morreu aos 17, possivelmente de tuberculose – mas dizem as más línguas que ela poderia ter sido envenenada, o que deixa a situação toda ainda mais sinistra, especialmente quando se considera que ele teria desprezo pela esposa (sua família não tinha toda a tradição dos “novecentos anos” do nome dos Este) e que os dois teriam se casado só pelo dote. O pano de fundo do poema é que o Duque está para desposar uma nova mulher (anos depois da morte de Lucrécia, Alfonso casou-se com a filha de Ferdinando I, conde de Tirol), por isso recebe o emissário da sua família e o acompanha num tour pelo seu palácio, quando ele abre uma cortina para mostrar o retrato de Lucrécia e começa a falar dela, a princípio num tom algo neutro, mas que logo dá lugar ao ressentimento por causa dos modos da dama: “Oh senhor ela sorria sem dúvida / quando eu passava à sua beira mas a quem / não concedia ela igual sorriso?” O duque possessivo se sente agravado pelo humor jovial da duquesa e pela facilidade com a qual ela distribuía sua afeição por aí, e agora que ela está morta e só lhe resta a representação na parede, ele aproveita para exercer uma última demonstração de dominação e poder que é sobre a cortina que a oculta (“pois ninguém corre / a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu”), de modo que agora ela só pode sorrir para ele.

É doentio, sinistro e ao mesmo tempo patético. E a frivolidade com a qual o poema termina, com o duque prosseguindo no tour pelo palácio e demonstrando outros objetos de decoração, só reforça essa sensação. Não por acaso é também um dos monólogos mais famosos do autor. A inspiração para o poema, com a sua temática italiana, veio enquanto Browning pesquisava e reunia material para o seu longo poema narrativo Sordello (1840), sobre o trovador lombardo homônimo do século XIII. “A minha última duquesa” foi a princípio publicado em conjunto com outro monólogo dramático, chamado “Count Gismond”, que, com sua inspiração mais francesa (os dois poemas faziam parte de uma seção intitulada “Italy and France”), lhe serve de contraponto – mas, infelizmente,  “Count Gismond” não consta em Monólogos Dramáticos e, até onde tenho notícias, ainda não foi traduzido.

Atualização: quando fiz essa postagem inicialmente, a intenção era demonstrar o trabalho de tradução de João Almeida Flor, ilustrando com o que deve ser o poema mais marcante dos selecionados para o Monólogos Dramáticos. Mas acabei esquecendo na hora que havia uma outra tradução, esta em português brasileiro, feita pelo Décio Pignatari e presente em seu famoso volume 31 poetas 214 poemas, tal como o Flávio me chamou a atenção também. Para propósitos de comparação, então, compartilho agora, junto da tradução de Almeida Flor, a de Pignatari, ilustrando sobretudo as diferenças de projeto tradutório.

Adriano Scandolara

 

A Minha Última Duquesa

(Ferrara)

Aquela é a minha última Duquesa pintada na parede,
parece mesmo que está viva. Agora considero
aquela peça um encanto; as mãos de Fra Pandolfo
trabalharam um dia diligentes e ali está ela.
Não quer sentar-se a contemplá-la? Eu disse
Fra Pandolfo de propósito, pois nunca
estranhos como o senhor fitaram aquele semblante
com a profundidade e a paixão do seu olhar sincero
que não se voltassem para mim (pois ninguém corre
a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu)
parecendo perguntar-me, se a tanto ousassem,
como é que um olhar assim ali se oculta; por isso não é
o senhor o primeiro a voltar-se e a perguntar. Não foi, senhor,
só a presença do marido    que deu aquele esplendor
às faces da Duquesa. É provável que
Fra Pandolfo tivesse dito por acaso «Esse manto
encobre demasiado o vosso pulso, senhora» ou «As tintas
nunca podem imitar o suave rubor
que se esbate ao longo do pescoço» – coisas assim
eram favores, pensava ela, e motivo bastante
para despertar aquele rubor de alegria. Ela tinha
um coração – como direi? – que depressa exultava
impressionável facilmente; ela gostava de tudo
quanto via e o seu olhar tudo alcançava.
Senhor, tudo era igual! Os meus favores no seu regaço,
a luz do dia declinando no poente,
o ramo de cerejeira que um louco solícito
apanhava no pomar, e a mula branca
que ela montava à volta do terraço – tudo e cada coisa
lhe merecia as mesmas palavras satisfeitas
ou um rubor ao menos. Ela agradecia às pessoas – bom! mas
de um modo – não sei bem como – como se atribuísse
à dádiva do meu nome quase milenário
o mesmo valor de qualquer outra coisa. Quem iria censurar
coisas sem importância como estas? Mesmo se tivesse jeito
para falar (e não tenho) explicando claramente
o que se espera de uma pessao assim e dissesse «É isto
ou aquilo que em ti me desagrada; aqui pecas por defeito
além por excesso» e se ela se deixasse ensinar
deste modo sem frontalmente
opor sua vontade, pedindo até desculpa,
mesmo assim seria humilhante. E eu não quero nunca
humilhar-me. Oh senhor ela sorria sem dúvida
quando eu passava à sua beira mas a quem
não concedia ela igual sorriso? A coisa tomou vulto. Dei ordens.
Sumiram-se os sorrisos. Ali está ela
como se estivesse viva. Não quer levantar-se. Vamos
ao encontro das pessoas lá a baixo. Repito:
a conhecida generosidade do Conde, vosso amo,
é garantia de serem satisfeitas minhas justas pretensões
em matéria de dote.
Embora, como disse a princípio, o meu interesse
seja a filha dele que é linda. Não. Desceremos,
senhor, os dois juntos. Mas repare naquele Neptuno
domando um cavalo marinho (uma raridade, dizem)
que eu, a Claus de Innsbruck, mandei fundir em bronze.

(tradução de João Almeida Flor)

 

Minha Última Duquesa

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais – o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

 

My last Duchess

(Ferrara)

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart—how shall I say?—too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace—all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men,—good! but thanked
Somehow—I know not how—as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech—(which I have not)—to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark”—and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
—E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!

(Robert Browning, tradução de João Almeida Flor)

Ulisses – Lorde Alfred Tennyson

Alfred_Lord_Tennyson_1869Lorde Alfred Tennyson (1809 – 1892), mais um dos membros tardios do romantismo inglês, é uma das maiores vozes do período – e eu já disse algumas palavras sobre esse que pode ser visto como o terceiro momento do romantismo, muito pouco estudado e traduzido em português, num post anterior sobre o seu contemporâneo Robert Browning (clique aqui). No entanto, assim como com Browning, que nos legou a famosa fábula do flautista de Hamelin, apesar de não termos quase nada dele em nossa língua, Tennyson conseguiu deixar suas marcas no, digamos, inconsciente coletivo. Você, com certeza, já deve ter ouvido a expressão “melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado”, o que é uma tradução literal dos versos “Tis better to have loved and lost / Than never to have loved at all”, mas imagino que poucos saibam que esses versos partem da seção 27 do seu longo poema In Memoriam A. H. H., uma elegia em 133 partes pela morte do amigo de Tennyson, o também poeta Arthur Henry Hallam. Arthur morreu em 1833, e Tennyson passou 17 anos ponderando sobre a sua morte e escrevendo o poema – e imagino que algumas pessoas possam se surpreender que essa declaração sobre o amor parta de um poema de tons homoafetivos, ainda que de uma homoafetividade “no armário”, por assim dizer. In Memoriam e o ciclo de poemas narrativos em tom elegíaco e versos brancos sobre as lendas arturianas, Idylls of the King, compõem o que é visto como as maiores obras de Tennyson, apesar de que ele também nos deixou vários poemas líricos belíssimos.

Um desses poemas é o “Ulisses”, escrito em 1833 e publicado na segunda edição de seu volume Poems (1842). É um monólogo dramático em versos brancos na voz do famoso rei de Ítaca, já retornado ao lar e em idade avançada, mas que sente outra vez os anseios de retornar ao mar. O poema foi já um sucesso à época, suscitando resenhas positivas no Quarterly Review no mesmo ano em que foi publicado – aliás, Tennyson, tendo se tornado poeta laureado da Grã Bretanha em 1850, foi um desses poucos poetas a ser agraciado com sucesso em vida -, além de estudos continuados posteriormente, que passaram cada vez mais a enxergar nele uma ironia que não foi percebida pela recepção inicial. O poema é comparável ao episódio da Divina Comédia, no Inferno, em que Dante encontra Ulisses, e Eliot, de fato, traça essa comparação num ensaio de 1929 chamado “Dante”, presente em suas Selected Essays. Diz Eliot que “o episódio de Ulisses é particularmente ‘legível’, acredito, por causa de sua narrativa direta e contínua, e porque para um leitor anglófono a comparação com o poema de Tennyson – um poema perfeito – é das mais instrutivas. Vale a pena notar, porém, o grau imensamente superior da simplificação da versão de Dante. Tennyson, como a maioria dos poetas, mesmo aqueles a quem chamamos de grandes poetas, precisa obter esse efeito forçando, em certa medida”. É um elogio um pouco dúbio, vindo de Eliot, mas podemos concordar que são raros os poemas aos quais Eliot se referiu como “poemas perfeitos” e mais raros ainda os que podem competir com Dante.

É esse o poema que compartilho, então, abaixo. A tradução é da autoria de Rubens Canarim, que entrou em contato comigo faz algum tempo (e que eu tenha demorado tanto para postá-la aqui é uma falta terrível minha). O que é surpreendente, porém – especialmente neste mundo atual em que um dos últimos refúgios dos poetas (bem como tradutores de poesia, exclusivamente, sem maiores contatos com grandes editoras) que não vêm de famílias abastadas, mas que gostam de ter comida na mesa, tem sido infelizmente o mundo isolado e burocratizado da academia – é que Rubens não é da área das letras, mas da engenharia. No entanto, não só ele demonstra conhecimento e interesse por um autor que muitos alunos de letras mesmo desconhecem, como ainda parece ter aprendido sozinho as técnicas da tradução poética, o que é louvável. Seus projetos envolvem continuar traduzindo Tennyson (um autor, aliás, pouquíssimo traduzido) e começar uma tradução do livro de filosofia política Political Justice (ou Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on Morals and Happiness, de 1793) de William Godwin (1756 – 1836), que teve forte influência sobre os românticos (tanto que Shelley até se casou com a filha de Godwin) e que, até onde tenho notícia, continua, lamentavelmente, sem tradução para o português.

Adriano Scandolara

        

Ulisses

De nada serve a um rei ficar inerte,
No lar quieto, em meio à rocha infértil,
Unido a esposa idosa, eu doo e imponho
Iníquas leis a um bando de selvagens
Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê.

Estou inquieto: Sorverei da vida
A última gota: Sempre gozei muito,
Sofri muito, com todos que me amaram,
E só; em terra firme, ou arrastado
Por negras correntezas irritadas
Pelas Híades: Transformei-me em nome;
Errante sempre, com ardente impulso
Muito vi e conheci; cidades de homens
E costumes, conselhos, climas, regras,
E a mim mesmo, por todos sempre honrado.
Traguei da pugna o gozo junto aos meus,
Longe na Troia dos ventantes plainos.
Sou parte, enfim, de tudo que encontrei;
A experiência é um arco pelo qual
Vislumbro um mundo inexplorado, cuja
Margem se afasta sempre ao meu mover.
Que tolice o parar, o dar um fim,
Enferrujar assim, sem uso e brilho!
Como se respirar fosse viver.
Quão pouco, vidas sobre vidas! Desta,
Pouco resta: mas cada hora é salva
Do que é silêncio eterno, um algo além,
Arauto do que é novo; vil seria
Guardar-me, agrisalhando por três sóis,
A alma cinzenta ardendo por seguir
O saber como um astro que se afoga,
Além do limiar do pensamento.

Este é o meu filho, meu fiel Telêmaco,
Para quem eu relego o cetro e a ilha –
Meu bem-amado, hábil a cumprir
Esse labor, prudente domador
De um povo rude, e mansamente, aos poucos,
Vai sujeitá-los ao que é bom e útil.
Irreprochável, centra-se na esfera
Dos deveres comuns, decente para
Sutis ofícios, prestará tributos
De justa adoração aos nossos deuses
Quando eu me for. Ele obra o dele, eu o meu.

Lá jaz o porto; O barco estufa as velas:
Ensombram grandes mares. Meus marujos,
Almas que lutam, sofrem junto a mim –
Que, jubilosas, acolheram sempre
Trovão e sol ardente, opondo frente
E fronte livres – nós estamos velhos;
Na velhice, persiste a honra e a luta;
A morte é o fim: mas antes, algum feito
Notório e nobre está por se fazer,
Sem impróprios conflitos com os Deuses.
Luzes estão a cintilar nas rochas:
O dia míngua: a lua ascende: o abismo
Gemendo em muitas vozes. Venham, homens,
Não tarda a busca por um novo mundo.
Partam, em ordem todos, e fulminem
As sonoras esteiras; Meu intento
É navegar além-poente, e sob
Estrelas do ocidente, até morrer.
Talvez vorazes golfos nos devorem,
Ou então, nas Afortunadas Ilhas,
Vejamos grande Aquiles, caro a nós;
Mesmo perdendo muito, há muito à frente,
Ainda que como antes não movamos
A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;
O mesmo heroico peito temperado,
Fraco por tempo e fado, mas forte a
Lutar, buscar, achar, e não ceder.

        

Ulysses

It little profits that an idle king,
By this still hearth, among these barren crags,
Match’d with an aged wife, I mete and dole
Unequal laws unto a savage race,
That hoard, and sleep, and feed, and know not me.

I cannot rest from travel: I will drink
Life to the lees; all times I have enjoy’d
Greatly, have suffer’d greatly, both with those
That loved me, and alone; on shore, and when
Thro’ scudding drifts the rainy Hyades
Vext the dim sea: I am become a name;
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known; cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honour’d of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy,
I am a part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro’
Gleams that untravell’d world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnish’d, not to shine in use!
As tho’ to breathe were life. Life piled on life
Were all too little, and of one to me
Little remains: but every hour is saved
From that eternal silence, something more,
A bringer of new things; and vile it were
For some three suns to store and hoard myself,
And this gray spirit yearning in desire
To follow knowledge like a sinking star,
Beyond the utmost bound of human thought.

This is my son, mine own Telemachus,
To whom I leave the scepter and the isle—
Well-loved of me, discerning to fulfil
This labour, by slow prudence to make mild
A rugged people, and thro’ soft degrees
Subdue them to the useful and the good.
Most blameless is he, centred in the sphere
Of common duties, decent not to fail
In offices of tenderness, and pay
Meet adoration to my household gods,
When I am gone. He works his work, I mine.

There lies the port; the vessel puffs her sail:
There gloom the dark broad seas. My mariners,
Souls that have toil’d, and wrought, and thought with me—
That ever with a frolic welcome took
The thunder and the sunshine, and opposed
Free hearts, free foreheads—you and I are old;
Old age hath yet his honour and his toil;
Death closes all: but something ere the end,
Some work of noble note, may yet be done,
Not unbecoming men that strove with Gods.
The lights begin to twinkle from the rocks:
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep
Moans round with many voices. Come, my friends,
‘Tis not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho’ much is taken, much abides; and tho’
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven; that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

(poema de Lorde Alfred Tennyson, tradução de Rubens Canarim)

O Amante de Porfíria – Robert Browning

O período romântico inglês é uma coisa cronologicamente complicada. A primeira geração começa com William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge (que juntos publicam as famosas Lyrical Ballads em 1798) e, à parte deles, William Blake. No entanto, os dons de Wordsworth e Coleridge são muito menos longevos do que eles próprios, que nascem em 1770 e 1772, respectivamente, e morrem só em 1850 e 1834. O fracasso de Wordsworth, sobretudo, em manter o seu brilho poético é famoso e comentado, inclusive, por Shelley e Byron, além de Ezra Pound, Harold Bloom e outros críticos. Já a segunda geração dos românticos ingleses é a dos nascidos perto da virada do século XVIII para o XIX. Eles, no entanto, junto de Blake, morrem todos na década de 1820: Keats em 21, Shelley em 22, Byron em 24 e Blake em 27. E isso é algo engraçado: se lembrarmos que Victor Hugo nasce em 1802, Almeida Garrett, em 1799, Gonçalves de Magalhães, em 1811, vemos logo que, enquanto o romantismo ainda estava se desenvolvendo no Brasil e maior parte da Europa – exceto pela Alemanha, cujo romantismo antecede o inglês, e a Suécia, estranhamente, que o acompanha – os grandes poetas do romantismo inglês já haviam fechado o seu círculo. A geração que veio depois ainda escreve sob essa estética romântica, mas já não dá para dizer que é bem a mesma coisa. A Inglaterra, ao contrário do Brasil e da França, não teve nem simbolismo, nem parnasianismo (apesar de identificarmos em Oscar Wilde tendências decadentistas, que de qualquer modo, é levemente distinto do simbolismo de fato) e continua com essa estética até o momento do modernismo – cujas principais figuras são, curiosamente, norte-americanas.

Robert Browning (1812 – 1889) é dessa geração seguinte do romantismo inglês tardio e, juntamente com Lord Alfred Tennyson (1809 – 1892) e Gerard Manley Hopkins  (1844 – 1889), escreveu, possivelmente, o que há de melhor da poesia do período. Toda essa geração (se é que é justo falar de todo esse pessoal nascido em datas diferentes como pertencentes à mesma geração… mas em geral se fala, de qualquer modo) é muito pouco discutida e, em parte, é com razão. Perto do que estava sendo feito no além-mar, por Whitman e Dickinson, ou na França, com todos os simbolistas, a poesia vitoriana (fora essas exceções) parece muito fraca. Eliot comenta sobre como Algernon Swinburne (1837 – 1909), por exemplo, perde feio para “seu mestre” Shelley – e isso apesar de Eliot detestar Shelley -; Pound, em sua fortuna crítica, também faz a sua cota de comentários negativos sobre a geração apesar de, em geral, louvá-los como bons tradutores (e ele mesmo teve de lidar com a influência dela sobre a sua própria poesia. Vide o seu famoso poema “Hugh Selwyn Mauberley”, de 1920); G. K. Chesterton tem um livro inteiro sobre o assunto (The Victorian Age in Literature), onde aponta alguns problemas como a “miopia” dos vitorianos e “o modo como a individualidade romântica se degenerou neles em individualismo”, entre outras questões; George Steiner dedica algumas páginas da introdução de seu Depois de Babel para apontar o que há de errado com um soneto ecfrástico de Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882), e por aí vai. E o modo como os vitorianos reescreveram e censuraram o que havia de mais rebelde nas gerações anteriores para conformá-las às suas próprias noções conservadoras de poesia, moral, religião e ideologia certamente também não ajudou – e, nisso, Swinburne e Matthew Arnold (1822 – 1888) têm lá suas parcelas de culpa.

Mas, dito isso, há ainda assim bons poemas escritos por poetas vitorianos, e alguns deles são os chamados monólogos dramáticos de Browning. Um que eu traduzi recentemente e que compartilho abaixo se chama “Porphyria’s Lover” e é escrito na voz de um homem (que não é o próprio Browning, nem uma forma de eu-lírico dele, mas um personagem de fato) que, tomado de paixão por sua amada Porfíria, após ela confessar seu enorme amor por ele, e desejando tornar imortal esse amor, a estrangula com o próprio cabelo louro. O poema, famoso e muito presente em antologias, data de 1836, mas, dada a temática, essa sondagem da psicologia deturpada do personagem que ele aborda, creio que não seria de todo estranhado por Baudelaire ou Lautreàmont (se é que eles, de fato, não foram leitores de Browning).

Antes de traduzi-lo, eu procurei por traduções já existentes, mas elas são raras, porque, mais ainda do que os românticos em geral, a popularidade dos vitorianos está muito em baixa. Fora a célebre fábula infantil do Flautista de Hamelin, só encontrei referências online a uma tradução, do lusitano João Almeida Flor, intitulada Monólogos Dramáticos. Mas ela é difícil de encontrar e, pior do que isso, muito cara. Por isso peço que perdoem minha omissão aqui da tradução de Almeida Flor.

Os recursos formais do poema são simples de se explicar: versos em tetrâmetros jâmbicos dispostos, visualmente, no que parece ser uma única estrofe, mas que, estruturalmente, se mostra, na verdade, ser uma sucessão de 12 estrofes de 5 versos, com esquema de rimas sempre ABABB. E essas características, inclusive no funcionamento do ritmo (na medida, claro, em que minhas capacidades me permitem) foram o que eu tentei manter em minha tradução.

(Adriano Scandolara)

O Amante de Porfíria

Chegou ligeira a chuva à noite,
         E alçou-se logo o triste vento,
Que os olmos pune em seu açoite
         E vexa o lago com contento:
         Eu escutava em desalento.
Foi quando entrou Porfíria; logo
         Botando fora a chuva e o frio,
Aquece o chalé com o fogo
         Que aviva, ajoelhada e gentil;
         Depois, pondo-se em pé, despiu
As luvas sujas, a sua capa
         E o xale então encharcado;
Do chapéu seu cabelo escapa,
         E enfim sentou-se ao meu lado
         E me chamou. Quando o chamado
Não respondi, meu braço pôs
         Em seu quadril, o ombro nu em pelo,
E a loura coma ela dispôs,
         E ali me pôs, como um apelo,
         E espalhou seu louro cabelo,
Murmurando que me amava —
         Tão fraca, queria somente
Livrar do peito, que lutava,
         Do vão orgulho que se sente,
         E dar-se a mim eternamente.
E às vezes a paixão domina,
         E o festim desta noite bela
Não freia a ideia repentina
         De alguém palente de amor: ela,
         Pois,viera sob vento e procela.
Certo é que em seu olho eu olhava
         Feliz e orgulhoso; pois vi
Que Porfíria me idolatrava:
         Co’o choque, o coração, senti,
         Crescia, e eu me decidi.
Perfeita e pura: no momento,
         Pois, ela era minha, minha,
E o seu cabelo, em meu intento
         Passei em uma áurea linha
         Três vezes por sua gargantinha,
E a estrangulei. Foi indolor;
         Foi indolor, disso estou certo.
Como uma abelha presa em flor,
         Abri os olhos azuis de perto:
         E riram, puros e abertos.
Soltei do pescoço a trança
         E a face outra vez corava,
Rubente ao meu beijo em ânsia:
         Eu a ergui como costumava,
         Só que meu ombro segurava
Sua cabecinha ainda pendente:
         Feliz co’o desejo cumprido,
A fronte rósea e sorridente,
         Que o que desprezava é fugido,
         E eu, seu amor, possuído!
O amor de Porfíria: insciente
         De sua vontade realizada.
E assim sentamos juntos, rente,
         E eis-nos quietos na madrugada,
         E ainda Deus não disse nada!

(tradução de Adriano Scandolara)

        
Porphyria’s Lover

The rain set early in to-night,
         The sullen wind was soon awake,
It tore the elm-tops down for spite,
         And did its worst to vex the lake:
         I listened with heart fit to break.
When glided in Porphyria; straight
         She shut the cold out and the storm,
And kneeled and made the cheerless grate
         Blaze up, and all the cottage warm;
         Which done, she rose, and from her form
Withdrew the dripping cloak and shawl,
         And laid her soiled gloves by, untied
Her hat and let the damp hair fall,
         And, last, she sat down by my side
         And called me. When no voice replied,
She put my arm about her waist,
         And made her smooth white shoulder bare,
And all her yellow hair displaced,
         And, stooping, made my cheek lie there,
         And spread, o’er all, her yellow hair,
Murmuring how she loved me — she
         Too weak, for all her heart’s endeavour,
To set its struggling passion free
         From pride, and vainer ties dissever,
         And give herself to me for ever.
But passion sometimes would prevail,
         Nor could to-night’s gay feast restrain
A sudden thought of one so pale
         For love of her, and all in vain:
         So, she was come through wind and rain.
Be sure I looked up at her eyes
         Happy and proud; at last I knew
Porphyria worshipped me; surprise
         Made my heart swell, and still it grew
         While I debated what to do.
That moment she was mine, mine, fair,
         Perfectly pure and good: I found
A thing to do, and all her hair
         In one long yellow string I wound
         Three times her little throat around,
And strangled her. No pain felt she;
         I am quite sure she felt no pain.
As a shut bud that holds a bee,
         I warily oped her lids: again
         Laughed the blue eyes without a stain.
And I untightened next the tress
         About her neck; her cheek once more
Blushed bright beneath my burning kiss:
         I propped her head up as before,
         Only, this time my shoulder bore
Her head, which droops upon it still:
         The smiling rosy little head,
So glad it has its utmost will,
         That all it scorned at once is fled,
         And I, its love, am gained instead!
Porphyria’s love: she guessed not how
         Her darling one wish would be heard.
And thus we sit together now,
         And all night long we have not stirred,
         And yet God has not said a word!

(Robert Browning)