crítica, poesia, tradução

nota crítica: “Poemas” de pier paolo pasolini, por ernesto von artixzffski

pasolini

saiu há pouquíssimo tempo, coisa de um mês só, o livro Poemas de pasolini; uma seleção poética organizada pelo trio que vem encabeçando as recentes publicações italianas da cosac: maria betânia amoroso (escrevendo o posfácio), alfonso berardinelli (na organização e introdução) e maurício santana dias (tradução e notas).

tendo a oportunidade de ter trabalhado com a editora na feira literária do sesc, que acontece todo ano aqui em curitiba, onde o livro foi posto à venda pela primeira vez, e vendo que a maior parte do público desconhecia o fato de pasolini ter escrito poesia,  fica impossível negar o louvor da publicação. o livro, me parece, surge em bom momento: pasolini poeta não existia no brasil! e somente 40 anos após seu brutal assassinato – até hoje um bocado obscuro e misterioso – é que nos chega uma primeira tradução. isso nos diz muito sobre nós mesmos: a poesia de pasolini parece-nos fundamental hoje.

nessa primeira edição brasileira, temos poemas de sete livros de poesia publicados em vida pelo autor (“a melhor juventude”, escrito em dialeto friulano, “o rouxinol da igreja católica”, “diários [1943-53]”, “as cinzas de gramsci”, “a religião do meu tempo”, “poesia em forma de rosa”, “trasumanar e organizar” e “a nova juventude”), seguido por excertos de três obras ensaísticas, “empirismo herético”, “escritos corsários” e “cartas luteranas”. ou seja, isso nos dá um panorama significativo, ainda que pequeno, claro, diante da vastíssima obra de pasolini, de pelo menos 30 anos de produção poética, e com isso é dado ao leitor acompanhar o percurso do quase puro lirismo dos primeiros poemas em friulano à perfeita indistinção entre poesia e prosa, com uma maior liberdade temática e formal, dos últimos livros e dos ensaios-poéticos

dito isso, tenho cá minhas ressalvas. ressalvas que, a meu ver, servem  de modo algum para depreciar o projeto em si, mas para pensar o modo de se conceber e apresentar antologias de poetas inéditos (ou mesmo dos não inéditos). críticas, duas, que se constituam talvez como mero desdobramento duma mesma: tradução e crítica (ou tradução-crítica).

embora haja “sempre uma violência contida no gesto de antologizar”, como bem disse davi pessoa, em sua resenha para o jornal o globo (clique aqui), essa violência se dará (ou ao menos assim deveria) sempre de modo consciente. a questão, portanto, não é pensar que esse ou aquele poema ficaram de fora, mas sim lidar com suas ausências, balizadas pelos motivos antológicos que justificam a seleção. é nesse sentido que, dado o caráter pioneiro do projeto, uma antologia – essa antologia! – não poderia deixar de justificar suas violências. essas justificativas, penso, que poderiam figurar como uma espécie de aporte crítico, seriam menos um mea culpa dos organizadores que uma abertura de leitura crítico-interpretativa a um leitor menos competente (ou menos pleno, ou monolíngue) no que diz respeito à poesia.

pasolini nasceu-nos sem maiores explicações.

penso que traduzir um poeta pela primeira vez é, sobretudo, fundar-lhe numa determinada cultura, fundando, também, através da tradução, sua primeira fortuna crítica, sua gramática poética, seu discurso (afinal, “com a tradução, não se crê em passar de um código a outro, mas, uma vez que sempre se traduzem discursos, textos particulares, e não línguas, são as relações com a língua, em cada caso diferentes, tanto do texto traduzido quanto do tradutor, que são evidenciadas e interrogadas”). mas essa ideia de tradução-fundadora deve, acredito, estar ligada a uma tradução que se proponha poética, e portanto crítica.

por certo a obra poética de pasolini não é uma obra de assimilação imediata. isso equivale a dizer que sua poesia, seu estilo, não se encerram num determinado modelo poético definido e amplamente praticado. pasolini foge a movimentos e escolas. seu experimentalismo comporta uma grande quantidade de engajamento; o emprego de recursos poéticos nitidamente modernos entra em choque com sua monstruosa máscara de “força do passado”; sua forma próxima à prosa ainda guarda recursos inerentes à poesia, como a rima, por exemplo. ou seja, a poesia de pasolini apresenta um caráter “onívoro”, “híbrido”, uma enorme variedade de procedimentos formais, compreendida por muitos como uma recusa à modernidade.

partindo disso tudo que foi dito, a tradução de maurício santana dias (nossa primeira tradução, acho importante sempre relembrar) não me parece muito preocupada em resolver muitos desses problemas. não me parece, até certo ponto, dar conta dessa multiplicidade de formas e procedimentos presentes na poesia do italiano. isso, claro, não é mesmo que dizer que se trate de uma tradução mediana, para usar um termo de haroldo de campos, ou que nivele os poemas por baixo, ou algo que o valha. considero apenas não se tratar de uma tradução poética (e portanto crítica). nada recriminável por si só, obviamente, mas que parece pesar um pouco quando esbarra num aporte crítico conciso demais.

alguns exemplos, talvez, ajudem um bocado a entendermos. em “balada do delírio” (p. 42), por exemplo, as rimas presentes no original são postas à parte na tradução, ainda que o tradutor, numa nota (p. 270), nos informe que segundo o próprio pasolini o esquema formal seria derivado de villon. vejamos:

Solo, solo, una statua di cera
indurita dal vecchio raggio
della mia vita già leggera…
E torna l’aria della sera
muta nel cuore del linguaggio.
Con sospiri d’anni è svanita
in lucidi orizzonti, aria
alitata da gole d’angeli,
l’esistenza – e torna alle nari
del mio cadavere, mare
di giorni dagli Ave agli Angelus.
[…]

Só, só, uma estátua de cera
endurecida pelo velho raio
de minha vida passageira…
E torna o ar da tarde
mudo no coração da linguagem.
Em anos de suspiros dissipou-se
em claros horizontes, ar
bafejado por gorjas de anjos,
a existência – e volta às narinas
de meu cadáver, mar
de horas da Ave-Maria ao Ângelus.
[…]

bem mais à frente, no poema “a poesia da tradição”, do livro “transumanar e organizar”, o verso ché organizzar significar per verba non si poria é traduzido por “porque organizar significar per verba não poderia”, constando apenas a seguinte nota: “Aqui Pasolini faz um jogo intertextual com a Commedia de Dante (“Transumanar significar per verba non si poria” Paraíso, 1, vv. 70-71), a que o título do volume Transumanar e organizar remete.”. esse caso específico eu vejo menos como problema formal (ou seja, a opção de manter o per verba) que propriamente de extensão crítica a um leitor menos experiente.

enfim & em suma, ao meu ver, é nisso que peca um pouco essa antologia: considerar pasolini parte de um cânone poético prescindível de maiores explicações. mas cânone pra quem? não para um não-leitor de italiano, ou para um leitor monolíngue. essa é nossa primeira tradução do pasolini poeta, e isso só já constitui um puta mérito, mas é justamente por ser a primeira que muita coisa permanece um tanto quanto vaga: os “hendecassílabos hipotéticos” permanecem obscuros, as oscilações líricas de certo modo tendem a se padronizar, a “desesperada vitalidade” e a “força do passado” são entrevistas com um certo esforço. a crítica não valida a tradução, nem a tradução se propõe crítica.

contudo, e do modo que for, teje fundado nosso pier paolo! nosso poeta pasolini. e isso temos muito que comemorar.

Padrão
poesia, tradução

2 poemas de pasolini

968full-pier-paolo-pasolini

pier paolo pasolini (1922-1975) é figurinha conhecida & dispensa apresentações: seus trabalhos como cineasta, crítico & romancista são muitíssimo divulgados, & talvez a faceta menos conhecida de sua obra seja mesmo a poesia, por onde ele começou sua carreira. mas vejam bem, vejam bem: menos conhecida, aqui, certamente não coincide com menos interessante.por isso logo abaixo vão dois poemas- até onde eu saiba – inéditos  em português. as traduções são de cide piquet, davi pessoa & pedro heise.

guilherme gontijo flores

* * *

Versos do testamento

A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.

(Tradução de Cide Piquet e Davi Pessoa)

Versi del testamento

La solitudine: bisogna essere molto forti
per amare la solitudine; bisogna avere buone gambe
e una resistenza fuori del comune; non si deve rischiare
raffreddore, influenza o mal di gola; non si devono temere
rapinatori o assassini; se tocca camminare
per tutto il pomeriggio o magari per tutta la sera
bisogna saperlo fare senza accorgersene; da sedersi non c’è;
specie d’inverno; col vento che tira sull’erba bagnata,
e coi pietroni tra l’immondizia umidi e fangosi;
non c’è proprio nessun conforto, su ciò non c’è dubbio,
oltre a quello di avere davanti tutto un giorno e una notte
senza doveri o limiti di qualsiasi genere.
Il sesso è un pretesto. Per quanti siano gli incontri
– e anche d’inverno, per le strade abbandonate al vento,
tra le distese d’immondizia contro i palazzi lontani,
essi sono molti – non sono che momenti della solitudine;
più caldo e vivo è il corpo gentile
che unge di seme e se ne va,
più freddo e mortale è intorno il diletto deserto;
è esso che riempie di gioia, come un vento miracoloso,
non il sorriso innocente o la torbida prepotenza
di chi poi se ne va; egli si porta dietro una giovinezza
enormemente giovane; e in questo è disumano,
perché non lascia tracce, o meglio, lascia una sola traccia
che è sempre la stessa in tutte le stagioni.
Un ragazzo ai suoi primi amori
altro non è che la fecondità del mondo.
È il mondo che così arriva con lui; appare e scompare,
come una forma che muta. Restano intatte tutte le cose,
e tu potrai percorrere mezza città, non lo ritroverai più;
l’atto è compiuto, la sua ripetizione è un rito. Dunque
la solitudine è ancora più grande se una folla intera
attende il suo turno: cresce infatti il numero delle sparizioni –
l’andarsene è fuggire – e il seguente incombe sul presente
come un dovere, un sacrificio da compiere alla voglia di morte.
Invecchiando, però, la stanchezza comincia a farsi sentire,
specie nel momento in cui è appena passata l’ora di cena,
e per te non è mutato niente; allora per un soffio non urli o piangi;
e ciò sarebbe enorme se non fosse appunto solo stanchezza,
e forse un po’ di fame. Enorme, perché vorrebbe dire
che il tuo desiderio di solitudine non potrebbe esser più soddisfatto,
e allora cosa ti aspetta, se ciò che non è considerato solitudine
è la solitudine vera, quella che non puoi accettare?
Non c’è cena o pranzo o soddisfazione del mondo,
che valga una camminata senza fine per le strade povere,
dove bisogna essere disgraziati e forti, fratelli dei cani.

(Pier Paolo Pasolini,  Trasumanar e organizzar)

§

A um papa

Poucos dias antes de você morrer, a morte
havia posto os olhos sobre um seu coetâneo:
aos vinte anos, você era estudante, ele operário,
você nobre, rico, ele um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre os dois
na velha Roma que voltava a ser tão nova.
Eu vi os seus restos, pobre Zucchetto.
Zanzava de noite bêbado perto do Mercado,
e um bonde que vinha de San Paolo o apanhou
e arrastou um tanto pelos trilhos entre os plátanos:
ficou ali algumas horas, embaixo das rodas:
algumas pessoas se juntaram ao redor para olhar,
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem porque você existe,
um velho policial escrachado como um louco,
a quem se aproximava muito gritava: “Fora, cambada!”.
Depois veio o automóvel de um hospital para levá-lo:
o povo foi embora, ficaram uns trapos aqui e ali,
e a dona de um bar noturno pouco adiante,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha sido pego por um bonde, tinha morrido.
Poucos dias depois você morria: Zucchetto era um
do seu grande rebanho romano e humano,
um pobre bebum, sem família e sem cama,
que vagava de noite, vivendo quem sabe como.
Você não sabia nada sobre ele: como não sabia nada
sobre outros milhares de cristos como ele.
Talvez eu seja cruel ao me perguntar por que razão
pessoas como Zucchetto eram indignas do seu amor.
Existem lugares infames, onde mães e crianças
vivem numa poeira antiga, numa lama de outras épocas.
Não muito longe de onde você viveu,
à vista da bela cúpula de São Pedro,
há um desses lugares, o Gelsomino…
Um morro partido ao meio por uma pedreira, e embaixo,
entre um canal e uma fila de prédios novos,
um monte de construções miseráveis, não casas, mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto seu, uma palavra,
para aqueles seus filhos terem uma casa:
você não fez um gesto, não disse uma palavra.
Não lhe pediam que perdoasse Marx! Uma onda
imensa que se refrata por milênios de vida
o separava dele, da sua religião:
mas na sua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o seu pontificado,
diante dos seus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Você sabia, pecar não significa fazer o mal:
não fazer o bem, isto significa pecar.
Quanto bem você podia ter feito! E não fez:
nunca houve um pecador maior que você.

(Tradução de Pedro Heise e Cide Piquet)

A un papa

Pochi giorni prima che tu morissi, la morte
aveva messo gli occhi su un tuo coetaneo:
a vent’anni, tu eri studente, lui manovale,
tu nobile, ricco, lui un ragazzaccio plebeo:
ma gli stessi giorni hanno dorato su voi
la vecchia Roma che stava tornando così nuova.
Ho veduto le sue spoglie, povero Zucchetto.
Girava di notte ubriaco intorno ai Mercati,
e un tram che veniva da San Paolo, l’ha travolto
e trascinato un pezzo pei binari tra i platani:
per qualche ora restò lì, sotto le ruote:
un po’ di gente si radunò intorno a guardarlo,
in silenzio: era tardi, c’erano pochi passanti.
Uno degli uomini che esistono perché esisti tu,
un vecchio poliziotto sbracato come un guappo,
a chi s’accostava troppo gridava: “Fuori dai coglioni!”.
Poi venne l’automobile d’un ospedale a caricarlo:
la gente se ne andò, restò qualche brandello qua e là,
e la padrona di un bar notturno, più avanti,
che lo conosceva, disse a un nuovo venuto
che Zucchetto era andato sotto un tram, era finito.
Pochi giorni dopo finivi tu: Zucchetto era uno
della tua grande greggia romana ed umana,
un povero ubriacone, senza famiglia e senza letto,
che girava di notte, vivendo chissà come.
Tu non ne sapevi niente: come non sapevi niente
di altri mille e mille cristi come lui.
Forse io sono feroce a chiedermi per che ragione
la gente come Zucchetto fosse indegna del tuo amore.
Ci sono posti infami, dove madri e bambini
vivono in una polvere antica, in un fango d’altre epoche.
Proprio non lontano da dove tu sei vissuto,
in vista della bella cupola di San Pietro,
c’è uno di questi posti, il Gelsomino…
Un monte tagliato a metà da una cava, e sotto,
tra una marana e una fila di nuovi palazzi,
un mucchio di misere costruzioni, non case ma porcili.
Bastava soltanto un tuo gesto, una tua parola,
perché quei tuoi figli avessero una casa:
tu non hai fatto un gesto, non hai detto una parola.
Non ti si chiedeva di perdonare Marx! Un’onda
immensa che si rifrange da millenni di vita
ti separava da lui, dalla sua religione:
ma nella tua religione non si parla di pietà?
Migliaia di uomini sotto il tuo pontificato,
davanti ai tuoi occhi, son vissuti in stabbi e porcili.
Lo sapevi, peccare non significa fare il male:
non fare il bene, questo significa peccare.
Quanto bene tu potevi fare! E non l’hai fatto:
non c’è stato un peccatore più grande di te.

(Pier Paolo Pasolini, La religione del mio tempo.)

Padrão