poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

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Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

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Laura Wittner (1967-), por Rafael Mantovani

laura wittner

Foto: Dino Bronfman.

Laura Wittner nasceu em Buenos Aires em 1967. É formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Hoje coordena oficinas de poesia e tradução, e trabalha como tradutora literária para diversas editoras. Publicou sete livros de poesia e três antologias entre 1996 e 2016, e sua obra reunida foi publicada recentemente: Lugares donde una no está (Buenos Aires, Gog y Magog, 2017). Também participou de várias publicações e antologias na América Latina, Espanha, França e Inglaterra. Além disso, é autora de seis livros infantis, e já traduziu autores como Leonard Cohen, David Markson, Anne Tyler, entre muitos outros. Recebeu uma série de prêmios, bolsas e menções honrosas em concursos e projetos argentinos e hispanoamericanos. Escreve no blog http://www.selodicononlofaccio.blogspot.com.ar . Apresentamos aqui quatro poemas seus traduzidos por Rafael Mantovani, os dois primeiros da antologia Noche con posibilidades (Montevidéu, Civiles iletrados, 2011), e os outros dois inéditos.

* * *

 

Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

Otra ciudad

Cuando levanto la vista veo nieve,
nieve refulgiendo desde el televisor.
Como siempre, titilan sobre el mapa
los lugares donde una no está.
Seguro extrañaría el mercado de flores
y despertar en este piso octavo
que se abre desafiando al viento.
La verdad es que hubo un solo día de nieve
y que hay una posible segunda versión
para las cosas conocidas.
Las valijas están hechas desde siempre
y además están sobre el sofá
en posición de espera.
Ese momento dura, se sostiene,
es una manera de estar:
estar a punto de ser abandonado.
El pozo negro de las valijas hechas
reverso del desembarco:
el deseo humano por lo incompleto
que se refleja, dicen,
en la predilección por lo pequeño,
lo breve, el fragmento.

§

 

Um olhar de adeus do trem em movimento

Um olhar de adeus do trem em movimento
gostaria de ser um olhar especial
e é como todos, este lugar que ocupamos
agora, vazio de nós,
inicia o movimento de retrocesso
de recolher-se na memória
para ao mesmo tempo incomodar
dando o sinal de que
continuará existindo,
outros habitantes o percorrerão
como alguém que amamos
e a paisagem irá se modificando,
a lembrança então cada vez mais inexata
não por desgaste
mas sim porque o original vai mudar.
A última coisa que você verá
será também a primeira que verá
quando voltar
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por outro lado sempre moramos nesta cidade
e quando um domingo passamos perto de barcos encalhados
e pontes cor de ferrugem,
e ao descer do carro vemos que o rio
é uma coisa preta, espessa,
destilando bolhas entre manchas claras
como massas de saliva em expansão
(“formou-se sobre a água uma capa anaeróbica
onde criaturas impensáveis
desenvolvem-se e existem sem oxigênio”)
então não existe pena pelo lugar distante
nem gestos significativos no último olhar
seria inútil se não há limites
para entrar ou sair.

Una mirada de adiós desde el tren en marcha

Una mirada de adiós desde el tren en marcha
querría ser una mirada especial
y es como todas, este lugar que ocupamos
ahora, vacío de nosotros,
inicia el movimiento de retroceso
de replegarse en la memoria
para al mismo tiempo molestar
dando la señal de que
seguirá existiendo,
otros habitantes lo recorrerán
como a alguien que quisimos
y el paisaje se irá modificando,
el recuerdo entonces cada vez más inexacto
no por desgaste
sino porque el original va a cambiar.
Lo último que veas
será también lo primero que veas
cuando regreses
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por otra parte siempre hemos vivido en esta ciudad
y cuando un domingo pasamos junto a barcos varados
y puentes color óxido,
y al bajar del auto vemos que el río
es algo negro, espeso,
destilando burbujas entre manchas claras
como salivazos en expansión
(“se ha formado sobre el agua una capa anaeróbica
donde criaturas impensables
se desarrollan y existen sin oxígeno”)
entonces no hay pena por el lugar lejano
ni gestos significativos en la última mirada
sería inútil si no hay límites
para entrar o salir.

§

 

Viramos na Libertador

Minha filha diz que o jacarandá
parece uma árvore de outro mundo.
Que essa bruma violeta
não pode estar no mesmo plano que a gente.
Sempre quis ter
uma conversa assim:
calhou de ser justo
com esta menina.

Doblamos por Libertador

Mi hija dice que el jacarandá
le parece un árbol de otro mundo.
Que esa bruma violeta
no puede estar en nuestro mismo plano.
Siempre quise tener
una conversación así:
se me viene a dar justo
con esta nena.

§

 

Voltei a ter um limão na mão

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Eu sabia disto? Lembrava?
Vejam a minha mão: vira uma concha espontânea
e nela não resta nada que não seja
limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam a mesma coisa por um instante.

Volví a tener un limón en la mano

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

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Alfonsina Storni (1892—1938), por Victor Hugo Turezo

Alfonsina Storni nasceu na Suíça em 1892 e estabeleceu-se na Argentina ainda criança. Poeta e escritora, também foi professora e jornalista. Sua obra, de cunho introspectivo e naturalista, ficou marcada pelo modernismo empregado à época. Aqui, apresento a tradução de três poemas contidos nos livros El dulce daño, de 1918 e Languidez, de 1920. No primeiro poema Cuadrados y Ángulos, pode-se observa o comprometimento da poeta com palavras ópticas, realistas e naturalistas. Em Sábado, a escritora constrói uma progressão imagética cheia de composições estruturalmente realistas. No último escrito, Miedo, Alfonsina nos mostra sua complexidade aliterada e costura, meio que ensimesmada, sua objetificação enclausura. Alfonsina Storni se suicidou em 1938, na cidade de Mar del Plata.

Victor Hugo Turezo

* * *

De EL DULCE DAÑO (1918) ALFONSINA STORNI
De O DOCE DANO (1918)

CUADRADOS Y ÁNGULOS
Casas enfiladas, casas enfiladas,
Casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados, cuadrados,
Casa enfiladas
Las gentes ya tienen el alma cuadrada,
Ideas en fila
Y ángulo en la espalda.
Yo misma he vertido ayer una lágrima,
Dios mío, cuadrada.

QUADRADOS E ANGULAÇÕES
Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados,
Casas enfileiradas
O povo tem a alma quadrada
Ideias em fila
E costas anguladas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada.

§

SÁBADO
Levanté temprano y anduve descalza
Por los corredores; bajé a los jardines
Y besé las plantas;
Absorbí los vahos limpios de la tierra,
Tirada en la grama;
Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua
Peiné mis cabelos. Perfumé las manos
Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas,
De mi falda hurtaron doradas migajas.

Luego puse traje de clarín más leve
Que la misma gasa.
Mi sillón de paja.
De un salto ligero llegué hasta el vestíbulo.
Fijos en la verja mis ojos quedaron,
Fijos en la verja.
El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales.
Comedor en sombras; manos que aprestaban
Manteles.
Afuera, sol como no he visto
Sobre el mármol blanco de la escalinata.
Fijos em la verja siguiron mis ojos
Fijos. Te esperaba.

SÁBADO
Levantei cedo e andei descalça
Pelos corredores; desci aos jardins
E beijei as plantas;
Absorvi os aromas limpos da terra,
Atirada sobre a grama;
Me banhei na fonte em que verdes achiras*
cingiam. Mais tarde, molhados de água
Penteei meus cabelos. Perfumei as mãos
com sumo cheiroso de jasmim. Garças
Ariscas, finas,
De minha saia roubaram douradas migalhas.

Logo coloquei um traje de gala mais leve
Que a própria malha.
Minha poltrona de palha.
De sobressalto cheguei até o vestíbulo.
Fixos na grade meus olhos ficaram,
Fixos na grade.
O relógio me disse: dez da manhã.
Dentro um barulho de louça e cristais.
Sala de jantar em sombras; mãos que alinhavam
Toalhas de mesa.
Fora, sol como jamais vi.
Sobre o mármore branco da escadaria.
Fixos na grade seguiram meus olhos
Fixos. Te esperava.

* Planta peruana, da família das cannáceas, de raiz comestível.

De LANGUIDEZ (1920)

MIEDO

El niño se ha alejado de la casa un momento
Y se vuelve de pronto hasta más ligero que el viento.

El niño en el camino se paró de repente
Porque dormida estaba al sol una serpiente.

Con el juguete nuevo en las manos deshecho
El niño se recuesta tembloroso en mi pecho.

Y en la pequeña caja del cuerpo estremecido
Repercute sin tregua un violento latido.

Así cuando en las manos aunque sean muy suaves
Temblorosas de miedo se acurran las aves,

Sobre el pecho del niño mis dos manos coloco
Y siento que la entraña se aquieta poco a poco.

Luego el niño levanta la cabeza, me mira
Con sus ojos azules, y muy quedo suspira.

MEDO

O menino se distanciou de casa um momento
E voltou rápido; mais veloz que o vento.

O menino no caminho parou de repente
porque sonolenta ao sol estava uma serpente.

Com um brinquedo nas mãos despedaçado
O menino se aninha irrequieto em meu peito.

E na pequena caixa do corpo estremecido
Repercute sem trégua um violento latido.

Assim, quando nas mãos, mesmo que sejam muito suaves
tremendo de medo se debandam as aves,

Sobre o peito do menino minhas mãos coloco
E sinto que a entranha se aquieta pouco a pouco.

Logo o menino levanta a cabeça, me olha
Com seus olhos azuis, e muito sereno suspira.

Os originais dos poemas traduzidos foram retirados do livro Antología poética (Editora Espasa Calpe S.A., Buenos Aires – México), impresso no ano de 1947.

* * *

Victor Hugo Turezo é poeta. Nasceu em Curitiba, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017). Cursa Letras Português/Espanhol na UFPR.

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4 Poemas de Leandro Alva, por Marcus Groza

Leandro Alva (1975) é poeta argentino de Temperley, Buenos Aires. É autor do livro Tundra (2011) e de Viaje a Misiones (no prelo). Foi convidado a participar de festivais literários no México, Costa Rica e Espanha. Estudou Letras na Universidade de Lomas de Zamora e na Universidade Carolina de Praga (República Checa), participa do “Metangorfosis”, grupo argentino de “tango kafkiano”.

* * *

SS

A palavra sede
contraditoriamente
parece conter certa
secreta secreção.
Essa letra ESSE do princípio
succiona, sorve, suplica
e se alongada o suficiente
se parece ao som
acuoso e inevitável
de um jorro
de soda.

Então
alguém pode compreender
a liquidez
da seca
já não sabe suar
e só resta o sedimento
seco na sombra
da iminência
de uma nuvem
que passa ao largo
como um prateado peixe
de gás.

SS

La palabra sed
contradictoriamente
parece contener cierta
secreta secreción.
Esa letra ESE del principio
succiona, sorbe, suplica
y si se estira lo suficiente
semeja el sonido
acuoso e inevitable
de un chorro
de soda.

Entonces,
uno puede comprender
la liquidez
de la sequía
y ya no sabe sudar
y solo queda un sedimento
seco en la sombra
de la inminencia
de la nube
que pasa de largo
como un pejerrey
de gas.

§

Iscariote

O corpo se mexe,
o vento que o move ou o que treme é a rama?
Alguns pássaros interrompem seu canto,
a tarde
A água desafina em cântaros quebrados
por isso cala.

Tudo é silêncio, coroa de espinhos.

O corpo se mexe,
se é o vento que o move ou a figueira
quem vacila
não importa.
Alguns pássaros interrompem seu canto,
não seu apetite.
Sob a pele de cordeiro o lobo está inchando.
A carne arrependida
oscila sua traição.

El Iscariote

El cuerpo se mece,
¿lo mueve el viento o la que tiembla es la rama?
Algunos pájaros interrumpen su canto,
la tarde.
El agua desafina en cántaros quebrados
por eso calla.

Todo es silencio, corona de espinas.

El cuerpo se mece,
si es el viento el que lo mueve o es la higuera
quien vacila
no importa.
Algunos pájaros interrumpen su canto,
no su apetito.
Bajo la piel de cordero se hincha el lobo.
La carne arrepentida
oscila su traición.

(aqui uma leitura desse poema no original: https://www.youtube.com/watch?v=uoTsV8bvpok)

§

Ornitologia

Muito perto de casa
entre Vila La Perla e Bairro San José
há uma série de ruas
com nomes de pássaros
príncipe andorinha calhandra sabiá
se aninham em cada esquina
em cada poste de luz.

Essas aves
não se veem muito na vizinhança
mas se pode seguir seu gorjeio
descobrir um rastro de plumas na vala
sobre a terra ou no chão empedrado
e alçar os olhos
à copa de uma árvore
para ver o resumo ausente da liberdade.

Ornitología

Muy cerca de casa
entre Villa La Perla y Barrio San José
hay una serie de calles
con nombres de pájaro
churrinche golondrina calandria zorzal
anidan en cada esquina
en cada palo de luz.

Esas aves
no se ven mucho por el vecindario
pero uno puede caminar su trino
descubrir un rastro de plumas en la zanja
sobre la tierra o el empedrado
y alzar los ojos
a la copa de un árbol
al resumen ausente de la libertad.

§

O mundo se banha de sangue,
diariamente espirra nos desavisados
para que Deus conserve a higiene.
Falo do mesmo deus que criou a Pilatos
e aos sabonetes do Reich.
Somos menos que bolhas
bexigas de carnaval
sobre o arame farpado.

El mundo se baña de sangre,
diariamente salpica al menos advertido
para que Dios conserve la higiene.
Hablo del mismo dios que creó a Pilatos
y a los jabones del Reich.
Somos menos que burbujas
globitos de carnaval
sobre un alambre de púas.

* * *

Marcus Groza (1984) é poeta e dramaturgo. Autor de Sossego Abutre (Ed. Patuá – 2015), e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017), é doutorando em Artes Cênicas e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

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tradução

Tuti Curani (1990-), por Priscilla Campos

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Tuti Curani nasceu na cidade de Buenos Aires, em 1990. Fotógrafa, estuda desenho de moda e organiza o ciclo de leitura e música Club del Quibre. Descobri os seus poemas por acaso, enquanto visitava pela primeira vez a Feira Plana, evento de publicações independentes que acontece anualmente em São Paulo. Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro El futuro ya no es lo que queria, da editora argentina Fadel & Fadel.

 

* * *

 

En el aire hay ruído

Hola corazón
milagro mi hora temprana
acá estoy
despierta en el aplauso
vos cómo estás allá
yo sigo latiendo en otro ritmo
tengo un poco tengo pegado
lo que absorbí anoche
es cierto ahora que en el aire hay ruído
pero igual no importa
yo tampoco entendí esos grafittis
que le hablan al que passa
creo que pierden el mensaje
ayer tiré una bomba y escondí la mano
creo que también te vinculás com eso
no me quiero seguir escapando del sentimento
¿como continua el estalle?
acá me llegó algo
junto las partículas
y te las mando por correo.

No ar há ruído

Olá coração
milagre minha hora antecipada
aqui estou
desperta no aplauso
você como está lá
eu sigo batendo em outro ritmo
tenho pouco mas tenho pego
o que absorvi ontem à noite
é verdade agora que no ar há ruído
mas de todo jeito não importa
eu também não entendi essas pichações
que falam ao que passa
acho que perdem a mensagem
ontem joguei uma bomba e escondi a mão
acho que você também está vinculado a isso
não quero seguir fugindo do sentimento
como a explosão continua?
aqui me chegou algo
junto as partículas
e te mando pelo e-mail.

§

 

El deporte

En el fondo de la oscuridad
hay un toque de cielo.
(Capaz está bien que te cuente mis pesadillas ahora.)
Tengo ganas
de hacer algún truco con mi cuerpo,
como sostenerme en vertical
o praticar la posición bollito.
Apelaría
al deporte de lo seguro.
Era suave ser dos y no estar ahogados
entre tanto estratega del tacto.
De él sí
guardo fotos en papel,
los archivos los borré
la misma noche en que firmamos el pacto
de no hacer eso que hacen todos
cuando extrañan el pasado.

O esporte

No fundo da escuridão
há um pouco de céu.
(Talvez seja bom que te conte meus pesadelos agora)
Tenho vontade
de fazer algum truque com meu corpo
como ficar na vertical
ou treinar a posição da bolinha
Apelaria
ao esporte da segurança.
Era suave ser dois e não estar afogados
entretanto estratega do tato.
Dele sim,
guardo fotos em papel,
os arquivos eu apaguei
na mesma noite em que firmamos o pacto
de não fazer isso que fazem todos
quando sentem saudade do passado.

§

 

Ahora vos

vos a los dieciséis
vos a los dieciocho
vos a los nueve
vos a los cinco viviendo algo horrible
yo a los diez
yo a los veinte
yo el año pasado llenándome la cabeza de sangre
ahora vos y tu abrazo
ahora el bar y tu abrazo
ahora las personas del fondo rellenan la escena
ahora tu abrazo lo mutea todo
ahora tu abrazo me da vergüenza
ahora tu abrazo es un sweater nuevo que emociona
vos a los veintinueve hablando conmigo
yo a los veinticinco hablando con vos
– no pensé que fuera a vivir estos años
no te lo digo –
ahora caminamos por el bar
yo te cuento historias sobre cada una de las personas que rellenan el fondo
los hacemos mierda
nos miran
al final del paseo me robás un beso
a mí me da vergüenza
a mí todo me da vergüenza
pero te lo devuelvo
ahora nos cruzamos com alguien que conocés
nos ecapamos de la conversación
ahora yo te agarro de la mano
nos metemos sin pagar en una fiesta
adonde pasan cumbia y bailamos
alguien te molesta y me pedís un beso
– vos a los veintinueve sacando uma vieja carta
no importa –
ahora bailamos como si conociéramos la banda
ahora nos besamos como si estuviéramos hace um montón en esto

Agora você

você aos dezesseis
você aos dezoito
você aos nove
você aos cinco vivendo algo horrível
eu aos dez
eu aos vinte
eu no ano passado enchendo minha cabeça de sangue
agora você e seu abraço
agora o bar e seu abraço
agora as pessoas do fundo preenchem a cena
agora seu abraço emudece tudo
agora seu abraço me dá vergonha
agora seu abraço é um sweater novo que emociona
você aos vinte e nove falando comigo
eu aos vinte e cinco falando com você
– não pensei que fosse viver esses anos
não te digo –
agora caminhamos pelo bar
e eu te conto histórias sobre cada uma das pessoas que preenchem o fundo
xingamos eles
nos encaram
no fim do passeio você me rouba um beijo
me dá vergonha
tudo me dá vergonha
mas te devolvo
agora nós cruzamos com alguém que você conhece
nós fugimos da conversa
agora eu te puxo pela mão
entramos sem pagar em uma festa
onde toca cumbia e dançamos
alguém te incomoda e você me pede um beijo
– você aos vinte e nove pegando uma velha carta
não importa –
agora dançamos como se conhecêssemos a banda
agora nos beijamos como se estivéssemos nisso faz tempo

§

 

Te banqué la etiqueta

Te banqué la etiqueta
de navegadores de lo contemporáneo
cuando me dijiste que lo posmoderno era negativo
y yo te respondí que peor era neobarroco.
Te banqué la etiqueta
cuando me pediste que no pensara
ni qué era eso que estábamos haciendo
perdendo el tiempo juntos a medias.
Te banqué la etiqueta
cuando las calles del centro se abrieron
y la noche no fue para nada amable
escuchando el sonido de una ideia al romperse.
Te banqué la etiqueta
cuando llorando me decías no sé qué me passa
por qué me persigue esta niebla
o por qué no me sale estar tranquilo.
Te banqué la etiqueta
cuando se habían vaciado todas las botellas
y nuestros amigos ya se habían ido
y el frío que entraba por tres centímetros de una ventana aberta
se llevaba toda posibilidad de palabras.
Te banqué la etiqueta
cuando ya después de tanto años
no hubo maniobra que fuera a salvarnos
de no sentir más nada entre nosostros.

Banquei o seu estereótipo

Banquei o seu estereótipo
de navegadores do contemporâneo
quando você me disse que o pós-moderno era negativo
e eu te respondi o neobarroco era pior.
Banquei o seu estereótipo
quando você me pediu que não pensasse
nem o que era isso que estávamos fazendo
perdendo o tempo juntos de qualquer jeito
Banquei o seu estereótipo
quando as ruas do centro se abriram
e a noite não foi nada amável
escutando o som de uma ideia ao se quebrar
Banquei o seu estereótipo
quando chorando você me dizia não sei o que se passa comigo
por quê essa névoa me persegue
ou por quê não consigo ser tranquilo
Banquei o seu estereótipo
quando haviam esvaziado todas as garrafas
e nossos amigos já tinham ido embora
e o frio que entrava pelos três centímetros de uma janela aberta
levava toda a possibilidade de palavras.
Banquei o seu estereótipo
quando já depois de tantos anos
não houve manobra que fosse nos salvar
de não sentir mais nada entre nós.

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tradução

Leopoldo Marechal (1900-1970), por Daniel Falkemback

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Leopoldo Marechal (1900-1970), nascido e morto em Buenos Aires, foi um escritor de diferentes gêneros, como poesia, conto, romance, ensaio e dramaturgia. Com certeza, é mais famoso por seu romance Adán Buenosayres (1948), um dos marcos da literatura rio-platense moderna, que, no entanto, nunca foi muito lido fora do país.

Enquanto era vivo, sua poesia foi motivo de consagração, bem como sua prosa, levando-o a se relacionar com outros autores de vanguarda, ligados à revista Martín Fierro. Da sua poesia, traduzi as quatro primeiras composições do livro El poema de Robot (1966). Obrigado ao amigo agora distante que me indicou ler Marechal.

 

* * *

 

I

O engenheiro de Robô disse:
“Façamos Robô a nossa imagem
e nossa semelhança”.
E montou Robô numa noite de ferro,
sob o signo do ferro e em usinas mais tristes
que um parto mineral.
Sobre seus pés de arame, a Eletrônica,
cingindo louros roubados de uma musa,
o amamentou em seus seios azedos de logaritmos.
Penso em minha alma: “O homem que constrói Robô
necessita primeiro ser um Robô ele mesmo,
isto é, podar-se e despir-se
de todo seu mistério primordial”.
Robô é um imbecil entupido de fichas,
filho de um pai canhoto e uma mãe sem rosas.

I

El ingeniero de Robot se dijo:
“Hagamos a Robot a nuestra imagen
y nuestra semejanza”.
Y compuso a Robot, cierta noche de hierro,
bajo el signo del hierro y en usinas más tristes
que un parto mineral.
Sobre sus pies de alambre la Electrónica,
ciñendo los laureles robados a una musa,
lo amamantó en sus pechos agrios de logaritmos.
Pienso en mi alma: “El hombre que construye a Robot
necesita primero ser un Robot él mismo,
vale decir podarse y desvestirse
de todo su misterio primordial”.
Robot es un imbécil atorado de fichas,
hijo de un padre zurdo y una madre sin rosas.

§

 

II

Não é sob o sopro da indignação
que relato esta história suja como o urânio.
Eu não matei Robô com o sal da ira,
senão com os punhais da equanimidade.
Não gosto do furor que se passa de vento
só para varrer andorinhas e folhas:
o furor é amável se responde a um teorema
sério como o de Pitágoras.
Eu vivi em uma poça de batráquios
prudentes e sonoros em seu lodo.
Certa vez passou uma águia sobre nossas cabeças,
e todos opinaram: “Esse voo não existe”.
Fiquei admirando a excelsitude da águia
e construí motores de voar.
Os batráquios disseram: “É orgulho”.
Respondi-lhes: “Batráquios, é altivez”.
O orgulho é um flato do Eu separativo,
mas a altivez declara sua própria elevação.

II

No es bajo el soplo de la indignación
que refiero esta historia sucia como el uranio.
Yo no maté a Robot con la sal de la ira,
sino con los puñales de la ecuanimidad.
No me gusta el furor que se calza de viento
sólo para barrer golondrinas y hojas:
el furor es amable si responde a un teorema
serio como Pitágoras.
Yo viví en una charca de batracios
prudentes y sonoros en su limo.
Cierta vez pasó un águila sobre nuestras cabezas,
y todos opinaron: “Ese vuelo no existe”.
Yo me quedé admirando la excelsitud del águila,
y construí motores de volar.
Los batracios dijeron: “Es orgullo”.
Les respondí: “Batracios, la mía es altivez”.
El orgullo es un flato del Yo separativo,
mas la altivez declara su propia elevación.

§

 

III

E aqui estou, agradável de aforismos,
como uma árvore que força suas gemas arrebentadoras.
A casa de Robô está no polo
contrário do enigma,
e o que Robô destrói volta a olhar o rosto
perdido da ciência.
Eu fui um ser como todos que nascem de um ventre:
mais rosa, menos rosa, era igual minha infância
a todas as que gritam ou gritaram
junto a rios cordiais.
Um dia meus tutores, fiéis à Didática,
me confiaram à arte de Robô.
Meus tutores morreram: eram santos idiotas.
Eu reguei suas tumbas com iodeto de sódio.

III

Y aquí estoy, agradable de aforismos,
tal un árbol que empuja sus yemas reventonas.
La casa de Robot está en el polo
contrario del enigma,
y el que a Robot destruye vuelve a mirar el rostro
perdido de la ciencia.
Yo fui un ser como todos los que nacen de vientre:
rosa más rosa menos, era igual mi niñez
a todas las que gritan o han gritado
junto a ríos cordiales.
Un día mis tutores, fieles a la Didáctica,
me confiaron al arte de Robot.
Mis tutores murieron: eran santos idiotas.
Yo he regado sus tumbas con yoduro de sódio.

§

 

IV

Pensando no astuto cérebro da Indústria,
Robô era um brilhante pedagogo sem bílis,
um conjunto de peças anatômicas
copiadas em cobre e tungstênio.
Sua cabeça especiosa de válvulas e filtros
e seu peito habitado por um grande coração
(obra de cem piedades fotoelétricas)
faziam com que Robô tivesse uma alma
de mil e quinhentos volts.
A rigor, era nulo seu intelecto,
e alheia sua terrível vontade.
Porém, Robô, em juízo perfeito,
era um filho brutal da memória
e um arquivista louco, respondendo botões
ou teclas numeradas pela triste sensatez.

IV

Pensando en el astuto cerebro de la Industria,
Robot era un brillante pedagogo sin hiel,
un conjunto de piezas anatómicas
imitadas en cobre y en tungsteno.
Su cabeza especiosa de válvulas y filtros
y su pecho habitado por un gran corazón
(obra de cien piedades fotoeléctricas)
hacían que Robot usase un alma
de mil quinientos voltios.
En rigor, era nulo su intelecto
y ajena su terrible voluntad.
Pero Robot, mirado en sus cabales,
era un hijo brutal de la memoria,
y un archivista loco, respondiendo a botones
o teclas numerados por la triste cordura.

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poesia

Ezequiel Zaidenwerg (1981-), por Lubi Prates

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Ezequiel Zaidenwerg nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1981. Como poeta, tem publicado os livros: Doxa (Vox, 2007), La lírica está muerta (Vox, 2011) e Sinsentidos comunes (Bajolaluna, 2015), e também atua como tradutor. Vive em Nova Iorque.

O poema “La revolución no va a ser por internet” dialoga com a canção “The revolution will not be televised”, de Gil Scott-Heron. Na tradução “A revolução não acontecerá pela internet” priorizou-se o uso de expressões que se ajustassem melhor à cultura brasileira.

 

lubi prates

* * *

ps: você pode conferir mais sobre a poesia de ezequiel zaidenwerg clicando aqui.

 

* * *

 

LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

§

 

A REVOLUÇÃO NÃO ACONTECERÁ PELA INTERNET (COVER DE GIL SCOTT-HERON)

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.

 

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