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Hera de Jesus

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Hera de Jesus nasceu aos 14 de Outubro de 1989, em Maputo, Moçambique. Começou a escrever desde  cedo. Foi premiada em diversos concursos literários africanos.

***

Magaiza

Partiu para o infinito do além, para as profundezas do vazio, de um vazio reluzente

E partiu para a cavidade escura, pôs-se a decifrar a sua dura realidade, nua e crua
Nos seus braços, uma picareta que espetavam o solo de uma mina esgotada

Nada mais havia restado, senão, corpos dispersos sem nenhuma sepultura
Sonhos dilacerados pelo cintilar das estrelas traiçoeiras
Homens e mais homens por alimentar

Que mais poderia levar tio Antônio, senão uma bagagem de saudades da sua Ka Gaza
Terra natal que o viu nascer, onde o gado pastou, e tão cedo se refugiou para as terras do rand?

Saudades da sua Jofina
Desamparada mulher, sua camponesa
Deus há de provir
O kutxinga não seria mau, não seria, assim permaneceria eterna a raiz do tio Antônio

Sonho algum resistia aquele lugar assombrado, demolidor da luz e companheiro da morte

Os golpes audazes das picaretas, traziam-no de volta ao mundo real
No interior de uma mina, esperando enterrar-se na sua própria sepultura.
§

Identidade

Sou negro
Não sou preto
Não sou animal
Sou gente

Sou humano como qualquer um
Não sou irracional
Também penso

Não sou excremento para adubar à terra
Muito menos máquina de trabalho
Meu sangue é vermelho

Assim como de qualquer um

Não sou preto
Não sou servo da escravidão
África não é o berço da morte

Somos todos negros
Na cor, no pensamento e agir
Somos como qualquer um
Somos filhos de África

Somos África

***

Padrão
poesia

Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002)

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Mario del Valle e Fernando Ferreira de Loanda. Agosto de 1991. Foto: Maricela Terán.

topei com fernando ferreira de loanda (luanda 1924- rio de janeiro 2002) assim numa puta cagada: lendo a antologia d’os cem melhores poetas brasileiros do século, organizada por josé neumanne pinto e publicada pela geração editorial, em 2001. pouca coisa sobre a vida dele está disponível na internet. aquilo que achei foi: nasceu em angola mas naturalizou-se brasileiro; fundou, com lêdo ivo, darcy damasceno, fred pinheiro e bernardo gersen, a revista orfeu (publicada no rio de janeiro entre 1947 e 1953). foi, ao que tudo indica, uma figura importantíssima dentro da chamada “geração de 45”, além de um grande amigo de lêdo ivo. fato que agora me faz ver que essa tal geração tem salvação (risos).

segundo wilson martins (clique aqui), “Assim falava o procurador geral da República das Letras, rejeitando o que lhe parecia o peso morto dos antepassados. Os modernistas de 1922/1930, apesar de Drummond e Bandeira, pareciam então monumentos algo empoeirados de uma idade que se esfumava no horizonte, incluindo o passado recente representado pelos poetas de 45. Estes últimos tiveram em Fernando Ferreira de Loanda o seu arquivista cautelosamente prematuro – nem por isso menos definitivo com o “Panorama da poesia brasileira” (1951), a “Antologia da nova poesia brasileira” (1965) e a “Antologia da moderna poesia brasileira”, em 1967. Prefaciando em 1991 o que parece ter sido o seu último volume de versos (“Kuala Lumpur”), Lêdo Ivo, que foi, creio eu, o mais alto poeta da geração, assinalava que, em sua atividade editorial, Fernando Ferreira de Loanda lançou praticamente todos os poetas então emergentes: “Foi ele o primeiro editor ‘comercial’ de João Cabral, ao apresentar, nos ‘Poemas reunidos’ (1954), uma obra então rara. E a esse nome consular, acrescentemos os de Afonso Félix de Sousa, Darcy Damasceno, Nilo Aparecido Pinto, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Marly de Oliveira, Octavio Mora, Marcos Konder Reis, Domingos Carvalho da Silva, Walmir Ayala, Gilberto Mendonça Teles, Stella Leonardos e tantos outros que constituem a chamada ‘Geração de 45’[…].” Tudo terminou, para ele e em grande parte para todos, na melancolia cinzenta dos triunfos extintos: “Os poetas da minha geração, a malograda,/ e os posteriores, os antolhados frívolos da glória,/ esqueceram-se de colocar a chave sob o tapete” (Fernando Ferreira de Loanda. “Ode para Walt Whitman ou Efraín Huerta”)”.

maricela terán, traduzindo loanda pro espanhol (clique aqui), diz: “imerso numa tradição propensa ao assombro, à rebeldia e à conaturalidade dos fenômenos humanos, destacou-se como um dos principais protagonistas da literatura atual do Brasil”. fato que, sabemos, não se confirma, dado o completo estado de ostracismo ao qual foi relegado seu nome. fora essas poucas informações, nada mais encontrei sobre a vida ou a obra do poeta. todavia, deixo-vos estes poemas que seguem.

 

sergio maciel

* * *

INVERNO

Assobiam-nos, vindo de um sul
frígido, ventos
que nos queimam a boca e as rosas;
o beija-flor enrijece,
a água congela e tolhe o peixe.
Mas o homem permanece — e é necessário
que seja lembrado numa estátua —
desvia rios, abre canais, constrói cidades,
voa e nada.

E procria sem necessitar de primavera.

 

§

ODE

Acolitando nuvens
brancas não fossem.

            Pastor do céu
anjos houvesse.

            E em rapto febril
de vitrais, evadir-me

à luz, desvanecido
sob gelosias de fugas.

E ser o milhafre que tomba
exangue na travessia

infinita de uma longinque
latitude, à derradeira.

Mensagens experimentasse
e tudo esquecesse, após.

Não fora eu,
tu não serias.

Junho, 1947.

§

HOMEN DE INCOERCÍVEL ESPERANÇA

Para Gabino-Alejandro Carriedo

Homem de incoercível esperança
transita, sem sonhos ou amanhã,
cúmplice, intemporal, urde a teia,
e ante o silabar e o afresco
trânsfuga, transmuta, transige.

Repetir sempre, tudo já foi dito;
importa é como dizê-lo, insinuá-lo.
Não te acovardes ante a palavra implume.
Se desbotada ou erodida, dá-lhe
tua seiva, tua vivência – investe:
morre quem ousa, quem ousa ama.

 

§

VISEU REVISITED

Não falo das ruas da minha infância,
nem as nomeio,
para que ignorem a pequenez do meu mundo.

Tinham, porém, fauna e flora,
as árvores davam sombra e frutos,
os homens bom-dia e os pássaros cantavam.

 

§

PORLAMAR

Baixo às profundas
abissais da palavra:
colho-a como um ovo
entre as algas, como
um pêra na geladeira,
como um peixe roubado
à voracidade de outro,
como um pato abatido
no pântano, como areia
fina, na barra, a fugir
entre meus dedos.
Como-a
com uma pitada de sal.
Se de veias, sangro-a;
pétrea, sob o cinzel,
dirá o que direi, nua,
galada e engalanada,
confiante e confidente.

Busco-a a madrugar,
mastim, de tocaia,
como se colhesse amoras
temendo as silvas.

 

§

POEMA DOS CINQUENTA ANOS

Vejo o tempo passar, perder-se,
frio,
caminhando felino como um gole de água,
ou um leopardo e evaporar-se.

O amanhecer da grande cidade
e o canto dos pássaros valorizo;
e o pão e o café na mesa posta,
a erva daninha e a formiga,
coisas, sutis talvez,
sem importância para os que
me cercam: envelheço.

Cuido dos cactos, do loureiro e da goiabeira,
respondo cartas, queimo livros antigos e amigos.
Camões e Pessoa, Gullén e Vallejo fazem maior minha ilha.
Compromisso, sem que o assumisse,
só com a morte,
o demais para o diabo.

 

§

ODE PARA BARTOLOMEU DIAS

Ah, Bartolomeu Dias,
marinheiro sem mulheres,
sem cais,
tanto suaste para divisar o Índico
além da tempestade e da fábula,
tanto quiseste ver-te senhor do Oriente,
plantar as quinas e a cruz muito além do teu sonho,
tantas estrelas seguiste,
louco e lúcido,
e outros tantos alfarrábios e adivinhos consultaste,
fundindo o real ao fantástico –
– e os poetas não falaram de ti, o proficiente,
nem dos teus sonhos,
nem dos fantasmas que evocaste,
embora sulcasses a cortina que envolvia
as palavras e o abismo.

Pensavas servir a pátria
e serviste a muitas,
Bartolomeu Dias da minha infância,
símbolo da minha raça,
fremes e estuas no meu peito,
e te apegas às minhas veias
para alevantar ao vento as velas
e me arrastar ao Índico.

Ah, Bartolomeu Dias,
meu Ulisses lusíada,
eu te sagrarei na pedra,
com a palavra e ante Deus!
Do outrora te lançarei ao porvir,
e não há tempestade
que te abata mais uma vez.

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