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Tuti Curani (1990-), por Priscilla Campos

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Tuti Curani nasceu na cidade de Buenos Aires, em 1990. Fotógrafa, estuda desenho de moda e organiza o ciclo de leitura e música Club del Quibre. Descobri os seus poemas por acaso, enquanto visitava pela primeira vez a Feira Plana, evento de publicações independentes que acontece anualmente em São Paulo. Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro El futuro ya no es lo que queria, da editora argentina Fadel & Fadel.

 

* * *

 

En el aire hay ruído

Hola corazón
milagro mi hora temprana
acá estoy
despierta en el aplauso
vos cómo estás allá
yo sigo latiendo en otro ritmo
tengo un poco tengo pegado
lo que absorbí anoche
es cierto ahora que en el aire hay ruído
pero igual no importa
yo tampoco entendí esos grafittis
que le hablan al que passa
creo que pierden el mensaje
ayer tiré una bomba y escondí la mano
creo que también te vinculás com eso
no me quiero seguir escapando del sentimento
¿como continua el estalle?
acá me llegó algo
junto las partículas
y te las mando por correo.

No ar há ruído

Olá coração
milagre minha hora antecipada
aqui estou
desperta no aplauso
você como está lá
eu sigo batendo em outro ritmo
tenho pouco mas tenho pego
o que absorvi ontem à noite
é verdade agora que no ar há ruído
mas de todo jeito não importa
eu também não entendi essas pichações
que falam ao que passa
acho que perdem a mensagem
ontem joguei uma bomba e escondi a mão
acho que você também está vinculado a isso
não quero seguir fugindo do sentimento
como a explosão continua?
aqui me chegou algo
junto as partículas
e te mando pelo e-mail.

§

 

El deporte

En el fondo de la oscuridad
hay un toque de cielo.
(Capaz está bien que te cuente mis pesadillas ahora.)
Tengo ganas
de hacer algún truco con mi cuerpo,
como sostenerme en vertical
o praticar la posición bollito.
Apelaría
al deporte de lo seguro.
Era suave ser dos y no estar ahogados
entre tanto estratega del tacto.
De él sí
guardo fotos en papel,
los archivos los borré
la misma noche en que firmamos el pacto
de no hacer eso que hacen todos
cuando extrañan el pasado.

O esporte

No fundo da escuridão
há um pouco de céu.
(Talvez seja bom que te conte meus pesadelos agora)
Tenho vontade
de fazer algum truque com meu corpo
como ficar na vertical
ou treinar a posição da bolinha
Apelaria
ao esporte da segurança.
Era suave ser dois e não estar afogados
entretanto estratega do tato.
Dele sim,
guardo fotos em papel,
os arquivos eu apaguei
na mesma noite em que firmamos o pacto
de não fazer isso que fazem todos
quando sentem saudade do passado.

§

 

Ahora vos

vos a los dieciséis
vos a los dieciocho
vos a los nueve
vos a los cinco viviendo algo horrible
yo a los diez
yo a los veinte
yo el año pasado llenándome la cabeza de sangre
ahora vos y tu abrazo
ahora el bar y tu abrazo
ahora las personas del fondo rellenan la escena
ahora tu abrazo lo mutea todo
ahora tu abrazo me da vergüenza
ahora tu abrazo es un sweater nuevo que emociona
vos a los veintinueve hablando conmigo
yo a los veinticinco hablando con vos
– no pensé que fuera a vivir estos años
no te lo digo –
ahora caminamos por el bar
yo te cuento historias sobre cada una de las personas que rellenan el fondo
los hacemos mierda
nos miran
al final del paseo me robás un beso
a mí me da vergüenza
a mí todo me da vergüenza
pero te lo devuelvo
ahora nos cruzamos com alguien que conocés
nos ecapamos de la conversación
ahora yo te agarro de la mano
nos metemos sin pagar en una fiesta
adonde pasan cumbia y bailamos
alguien te molesta y me pedís un beso
– vos a los veintinueve sacando uma vieja carta
no importa –
ahora bailamos como si conociéramos la banda
ahora nos besamos como si estuviéramos hace um montón en esto

Agora você

você aos dezesseis
você aos dezoito
você aos nove
você aos cinco vivendo algo horrível
eu aos dez
eu aos vinte
eu no ano passado enchendo minha cabeça de sangue
agora você e seu abraço
agora o bar e seu abraço
agora as pessoas do fundo preenchem a cena
agora seu abraço emudece tudo
agora seu abraço me dá vergonha
agora seu abraço é um sweater novo que emociona
você aos vinte e nove falando comigo
eu aos vinte e cinco falando com você
– não pensei que fosse viver esses anos
não te digo –
agora caminhamos pelo bar
e eu te conto histórias sobre cada uma das pessoas que preenchem o fundo
xingamos eles
nos encaram
no fim do passeio você me rouba um beijo
me dá vergonha
tudo me dá vergonha
mas te devolvo
agora nós cruzamos com alguém que você conhece
nós fugimos da conversa
agora eu te puxo pela mão
entramos sem pagar em uma festa
onde toca cumbia e dançamos
alguém te incomoda e você me pede um beijo
– você aos vinte e nove pegando uma velha carta
não importa –
agora dançamos como se conhecêssemos a banda
agora nos beijamos como se estivéssemos nisso faz tempo

§

 

Te banqué la etiqueta

Te banqué la etiqueta
de navegadores de lo contemporáneo
cuando me dijiste que lo posmoderno era negativo
y yo te respondí que peor era neobarroco.
Te banqué la etiqueta
cuando me pediste que no pensara
ni qué era eso que estábamos haciendo
perdendo el tiempo juntos a medias.
Te banqué la etiqueta
cuando las calles del centro se abrieron
y la noche no fue para nada amable
escuchando el sonido de una ideia al romperse.
Te banqué la etiqueta
cuando llorando me decías no sé qué me passa
por qué me persigue esta niebla
o por qué no me sale estar tranquilo.
Te banqué la etiqueta
cuando se habían vaciado todas las botellas
y nuestros amigos ya se habían ido
y el frío que entraba por tres centímetros de una ventana aberta
se llevaba toda posibilidad de palabras.
Te banqué la etiqueta
cuando ya después de tanto años
no hubo maniobra que fuera a salvarnos
de no sentir más nada entre nosostros.

Banquei o seu estereótipo

Banquei o seu estereótipo
de navegadores do contemporâneo
quando você me disse que o pós-moderno era negativo
e eu te respondi o neobarroco era pior.
Banquei o seu estereótipo
quando você me pediu que não pensasse
nem o que era isso que estávamos fazendo
perdendo o tempo juntos de qualquer jeito
Banquei o seu estereótipo
quando as ruas do centro se abriram
e a noite não foi nada amável
escutando o som de uma ideia ao se quebrar
Banquei o seu estereótipo
quando chorando você me dizia não sei o que se passa comigo
por quê essa névoa me persegue
ou por quê não consigo ser tranquilo
Banquei o seu estereótipo
quando haviam esvaziado todas as garrafas
e nossos amigos já tinham ido embora
e o frio que entrava pelos três centímetros de uma janela aberta
levava toda a possibilidade de palavras.
Banquei o seu estereótipo
quando já depois de tantos anos
não houve manobra que fosse nos salvar
de não sentir mais nada entre nós.

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tradução

Leopoldo Marechal (1900-1970), por Daniel Falkemback

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Leopoldo Marechal (1900-1970), nascido e morto em Buenos Aires, foi um escritor de diferentes gêneros, como poesia, conto, romance, ensaio e dramaturgia. Com certeza, é mais famoso por seu romance Adán Buenosayres (1948), um dos marcos da literatura rio-platense moderna, que, no entanto, nunca foi muito lido fora do país.

Enquanto era vivo, sua poesia foi motivo de consagração, bem como sua prosa, levando-o a se relacionar com outros autores de vanguarda, ligados à revista Martín Fierro. Da sua poesia, traduzi as quatro primeiras composições do livro El poema de Robot (1966). Obrigado ao amigo agora distante que me indicou ler Marechal.

 

* * *

 

I

O engenheiro de Robô disse:
“Façamos Robô a nossa imagem
e nossa semelhança”.
E montou Robô numa noite de ferro,
sob o signo do ferro e em usinas mais tristes
que um parto mineral.
Sobre seus pés de arame, a Eletrônica,
cingindo louros roubados de uma musa,
o amamentou em seus seios azedos de logaritmos.
Penso em minha alma: “O homem que constrói Robô
necessita primeiro ser um Robô ele mesmo,
isto é, podar-se e despir-se
de todo seu mistério primordial”.
Robô é um imbecil entupido de fichas,
filho de um pai canhoto e uma mãe sem rosas.

I

El ingeniero de Robot se dijo:
“Hagamos a Robot a nuestra imagen
y nuestra semejanza”.
Y compuso a Robot, cierta noche de hierro,
bajo el signo del hierro y en usinas más tristes
que un parto mineral.
Sobre sus pies de alambre la Electrónica,
ciñendo los laureles robados a una musa,
lo amamantó en sus pechos agrios de logaritmos.
Pienso en mi alma: “El hombre que construye a Robot
necesita primero ser un Robot él mismo,
vale decir podarse y desvestirse
de todo su misterio primordial”.
Robot es un imbécil atorado de fichas,
hijo de un padre zurdo y una madre sin rosas.

§

 

II

Não é sob o sopro da indignação
que relato esta história suja como o urânio.
Eu não matei Robô com o sal da ira,
senão com os punhais da equanimidade.
Não gosto do furor que se passa de vento
só para varrer andorinhas e folhas:
o furor é amável se responde a um teorema
sério como o de Pitágoras.
Eu vivi em uma poça de batráquios
prudentes e sonoros em seu lodo.
Certa vez passou uma águia sobre nossas cabeças,
e todos opinaram: “Esse voo não existe”.
Fiquei admirando a excelsitude da águia
e construí motores de voar.
Os batráquios disseram: “É orgulho”.
Respondi-lhes: “Batráquios, é altivez”.
O orgulho é um flato do Eu separativo,
mas a altivez declara sua própria elevação.

II

No es bajo el soplo de la indignación
que refiero esta historia sucia como el uranio.
Yo no maté a Robot con la sal de la ira,
sino con los puñales de la ecuanimidad.
No me gusta el furor que se calza de viento
sólo para barrer golondrinas y hojas:
el furor es amable si responde a un teorema
serio como Pitágoras.
Yo viví en una charca de batracios
prudentes y sonoros en su limo.
Cierta vez pasó un águila sobre nuestras cabezas,
y todos opinaron: “Ese vuelo no existe”.
Yo me quedé admirando la excelsitud del águila,
y construí motores de volar.
Los batracios dijeron: “Es orgullo”.
Les respondí: “Batracios, la mía es altivez”.
El orgullo es un flato del Yo separativo,
mas la altivez declara su propia elevación.

§

 

III

E aqui estou, agradável de aforismos,
como uma árvore que força suas gemas arrebentadoras.
A casa de Robô está no polo
contrário do enigma,
e o que Robô destrói volta a olhar o rosto
perdido da ciência.
Eu fui um ser como todos que nascem de um ventre:
mais rosa, menos rosa, era igual minha infância
a todas as que gritam ou gritaram
junto a rios cordiais.
Um dia meus tutores, fiéis à Didática,
me confiaram à arte de Robô.
Meus tutores morreram: eram santos idiotas.
Eu reguei suas tumbas com iodeto de sódio.

III

Y aquí estoy, agradable de aforismos,
tal un árbol que empuja sus yemas reventonas.
La casa de Robot está en el polo
contrario del enigma,
y el que a Robot destruye vuelve a mirar el rostro
perdido de la ciencia.
Yo fui un ser como todos los que nacen de vientre:
rosa más rosa menos, era igual mi niñez
a todas las que gritan o han gritado
junto a ríos cordiales.
Un día mis tutores, fieles a la Didáctica,
me confiaron al arte de Robot.
Mis tutores murieron: eran santos idiotas.
Yo he regado sus tumbas con yoduro de sódio.

§

 

IV

Pensando no astuto cérebro da Indústria,
Robô era um brilhante pedagogo sem bílis,
um conjunto de peças anatômicas
copiadas em cobre e tungstênio.
Sua cabeça especiosa de válvulas e filtros
e seu peito habitado por um grande coração
(obra de cem piedades fotoelétricas)
faziam com que Robô tivesse uma alma
de mil e quinhentos volts.
A rigor, era nulo seu intelecto,
e alheia sua terrível vontade.
Porém, Robô, em juízo perfeito,
era um filho brutal da memória
e um arquivista louco, respondendo botões
ou teclas numeradas pela triste sensatez.

IV

Pensando en el astuto cerebro de la Industria,
Robot era un brillante pedagogo sin hiel,
un conjunto de piezas anatómicas
imitadas en cobre y en tungsteno.
Su cabeza especiosa de válvulas y filtros
y su pecho habitado por un gran corazón
(obra de cien piedades fotoeléctricas)
hacían que Robot usase un alma
de mil quinientos voltios.
En rigor, era nulo su intelecto
y ajena su terrible voluntad.
Pero Robot, mirado en sus cabales,
era un hijo brutal de la memoria,
y un archivista loco, respondiendo a botones
o teclas numerados por la triste cordura.

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poesia

Ezequiel Zaidenwerg (1981-), por Lubi Prates

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Ezequiel Zaidenwerg nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1981. Como poeta, tem publicado os livros: Doxa (Vox, 2007), La lírica está muerta (Vox, 2011) e Sinsentidos comunes (Bajolaluna, 2015), e também atua como tradutor. Vive em Nova Iorque.

O poema “La revolución no va a ser por internet” dialoga com a canção “The revolution will not be televised”, de Gil Scott-Heron. Na tradução “A revolução não acontecerá pela internet” priorizou-se o uso de expressões que se ajustassem melhor à cultura brasileira.

 

lubi prates

* * *

ps: você pode conferir mais sobre a poesia de ezequiel zaidenwerg clicando aqui.

 

* * *

 

LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

§

 

A REVOLUÇÃO NÃO ACONTECERÁ PELA INTERNET (COVER DE GIL SCOTT-HERON)

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.

 

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poesia, tradução

Juan L. Ortiz, por Ricardo Corona

Há não muito tempo apresentamos aqui a poesia de Juan L. Ortiz em tradução de Sandra Santos, que vocês podem conferir aqui. Agora, felizmente, temos mais pelas mãos de Ricardo Corona.

guilherme gontijo flores

* * *

UMA POESIA DO FUTURO

 

Juan Laurentino Ortiz – ou simplesmente Juanele – nasceu em 1896 em Puerto Ruiz, povoado de Gualeguay, província de Entre Ríos. Aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras de Bueno Aires, onde conheceu alguns poetas e chegou a ser publicado em revistas. Fez uma insólita e rápida viagem a Marselha em um navio cargueiro, antes de, aos 20 anos, voltar a Gualeguay para ali viver até se aposentar, em 1942 e mudar-se para a cidade de Paraná, em uma casa em frente ao rio, onde viveu até a sua morte, em 1978. Saiu raras vezes de Paraná para realizar conferências em Santa Fé ou Buenos Aires e fez uma viagem de dois meses pela Europa Oriental e China, nos anos de 1950. Mas estava conectado com a poesia feita no mundo, traduzindo, entre outros, Ungaretti, Élouard, Pound e vários poetas chineses.

Em 1970, a Editorial Biblioteca de Rosario publicou En el aura del sauce, antologia em três volumes de todos os seus livros, feitos sempre em pequenas tiragens e em edições do autor: El agua y la noche (1933), El alba sube (1937), El ángel inclinado (1938), La rama hacia el este (1940), El álamo y el viento (1947), El aire conmovido (1949), La mano infinita (1951), La brisa profunda (1954), El alma y las colinas (1956), De las raíces y del cielo (1958) e El junco y la corriente – este último feito a partir da viagem pelo Oriente e preparado pelo autor especialmente para a antologia. Embora esta antologia tenha contribuído para que a sua poesia saísse do círculo restrito dos amigos poetas e especialistas, parte significativa da tiragem foi apreendida e queimada pelo regime militar argentino. Somente em 1996 que a Universidad Nacional del Litoral, de Santa Fé, publicou o volume Obra completa, organizado por Sergio Delgado, que incluiu poemas inéditos, cartas, ensaios do autor e uma fortuna crítica.

De tal modo Juanele viveu fascinado com os movimentos mínimos da paisagem que inventou “uma lírica consubstanciada com a natureza, tendente ao sussurro, ao balbucio, com uma sintaxe lânguida e mimetizada com o fluir da água”, nas palavras de César Aira, em texto de apresentação de Una poesía del futuro (Mansalva, 2008), livro de entrevistas com o poeta, organizado por Osvaldo Aguirre. Mas antes de uma poesia regionalista, uma eco-poesia, tal é a força da experiência de “pura presença, de um quase resplendor, sem forma, ou a poesia muito fluída e aérea dos estados interiores – harmonia ou visão”, conforme o próprio Juanele testemunhou em carta a um amigo. Assim como Bonnefoy e Ponge, Juanele queria a poesia como possibilidade de esperança: “a poesia não pertence a ninguém ou é de todos”, escreveu em “Mi experiencia”, prólogo de Una poesía del futuro. Havia algo mais neste homem delicado, de vida humilde, com hábitos eremitas, que amava o imperceptível. Tamara Kamenszain, em 1973, após voltar de Paraná, onde havia entrevistado o poeta (publicada no mesmo ano no jornal Clarín), confidenciou a Arturo Carrera (relatado em Ensayos murmurados, Mansalva, 2009) que Juanele havia demorado para atendê-la. Quando finalmente apareceu para a entrevista, desculpara-se dizendo que estava se penteando, que estava arrumando cuidadosamente os fios de seu cabelo para que obtivessem uma consistência de espuma, “para que o ar fluísse mais entre os fios” e assim pudessem gozar como gozam as folhas e o talos das plantas.

§

NAS GARGANTAS DE YAN-TSÉ

O que ouviu Tou-Fou, o que ouviu
nestes silêncios que não deixam de subir e, ao cair,
fluídos de íris,
assim,
apesar de seu espanto sem tempo?

Sentiu, somente, como Li-Tai-Po, que se acendiam uns gritos por aí?
E a vertigem da pedra,
e a vertigem da angústia
que de improviso não aceita sequer a sua agonia,
………………………………………de palha,
……………………………..esvoaçando, quase invisível,
………………………………………………….num junco…
que nem isso admite para perder-se, para perder-se, em seguida, em um sem limite
………………………………………………….de angústia… ou de névoa?

EN LAS GARGANTAS DEL YAN-TSÉ

Qué oyó Tou-Fou, qué oyó
en estos silencios que no dejan de subir y a la vez de caer,
fluidos de iris,
así,
a pesar de su espanto sin tiempo?

Sintió, solamente, como Li-Tai-Pé, que se prendían unos gritos por ahí?
Y el vértigo de la piedra,
y el vórtice de la angustia
que no admite, de improviso, ni siquiera su agonía,
…………………………………………de paja,
………………………………..aleteando, invisiblemente, casi,
…………………………………………………en un junco…
que no admite ni eso para perderse, para perderse, en seguida, en un sin limite
…………………………………………………de congoja… o de niebla?

De El junco y la corriente (1970)

§

FUI AO RIO…

Fui ao rio, e o sentia
perto de mim, em minha frente.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam até mim.
A correnteza dizia
coisas que não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir nele o que dizia o céu vago e pálido
com suas primeiras sílabas alongadas,
mas não conseguia.

Voltava
— Era eu quem voltava? —
na angústia vaga
de sentir-me sozinho entre as últimas e secretas coisas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus reflexos fundos, apenas estrelados.
Corria o rio em mim com suas ramagens.
Eu era um rio no anoitecer,
e suspiravam em mim as árvores,
e a vereda e as ervas se apagavam em mim.
Atravessava-me um rio! Atravessava-me um rio!

FUI AL RÍO…

Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.

Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!

De El ángel inclinado (1937)

§

DIA GRIS

O que nos indaga o vago
horizonte que vem
à nossa melancolia
pleno de gestos molhados
— feito fantasma que
absorve os arvoredos
e nos inverte o lírio
úmido e sozinho de alma?

DÍA GRIS

¿Qué nos pregunta el vago
horizonte que se viene
a nuestra melancolía
lleno de gestos mojados
—tendido fantasma que
absorbe las arboledas
y nos invierte el lirio
húmedo y solo del alma?

De El agua y a la noche (1924-1932)

§

PARA QUE OS HOMENS…

Para que os homens não tenham vergonha da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis ou profundas
da unidade ou espelhos de nosso esforço
por penetrar o mundo,
com semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia de nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores,
e sejamos iguais a nós mesmos na delicada irmandade,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos ao nosso limite extremo,
nos perderemos na hora do dom com o sorriso
anônimo e certo de uma semente na noite da terra.

PARA QUE LOS HOMBRES…

Para que los hombres no tengan vergüenza de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles o profundas
de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores,
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos a nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

De La rama hacia el este (1940)

§

LETRA

Pelos campos vai a menina perdida na felicidade
………………………………..amarela. Fada
dos trigos, alada sobre
………………………………………….os olhos
das papoulas e narcisos…

…………………………………………………Vai a menina
com olhos mais leves que o abril do céu…
…………………………………………………Vai a menina,
…………………………………………………vai a menina…

……………….E ela não sabe
……………….que a tarde será do rio…

Ela não sabe que o esquecimento da nuvem
………………………………..sobre a colina eterna
canta nela silenciosamente doce,
……………….oh, silenciosamente doce…
oh, nela, silenciosamente doce
………………………………..como o ar…

LETRA

para “La niña de los cabellos de lino”

Por los campos va la niña perdida en la dicha
………………………………..amarilla. Hada
de los trigos, alada sobre
…………………………………………..los ojos
de las amapolas y los narcisos…

…………………………………………………Va la niña
con ojos más ligeros que el abril del cielo…
…………………………………………………Va la niña,
…………………………………………………va la niña…

……………….Y ella no sabe
……………….que la tarde será del río…

Ella no sabe que el olvido de la nube
………………………………..sobre la colina eterna
canta en ella silenciosamente dulce,
……………….oh, dulce silenciosamente…
oh, dulce silenciosamente en ella
………………………………..como el aire…

De El junco y la corriente (1970)

* * *

Ricardo Corona (Curitiba, 1962) é autor de Mandrágora (Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012 – indicado ao prêmio Ausiás March de Mejor Poemario 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009), Corpo sutil (SP, Iluminuras, 2005), entre outros. Com Joca Wolff traduziu Momento de simetria (Curitiba, Medusa, 2005) e Máscara âmbar (Bauru, Lumme, 2008), de Arturo Carrera. Traduziu Livro deserto (Curitiba, Medusa, 2013), de Cecília Vicuña e publicou em revistas (escamandro, bólide, zunái) traduções de Henri Michaux, Juan L. Ortíz, William Carlos Williams, Gari Snyder e Mario Bellatin.

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Carina Sedevich, por Jennifer Araújo

carina-semi

Carina Sedevich nasceu em Santa Fé, Argentina em 1972 e atualmente reside em Córdoba, Argentina. Licenciada em Comunicação pela Universidade Nacional de Vila Maria e doutora em Semiótica pela Universidade Nacional de Córdoba, a poeta publicou até o momento 10 livros de poesia: La violencia de los nombres (Ediciones Fe de Ratas, Santa Fé, 1998); Nosotros No (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Cosas dentro de otra cosa (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Como segando un cariño oscuro (Llanto de Mudo Ediciones, Córdoba, 2012); Incombustible (Alción Editora, Córdoba, 2013); Escribió Dickinson (Alción Editora, Córdoba, 2014); Klimt (Suburbia Ediciones, Gijón, España e Club Hem Editores, La Plata, 2015); Gibraltar (Dínamo Poético Editorial, Córdoba, 2015); Un cardo ruso (Ediciones del Movimiento, Maracaibo, Venezuela e Alción Editora, Córdoba, 2016); Cuadernos de Lolog (Pasto Ediciones, Córdoba, 2016).

Carina nunca viu a literatura como carreira, sendo a poesia, desde a infância, um prazer e não uma (futura) profissão para a autora.  Carina Sedevich acredita não seguir ou pertencer a nenhum movimento literário e diz não saber apontar quais são as influências de sua escrita, pois não tem formação em específica em literatura e quando questionada, em entrevista, sobre os autores pelos quais se interessa a poeta faz uma longa lista de nomes de diferentes nacionalidades e estilos. Entretanto, apesar de a autora não dar nomenclatura, formato ou rótulo a sua poesia, o leitor pode perceber, logo nos primeiros contatos, uma escrita intimista e, ao passo que descobre um pouco mais sobre sua vida, nota um forte traço biográfico. O leitor pode ver claramente essa questão autobiográfica nas poesias de Carina, principalmente após ver suas entrevistas, pois a própria autora afirma que seus livros acompanham sua vida, sendo perceptível o relato sutil e por vezes explícito de acontecimentos pessoais como depressão, divórcio e mudança do filho.  Quanto à forma, sua poesia não apresenta forma fixa, métrica ou rima exata, o formato de seus textos muda de livro para livro, de poema para poema. Quanto a temática, Carina escreve sobre temas cotidianos, como amor, desamor, passado, morte, mudanças interiores e exteriores, entre outros, em suma, a autora diz escrever sobre a vida, pois acredita que não é possível escrever sobre outra coisa:

          “Con respecto a los temas de mi escritura debo decir que no los elijo: los temas de mi escritura vienen a mí como viene la vida. Escribo sobre la vida, creo que es imposible escribir sobre otra cosa. Siempre digo que no hay muchos temas para el ser humano: la vida, por ende la muerte. Y dentro del infinito tema de la vida caben todas las cuestiones en que las personas pueden pensarse, sentirse, ser: el amor, el desamor, el sentido, el sinsentido.  Así que no hago otra cosa que escribir sobre eso.” (Carina Sedevich em entrevista 26/10/2016).

***

  1. (de Gibraltar, 2015)

 El olvido es un fruto que requiere trabajo.

Casi siempre tardío, pero rara vez dulce.
No es uva ni es la parra donde pende el racimo.

No es como la sombra que daría la parra
ni como sus raíces contraídas y bruscas.

Se parece a la piedra del cantero y la fuente
que apisona la parra, que la ordena y la ciñe.

*

Hay que hacer saltar el olvido de un golpe
como a una piedra caliza en la cantera.

Que se entibie en la mano que quiera tallarla.
Sea opaca a los ojos. Sea venérea y ajena.

*

Una piedra tan blanca es casi como un niño.
Casi un sacramento para mí.

Inclino mis huesos como panes ácimos
sobre cunas que guardan el amor ajeno.

Qué fue de la ternura que pude sentir.
La siento en la garganta bajar como una hostia.

O esquecimento é um fruto que requer trabalho.

Quase sempre tardio, porém raramente doce.
Não é uva nem é a videira de onde pende o cacho.

Não é como a sombra que a videira daria
nem como suas raízes comprimidas e ásperas.

Se parece com a pedra do cercado e a fonte
que pisoteia a vide, que a ordena e a cinge.
*

Deve-se arremessar o esquecimento de súbito
como uma pedra de calcário na pedreira.

Que se aquece na mão que queira esculpi-la.
Seja opaca aos olhos. Seja venérea e alheia.
*

Uma pedra tão branca é quase como um filho.
Quase um sacramento para mim.

Dobro meus ossos como pães ázimos
sobre berços que guardam o amor ao outro.

O que houve com a ternura que pude sentir.
A sinto na garganta descendo como uma hóstia.
§

  1. (de Escribió Dickinson, 2014)


Enciendo la lámpara de sal de la montaña

junto a mi cama.
Me suelto el pelo
recordando las canas invisibles.
Me acuesto entre las sábanas de hilo
con la bata dorada de la China.
Debajo mi piel blanca no desea
ni en sus botones rosados
ni en sus lunares pálidos.
Sobre la almohada se escuchan mis anillos
porque está fresco, quizás,
y se afinaron mis dedos.
El oro, la plata, la amatista.
Afuera la noche se ha espesado
porque terminó la luna llena.
Empieza el mes que precede al invierno.

Qué ligera que soy sin tus deseos.

Qué dulce corre el alma
en mi esqueleto.
Qué cierta es esta cara y estos flancos
qué ciertos que son,
qué delicados.
Me admira mi gata, blanca y parda,
y yo la admiro a ella en su silencio.
Hasta el perfume rojo de las flores
tengo.

Qué ligera que soy sin mis deseos.

Acendo a lâmpada de sal da montanha
ao pé de minha cama.
Solto meu cabelo
recordando os grisalhos invisíveis.
Me deito entre os lençóis de linho
com o chambre dourado da China.
Por baixo, minha pele branca não deseja
nem com seus botões rosados
nem com suas pintas pálidas.
Sobre a almofada se ouvem meus anéis
porque está fresco, talvez,
e se afinaram meus dedos.
O ouro, a prata, a ametista.
Lá fora a noite está mais espessa
porque terminou a lua cheia.
Inicia o mês que precede o inverno.

Como sou ágil sem seus desejos.

Como corre suave a alma
em meu esqueleto.
Como é pura esta cara e estas curvas
como são puras,
tão delicadas.
Minha gata me admira, branca e parda,
e eu a admiro em seu silêncio.
Até o perfume vermelho das flores
tenho.

Como sou ágil sem meus desejos.
§

3. (de Cuadernos de Lolog, 2016)

 

 Palermo, Buenos Aires

 

 El viento mueve las hojas de los árboles

como señales de luz intermitente

junto al sendero donde sé que vive

el hombre aquel, que yo quería tanto.

Vuelve su nombre, cada vez más raro,

como una caja que se quedó vacía.

*

No voy a verlo.

Cae la semilla de los plátanos.

Vuelan los pájaros,

demasiado bajo.

Mujeres hermosas

pasan muchas.

Más que los copos

que caen de las ramas

o la bandada

de palomas locas.

*

Yo envejezco.

*

Estoy lejos de todo.

De la Belleza,

de la Inmensidad.

Ahora que Comprendo

y Compadezco,

ahora que cualquier lugar

es bueno,

estoy arribando siempre tarde.

*

Pasan los hombres sin Misterio

sobre mi corazón sin Inquietud.

*

Sólo cuando lo olvido todo

el tiempo se mueve, intempestivo.

Profundamente,

como un atentado.

*

-Estas flores blancas que se abren

sobre los árboles, para Navidad,

parece que lo hicieran a propósito.-

Palermo, Buenos Aires

O vento move as folhas das árvores

como sinais de luz intermitente

junto ao caminho onde sei que vive

o homem  a quem eu amava tanto.

Seu nome volta, cada vez menos,

como uma caixa que ficou vazia.

*

Não vou vê-lo.

Cai a semente das árvores.

Voam os pássaros,

muitíssimo baixo.

Mulheres formosas

passam muitas.

Mais que os flocos

que caem dos galhos

ou a revoada

de pombas loucas.

*

Eu envelheço.

*

Estou distante de tudo.

Da Beleza,

da Imensidão.

Agora que Compreendo

e Compadeço,

agora que qualquer lugar

é bom,

estou chegando sempre tarde.

*

Passam os homens sem Mistério

sobre meu coração sem Inquietude.

*

Só quando o esqueço por completo

o tempo muda, intempestivo.

Profundamente,

como um atentado.

*

– Estas flores brancas que se abrem

sobre as árvores, para o Natal,

parece que o fizeram de propósito.-

***

Jennifer Araújo, graduanda no curso de Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa, com habilitação em Português como Língua Estrangeira) na Universidade Estadual de Campinas.

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1 versão pra linhas retas – Susana Thénon, por Nina Rizzi

 

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susana thénon (buenos aires/ argentina, 1937-1990). além de poeta, foi tradutora, ensaísta e fotógrafa artística. senhora de uma voz irônica, sua poesia não se assemelha a de nenhum outro conterrâneo, embora seja comumente associada , junto com alejandra pizarnik e juana bignozzi, a chamada geração de 60; não fez parte de nenhum grupo ou movimento literário, sua relação com os poetas de sua geração é quase nula, salvo exceções como maria negroni, que mais tarde compilou seus livros póstumos La Morada Imposible I y II, e alejandra pizarnik, com quem publicou na revista literária agua viva, nos anos 60 e uma de suas poucas amigas. a linha reta que se segue abaixo consta no volume La morada imposible (corregidor, 2001), que reúne as obras completas de susana thénon (1931-1991), em edicão de ana maría barrenechea e maría negroni.

p.s.: em 2013 traduzi o volume Susana Thénon: Habitante do Nada, que pode ser lido e baixado aqui!

a linha reta abaixo é uma primeira versão para o que não pode ser reto – soa estranho o maravilhamento; qualquer coisa entre o impossível y o necessário. a paixão o rastro y o fracasso.

***

 I

Eu creio nas Noites. – R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica o amor que se afoga desaforadamente em minha boca e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo, nenhuma tarde com mais sol que de costume, conseguem formar a sílaba, o sussurro esperado como um bálsamo, noite e noite.

Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe quando o não, o adeus, o minuto recém-morto, irreparável, se levantam inesperadamente e cegam até morrermos em todo o corpo, infinitos.

Como uma fome, como um sorriso, penso, deve ser a solidão, já que assim que nos engana e entra e assim a surpreendemos uma tarde reclinada sobre nós.

Como uma mão, como um recanto simples e sombreado deveria ser o amor para tê-lo perto e não desconhecê-lo cada vez que nos invade o sangue.

Não há silêncio nem que canção que justifiquem esta morte lentíssima, este assassinato que ninguém condena.

Não há liturgia nem fogo nem exorcismo para deter o fracasso risível dos idiomas que conhecemos.

A verdade é que me afogo sem penalidade, pelo menos resisti ao engano: não participarei da festa suave, nem do ar cúmplice, nem da metade da noite.

Mordo ainda e ainda que pouco se pode já, sorriso guarda um amor que assustaria a deus.

 

II

Voltará essa mulher de muitos nomes, sua morada sem olhos.

Ela gritava já nos corredores como um cardume de violinos raivosos, já se nutriam as gralhas-pretas de sua  beleza quando eu avançava pelos poentes de minha mãe, nua e mínima, para iniciar o grande erro.

Neste mundo, nesta pedra escura, não é crime te invocar, rasgar tua pálpebra de luz com amor, com implacáveis anzóis?

Somos pequenas mortes em tua morte?

Ou nos recebe como sombras em tuas costas de sombra, em teu silêncio acostumado ao mar?

Não: chega aqui com teu murmúrio ao redor, que nos ama, depois de tudo, com a clara paciência de um rio, você, cercada de vento, rosto de alma.

 

III

vento nas torres do rio oeste ri distante a boca extinta empapado em suor o corpo busca uma cabeça de chacal nos pátios se acende o nome oculto vibra a noite (por que meu amor este poema vazio ) sob a lua de metal o galo sonha aglomeradas vigílias (por que meu amor esta casa de ar)

 

IV

as palavras em branco rabiscadas repletas malqueridas as palavras aceitam ao que escreve convertemos cada noite em palavra?

altas mentiras?

tetos de ar que abrigam para não te recordar a cada passo que a raposa está no encalço e permite no entanto que escape?

corre sim corre queima a estopa de tua liberdade e anseia grades mas onde há grades?

só há estranhamento e te faço senhas e alguma vez há flores ou espessura de sol quão longe estou dentro de mim nunca te disse: sou um infinito disfarçado de osso corre corre te busca solta os deuses pelo rastro corre corre te inventa solta as fúrias pelo rastro e alguma vez há luzes ou ferradura de amor (altas mentiras) (redenções do barro) as palavras proféticas riscadas gravemente feridas as palavras atrapalham ao que escreve.

§

I

 Yo creo en las Noches. R. M. Rilke

 Ayer tarde pensé que ningún jardín justifica el amor que se ahoga desaforadamente en mi boca y que ninguna piedra de color, ningún juego, ninguna tarde con más sol que de costumbre alcanzan a formar la sílaba, el susurro esperado como un bálsamo, noche y noche.

 Ningún significado, ningún equilibrio, nada existe cuando el no, el adiós, el minuto recién muerto, irreparable, se levantan inesperadamente y enceguecen hasta morirnos en todo el cuerpo, infinitos.

 Como un hambre, como una sonrisa, pienso, debe ser la soledad puesto que así nos engaña y entra y así la sorprendemos una tarde reclinada sobre nosotros.

 Como una mano, como un rincón sencillo y umbroso debería ser el amor para tenerlo cerca y no desconocerlo cada vez que nos invade la sangre.

 No hay silencio ni canción que justifiquen esta muerte lentísima, este asesinato que nadie condena.

 No hay liturgia ni fuego ni exorcismo para detener el fracaso risible de los idiomas que conocemos.

 La verdad es que me ahogo sin pena, por lo menos he resistido al engaño: no participé de la fiesta suave, ni del aire cómplice, ni de la noche a medias.

 Muerdo todavía y aunque poco se puede ya, sonrisa guarda un amor que asustaría a dios.


II

 Volverá esa mujer de muchos nombres, su mirada sin ojos.

 Ella gritaba ya en los corredores como un cardumen de violines rabiosos, ya se nutrían las cornejas de su hermosura cuando avanzaba yo por los puentes de mi madre, desnuda y mínima, para iniciar el gran error.

 En este mundo, en esta piedra oscura ¿no es crimen invocarte, rasgar tu párpado de luz con amor, con despiadados anzuelos?

 ¿Somos pequeñas muertes en tu muerte?

 ¿O nos recibes como a sombras en tu espalda de sombra, en tu silencio acostumbrado al mar?

 No: he aquí que llegas con tu murmullo alrededor, que nos amas, después de todo, con la clara paciencia de un río, tú, circuída de viento, rostro de alma.


III

 viento en las torres del oeste ríe lejana la boca extinta empapado en sudor el cuerpo busca una cabeza de chacal en los patios se enciende el nombre oculto vibra la noche (por qué mi amor este poema vacío) bajo la luna de metal el gallo sueña aglomeradas vigilias (por qué amor mío esta casa de aire)


IV

 las palabras en blanco borroneadas repletas malqueridas las palabras acechan al que escribe ¿convertiremos cada noche en palabra?

 ¿altas mentiras?

 ¿techos de aire que alberguen para no recordarte a cada paso que el zorro está en la huella y permite que escapes todavía?

 corre sí corre quemas la estopa de tu libertad y anhelas barrotes pero ¿dónde hay barrotes?

 solo hay ajenidad y te hago señas y alguna vez hay flores o espesura de sol qué lejos estoy dentro de mí nunca te dije: soy un infinito enmascarado de hueso corre corre búscate suelta a los dioses por el rastro corre corre engéndrate suelta a las furias por el rastro y alguna vez hay luces o herradura de amor (altas mentiras) (redenciones del barro) las palabras proféticas tachadas malheridas las palabras atrapan al que escribe.

***

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Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

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