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3 Tristia de Ovídio, por Pedro Yacubian

As Tristia de Ovídio, em cinco livros, são, ao que tudo indica, as primeiras elegias do ciclo de exílio do poeta, com início em 8 AD, depois de relegado por Augusto à antiga cidade de Tomi (hoje Constança, na Romênia), e fim em, provavelmente, 17 AD, com a morte do poeta.

O primeiro poema do livro I é um diálogo do poeta com seu próprio livro. De início, o livro não deve ter nenhum polimento e deve refletir o momento do poeta, cujo exílio de sua Roma, sua família e amigos equivale à morte. O ansiado perdão de Augusto, presente em quase todas as elegias das Tristia, é pedido ao livro, caso a oportunidade se apresente. Ao final, ao chegar ao escritório pessoal do poeta em Roma, o livro encontra-se com alguns dos seus irmãos: os três livros da Ars Amatoria, um dos motivos do exílio do poeta por Augusto, provavelmente em razão de seu conteúdo lascivo, e os quinze livros das Metamorfoses, ainda não publicados. A primeira elegia provavelmente foi escrita no caminho do poeta a Tomi.

No segundo poema do livro I, o poeta encontra-se em meio a uma tempestade, possivelmente após sua saída do porto de Brundisium, na Itália, a caminho de Corinto. As descrições, em diversos momentos, remetem ao Livro I da Eneida, sendo também Eneias um prófugo. A elegia termina com o poeta apelando aos deuses para que dissipem a tempestade. Assim o fazem, reconhecendo que o poeta, ainda que culpado por um crime nunca mencionado em seus versos, não teria agido com dolo

O décimo primeiro poema do livro I é dirigido ao leitor. O poeta descreve as dificuldades de sua viagem a Tomi: as duras tempestades no mar, a crueldade dos bárbaros que o aguardam em terra e seu próprio estado de ânimo. Ao mesmo tempo que, em parte, foi a poesia que o exilou (a Ars Amatoria), é a poesia que diminui sua inquietação em meio aos perigos da viagem. Termina o livro I ansiando a morte (“que a tempestade vença o homem”), desde que possa, antes, dar fim ao seu livro.

Pedro Yacubian (1983) é formado em Direito pela USP. Amante das letras clássicas, traduz textos como forma de estudo pessoal. As traduções, talvez, possam ser úteis para mais do que uma só pessoa.

* * *

Livro 1, Elegia 1

Parve – nec invideo – sine me, liber, ibis in urbem:
ei mihi, quod domino non licet ire tuo!
vade, sed incultus, qualem decet exulis esse;
infelix habitum temporis huius habe.
nec te purpureo velent vaccinia fuco –
non est conveniens luctibus ille color –
nec titulus minio, nec cedro charta notetur,
candida nec nigra cornua fronte geras.
felices ornent haec instrumenta libelos:
fortunae memorem te decet esse meae.
nec fragili geminae poliantur pumice frontes,
hirsutus sparsis ut videare comis.
neve liturarum pudeat; qui viderit illas,
de lacrimis factas sentiat esse meis.
vade, liber, verbisque meis loca grata saluta:
contingam certe quo licet illa pede.
siquis, ut in populo, nostri non inmemor illi,
siquis, qui, quid agam, forte requirat, erit:
vivere me dices, salvum tamen esse negabis;
id quoque quod vivam, munus habere dei.
atque ita tu tacitus – quarenti plura legendus –
ne, quae non opus est, forte loquare, cave!
protinus admonitus repetet mea crimina lector,
et peragar populi publicus ore reus.
tu cave defendas, quamvis mordebere dictis;
causa patrocinio non bona peior erit.
invenies aliquem, qui me suspiret ademptum,
carmina nec siccis perlegat ista genis,
et tacitus secum, ne quis malus audiat, optet,
sit mea lenito Caesare poena levis.
nos quoque, quisquis erit, ne sit miser ille, precamur,
placatos miseris qui volet esse deos;
quaeque volet, rata sint, ablataque principis ira
sedibus in patriis det mihi posse mori.
ut peragas mandata, liber, culpabere forsan
ingeniique minor laude ferere mei.
iudicis officium est ut res, ita tempora rerum
quaerere. quaesito tempore tutus eris.
carmina proveniunt animo deducta sereno;
nubila sunt subitis tempora nostra malis.
carmina secessum scribentis et otia quaerunt;
me mare, me venti, me fera iactat hiems.
carminibus metus omnis obest; ego perditus ensem
haesurum iugulo iam puto iamque meo.
haec quoque quod facio, iudex mirabitur aequus,
scriptaque cum venia qualicumque leget.
da mihi Maeoniden et tot circumice casus,
ingenium tantis excidet omne malis.
denique securus famae, liber, ire memento,
nec tibi sit lecto displicuisse pudor.
non ita se nobis praebet Fortuna secundam,
ut tibi sit ratio laudis habenda tuae.
donec eram sospes, tituli tangebar amore,
quaerendique mihi nominis ardor erat.
carmina nunc si non studiumque, quod obfuit, odi,
sit satis; ingenio sic fuga parta meo.
tu tamen i pro me, tu, cui licet, aspice Romam.
di facerent, possem nunc meus esse liber!
nec te, quod venias magnam peregrinus in urbem,
ignotum populo posse venire puta.
ut titulo careas, ipso noscere colore;
dissimulare velis, te liquet esse meum.
clam tamen intrato, ne te mea carmina laedant;
non sunt ut quondam plena favoris erant.
siquis erit, qui te, quia sis meus, esse legendum
non putet, e gremio reiciatque suo,
“inspice” dic “titulum. non sum praeceptor amoris;
quas meruit, poenas iam dedit illud opus.”
forsitan expectes, an in alta Palatia missum
scandere te iubeam Caesareamque domum.
ignoscant augusta mihi loca dique locorum!
venit in hoc illa fulmen ab arce caput.
esse quidem memini mitissima sedibus illis
numina, sed timeo qui nocuere deos.
terretur minimo pennae stridore columba,
unguibus, accipiter, saucia facta tuis.
nec procul a stabulis audet discedere, siqua
excussa est avidi dentibus agna lupi.
vitaret caeleum Phaëton, si viveret, et quos
optarat stulte, tangere nollet equos.
me quoque, quae sensi, fateor Iovis arma timere:
me reor infesto, cum tonat, igne peti.
quicumque Argolica de classe Capherea fugit,
semper ab Euboicis vela retorsit aquis;
et mea cumba semel vasta percussa procela
illum, quo laesa est, horret adire locum.
ergo cave, liber, et timida circumspice mente,
ut satis a media sit tibi plebe legi.
dum petit infirmis nimium sublimia pennis
Icarus, aequoreas nomine fecit aquas.
difficile est tamen hinc, remis utaris an aura,
dicere: consilium resque locusque dabunt.
si poteris vacuo tradi, si cuncta videbis
mitia, si vires fregerit ira suas,
siquis erit, qui te dubitantem et adire timentem
tradat, et ante tamen pauca loquatur, adi.
luce bona dominoque tuo felicior ipso
pervenias illuc et mala nostra leves.
namque ea vel nemo, vel qui mihi vulnera fecit
solus Achilleo tollere more potest.
tantum ne noceas, dum vis prodesse, videto –
nam spes est animi nostra timore minor –
quaeque quiescebat, ne mota resaeviat ira
et poenae tu sis altera causa, cave!
cum tamen in nostrum fueris penetrale receptus,
contigerisque tuam, scrinia curva, domum,
aspicies illic positos ex ordine fratres,
quos studium cunctos evigilavit idem.
cetera turba palam titulos ostendet apertos,
et sua detecta nomina fronte geret;
tres procul obscura latitantes parte videbis, –
sic quoque, quod nemo nescit, amare docent.
hos tu vel fugias, vel, si satis oris habebis,
Oedipodas facito Telegonosque voces.
deque tribos, moneo, si qua est tibi cura parentis,
ne quemquam, quamvis ipse docebit, ames.
sunt quoque mutatae, ter quinque volumina, formae,
nuper ab exequiis carmina rapta meis.
his mando dicas, inter mutata referri
fortunae vultum corpora posse meae.
namque ea dissimilis subito est effecta priori,
flendaque nunc, aliquo tempora laeta fuit.
plura quidem mandare tibi, si quaeris, habebam,
sed vereor tardae causa fuisse morae;
et si quae subeunt, tecum, liber, omnia ferres,
sarcina laturo magna futurus eras.
longa via est, propera! nobis habitabitur orbis
ultimus, a terra terra remota mea.

Pequeno livro, irás sem mim – não ressinto! – à Urbe:
Ai, pois não é permitido ao teu dono!
Vai, mas como convém ao êxul, sem adornos;
Triste, veste as roupas do meu momento.
Não cubra a ti a murta com as tintas púrpuras –
Não convém essa cor aos anojados –
Sem cinabre teu título, sem óleo as páginas,
Sem brancas bossas tuas bordas negras.
Que essas coisas adornem livrinhos felizes:
A ti cabe lembrar o meu destino.
A frágil pedra-pomes não polirá a capa,
E, hirsuto, terás mechas desgrenhadas.
Não te envergonhes das nódoas; quem puder lê-las,
Saiba que foram pelas minhas lágrimas….
Livro, saúda os locais gratos com estas letras:
Ao menos com o metro os tocarei.
Se alguém, da multidão, ali de mim se lembre,
Se alguém queira saber como eu estou,
Dirás que vivo, mas que não me sinto bem,
E que este meu viver devo a um deus.
Cala além disso (o que busca mais deve ler-te)
Para que não digas o que não deves!
O leitor, já avisado, lembrará meus crimes
E serei réu público para o povo.
Evita defender-me, mesmo que te doa:
Piora com defesa uma má causa.
Alguém encontrarás que sinta a minha perda
E termine estes teus versos em lágrimas,
E deseje, em silêncio (que alguém mau não o ouça!),
Abrandar minha pena, calmo o César.
Este que queira, aos desgraçados, deuses brandos,
Peço também eu que não seja um mísero;
Faça-se o seu desejo e, finda a ira do Príncipe,
Conceda a mim morrer na minha Pátria!
Talvez te julguem, livro, ao cumprir estas ordens,
Como indigno da fama do meu gênio.
Cabe a um crítico ver fato e circunstâncias:
A salvo estarás se ele atenta a estas.
Poemas nascem urdidos por sereno ânimo;
Meus dias são nuvens com males súbitos…
Poemas procuram o ócio e a calma do escritor;
Mar, vento e duro inverno me fustigam…
Todo medo obsta à poesia; eu, em ruína, penso
Que espada me atravessará o pescoço…
Mesmo estes versos um juiz justo admirará
E os lerá, indulgente, como sejam.
Dá-me o Meônida e cinge-o com tantos desastres:
Perderá todo engenho por tais males!
Lembra, enfim, livro, de ir indiferente à fama,
Sem pejo caso, lido, desagrades;
O destino a mim não é assaz favorável
Para que julgues merecer encômios.
Quando a salvo, tangia-me o amor pelas louvas
E ardia em mim a busca pela fama.
Basta-me hoje não ter ódio pela poesia:
Este exílio nasceu da minha arte.
Mas tu, vai em meu lugar, tu, que podes, vê Roma!
Se os deuses me tornassem meu livro hoje!…
Não penses tu que, um estrangeiro em grande urbe,
Possas ir e vir sem ser percebido.
Mesmo sem nome, sabem de ti pelo estilo;
Se dissimulas, claramente és meu.
Mas sê furtivo, para o Poema não ferir;
Como antes ele não é mais querido.
Se alguém crê que não devas ser lido porque
Meu és e te arremessa do seu colo,
Diz “olha o título. Não mais ensino o amor;
A obra já recebeu pena condigna.”
Quiçá esperes, se enviado ao alto Palatino,
Que eu te ordene a ir à casa do César.
Que os augustos lugares e deuses perdoem-me!
Dali o raio veio em minha testa.
Sim, recordo, ali há clementíssimos deuses,
Mas temo aqueles que me golpearam.
O mínimo ruflar de asas assusta a pomba,
Águia, ferida pelas tuas unhas.
Não ousa o cordeirinho afastar-se do estábulo
Se ávido lobo o teve entre seus dentes.
Faetonte o céu evitaria se vivesse,
E a audácia co’os corcéis não ousaria.
Eu também, pois senti-as, temo as armas de Júpiter:
Troa e creio ser alvo de hostis raios.
Quem escapou o Cafareu da esquadra Argólica
Sempre do mar Eubeu desvia a vela;
Minha barca, uma vez batida por tormenta,
Teme ir ao lugar onde foi ferida.
Então cuidado, livro: observa com receio,
E baste-te ser lido pela plebe.
Quando Ícaro excedeu-se com as débeis asas,
Altivo deu às águas o seu nome.
Daqui não posso dizer se usas remo ou vento:
Momento e lugar te darão o plano.
Se a ele, ocioso, puderes ser entregue, se
Tudo vês brando, se a ira arrefece,
Se alguém te exibe, mesmo com medo e receoso,
E mesmo pouco te diz, aproxima-te!
Num bom dia e com mais sorte do que teu dono
Lá chegues e mitigues os meus males!
Pois estes ninguém, a não ser quem me feriu,
Pode curá-los, como com Aquiles.
Cuida, enquanto o bem fazes, não prejudicar, –
A esperança em mim é menor que o medo –
Ao reacender a ira que nele dormitava
E tornar-te outra causa de castigo!
Quando em meu escritório fores recebido
E as estantes tocares, tua casa,
Ali verás postos, em ordem, teus irmãos,
Por quais igual dedicação velou.
A turba ostentará seus títulos abertos
E às frontes, descobertas, os seus nomes;
Mas três verás ao longe, em parte escura ocultos –
Ensinam a amar, como todos sabem.
Destes fujas, ou, se tiveres mesmo audácia,
Dá-lhos os nomes de Édipo e Telégono.
Se zelas pelo teu pai, nenhum destes três,
Mesmo que eles te ensinem, amarás.
Há ainda, em quinze livros, as formas mudadas,
Arrebatados do meu funeral.
Diz-lhes que se pode incluir, entre as mudanças,
A triste feição da minha fortuna,
Pois súbito tornou-se diversa à de antes:
Agora em pranto, outrora era feliz.
Se perguntas, a ti tenho outras tantas ordens,
Mas temo ser causa de enorme atraso;
Se levasses contigo todos meus pesares,
Que enorme fardo ao que te portará!
Longo é o caminho, vai! Neste confim do mundo
Viverei, terra tão longe da minha.

§

Livro 1, Elegia 2

Di maris et caeli – quid enim nisi vota supersunt? –
solvere quassatae parcite membra ratis,
neve, precor, magni subscribite Caesaris irae!
saepe premente deo fert deus alter opem.
Mulciber in Troiam, pro Troia stabat Apollo;
aequa Venus Teucris, Pallas iniqua fuit.
oderat Aenean propior Saturnia Turno;
ille tamen Veneris numine tutus erat.
saepe ferox cautum petiit Neptunus Ulixen;
eripuit patruo saepe Minerva suo.
et nobis aliquod, quamvis distamus ab illis,
quis vetat irato numen adesse deo?
verba miser frustra non proficientia perdo.
ipsa graves spargunt ora loquentis aquae,
terribilisque Notus iactat mea dicta, precesque
ad quos mittuntur, non sinit ire deos.
ergo idem venti, ne causa laedar in una,
velaque nescio quo votaque nostra ferunt.
me miserum, quanti montes volvuntur aquarum!
iam iam tacturos sidera summa putes.
quantae diducto subsidunt aequore valles!
iam iam tacturas Tartara nigra putes.
quocumque aspicio, nihil est, nisi pontus et aër,
fluctibus hic tumidus, nubibus ille minax.
inter utrumque fremunt inmani murmure venti.
nescit, cui domino pareat, unda maris.
nam modo purpureo vires capit Eurus ab ortu,
nunc Zephyrus sero vespere missus adest,
nunc sicca gelidus Boreas bacchatur ab Arcto,
nunc Notus adversa proelia fronte gerit.
rector in incerto est nec quid fugiatve petatve
invenit: ambiguis ars stupet ipsa malis.
scilicet occidimus, nec spes est ulla salutis,
dumque loquor, vultus obruit unda meos.
opprimet hanc animam fluctus, frustraque precanti
ore necaturas accipiemus aquas.
at pia nil aliud quam me dolet exule coniunx:
hoc unum nostri scitque gemitque mali.
nescit in inmenso iactari corpora ponto,
nescit agi ventis, nescit adesse necem.
o bene, quod non sum mecum conscendere passus,
ne mihi mors misero bis patienda foret!
at nunc, ut peream, quoniam caret illa periclo,
dimidia certe parte superstes ero.
ei mihi, quam celeri micuerunt nubila flamma!
quantus ab aetherio personat axe fragor!
nec levius tabulae laterum feriuntur ab undis,
quam grave balistae moenia pulsat onus.
qui venit hic fluctus, fluctus supereminet omnes:
posterior nono est undecimoque prior.
nec letum timeo; genus est miserabile leti.
demite naufragium, mors mihi munus erit.
est aliquid fatove suo ferrove cadentem
in solida moriens ponere corpus humo,
et mandare suis aliqua et sperare sepulcrum
et non aequoreis piscibus esse cibum.
fingite me dignum tali nece, non ego solus
hic vehor. inmeritos cur mea poena trahit?
pro superi viridesque dei, quibus aequora curae,
utraque iam vestras sistite turba minas,
quamque dedit vitam mitissima Caesaris ira,
hanc sinite infelix in loca iussa feram.
si quantam merui, poena me perdere vultis,
culpa mea est ipso iudice morte minor.
mittere me Stygias si iam voluisset in undas
Caesar, in hoc vestra non eguisset ope.
est illi nostri non invidiosa cruoris
copia; quodque dedit, cum volet, ipse feret.
vos modo, quos certe nullo, puto, crimine laesi,
contenti nostris iam, precor, este malis!
nec tamen, ut cuncti miserum servare velitis,
quod periit, salvum iam caput esse potest.
ut mare considat ventisque ferentibus utar,
ut mihi parcatis, non minus exul ero.
non ego divitias avidus sine fine parandi
latum mutandis mercibus aequor aro,
nec peto, quas quondam petii studiosus, Athenas,
oppida non Asiae, non loca visa prius,
non ut Alexandri claram delatus ad urbem
delicias videam, Nile iocose, tuas.
quod faciles opto ventos, – quis credere posset? –
Sarmatis est tellus, quam mea vela petunt.
obligor, ut tangam laevi fera litora Ponti;
quodque sit a patria tam fuga tarda, queror.
nescio quo videam positos ut in orbe Tomitas,
exilem facio per mea vota viam.
seu me diligitis, tantos compescite fluctus,
pronaque sint nostrae numina vestra rati;
seu magis odistis, iussae me advertite terrae:
supplicii pars est in regione mei.
ferte – quid hic facio? – rapidi mea corpora venti!
Ausonios fines cur mea vela volunt?
noluit hoc Caesar. quid, quem fugat ille, tenetis?
aspiciat vultus Pontica terra meos.
et iubet et merui; nec, quae damnaverit ille,
crimina defendi fasque piumque puto.
si tamen acta deos nunquam mortalia fallunt,
a culpa facinus scitis abesse mea.
immo ita si scitis, si me meus abstulit error,
stultaque mens nobis, non scelerata fuit,
quod licet et minimis, domui si favimus illi,
si satis Augusti publica iussa mihi,
hoc duce si dixi felicia saecula, proque
Caesare tura piis Caesaribusque dedi, –
si fuit hic animus nobis, ita parcite divi!
si minus, alta cadens obruat unda caput!
fallor, an incipiunt gravidae vanescere nubes,
victaque mutati frangitur unda maris?
non casu, vos sed sub condicione vocati,
fallere quos non est, hanc mihi fertis opem.

Deuses do mar e céu – restam somente súplicas! –
Poupai da ruína este agitado barco
E não participeis da ira do grande César!
Um deus que calca traz outro em auxílio.
Vulcano contra Ílio, a favor ficava Apolo;
Aos Teucros Vênus justa, Atena iníqua.
Juno odiou Enéas e a Turno foi próxima;
Aquele, porém, Vênus resguardava.
Feroz Netuno atacou o prudente Ulisses;
Tirou-o das mãos do tio Minerva.
E a mim, embora eu tanto diste desses homens,
Quem me protege contra um deus irado?
Infeliz, em vão perco frustradas palavras.
Cobre-se minha boca em densas águas…
O feroz Noto arroja as sentenças e preces
Feitas proíbe de chegar aos deuses.
Se só o exílio não bastasse, agora ventos
Dispersam minha nau e minhas súplicas…
Ai, quão grandes montanhas de água se revolvem!
Logo tocarão as altas estrelas!
Quão grandes vales dobram-se em mar dividido!
Logo tocarão o Tártaro negro!
Para onde eu olhe nada há, a não ser mar e céu,
Mar de ondas túmido, céu de hostis nuvens.
Entre ambos fremem ventos com terríveis ruídos.
Não sabe a onda a quem obedecer:
Pois ora o Euro avigora-se da aurora púrpura,
Ora do tardo ocaso parte o Zéfiro,
Ora agita-se da Ursa seca o Bóreas gélido,
Ora o Noto, face ao Norte, batalha.
Incerto, o capitão vacila entre perigos:
Sua arte paralisa em meio a horrores.
Certa é a morte, salvar-nos nenhuma esperança,
E, enquanto falo, onda me cobre o rosto.
Oprime a vaga o ar, e aos lábios em vãs preces
Receberei as derradeiras águas.
A fida esposa, porém, só o exílio fere:
Sabe e sofre por este único mal.
Não sabe que me atiram pelo mar imenso,
Não sabe os ventos, nem, próximo, o fim.
Ah, bem!, pois não sofri que embarcasse comigo
E não hei de sofrer por duas mortes!
Mas agora, se morro e ela vive segura,
Sobreviverei na minha metade.
Ai, quão céleres fogos arderam as nuvens!
Com que fragor ressoa o céu mais alto!
Tão grave como o golpe da forte balista
Em muralha, fustiga a vaga o casco.
A onda que aqui vem, esta onda supera todas:
Após a nona vem, antes da undécima.
Não temo a morte, mas o miserável modo;
Sem naufrágio, será ela um presente…
Vale algo ao que morre, por ferro ou por destino,
Seu corpo descansar em terra firme,
Despedir-se dos seus e aguardar sepultura,
– E não servir de refeição aos peixes.
Julgai-me digno de tal morte; não vou só…
Por que insontes minha pena arrasta?
Deuses supernos e virentes, que o mar têm,
Cessai já ambos vossas ameaças,
E a vida, que a clemente ira do César deu,
Permiti eu levá-la onde ordenada.
Se mereci tal pena e quereis arruinar-me,
O juiz preteriu na culpa a morte;
Se já quisesse o César mandar-me ao Estige,
Careceria ele de vosso auxílio.
Não invejável poder tem sobre esta vida;
E o que ele deu, tirará se quiser.
Mas vós, que, penso, não feri por crime algum,
Contentai-vos, imploro, com meus males!
E mesmo que quereis salvar um miserável,
Não mais pode ser salvo pois se foi.
Se o mar acalme e me carreguem ventos brandos,
Se me poupais, não serei menos prófugo.
Não aro o lato mar ávido de riquezas
Sem fim por meio da troca de bens,
Nem busco Atenas, que busquei quando estudante,
Nem urbes da Ásia, nem sítios já vistos,
Nem a cidade ilustre de Alexandre para,
Feliz Nilo, que eu veja teus prazeres.
Desejo ventos favoráveis – quem me crê?! –
À terra Sármata, onde a vela leva.
Compelem-me ao oeste do selvagem Ponto;
E dói quão tarda é a via desde Roma…
Para ver não sei onde no mundo os Tomitas,
Imploro por uma viagem curta…
Se me quereis bem, refreai tamanhas ondas
E sede favoráveis a esta nau;
Se odiais, voltai a proa à terra ordenada:
O lugar é parte do meu suplício.
Que faço aqui?! Ventos velozes, carregai-me!
Por que minha nau busca a costa Ausônia?
César não quis. Por que sustais quem ele exila?
Que veja a minha face a terra Pôntica!
Ele impõe e eu mereci. Não creio ser certo
Ou justo defender-me desses crimes.
Se, porém, nunca a ação humana escapa aos deuses,
Sabeis faltar à minha culpa o dolo.
Não, se assim sabeis, se meu erro me perdeu,
Se eu fui estúpido, mas não maldoso,
Se apoiei sua Casa (mesmo humildes podem),
Se me bastaram suas ordens públicas,
Se celebrei, sob seu comando, a feliz época,
Se ofertei ao César e aos seus incensos, –
Se assim foi meu espírito, poupai-me, ó deuses!
Senão, que enorme vaga me destrua!
Iludo-me ou as negras nuvens esvaecem
E as ondas do agitado mar sucumbem?
Não por acaso sois vós, jamais iludidos,
Que ora invocados trazeis este auxílio.

§

Livro 1, Elegia 11

Littera quaecumque est toto tibi lecta libello,
est mihi sollicito tempore facta viae.
aut haec me, gelido tremerem cum mense Decembri,
scribentem mediis Hadria vidit aquis;
aut, postquam bimarem cursu superavimus Isthmon,
alteraque est nostrae sumpta carina fugae,
quod facerem versus inter fera murmura ponti,
Cycladas Aegaeas obstipuisse puto.
ipse ego nunc miror tantis animique marisque
fluctibus ingenium non cecidisse meum.
seu stupor huic studio sive est insania nomen,
omnis ab hac cura cura levata mea est.
saepe ego nimbosis dubius iactabar ab Haedis,
saepe minax Steropes sidere pontus erat,
fuscabatque diem custos Atlantidos Ursae,
aut Hyadas seris hauserat Auster aquis,
saepe maris pars intus erat; tamen ipse trementi
carmina ducebam qualiacumque manu.
nunc quoque contenti stridunt Aquilone rudentes,
inque modum tumuli concava surgit aqua.
ipse gubernator tollens ad sidera palmas
exposcit votis, inmemor artis, opem.
quocumque aspexi, nihil est nisi mortis imago,
quam dubia timeo mente timensque precor.
attigero portum, portu terrebor ab ipso:
plus habet infesta terra timoris aqua.
nam simul insidiis hominum pelagique laboro,
et faciunt geminos ensis et unda metus.
ille meo vereor ne speret sanguine praedam,
haec titulum nostrae mortis habere velit.
barbara pars laeva est avidaeque adsueta rapinae,
quam cruor et caedes bellaque semper habent,
cumque sit hibernis agitatum fluctibus aequor,
pectora sunt ipso turbidiora mari.
quo magis his debes ignoscere, candide lector,
si spe sunt, ut sunt, inferiora tua.
non haec in nostris, ut quondam, scripsimus hortis,
nec, consuete, meum, lectule, corpus habes.
iactor in indomito brumali luce profundo
ipsaque caeruleis charta feritur aquis.
improba pugnat hiems indignaturque quod ausim
scribere se rigidas incutiente minas.
vincat hiems hominem! sed eodem tempore, quaeso,
ipse modum statuam carminis, illa sui.

Qualquer letra que leste em todo este livrinho,
Eu a fiz na inquietude da viagem.
Ou, enquanto eu tremia em gélido dezembro,
O Adriático viu-me as traçando;
Ou, depois de superar o Istmo de Corinto
E tomar a segunda nau do exílio,
Porque entre estrépitos do mar fazia versos
Assombraram-se as Cíclades do Egeu.
Eu próprio agora admiro-me que em tais voragens
Da alma e do mar não se esvaiu meu gênio.
Se “estupor” ou “insânia” dá-se o nome a isto,
Foi-se co’a inquietação toda inquietude.
Tanto as chuvosas Cabras lançaram-me, tanta
Era a ameaça do mar por Estérope,
Ou o guarda da Ursa Atlântida ofuscava o dia,
Ou bebia o Austro tarda água das Híades.
Tanto do mar entrava… Mas eu, com a mão
Tremente, ainda urdia quaisquer versos.
Agora as tensas cordas rangem co’o Aquilônio
E a onda côncava salta como um monte.
O capitão levanta as mãos aos céus e implora
Auxílio, já esquecido de sua arte.
Onde olho, nada há a não ser a imagem da morte,
Que aflito temo e temeroso imploro.
Toque eu o porto, o porto me horrorizará:
Mais temor há em terra que em mar hostil.
Pois igual sofro insídias de homens e do pélago,
E onda e espada produzem gêmeos medos.
Esta, temo me faça presa por meu sangue;
Aquela, busque fama em minha morte.
À esquerda os bárbaros, afeitos à pilhagem,
Sempre cheios de sangue, morte e guerra;
Se o mar se agita pelas ondas invernais,
Mais túrbido está o meu coração.
Deves por isso então perdoar, bom leitor,
Se os versos, assim, não são o que esperas.
Não os escrevi, como antes, em meu jardim,
Nem, sofá habitual, tens o meu corpo.
Lança-me mar indômito em dia invernal
E até o papel a água azul atinge.
Luta a dura borrasca e, porque ousei, em meio
A ameaças duras, escrever, indigna-se.
Que a tempestade vença o homem! Mas, enquanto
Eu dê fim aos versos, dê ela à fúria.

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crítica, xanto

XANTO| Em torno do fragmento 196a de Arquíloco, por Guilherme Gontijo Flores

P. Köln Gr. 2 58 (Kramer (Krebber), Bärbel), descoberto em 1973 no rolo de uma múmia, contendo o fragmento 196a de Arquíloco.

Nota: o texto abaixo é trecho de um ensaio bem maior que escrevi a convite da Laura Erber e que deve sair ainda no primeiro semestre de 2018 pela Zazie Edições com o nome A mulher ventriloquada: o limite da linguagem em Arquíloco. Aconselho que leiam aqui os trabalhos que já saíram na Pequena Biblioteca de Ensaios, que é um trabalho grande de produção e circulação de saber em plataforma digital.

A tradução do poema aparecerá no artigo, mas o trecho, creio, discute um ponto crucial: o que fazer com um poema que performa a violência?

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Imagine-se a cena: a ágora está cheia de gente de todo tipo, é uma feira, um mercado, um fórum, o cerne da vida pública, onde a escravidão por dívida e guerra se cruza com os cidadãos (os homens, os livres, os nascidos na pólis, filhos de homens da pólis, preferencialmente filhos de homens livres), as mulheres ligadas a essas figuras (as mulheres, que ali não têm força jurídica específica da cidadania, a não ser em caso de acusação) e os estrangeiros que vivem ou passam pelo lugar; ali um homem, definitivamente um homem, um homem livre, definitivamente livre, de classe elevada muito provavelmente, pede a palavra, faz o ruído necessário para garantir a demanda do silêncio, ganha por fim seu silêncio, pigarreia e lança uma fala, não exatamente uma fala, um poema, não como o que hoje chamamos poema, um recital, talvez meio cantado, talvez acompanhado de um aulos, ou de outro instrumento de sopro, percussão ou corda; podemos imaginar os gestos ritmados entre pancadas ternárias do iambo e passagens datílicas quaternárias, dois ritmos que se encontram no epodo, e se trata, logo percebemos, de um invectiva possível, enviezada; ele ataca, os braços marcam a cena, é claro que é um ataque, mas parece apenas um caso de conversa, uma cena familiar, sim, familiar demais, a cena é excessivamente comum, a conversa é talvez banal, mas os nomes são singulares, os nomes, mesmo que não sejam reconhecidos, têm caras, corpos, famílias, vidas por levar numa comunidade; a cena continua, desanda em sedução, mais ou menos forçada, decai em achincalhe de um nome preciso: Neobule, a mais velha de Licambes; dela se diz que está velha, não guarda a virgindade, pelo contrário, teve muitos homens; e esse homem que agora fala, recusa Neobule, não tem a garantia esperada da prole sadia, da transmissão do sangue; ela é cadela apressada nos partos; ele aborda a mulher, a menina mais nova, não se escuta seu nome, ele aborda e insiste, ele insiste perante a ágora em nos contar o que acontece nessa conversa demasiado familiar, ainda que numa linguagem estranhamente elevada, quase colando no tom narrativo da épica; algo de riso começa a explodir, pelos cantos, risos sutis, de canto de boca, mas há quem gargalhe, e ninguém sabe o que fazer; isso não é um recital, isso não é um poema, é um informe, não é um relato familiar, é o próprio acontecimento em movimento; recusa Neobule, abandona a conversa e nos descreve a cena, ele acontece de fazer se realizar o que diz, fascina, fecunda as imaginações com o que diz; seu pé bate no chão e remonta ao pé do metro em que diz o que veio dizer; ele tem o silêncio ao seu lado, afora os risos incontrolados, ele conta, e não explica bem, ele conta que a filha de Anfimedó está deitada; a cena se turva em metáforas; ela é a corça apavorada, presa da caça; ele projeta a imagem lírica que beira o sublime e num instante ejacula sobre os cabelos dela, ali, na ágora, diante de todos.

§

Em Os oito odiados, de Quentin Tarantino, há uma cena em que o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) narra para o ex-confederado General Sanford Smithers (Bruce Dern) como o próprio Warren teria submetido Chester Smithers, filho do General, a um processo de humilhação, que resultou em estupro oral e subsequente assassinato de Chester. Toda a cena da narração é filmada em paisagens abertas, gélidas e desérticas, com o corpo nu do jovem Smithers andando fatigado, de modo a criar um pacto de verdade cinematográfica que ao mesmo tempo convence o público e o General Smithers. O resultado disso, intensificado pelos requintes de crueldade e pela placidez no tom da fala de Warren, é que Smithers puxa sua arma para tentar vingança; diante disso, Warren saca também a sua e mata o velho, que já não tem mais agilidade suficiente para um duelo de tiros. O que está em jogo não é a construção da verdade (nunca sabemos se, na factualidade do filme, Warren de fato estuprou e matou Chester), mas o que a construção dessa verdade performa no mundo; no caso, ela leva o General Smithers ao movimento de buscar sua arma, o xeque-mate de Warren, que assim tem a justificativa de legítima defesa para matar o velho ex-confederado que ele odeia. Essa construção de verdade e sua força de ação do mundo se dá basicamente porque um silêncio está em jogo, o de Chester, que não pode responder sobre a verdade ou mentira do fato, esteja ele vivo ou morto. O silêncio de Chester, ou pior, seu silêncio ventriloquado por Warren, que emula algumas falas do jovem, realizam o necessário para destruir a dignidade que o velho Smithers espera para si e para os seus; a Smithers, que poderia julgar sobre a verdade do fato, resta apenas a ação, uma vez que a narrativa é pública, dada a todos que partilham do ambiente: seu filho, aos olhos e ouvidos de todos ali (como aos olhos e ouvidos de todos os que assistem ao filme) foi efetivamente estuprado e morto, porque não há voz que diga o contrário.

§

Imagine-se como essa voz arquiloquiana que enuncia o poema para além do poema, que silencia uma jovem porque a narra, também realiza o xeque-mate da vida política, uma vez que, como indica Paula da Cunha Corrêa, “o abuso das moças, a sua defloração antes das núpcias e a difamação representariam um ataque maior contra os homens da família do que contra as próprias mulheres” (2010:412). Certamente Neobule e sua irmã inominada podem falar, é claro que podem, mas a fala de uma mulher não tem peso de verdade na vida da pólis, sua fala não se aplica ao espaço dos concidadãos, porque a mulher não detém cidadania. Por isso, seu silêncio não é físico como o de Chester Smithers, por morte ou ausência, mas é o silêncio que constrói a própria sociedade helênica patriarcal. Se na ágora todos andam, nem todos falam, ou nem todos que falam ascendem à voz, à potência de sentido da voz política. Como recorda Douglas Gerber, “é de conhecimento geral que o macho grego tinha grande suspeita das ânsias sexuais femininas; portanto acusar uma mulher de promiscuidade, justificada ou não, era uma arma poderosa contra ela e/ou sua família” (2012:15). Diante disso, as irmãs estão silenciadas pela própria organização política; caso se defendam, o que pode e deve acontecer, suas palavras não terão peso na própria defesa; caso queiram acusar o homem que as humilha publicamente, precisam passar por um homem que tome a voz, que ascenda à voz e o acuse. As amigas, amas, mulheres, por mais que partilhem ativamente o espaço feminino, também não terão força de fala; talvez um escravo que tenha visto a cena muito menos, a não ser que passe pelo tradicional processo de tortura que, aos olhos dos gregos e romanos, garantiria a verdade por testemunho. No mundo grego, como depois no mundo romano e em qualquer organização jurídica, a performance da linguagem está ligada a quem pode assumir uma fala; as mulheres, na Grécia, não tinham possibilidade de intervir performativamente, fazendo de sua palavra um ato, tal como era dado aos homens; a partilha política das vozes, no caso delas, é uma divisão excludente, não um repartir do bem comum. Ao fim e ao cabo, só duas pessoas podem tomar a fala em sua defesa, dois tipos de homem: o pai ou os eventuais irmãos.

Nada sabemos dos irmãos, resta-nos o pai com seu nome nos testemunhos biográficos e nos fragmentos supérstites de Arquíloco: Licambes. Então imaginemos agora Licambes como o pai em jogo, o pai performado pelo que nos resta do poema. O que pode Licambes, o lobo iâmbico, quando presa do iambo arquiloquiano? Defender o óbvio, suas filhas, argumentar que permanecem virgens, pudicas, que nenhuma delas se entregaria facilmente a um homem desses ou a outro qualquer. Mas essa fala de Licambes não tem especificidade, é a fala de qualquer pai acerca de suas filhas; é a fala de qualquer pai que, num sistema de trocas por casamento, pretenda casar suas filhas, passar o dote e ganhar laços familiares que garantam poder, dinheiro e prole. Por isso mesmo, a fala de Licambes, sendo previsível e sem escolhas, perde de antemão. Ele argumenta contra o fascínio do poema epódico, contra o iambo de um Arquíloco. Licambes perde, talvez, não num processo jurídico, mas no que mais importa para um código patriarcal: ele perde a honra das filhas; porque nenhuma família vai se arriscar a perder a garantia sanguínea da prole. “Dispensa a prova aquele que tem do seu lado o riso”, disse certeiramente Adorno. No poema, Licambes e as filhas perdem o único movimento para o qual segue a mulher silenciada no universo grego arcaico: o casamento. Perdido o casamento, pode-se muito bem perder a vida.

Esse é o mito de Arquíloco, essa é a cena do poema. Ao que se poderia imediatamente contra-argumentar que nada no poema confirma o fato histórico. Daí a importância da imagem no cinema, do imaginar-se na poesia, para performar o acontecimento; daí o contraponto necessário com o filme de Tarantino, com sua potência de verdade na imagem: enquanto Tarantino redunda o dito de Warren com a imagem do que ele narra, contaminando o general Smithers e o público com a violência do narrado, que assim se torna acontecimento ao qual só cabe uma re-ação; também o poema arquiloquiano produz a imagem mental com uma linguagem destacada que a performa como acontecimento para as vítimas do epodo e para o público que o escuta ou lê, deixando apenas espaço para novas reações. Nos dois casos, o fato histórico diz menos respeito à verdade do que a própria performance, pois ela é que organiza um acontecimento. O poema arquiloquiano, sem dúvida, pode ser muito posterior à lenda sobre as Licâmbides suicidas, ele pode ser um poema que encena posteriormente o mito que é a própria biografia de Arquíloco; ou pode muito bem ser um poema anterior (seja ele de Arquíloco ou de uma figura outra) à biografia, uma criação puramente ficcional que irá motivar as cenas da biografia. A ordem dos fatores, não mais rastreável na distância da história, perde quase toda a importância, se considerarmos que, mais relevante do que o contexto referencial da performance original é o mundo que o poema cria no mundo; o poema arquiloquiano é a cena arquetípica do silenciamento do outro, da poesia como arma virulenta e erótica, que não deixa à vítima outra opção, senão passar ao ato; no caso, o ato por excelência, que é o suicídio. Esse silenciamento é imaginável no contexto do mundo grego, se desdobra no mundo grego e funda, seja ele factual ou não, o ponto de que depende o pensamento grego acerca dos limites da poesia. O poema, ao fim e ao cabo, performa seu próprio contexto a cada vez que é performado. Arquíloco, o nome que acompanha e assina o poema, é um ventríloquo que mata suas próprias marionetes através da fala.

Por isso, epitáfio fictício escrito por Getúlico talvez seja o único sepulcro possível para Arquíloco. Não porque o homem Arquíloco não tenha tido alguma estela com seu nome inscrito, ou porque não tivesse nessa mesma estela a força típica dos jazigos dos poetas, que tantos peregrinam para ver em viagens peculiarmente mórbidas, desde a Antiguidade.

Σῆμα τόδ’ Ἀρχιλόχου παραπόντιον, ὅς ποτε πικρὴν
….μοῦσαν ἐχιδναίῳ πρῶτος ἔβαψε χόλῳ
αἱμάξας Ἑλικῶνα τὸν ἥμερον. οἶδε Λυκάμβης
….μυρόμενος τρισσῶν ἅμματα θυγατέρων.
ἠρέμα δὴ παράμειψον, ὁδοιπόρε, μή ποτε τοῦδε
….κινήσῃς τύμβῳ σφῆκας ἐφεζομένους.

Eis o sepulcro de Arquíloco junto ao mar: o primeiro
….que na Musa imbuiu fel de serpente e amargor,
que ensanguentou o suave Helicão (e que o diga Licambes
….quando encontrou as três filhas na forca e chorou).
Passe tranquilo, bom viajante, e assim não atice
….todas as vespas que aqui fazem da tumba seu lar.
….….….….….….….….….(Getúlico, Antologia Palatina, 7.71)

O epigrama de Getúlico é o mais verdadeiro sepulcro porque o realiza incessantemente, não apenas para o Arquíloco de carne e osso, como para todo o corpus arquiloquiano; o poema destila fel que contamina as Musas e perverte de sangue o Hélicon (ou Helicão, monte sagrado e vinculado à poesia); o sepulcro arquiloquiano de Getúlico é a habitação de vespas que atacam até quem passa e faz um mero ruído; por isso é preciso cuidado: Arquíloco ainda ataca após a morte, segue na violência por meio da linguagem, que se desdobra em atos. Por isso o sepulcro de palavras tem mais força de verdade que uma pedra perdida. Essas palavras são, elas próprias, o sepulcro, que convidam ao desdobramento em tradução. 

Nos três casos, a obra performa. Intransitiva e infinitiva. Intransitiva porque ao performar é capaz de prescindir o objeto, ela performa porque acontece. Infinitiva porque persiste fora da conjugação, numa espécie de maldição aprisionante e reiterativa, que contraria a própria lógica do acontecimento, pois que continua acontecendo para além de qualquer referente específico; porque o referente é ela própria que cria. O estupro será de agora em diante reiterável infinitamente. A jovem sem nome não pode mais parar de ser desonrada, Licambes nunca mais vai terminar de perder a honra e a vida das filhas: nem mesmo a morte deles termina a cena, nem mesmo a ausência de nome dela termina a cena. Neste exato instante uma jovem sem nome é estuprada.

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crítica, poesia, tradução

Teócrito, por Érico Nogueira

peça de prata do fim do período helenístico (séc. I a.C.), provavelmente representando teócrito

peça de prata do fim do período helenístico (séc. I a.C.), provavelmente representando teócrito

teócrito é geralmente conhecido como a fonte da poesia bucólica. influência de virgílio, etc. mas ele é muito mais do que mero ponto de partida, e espero que uma experiência poética em tradução de érico nogueira possa demonstrar um pouco do poder da sua poesia.

érico nogueira (1979) é poeta, tradutor e professor de língua & literatura latinas na unifesp. é autor de o caderno de scardanelli (2008) & de dois (2010). o poema abaixo integra sua tese de doutorado – verdade, contenda e poesia nos idílios de teócrito —, publicada em livro em 2012 & nos foi gentilmente cedido para publicação no blog com uma introdução.

guilherme gontijo flores

* * *

UFC pra quê?

As conquistas de Alexandre Magno não alteraram apenas a configuração política e as relações econômicas do Mediterrâneo oriental no último quartel do século IV a. C. – mas também, e sobretudo, a poesia, a filosofia e a própria noção de cultura grega num mundo que ficara maior, muito maior que a arcaica e clássica cidade-estado. É nessa nova (e, por que não?, globalizada) conjuntura histórica, literalmente sob o farol do Museu e da Biblioteca de Alexandria, que surge a borgiana figura do poeta-bibliotecário, filólogo e artista a um só tempo, cuja poesia crítica pode entender-se, numa palavra, como profunda e criteriosa revisão da rica tradição helênica. Qualquer semelhança entre este e o atual estado de coisas no Brasil e no mundo é tudo, menos coincidência.

Dos eruditos poetas que pensaram e compuseram em grego na primeira metade do século III a. C., nenhum foi tão lido, estudado e amado quanto Teócrito. Imitado por Virgílio nas Éclogas – uma das mais importantes, famosas e célebres recolhas de poemas da tradição ocidental –, Teócrito entraria no cânon simplesmente como o inventor da poesia bucólica, gênero entre cujos cultores há nomes como Camões, Góngora, Milton, Mallarmé e Pessoa, por exemplo.

Diferentemente do de Virgílio, mais delicado e idealista, o bucolismo de Teócrito é mais cru e até selvagem às vezes, cheio de saborosas – e picantes – descrições que primam pela exatidão. Mas gado e pastores não são os únicos protagonistas dos seus versos, como o leitor poderá verificar, caso leia o poema abaixo: impressionantes combates que em nada ficam devendo ao moderno UFC. Chega de papo pra boi dormir. Luz, câmera, ação!

Érico Nogueira

IDÍLIO 22
Os Dioscuros

Hino aos dois filhos de Leda e de Zeus porta-égide canto,
Cástor e Pólux terrível de desafiar no punho
depois que cingisse té o meio das mãos as bovinas manoplas.
Hino cantemos duas, três vezes aos machos rebentos
da filha de Téstio, a ambos os lacedemônios irmãos,              5
dos homens, decerto, que já estão por um fio salvadores,
e assim de assustados corcéis em meio a sangrenta refrega,
e dos navios, os quais, violentando o sobe-e-desce
dos astros no céu, encontram com mui furiosos tufões
– que, desde a popa fazendo subir grandíssimas vagas,          10
ou bem da proa, ou bem de onde quer que acaso desejem,
jogam-nas contra a estiva e espedaçam um e outro
costado; e, com o velame, pendem os mastros todos
confusamente destruídos; e é bátega braba do céu, à
medida que a noite cai; e o mar muito amplo esbraveja,        15
pela lufada açoitado, e pelo ferrenho granizo.
Mas, inda assim, vós outros do abismo tirais os navios,
junto com os seus marinheiros crentes que fossem morrer;
e súbito os ventos amainam, e é luzidia bonança
ao longo do pélago; e as nuvens dissipam-se ali, acolá;             20
e as Ursas surgem então, e no meio dos Asnos o fosco
Presepe, indicando que tudo o que à náutica toca é sereno.
Auxiliadores, ó dois, dos mortais, ó dois amantíssimos,
vós, cavaleiros, vós, citaristas, atletas, cantores,
Cástor primeiro ou Pólux iremos então decantar?                      25
Um hino pra cada – e a Pólux primeiro – decerto cantemos.

E tendo escapado às pedras que uma na outra colidem
– e à boca malvada do Ponto nevoso também –, a Argó à
dos bébrices terra chegou, transportando os dois filhos dos deuses.
Onde muitos, por uma única escada, de um e                               30
outro costado homens desciam da nau de Jasão: e desem-
-barcando na funda praia, em costa ao abrigo dos ventos,
leitos, então, estenderam e esfregaram os gravetos com as mãos.
Cástor de rápidos potros e Pólux de pele avinhada
juntos e sós desbravavam, apartados dos seus companheiros,   35
pela montanha admirando a vária, a selvagem floresta.
E acharam uma fonte sempre-corrente sob rocha lisinha,
transbordando de água intocada; e embaixo dela
calhaus transluziam além que nem prata, que nem cristal, lá
do fundo; e altíssimos pinhos cresciam ao pé dali,                       40
e lúcidos plátanos, pois, e também bem copados ciprestes
e flores fragrantes, lida amorável das hirtas abelhas,
quantas da primavera no fim pelos prados rebentam.
Onde um homem imane sentado estava ao ar livre,
medonho de ver, as orelhas plasmadas por rígidos punhos;       45
no peito monstruoso e nas largas costas cresciam esferas
de férrica carne, como um colosso forjado ao martelo; e
nos sólidos braços músculos sob a ponta dos ombros
estavam qual pedregulhos redondos, os quais, rolando,
torrente invernal esculpisse com os seus abissais torvelinhos;   50
e eis que à volta das costas e sob o pescoço pendia uma
pele de leão, amarrada pela ponta das patas.
A quem primeiro falou Polideuces porta-troféus.

PÓLUX
Licença, ó amigo ignoto. Esta terra detêm que mortais?

ÁMICO
Como licença, se os homens que vejo jamais antes vi?           55

PÓLUX
Coragem: não vês malfeitores nem filhos de malfeitores.

ÁMICO
Coragem eu tenho, e parece que a ti não te cabe ensinar-ma.

PÓLUX
És selvagem, acaso, e em tudo agressivo e soberbo?

ÁMICO
Sou tal como vês – sem embargo, à tua terra não vou.

PÓLUX
Viesses, e a casa voltavas com quanto se deve à hospedança.    60

ÁMICO
A mim não me trates por hóspede, o meu não disponho pra ti.

PÓLUX
Ó excelência, tampouco deixavas beber dessa água?

ÁMICO
Vais logo sabê-lo, se a sede abrasar os teus lábios queimados.

PÓLUX
Há prata ou paga – dirás – com que acaso te convenceríamos?

ÁMICO
Um contra um, mãos em guarda, postando-te ante o oponente.   65

PÓLUX
No boxe, ou dando também pontapé, e o olho furando?

ÁMICO
No punho esforçando-te, então, não poupes a técnica tua.

PÓLUX
Ora, quem? Contra quem em minhas mãos vestirei as manoplas?

ÁMICO
Aqui o vês; mulherzinha não sendo, chamem-lhe o Púgil.

PÓLUX
Há prêmio em jogo, não há?, pelo qual nós dois lutaremos?   70

ÁMICO
Teu eu serei, – e tu serás meu, se acaso vencer-te.

PÓLUX
De galos de púrpura crista, decerto, é uma briga como esta.

ÁMICO
Se já semelhantes a galos, se já a leões porventura
nós somos, bater-nos-emos por prêmio nenhum além desse.

E Ámico, erguendo uma oca concha, fê-la mugir;                          75
e, a concha soando, rápido, então, se reuniram debaixo
dos plátanos mui sombrios os bébrices sempre comados.
Assim igualmente, lá indo, os heróis convocou um a um
da nau magnésia Cástor, o preeminente no prélio.
Ora, uma vez que com tiras bovinas os dois reforçaram               80
as mãos, e apertaram à roda dos pulsos as grandes manoplas,
convergiram pro meio exalando morte recíproca.
Aí a disputa entre eles foi grande, lutando pra ver
qual, dentre os dois, ficaria de costas pra luz do sol.
E em destreza excedeste o homenzarrão, Polideuces,                    85
e foi atingido por raios de Ámico o rosto todinho.
Ele, contudo, o fígado cheio de bile, ia em frente,
arremetendo com as mãos – cuja ponta do queixo atingiu,
enquanto avançava, o Tindárida; e, mais afanoso que antes,
embaralhava o combate, e atacava bastante, curvado                   90
pro chão. E os bébrices, pois, davam urras, mas, da outra banda, os
heróis, por seu turno, o fortíssimo Pólux encorajavam,
temendo que aquele homem mui parecido com Títio
assim o vencesse jogando-lhe a mole em espaço apertado.
Mas ele, o filho de Zeus, entrando de um lado e do outro,             95
feriu-o, alternadas, com ambas as mãos, e conteve a investida
da cria, por fim, de Posídon, conquanto soberbo ele fosse.
O qual estacou e, chapado dos golpes, sangue escarlate
cuspiu; e todos os príncipes juntos soltaram um grito,
ao ver-lhe as macabras feridas à roda da boca e das faces,            100
e os olhos que então se fechavam naquele carão inchadíssimo.
A quem Polideuces senhor confundia, ameaçando com os punhos
de todos os lados: e quando o notou sem qualquer reação,
entre os sobrolhos bem no nariz desferiu-lhe um direto,
e toda a cara quebrou-lhe té o osso. E aquele, golpeado,             105
caiu estendido de costas no meio da relva florente.
Aí, de novo de pé, aspérrima a luta ficou,
um procurando com as duras manoplas a morte do outro.
Ora, enquanto pro peito e pra fora do colo as mãos di-
-rigia o caudilho dos bébrices, Pólux invicto lhe                           110
desnaturava com golpes deformes a cara todinha
– e as carnes dele secaram devido ao suor, e, de homem-
-zarrão, se tornava um homúnculo; sempre mais grossos, porém,
crescendo o combate, eram os membros do outro, e melhores em cor.
Mas como, afinal, o filho de Zeus abateu o glutão?                       115
Fala, ó Deusa, pois sabes: e eu, porta-voz dos demais,
direi quanto queiras e como a ti mesma te for aprazível.
Ora, louquinho por perpetrar grande feito, aquele,
com a canhota, a mão canhota de Pólux pegou
– saindo de lado e da guarda – e, avançando com o pé direito,   120
do flanco destro lançou-lhe o seu larguíssimo punho.
E, caso o tivesse atingido, abatera de Amiclas o rei:
mas este, esquivando a cabeça, girou com o ombro e no ato
com mão possante bateu-lhe debaixo da têmpora esquerda,
e, aberta, da têmpora o sangue mui negro jorrou aos borbotões; 125
e deu-lhe a canhota na boca, e, cerrados, o dentes rangeram;
e, com ũa saraivada mais rápida e mais, devastava-lhe o rosto,
té que quebrou suas mandíbulas: todo por terra caiu
o outro, atordoado, e ergueu simultaneamente ambas
as mãos, desistindo da luta, pois perto já estava da morte.       130
E, embora o vencesse, não lhe fizeste nada maligno,
ó Pólux púgil; e ele votou-te solene promessa,
tendo de lá do ponto invocado Posídon, seu pai,
de nunca mais de propósito maltratar forasteiros.

Um hino, senhor, dediquei-te. A ti cantarei, ó Cástor,                135
lanceiro em couraça de bronze, de rápidos potros Tindárida.

O par de filhos de Zeus, após raptá-las, levava
as duas meninas do tio Leucipo, e a dupla, contudo,
de irmãos, de Afareu os rebentos, com ímpeto os perseguia,
noivos a um passo das bodas: Linceu e Idas, o forte.                   140
Quando à tumba chegaram, porém, do defunto Afareu,
todos uns contra os outros juntos saltaram dos carros,
armados pesadamente de lanças e ocos escudos.
Ao que Linceu declarou em voz alta de sob a couraça:
“Por que, infelizes, por guerra ansiais? Pra que com as noivas  145
alheias malévolos sois, e nas mãos tendes nuas adagas?
Conosco muito primeiro Leucipo comprometeu suas
filhas aí; conosco esta boda – e em juramento.
Mas vós indecorosamente a um outro partido,
com bois e com mulos e com muitíssimos outros bens,              150
o dito varão convertestes, e a boda roubastes com dons.
Ora, decerto bastantes vezes na cara de ambos
eu próprio vos disse, conquanto não fosse de muita prosa:
‘Caros varões, não assim desse modo a príncipes cabe
pleitear esposas cujos maridos já estão acertados.                       155
Há a vasta Esparta e, calcada por potros, a Élide vasta
e a Arcádia de boa ovelha e outrossim as cidades da Aqueia e
Messênia e Argos e a costa todinha, igualmente, de Sísifo:
onde milhares de moças na casa dos seus genitores
se criam não desprovidas de tino nem de beleza,                       160
das quais é-vos fácil casar com quem quer que então desejeis:
pois muitos quiseram ser sogros, decerto, de homens de escol,
e vós preclaríssimos sois dentre todos os ditos heróis, e
também vossos pais e de longe o vosso sangue paterno.
Então, companheiros, deixai isto aqui chegar ao seu termo    165
– a boda conosco; e juntos pensemos em outra pra vós’.
Tantas e tais declarei, mas o sopro do vento, espirando,
levou-as às úmidas ondas, e graça às palavras não houve.
Vós sois insensíveis e, mais, intratáveis; contudo, inda agora
ouvi; com efeito, por parte de pai ambos sois nossos primos.   170
Mas se o cor vosso anseia por guerra, e em sangue é mister
aos dirimentes de igual litígio lavar suas lanças,
Idas e este parente meu, Polideuces, o forte,
hão de deter suas mãos, abstendo-se, pois, da peleja;
e nós – Cástor e eu – decidi-lo-emos em Ares,                               175
sendo os mais jovens: de facto, pena tamanha não dêmos
aos nossos pais. É bastante um único morto de uma única
casa; mas todos os outros hão de alegrar os amigos,
e, noivos em vez de mortos, cantar o himeneu a estas moças.
Convém que tamanho litígio termine com o mínimo mal”.       180
Disse – palavras que o deus não tratou de tornar sem sentido.
E os dois mais velhos na idade dos ombros deitaram por terra
o seu armamento; e té o meio da liça Linceu avançou, sob
o círculo extremo do escudo brandindo a lança possante;
e assim igualmente agitava as pontas do dardo pontudo           185
Cástor; e de ambos então ondeava o penacho de plumas.
Com a lança atiçando primeiro de tudo, entraram na lida,
a ver se avistavam um do outro uma parte do corpo indefesa.
Contudo, eis senão que as pontas dos dardos, antes de alguém se
ferir, se partiram, plantadas em tão formidáveis escudos.        190
E os dois, da bainha a espada sacando, a morte um do outro
de novo buscaram, e tanto combate não tinha parada.
Muito o amplíssimo escudo e o elmo de crina de potro
Cástor golpeou, outro tanto Linceu de olhar aguçado
o escudo: chegou sua ponta somente ao purpúreo penacho.    195
Cujos dedos, o ferro afiado ao joelho esquerdo
do outro avançando, Cástor cortou, recuando esse mesmo
pé; e, ferido, largou o punhal, e logo se pôs a
fugir para a tumba do pai, lá onde o fortíssimo Idas,
sentado, assistia ao combate entre consanguíneos varões.      200
Mas, perseguindo-o, o ancho ferro cravou-lhe por entre
o flanco e o embigo o Tindárida; e, pois, suas vísceras, dentro, o
metal migalhou de imediato; e, recurvo, de boca caiu
Linceu, e desceu-lhe sôbolas pálpebras sono gravíssimo.
Nem o outro sequer dos seus filhos viu Laocoosa                      205
chegar à boda mui grata no seio do lar paterno.
Pois, com efeito, rapidamente arrancando a estela
de cima da tumba do pai Afareu, o messênio Idas
estava para atirá-la por sobre o assassino do irmão:
contudo, Zeus interveio, e arrancou-lhe das mãos o lavrado  210
mármor, e a ele, enfim, fulminou-o com fogo fulmíneo.

(Teócrito, trad. de Érico Nogueira)

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poesia, tradução

a música de safo e anacreonte, por leonardo antunes.

Lírico grego, imagem de um vaso

Lírico grego, imagem de um vaso

 

a musicalidade (ou melopeia) da poesia grega arcaica é um fato indiscutível. o que ainda pouco se discute — no brasil — são as nossas possibilidades de recriação dessa melopeia com melodia, ou seja, sua reconstrução como música, tal como os exemplares de poesia trovadoresca (provençal & galego-portuguesa) que nos chegaram com notação musical.

os poemas de safo & anacreonte não tiveram essa felicidade. na verdade, praticamente nada da música antiga nos chegou, fora alguns tratados & uns poucos fragmentos. por isso, o trabalho de leonardo antunes, já publicado em ritmo e sonoridade na poesia grega antiga (ed. humanitas) & continuado na tese de doutorado sobre píndaro, é tão importante, porque ele reconstitui a possibilidade de uma poesia grega oral em língua portuguesa: nesse momento, a tradução opera como uma ferramenta crítica capaz de nos dar uma outra relação com os textos originais.

abaixo, vocês podem conferir uma pequena introdução feita por ele, seguida dos poemas. aproveito para anexar a cada parte um vídeo em que ele canta o original & sua tradução, acompanhado de um violão, com as melodias que criou a partir das estruturas métricas tradicionais.

guilherme gontijo flores

lira grega

reconstrução da lira grega, com casco de tartaruga & cordas de tripas de bode.

APRESENTAÇÃO

A literatura grega apresenta seus maiores expoentes da lírica monódica em Safo e em Anacreonte, cujas poéticas amorosas em muito se assimilam à própria noção corrente de poesia que temos, ainda fortemente ligada ao Romantismo. Das extensas obras desses poetas, restam-nos apenas fragmentos, alguns mais e outros menos extensos, que sobreviveram à maneira de monumentos antigos, dilapidados pelo castigo do tempo e, sobretudo, privados dos ornatos de ouro que outrora os completavam.

Dentre esses adornos complementares, estavam as melodias pelas quais esses poemas-canções eram cantados, bem como o acompanhamento musical de que se valiam. Temos alguma noção de como seria essa música, por conta dos (poucos) fragmentos musicais que sobreviveram até nós. Apesar da leitura desses próprios fragmentos não ser inequívoca nem completa no que diz respeito à completude de informações necessárias para uma performance razoavelmente fidedigna, eles são importantes na medida em que nos dão alguma ideia de como teria soado a melodia dos cantos antigos. (Em especial, vale a menção ao Epitáfio de Sícilo (provavelmente do primeiro século depois de Cristo), a canção completa mais antiga que temos dos gregos.)

Ainda que não disponhamos da melodia de toda a lírica, nós temos uma boa noção de como esses poemas se comportam do ponto de vista métrico e esse conhecimento pode servir como porta de entrada para uma aproximação à musicalidade dessa poesia.

Apresento, como exemplo para essa abordagem, um poema de Safo e um poema de Anacreonte, os quais eu traduzi e musiquei com um foco nos aspectos métricos e rítmicos que os estruturam.
Minha preocupação nessa empreitada não é tanto a de fazer uma reconstrução histórica fiel (que requereria instrumentos próprios, bem como o uso de escalas musicais distintas da nossa diatônica) quanto a de tirar esses poemas, essas letras de música, da mudez em que se encontram e restaurar seu status de canções, a fim de que sua beleza natural possa ser percebida de modo mais direto.

Como se sabe, a poesia grega (assim como a latina) se organizava ritmicamente pela diferenciação temporal na elocução das sílabas, que podiam ser longas ou breves, enquanto línguas modernas como o Português se valem da distinção de tonicidade a fim de marcar o ritmo, com suas sílabas tônicas e átonas. A simples tradução de sílaba longa por tônica e de sílaba breve por átona não dá conta de reproduzir de imediato a experiência sonora desses poemas. Porém, com a adição da música, podemos fazer com que as sílabas em Português adquiram, de modo natural, uma distinção de duração.
Assim, minha proposta é a de musicar esses poemas e cantá-los (respeitando sua constituição rítmica) com a mesma melodia tanto em Grego quanto em Português, fazendo desse modo uma aproximação musical dos dois textos e das duas experiências de apreciação sonora.

Leonardo Antunes

* * *

TRADUÇÕES

Safo Fr. 31

φαίνεταί μοι κῆνος ἴσος θέοισιν
ἔμμεν’ ὤνηρ, ὄττις ἐνάντιός τοι
ἰσδάνει καὶ πλάσιον ἆδυ φονεί-
σας ὐπακούει

καὶ γελαίσας ἰμέροεν, τό μ’ ἦ μὰν
καρδίαν ἐν στήθεσιν ἐπτόαισεν•
ὠς γὰρ ἔς σ’ ἴδω βρόχε’, ὤς με φώναί-
σ’ οὐδ’ ἒν ἔτ’ εἴκει,

ἀλλά κὰμ μὲν γλῶσσα μ’ἔαγε, λέπτον
δ’ αὔτικα χρῷ πῦρ ὐπαδεδρόμηκεν,
ὀππάτεσσι δ’ οὐδ’ ἒν ὄρημμ’, ἐπιρρόμ-
βεισι δ’ ἄκουαι,

κὰδ’ δέ μ’ ἴδρως κακχέεται, τρόμος δὲ
παῖσαν ἄγρει, χλωροτέρα δὲ ποίας
ἔμμι, τεθνάκην δ’ ὀλίγω ‘πιδεύης
φαίνομ’ ἔμ’ αὔτᾳ.

Ele me parece ser par dos deuses,
O homem que se senta perante ti
E se inclina perto pra ouvir tua doce
Voz e teu riso

Pleno de desejo. Ah, isso, sim,
Faz meu coração ‘stremecer no peito.
Pois tão logo vejo teu rosto, a voz eu
Perco de todo.

Parte-se-me a língua. Um fogo leve
Me percorre inteira por sob a pele.
Com os olhos nada mais vejo. Zumbem
Alto os ouvidos.

Verto-me em suor. Um tremor me toma
Por completo. Mais do que a relva estou
Verde e para a morte não falta muito —
É o que parece.

Anacreonte Fr. 360

ὦ παἶ παρθένιον βλέπων
δίζημαί σε, σὺ δ’ οὐ κοεῖς,
οὐκ εἰδὼς ὅτι τῆς ἐμῆς
ψυχῆς ἡνιοχεύεις.

Ó menino de olhar gentil,
Te procuro, mas tu não vês.
Não percebes que em tuas mãos
Tens as rédeas do meu ser.

(apresentação & tradução, leonardo antunes)

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poesia, tradução

3 elegias de sexto propércio

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

sátiro e ninfa nos prelúdios do sexo. mosaico de pompeia.

então logo abaixo vai um mínimo trecho da apresentação, 3 poemas (dos mais de 90) & algumas notas adaptadas ao blog. os 3 poemas formam um ciclo importante do primeiro livro de elegias & neles propércio discute a importância da poesia amorosa, num tom irônico, como é seu praxe.

guilherme gontijo flores

ps: a edição deve sair no primeiro semestre do ano que vem.

* * *

APRESENTAÇÃO

Sobre a vida de Propércio, temos pouquíssimas informações, e a maioria derivada da sua própria poesia, o que aumenta ainda mais o grau de desconfiança sobre esses dados. Porém, se tivéssemos que fazer um apanhado, ficaria mais ou menos assim: nascido em torno de 50 a.C. de uma família nobre, Sexto Propércio vem da Úmbria (próximo à atual Assis); devido às guerras civis, sua família perdeu parte das terras, que foram confiscadas por Otaviano e Marco Antônio (cf. as elegias 1.21, 1.22 e 4.1, além de Virgílio Bucólicas 1 e 9), o que levou a família ao empobrecimento, mas não à miséria; se confiarmos ainda em 1.21 e 1.22, sabemos que a família sofreu profundamente com a Guerra  da Perúsia, em 41 e 40 a.C.  Ao que tudo indica, o poeta perdeu seu pai ainda jovem (4.1), mas recebeu a educação formal da elite romana, provavelmente em Roma, com o típico objetivo de trabalhar na advocacia. Por fim, ainda jovem ele se voltou para a poesia, e não temos quaisquer dados sobre a existência de carreira profissional desvinculada da escrita.

Em 29 a.C. é publicado seu primeiro livro de elegias (talvez intitulado Amores, mas comumente conhecido como Cynthia monobiblos) dedicado inteiramente à sua amada Cíntia, e que parece ter feito sucesso imediato. A figura de Cíntia é um grande problema interpretativo, se considerarmos sua existência biográfica como amante de Propércio: Apuleio, mais de um século depois da morte do poeta, em Apologia 10, afirmaria que sob a máscara de Cíntia estaria velada uma certa jovem romana chamada Hóstia; no entanto a maioria dos comentadores tende, hoje, a descartar leituras biográficas da elegia romana. E acrescento: mesmo que houvesse uma ou várias mulheres que motivassem a escrita de Propércio, sua artificialidade, seu enquadramento dentro das diversas regras e lugares comuns do gênero elegíaco, tudo isso aponta para uma autoconsciência literária muito profunda; e assim a biografia estaria, e muito, submetida à poesia, e não o contrário.

Em seguida, entre 26-23 a.C., Propércio publica os livros II  e III, talvez sob o patronato de Mecenas. Por fim, o livro IV, talvez sob o patronato do próprio Augusto, sai em cerca de 16 a.C. Na falta de maiores informações, costuma-se assumir que Propércio deve ter falecido por volta de 15 a.C., com cerca de 35 anos.

Sua poesia ganhou fama de obscura, difícil e excessivamente mítica, por vários leitores; seu estilo é complexo, e não à toa Ezra Pound identificaria nele uma espécie de precursor da  logopoeia, que, para o poeta americano, só viria a se desenvolver completamente quase dois mil anos depois, com as obras fin de siècle de Corbière e Laforgue. Muitas vezes construções inesperadas tomam conta do texto, uma ironia sutil desconstrói expectativas e com frequência deixa o leitor sem base para fazer julgamentos firmes sobre uma possível verdade da poesia expressa pelos poemas. Assim, Propércio já foi considerado romântico, político engajado (pró e contra o Império augustano), sincero em suas paixões, artificial na escrita, simbolista avant la lettre, modernista romano, entre outros extremos.

um graffiti de pompeia, onde alguém dedica um dístico de propércio a uma jovem chamada modesta, para anunciar o rompimento. a tradução do dístico seria a seguinte: "Agora a ira é nova — é hora de rompermos!     Se a dor sumir, assomará o Amor."

Um graffiti de Pompeia, um dístico de Propércio, dedicado a alguém chamada Modesta, anuncia o rompimento. A tradução seria:          Agora a ira é nova — é hora de rompermos!
Se a dor sumir, assomará o Amor.

TRÊS ELEGIAS

1.7

Dum tibi Cadmeae dicuntur, Pontice, Thebae
….armaque fraternae tristia militiae,
atque, ita sim felix, primo contendis Homero
….(sint modo Fata tuis mollia carminibus),
nos, ut consuemus, nostros agitamus Amores 
….atque aliquid duram quaerimus in dominam;
nec tantum ingenio quantum seruire dolori
….cogor et aetatis tempora dura queri.

Hic mihi conteritur uitae modus, haec mea Fama est,
….hinc cupio nomen carminis ire mei. 
Me laudent doctae solum placuisse puellae,
….Pontice, et iniustas saepe tulisse minas;
me legat assidue post haec neglectus amator,
….et prosint illi cognita nostra mala.

Te quoque si certo puer hic concusserit arcu 
….(quam nollim nostros te uiolasse Deos!),
longe castra tibi, longe miser agmina septem
….flebis in aeterno surda iacere situ;
et frustra cupies mollem componere uersum,
….nec tibi subiciet carmina serus Amor. 
Tum me non humilem mirabere saepe poetam,
….tunc ego Romanis praeferar ingeniis;
nec poterunt iuuenes nostro reticere sepulcro:
….“Ardoris nostri magne poeta, iaces?”

Tu caue nostra tuo contemnas carmina fastu: 
….saepe uenit magno faenore tardus Amor.

1.7

Enquanto cantas, Pôntico, a Tebas de Cadmo
….e as armas tristes do fraterno exército
e — quem dera fosse eu! — competes com Homero
….(que os Fados sejam leves com teus cantos!);
eu, como de costume, fico em meus Amores
….e busco combater a dura dona,
mais escravo da dor do que do meu talento,
….e lamento o infortúnio desta idade.

Assim eu passo a vida, assim é minha Fama,
….aqui desejo a glória do meu canto:
louvado — o único que agrada à moça culta
….e aguenta injustas ameaças, Pôntico.
Que amiúde me leia o amante repelido
….e encontre auxílio ao conhecer meus males.

Se o menino certeiro também te flechar
….(se ao menos não violasses nossos Deuses!),
dirás adeus quartéis, adeus aos sete exércitos
….que jazem surdos no sepulcro eterno
e em vão desejarás compor suaves versos,
….pois tardo Amor não te dará poemas.
Então te espantarás: não sou poeta humilde,
….entre os mais talentosos dos Romanos;
jovens não poderão calar-se ante meu túmulo:
….“Grande poeta do nosso ardor, morreste?”

Evita desprezar meus cantos com orgulho:
….o Amor tardio cobra imensos juros.

1.8

Tune igitur demens, nec te mea cura moratur?
,,,,An tibi sum gelida uilior Illyria?
Et tibi iam tanti, quicumquest, iste uidetur,
….ut sine me uento quolibet ire uelis?
Tune audire potes uesani murmura ponti 
….fortis et in dura naue iacere potes?
Tu pedibus teneris positas fulcire pruinas,
….tu potes insolitas, Cynthia, ferre niues?

O utinam hibernae duplicentur tempora brumae,
….et sit iners tardis nauita Vergiliis, 
nec tibi Tyrrhena soluatur funis harena,
.neue inimica meas eleuet aura preces 
et me defixum uacua patiatur in ora 
….crudelem infesta saepe uocare manu!

Sed quocumque modo de me, periura, mereris,
….sit Galatea tuae non aliena uiae; 
atque ego non uideam talis subsidere uentos, 
….cum tibi prouectas auferet unda ratis, 
ut te, felici praeuecta Ceraunia remo, 
….accipiat placidis Oricos aequoribus! 

Nam me non ullae poterunt corrumpere de te
….quin ego, uita, tuo limine uerba querar;
nec me deficiet nautas rogitare citatos:
….“Dicite, quo portu clausa puella mea est?”,
et dicam “Licet Artaciis considat in oris, 
….et licet Hylaeis, illa futura mea est.”

Hic erit! Hic iurata manet! Rumpantur iniqui!
….uicimus: assiduas non tulit illa preces.
Falsa licet cupidus deponat gaudia Liuor:
….destitit ire nouas Cynthia nostra uias. 

Illi carus ego et per me carissima Roma
….dicitur, et sine me dulcia regna negat.
Illa uel angusto mecum requiescere lecto
….et quocumque modo maluit esse mea,
quam sibi dotatae regnum uetus Hippodamiae, 
….et quas Elis opes apta pararat equis.

Quamuis magna daret, quamuis maiora daturus,
….non tamen illa meos fugit auara sinus.
Hanc ego non auro, non Indis flectere conchis,
….sed potui blandi carminis obsequio.

Sunt igitur Musae, neque amanti tardus Apollo,
….quis ego fretus amo: Cynthia rara mea est!
Nunc mihi summa licet contingere sidera plantis:
….siue dies seu nox uenerit, illa mea est!
Nec mihi riualis certos subducit Amores:
….ista meam norit gloria canitiem.

1.8

Enlouqueceste? Não te prendem meus carinhos?
….Te importo menos que a Ilíria gélida?
E quem é esse que parece valer tanto,
….que num vento qualquer, sem mim tu segues?
Tu podes escutar o mar insano e múrmure, 5
….podes deitar sem medo em dura barca?
Tu pousarás teus tenros pés sobre a geada,
….tu suportas, ó Cíntia, a estranha neve?

Quero que dobre o tempo da bruma invernal,
….que pare o nauta e atrasem as Vergílias, 10
que a corda não se solte da areia Tirrena,
….nem brisa imiga anule as minhas preces 12
e eu parado, pregado no porto deserto, 15
….ameaçador, gritando que és cruel!

Mas mesmo que mereças mal de mim, perjura,
….que Galateia ampare tua viagem! 18
Não quero ver arrefecerem esses ventos 13
….quando a onda embalar teu barco avante; 14
ao dobrar o Ceráunio com remo seguro, 19
….que as águas calmas do Órico te acolham! 20

Pois nenhuma mulher poderá me impedir
….de lamentar, querida, à tua porta;
nem deixarei de perguntar aos marinheiros:
….“Dizei — que cais retém a amada minha?”
Direi: “Pode estar presa nas margens Artácias, 25
….ou nas Hileias, ela será minha!”

Aqui fica! Jurou ficar! Adeus, rivais!
….Venci! Ela cedeu a tantas súplicas.
Pode a cúpida Inveja depor falsos gozos:
….minha Cíntia largou a nova estrada. 30

Diz que me adora e que por mim adora Roma,
….sem mim renega haver um doce reino.
Prefere repousar comigo em leito estreito
….e ser só minha — não importa como —
a ter por dote um reino, como Hipodamia, 35
….e os bens que em seus corcéis ganhara Élida.

Inda que ofertem muito, inda que mais prometam,
….não foge do meu peito por cobiça.
Não a ganhei com ouro ou pérolas da Índia,
….mas com o agrado de um suave canto. 

Existem Musas! Febo não tarda a quem ama!
….Neles confio — Cíntia rara é minha!
Hoje posso pisar sobre os astros mais altos:
….que venha o dia e a noite — ela é minha!
Não há rival que roube meu Amor seguro:
….ah! essa glória vai me ver grisalho.

1.9

Dicebam tibi uenturos, irrisor, Amores,
….nec tibi perpetuo libera uerba fore:
ecce taces supplexque uenis ad iura puellae,
….et tibi nunc quaeuis imperat empta modo.
Non me Chaoniae uincant in Amore columbae 5
….dicere, quos iuuenes quaeque puella domet.
Me dolor et lacrimae merito fecere peritum:
….atque utinam posito dicar Amore rudis!

Quid tibi nunc misero prodest graue dicere carmen
.aut Amphioniae moenia flere lyrae? 10
Plus in Amore ualet Mimnermi uersus Homero:
….carmina mansuetus lenia quaerit Amor.
I, quaeso, et tristis istos sepone libellos,
….et cane quod quaeuis nosse puella uelit!
Quid si non esset facilis tibi copia? Nunc tu 15
….insanus medio flumine quaeris aquam.

Necdum etiam palles, uero nec tangeris igni:
….haec est uenturi prima fauilla mali.
Tum magis Armenias cupies accedere tigris
….et magis infernae uincula nosse rotae, 20
quam pueri totiens arcum sentire medullis
….et nihil iratae posse negare tuae.
Nullus Amor cuiquam facilis ita praebuit alas,
….ut non alterna presserit ille manu.

Nec te decipiat, quod sit satis illa parata: 25
….acrius illa subit, Pontice, si qua tua est;
quippe ubi non liceat uacuos seducere ocellos,
….nec uigilare alio limine cedat Amor.
Qui non ante patet, donec manus attigit ossa:
….quisquis es, assiduas a fuge blanditias! 30
Illis et silices et possint cedere quercus,
….nedum tu possis, spiritus iste leuis.

Quare, si pudor est, quam primum errata fatere:
….dicere quo pereas saepe in Amore leuat.

1.9

Eu te disse, palhaço — Amores chegariam
….e não terias mais palavras livres.
Eis que te calas suplicante sob as leis
….dessa recém-comprada que te impera.
Como as pombas Caônias eu canto no Amor
….que jovens cada moça amansará.
Pranto e dor me tornaram perito por mérito,
….mas antes sem o Amor eu fosse um leigo!

De que vale, infeliz, cantar solene agora
….chorando os muros que fizera Anfíon?
No Amor melhor que Homero é um verso de Mimnermo:
….suaves cantos busca o manso Amor.
Vai, eu te peço, e larga esses tristes livrinhos
….e canta algo que a moça queira ouvir!
O que farás se te faltar assunto? Agora,
….insano, em pleno rio pedes água.

Não estás pálido, não viste ainda o fogo:
….são só fagulhas do teu mal vindouro.
Então preferirás brincar com tigre Armênio
….e na roda infernal acorrentar-te 20
do que sentir na espinha o arco do menino
….sem poder negar nada à moça irosa.
Nenhum Amor deu asas fáceis para alguém
….sem também o oprimir com a outra mão.

Não acredites se ela parecer disposta —
….mais te consome, Pôntico, ao ser tua:
não poderás correr teus olhos livremente,
….o Amor não deixará que veles outra.
Não podemos senti-lo até que atinja os ossos:
….quem quer que sejas, foge das carícias!
A elas cederiam pedras e carvalhos —
….e tu, sopro ligeiro, mais ainda.

Por fim, se tens pudor, confessa logo os erros:
….contar as dores alivia o Amor.

* * *

NOTAS

 1.7

Esta elegia dirigida ao poeta épico Pôntico (que supostamente teria escrito uma Tebaida, cuja referência aparece também em Ovídio, Amores 2.18 e Tristia 4.10.47-8) dialoga diretamente com 1.9, onde vemos que as profecias de Propércio se cumprem. Não obstante, o poema 1.8, que gera um intervalo entre os dois, já foi indicado como configurador de uma tríade entre as elegias 7-8-9, bem representados por Aires A. Nascimento como “a poesia amorosa não deve ser tida em menor conta (7); o seu desprezo leva a resultados funestos (8); a poesia amorosa tem uma função moderadora (9)”. Vale notar como a tópica da utilidade da poesia entra na defesa da elegia contra a épica praticada por Pôntico, o que leva o poema à proposta da elegia como modo de vida.

v. 2: O fraterno exército nos remete ao combate entre os irmãos Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, pelo poder de Tebas, principal assunto dos Sete contra Tebas de Ésquilo e também da Tebaida na versão de Estácio.

v. 3: Propércio pode referir-se ao fato de que a mais antiga Tebaida era, na Antiguidade, atribuída a Homero, junto com outros poemas do Ciclo Épico de que só nos restaram fragmentos.

v. 26: A temática do amor tardio que causa mais sofrimento aparece também em Tibulo 1.2.87-8 e Ovídio, Heroides 4.19.

1.8

Esta elegia começa abruptamente, como várias outras, e se constrói como um skhetliasmos (protesto contra viagem) a Cíntia, que foge com um rival, mas que depois se torna ironicamente um propemptikon (um desejo de boa viagem). Também tece um diálogo com 2.16, quando o mesmo rival retorna da Ilíria, identificado como um pretor, portanto um homem de vida pública e detentor de bens — o típico rival do amante elegíaco.

vv. 7-8: A semelhança entre estes versos e os de Virgílio, Bucólicas 10.23-4 (tua cura Lycoris / perque niues alium perque horrida castra secuta est? (“Tua paixão Licóris / por entre neve e guerra segue um outro?”)) e 10.49 (a tibi ne teneras glacies […] secet aspera plantas (“que áspero gelo não te corte os frágeis pés”)) faz cogitar que os dois trechos sejam imitação da poesia de Cornélio Galo, fundador da elegia erótica romana.

v. 10: As Vergílias são as Plêiades, cujo aparecimento, em 16 de abril, anunciava a chegada a primavera, a melhor estação para a navegação.

v. 18: Galateia é a mais famosa das Nereidas, deusas do mar, filhas de Nereu.

vv. 19-20: Ceráunio é um perigoso promontório da Acroceráunia, na costa de Epiro; Órico é um porto da Ilíria, nas margens do Epiro.

vv. 25-26:  Heyworth aponta para o fato de que Propércio cita os Ceráunios e Óricos (dois pontos que aparecem na viagem de volta dos argonautas, Apolônio de Rodes Argonautica 4.1214-5), enquanto a Artácia (1.957) aparece na ida, além da Hileia (4.524), que seria ser um povo da Ilíria. Nesse caso, as referências a pontos distantes também seriam uma referência literária, que remetem a uma viagem de ida e volta, fato que se realiza dentro da elegia properciana a partir dos versos seguintes, com a desistência de Cíntia.

vv. 35-6: Hipodamia era filha de Enomau, rei de Pisa na Élida, e esposa e Pélops.

v. 40: A referência à elegia como blandum carmen (“suave canto”) parece retomar o debate apresentado nos poemas 1.7 e 1.9, dirigidos a Pôntico.

1.9

O poema é clara continuidade de 1.7, após o intervalo de 1.8, de modo que os três formam um pequeno conjunto em que vemos as ameaças de Propércio ao gênero épico (1.7); seu próprio risco de falhar, mas resultando no sucesso de manter Cíntia (1.8), representando seus poderes como poeta elegíaco; e a derrota final de Pôntico, agora apaixonado por uma escrava, ou prostituta (1.9), incapaz de continuar sua carreira de poeta épico, mas também incapaz de iniciar uma poesia elegíaca, por já ser tarde demais. Vitorioso, Propércio inicia seu trabalho de magister amoris.

vv. 5-6: A Caônia era uma região do Epiro, mas a referência específica é a Dodona, onde havia um oráculo de Zeus, que se realizava por meio do auspício de pombas. Vale recordar que as sacerdotisas também recebiam o nome de pombas (columbae).

v. 4: Há duas leituras para modo empta, como notam Butler & Barber, que tentei manter quanto pude. Trata-se a) de uma escrava “recém-comprada”; ou b) de uma prostituta, que até então estava à venda.

v. 8: Anfíon é o bardo mítico que teria construído a muralha de Tebas apenas com o poder de sua lira, com a qual ele guiava as pedras. Em 1.7.2 (cf. nota), vimos que Pôntico escrevia uma Tebaida.

v. 11: Mimnermo é um poeta elegíaco grego arcaico, com temática amorosa e sobre a juventude. Aqui Propércio usa-o para fazer uma oposição fundamental entre elegia e épica, atestando a utilidade daquela sobre esta, bem como sua brevidade: mais valeria apenas um verso de Mimnermo do que toda a obra de Homero.

vv. 15-16: “Pedir água no meio do rio” é um provérbio grego muito citado pelos romanos como sinal de loucura, mas aqui também tem a conotação metafórica do rio caudaloso simbolizar a poesia épica.

v. 20: Ixíon fora preso por Júpiter a uma roda cercada de serpentes, sempre a rodar, no mundo dos mortos, porque tentara estuprar Juno.

(poemas de sexto propércio, apresentação, tradução & notas de guilherme gontijo flores)

Padrão
poesia, tradução

álbio tibulo (60-19 a.C.), por joão paulo matedi alves

fala-se pouco, muito pouco, da musa pederástica romana, sobre a poesia de amor entre homens. em geral, o tema se limita à grécia, em geral uma grécia idealizada onde não haveria restrições sexuais severas – um triste engano.

no entanto, aqui, independente das minúcias do contexto social que permitia e codificava esse tipo de poesia, mais importante é ver a poesia que se fez com o tema amoroso. tibulo é certamente um dos exemplos mais poderosos da poesia homoerótica na antiguidade, embora tenha escrito pouco nessa verve.

a bela tradução é de joão paulo matedi alves, que defendeu sua dissertação de mestrado sobre tibulo & tem aprofundado as traduções e estudos sobre o autor no doutorado. como leitor de tibulo, eu diria que a maior dificuldade na sua poesia, aos nosso olhos & portanto ao trabalho do tradutor, é o de manter aquilo que os romanos viam como elegância (tersus atque elegans é como o define quintiliano) e que para nós por vezes soa como frieza, ao mesmo tempo em que trata centralmente do tema amoroso. as soluções poundianocabralinas dessas traduções são, a meu ver, o melhor de tibulo que pode haver nesta nossa língua.

guilherme gontijo flores

taça de prata romana (séc. I d.C.), na imagem um adulto com barba penetra um jovem ainda sem barba.

taça de prata romana (séc. I d.C.): um adulto barbado penetra um jovem ainda sem barba.

De opulenta família e obra, Álbio Tibulo (Albius Tibullus, 60 a.C. (?) – 19 a.C. (?)), de quem não conhecemos sequer o nome completo, integrou o círculo literário de Marco Valério Messala Corvino e foi um dois mais notáveis elegíacos de Roma e de toda antiguidade. A se considerar apenas Quintiliano – Institutio oratoria (X, 1, 93) – e Domício Marso – em epigrama escrito por ocasião da morte do poeta –, Tibulo, como é mais conhecido, foi o mais importante elegíaco romano, à frente, inclusive, de Galo, de Ovídio e de Propércio. Contudo, apesar do juízo desses antigos, as literaturas e os leitores mais atuais não o veem assim. Se levarmos em conta o quanto Ovídio já foi traduzido (inclusive seus Amores) e as famosíssimas palavras e traduções propercianas de Ezra Pound, que alçaram, em certa medida, Propércio ao mainstream, não há dúvida de que Tibulo ficou a reboque. E tal forma de encarar Tibulo, em comparação a Ovídio e Propércio, é até compreensível, se atentarmos para as peças (no que toca à nossa sensibilidade) mais enxutas, justas, rápidas e tensas escritas por esses dois; peças em que aos inúmeros versos tibulianos, que fazem desfilar diante do leitor “quadros” e mais “quadros”, às vezes, aos olhos do leitor moderno e hodierno, aparentemente confusos, se contrapõem poemas “centrados”, de um e único núcleo, em torno do qual adejam considerações incisivas, agudas e lapidares, que rapidamente se esgotam e esgotam o foco da composição. Daí, Ovídio e Propércio já partem, não para outra “cena”, mas para outra elegia, que até pode ser tomada como outra “cena”, porém é independente, pelo menos no que garante ao novo poema ser outra composição.

Todavia, talvez isso seja uma verdade nossa, só nossa. No processo de leitura desses poetas e, no meu caso, no penoso, porém prazeroso, trabalho de versão das elegias de Tibulo, há algo que chama atenção: talvez o nosso elegíaco tenha sido aquele que melhor trabalhou os topoi deste relevante genos clássico: a elegia. Lugares-comuns elegíacos como seruitium amoris, militia amoris, discidium, doença do poeta ou da amada, preocupação da amada com sua apresentação, denúncia de violação de uma ligação amorosa (foedus amoris), recurso a modelos míticos de comportamento, ideia de uma longa viagem a ser empreendida (longa uia – tópico muitas vezes usado como pretexto para se aludir à eterna contraposição entre o discurso elegíaco e a épica), paraklausíthyron e recusatio são polidos ao máximo e de forma sutil por Tibulo, que os faz deslizar habilmente por entre seus longos poemas. E tudo isso pintado com extrema sinceridade, característica cara aos romanos (vide Catulo), como já há muito demonstrou a crítica. Sem contar que importantes estudos – dentre os quais destaco Tibullus: a hellenistic poet Rome, de Francis Cairs – provam a grande habilidade do poeta em gerenciar inúmeras cenas, topoi e “sentimentos” (humor, ironia, desejo, ódio, etc.) por versos e mais versos.

A poesia que vai aqui apresentada em tradução minha, traz um pouco disso, eu acho. Ademais, carrega um atrativo além, pois toca no amor de ego (a “voz” do poema) por um puer delicatus de nome Márato – em tempos de luta por direitos civis pelos homossexuais (e por seus simpatizantes), que radicalizaram sua ação contra mais uma cruzada humana, que se tinge de santa para flertar com e dissimular seu humano preconceito, nada mais a propósito. Tibulo dedicou três elegias a relações homoafetivas: I.4, I.8 e I.9. Nos três poemas, vemos ego choramingar pelo seu imberbe obscuro objeto do desejo – Márato. A que temos diante de nossos olhos, no momento, é a composição I.4, a que abre a trilogia homoafetiva do Corpus tibullianum, que nada mais é que um conjunto de poemas, que nos foi legado pela antiguidade, organizados em três livros (em algumas edições quatro), dos quais os dois primeiros são atribuídos com firmeza, certeza e inteireza ao poeta de que nos ocupamos. O terceiro livro, por sua vez, é formado por um conjunto de poemas atribuídos a poetas ainda não muito bem identificados: Lígdamo (III.1-6), Sulpícia (III.8-18) e Tibulo (III.19 e 20). Mas valem três observações: 1) a composição III.7 é o famoso e, para muitos, famigerado Panegyricos Messallae, de autor desconhecido; 2) alguns dividem as breves elegias que se encontram, aqui, sob a pluma de Sulpícia, em dois grupos – III.8-12 (de autor desconhecido) e III.13-18 (de Sulpícia); 3) embora III.19 e 20 sejam considerados, por alguns, versos tibulianos, a questão não está fechada.

Em relação ao caminho tradutório seguido para verter Tibulo, é o seguinte: 1) para os dísticos elegíacos latinos busquei a alternância de dodecassílabos (traduzem os hexâmetros) e decassílabos heroicos e sáficos (traduzem os pentâmetros), assim como já procederam, por exemplo, Péricles Eugênio da Silva Ramos (ao verter Propércio), João Ângelo Oliva Neto (ao traduzir Catulo), e Guilherme Gontijo Flores (ao transladar Propércio). 2) Persegui efeitos aliterantes e assonantes, tão queridos também pelos clássicos. 3) A tradução exibe, o máximo possível, o conteúdo dos versos latinos em homólogos portugueses, ou seja, o verso 3 do original é vertido no verso 3 da tradução, a linha 55 tibuliana tem sua correspondência tradutória na linha 55 da versão, e assim vai. 4) Perseguiu-se também a reprodução de anáforas, repetições e paralelismos ocorrentes no texto latino. 5) A esmagadora maioria dos pentâmetros tibulianos findam em dissílabos, o que me levou a, igualmente, imitar esse efeito (embora sem obsessão e com deveras liberdades). 6) A tradução se guiou, até certo ponto, por um ideal de “pureza acentual”, isto é, evitou-se a rasura dos acentos principais (4, 6 e 8) por acentos adjacentes. 7) Etc. Porém ainda que tudo isso tenha sido sondado e alcançado aqui e ali, a tradução evitou a esses elementos sobrepujar sua lei maior: o ouvido. Em outras palavras, o mais importante era encontrar versos que soassem bem ao ouvido, pois de nada adiantaria um verso com perfeita acentuação e métrica, final dissilábico e alguma aliteração que não funcionasse ao ouvido – não obstante “funcionar ao ouvido” seja inevitavelmente subjetivo.

Outra questão importante é perceber que, ao mesmo tempo em que a tradução se esforça em “fotografar” Tibulo (embora em preto-e-branco, pois “colorido” só em latim e há dois mil anos), intentou-se também dar uma dicção a Tibulo que acredito ser mais moderna, baseada em parataxes e numa maior velocidade de leitura, com cortes bruscos e com trechos em que a supressão de certos termos latinos não traduzidos em português permite o entendimento da passagem não de forma clara e por meio de uma semântica discursiva, mas de forma alusiva, de uma semântica alusiva, alusiva ao contexto maior da passagem em questão. Nisso tudo, deve-se considerar ainda os latinismos (de sintaxe e de vocabulário e a literalidade com que algumas passagens são vertidas (vide verso 59 do original, em que o vocábulo uenerem é muitas vezes, por outros tradutores, vertido por “amor”)). O objetivo último era, se possível, palidamente possível, dar voz ao antigo por meio do novo e vice-versa, era fazer dialogar o diacrônico e o sincrônico.

Por fim e enfim, espero que gostem do original e da tradução. E, sem mais retórica, a verdade é que tudo o que escrevi sobre tradução neste texto pode ser substituído por “cada tradutor faz o que pode”.

jp matedi a

abril de 2013

IV

“Assim, umbrosas copas te cubram, Priapo,
….nem sol nem neve firam-te a cabeça.
Que ardil teu cativou os belos? Certamente,
….não tens barba nem coma condizentes.
Nu suportas o frio da bruma hibernal;                      5
….nu, dias secos da estival canícula.”
Assim falei: de Baco o descendente rústico,
….deus armado de curva foice, disse-me:
“ó, não creias na tenra turba de meninos,
….sempre motivo têm de justo amor. ………………../.10
Este apraz por reter corcéis com rédea curta;
….este, água fresca fende em níveo peito;
este te cativou por ser valente; aquele,
….virgem pudor se eleva em tenra face.
Não desistas, se alguém no início se negar, ………..15
….dará o pescoço ao jugo com vagar:
o tempo deu aos homens leões amansados,
….o tempo abriu, em água branda, rochas;
o ano madura as uvas sob o sol dos vales,
….o ano traz, regular, os astros rútilos. ………………..20
Podes jurar, o vento dissipa os perjúrios
….vãos de Vênus por sobre terra e mar.
Graças a Júpiter! O pai tornou inválidas
….juras ardentes de um insano amor;
e em vão Dictina deixa que jures por suas ………….25
….flechas, Minerva pelos seus cabelos.
Mas, se hesitares, errarás: a idade foge.
…..Tão logo nasce o dia e já se esvai!
Tão logo a terra perde o purpúreo matiz!
….Tão logo o grande choupo, a bela coma!………… 30
Jaz, vítima fatal da velhice, o cavalo
….que páreos liderou na raia Eleia.
Já vi homem aflito na maturidade,
….por ter passado à toa os tolos dias.
Deuses cruéis! Serpentes se despem dos anos: 35
….não deram prazos à beleza os fados.
Só Baco e Febo são eternamente jovens,
….pois intonso cabelo quadra a ambos.
Tu, do menino sejam quaisquer os desejos,
….cedas: o amor triunfa com favores. ………………….40
Segue-o, mesmo em viagem longa, em que a canícula
….abrase com ardente sede os campos;
mesmo que o arco chuvoso, que colore o céu
….plúmbeo, revele chuvas iminentes;
ou se quiser fender à quilha o mar cerúleo, ……….45
….lança tu próprio a nave contra as vagas.
Não te arrependas dura faina suportar
….ou machucar as mãos, hostis à lida.
Se ele quiser munir de insídias fundos vales,
….que lhe agrades levando aos ombros redes. …..50
Se ele quiser espadas, treina-o com mão leve,
….concede-lhe – que vença! – o flanco nu.
E será bom contigo, então roubarás caros
….beijos: resistirá, mas os dará.
Dará no início à força, então te brindará,……………. 55
….por fim o teu pescoço abraçará.
Ai! Que arte desprezível pratica este século:
….por vezo já se vende o meu menino.
Mas tu, primeiro que vendeste vênus, sejas
….lá quem for, seja-te pesada a lápide. ………………..60
Doutos vates amai, meninos, e as Piérides;
….áureos brindes não vençam as Piérides.
Devido aos carmes, coma purpúrea tem Niso;
….pelo poema, ebúrneos ombros, Pélops.
Vive quem Musa louva, enquanto der a terra ……65
….carvalho; o céu, estrela; o rio, água.
Mas quem não ouve as Musas, quem o amor seu vende,
….persiga o carro de Ops do Monte Ida;
em seu errar percorra trezentas cidades,
….corte o vil membro ao som da flauta Frígia. ……70
Para a ternura Vênus quer lugar: às súplicas
….ela será bondosa e ao triste pranto”.
Isso, para eu cantar a Tício, disse o deus,
….mas a Tício lembrar a esposa impede.
Que ele obedeça. Vós, que manhoso menino ……75
….seduz com arte, celebrai-me mestre.
Todos têm sua glória: tenho a porta aberta
….às consultas de amantes desprezados.
Um dia, atentos jovens me acompanharão,
….já velho, rico nas lições de Vênus. …………………….80
Ai! Quão longo tormento é meu amor por Márato!
….Falham ardis e falham artifícios.
Rogo, menino, poupa-me! Que não debochem
….de mim, por rirem de meus vãos preceitos.

a mesma taça de prata romana (séc. I d.C.): jovem sem barba penetra um garoto.

a mesma taça de prata romana (séc. I d.C.): jovem sem barba penetra um garoto.

IV

“Sic umbrosa tibi contingant tecta, Priape,
….ne capiti soles, ne noceantque niues:
quae tua formosos cepit sollertia? certe
….non tibi barba nitet, non tibi culta coma est;
nudus et hibernae producis frigora brumae, ……….5
….nudus et aestiui tempora sicca Canis.”
Sic ego; tum Bacchi respondit rustica proles
….armatus curua sic mihi falce deus:
“O fuge te tenerae puerorum credere turbae:
….nam causam iusti semper amoris habent. ………10
Hic placet, angustis quod equum compescit habenis,
….hic placidam niueo pectore pellit aquam;
hic, quia fortis adest audacia, cepit; at illi
….uirgineus teneras stat pudor ante genas.
Sed ne te capiant, primo si forte negabit, ……………15
….taedia; paulatim sub iuga colla dabit:
longa dies homini docuit parere leones,
….longa dies molli saxa peredit aqua;
annus in apricis maturat collibus uuas,
….annus agit certa lucida signa uice. .……………………20
Nec iurare time: Veneris periuria uenti..
….inrita per terras et freta summa ferunt.
Gratia magna Ioui: uetuit Pater ipse ualere,
….iurasset cupide quidquid ineptus amor;
perque suas impune sinit Dictynna sagittas ……….25
….adfirmes, crines perque Minerua suos.
At si tardus eris errabis: transiet aetas
….quam cito non segnis stat remeatque dies.
Quam cito purpureos deperdit terra colores,
….quam cito formosas populus alta comas. .……….30
Quam iacet, infirmae uenere ubi fata senectae,
….qui prior Eleo est carcere missus equus.
Vidi iam iuuenem, premeret cum serior aetas,
….maerentem stultos praeteriisse dies.
Crudeles diui! serpens nouus exuit annos:…………. 35
….formae non ullam fata dedere moram.
Solis aeterna est Baccho Phoeboque iuuentas:
….nam decet intonsus crinis utrumque deum.
Tu, puero quodcumque tuo temptare libebit,
….cedas: obsequio plurima uincet amor. …………….40
Neu comes ire neges, quamuis uia longa paretur
….et Canis arenti torreat arua siti,
quamuis praetexens picta ferrugine caelum
….uenturam amiciat imbrifer arcus aquam;
uel si caeruleas puppi uolet ire per undas,…………..45
….ipse leuem remo per freta pelle ratem.
Nec te paeniteat duros subiisse labores
….aut opera insuetas atteruisse manus;
nec, uelit insidiis altas si claudere ualles,
….dum placeas, umeri retia ferre negent; …………….50
si uolet arma, leui temptabis ludere dextra,
….saepe dabis nudum, uincat ut ille, latus.
Tunc tibi mitis erit, rapias tum cara licebit
…..oscula: pugnabit, sed tamen apta dabit.
Rapta dabit primo, post adferet ipse roganti,.…… 55
….post etiam collo se implicuisse uelit.
Heu! male nunc artes miseras haec saecula tractant:
….iam tener adsueuit munera uelle puer.
At tu, qui uenerem docuisti uendere primus,
….quisquis es, infelix urgeat ossa lapis. .……………….60
Pieridas, pueri, doctos et amate poetas,
….aurea nec superent munera Pieridas:
carmine purpurea est Nisi coma; carmina ni sint,
….ex umero Pelopis non nituisset ebur.
Quem referent Musae, uiuet, dum robora tellus, .65
….dum caelum stellas, dum uehet amnis aquas.
At qui non audit Musas, qui uendit amorem,
….Idaeae currus ille sequatur Opis
et tercentenas erroribus expleat urbes
….et secet ad Phrygios uilia membra modos. ……..70
Blanditiis uolt esse locum Venus ipsa; querellis
….supplicibus, miseris fletibus illa fauet.”
Haec mihi, quae canerem Titio, deus edidit ore:
….sed Titium coniunx haec meminisse uetat.
Pareat ille suae: uos me celebrate magistrum, …..75
….quos male habet multa callidus arte puer.
Gloria cuique sua est: me, qui spernentur, amantes
….consultent; cunctis ianua nostra patet.
Tempus erit, cum me Veneris praecepta ferentem
….deducat iuuenum sedula turba senem. …………..80
Heu! heu! quam Marathus lento me torquet amore!
….Deficiunt artes, deficiuntque doli.
Parce, puer, quaeso, ne turpis fabula fiam,
….cum mea ridebunt uana magisteria.

(tibulo, trad. de joão paulo matedi alves)

Padrão
poesia, tradução

o moretum [pseudo-virgílio].

vaso da beócia

vaso da beócia

uma das coisas que mais me deixa curioso na literatura é a existência – imensa – dos textos que cercam o eixo central do cânone, que tentam invadi-lo pela atribuição da auctoritas ao texto, mas que costumam perverter esse mesmo cânone por apresentarem processos literários distantes desse eixo, ou seja, movimentos que expressam a falta de uniformidade nos sistemas literários (se ainda pretendermos ficar com esse conceito). em geral, isso acontece quando temos um texto anônimo atribuído a um autor central; como é o caso da appendix vergiliana, onde temos os supostos poemas de juventude do vate romano, autor da eneida.

como poema de juventude, independente da sua autoria, o que interessa ao leitor atual é, provavelmente, o seu tom programaticamente menor, sua chave irônica, longe dos maiores desejos do império. a tradução do latinista márcio meirelles gouvêa júnior (tradutor das argonáuticas de valério flaco), feita em dodecassílabos, para verter o hexâmetro datílico original, tenta capturar esse movimento entre o registro formal sério e o tom leve. além disso, está precedida por uma brevíssima intro, que pelo menos pode situar o leitor leigo.

guilherme gontijo flores

Apresentação

Atribuído precariamente a Virgílio, como um dos poemas de sua juventude, o Moretum é a narrativa de um fazendeiro que, ao se levantar pela manhã, prepara, com sua escrava africana, a própria refeição. Trata-se de um pão chato, sem fermento, sobre o qual são espalhados queijo seco, alho, ervas diversas e azeite.

o moretum, em receita de site alemão

Esta tradução foi feita a partir do texto estabelecido por Fairclough, conforme a edição da Loeb, de 2001.

H.R. Fairclough, rev. G.P. Goold, Virgil, Volume II: Aeneid Books 7-12, Appendix Vergiliana, Loeb Classical Library (Cambridge, MA 2001)

Moreto

Dez horas invernais já a noite completara
e o galo anunciara o dia com seu canto
quando o cultivador de poucas terras, Símulo,
temendo o cruel jejum do dia que chegava,
ergue do leito vil o corpo, pouco a pouco,
e co’ansiosa mão, explora o quieto escuro;
procura o lume e, enfim, o sente ao se ferir.
No graveto queimado, a fumaça mantinha-se
e a luz da brasa se ocultava sob as cinzas;
ele, cabeça baixa, adiante move a lâmpada
e tira, com u’a agulha a ressecada estopa;
co’um forte sopro anima o fogo enlanguescido.
Enfim, as trevas retrocedem ante o brilho
e ele, co’a mão, protege a luz do vento e abre
co’a chave a porta do casebre, à qual divisa.
Um montinho de grãos sobre a terra espalhava-se:
daí, toma para si o quanto se mostrava,
que pesa mais que duas vezes oito libras.
Vai, se aproxima do moinho e, numa tábua,
que, presa ao muro, se guardava àqueles usos,
coloca a luz fiel. Então, despe os dois braços
e, envolto em pele de felpuda cabra, varre
co’espanador a pedra e o meio do moinho.
Então, põe mãos à obra, as duas repartindo:
a esquerda p’ra ajudar no trabalho a direita
que, num contínuo, gira a roda e a movimenta.
Moída, Ceres cai da pedra, aos golpes rápidos;
a mão esquerda exausta, amiúde, segue a irmã
e alterna o esforço. Ele já canta canções rústicas
e, com a agreste voz, o trabalho alivia.
A Esquíbale ele chama; a sua única criada
era africana – sua figura atesta a pátria:
cabelos crespos, lábios grossos e a cor fosca.
Tem caídas mamas, peito grande e ventre inchado,
as pernas finas, prodigiosos largos pés
e calcanhares enrijados pelas trincas.
Ele lhe ordena pôr no ardor do fogo a lenha
e na chama esquentar os líquidos gelados.
Quando o trabalho de moer alcança o fim,
ele, co’as mãos, põe a farinha na peneira
e sacode; a impureza em cima permanece
e Ceres, limpa e depurada, cai do crivo.
Ligeiro, então, rapidamente, a põe na mesa,
joga por cima as águas tépidas. Agora,
amassa as águas misturadas co’a farinha;
co’a rija mão, vai e vem; e estando preso o líquido,
espalha os grãos de sal. Ergue a sovada massa
e alarga, co’a palma, a forma arredondada.
Iguais quadrados corta nela e os põe no fogo –
antes Esquíbale limpara o lugar próprio.
Com telhas ele o cobre e, em cima, deita as brasas.
Enquanto cumprem sua função Vulcano e Vesta,
durante o vago tempo, Símulo não para –
busca outros meios. Como Ceres ao palato
só não agrada, apresta víveres que ajunte.
Não lhe sobravam carnes presas sobre o lume,
nem lombo ou pés de porco em sal endurecidos.
Apenas queijo trespassado por u’a corda
e um molho atado de endro seco, pendurados.
O previdente herói tem p’ra si outros meios.
Havia ao pé da choça u’a horta, que o perene
caniço, o leve junco e vimes protegiam:
u’exíguo espaço, mas em muitas ervas fértil.
Não lhe faltava o que exigia a vida simples;
pedia o rico, amiúde, ao pobre os seus produtos.
Não era sua obra de luxo, mas bem feita.
Se ocioso em casa festa ou chuvas o prendiam,
ou se o labor do arado às vezes terminava,
no horto ia trabalhar. Sabia cultivar
várias plantas, confiar os grãos à terra oculta
e, em volta, controlar os arroios vizinhos.
Couves, acelgas de amplos braços, abundantes
labaças, ênulas e malvas ali viçam,
a chirivia, o alho-poró (que deve o nome
ao broto), a gélida papoula malfazeja
e a alface, que termina as nobres refeições
brotam ali; em pontas crescem alcaçuzes
e a grande abóbora, que deita o largo ventre.
Não era dele a produção (quem era, enfim,
mais pobre que ele?); mas p’r’o povo; ele levava
nos dias de feira, no ombro a carga para a vila.
Voltava, então, co’o bolso cheio e as costas leves
trazendo, às vezes, do mercado, algum produto –
rubras cebolas e alhos matam sua fome,
com o mastruz que faz o rosto contrair-se,
a endívia e o rinchão, que reanima Vênus.
Então, entrou no horto pensando nessas coisas:
co’os leves dedos, da afofada terra tira,
primeiro, quatro alhos, co’as fibras bem espessas;
depois, arranca as tenras folhas de aipo, a arruda
hirta e os coentros, que num fino galho tremem.
Tendo os colhido, alegre senta junto ao fogo
e, co’alta voz, pede à criada o seu pilão.
Desnuda cada alho do corpo emaranhado,
as cascas tira e com desdém no chão as joga
e enjeita. Co’água molha os bulbos conservados
e os põe no bojo do pilão. Deita ali grãos
de sal, ajunta um queijo duro pela salga
e espalha em cima as ditas ervas. Co’a canhota,
segura as vestes sob o ventre cabeludo
e, co’a direita, pila os alhos perfumados.
Então, mói tudo com os sucos misturados
e gira a mão. Aos poucos, cada planta perde
as próprias forças, e u’a só cor se faz de muitas –
nem toda verde, pois se opõem as brancas partes;
nem toda branca, pois as ervas a matizam.
Às vezes, o acre aroma atinge-lhe as narinas
e sua comida causa nele uma careta;
co’a mão, às vezes, limpa os olhos lacrimosos
e xinga, enfurecido, a inocente fumaça.
A obra seguia. Já não mais rude, qual antes,
ia o pilão, pesadamente, em voltas lentas.
Pinga, daí, gotas do azeite de Minerva
e espalha em cima um pouco a força do vinagre.
Liga tudo outra vez e, então, tira a mistura.
Com dois dedos, enfim, contorna o pilão todo
e numa massa só ajunta as partes soltas
P’ra conseguir o nome e o aspecto do moreto.
No entanto, Esquíbale, zelosa, tira o pão
e ele, na mão, alegre o toma. Sem temer
já a fome, Símulo, tranqüilo aquele dia,
veste as calças de couro e, co’o chapéu de palha,
põe sob o jugo das correias dóceis bois;
parte p’r’os campos e na terra enfia o arado.

(trad. Márcio Meirelles Gouvêa Júnior)

Moretum

Iam nox hibernas bis quinque peregerat horas
excubitorque diem cantu praedixerat ales,
Simulus exigui cultor cum rusticus agri,
tristia uenturae metuens ieiunia lucis,
membra leuat uili sensim demissa grabato
sollicitaque manu tenebras explorat inertes
uestigatque focum, laesus quem denique sensit.
paruulus exusto remanebat stipite fomes
et cinis obductae celabat lumina prunae;
admouet his pronam summissa fronte lucernam
et producit acu stuppas umore carentis,
excitat et crebris languentem flatibus ignem.
tandem concepto, sed uix, fulgore recedit
oppositaque manu lumen defendit ab aura
et reserat clausae qua peruidet ostia clauis.
fusus erat terra frumenti pauper aceruus:
hinc sibi depromit quantum mensura patebat,
quae bis in octonas excurrit pondere libras.
inde abit adsistitque molae paruaque tabella,
quam fixam paries illos seruabat in usus,
lumina fida locat; geminos tunc ueste lacertos
liberat et cinctus uillosae tergore caprae
peruerrit cauda silices gremiumque molarum.
aduocat inde manus operi, partitus utroque:
laeua ministerio, dextra est intenta labori.
haec rotat adsiduum gyris et concitat orbem
(tunsa Ceres silicum rapido decurrit ab ictu),
interdum fessae succedit laeua sorori
alternatque uices. modo rustica carmina cantat
agrestique suum solatur uoce laborem,
interdum clamat Scybalen. erat unica custos,
Afra genus, tota patriam testante figura,
torta comam labroque tumens et fusca colore,
pectore lata, iacens mammis, compressior aluo,
cruribus exilis, spatiosa prodiga planta.
Continuis rimis calcanea scissa rigebant.
hanc uocat atque arsura focis imponere ligna;
imperat et flamma gelidos adolere liquores.
postquam impleuit opus iustum uersatile finem,
transfert inde manu fusas in cribra farinas
et quatit; ac remanent summo purgamina dorso,
subsidit sincera foraminibusque liquatur
emundata Ceres. leui tum protinus illam
componit tabula, tepidas super ingerit undas,
contrahit admixtos nunc fontes atque farinas,
transuersat durata manu liquidoque coacta,
interdum grumos spargit sale. iamque subactum
leuat opus palmisque suum dilatat in orbem
et notat impressis aequo discrimine quadris.
infert inde foco (Scybale mundauerat aptum
ante locum) testisque tegit, super aggerat ignis.
dumque suas peragit Vulcanus Vestaque partes,
Simulus interea uacua non cessat in hora,
uerum aliam sibi quaerit opem, neu sola palato
sit non grata Ceres, quas iungat comparat escas.
non illi suspensa focum carnaria iuxta
durati sale terga suis truncique uacabant,
traiectus medium sparto sed caseus orbem
et uetus adstricti fascis pendebat anethi:
ergo aliam molitur opem sibi prouidus heros.
hortus erat iunctus casulae, quem uimina pauca
et calamo rediuiua leui munibat harundo,
exiguus spatio, uariis sed fertilis herbis.
nil illi deerat quod pauperis exigit usus;
interdum locuples a paupere plura petebat.
nec sumptus erat ullius opus sed regula curae:
si quando uacuum casula pluuiaeue tenebant
festaue lux, si forte labor cessabat aratri,
horti opus illud erat. uarias disponere plantas
norat et occultae committere semina terrae
uicinosque apte circa summittere riuos.
hic holus, hic late fundentes bracchia betae
fecundusque rumex maluaeque inulaeque uirebant,
hic siser et nomen capiti debentia porra.
Hic etiam nocum capiti gelidum papaver
grataque nobilium requies lactuca ciborum,
plurimo surgit ibi crescitque in acumina radix,
et grauis in latum dimissa cucurbita uentrem.
uerum hic non domini (quis enim contractior illo?)
sed populi prouentus erat, nonisque diebus
uenalis umero fasces portabat in urbem,
inde domum ceruice leuis, grauis aere redibat
uix umquam urbani comitatus merce macelli:
cepa rubens sectique famem domat area porri
quaeque trahunt acri uultus nasturtia morsu
intibaque et Venerem reuocans eruca morantem.
tum quoque tale aliquid meditans intrauerat hortum;
ac primum leuiter digitis tellure refossa
quattuor educit cum spissis alia fibris,
inde comas apii graciles rutamque rigentem
uellit et exiguo coriandra trementia filo.
haec ubi collegit, laetum consedit ad ignem
et clara famulam poscit mortaria uoce.
singula tum capitum nodoso corpore nudat
et summis spoliat coriis contemptaque passim
spargit humi atque abicit; seruatum gramine bulbum
tinguit aqua lapidisque cauum demittit in orbem.
his salis inspargit micas, sale durus adeso
caseus adicitur, dictas super ingerit herbas,
et laeua uestem saetosa sub inguina fulcit,
dextera pistillo primum fragrantia mollit
alia, tum pariter mixto terit omnia suco.
it manus in gyrum: paulatim singula uires
deperdunt proprias, color est e pluribus unus,
nec totus uiridis, quia lactea frusta repugnant,
nec de lacte nitens, quia tot uariatur ab herbis.
saepe uiri nares acer iaculatur apertas
spiritus et simo damnat sua prandia uultu,
saepe manu summa lacrimantia lumina terget
immeritoque furens dicit conuicia fumo.
procedebat opus; nec iam salebrosus, ut ante,
sed grauior lentos ibat pistillus in orbis.
ergo Palladii guttas instillat oliui
exiguique super uires infundit aceti
atque iterum commiscet opus mixtumque retractat.
tum demum digitis mortaria tota duobus
circuit inque globum distantia contrahit unum,
constet ut effecti species nomenque moreti.
eruit interea Scybale quoque sedula panem,
quem laetus recipit manibus, pulsoque timore
iam famis inque diem securus Simulus illam
ambit crura ocreis paribus tectusque galero
sub iuga parentes cogit lorata iuuencos
atque agit in segetes et terrae condit aratrum.

[atribuído a Virgílio]

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poesia, tradução

tito lucrécio caro (c. 99-55 a.c.)

tito lucrécio caro é uma das figuras mais interessantes da literatura romana. sua única obra que nos chegou, de rerum natura (da natureza das coisas) é um longo tratado epicurista escrito em versos (mais de 7 mil hexâmetros divididos em 6 livros). no entanto, diferente de outros tratados científicos que apenas são talhados em verso – mera prosa recortada – , a escrita de lucrécio consegue se sustentar simultaneamente como ciência & poesia; tanto que de rerum natura é um texto fundamental para os estudos filos[oficos sobre o epicurismo antigo (na verdade, o maior texto que nos restou sobre a doutrina), mas ao mesmo tempo uma pedra de toque importantíssima no desenvolvimento da poesia romana do séc. I a.c. – foi lendo lucrécio que se formaram poetas do porte de virgílio (sobretudo o das geórgicas), horácio (nas odes), propércio, tibulo & ovídio.

para tentar demonstrar um pouco dessa vitalidade, segue abaixo um dos trechos mais famosos da obra (a descrição da chuva), numa tradução poética do poeta curitibano mario domingues, que acabou de defender uma dissertação sobre a poética de lucrécio pelas lentes de jakobson, intitulada O raio, o relâmpago: Tradução do Canto VI de Lucrécio e análise de Função Poética de fragmentos, de 2013. mario domingues também é o autor de 2 livros de poesia: paisagem transitória (2001) & musga (2010); & participou da bela tradução coletiva de e.e. cummings, o tigre de veludo.

guilherme gontijo flores

A chuva – De rerum natura, livro 6, vv. 451-534.

As nuvens se condensam quando muitos corpos
ásperos chocam-se – revoando nos espaços
altos do céu – e sutilmente se coligam
sem que estejam, contudo, presos entre si.
Estes corpos compõem antes nuvens pequenas,   455
eis que estas se amarram, tornam-se atreladas;
unidas crescem, sendo levadas por ventos
até que a tempestade se arme severa.
Quanto mais próximas do céu são as montanhas,
mais os seus ápices fumegam nas alturas,              460
no nevoeiro negro de nuvens vermelhas.
Antes de ser o que parecem aos nossos olhos,
as nuvens são diáfanas, por isso o vento
confina-as nos altos cumes das montanhas.
Só nos cimos, em turba, as nuvens numerosas,     465
Compactas, tornam-se visíveis e, no entanto,
parecem vir dos ares altos das montanhas.
Quando as subimos, manifestam-se aos sentidos
fatos que indicam ventanias nas alturas.
Muitos corpos se elevam do mar: tal se vê               470
na aderência e umidade das roupas e panos
dependurados nos varais dos litorais.
Parece que decorre o inchaço das nuvens
das pulsações salgadas do mar, em miasmas,
já que toda umidade é mesmo consanguínea.         475
Em simultâneo, vemos que todos os rios
e a terra disseminam névoas e vapores,
como um hálito pênsil, manado do solo,
que tinge de caligem o céu, formando nuvens
altas, por sua paulatina convergência.                      480
Pois de cima o calor do éter estrelado
acossa, adensa as nuvens encobrindo o azul.
Acontece também de virem ao céu, de fora,
corpos que fazem nuvens aéreas e chuvas.
Sendo o espaço infinito, como já afirmei,                485
estes corpos – de número inumerável –
sendo tão rápidos, costumam percorrer
num segundo distâncias incomensuráveis.
Assim, não causa assombro que rapidamente
trevas e temporais de grandes nuvens cubram,      490
com seu peso oneroso, os mares e as terras.
Já que em todos os poros do céu, já que em tudo,
nos tais respiradouros deste vasto mundo,
há entrada e saída aos móveis elementos.
Agora explicarei como cresce a umidade                   495
nas nuvens altas, como a chuva precipita
água. Primeiramente, vários grãos de água,
sincrônicos, germinam destas mesmas nuvens,
e ao mesmo tempo brotam de todos os corpos;
a água líquida aparece em toda nuvem,                     500
bem como nossos corpos incham-se de sangue,
de suor e de toda a umidade dos membros.
Também absorvem muita umidade marinha,
como um tosão de lã, suspenso sobre o mar
imenso, quando os ventos carregam as nuvens.       505
Mesmo modo, a umidade dos rios correntes
é embarcada na nuvem. Quando muitos grãos
de água afluem, aumentando de mil modos,
as nuvens cheias tentam excluir o líquido
por dois motivos: pelo vento ser tão forte                 510
e porque a multidão de nuvens os expulsa –
comprimindo de cima, faz fluir a chuva.
Enquanto as nuvens somem com a ação do vento
ou se dissolvem, sob os golpes do calor,
expelem e destilam as águas pluviais,                         515
como a cera amolece e derrete no fogo.
Mas a chuva se faz fera, quando o poder
e a cólera do vento acumulam as nuvens.
Deste modo, costumam as chuvas se deter
quando são agitados muitos grãos de água;              520
quando se fundem outras nuvens e outras névoas
os grãos decaem, regam todos os lugares,
e a terra fumegante exala seus humores.
Quando os raios do sol batem na tempestade
opaca, aspergem contra as nuvens: então surgem    525
as cores do arco-íris sobre as nuvens negras.
Outros fenômenos que nascem e acontecem
nas altitudes, que se agregam lá nas nuvens,
os ventos, o granizo, a geada gelada,
todos, a neve, os longos enrijecimentos                      530
da água, que confundem e retardam o curso
dos rios – é sereno saber como nascem,
por que são criados, quando são entendidas
as propriedades essenciais dos elementos.

* * *

Nubila concrescunt, ubi corpora multa uolando
hoc super in caeli spatio coiere repente
asperiora, modis quae possint indupedita
exiguis tamen inter se comprensa teneri.
Haec faciunt primum paruas consistere nubes ;             455
inde ea comprendunt inter se conque gregantur,
et coniungendo crescunt uentisque feruntur,
usque adeo donec tempestas saeua coortast.
Fit quoque ut montis uicina cacumina caelo
quam sint quaeque magis, tanto magis edita fument     460
assidue fuluae nubis caligine crassa,
propterea quia, cum consistunt nubila primum,
ante uidere oculi quam possint, tenuia, uenti
portantes cogunt ad summa cacumina montis.
Hic demum fit uti turba maiore coorta                             465
et condensa queant apparere, et simul ipso
uertice de montis uideantur surgere in aethram.
Nam loca declarat sursum uentosa patere
res ipsa et sensus, montis cum ascendimus altos.
Praeterea permulta mari quoque tollere toto                  470
corpora naturam declarant litore uestes
suspensae, cum concipiunt umoris adhaesum.
Quo magis ad nubes augendas multa uidentur
posse quoque e salso consurgere momine ponti;
nam ratio consanguineast umoribus omnis.                   475
Praeterea fluuiis ex omnibus et simul ipsa
surgere de terra nebulas aestumque uidemus,
quae uelut halitus hinc ita sursum expressa feruntur,
suffunduntque sua caelum caligine, et altas
sufficiunt nubis paulatim conueniundo                           480
urget enim quoque signiferi super aetheris aestus,
et quasi densendo subtexit caerula nimbis.
Fit quoque ut ueniant in caelum extrinsecus illa
corpora quae faciant nubis nimbosque uolantis.
Innumerabilem enim numerum, summamque profundi   485
esse infinitam docui, quantaque uolarent
corpora mobilitate ostendi, quamque repente
inmemorabile per spatium transire solerent.
Haud igitur mirumst si paruo tempore saepe
tam magnis nimbis tempestas atque tenebrae               490
coperiant Maria ac terras inpensa superne,
undique quandoquidem per caulas aetheris omnis,
Et quasi per magni circum spiracula mundi,
exitus introitusque elementis redditus extat.
Nunc age, quo pacto pluuius concrescat in altis            495
nubibus umor, et in terras demissus ut imber
decidat, expediam. Primum iam semina aquai
multa simul uincam consurgere nubibus ipsis,
ominbus ex rebus pariterque ita crescere utrumque,
et nubis et aquam quaecumque in nubibus extat,         500
ut pariter nobis corpus cum sanguine crescit,
sudor item atque umor quicumque est denique membris.
Concipiunt etiam multum quoque saepe marinum
umorem, ueluti pendentia uellera lanae
cum supera magnum maré uenti nubila portant.          505
Consimili ratione ex omnibus amnibus umor
tollitur in nubes. Quo cum bene semina aquarum
multa modis multis conuenere undique adaucta,
confertae nubes umorem mittere certant
dupliciter ; nam uis uenti contrudit, et ipsa                   510
copia nimborum turba maiore coacta
urget, et e supero premit ac facit effluere imbris.
Praeterea cum rarescunt quoque nubila uentis
aut dissoluontur, solis super icta calore,
Mittunt umorem pluuium stillantque, quasi igni         515
Cera super calido tabescens multa liquescat.
Sed uemens imber fit, ubi uementer utraque
Nubila ui cumulata premuntur et impete uenti.
At retinere diu pluuiae longumque morari
consuerunt, ubi multa cientur semina aquarum,         520
atque aliis aliae nubes nimbique rigantes
insuper atque omni uolgo de parte feruntur,
terraque cum fumans umorem tota redhalat.
Hic ubi sol radiis tempestatem inter opacam
aduersa fulsit nimborum aspargine contra,                  525
tum color in Nigris existit nubibus arqui.
Cetera quae sursum crescunt sursumque creantur,
et quae concrescunt in nubibus, omnia, prorsum
omnia, nix, uenti, grando, gelidaeque pruinae,
et uis magna geli, magnum duramen aquarum,          530
et mora quae fluuios passim refrenat euntis,
perfacilest tamen haec reperire animoque uidere
omnia quo pacto fiant quareue creentur,
cum bene cognoris elementis reddita quae sint.

 (trad. mario domingues)

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