poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

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Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

***

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poesia, tradução

Joanne Kyger, por Mariana Basílio

joane

Joanne Kyger (1934 – 2017) foi uma das mais proeminentes poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 30 livros de poesia e prosa, Kyger foi associada com os poetas do Renascimento de San Francisco, assim como a Geração Beat, Black Mountain e a Escola de Nova York. Sua poiesis está inserida tanto no modernismo norte-americano quanto nos clássicos orientais. Foi casada com Gary Snyder (1930) e grande amiga de Allen Ginsberg (1926 – 1997).

Ao lado de poetas como Diane di Prima (1934) e Anne Waldman (1945), a poeta deixou sua marca como autora, como mulher em destaque em um contexto de dominação masculina das letras americanas após a Segunda Guerra Mundial, personificada por autores como William S. Burroughs (1914 – 1997), Neal Cassady (1926 – 1968), Jack Kerouac (1922 – 1969), além dos próprios Ginsberg e Snyder.

Kyger faleceu de câncer aos 82 anos, no dia 22 de março de 2017, em sua casa em Bolinas – Califórnia na companhia de seu marido, Donald Guravich. Ela trabalhava em um novo livro, There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera. O livro foi publicado postumamente pela Wave Books, em setembro do mesmo ano.

Sua obra também inclui livros como: The Tapestry and the Web (1965), All This Every Day (1975), Going On: Selected Poems, 1958–1980 (1983), Just Space: Poems 1979–1989 (1991), Again: Poems 1989–2000 (2001), As Ever: Selected Poems (2002), God Never Dies (2004), On Time: Poems 2005–2014 (2015), There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera (2017).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Kyger procurando um equilíbrio entre seus versos livres, tanto na métrica quanto no ritmo, focando sobretudo no sentido, na fluidez, na contemporaneidade de seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Joanne: uma poesia de detalhes e inesperadas sensações – repleta de reflexões sociais e religiosas– em pensamentos que procuram saltar os escombros de uma sociedade que ainda se dizima constantemente.

 Mariana Basílio

*

Já faz muito tempo

NOTAS DA REVOLUÇÃO

Durante a batida desta história você pode encontrar outras batidas. Quero dizer
uma batida, quero dizer Cantus, quero dizer Firme-nos, quero dizer papel, quero dizer no Reino que está vindo, que está aqui em descoberta.

Também é Om Shri Maitreya, você não atravessa minhas vibrações,
mas com elas, perdendo o pronome. É Tu, é Ti, sou eu, sou mim.

Máquinas são metal, elas nos servem, nós cuidamos delas. Isso é para mim, e isso é para você. Você diz você para mim, e eu digo você para você. Algumas máquinas são muito delicadas, elas são precisas, elas não são grandes carimbadoras de metal, Ela fez poesia suficiente para manter sua companhia.

Minhas Vibrações. Você interceptou minhas vibrações. As longas sombras,
as longas sombras, as longas sombras. Meu pequeno e doce tom,
meu pequeno e doce tom é meu braço.

Naquilo Apenas: A canção que a menina cantou a canção que a menina cantou

It’s been a long time

NOTES FROM THE REVOLUTION

During the beat of this story you may find other beats. I mean a beat, I mean Cantus, I mean Firm us, I mean paper, I mean in the Kingdom which is coming, which is here in discovery.

It is also Om Shri Maitreya, you don’t go across my vibes, but with them, losing the pronoun. It is Thy, it is Thee, it is I, it is me.

Machines are metal, they serve us, we take care of them. This is to me, and this is to you. You say you to me, and I say you to you. Some machines are very delicate, they are precise, they are not big metal stampers, She made enough poetry to keep her company.

My Vibes. You intercepted my vibes. The long shadows, the long shadows, the long shadows. My sweet little tone, my sweet little tone is my arm.

On what Only: The song that girl sang the song that girl sang

§

“Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo”

Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo
estava à minha frente, eu era a base
do pilar do totem,
um animal amplamente agachado.

Que tal uma massagem rápida agora, ele me disse.
Eu não acho que seja legal, respondi.
Oh, disse ele, depois de uma pausa, eu deveria ter esperado
você me pedir.

As ondas chegaram cada vez mais perto.

Quando caio na lacuna da suspeita, já não estou mais aqui.

Neste mundo que foi fechado por casas
e redes, eu saio voando de
debaixo da barriga. A zonza coroa da vida,
de luzes giratórias, circula essa cabeça. Pura
com o assombro, quente
com o assombro. As ruas se tornaram douradas. Todos
os tamanhos aumentam, as cores brilham, estamos no mito.

Nós estamos em fácil compreensão.
Mal falando, os pensamentos passam por nós.
É a memória. Enquanto busco encontrar
a doce deriva deste dia. A névoa para o mar, o vento.

“When I used to focus on the worries, everybody”

When I used to focus on the worries, everybody
                      was ahead of me, I was the bottom
                of the totem pole,
              a largely spread squat animal.

How about a quick massage now, he said to me.
I don’t think it’s cool, I replied.
Oh, said he, after a pause, I should have waited
                     for you to ask me.

The waves came in closer and closer.

When I fall into the gap of suspicion I am no longer here.

In this world that has got closed over by houses
                       and networks, I fly out
from under the belly.     Life’s dizzy crown
of whirling lights, circles this head.    Pure
with wonder, hot
with wonder.    The streets become golden.     All
size increases, the colors glow, we are in myth.

We are in easy understanding.
Scarcely talking, thoughts pass between us.
                                    It is memory.    As I search to find
this day’s sweet drifting.    The fog out to sea, the wind.

§

Setembro

 A grama é marrom clara
e o oceano adentra
longas linhas cintilantes
sob a frota da noite anterior
que dorme agora de manhã cedo

Aqui e lá pastam os cavalos
no terreno de alguém

Estranhamente, não foi minha vontade

que me fez falar na igreja para ser liberada
mas a memória de como costumava ser
em um jogo descontraído e exótico

quando os personagens eram promessas
e depois reconhecimentos. O mundo da transformação
é real e irreal, mas confiante.

Chega dessas lições? Quero dizer
frases didáticas para te fazer entrar e sair dos
laços misteriosos do amor?

Bem, eu mesma não sou eu mesma

e o poder de sobrevivência pelo qual eu falo
não é feito de casas.

É luxo interior, de figuras douradas
que respiram como as montanhas
e cuja pele é escurecida por estrelas.

September

The grasses are light brown
              and the ocean comes in
              long shimmering lines
              under the fleet from last night
              which dozes now in the early morning

Here and there horses graze
              on somebody’s acreage

                               Strangely, it was not my desire

that bade me speak in church to be released
         but memory of the way it used to be in
careless and exotic play

               when characters were promises
      then recognitions.  The world of transformation
is real and not real but trusting.

                            Enough of these lessons?  I mean
didactic phrases to take you in and out of
love’s mysterious bonds?

                      Well I myself am not myself

           and which power of survival I speak

for is not made of houses.

          It is inner luxury, of golden figures
that breathe like mountains do
            and whose skin is made dusky by stars.

§

PALÁCIO NOTURNO

A melhor coisa do passado
é que acabou
quando você morre
você acorda
do sonho
que é a sua vida.

Então você cresce
e se torna pós-humano
em um passado que ainda acontece
à sua frente.


NIGHT PALACE

The best thing about the past
is that it’s over
when you die
you wake up
from the dream
that’s your life.

Then you grow up
and get to be post human
in a past that keeps happening
ahead of you.

*

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do Sesc (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.

*

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Edna St. Vincent Millay, por Mariana Basílio

Edna St. Vincent Millay

Edna St. Vincent Millay (1892 – 1950) foi uma das mais conhecidas poetas americanas do século XX. Em vida, teve tanto da crítica literária quanto do público excelente receptividade – alguns críticos chegaram a comparar seus sonetos aos de William Shakespeare (1564 – 1616). Apesar de, por um longo período, ter sido pouco lembrada, com o passar das décadas, sua obra vem sendo mais divulgada. Seus primeiros livros são os mais conhecidos: Renascence and Other Poems (1917), A Few Figs from Thistles: Poems and Four Sonnets (1920), Second April (1921) e The Ballad of the Harp-Weaver (1922, ganhador do Prêmio Pulitzer).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Millay tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, mas priorizando sobretudo o sentido e a sonoridade de seus versos no português, procurando não comprometer a vibe da poeta: tons crepusculares – repletos de ironia, amor, indagação – em pensamentos convexos entre sociedade e individualidade.

Não me esquecendo de dizer que, aos poucos, seu nome vem se mostrando mais presente no Brasil. Como disse certa vez Manuel Bandeira (1886 – 1968): “Nome fabuloso Edna St. Vincent Millay: é um verso, é uma maravilha! Quantas vezes me tenho surpreendido a repetir Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, como repito um verso de Villon ou de Racine ou de Mallarmé!” E assim, repito: Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay, Edna St. Vincent Millay!

 Mariana Basílio

*

 OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA

Eu vou morrer, mas
isso é tudo o que farei pela Morte.
Eu a ouço tirar seu cavalo da baia;
Eu ouço pisadas no chão do celeiro.
Ela tem pressa; ela tem negócios em Cuba e
nos Bálcãs, muitas ligações a fazer na manhã.
Mas eu não vou segurar a rédea
enquanto ela ajusta a cilha.
Ela que monte sozinha:
não darei pé na subida.

Embora ela estrale meus ombros no chicote,
não direi a ela para onde a raposa correu.
Com os cascos em meu peito, não direi onde
o garoto negro se esconde no pântano.
Eu vou morrer, mas isso é tudo que farei pela Morte.
Eu não estou em sua folha de pagamentos.

Não direi a ela o paradeiro dos amigos,
nem o dos meus inimigos.
Ainda que ela me prometa muito,
não mapearei o endereço de ninguém.
Acaso sou uma espiã na terra dos vivos
para entregar pessoas à Morte?
Irmã, senha e as plantas de nossa cidade estão
seguras comigo; a depender de mim, nunca serás derrotada.

 

CONSCIENTIOUS OBJECTOR

I shall die, but
that is all that I shall do for Death.
I hear him leading his horse out of the stall;
I hear the clatter on the barn-floor.
He is in haste; he has business in Cuba,
business in the Balkans, many calls to make this morning.
But I will not hold the bridle
while he clinches the girth.
And he may mount by himself:
I will not give him a leg up.

Though he flick my shoulders with his whip,
I will not tell him which way the fox ran.
With his hoof on my breast, I will not tell him where
the black boy hides in the swamp.
I shall die, but that is all that I shall do for Death;
I am not on his pay-roll.

I will not tell him the whereabout of my friends
nor of my enemies either.
Though he promise me much,
I will not map him the route to any man’s door.
Am I a spy in the land of the living,
that I should deliver men to Death?
Brother, the password and the plans of our city
are safe with me; never through me shall you be overcome.

§

 PRIMAVERA

Por qual propósito, Abril, de novo retornas?
A Beleza não é suficiente.
Não podes me acalmar com a vermelhidão
Das folhinhas unidas se abrindo.
Eu sei o que sei.
O sol queima a nuca quando observo
Os espinhos do croco.
O cheiro de terra é bom.
É aparente que não há a morte.
Mas o que isso significa?
Não apenas sob a terra os cérebros
São comidos por vermes.
A vida em si
Não é nada,
Uma taça vazia, lance de escadas sem tapetes.
Não basta todo ano, descendo o morro,
Abril
Chegar como um tolo, balbuciando e espalhando flores.

 

SPRING

To what purpose, April, do you return again?
Beauty is not enough.
You can no longer quiet me with the redness
Of little leaves opening stickily.
I know what I know.
The sun is hot on my neck as I observe
The spikes of the crocus.
The smell of the earth is good.
It is apparent that there is no death.
But what does that signify?
Not only under ground are the brains of men
Eaten by maggots.
Life in itself
Is nothing,
An empty cup, a flight of uncarpeted stairs.
It is not enough that yearly, down this hill,
April
Comes like an idiot, babbling and strewing flowers.

§

TARDE NA COLINA

Vou ser o que é mais alegre
Sob este sol!
Vou tocar cem flores sem
Colher uma só.

Vou olhar com calma as nuvens
E os montes, ver
A grama curvando ao vento,
Vê-la crescer.

Quando as luzes da cidade
Forem se erguendo,
Vou marcar qual é a minha,
E vou descendo!

 

AFTERNOON ON A HILL

I will be the gladdest thing
Under the sun!
I will touch a hundred flowers
And not pick one.

I will look at cliffs and clouds
With quiet eyes,
Watch the wind bow down the grass,
And the grass rise.

And when lights begin to show
Up from the town,
I will mark which must be mine,
And then start down!

ednastvincentmillay1

*

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins,Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara,Raimundo, entre outras. Já apareceu aqui na escamandro com poemas e traduções de Denise Levertov.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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Langston Hughes, por Camillo César Alvarenga

Iniciei este texto em 2015, revisando agora para esta publicação. O ensaio nasce de um texto em inglês que lia sobre o autor e que deu origem a estas breves linhas que grafei aqui. Em especial, a tradução de “Good Morning Revolutions” não é inédita, publiquei antes num blog junto a “The Negro Speak of Rivers”, fora estas duas exceções, todas as outras versões em português são apresentadas por mim, aqui, pela primeira vez ao público.

Camillo César Alvarenga

***

ENSAIO, TRADUÇÃO E OUTRAS TRADUÇÕES – LANGSTON HUGHES.

 a partir de Ibn Arabi, que diz que este é um fato verdadeiro, um de seus amigos, que era um dervixe Abdal, foi levantado para o céu pelos espíritos, chegou ao Monte Kaf circundando o universo, e descobriu que esta montanha foi em si rodeada por uma cobra. Sabemos agora que não há montanha que circula o universo, nada mais que uma cobra que cerca tal montanha.

 Enciclopédia do Islam[1].

 Edward Said foi um intelectual palestino e pai do Orientalismo, nessa esteira de alianças contra a ordem dominante, tomamos aqui a experiência da moderna poesia negra norte-americana.  Neste sentido, a conexão entre a poesia afro-americana e as raízes da cultura contemporânea nos dá, a saber, notícias de que no Brasil fontes guardam cartas do poeta cubano Nicolás Guillén aptas ao estudo, onde imagino que se encontrarão muitas endereçadas e recebidas de Langston Hughes (1902-1967), poeta estadunidense que tem um tom criativo bem característico, no qual a sua poesia é a manifestação da condição humana do homem negro na América.

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Hughes, ao longo de sua trajetória intelectual, artística e política ganhou uma reconhecida dimensão com seus trabalhos literários como os romances da maturidade, novelas, peças de teatro e musicais. Ele sempre procurou apresentar as formas estéticas, simbólicas e principalmente sociais da vida do negro na América do Norte, no século XX. Expressão de uma literatura em reflexividade com a comunidade negra e em conexão com a dicção da modernidade, distinguia-se das formas literárias que o precederam, ou seja, dos séculos 18 e 19.

Fez parte da organização política “Panteras Negras”, grupo de militantes armados que lutavam pelo fim do racismo nas leis americanas. Poeta da e na luta pelos direitos civis, desde o Harlem suas redes de sociabilidade estendiam-se até ligações internacionais entre as quais estavam poetas de diversas partes do mundo: como o cubano Nicolas Guíllen. L. Hughes, coloca-se contra o racismo e a favor do socialismo e, com isso, entra na alça de mira do macarthismo dos anos 50.

A partir de Nova York seus versos avançam sobre as gerações com a questão da afirmação do negro na sociedade moderna. Atinge os palcos da Broadway, ao passo que, o jazz de Duke Ellington trazia também como Hughes a cultura negra e seu cotidiano para o centro espetacular da vida social norte americana.

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Langston Hughes, Michael Koltyov, Ernest Hemingway, Nicolas Guíllen, 1937

Revelou em sua obra, entre outras, influências do jamaicano Claude Makay e Paul Laurence Dunbar, que escreveu “Ode a Etiópia”. Em suas primeiras obras, Langston demonstra seu interesse pelo blues e jazz e apresenta a cultura, a música e as tradições de sua comunidade frente à imposição da ascensão social do mundo dos brancos. Sua poética entra num período de radicalização durante a grande depressão. Escreve o poema “The Negro Speaks of Rivers” com base na inspiração que lhe gera a extensão do Rio Mississippi até alcançar o México.

Em 1932 em pleno stalinismo vai à Rússia. Escreve contos curtos expressando o caminho da cultura tradicional afro-estadunidense bem como enfrentando situações da experiência social de ser negro na América segregacionista. Publica a tragédia – “Mulato” – em seguida o drama histórico “Emperor of Haiti”. Além da peça – “Dont You Want Be Free?” – uma maneira negra de representar uma forma moderna de teatro revolucionário que se compara a Brecht ou Lorca.

Como tal a sua trajetória, a sua obra legou à sua geração e às vindouras a crítica da problemática da diferença étnica entre “negros” e “brancos” e, por conseguinte, a reflexão estética e política acerca das relações raciais através da poesia. Langston Hughes vem a morrer, vitimado por um câncer de próstata, em New York, em maio de 1967.

capa1

***

GENIUS CHILD

 This is a song for the genius child.
Sing it softly, for the song is wild.
Sing it softly as ever you can –
Lest the song get out of hand.

Nobody loves a genius child.

Can you love an eagle,
Tame or wild?
Can you love an eagle,
Wild or tame?
Can you love a monster
Of frightening name?

Nobody loves a genius child.

Kill him – and let his soul run wild.

 

CRIANÇA GÊNIO

Esta é uma canção para a criança gênio.
Cantá-la em voz macia, a música é selvagem.
Cante suavemente quanto puder –
Para que a música saia da mão.

Ninguém ama uma criança gênio.

 Você pode amar uma águia,
Domesticada ou selvagem?
Você pode amar uma águia,
Selvagem ou domesticada?
Você pode amar um monstro
de nome assustador?

Ninguém ama uma criança gênio.

Mate-a – e deixe correr sua alma selvagem.

§ 

 

THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older than the
      flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
      went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy
      bosom turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

 

O NEGRO FALA DOS RIOS

Soube de rios:
Soube de antigos rios qual o mundo e tão velhos quanto o
        fluxo de sangue humano em veias humanas.

 Minha alma tornou-se profunda como os rios.

 Eu banhei no Eufrathes quando as auroras eram jovens.
Eu construí minha mansarda próxima ao Congo e seu murmúrio me fez dormir.
Eu vi além do Nilo e ergui pirâmides sobre este.
Eu ouvi a cantoria do Mississipi quando Abe Lincoln
      desceu à Nova Orleans e eu vi este leito
      lamacento dourar-se no crepúsculo.

 Soube de rios:
Anciãos, crepusculares.

Minha alma tornou-se profunda como os rios.

§


THEME FOR ENGLISH B

The instructor said,

      Go home and writ
a page tonight.
    And let that page come out of you—
    Then, it will be true.

I wonder if it’s that simple?
I am twenty-two, colored, born in Winston-Salem.
I went to school there, then Durham, then here
to this college on the hill above Harlem.
I am the only colored student in my class.
The steps from the hill lead down into Harlem,
through a park, then I cross St. Nicholas,
Eighth Avenue, Seventh, and I come to the Y,
the Harlem Branch Y, where I take the elevator
up to my room, sit down, and write this page:

It’s not easy to know what is true for you or me
at twenty-two, my age. But I guess I’m what
I feel and see and hear, Harlem, I hear you.
hear you, hear me—we two—you, me, talk on this page.
(I hear New York, too.) Me—who?

Well, I like to eat, sleep, drink, and be in love.
I like to work, read, learn, and understand life.
I like a pipe for a Christmas present,
or records—Bessie, bop, or Bach.
I guess being colored doesn’t make me not like
the same things other folks like who are other races.
So will my page be colored that I write?
Being me, it will not be white.
But it will be
a part of you, instructor.
You are white—
yet a part of me, as I am a part of you.
That’s American.
Sometimes perhaps you don’t want to be a part of me.
Nor do I often want to be a part of you.
But we are, that’s true!
As I learn from you,
I guess you learn from me—
although you’re older—and white—
and somewhat more free.

This is my page for English B.

 

PÁGINA PARA O TESTE DE INGLÊS

 O instrutor disse,

      Vá para casa e escreva uma página esta noite.
E deixe esta página sair de você –
Então, esta será verdade.

Eu me pergunto se isto é tão simples?
Eu tenho vinte e dois, sou negro, nascido em Winston-Salem.
Eu fui para escola, depois Durhan,
então aqui neste colégio, no morro sobre o Harlem.
Eu sou o único estudante de cor em minha sala.
Os passos da colina levam até o Harlem,
através do parque, então eu corto o St. Nicholas
Oitava Avenida, Sétima, e venho para o Y, o Harlem Branch Y
Onde eu pego o elevador para minha sala
sento-me e escrevo esta página:

 Não é fácil saber o que é verdade para mim ou você,
aos vinte e dois, a minha idade.
Mas eu acho que eu sou o que eu sinto e vejo e ouço,
Harlem, eu ouço você:
ouvi-lo, ouvi-me – nós dois – você, eu, falar nesta página.
(Eu ouço New York, também.) Eu-quem?

Bem, eu gosto de comer, dormir, beber e amar.
Eu gosto de trabalhar, ler, aprender e entender a vida.
Eu gosto de um cachimbo de presente de Natal,
ou discos – Bessie, Bop ou Bach.
Eu acho que ser (negro) não me faz não gostar
das mesmas coisas que os outros povos de outras raças.

Então vai ser negra minha página que escrevo?
Ser-me, não será branco.
Mas vai ser uma parte de você, instrutor.
Você é branco – ainda uma parte de mim, como eu sou uma parte de você.
Isso é americano.
Às vezes, talvez você não queira ser uma parte de mim.
Nem eu, muitas vezes quero ser uma parte de você.
Mas nós somos, isso é verdade!
Como eu aprendo com você, eu acho que você aprende comigo – embora você está mais velho – e branco – e um pouco mais livre.

 Esta é a minha página de Inglês B. 

§

 

MY PEOPLE

 The night is beautiful,
So the faces of my people.

The stars are beautiful,
So the eyes of my people.

Beautiful, also, is the sun.
Beautiful, also, are the souls of my people.

 

MEU POVO

 A noite está linda,
Assim, os rostos do meu povo.

As estrelas são belas,
Assim, os olhos do meu povo.

Lindo, também, é o sol.
Lindas, também, são as almas do meu povo.

 §

 

A New Song

I speak in the name of the black millions
Awakening to action.
Let all others keep silent a moment.
I have this word to bring,
This thing to say,
This song to sing:

Bitter was the day
When I bowed my back
Beneath the slaver’s whip.

That day is past.

Bitter was the day
When I saw my children unschooled,
My young men without a voice in the world,
My women taken as the body-toys
Of a thieving people.

That day is past.

Bitter was the day, I say,
When the lyncher’s rope
Hung about my neck,
And the fire scorched my feet,
And the oppressors had no pity,
And only in the sorrow songs
Relief was found.

That day is past.

I know full well now
Only my own hands,
Dark as the earth,
Can make my earth-dark body free.
O, thieves, exploiters, killers,
No longer shall you say
With arrogant eyes and scornful lips:
“You are my servant,
Black man—
I, the free!”

That day is past—

For now,
In many mouths—
Dark mouths where red tongues burn
And white teeth gleam—
New words are formed,
Bitter
With the past
But sweet
With the dream.
Tense,
Unyielding,
Strong and sure,
They sweep the earth—

Revolt! Arise!

The Black
And White World
Shall be one!
The Worker’s World!

The past is done!

A new dream flames.

 

UMA NOVA CANÇÃO

 Falo em nome dos milhões de negros
Despertando para a ação.
Deixe que todos os outros fiquem em silêncio um momento
Eu tenho essa palavra para trazer,
Esta coisa a dizer,
Esta canção a cantar:

Amargo foi o dia
Quando curvei minhas costas
Sob o chicote do traficante de escravos.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia
Quando eu vi os meus filhos sem escola,
Meus jovens homens sem uma voz no mundo,
Minhas mulheres tomadas o corpo – como brinquedos
De povos ladrões.

Esse dia é passado.

Amargo foi o dia, eu digo,
Quando a corda do carrasco
Pendurada em meu pescoço,
E o fogo chamuscou meus pés,
E os opressores não tiveram compaixão,
E só nas canções de tristeza
Socorro foi encontrado.

Esse dia é passado.

Eu sei muito bem agora
Apenas as minhas mãos,
Escuras quanto a terra,
Podem fazer a minha terra-escura corpo livre.
Ladrões, exploradores, assassinos,
Já não dirás
Com os olhos arrogantes e desdenhosos lábios:

“Tu és o meu servo,
Homem Negro –
Eu, o livre! “

Esse dia é passado –

Por enquanto,
Em muitas bocas –
Bocas escuras onde línguas vermelhas queimam
E dentes brancos gelam –
Novas palavras são formadas,
Amargo
Como passado
Mas doce
Como sonho.
Tenso,
Inflexível,
Com violenta certeza,
Eles varrem a Terra –

Revolta! Levanta-te!

 O Negro
E o Mundo Branco
Deve ser um!
Mundo dos Trabalhadores!

O passado é feito!

 Uma nova chama de sonho
Contra o
Sol!

§

 

GOOD MORNING REVOLUTION

Good morning, Revolution
       You’re the very best friend
       I ever had.
We gonna pal around together from now on.
Say, listen, Revolution:
You know, the boss where I used to work,
The guy that gimme the air to cut down expenses,
He wrote a long letter to the papers about you:
Said you was a trouble maker, a alien-enemy,
In other words a son-of-a-bitch.
He called up the police
And told ‘em to watch out for a guy
Named Revolution.

You see,
The boss knows you’re my friend.
He sees us hangin’ out together.
He knows we’re hungry, and ragged,
And ain’t got a damn thing in this world–
And are gonna do something about it.

The boss’s got all he needs, certainly,
        Eats swell,
        Owns a lotta houses,
        Goes vacationin’,
        Breaks strikes,
        Runs politics, bribes police,
        Pays off congress,
        And struts all over the earth–

But me, I ain’t never had enough to eat.
Me, I ain’t never been warm in winter.
Me, I ain’t never known security–
All my life, been livin’ hand to mouth,
        Hand to mouth.

Listen, Revolution,
         We’re buddies, see–
         Together,
         We can take everything:
         Factories, arsenals, houses, ships,
         Railroads, forests, fields, orchards,
         Bus lines, telegraphs, radios,
         (Jesus! Raise hell with radios!)
         Steel mills, coal mines, oil wells, gas,
         All the tools of production,
         (Great day in the morning!)
         Everything–
         And turn ‘em over to the people who work.
         Rule and run ‘em for us people who work.

Boy! Them radios–
Broadcasting that very first morning to USSR:
Another member the International Soviet’s done come
Greetings to the Socialist Soviet Republics
Hey you rising workers everywhere greetings–
         And we’ll sign it: Germany
         Sign it: China
         Sign it: Africa
         Sign it: Poland
         Sign it: Italy
         Sign it: America
         Sign it with my one name: Worker
On that day when no one will be hungry, cold, oppressed,
Anywhere in the world again.

That’s our job!

I been starvin’ too long,
Ain’t you?

Let’s go, Revolution!

 

BOM DIA, REVOLUÇÃO

 Bom dia Revolução:
           Você é a melhor amiga
            Que já tive.
Nós vamos, camarada, por aí juntos de agora em diante.
Ei, ouça, Revolução:
Você sabe, o chefe para quem eu costumava trabalhar,
O cara que me deu um ar para reduzir despesas
Ele escreveu uma longa carta para os jornais sobre você:
Disse que você era uma encrenqueira, uma inimiga-estrangeira,
Em outras palavras, um filho-da-puta.
Ele ligou para a polícia
E disse a eles para vigiarem uma camarada
Chamada Revolução.

Você vê,
O chefe sabe que você é minha amiga
Ele nos vê sair juntos
Ele sabe que nós somos famintos e clandestinos,
E que não temos droga nenhuma neste mundo –
E que vamos fazer alguma coisa sobre isto.

O chefe tem tudo o que ele precisa, com certeza,
     Come até inchar,
     É dono de muitas casas,
     Sai de férias,
     Fura greves
     Trata de política, suborna a polícia
     Compra o Congresso,
     E bota banca em todo o mundo –

 Mas eu, eu nunca tive o bastante para comer
Eu, eu nunca estive aquecido no inverno.
Eu, eu nunca conheci segurança –
Toda a minha vida, vivi com uma mão na frente
             E a outra atrás[2].

 Ouça, Revolução,
Somo companheiros, vê –
Juntos
Nós podemos tomar tudo:
Fábricas, arsenais, casas, navios,
Ferrovias, florestas, campos, pomares,
Linhas de ônibus, telégrafos, rádios,
(Meu deus! Levantar o inferno com rádios!)
Siderúrgicas, minas de carvão, poços de petróleo, gás
Todas as ferramentas de produção.
(Grande dia na manhã)
Todas as coisas –
E transformá-las para as pessoas que trabalham,
Tomá-las e fazê-las funcionar para nós, as pessoas que trabalham.

Camarada! Os rádios!
Transmitindo aquela primeira manhã para URSS:
Outro membro da Internacional acabou de chegar
Saudações para as Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ei, vocês, trabalhadores levantando-se por toda parte, saudações –
E nós vamos cantar: Cabula
Cantar: Maré
Cantar: África
Cantar: Ceilândia
Cantar: ZL
Cantar: América
Assinar com meu único nome: Trabalhador.
Neste dia ninguém vai sentir fome, frio, opressão
Em parte alguma do mundo de novo.

Este é nosso trabalho!

 Eu estava morrendo de fome há muito tempo,
Você não?

Vamos, Revolução!

 §

 Olinda,
Fevereiro de 2018.

[1] d’après Ibn Arabi, qui affirme qu’il s’agit d’un fait vèridique, un de ses amis, qui était un derviche Abdal, fut hissé jusqu’aux cieux par les esprits, atteignit le mont Kaf qui encercle l’univers, et constata que cette montagne était elle même encerclée par un serpent. On sait aujourd’hui qu’il n’y a pas de montaigne que encreclerait l’univers, pas plus qu’un serpent qui encerclerait une telle Montaigne. (Encyclopéde I’ Islam) Retirada do livro de Ohmar Pamuk, Le Livre Noir. Tradução minha.

[2] Versão brasileira da expressão: “livin’ hand to mouth/Hand to mouth”.

***

Camillo César Alvarenga é poeta, tradutor e crítico, nascido em São Félix, no Recôncavo da Bahia, em 1988. Autor do livro de poemas Scombros (Edufrb, 2012) e organizador da antologia de poetas baianos Canoas do Paraguaçu (Edufrb, 2012), publicou o poemário OFILTRO (Coleção Oju Aiyê, Portuário Atelier Editorial, 2013) , e recebeu o Prêmio Maximiano Campos de Literatura (Instituto Maximiano Campos) na categoria Micro-Contos (2013).  Em 2018, as plaquetes Macumbe-se e Animítico, uma antologia são editadas pela Editora Kz1, e para a mesma editora o autor prepara uma tradução do livro Islands (1969), de Kamau Brathwaite. Traduziu Langston Hughes, Octavio Paz e Nicolás Guillén, entre outros. Vive em Olinda-Pe.

*

Padrão
tradução

Gravuras japonesas, de John Gould Fletcher (1886-1950), por Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

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John Gould Fletcher (1886 – 1950) nasceu em Little Rock, Arkansas, no seio de uma família abastada, o que lhe possibilitou estudar em Harvard. Com a morte do pai, em 1906, deixou a universidade para viver de herança e empreendeu uma longa viagem para a Europa, acabando por estabelecer-se em Londres, onde publicou, em 1913, cinco livros às próprias custas. Nessa época, tendo conhecido Ezra Pound, tornou-se difusor da corrente estética do Imagismo, que visava afastar-se do sentimentalismo corrente na poesia de então e propunha alguns princípios para a produção poética: o tratamento direto do assunto, a economia verbal e a elaboração de um ritmo que se pautasse pela frase musical em detrimento da batida do “metrônomo”.

Em 1915, Flecther alcançou notoriedade entre os poetas americanos com a publicação de Irradiations: Sand and Spray. No mesmo ano, após ter visto uma exposição de pintura japonesa em Boston, no Museum of Fine Arts, passou a refletir a respeito de uma forma de mesclar a tradição oriental com a ocidental. A respeito dessa tentativa, vale lembrar Edna B. Stephens, que afirma que o intuito do poeta era “fundir o entendimento intuitivo do Oriente com as energias explosivas da América” .

Dessa exposição inspiradora surgem os “quase” haicais aqui traduzidos, que compõem o livro Japanese Prints, de 1918. Vale pontuar que mesmo antes de compor essas Gravuras Japonesas, Fletcher já demonstrava interesse pelo Oriente. Em Goblins and Pagodas (1916), por exemplo, aparecem referências ao Budismo, ao Taoísmo e ao Zen. Este interesse pelo pensamento oriental continuou em seus trabalhos posteriores, geralmente aliado ao misticismo, também recorrente em sua obra. Em Parables (1925), dialoga com o Hinduísmo. Já em South Star (1941), apresenta uma atitude anti-industrialista e uma defesa do primitivismo, da quietude taoísta e da doutrina confucionista do homem superior, elementos que serão fundidos poeticamente na figura do estado do Arkansas da época dos pioneiros do oeste.

Nas Gravuras Japonesas, que se dividem em quatro partes compostas por poemas geralmente curtos, Fletcher buscou produzir em língua inglesa os chamados hokkus (transliteração da palavra japonesa, que em português adquiriu a grafia haikai e, após a queda do K na reforma ortográfica de 1943, haicai ).

Os haicais tradicionais adotam um esquema de três versos com 5 – 7 – 5 sílabas, respectivamente, e possuem ao menos uma palavra que aluda a uma estação do ano. No caso de Fletcher, a forma japonesa foi flexibilizada, assim como ocorreu no Brasil com o trabalho de Paulo Leminski e Alice Ruiz.

O autor, no entanto, diz na introdução ao livro que “não se pode escrever bons haicais em inglês. O que temos de seguir não é a forma, mas o espírito”. Espírito, esse, que os demais poemas, de forma geral, parecem conseguir recriar para a língua inglesa.

É importante destacar que o interesse de Fletcher pela poesia e pela cultura do Oriente não é um fato isolado. Três anos antes da publicação de Japanese Prints, Ezra Pound (1885 – 1972) lançava Cathay, livro que recriou para a modernidade a poesia chinesa antiga ao apresentar “quase-traduções” baseadas nos manuscritos do sinólogo Ernest Fenollosa. Em 1916, Pound trouxe a público Lustra, em que explorava a brevidade do haicai. No mesmo ano, e. e. cummings (1894 – 1962) publicava um poema chamado Hokku no periódico The Harvard Monthly. Em 1921, Amy Lowell (1874 – 1925) publicava suas próprias experiências com haicais. Wallace Stevens (1979 – 1955), em 1923, apresentava Harmonium, em que constam alguns poemas imbuídos da brevidade e da atmosfera do haicai, como é o caso de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird.

Vê-se, então, certa vontade de revitalização da prática poética ocidental através do contato com elementos orientais. Esse interesse das primeiras décadas do século XX, no entanto, não foi pioneiro, já que a incorporação de elementos orientais pelo Ocidente remonta pelo menos ao século XVI, com o advento das grandes descobertas marítimas (na verdade, tem havido intercâmbio desde a Antiguidade). Houve diálogo com a arte africana e asiática durante todos os séculos subsequentes, mas, no caso do extremo Oriente – do Japão, em especial – o diálogo avivou-se mais a partir da segunda metáde do século XIX, quando o governo japonês retomou contato com o mundo externo, já que tinha ficado por mais de duzentos anos sob um regime de fechamento às relações internacionais.

Com a abertura japonesa, a partir de de meados da década de 1850, e com as exposições internacionais da segunda metade do século, que ajudaram divulgar a cultura oriental no Ocidente, chegaram à Europa e a outras partes do mundo um grande fluxo de elementos nipônicos, como cerâmicas e as próprias Ukiyo-ê, gravuras nipônicas famosas por conta dos trabalhos de artistas como Hokusai (1760 – 1849) e Hiroshige (1797 – 1858), o que engendrou uma tendência intitulada Japonismo. Sob este pano de fundo, surgiram, no campo das letras, várias manifestações que dialogaram com o Extremo Oriente, sendo que alguns exemplos relevantes são em língua portuguesa: Antonio Feijó (1859 – 1917), autor de Cancioneiro Chinês (1890), Camilo Pessanha (1867 – 1926), que deixou sua poesia se imbuir das referências da China, além de ter sido tradutor de elegias chinesas, e Wenceslau de Morais (1854 – 1929), que escreveu relatos sobre o Japão e, já no século XX, traduziu haicais para o português. No campo das letras em língua inglesa, destacam-se os trabalhos referentes a língua, literatura e história chinesas e japonesas escritos por Herbert Allen Giles (1845 – 1935) e Ernest Fenollosa (1854 – 1908). No âmbito das artes plásticas, houve a incorporação de elementos das Ukiyo-ê pelo americano James Abbott McNeill Whistler (1834 – 1903) e pelos pintores impressionistas e pós-impressionistas europeus, sendo que dois deles são Vincent van Gogh (1853 – 1890), que tinha sua própria coleção de gravuras, e Paul Gauguin (1848 – 1903), não por acaso biografado por Fletcher.

O gosto pelo Oriente não foi, tampouco, um interesse que acabou no começo do século XX. Uma das vanguardas poéticas dos anos de 1950, a Poesia Concreta brasileira desenvolveu um intenso estudo da mentalidade oriental, principalmente do ideograma, cuja lógica foi incorporada à prática escritural dos poetas pertencentes ao movimento. Em Portugal, autores como Herberto Helder (1930 – 2015) e Ana Hatherly (1929 – 2015) dialogaram com o Japão através da caligrafia e da recriação do koan, gênero textual tradicional. No mundo anglófono, vale citar o britânico Reginald Horace Blyth (1898 – 1964), tradutor de haicais, e os norte-americanos Jack Kerouac (1922 – 1969), autor de vários haicais copilados após sua morte, e Jerome Rothenberg (1931), que publicou traduções do chinês e do japonês, além de ter escrito pelo menos um livro de poemas que dialoga diretamente com o Japão, The Seven Hells of Jigoku Zoshi (1962).

Ficam, então, alguns poemas do livro, que foi traduzido integralmente para o português e será lançado pela Editora Benfazeja no segundo semestre deste ano.

 

Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

* * *

 

COURT LADY STANDING UNDER A PLUM TREE

Autumn winds roll through the dry leaves
On her garments;
Autumn birds shiver
Athwart star-hung skies.
Under the blossoming plum-tree,
She expresses the pilgrimage
Of grey souls passing,
Athwart love’s scarlet maples
To the ash-strewn summit of death.

CORTESÃ SOB UMA AMEIXEIRA

Ventos de outono vão pelas folhas secas
Às vestes dela;
Aves outonais tremem
Através do céu pego de estrelas.
Sob a ameixeira em flor,
Ela expressa a peregrinação
De almas cinzentas que passam,
Através dos bordos escarlates do amor
Até o pico da morte palmilhado por cinzas.

§

AN OIRAN AND HER KAMUSO

Gilded hummingbirds are whizzing
Through the palace garden,
Deceived by the jade petals
Of the Emperor’s jewel-trees.

UMA OIRAN E SEU KAMUSO

Colibris dourados estão zunindo
Através do jardim do palácio,
Iludidos pelas pétalas de jade
Dos pés-de-joias do Imperador.

§

 

MEMORY AND FORGETTING

I have forgotten how many times he kissed me,
But I cannot forget
A swaying branch—a leaf that fell
To earth.

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

Esqueci quantas vezes ele me beijou,
Mas não posso esquecer
Um galho bambo — uma folha que foi
Ao chão.

§

 

THE HEAVENLY POETESS

In their bark of bamboo reeds
The heavenly poetesses
Float across the sky.
Poems are falling from them
Swift as the wind that shakes the lance-like bamboo leaves;
The stars close around like bubbles
Stirred by the silver oars of poems passing.

AS POETAS CELESTIAIS

Em sua barca de canas de bambu
As poetas celestiais
Flutuam através do céu.
Poemas estão caindo delas
Velozes como o vento que balança as lâminas das folhas de bambu;
As estrelas se fecham como bolhas
Movidas pelos remos de prata de poemas que passam.

§

 

CHANGING LOVE

My love for her at first was like the smoke that drifts
Across the marshes
From burning woods.

But, after she had gone,
It was like the lotus that lifts up
Its heart shaped buds from the dim waters.

AMOR QUE MUDA

No começo, meu amor por ela foi como a fumaça que paira
Através dos brejos
Vinda de madeiras queimando.

Mas depois que ela partiu,
Foi como o lótus que ergue das águas turvas
Seus botões em forma de coração.

§

 

THE LONELY GRAVE

Pilgrims will ascend the road in early summer,
Passing my tombstone
Mossy, long forgotten.

Girls will laugh and scatter cherry petals,
Sometimes they will rest in the twisted pine-trees’ shade.

If one presses her warm lips to this tablet
The dust of my body will feel a thrill, deep down in the silent earth.

O TÚMULO SOLITÁRIO

Peregrinos vão ascender à estrada no começo do verão,
Passando por minha lápide
sob limo, há muito esquecida.

Garotas vão rir e espalhar pétalas de cerejeira,
Algumas vezes vão descansar à sombra retorcida do pinheiro.

Se uma delas pressionar seus lábios quentes contra essa placa
O pó do meu corpo vai sentir um arrepio, bem fundo na terra silente.

§

MOODS

A poet’s moods:
Fluttering butterflies in the rain.

HUMORES

Humores de um poeta:
Borboletas esvoaçando na chuva.

§

 

THE STARS

There is a goddess who walks shrouded by day:
At night she throws her blue veil over the earth.
Men only see her naked glory through the little holes in the veil.

AS ESTRELAS

Há uma deusa que caminha envolvida pelo dia:
À noite ela joga seu véu azul sobre a terra.
Os homens só veem sua glória nua pelos buraquinhos no véu.

 

Padrão
tradução

Anne Sexton, por Beatriz Regina Guimarães Barboza

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ALGUNS POEMAS DOS ÚLTIMOS ANOS DE ANNE SEXTON

Nos últimos poemas do livro The Awful Rowing Toward God (1975), último livro que Anne Sexton (1928-1974) chegou a revisar antes de seu suicídio — embora tenha deixado outros textos para posterior compilação — o poema “Mothers” chama a atenção pelo diálogo que ele possui com textos em outros livros seus. Trabalha-se com esses textos pois que a fase final da obra de Sexton não recebe a mesma atenção que seus primeiros livros, mas ela apresenta uma riqueza simbólica tão vasta quanto, e, em especial, nos temas que são caros a ela e atravessam sua poesia.

É recorrente uma continuidade temática em sua obra, especialmente por sua inscrição na poesia confessionalista estadunidense, em que elementos supostamente biográficos se confundiam com elaborações fictícias. Assim, podemos falar de uma persona poética de Sexton em seus poemas, e, nesta performance de si, a relação entre mãe e filha é um assunto frequente, presente desde seu primeiro livro, To Bedlam and Part Way Back (1960), em “The Double Image”. Conforme a biografia de Anne Sexton por Diane Middlebrook, quando ela fazia leituras públicas desse poema, que relata a relação entre três gerações (a filha da persona poética, ela mesma e sua mãe), ela costumava dizer: “o grande tema não é o de Romeu e Julieta. O grande tema de que todos nós compartilhamos é o tornar-se quem se é, de superarmos nosso pai e nossa mãe, de assumirmos nossa identidade de alguma forma” (tradução minha).

Assim, retomam-se aqui particularmente dois poemas de The Book of Folly (1972), “Dreaming the Breasts” e “The Author of the Jesus Papers Speaks”, desenvolvendo esse tema familiar, com uma reverberação imagética que parece ter no texto de 1974 e publicado em 1975. O segundo poema, em particular, não fala da relação maternal explicitamente, mas a referência ao leite e à alimentação estabelecem outra interpretação para os outros textos. Escritos em verso livre, procura-se pela tradução recriar seu ritmo e jogos sonoros internos, ainda que alterando levemente o sentido das frases, para que o efeito poético não se perca. Considerando o ritmo, busca-se manter a mesma quantidade de sílabas fortes dentro de cada verso, ainda que a tradução resulte maior, para tentar conciliar a menor extensão das palavras em inglês com relação às suas possíveis traduções ao português e, assim, preservar o conteúdo do poema na medida do possível.

Beatriz Regina Guimarães Barboza

***

DREAMING THE BREASTS

Mother, 
strange goddess face 
above my milk home, 
that delicate asylum, 
I ate you up. 
All my need took 
you down like a meal. 

What you gave 
I remember in a dream: 
the freckled arms binding me, 
the laugh somewhere over my woolly hat, 
the blood fingers tying my shoe, 
the breasts hanging like two bats 
and then darting at me, 
bending me down. 

The breasts I knew at midnight 
beat like the sea in me now. 
Mother, I put bees in my mouth 
to keep from eating 
yet it did no good. 
In the end they cut off your breasts 
and milk poured from them 
into the surgeon’s hand 
and he embraced them. 
I took them from him 
and planted them. 

I have put a padlock 
on you, Mother, dear dead human, 
so that your great bells, 
those dear white ponies, 
can go galloping, galloping, 
wherever you are.

SONHANDO OS SEIOS

Mãe,
estranha face divina
sobre meu lar leitoso,
aquele delicado asilo,
te comi toda.
Toda minha falta te
engoliu como um prato.

O que você ofertou
eu lembro em um sonho:
os braços sardentos me enlaçando,
o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando meu sapato,
os seios pendurados como dois tacos
e então me atingindo assim,
me curvando.

Os seios que eu soube à meia-noite
soam como o mar em mim agora.
Mãe, ponho abelhas em minha boca
para me impedir a comida
mas isso de nada adiantou.
No fim cortaram fora seus seios
e o leite derramou deles
nas mãos do cirurgião
e ele os abraçou.
Eu os tomei dele
e plantei-os.

Coloquei um cadeado
em você, Mãe, querida humana morta,
para que seus grandes sinos,
aqueles queridos pôneis brancos,
sigam galopando, galopando,
onde quer que você esteja.

§

 

THE AUTHOR OF THE JESUS PAPERS SPEAKS

In my dream 
I milked a cow, 
the terrible udder 
like a great rubber lily 
sweated in my fingers 
and as I yanked, 
waiting for the moon juice, 
waiting for the white mother, 
blood spurted from it 
and covered me with shame. 
Then God spoke to me and said: 
People say only good things about Christmas. 
If they want to say something bad, 
they whisper. 
So I went to the well and drew a baby 
out of the hollow water. 
Then God spoke to me and said: 
Here. Take this gingerbread lady 
and put her in your oven. 
When the cow gives blood 
and the Christ is born 
we must all eat sacrifices. 
We must all eat beautiful women.

A AUTORA DOS PAPÉIS DE JESUS SE PRONUNCIA

Em meu sonho,
ordenhei uma vaca,
a terrível teta
grande lírio de látex
suando em meus dedos
e com meu puxão,
esperando pelo suco lunar,
esperando pela pálida mãe,
sangue jorrou dela
e me cobriu com vergonha.
Então Deus falou comigo e disse:
As pessoas só dizem boas coisas do Natal.
Se querem dizer algo ruim,
elas sussurram.
Então eu fui ao poço e trouxe um bebê
lá do fundo da água.
Então Deus falou comigo e disse:
Aqui. Tome esta moça de pão de mel
e ponha-a em seu forno.
Quando a vaca dá sangue
e o Cristo nasce
nós temos que comer sacrifícios.
Nós temos que comer belas mulheres.

§

MOTHERS
for J. B.

Oh mother,
here in your lap,
as good as a bowlful of clouds,
I your greedy child
am given your breast,
the sea wrapped in skin,
and your arms,
roots covered with moss
and with new shoots sticking out
to tickle the laugh out of me.
Yes, I am wedded to my teddy
but he has the smell of you 
as well as the smell of me.
Your necklace that I finger
is all angel eyes.
Your rings that sparkle
are like the moon on the pond.
Your legs bounce me up and down,
your dear nylon-covered legs,
are the horses I will ride
into eternity.

Oh mother,
after this lap of childhood
I will never go forth
into the big people’s world
as an alien,
a fabrication,
or falter
when someone else
is empty as a shoe.

MÃES
para J. B.

Oh mãe,
aqui no seu colo,
tão bom quanto uma cuia de nuvens,
eu, sua criança gananciosa,
recebo seu seio,
o mar embalado em pele,
e seus braços,
raízes cobertas de musgo
e com novos brotos surgindo
tirando-me risos com cócegas.
Sim, estou noiva de meu ursinho
mas ele tem o mesmo cheiro seu
assim como o cheiro meu.
Pego nos dedos seu colar
que é todo olhos de anjo.
Seus anéis que cintilam
são como a lua na lagoa.
Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
suas queridas pernas cobertas de nylon,
são os cavalos em que montarei
à eternidade.

Oh mãe,
depois deste colo da infância
nunca mais poderei sair
ao mundo das pessoas grandes
como uma estranha,
algo inventado,
ou vacilação
quando outro alguém
está tão vazio como um sapato.

§

Beatriz Regina Guimarães Barboza é aluna de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina, tendo como projeto de pesquisa a tradução comentada do livro “The Awful Rowing Toward God” de Anne Sexton (1975). Graduou-se em Estudos Literários na Universidade Estadual de Campinas, concluindo o curso com uma monografia de tradução comentada do livreto “The Book of Repulsive Women” (1915) de Djuna Barnes. Faz parte do Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução (GEFLiT) na Universidade Federal de Santa Catarina e busca tanto traduzir quanto escrever resenhas sobre os últimas publicações na interseção entre os estudos de tradução e os estudos de gênero. Além disso, também escreve poesia (“Quartos Esvaziados”, 2015, ed. Urutau) e contos.

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poesia, tradução

bob kaufman (1925-1986)

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman nos anos 80.

bob kaufman é um dos menos conhecidos dos beats americanos. por isso estou preparando algumas traduções para a r.nott magazine, revista em editada por — dentre outros — nosso ex-parceiro vinicius barth, um espaço bacaníssimo de que tenho participado como colunista de literatura. como digo algumas coisas por lá, não pretendo me alongar aqui.

o principal é saber que esse homem, que, ao longo dos seus 60 anos de vida, produziu inúmeros poemas orais pelos bares de são francisco, teve apenas 7 livros publicados, 1 póstumo: Abomunist Manifesto (958), Second April (1958), Does the Secret Mind Whisper? (1959), Solitudes Crowded with Loneliness (1965), Golden Sardine (1967), The Ancient Rain: Poems 1956–1978 (1981) & Cranial Guitar: Selected Poems by Bob Kaufman (póstumo, 1996); quase todos saíram pela editora city lights, capitaneada pelo poeta-valente lawrence ferlinghetti.

a poesia de bob kaufman é uma mistura dos movimentos catapultados pelos beats, somada a uma experimentação constante com o surrealismo, a improvisação de fonte jazzística (bebop), o budismo & a cultura negra. o resultado é um dos mais radicais &, ao mesmo tempo, dos mais impactantes. em resumo, a gente tem muito a aprender com essa figura.

escolhi o poema all those ships that never sailed pela sua delicadeza prenhe de simbolismo. mas também pelo contexto: reza a lenda que kaufman teria feito um voto budista de silêncio após a morte de jfk, em 1963, um voto que se alongou por 10 anos até 1973, quando os americanos começaram a sair do território vietnamita. a quebra de tanto silêncio teria se dado por este poema.

guilherme gontijo flores

* * *

All those ships that never sailed
The ones with their seacocks open
That were scuttled in their stalls…
Today I bring them back
Huge and transitory
And let them sail
Forever.

All those flowers that you never grew-
that you wanted to grow
The ones that were plowed under
ground in the mud-
Today I bring them back
And let you grow them
Forever.

All those wars and truces
Dancing down these years-
All in three flag swept days
Rejected meaning of God-

My body once covered with beauty
Is now a museum of betrayal.
This part remembered because of that one’s touch
This part remembered for that one’s kiss-
Today I bring it back
And let you live forever.

I breath a breathless I love you
And move you
Forever.

Remove the snake from Moses’ arm…
And someday the Jewish queen will dance
Down the street with the dogs
And make every Jew
Her lover.

Todas as naus que não singraram
Aquelas com válvulas abertas
Que foram naufragadas nas baias…
Hoje as trago de volta
Imensas, transitórias
Pra singrarem
Pra sempre.

Todas as flores que você não cultivou—
Que queria cultivar
Aquelas aradas sob
O solo na lama—
Hoje as trago de volta
Pra você cultivá-las
Pra sempre.

Todas as guerras e pazes
Dançando sobre os anos—
Em dias varridos de três bandeiras
Sentido renegado de Deus—

Meu corpo antes coberto de beleza
Agora é um museu de traição.
Esta parte lembrada graças ao toque de alguém
Esta parte lembrada pelo beijo de alguém
Hoje a trago de volta
Pra você viver pra sempre.

Respiro um irrespirável eu te amo
E te mexo
Pra sempre.

Tire a serpente do braço de Moisés
E um dia a rainha judia vai dançar
Rua abaixo junto aos cães
E fazer de todo judeu
Seu amante.

(poema de bob kaufman, trad. de guilherme gontijo flores)

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