poesia latinamericana, tradução

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

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Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

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Hugo Gola (1927-2015), por Guilherme Gontijo Flores e Iván García

Es una alegría que los poemas de Hugo Gola por fin lleguen a Brasil, pues en algunos poetas de ese país encontró cómplices de sus aventuras poéticas y reflexivas. Si hace unos días salió una traducción de Ronald Polito en Galileu Edições, ahora surge esta otra, no menos delicada, de Guilherme Gontijo Flores. Me da gusto que sean dos traductores de excelencia, pues es un justo reconocimiento a la discreción y radicalidad con que Gola trabajó a lo largo de su vida.

De su interés por la poesía y el arte de Brasil existen diversos materiales, pero conviene recordar algunos para el lector brasileño. De João Cabral de Melo Neto, por ejemplo, tradujo una conferencia y editó, a principios de los años noventa, un volumen de ensayos bajo el título Poesía y composición. Muchos años antes, en el 57, invitó a Drummond a la Primera Reunión de Arte Contemporáneo que se organizó en su natal Santa Fe y más adelante tradujo una notita biográfica. Particularmente fecunda fue la relación con los poetas concretistas, cuyas reflexiones publicó con urgencia a su llegada a México como exiliado, junto a materiales de Zukofsky, Olson, Levertov, Ortiz y muchos más. A Gola se debe también la publicación de Galaxia Concreta, un ambicioso volumen del Concretismo y acaso el primero que se editó en Hispanoamérica. Para el lector interesado, recomiendo que consulte en línea el Fondo Hugo Gola de la Universidad Nacional del Litoral, donde se recogen los más de setenta números de las dos revistas que dirigió en México: Poesía y Poética (defendida vivamente por Haroldo de Campos como una de las tres mejores revistas de poesía en el mundo) y El poeta y su trabajo. De su magisterio se ha desprendido, además, la traducción íntegra de Paterson, Maximus Poems, Of Being Numerous y Pieces, entre otros.

Sobra decir que esa labor editorial y docente estaba muy ligada a las búsquedas de su poesía. Si en la primera etapa de su obra todavía se observa cierta ingenuidad o inconsciencia en el manejo de algunos recursos, a partir de su contacto formal con la poesía norteamericana más viva y arriesgada (especialmente con “El verso proyectivo”) encuentra por fin el cauce que estaba buscando. Siete poemas y Filtraciones, que conforman la segunda etapa, son y serán para mí el nudo central de su trabajo. No digo que sólo allí se encuentren sus mejores poemas, ni mucho menos que en los anteriores no haya nada de valía, sino que en esos libros Gola se mueve al fin con plenitud y descubre las posibilidades más interesantes de su trabajo. El rigor formal y la experimentación de las vanguardias lo cautivaron por las herramientas tan vivas que le prodigaban, nunca como simple pirotecnia o por afán de hacerse el novedoso: todo en él era así, todo pasaba por la trama rigurosa de su interior. Posteriormente, el corte de su poesía se hizo más sosegado. Ya no eran las verticalidades cayendo sobre la página, el verso corto y afilado, los juegos silábicos entre una palabra y la siguiente, sino un discurrir más horizontal, como el de un río sereno. Entre otras cosas, hay una desaceleración que signa el paso entre la segunda y la tercera etapa de su obra. Hacia el final, su poesía se hizo aún más reflexiva, breve y sosegada, un simple garabato sobre la página y nada más. Con todo, sería absurdo dividirla tajantemente, pues es claro que escribió un solo poema a lo largo de su vida, aunque con múltiples giros y variantes como los de un río.

Lo que Guilherme Gontijo Flores ha traducido aquí comienza con el tercer movimiento de los Siete poemas, pasa por dos poemas breves de Filtraciones (especialmente el segundo de ellos es una buena muestra del interés por el objetivismo norteamericano de Gola) y llega a los poemas de la última etapa, donde hay ecos de William Carlos Williams (su poeta preferido) y de sus amados poetas chinos. Para mí, ese tercer movimiento de los Siete poemas es uno de sus mejores trabajos. No sólo recoge un martilleo que viene de los fondos de su poesía temprana y de su amor por La Alegría de Ungaretti, sino que abre también una afinidad clave con el discurrir de Michaux, y esto último, a su vez, nos hace pensar en lo importantes que habrán sido para su poesía las experiencias glosolálicas que marcaron su infancia campesina. Porque Gola fue siempre un campesino: el campo está en él como una incandescencia. Su decir parco y sencillo, su monotonía, el tono siempre menor de su mundo y el reconocimiento de ríos y animales como enseñanzas de ritmo fueron las compañías más fieles de su trabajo.

Iván García

* * *

NOTA DO TRADUTOR

Tomei conhecimento da poesia de Hugo Gola graças a Iván García, que muito conhece sua obra. Optei por traduzir poemas que ainda não tinham sido traduzidos ao português, para ampliar o corpus felizmente iniciado por Ronald Polito há pouco. Opto por deixar os arquivos em PDF porque há muitos espaçamentos que seriam desconfigurados pela estrutura do blog.

Guilherme Gontijo Flores

Seis poemas de Hugo Gola (por Guilherme Gontijo Flores)

Seis poemas de Hugo Gola (Espanhol)

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“Amazônia eu vi”, de José Muchnik

Tradução do espanhol (Argentina) ao português (Brasil) por Ana Cláudia Romano Ribeiro e ao inglês (Irlanda) por Gerry Loose

 José Muchnik nasceu em Buenos Aires e mora em Épinay-sur-Orge, na França. Engenheiro químico, fez seu doutorado se em Antropologia pela École de Hautes Études en Sciences Sociales em Paris e trabalhou no Institut National de la Recherche Agronomique (INRA). Publicou volumes de poemas, como Quince poemas por la pazOcho poemas para perder el tiempo Cien años de libertad y Coca-ColaProposition poétique pour annuler la dette extérieur (bilíngue, espanhol-francês), Arqueología del amorAmazonia he visto (bilíngue, espanhol-francês, publicado pela editora Louma em Montpellier, 1997), Calendario poético 2000, Guía poética de Buenos AiresTierra viva, luces del marCrítica poética de la razón matemática, publicou poemas com relatos, como Sefikill (Serial Financial Killers) Desgarros: exilios, duelos, muros, o relato Josecito de la ferretería e as novelas Chupadero (2005) e Geriatrikón (2007). Apresentou fotografías suas nas seguintes exposições (1990-2007): Le pain des autres, Amazonia he visto, Mamáfrika e Amazonie, rêves et réalités. Seu endereço para correspondência é josemuchnik@gmail.com.

Ana Cláudia Romano Ribeiro é autora da tradução, introdução e notas da Utopia de Thomas More (no prelo) e da viagem imaginária A terra austral conhecida, de Gabriel de Foigny (Editora da Unicamp, 2011). Traduziu coletivamente a peça Le bleu de l’ìle (O azul da ilha), da haitiana Évelyne Trouillot (no prelo). Ilustrou A princesa que conseguiu virar moça comum e As cinco Franciscas, de Deise Abreu Pacheco (inéditos) e coeditou todos os números da revista Morus – Utopia e Renascimento até seu último número. É professora e pesquisadora na graduação e na pós-graduação dos cursos de Letras da Universidade Federal de São Paulo. Agradece a Dedé Pacheco, Pedro Marques, Leonardo Gandolfi, Paloma Vidal e especialmente a Mayra Guanaes e Andreia Menezes pela leitura da tradução destes poemas do José Muchnik.

Gerry Loose morou na Inglaterra, na Irlanda, na Espanha, em Marrocos e, atualmente, na Escócia. Escritor e artista, ele se define como um slow-moving nomad que trabalha principalmente com temas do mundo natural e da geopolítica. Ele também projeta e faz jardins. Foi Poet in Residence nos Jardins Botânicos de Glasgow e Montpellier, onde está o mais antigo jardim botânico. Ele trabalhou para os Hidden Gardens, Glasgow e Port Logan Botanic Gardens. Entre suas publicações recentes estão Printed on WaterNew and Selected Poems (Shearsman Books) e that person himself. Vagabond Voices publicou fault line (2014) e night exposures (2018). Foi agraciado com o Creative Scotland Award, o Robert Louis Stevenson Fellowship, o Kooneen Säätiö Award e o Hermann Kesten Award. 

* * *

He visto

la selva palpitando
como un tambor de sangre

la selva abierta
como un amor inesperado

la selva en grito
como un río enceguecido

un río sin cauce
como caballos de piedra

huyendo espantados
hacia reinos diferentes

He visto

frentes humedecidas
por un sudor muy antiguo

noches alumbrando
verdes melodías

y el espesor de los sueños
en los campos partidos

He visto niños jugando
como juegan los niños

he visto niños sonriendo
como sonríen los niños

he visto niños trabajando
como trabajan los niños

jugando que son grandes
con las vidas en la mano

He visto árboles

árboles abatidos
como abuelos centenaríos

árboles en carne viva
como reyes solitaríos

árboles suplicando
la llegada de otros cielos

He visto la tierra

la tierra en cenizas
derrotada hasta el horizonte

la tierra madre
la tierra novia
la proceadrora del canto
y de los huesos
de las voces
y de los peces

la tierra avergonzada
sin rostro para las flores

He visto loros llorando
la ausencia de su amada

He visto turistas comprando
exóticos plumajes

He visto vacas

una vaca
dos vacas
tres vacas
……………..
autopistas de ganado
desfilando hacia el mercado


Mi reino
por una vaca
una vaca
por siete selvas

una selva
por media hamburguesa
(algunas gotas de ketchup
en homenaje al tomate
algunos gramos de mostaza

en las entrañas del pan)

He visto

un abuelo sabio
susurrando a las plantas
canciones de cuna
para que duerman en paz

He visto campesinos
con sus manos duras
sus palabras suaves

y la esperanza blanca

He visto la mesa de los pobres

el arroz silencioso
honorando el momento

la
farinha repartiendo
su humilde alegría

y familias reunidas
protegiendo la tibieza

He visto la esperanza

una rama brotando
en el recuerdo de las brasas

un mono enamorado
con una flor en la boca

un viejito muy viejo
descifrando las nubes

y un niño luminoso
disipando los humos

He visto

graciosos
açaís
bailando con la luna

belicosos
babaçús
preparando el combate

papagayos proclamando
la república soñada

y un castaño erguido
como un rey sin latitudes
declamando poemas
para que vuelvan las aves

He visto rostros

todos los golpes
todas las huellas
todos los caminos
en rostros desplegados
como signos en vuelo

rostros dulces
como el lenguaje de las palmeras

rostros tiernos
como el pecho del
Xingú

rostros graves
buscando en la niebla
luces de manzana
antes de la serpiente


Todas las raíces
todos los ríos
todas las venas
estallando en rostros
como destinos verticales

constelaciones de rostros
buscando su sentido
buscando sus líneas
en las formas del dolor

constelaciones de miradas
bajo la Cruz del Sur

desde siempre

desde antes
que el fuego sometido

desde antes
que el hacha liberada

desde antes
que el verbo enaltecido

La Cruz del Sur

raíces de la luz
y orígen de un silencio
que aún no escuchamos.

He visto luces

luces difusas
tatuando mensajes
en la espalda del río

luces incendiando el cielo
para que pueda la noche
cumplir sus promesas

atardeceres de luces
en túnicas diferentes

mas el mismo suicidio
el mismo sol que se hunde
el mismo rito circular de la muerte

He visto

luces que quedan en los labios
después del primer beso

luces que suben al tejado
para pedirle un favor a la luna

luces acariciando troncos
para adivinar la edad de las heridas

He visto aguas

aguas de todas las formas
…..
aguas como ríos
llevando hacia el sol
antiguos cargamentos
de ilusiones marinas

aguas como lluvia
…..
cayendo
castigando
purificando
lavando ultrajes cometidos
trayendo historias olvidadas

Lluvias

revelando al suelo
secretos embebidos
en la ira de los astros

¿signos de la caída
hacia fuentes ignoradas
en el centro del futuro?

¿O simplemente aguas?

aguas relatando
vegetales leyendas
que nadie sabe escuchar

aguas como pantanos
como espejos de barro
reflejando cielos mudos

aguas como carbón
erigiendo las formas
del último adiós

He visto aguas

como ríos
como lluvias
como espejos
…..

como mantas frías
que ya no abrigan
la elegancia de los peces

Aguas perdidas
…..
tanteando
preguntando
recordando

Aguas soñando
…..
con un instante de transparencia
en el pensamiento de un lago

con el futuro de las semillas
en un surco de maíz nuevo

o con el hechizo del viento
en los orígenes del amor

He visto manos

manos que saben
dar forma al mundo

saben ser canto
saben ser madre
saben ser cincel
saben ser barro

manos de luz
iluminando vasijas

manos de miel
arrancando espinos

manos estrechando manos
formando los jugos
en el corazón de la caña

He visto

manos de todas las razas
manos de todas las verdades
de Juan Sintierra
de María Pródiga
de Pablo Firmamento

manos atravezando el Brasil
buscando un pañuelo
de tierra para amar


un pañuelo de tierra
para que crezca un árbol
para que crezca un techo
para que crezcan las palabras
que un día nos darán sentido


He visto un punto

un punto en la tierra
para contemplar la propia altura

un punto en la colina
para ser hoja en el río

un punto al pié de un árbol
para saber si mis brazos
son ramas o ilusiones

He visto un punto

un punto en el tiempo
para la concavidad del reposo

un punto en la niñez
para proteger la ternura

un punto en la juventud
para la explosión de las flores

un punto en mi edad
para el espesor de las uvas

un punto resumiendo
la savia madura

un punto
…..
para llorar por todos

por la tierra en cenizas
por las vacas inocentes
por los árboles abatidos
por los pájaros enlutados

He visto
…..
Amazonía
…..
He visto

§

Eu vi
a floresta palpitando

como um tambor de sangue

a floresta aberta
como um amor inesperado

a floresta gritando
como um rio cegado

um rio sem leito
como cavalos de pedra

fugindo espantados
para diferentes reinos

Eu vi

testas umedecidas
por um suor muito antigo

noites iluminando
verdes melodias

e a espessura dos sonhos
nos campos partidos

Vi crianças brincando
como brincam as crianças

vi crianças sorrindo
como sorriem as crianças

vi crianças trabalhando
como trabalham as crianças

brincando que são grandes
com as vidas na mão

Eu vi árvores

árvores abatidas
como avós centenários

árvores em carne viva
como reis solitários

árvores suplicando
a chegada de outros céus

Eu vi a terra

a terra em cinzas
derrotada até o horizonte

a terra mãe
a terra noiva
a procriadora do canto
e dos ossos
das vozes
e dos peixes

a terra envergonhada
sem rosto para as flores

Eu vi louros loucos
com a ausência de sua amada

Vi turistas comprando
exóticas plumagens

Eu vi vacas

uma vaca
duas vacas
três vacas
………………
estradas de gado
desfilando até o mercado


Meu reino
por uma vaca
uma vaca
por sete florestas

uma floresta
por meio hambúrguer
(algumas gotas de ketchup
em homenagem ao tomate
alguns grãos de mostarda
nas entranhas do pão)

Eu vi

um avô sábio
sussurrando às plantas
canções de ninar
para que durmam em paz

Vi camponeses

com suas mãos duras
suas palavras suaves
e a esperança branca

Vi a mesa dos pobres

o arroz silencioso
honrando o momento

a farinha repartindo
sua humilde alegria

e famílias reunidas
protegendo o calor

Eu vi a esperança

um ramo brotando
na recordação das brasas

um mico enamorado
com uma flor na boca

um velhinho muito velho
decifrando as nuvens

e um menino luminoso
afastando as fumaças

Eu vi

graciosos açaís
dançando com a lua

belicosos babaçus
preparando o combate

papagaios proclamando
a república sonhada

e uma castanheira erguida
como um rei sem latitudes
declamando poemas
para que voltem as aves

Eu vi rostos

todos os golpes
todas as pegadas
todos os caminhos
em rostos abertos
como sinais em voo

rostos doces
como a linguagem da palmeira

rostos ternos
como o peito do Xingú

rostos graves
buscando na neblina
luzes de maçã
antes da serpente


Todas as raízes
todos os rios
todas as veias
ardendo em rostos
como destinos verticais

constelações de rostos
buscando seu sentido
buscando suas linhas
nas formas da dor

constelações de olhares
sob o Cruzeiro do Sul

desde sempre

desde antes
do fogo domado

desde antes
do machado liberado

desde antes
do verbo enaltecido

O Cruzeiro do Sul

raízes da luz
e origem de um silêncio
que ainda não escutamos.

Eu vi luzes

luzes difusas
tatuando mensagens
nas costas do rio

luzes incendiando o céu
para que a noite possa
cumprir suas promessas

entardeceres de luzes
em diferentes túnicas

mas o mesmo suicídio
o mesmo sol que se põe
o mesmo rito circular da morte

Eu vi

luzes que ficam nos lábios
depois do primeiro beijo

luzes que sobem no telhado
para pedir um favor à lua

luzes acariciando troncos
para adivinhar a idade das feridas

Eu vi águas

águas de todas as formas
…….
águas como rios
levando ao sol
antigas cargas
de ilusões marinhas

águas como chuva
……
caindo
castigando
purificando
lavando ultrajes cometidos
trazendo histórias esquecidas

Chuvas

revelando ao solo
segredos embebidos
na ira dos astros

sinais da queda
até fontes ignoradas
no centro do futuro?

Ou simplesmente águas?

águas narrando
lendas vegetais
que ninguém sabe escutar

águas como pântanos
como espelhos de barro
refletindo céus mudos

águas como carvão
erigindo as formas
do último adeus

Eu vi águas

como rios
como chuvas
como espelhos
…….

como mantas frias
que já não abrigam
a elegância dos peixes

Águas perdidas
……..
tateando
perguntando
recordando

Águas sonhando
………
com um instante de transparência
no pensamento de um lago

com o futuro das sementes
em uma fileira de milho novo

ou com o feitiço do vento
nas origens do amor

Eu vi mãos

mãos que sabem
dar forma ao mundo

sabem ser canto
sabem ser mãe
sabem ser cinzel
sabem ser barro

mãos de luz
iluminando vasilhas

mãos de mel
arrancando espinhos

mãos apertando mãos
formando os sucos
no coração da cana

Eu vi

mãos de todas as raças
mãos de todas as verdades
de João Semterra
de Maria Pródiga
de Paulo Firmamento

mãos atravessando o Brasil
buscando um lenço
de terra para amar

um lenço de terra
para que cresça uma árvore
para que cresça um teto
para que cresçam as palavras
que um dia nos darão sentido


Eu vi um ponto

um ponto na terra
para contemplar a própria altura

um ponto na colina
pra ser folha no rio

um ponto ao pé de uma árvore
para saber se meus braços

são ramos ou ilusões

Eu vi um ponto

um ponto no tempo
para a concavidade do repouso

um ponto na meninice
para proteger a ternura

um ponto na juventude
para a explosão das flores

um ponto na meia idade
para a espessura das uvas

um ponto resumindo
a seiva madura

um ponto
…..
para chorar por todos

pela terra em cinzas
pelas vacas inocentes
pelas árvores abatidas
pelos pássaros enlutados

Eu vi
…….
Amazônia
……
Eu vi

§

I have seen

the forest throbbing
like a blood drum

the forest opening
like an unexpected love

the forest weeping
like a blinded river

a river with burst banks
like maddened horses

running scared
toward other realms

I have seen

brows moist
with ancient sweat

nights lighting
green melodies

and the depth of dreams
in the ripped fields

I have seen children playing
the way children play

I have seen children smiling
the way children smile

I have seen children working
the way children work

playing like the bigger ones
their lives in their hands

I have seen trees

trees felled
like ancient grandfathers

trees fleshed alive
like lonely kings

trees begging
for other skies to come

I have seen the earth

the earth in ashes
wrecked as far as the horizon

mother earth
our sweetheart
creator of song
and the bones
of voices
and of fish

a shamed earth
with no face for flowers

I have seen parrots crying
the absence of their loves

I have seen tourists buying
exotic feathers

I have seen cows
one cow
two cows
three cows
……………..
highways of cattle
nose to tail towards market


My kingdom
for a cow
one cow
for seven forests

one forest
half a hamburger
(a few dribbles of ketchup
as tribute to the tomato
a few grams of mustard
in the innards of bread)

I have seen

a wise grandfather
whispering lullabies
to age-old plants
for their peaceful sleep

I have seen peasants

their hard hands
their soft words
and their unsullied hopes

I have seen poor people’s tables

the rice silent
honouring the moment

the farinha sharing
her modest joy

families reunited
in protective warmth

I have seen hope

a branch budding
remembering the embers

a loving monkey
a flower in its mouth

an old timer, very old
deciphering clouds

and a shining child
scattering smoke

I have seen

graceful açaís
dancing with the moon

unruly babaçús
preparing to fight

parrots proclaiming
a dream republic

and a chestnut tree proud
as a king with no borders
reciting poems
for the return of birds

I have seen faces

all the bumps
all the trails
all the tracks
in unfolded faces
like fleeting signs

gentle faces
like the speech of palm trees

tender faces
like
Xingú’s breast

solemn faces
searching in the haze
for the light of an apple
before the serpent

All the roots
all the rivers
all the veins
bursting in faces
like lines of destiny

constellations of faces
looking for sense
looking for traces
in the contours of sadness

constellations of gazes
beneath the Southern Cross

forever

since before
the fire was subdued

since before
the axe was freed

since before
the Word was praised

The Southern Cross

root of light
and beginning of a silence
we have yet to hear

I have seen lights

dappled lights
tattooing messages
on the back of the river

lights burning the sky
so the night can
keep its promises

failing lights
in different guises

but the same suicide
the same sinking sun
the same circular rite of death

I have seen

light resting on lips
after the first kiss

light which climbs onto the roof
to ask the moon a favour

lights caressing tree trunks
to discover the age of their wounds

I have seen waters

waters in all forms
…..
waters as rivers
carrying ancient freight
in hopeful fleets
to the sun

waters as rain
…..
falling
punishing
purifying
cleansing violations
bearing forgotten stories

Rains

revealing to the ground
the secrets soaking
in the rage of stars

signs of the fall
toward the ignored springs
at the heart of the future?

or just waters?

waters recounting
plant legends
that nobody knows how to hear

waters as marshlands
like mirrors of mud
reflecting mute skies

waters as coal
making the shapes
of the last farewell

I have seen waters

as rivers
as rainfalls
as mirrors
…..

as the cold cloaks
which no longer warm
the elegance of fish

Lost waters
…..
groping
questioning
remembering

Waters dreaming
…..
of a moment of clarity
in the thought of a lake

of the future of seeds
in a furrow of new corn

or the charms of wind
from the beginnings of love

I have seen hands

hands which know
how to build the world

how to be song
how to be mother
how to be chisel
how to be mud

hands of light
shining on jars

hands of honey
pulling out thorns

hands clasping hands
shaping the juices
in the heart of the cane

I have seen hands

hands of all races
hands of all truths
of Juan Sintierra
of Maria Pródiga
of Pablo Firmamento

hands crossing Brazil
looking for a plot
of earth to love


a pocket of earth
to grow a tree
to raise a roof
to nurture the words
which one day will bring us to our senses

I have seen a point

a point on earth
to consider my own stature

a point on a hill
to be a leaf in the stream

a point at the foot of a tree
to understand if my arms
are branches or dreams

I have seen a point

a point in time
for a hollow of calm

a point in childhood
to protect tenderness

a point in youth
for an explosion of flowers

a point at my age
like a thick skinned grape

that point to summarize
the wise plants’ sap

a point
…..
to weep for everyone

for the earth in ashes
for the innocent cows
for the broken trees
for the mourning birds

I have seen
…..
Amazon
…..
I have seen

Padrão
poesia, tradução

Paula Brecciaroli, por Marcus Groza

Paula Brecciaroli (Buenos Aires, 1976) é coeditora do Editorial Conejos, integrante de La Coop – Frente Editorial Latino Americano y psicóloga. Publicou os romances “Otaku” (Paisanita Editora, 2015) e “Brasil” (Editorial Conejos, 2011). Também é autora de “La sinceridad de un golpe” (Santos Locos, 2018), donde foram retirados esses poemas; “Te traje bichos para que juegues” (Textos Intrusos, 2011); “Pequeño Ensayo Ilustrado” com ilustrações de Pablo Rivas (Bonny Clide Ediciones de Mentira, 2009) e “Vaca Vaca” (edição de autor, 2007). Participou das antologias “9 Antología de cuentos” (Textos Intrusos, 2013); “La mano que mece” – antologia de editores (Ediciones Outsider, 2015), “Pobre Diablo” (Pelos de Punta, 2016). Colaborou para as revistas Lugares, Brando, Maíz, Maten al mensajero, Ensayos e El Planeta Urbano.

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, performer e encenador. É autor do livro “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019), entre outros.

* * *

Há noites
como a de hoje
que são feitas de estilhaços
da tua imagem
no sofá,
dessa mancha na parede
que teu corpo deixou,
desse rastro
imperceptível
da tua passagem
pelo tempo.
E aqui estou eu
rodeada
desses restos
tentando fazer
que o nada
signifique algo,
agora que não estás.
Agora que a noite
está cheia
de retalhos,
eu sigo buscando
isso
que não tem nada a ver
com tua imagem no sofá,
nem com esta parte
que amputada
recorda sozinha.
Tudo isso,
meu amor,
já me basta.
Com tudo isso
componho
a história
do mundo.
Um rascunho.
Teu gesto cujo
ímpeto pode
fazer que o eixo
do planeta
se curve.

Hay noches
como la de hoy
que están hechas con astillas
de tu imagen
en el sillón,
de esa mancha en la pared
que dejó tu cuerpo,
de ese rastro
imperceptible
de tu paso
por el tiempo.
Y ahí estoy yo
rodeada
de esos restos
intentando hacer
que la nada
signifique algo
ahora que no estás.
Ahora que la noche
está hecha
de esquirlas,
yo sigo buscando
eso
que no tiene nada que ver
con tu imagen en el sillón,
ni con esa parte
que amputada
recuerda sola.
Todo eso,
mi amor
me alcanza.
Con todo eso
yo compongo
la historia
del mundo.
Un rasguño.
Un gesto tuyo
puede hacer
que el eje
del planeta
se curve.

§

Saio ao quintal de noite
e em um apartamento
um cara rima
à contraluz
azul magenta
de um televisor.
Os olhos velhos
do meu cão
não se alteram.
Busco nas palavras dos outros,
nas tuas,
nas dessa poeta russa,
ou eslava, ou polaca?
Onde está a poesia?
Me ponho
a revirar as plantas
à meia-noite,
buscando um feitiço
algo que explique
onde,
em que terra,
brotam
os poemas.
E acho que essas floreiras
vazias
que abandonei
se parecem comigo.
Me esmero
para que não cresçam gramas
nem ervas daninhas.
Nem um broto
que as pragas,
os pulgões
as larvas
sejam capazes de matar.
Melhor a terra seca
Melhor
que não cresça nada.

Salgo al patio de noche
y en un departamento
un pibe rapea
a contraluz
del azul magenta
de un televisor.
Los ojos viejos
de mi perro
no se inmutan.
Busco en las palabras de los otros,
en las tuyas,
en las de esa poeta rusa,
¿o eslava o polaca?
¿Dónde está la poesía?
Me pongo
a hurgar las plantas
a medianoche
buscando un hechizo
algo que explique
dónde,
en qué tierra
brotan
los poemas.
Y creo que esas macetas
vacías
que abandoné
se parecen a mí.
Me esmero
en que no crezca yuyo,
ni cizaña.
Ni un brote
que las plagas,
los pulgones
o las orugas,
sean capaces de matar.
Mejor la tierra reseca
Mejor
que no crezca nada.

§

Sou
esse samurai
que
sentado sobre os calcanhares
desembainha a katana
a coluna ereta
o movimento
estudado.
Esse roçar imperceptível
do metal.
Sou eu
o samurai
que esta noite
quer
espera
sentir o fio
entrando
em seu corpo.
Os três movimentos
finais.
O ar.
O frio.
O cheiro de sangue.

Soy
ese samurai
que
sentado sobre sus talones
desenvaina la
katana
la espalda erguida
el movimiento
aprendido.
Ese roce imperceptible
del metal.
Yo soy
el samurai
que esta noche
quiere
espera
sentir el filo
entrando
en su cuerpo.
Los tres movimientos
finales.
El aire.
El frío.
El olor de la sangre.

§

O ar explode
na traqueia
buscando
onde se expandir.
Não ser palavra.
Não ser voz.
Nem chamado.
Mergulhar
no mais profundo
que aguentem
as membranas
os alvéolos
as artérias.
Ir ao fundo
onde o silêncio
é dono de tudo.

El aire explota
en la tráquea
buscando
dónde expandirse.
No ser palabra.
No ser voz.
Ni llamado.
Sumergirse
en lo más profundo
que aguanten
las membranas
los alvéolos
las arterias.
Ir al fondo
donde el silencio
es dueño de todo.

§

Quero ser
uma parede
açoitada
pelo vento.
A corrosão
do mar
me batendo
na cara
até sentir
a pele fervendo,
os olhos cheios
de água.
Ser musgo
líquen.
E então
pela primeira vez
saber quem sou.

Quiero ser
una pared
azotada
por el viento.
La corrosión
del mar
pegándome
en la cara
hasta sentir
la piel hervida,
los ojos llenos
de agua.
Ser musgo
liquen.
Y recién
entonces
saber quién soy.

Padrão
poesia, tradução

Cecilia Pavón (1973—), por Danilo Diógenes

Cecilia Pavón é uma poeta argentina, nascida em Mendoza, em 1973. Vive em Buenos Aires, onde licenciou-se em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Em 1999 fundou, junto com Fernanda Laguna, a editora e galeria Belleza y Felicidad, espaço que serviu de plataforma para a difusão de novos artistas e escritores.

Danilo Diógenes nasceu no Espírito Santo, em 1990. Vive no Rio de Janeiro. Licenciou-se em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Ciência da Literatura e atua como coordenador adjunto do Núcleo Poesia do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC).

* * *

Gonçalo

Nem em um milhão de anos

Volto a escrever entre drogados, mas
sem me drogar.
Junto a Gonçalo, vestido de jeans
ele tomou droga para cavalos, me pede
que o acompanhe para falar ao telefone
(com o hospital?) está atordoado, coitadinho
parece um pobre anjo ferido,
um pobre animal indefeso.
Por que você usou isso, Gonçalo?

Para provar, só para provar.

Estamos num shopping,
somos amigos do dono,
está fechado porque já é de madrugada
e há uma festa.

Caminhamos por este lugar tão grande
cheio de glamour, luxo, sofisticação.
O piso de parquet brilha.
Quando chegamos em sua casa ele se deita
como um peso morto
Deixa-se cair e tira a roupa.
Pare de escrever mentalmente,
ele me diz,
e me mostra
uma revista pornô que um amigo lhe deu de presente.
Não é uma revista vulgar,
é pornografia estetizada,
e agradeço aos céus por ter um
amante tão sutil esta noite

Uma mulher com oito picas na cara,
nunca tinha visto
algo parecido,
mas ela é bonita,
verdadeiramente bonita,
e parece muito segura do que está fazendo.

Fazemos amor e conversamos.
Estou cansada de tanto falar,
as letras misturam-se com qualquer coisa,
Minha mente e minha garganta se perdem.
Gonçalo me fala sobre a praia.
A praia é seu lugar favorito,
quer morrer na praia,
quer deixar tudo e ir para uma ilha deserta.
Eu,
não posso parar de olhar
as portas do armário,
vai de uma parede a outra,
não tem nada dentro.
Lindo armário,
lhe digo,
e como está bem decorada
a tua casa.
E ao escutar isso ele me abraça
com tanta paixão
e me dá milhões de beijos
os melhores beijos que recebi
os beijos que eu estava esperando

milhões de anos.

Gonzalo

No en un millón de años

Vuelvo a escribir entre drogados, pero
sin drogarme.
Junto a Gonzalo, vestido de jeans
tomó drogas para caballos, me pide que
lo acompañe a hablar por teléfono
(al hospital?) está mareado, pobrecito
parece un pobre ángel herido,
un pobre animal desamparado.
¿Por qué tomaste eso, Gonzalo?

Para probar, sólo para probar.

Estamos en un shopping,
somos amigos del dueño,
está cerrado porque ya es la madrugada
y hay una fiesta.

Caminamos por este lugar tan grande
lleno de glamour, lujo, sofisticación.
El piso de parquet brilla.
Cuando llegamos a su casa se acuesta
como un peso muerto
Se deja caer y se desviste.
Dejá de escribir con la mente
me dice,
y me muestra
una revista porno que le regaló un amigo
No es una revista vulgar,
es pornografía estetizada,
y le agradezco al cielo tener un
amante tan sutil esta noche

Una mujer con ocho pijas en la cara,
nunca había visto
algo parecido,
pero ella es hermosa,
verdaderamente hermosa,
y parece muy segura de lo que hace.

Hacemos el amor y conversamos.
Estoy exhausta de tanto hablar,
las letras se mezclan con cualquier cosa,
se me pierde la mente y la garganta.
Gonzalo habla sobre la playa.
La playa es su lugar preferido,
quiere morir en la playa,
quiere dejar todo e irse a una isla desierta.
Yo,
no puedo parar de mirar
las puertas del placard.
Va de pared a pared,
Adentro no hay nada.
Qué lindo placard,
le digo,
y qué bien decorada
está tu casa.
Y al escuchar esto me abraza
con tanta pasión
y me da millones de besos
los mejores besos que he recibido
los besos que estaba esperando
hace
millones de años.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§ 

Balas de anis

Fecharam os shoppings, os bancos, os cinemas
você só pensa em se deixar levar como
essa vagabunda do filme
vanguardista, sem argumento, de que te falou
um amigo numa festa
Nunca foi a lugar nenhum
e quando pôde sair
só chegou a um país em que te roubaram
a imaginação.
E de volta
no aeroporto
os empregados da linha aérea tiveram que amarrar
com uma corda a sua mala
que explodiu por estar cheia de coisas.
Você ama as bicicletas ou a dança:
pensa que só elas poderiam te dar
um sentimento de mudança concreto
sai para buscar amigos
volta sozinha
os dias passam e você não liga para os telefones
anotados com letra tão pequena
em pedaços de papel
deixa-os na sacada
e o sol apaga os números.

Caramelos de anís

Cerraron los shoppings, los bancos, los cines
sólo pensás en dejarte llevar como
esa vagabunda de la película
vanguardista, sin argumento, de la que te habló
un amigo en un baile
Nunca fuiste ninguna parte
y cuando pudiste salir
sólo llegaste a un país en el que te robaron
la imaginación.
Y de vuelta
en el aeropuerto
los empleados de la aerolínea tuvieron que rodear
con una cuerda tu valija
que explotó por estar llena de cosas.
Amás las bicicletas o la danza:
pensás que sólo ellas podrían darte
un sentimiento de cambio concreto
salís a buscar amigos
volvés sola
pasan los días y no llamás a los teléfonos
anotados con letra tan pequeña
en papelitos
los dejás en el balcón
y el sol le borra los números.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§

Desejo

Quantas formas de desejo existem? é possível haver tantas?
Não poderia haver um milagre, através do qual eu fechasse
os olhos e simplesmente te encontrasse me beijando e isso
trouxesse sobre si a marca da eternidade ou o infinito?

Mas deve haver tantos desejos quanto formas: quadrado,
com forma de flecha, redondo, triangular, com pontas,
com arestas, vertical, desfeito, inanimado.

Ainda lembro o momento em que o amor parecia
possível: mês de novembro, ar luminoso, um cara
dormia comigo,
conversávamos na cama enquanto fumávamos maconha
misturada com tabaco, ele segurava minha mão
por debaixo dos lençóis.

Faz seis meses que não beijo ninguém.
Seis meses sem fazer amor. Tenho 27 anos,
desde os 18 isso nunca tinha me acontecido.

Meu corpo em estado de alerta, poderia usar muitos verbos
para descrevê-los paredes que se levantam
e que são povoadas por espécies de hidras mentais.

É outono, lamento que o inverno se aproxime.
Sinto que me devem um verão.

Deseo

¿Cuántas formas de deseo existen? ¿puede ser que tantas?
¿No podría llegar un milagro, a través del cual yo cerrara
los ojos y simplemente te encontrara besándome y eso
cargara sobre sí la marca de la eternidad o el infinito?

Pero debe haber tantos deseos como formas: cuadrado,
con forma de flecha, redondo, triangular, con puntas,
con aristas, vertical, deshecho, inanimado.

Todavía recuerdo el momento en que el amor parecía
posible: mes de noviembre, aire luminoso, un muchacho
dormía conmigo,
hablábamos en la cama mientras fumábamos marihuana
y tabaco mezclados, él me tomaba la mano
bajo las sábanas.

Hace seis meses que no he besado a nadie.
Seis meses sin hacer el amor. Tengo 27 años,
desde los 18, nunca antes me había pasado.

Mi cuerpo en estado de alerta, podría usar muchos verbos
para describirlo paredes que se levantan
y que vienen a poblar especies de hiedras mentales.

Es otoño, lamento que se acerque el invierno.
Siento que me deben un verano.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

Padrão
poesia, tradução

Gabriela Clara Pignataro, por Marcus Groza

Gabriela Clara Pignataro nasceu em Floresta, Buenos Aires; escreve, é atriz e fotógrafa. No Brasil publicou Traço cabelo, cai um raio (Ed. Benfazeja – 2018), donde foram retirados os poemas aqui apresentados. Na Argentina, publicou Eso que no se parte es una respuesta (Difusión Alterna, 2014), Muta (Nulu Bonsai, 2014) e Tundra (Añosluz, 2018). Atualmente, trabalha no projeto La belleza random de los días de investigação fotográfica analógica e em seu primeiro romance. Escreve resenhas, poemas e ensaios em lasalvajelucidez.tumblr.com e principalmente observa e respira.

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Publicou, entre outros, e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017). Escreveu e dirigiu a antiópera Rua Carne entre as Articulações e a peça Maré Morta.

* * *

A intermitência

Uma folhinha seca
parece uma ratinha
tremendo tíbia
na vereda
mas não
parece
mas não é
como tantas outras coisas
o engano da aparência
formosa
a alucinação diante da fagulha
que não é fogo
uma folhinha seca
pisá-la
dói range
como as coisas verdadeiras
quando se rompem

La intermitencia

Una hojita seca
parece una ratita
temblando tibia
en la vereda
pero no
parece
pero no es
como tantas otras cosas
el engaño de la apariencia
hermosa
la alucinación ante la chispa
que no es fuego
una hojita seca
pisarla
duele cruje
como las cosas verdaderas
cuando se rompen

 

§

ADN

Amasso pão
com minhas torpes
e modernas mãos
amasso o pão
como outros o fizeram
e outros o farão

Há algo
na repetição
que me cura

Amasso pão
e me sinto parte de algo
muito maior
meu nome não se relambe

Sou substantivo
do que não se pode apropriar

Uma moça
com as mãos cheias de farinha

ADN

Amaso pan
con mis torpes
y modernas manos
amaso el pan
como otros lo han hecho
Y otros lo harán

Hay algo
en la repetición
que me cura

Amaso pan
y me siento parte de algo
mucho más grande
mi nombre no se relame

Soy sustantivo
de lo que no puede apropiarse

Una chica
con las manos llenas de harina

§

Sudestada

Saí
a cortar os campos
enchi a casa de flores
não preciso
mover as pedras
para trazer até mim
a montanha
o simples transpassar
dos corpos
modifica a fisionomia
da paisagem

Não pretendo alterar
a direção da semeadura
para mudar a colheita
posso extrair
o desejo de raiz
e transplantá-lo
para uma terra
da minha escolha

Não preciso
mover as pedras:
sou a montanha
compacta por fora
líquida por dentro
não estou sobrevivendo
me movo
sobre o tempo
como o magma
potência de fogo
protege o cristal
até a ruptura
que descubra
o brilho necessário
para correr de noite
sobre o solo ácido
do rio
sem nos ferirmos

A sudestada
foi uma cacetada
somos um bairro
acendendo suas luzes
para ver a tormenta
que lavará o gelo
e o sangue
na entrada
de nossas casas

Saí a cruzar os campos
um coiote me comeu
agora escreve
sacudindo a poeira
do deserto
enquanto
o vapor do banho
o inunda todo
deixo de escutar minha forma
para ser
o anel caindo no vulcão
meu cachorro latindo
para as notícias do rádio

Sudestada

Salí
a cortar los campos
llené la casa de flores
no necesito
mover las piedras
para traer hacia mí
la montaña,
el sólo traspaso
de los cuerpos
modifica la fisonomía
del paisaje

No intento alterar
la dirección del sembrado
para cambiar la cosecha
puedo extraer
el deseo de raíz
y trasplantarlo
en la tierra que yo elija

No me es preciso
mover las piedras:
soy la montaña
compacta por fuera
líquida por dentro
no estoy sobreviviendo
me muevo
sobre el tiempo
como el magma
potencia de fuego,
protege el cristal
hasta la ruptura
que descubra
el brillo necesario
para correr de noche
sobre el suelo ácido
del río
sin lastimarnos

La sudestada
fuè una cachetada
somos un barrio
encendiendo sus luces
para ver la tormenta
que lavará el hielo
y la sangre
en la entrada
de nuestras casas

Salí a cruzar los campos
un coyote me comió
ahora escribe
sacudièndose el polvo
del desierto
mientras
el vapor de la ducha
lo inunda todo,
dejo de escuchar mi forma
para ser
el anillo cayendo en el volcán,
mi perro ladrándole
a las noticias en la radio.

§

David Lynch sonha comigo

De tanto pisar no freio
paramos no km 2
o motor ajustado
o tanque cheio
kodak 36 sem usar
a água do mate
ainda quente
a rádio do bairro
passando a mesma música
durante horas
o espelho retrovisor
vazio:
ninguém vem aqui

Não sei aonde íamos
de tanto manobrar
estragou a embreagem
a marca do pneu
mosquinha morta
no asfalto
km 2 paragem rural
a rádio do bairro
anuncia alfajores
consertos de encanamento
empanadas fritas
o telefone da parteira
as notícias do carnaval
carroça descarrilhada
ovelhas tóxicas
o espelho retrovisor:
vazio
ninguém vem aqui, sabe,
nossas caras
ficam invisíveis
por trás das gotinhas de suor
de um feriado regional

Faz tempo que ninguém
viaja neste carro
apenas uma camisa e shorts
um vestido florido
chinelos velhos e desformes
no isopor sopa em cubinhos
icebergs entre pão e queijo
três dias encalhados
km 2
não chegamos às montanhas
três dias com enjoo
as fotos por tirar
a água gelada
o motor abobado
o radiador fervendo
saio do carro
prefiro pegar a estrada
nos cotovelos raspados
me ungir com mertiolate
na salinha de emergência
a que a polícia rodoviária
encontre um carro vazio
e desgrude meu corpo
do couro sintético
do assento sem cabeça
e um volante sem ginete.

David Lynch sueña conmigo

De tanto pisar el freno
clavamos en el km 2
el motor a punto
el tanque lleno
kodak 36 sin usar
el agua del mate
todavía caliente
la radio zonal
pasando la misma música
durante horas
el espejo retrovisor
vacío:
nadie viene por acá
No sé dónde íbamos
de tanto maniobrar
se rompió el embrague
la marca de las llantas
mosquita muerta
en el asfalto
km 2 paraje rural
la radio zonal
auspicia alfajores
arreglos de plomería
empanadas fritas
el teléfono de la partera
las noticias de carnaval
carroza descarriada
ovejas tóxicas
el espejo retrovisor:
vacío
nadie viene por acá, sabés,
nuestras caras
se invisibilizan
tras las gotitas de sudor
de un feriado regional
Hace tiempo que nadie
viaja en este auto
tan solo una camisa y shorts
un vestido floreado
ojotas rotas y deformes
la heladerita sopa de cubitos
icebergs entre el pan y queso
tres días encallados
km 2
no llegamos a las montañas
tres días mareados
las fotos sin sacar
el agua fría
el motor bobeado
el radiador caldeado
me tiro del auto
prefiero llevar la ruta
en los codos raspados
santiguarme con merthiolate
en la salita de emergencias
a que la policía caminera
encuentre un auto vacío
y despegue mi cuerpo
de la cuerina
del asiento sin cabeza
y un volante sin jinete.

 

Padrão
poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

pizarnikok-817x1024

 

Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

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poesia, tradução

Laura Wittner (1967-), por Rafael Mantovani

laura wittner

Foto: Dino Bronfman.

Laura Wittner nasceu em Buenos Aires em 1967. É formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Hoje coordena oficinas de poesia e tradução, e trabalha como tradutora literária para diversas editoras. Publicou sete livros de poesia e três antologias entre 1996 e 2016, e sua obra reunida foi publicada recentemente: Lugares donde una no está (Buenos Aires, Gog y Magog, 2017). Também participou de várias publicações e antologias na América Latina, Espanha, França e Inglaterra. Além disso, é autora de seis livros infantis, e já traduziu autores como Leonard Cohen, David Markson, Anne Tyler, entre muitos outros. Recebeu uma série de prêmios, bolsas e menções honrosas em concursos e projetos argentinos e hispanoamericanos. Escreve no blog http://www.selodicononlofaccio.blogspot.com.ar . Apresentamos aqui quatro poemas seus traduzidos por Rafael Mantovani, os dois primeiros da antologia Noche con posibilidades (Montevidéu, Civiles iletrados, 2011), e os outros dois inéditos.

* * *

 

Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

Otra ciudad

Cuando levanto la vista veo nieve,
nieve refulgiendo desde el televisor.
Como siempre, titilan sobre el mapa
los lugares donde una no está.
Seguro extrañaría el mercado de flores
y despertar en este piso octavo
que se abre desafiando al viento.
La verdad es que hubo un solo día de nieve
y que hay una posible segunda versión
para las cosas conocidas.
Las valijas están hechas desde siempre
y además están sobre el sofá
en posición de espera.
Ese momento dura, se sostiene,
es una manera de estar:
estar a punto de ser abandonado.
El pozo negro de las valijas hechas
reverso del desembarco:
el deseo humano por lo incompleto
que se refleja, dicen,
en la predilección por lo pequeño,
lo breve, el fragmento.

§

 

Um olhar de adeus do trem em movimento

Um olhar de adeus do trem em movimento
gostaria de ser um olhar especial
e é como todos, este lugar que ocupamos
agora, vazio de nós,
inicia o movimento de retrocesso
de recolher-se na memória
para ao mesmo tempo incomodar
dando o sinal de que
continuará existindo,
outros habitantes o percorrerão
como alguém que amamos
e a paisagem irá se modificando,
a lembrança então cada vez mais inexata
não por desgaste
mas sim porque o original vai mudar.
A última coisa que você verá
será também a primeira que verá
quando voltar
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por outro lado sempre moramos nesta cidade
e quando um domingo passamos perto de barcos encalhados
e pontes cor de ferrugem,
e ao descer do carro vemos que o rio
é uma coisa preta, espessa,
destilando bolhas entre manchas claras
como massas de saliva em expansão
(“formou-se sobre a água uma capa anaeróbica
onde criaturas impensáveis
desenvolvem-se e existem sem oxigênio”)
então não existe pena pelo lugar distante
nem gestos significativos no último olhar
seria inútil se não há limites
para entrar ou sair.

Una mirada de adiós desde el tren en marcha

Una mirada de adiós desde el tren en marcha
querría ser una mirada especial
y es como todas, este lugar que ocupamos
ahora, vacío de nosotros,
inicia el movimiento de retroceso
de replegarse en la memoria
para al mismo tiempo molestar
dando la señal de que
seguirá existiendo,
otros habitantes lo recorrerán
como a alguien que quisimos
y el paisaje se irá modificando,
el recuerdo entonces cada vez más inexacto
no por desgaste
sino porque el original va a cambiar.
Lo último que veas
será también lo primero que veas
cuando regreses
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por otra parte siempre hemos vivido en esta ciudad
y cuando un domingo pasamos junto a barcos varados
y puentes color óxido,
y al bajar del auto vemos que el río
es algo negro, espeso,
destilando burbujas entre manchas claras
como salivazos en expansión
(“se ha formado sobre el agua una capa anaeróbica
donde criaturas impensables
se desarrollan y existen sin oxígeno”)
entonces no hay pena por el lugar lejano
ni gestos significativos en la última mirada
sería inútil si no hay límites
para entrar o salir.

§

 

Viramos na Libertador

Minha filha diz que o jacarandá
parece uma árvore de outro mundo.
Que essa bruma violeta
não pode estar no mesmo plano que a gente.
Sempre quis ter
uma conversa assim:
calhou de ser justo
com esta menina.

Doblamos por Libertador

Mi hija dice que el jacarandá
le parece un árbol de otro mundo.
Que esa bruma violeta
no puede estar en nuestro mismo plano.
Siempre quise tener
una conversación así:
se me viene a dar justo
con esta nena.

§

 

Voltei a ter um limão na mão

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Eu sabia disto? Lembrava?
Vejam a minha mão: vira uma concha espontânea
e nela não resta nada que não seja
limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam a mesma coisa por um instante.

Volví a tener un limón en la mano

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

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Alfonsina Storni (1892—1938), por Victor Hugo Turezo

Alfonsina Storni nasceu na Suíça em 1892 e estabeleceu-se na Argentina ainda criança. Poeta e escritora, também foi professora e jornalista. Sua obra, de cunho introspectivo e naturalista, ficou marcada pelo modernismo empregado à época. Aqui, apresento a tradução de três poemas contidos nos livros El dulce daño, de 1918 e Languidez, de 1920. No primeiro poema Cuadrados y Ángulos, pode-se observa o comprometimento da poeta com palavras ópticas, realistas e naturalistas. Em Sábado, a escritora constrói uma progressão imagética cheia de composições estruturalmente realistas. No último escrito, Miedo, Alfonsina nos mostra sua complexidade aliterada e costura, meio que ensimesmada, sua objetificação enclausura. Alfonsina Storni se suicidou em 1938, na cidade de Mar del Plata.

Victor Hugo Turezo

* * *

De EL DULCE DAÑO (1918) ALFONSINA STORNI
De O DOCE DANO (1918)

CUADRADOS Y ÁNGULOS
Casas enfiladas, casas enfiladas,
Casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados, cuadrados,
Casa enfiladas
Las gentes ya tienen el alma cuadrada,
Ideas en fila
Y ángulo en la espalda.
Yo misma he vertido ayer una lágrima,
Dios mío, cuadrada.

QUADRADOS E ANGULAÇÕES
Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados,
Casas enfileiradas
O povo tem a alma quadrada
Ideias em fila
E costas anguladas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada.

§

SÁBADO
Levanté temprano y anduve descalza
Por los corredores; bajé a los jardines
Y besé las plantas;
Absorbí los vahos limpios de la tierra,
Tirada en la grama;
Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua
Peiné mis cabelos. Perfumé las manos
Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas,
De mi falda hurtaron doradas migajas.

Luego puse traje de clarín más leve
Que la misma gasa.
Mi sillón de paja.
De un salto ligero llegué hasta el vestíbulo.
Fijos en la verja mis ojos quedaron,
Fijos en la verja.
El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales.
Comedor en sombras; manos que aprestaban
Manteles.
Afuera, sol como no he visto
Sobre el mármol blanco de la escalinata.
Fijos em la verja siguiron mis ojos
Fijos. Te esperaba.

SÁBADO
Levantei cedo e andei descalça
Pelos corredores; desci aos jardins
E beijei as plantas;
Absorvi os aromas limpos da terra,
Atirada sobre a grama;
Me banhei na fonte em que verdes achiras*
cingiam. Mais tarde, molhados de água
Penteei meus cabelos. Perfumei as mãos
com sumo cheiroso de jasmim. Garças
Ariscas, finas,
De minha saia roubaram douradas migalhas.

Logo coloquei um traje de gala mais leve
Que a própria malha.
Minha poltrona de palha.
De sobressalto cheguei até o vestíbulo.
Fixos na grade meus olhos ficaram,
Fixos na grade.
O relógio me disse: dez da manhã.
Dentro um barulho de louça e cristais.
Sala de jantar em sombras; mãos que alinhavam
Toalhas de mesa.
Fora, sol como jamais vi.
Sobre o mármore branco da escadaria.
Fixos na grade seguiram meus olhos
Fixos. Te esperava.

* Planta peruana, da família das cannáceas, de raiz comestível.

De LANGUIDEZ (1920)

MIEDO

El niño se ha alejado de la casa un momento
Y se vuelve de pronto hasta más ligero que el viento.

El niño en el camino se paró de repente
Porque dormida estaba al sol una serpiente.

Con el juguete nuevo en las manos deshecho
El niño se recuesta tembloroso en mi pecho.

Y en la pequeña caja del cuerpo estremecido
Repercute sin tregua un violento latido.

Así cuando en las manos aunque sean muy suaves
Temblorosas de miedo se acurran las aves,

Sobre el pecho del niño mis dos manos coloco
Y siento que la entraña se aquieta poco a poco.

Luego el niño levanta la cabeza, me mira
Con sus ojos azules, y muy quedo suspira.

MEDO

O menino se distanciou de casa um momento
E voltou rápido; mais veloz que o vento.

O menino no caminho parou de repente
porque sonolenta ao sol estava uma serpente.

Com um brinquedo nas mãos despedaçado
O menino se aninha irrequieto em meu peito.

E na pequena caixa do corpo estremecido
Repercute sem trégua um violento latido.

Assim, quando nas mãos, mesmo que sejam muito suaves
tremendo de medo se debandam as aves,

Sobre o peito do menino minhas mãos coloco
E sinto que a entranha se aquieta pouco a pouco.

Logo o menino levanta a cabeça, me olha
Com seus olhos azuis, e muito sereno suspira.

Os originais dos poemas traduzidos foram retirados do livro Antología poética (Editora Espasa Calpe S.A., Buenos Aires – México), impresso no ano de 1947.

* * *

Victor Hugo Turezo é poeta. Nasceu em Curitiba, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017). Cursa Letras Português/Espanhol na UFPR.

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4 Poemas de Leandro Alva, por Marcus Groza

Leandro Alva (1975) é poeta argentino de Temperley, Buenos Aires. É autor do livro Tundra (2011) e de Viaje a Misiones (no prelo). Foi convidado a participar de festivais literários no México, Costa Rica e Espanha. Estudou Letras na Universidade de Lomas de Zamora e na Universidade Carolina de Praga (República Checa), participa do “Metangorfosis”, grupo argentino de “tango kafkiano”.

* * *

SS

A palavra sede
contraditoriamente
parece conter certa
secreta secreção.
Essa letra ESSE do princípio
succiona, sorve, suplica
e se alongada o suficiente
se parece ao som
acuoso e inevitável
de um jorro
de soda.

Então
alguém pode compreender
a liquidez
da seca
já não sabe suar
e só resta o sedimento
seco na sombra
da iminência
de uma nuvem
que passa ao largo
como um prateado peixe
de gás.

SS

La palabra sed
contradictoriamente
parece contener cierta
secreta secreción.
Esa letra ESE del principio
succiona, sorbe, suplica
y si se estira lo suficiente
semeja el sonido
acuoso e inevitable
de un chorro
de soda.

Entonces,
uno puede comprender
la liquidez
de la sequía
y ya no sabe sudar
y solo queda un sedimento
seco en la sombra
de la inminencia
de la nube
que pasa de largo
como un pejerrey
de gas.

§

Iscariote

O corpo se mexe,
o vento que o move ou o que treme é a rama?
Alguns pássaros interrompem seu canto,
a tarde
A água desafina em cântaros quebrados
por isso cala.

Tudo é silêncio, coroa de espinhos.

O corpo se mexe,
se é o vento que o move ou a figueira
quem vacila
não importa.
Alguns pássaros interrompem seu canto,
não seu apetite.
Sob a pele de cordeiro o lobo está inchando.
A carne arrependida
oscila sua traição.

El Iscariote

El cuerpo se mece,
¿lo mueve el viento o la que tiembla es la rama?
Algunos pájaros interrumpen su canto,
la tarde.
El agua desafina en cántaros quebrados
por eso calla.

Todo es silencio, corona de espinas.

El cuerpo se mece,
si es el viento el que lo mueve o es la higuera
quien vacila
no importa.
Algunos pájaros interrumpen su canto,
no su apetito.
Bajo la piel de cordero se hincha el lobo.
La carne arrepentida
oscila su traición.

(aqui uma leitura desse poema no original: https://www.youtube.com/watch?v=uoTsV8bvpok)

§

Ornitologia

Muito perto de casa
entre Vila La Perla e Bairro San José
há uma série de ruas
com nomes de pássaros
príncipe andorinha calhandra sabiá
se aninham em cada esquina
em cada poste de luz.

Essas aves
não se veem muito na vizinhança
mas se pode seguir seu gorjeio
descobrir um rastro de plumas na vala
sobre a terra ou no chão empedrado
e alçar os olhos
à copa de uma árvore
para ver o resumo ausente da liberdade.

Ornitología

Muy cerca de casa
entre Villa La Perla y Barrio San José
hay una serie de calles
con nombres de pájaro
churrinche golondrina calandria zorzal
anidan en cada esquina
en cada palo de luz.

Esas aves
no se ven mucho por el vecindario
pero uno puede caminar su trino
descubrir un rastro de plumas en la zanja
sobre la tierra o el empedrado
y alzar los ojos
a la copa de un árbol
al resumen ausente de la libertad.

§

O mundo se banha de sangue,
diariamente espirra nos desavisados
para que Deus conserve a higiene.
Falo do mesmo deus que criou a Pilatos
e aos sabonetes do Reich.
Somos menos que bolhas
bexigas de carnaval
sobre o arame farpado.

El mundo se baña de sangre,
diariamente salpica al menos advertido
para que Dios conserve la higiene.
Hablo del mismo dios que creó a Pilatos
y a los jabones del Reich.
Somos menos que burbujas
globitos de carnaval
sobre un alambre de púas.

* * *

Marcus Groza (1984) é poeta e dramaturgo. Autor de Sossego Abutre (Ed. Patuá – 2015), e a lua como órgão principal (Ed. Primata – 2017), é doutorando em Artes Cênicas e editor da Revista Abate e da Revista Saúva.

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