poesia, tradução

Juan L. Ortiz, por Ricardo Corona

Há não muito tempo apresentamos aqui a poesia de Juan L. Ortiz em tradução de Sandra Santos, que vocês podem conferir aqui. Agora, felizmente, temos mais pelas mãos de Ricardo Corona.

guilherme gontijo flores

* * *

UMA POESIA DO FUTURO

 

Juan Laurentino Ortiz – ou simplesmente Juanele – nasceu em 1896 em Puerto Ruiz, povoado de Gualeguay, província de Entre Ríos. Aos 17 anos ingressou na Faculdade de Filosofia e Letras de Bueno Aires, onde conheceu alguns poetas e chegou a ser publicado em revistas. Fez uma insólita e rápida viagem a Marselha em um navio cargueiro, antes de, aos 20 anos, voltar a Gualeguay para ali viver até se aposentar, em 1942 e mudar-se para a cidade de Paraná, em uma casa em frente ao rio, onde viveu até a sua morte, em 1978. Saiu raras vezes de Paraná para realizar conferências em Santa Fé ou Buenos Aires e fez uma viagem de dois meses pela Europa Oriental e China, nos anos de 1950. Mas estava conectado com a poesia feita no mundo, traduzindo, entre outros, Ungaretti, Élouard, Pound e vários poetas chineses.

Em 1970, a Editorial Biblioteca de Rosario publicou En el aura del sauce, antologia em três volumes de todos os seus livros, feitos sempre em pequenas tiragens e em edições do autor: El agua y la noche (1933), El alba sube (1937), El ángel inclinado (1938), La rama hacia el este (1940), El álamo y el viento (1947), El aire conmovido (1949), La mano infinita (1951), La brisa profunda (1954), El alma y las colinas (1956), De las raíces y del cielo (1958) e El junco y la corriente – este último feito a partir da viagem pelo Oriente e preparado pelo autor especialmente para a antologia. Embora esta antologia tenha contribuído para que a sua poesia saísse do círculo restrito dos amigos poetas e especialistas, parte significativa da tiragem foi apreendida e queimada pelo regime militar argentino. Somente em 1996 que a Universidad Nacional del Litoral, de Santa Fé, publicou o volume Obra completa, organizado por Sergio Delgado, que incluiu poemas inéditos, cartas, ensaios do autor e uma fortuna crítica.

De tal modo Juanele viveu fascinado com os movimentos mínimos da paisagem que inventou “uma lírica consubstanciada com a natureza, tendente ao sussurro, ao balbucio, com uma sintaxe lânguida e mimetizada com o fluir da água”, nas palavras de César Aira, em texto de apresentação de Una poesía del futuro (Mansalva, 2008), livro de entrevistas com o poeta, organizado por Osvaldo Aguirre. Mas antes de uma poesia regionalista, uma eco-poesia, tal é a força da experiência de “pura presença, de um quase resplendor, sem forma, ou a poesia muito fluída e aérea dos estados interiores – harmonia ou visão”, conforme o próprio Juanele testemunhou em carta a um amigo. Assim como Bonnefoy e Ponge, Juanele queria a poesia como possibilidade de esperança: “a poesia não pertence a ninguém ou é de todos”, escreveu em “Mi experiencia”, prólogo de Una poesía del futuro. Havia algo mais neste homem delicado, de vida humilde, com hábitos eremitas, que amava o imperceptível. Tamara Kamenszain, em 1973, após voltar de Paraná, onde havia entrevistado o poeta (publicada no mesmo ano no jornal Clarín), confidenciou a Arturo Carrera (relatado em Ensayos murmurados, Mansalva, 2009) que Juanele havia demorado para atendê-la. Quando finalmente apareceu para a entrevista, desculpara-se dizendo que estava se penteando, que estava arrumando cuidadosamente os fios de seu cabelo para que obtivessem uma consistência de espuma, “para que o ar fluísse mais entre os fios” e assim pudessem gozar como gozam as folhas e o talos das plantas.

§

NAS GARGANTAS DE YAN-TSÉ

O que ouviu Tou-Fou, o que ouviu
nestes silêncios que não deixam de subir e, ao cair,
fluídos de íris,
assim,
apesar de seu espanto sem tempo?

Sentiu, somente, como Li-Tai-Po, que se acendiam uns gritos por aí?
E a vertigem da pedra,
e a vertigem da angústia
que de improviso não aceita sequer a sua agonia,
………………………………………de palha,
……………………………..esvoaçando, quase invisível,
………………………………………………….num junco…
que nem isso admite para perder-se, para perder-se, em seguida, em um sem limite
………………………………………………….de angústia… ou de névoa?

EN LAS GARGANTAS DEL YAN-TSÉ

Qué oyó Tou-Fou, qué oyó
en estos silencios que no dejan de subir y a la vez de caer,
fluidos de iris,
así,
a pesar de su espanto sin tiempo?

Sintió, solamente, como Li-Tai-Pé, que se prendían unos gritos por ahí?
Y el vértigo de la piedra,
y el vórtice de la angustia
que no admite, de improviso, ni siquiera su agonía,
…………………………………………de paja,
………………………………..aleteando, invisiblemente, casi,
…………………………………………………en un junco…
que no admite ni eso para perderse, para perderse, en seguida, en un sin limite
…………………………………………………de congoja… o de niebla?

De El junco y la corriente (1970)

§

FUI AO RIO…

Fui ao rio, e o sentia
perto de mim, em minha frente.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam até mim.
A correnteza dizia
coisas que não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir nele o que dizia o céu vago e pálido
com suas primeiras sílabas alongadas,
mas não conseguia.

Voltava
— Era eu quem voltava? —
na angústia vaga
de sentir-me sozinho entre as últimas e secretas coisas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus reflexos fundos, apenas estrelados.
Corria o rio em mim com suas ramagens.
Eu era um rio no anoitecer,
e suspiravam em mim as árvores,
e a vereda e as ervas se apagavam em mim.
Atravessava-me um rio! Atravessava-me um rio!

FUI AL RÍO…

Fui al río, y lo sentía
cerca de mí, enfrente de mí.
Las ramas tenían voces
que no llegaban hasta mí.
La corriente decía
cosas que no entendía.
Me angustiaba casi.
Quería comprenderlo,
sentir qué decía el cielo vago y pálido en él
con sus primeras sílabas alargadas,
pero no podía.

Regresaba
—¿Era yo el que regresaba?—
en la angustia vaga
de sentirme solo entre las cosas últimas y secretas.
De pronto sentí el río en mí,
corría en mí
con sus orillas trémulas de señas,
con sus hondos reflejos apenas estrellados.
Corría el río en mí con sus ramajes.
Era yo un río en el anochecer,
y suspiraban en mí los árboles,
y el sendero y las hierbas se apagaban en mí.
Me atravesaba un río, me atravesaba un río!

De El ángel inclinado (1937)

§

DIA GRIS

O que nos indaga o vago
horizonte que vem
à nossa melancolia
pleno de gestos molhados
— feito fantasma que
absorve os arvoredos
e nos inverte o lírio
úmido e sozinho de alma?

DÍA GRIS

¿Qué nos pregunta el vago
horizonte que se viene
a nuestra melancolía
lleno de gestos mojados
—tendido fantasma que
absorbe las arboledas
y nos invierte el lirio
húmedo y solo del alma?

De El agua y a la noche (1924-1932)

§

PARA QUE OS HOMENS…

Para que os homens não tenham vergonha da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis ou profundas
da unidade ou espelhos de nosso esforço
por penetrar o mundo,
com semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia de nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores,
e sejamos iguais a nós mesmos na delicada irmandade,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos ao nosso limite extremo,
nos perderemos na hora do dom com o sorriso
anônimo e certo de uma semente na noite da terra.

PARA QUE LOS HOMBRES…

Para que los hombres no tengan vergüenza de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles o profundas
de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores,
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos a nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

De La rama hacia el este (1940)

§

LETRA

Pelos campos vai a menina perdida na felicidade
………………………………..amarela. Fada
dos trigos, alada sobre
………………………………………….os olhos
das papoulas e narcisos…

…………………………………………………Vai a menina
com olhos mais leves que o abril do céu…
…………………………………………………Vai a menina,
…………………………………………………vai a menina…

……………….E ela não sabe
……………….que a tarde será do rio…

Ela não sabe que o esquecimento da nuvem
………………………………..sobre a colina eterna
canta nela silenciosamente doce,
……………….oh, silenciosamente doce…
oh, nela, silenciosamente doce
………………………………..como o ar…

LETRA

para “La niña de los cabellos de lino”

Por los campos va la niña perdida en la dicha
………………………………..amarilla. Hada
de los trigos, alada sobre
…………………………………………..los ojos
de las amapolas y los narcisos…

…………………………………………………Va la niña
con ojos más ligeros que el abril del cielo…
…………………………………………………Va la niña,
…………………………………………………va la niña…

……………….Y ella no sabe
……………….que la tarde será del río…

Ella no sabe que el olvido de la nube
………………………………..sobre la colina eterna
canta en ella silenciosamente dulce,
……………….oh, dulce silenciosamente…
oh, dulce silenciosamente en ella
………………………………..como el aire…

De El junco y la corriente (1970)

* * *

Ricardo Corona (Curitiba, 1962) é autor de Mandrágora (Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012 – indicado ao prêmio Ausiás March de Mejor Poemario 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009), Corpo sutil (SP, Iluminuras, 2005), entre outros. Com Joca Wolff traduziu Momento de simetria (Curitiba, Medusa, 2005) e Máscara âmbar (Bauru, Lumme, 2008), de Arturo Carrera. Traduziu Livro deserto (Curitiba, Medusa, 2013), de Cecília Vicuña e publicou em revistas (escamandro, bólide, zunái) traduções de Henri Michaux, Juan L. Ortíz, William Carlos Williams, Gari Snyder e Mario Bellatin.

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Carina Sedevich, por Jennifer Araújo

carina-semi

Carina Sedevich nasceu em Santa Fé, Argentina em 1972 e atualmente reside em Córdoba, Argentina. Licenciada em Comunicação pela Universidade Nacional de Vila Maria e doutora em Semiótica pela Universidade Nacional de Córdoba, a poeta publicou até o momento 10 livros de poesia: La violencia de los nombres (Ediciones Fe de Ratas, Santa Fé, 1998); Nosotros No (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Cosas dentro de otra cosa (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Como segando un cariño oscuro (Llanto de Mudo Ediciones, Córdoba, 2012); Incombustible (Alción Editora, Córdoba, 2013); Escribió Dickinson (Alción Editora, Córdoba, 2014); Klimt (Suburbia Ediciones, Gijón, España e Club Hem Editores, La Plata, 2015); Gibraltar (Dínamo Poético Editorial, Córdoba, 2015); Un cardo ruso (Ediciones del Movimiento, Maracaibo, Venezuela e Alción Editora, Córdoba, 2016); Cuadernos de Lolog (Pasto Ediciones, Córdoba, 2016).

Carina nunca viu a literatura como carreira, sendo a poesia, desde a infância, um prazer e não uma (futura) profissão para a autora.  Carina Sedevich acredita não seguir ou pertencer a nenhum movimento literário e diz não saber apontar quais são as influências de sua escrita, pois não tem formação em específica em literatura e quando questionada, em entrevista, sobre os autores pelos quais se interessa a poeta faz uma longa lista de nomes de diferentes nacionalidades e estilos. Entretanto, apesar de a autora não dar nomenclatura, formato ou rótulo a sua poesia, o leitor pode perceber, logo nos primeiros contatos, uma escrita intimista e, ao passo que descobre um pouco mais sobre sua vida, nota um forte traço biográfico. O leitor pode ver claramente essa questão autobiográfica nas poesias de Carina, principalmente após ver suas entrevistas, pois a própria autora afirma que seus livros acompanham sua vida, sendo perceptível o relato sutil e por vezes explícito de acontecimentos pessoais como depressão, divórcio e mudança do filho.  Quanto à forma, sua poesia não apresenta forma fixa, métrica ou rima exata, o formato de seus textos muda de livro para livro, de poema para poema. Quanto a temática, Carina escreve sobre temas cotidianos, como amor, desamor, passado, morte, mudanças interiores e exteriores, entre outros, em suma, a autora diz escrever sobre a vida, pois acredita que não é possível escrever sobre outra coisa:

          “Con respecto a los temas de mi escritura debo decir que no los elijo: los temas de mi escritura vienen a mí como viene la vida. Escribo sobre la vida, creo que es imposible escribir sobre otra cosa. Siempre digo que no hay muchos temas para el ser humano: la vida, por ende la muerte. Y dentro del infinito tema de la vida caben todas las cuestiones en que las personas pueden pensarse, sentirse, ser: el amor, el desamor, el sentido, el sinsentido.  Así que no hago otra cosa que escribir sobre eso.” (Carina Sedevich em entrevista 26/10/2016).

***

  1. (de Gibraltar, 2015)

 El olvido es un fruto que requiere trabajo.

Casi siempre tardío, pero rara vez dulce.
No es uva ni es la parra donde pende el racimo.

No es como la sombra que daría la parra
ni como sus raíces contraídas y bruscas.

Se parece a la piedra del cantero y la fuente
que apisona la parra, que la ordena y la ciñe.

*

Hay que hacer saltar el olvido de un golpe
como a una piedra caliza en la cantera.

Que se entibie en la mano que quiera tallarla.
Sea opaca a los ojos. Sea venérea y ajena.

*

Una piedra tan blanca es casi como un niño.
Casi un sacramento para mí.

Inclino mis huesos como panes ácimos
sobre cunas que guardan el amor ajeno.

Qué fue de la ternura que pude sentir.
La siento en la garganta bajar como una hostia.

O esquecimento é um fruto que requer trabalho.

Quase sempre tardio, porém raramente doce.
Não é uva nem é a videira de onde pende o cacho.

Não é como a sombra que a videira daria
nem como suas raízes comprimidas e ásperas.

Se parece com a pedra do cercado e a fonte
que pisoteia a vide, que a ordena e a cinge.
*

Deve-se arremessar o esquecimento de súbito
como uma pedra de calcário na pedreira.

Que se aquece na mão que queira esculpi-la.
Seja opaca aos olhos. Seja venérea e alheia.
*

Uma pedra tão branca é quase como um filho.
Quase um sacramento para mim.

Dobro meus ossos como pães ázimos
sobre berços que guardam o amor ao outro.

O que houve com a ternura que pude sentir.
A sinto na garganta descendo como uma hóstia.
§

  1. (de Escribió Dickinson, 2014)


Enciendo la lámpara de sal de la montaña

junto a mi cama.
Me suelto el pelo
recordando las canas invisibles.
Me acuesto entre las sábanas de hilo
con la bata dorada de la China.
Debajo mi piel blanca no desea
ni en sus botones rosados
ni en sus lunares pálidos.
Sobre la almohada se escuchan mis anillos
porque está fresco, quizás,
y se afinaron mis dedos.
El oro, la plata, la amatista.
Afuera la noche se ha espesado
porque terminó la luna llena.
Empieza el mes que precede al invierno.

Qué ligera que soy sin tus deseos.

Qué dulce corre el alma
en mi esqueleto.
Qué cierta es esta cara y estos flancos
qué ciertos que son,
qué delicados.
Me admira mi gata, blanca y parda,
y yo la admiro a ella en su silencio.
Hasta el perfume rojo de las flores
tengo.

Qué ligera que soy sin mis deseos.

Acendo a lâmpada de sal da montanha
ao pé de minha cama.
Solto meu cabelo
recordando os grisalhos invisíveis.
Me deito entre os lençóis de linho
com o chambre dourado da China.
Por baixo, minha pele branca não deseja
nem com seus botões rosados
nem com suas pintas pálidas.
Sobre a almofada se ouvem meus anéis
porque está fresco, talvez,
e se afinaram meus dedos.
O ouro, a prata, a ametista.
Lá fora a noite está mais espessa
porque terminou a lua cheia.
Inicia o mês que precede o inverno.

Como sou ágil sem seus desejos.

Como corre suave a alma
em meu esqueleto.
Como é pura esta cara e estas curvas
como são puras,
tão delicadas.
Minha gata me admira, branca e parda,
e eu a admiro em seu silêncio.
Até o perfume vermelho das flores
tenho.

Como sou ágil sem meus desejos.
§

3. (de Cuadernos de Lolog, 2016)

 

 Palermo, Buenos Aires

 

 El viento mueve las hojas de los árboles

como señales de luz intermitente

junto al sendero donde sé que vive

el hombre aquel, que yo quería tanto.

Vuelve su nombre, cada vez más raro,

como una caja que se quedó vacía.

*

No voy a verlo.

Cae la semilla de los plátanos.

Vuelan los pájaros,

demasiado bajo.

Mujeres hermosas

pasan muchas.

Más que los copos

que caen de las ramas

o la bandada

de palomas locas.

*

Yo envejezco.

*

Estoy lejos de todo.

De la Belleza,

de la Inmensidad.

Ahora que Comprendo

y Compadezco,

ahora que cualquier lugar

es bueno,

estoy arribando siempre tarde.

*

Pasan los hombres sin Misterio

sobre mi corazón sin Inquietud.

*

Sólo cuando lo olvido todo

el tiempo se mueve, intempestivo.

Profundamente,

como un atentado.

*

-Estas flores blancas que se abren

sobre los árboles, para Navidad,

parece que lo hicieran a propósito.-

Palermo, Buenos Aires

O vento move as folhas das árvores

como sinais de luz intermitente

junto ao caminho onde sei que vive

o homem  a quem eu amava tanto.

Seu nome volta, cada vez menos,

como uma caixa que ficou vazia.

*

Não vou vê-lo.

Cai a semente das árvores.

Voam os pássaros,

muitíssimo baixo.

Mulheres formosas

passam muitas.

Mais que os flocos

que caem dos galhos

ou a revoada

de pombas loucas.

*

Eu envelheço.

*

Estou distante de tudo.

Da Beleza,

da Imensidão.

Agora que Compreendo

e Compadeço,

agora que qualquer lugar

é bom,

estou chegando sempre tarde.

*

Passam os homens sem Mistério

sobre meu coração sem Inquietude.

*

Só quando o esqueço por completo

o tempo muda, intempestivo.

Profundamente,

como um atentado.

*

– Estas flores brancas que se abrem

sobre as árvores, para o Natal,

parece que o fizeram de propósito.-

***

Jennifer Araújo, graduanda no curso de Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa, com habilitação em Português como Língua Estrangeira) na Universidade Estadual de Campinas.

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1 versão pra linhas retas – Susana Thénon, por Nina Rizzi

 

thenon-susana-gr

susana thénon (buenos aires/ argentina, 1937-1990). além de poeta, foi tradutora, ensaísta e fotógrafa artística. senhora de uma voz irônica, sua poesia não se assemelha a de nenhum outro conterrâneo, embora seja comumente associada , junto com alejandra pizarnik e juana bignozzi, a chamada geração de 60; não fez parte de nenhum grupo ou movimento literário, sua relação com os poetas de sua geração é quase nula, salvo exceções como maria negroni, que mais tarde compilou seus livros póstumos La Morada Imposible I y II, e alejandra pizarnik, com quem publicou na revista literária agua viva, nos anos 60 e uma de suas poucas amigas. a linha reta que se segue abaixo consta no volume La morada imposible (corregidor, 2001), que reúne as obras completas de susana thénon (1931-1991), em edicão de ana maría barrenechea e maría negroni.

p.s.: em 2013 traduzi o volume Susana Thénon: Habitante do Nada, que pode ser lido e baixado aqui!

a linha reta abaixo é uma primeira versão para o que não pode ser reto – soa estranho o maravilhamento; qualquer coisa entre o impossível y o necessário. a paixão o rastro y o fracasso.

***

 I

Eu creio nas Noites. – R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica o amor que se afoga desaforadamente em minha boca e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo, nenhuma tarde com mais sol que de costume, conseguem formar a sílaba, o sussurro esperado como um bálsamo, noite e noite.

Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe quando o não, o adeus, o minuto recém-morto, irreparável, se levantam inesperadamente e cegam até morrermos em todo o corpo, infinitos.

Como uma fome, como um sorriso, penso, deve ser a solidão, já que assim que nos engana e entra e assim a surpreendemos uma tarde reclinada sobre nós.

Como uma mão, como um recanto simples e sombreado deveria ser o amor para tê-lo perto e não desconhecê-lo cada vez que nos invade o sangue.

Não há silêncio nem que canção que justifiquem esta morte lentíssima, este assassinato que ninguém condena.

Não há liturgia nem fogo nem exorcismo para deter o fracasso risível dos idiomas que conhecemos.

A verdade é que me afogo sem penalidade, pelo menos resisti ao engano: não participarei da festa suave, nem do ar cúmplice, nem da metade da noite.

Mordo ainda e ainda que pouco se pode já, sorriso guarda um amor que assustaria a deus.

 

II

Voltará essa mulher de muitos nomes, sua morada sem olhos.

Ela gritava já nos corredores como um cardume de violinos raivosos, já se nutriam as gralhas-pretas de sua  beleza quando eu avançava pelos poentes de minha mãe, nua e mínima, para iniciar o grande erro.

Neste mundo, nesta pedra escura, não é crime te invocar, rasgar tua pálpebra de luz com amor, com implacáveis anzóis?

Somos pequenas mortes em tua morte?

Ou nos recebe como sombras em tuas costas de sombra, em teu silêncio acostumado ao mar?

Não: chega aqui com teu murmúrio ao redor, que nos ama, depois de tudo, com a clara paciência de um rio, você, cercada de vento, rosto de alma.

 

III

vento nas torres do rio oeste ri distante a boca extinta empapado em suor o corpo busca uma cabeça de chacal nos pátios se acende o nome oculto vibra a noite (por que meu amor este poema vazio ) sob a lua de metal o galo sonha aglomeradas vigílias (por que meu amor esta casa de ar)

 

IV

as palavras em branco rabiscadas repletas malqueridas as palavras aceitam ao que escreve convertemos cada noite em palavra?

altas mentiras?

tetos de ar que abrigam para não te recordar a cada passo que a raposa está no encalço e permite no entanto que escape?

corre sim corre queima a estopa de tua liberdade e anseia grades mas onde há grades?

só há estranhamento e te faço senhas e alguma vez há flores ou espessura de sol quão longe estou dentro de mim nunca te disse: sou um infinito disfarçado de osso corre corre te busca solta os deuses pelo rastro corre corre te inventa solta as fúrias pelo rastro e alguma vez há luzes ou ferradura de amor (altas mentiras) (redenções do barro) as palavras proféticas riscadas gravemente feridas as palavras atrapalham ao que escreve.

§

I

 Yo creo en las Noches. R. M. Rilke

 Ayer tarde pensé que ningún jardín justifica el amor que se ahoga desaforadamente en mi boca y que ninguna piedra de color, ningún juego, ninguna tarde con más sol que de costumbre alcanzan a formar la sílaba, el susurro esperado como un bálsamo, noche y noche.

 Ningún significado, ningún equilibrio, nada existe cuando el no, el adiós, el minuto recién muerto, irreparable, se levantan inesperadamente y enceguecen hasta morirnos en todo el cuerpo, infinitos.

 Como un hambre, como una sonrisa, pienso, debe ser la soledad puesto que así nos engaña y entra y así la sorprendemos una tarde reclinada sobre nosotros.

 Como una mano, como un rincón sencillo y umbroso debería ser el amor para tenerlo cerca y no desconocerlo cada vez que nos invade la sangre.

 No hay silencio ni canción que justifiquen esta muerte lentísima, este asesinato que nadie condena.

 No hay liturgia ni fuego ni exorcismo para detener el fracaso risible de los idiomas que conocemos.

 La verdad es que me ahogo sin pena, por lo menos he resistido al engaño: no participé de la fiesta suave, ni del aire cómplice, ni de la noche a medias.

 Muerdo todavía y aunque poco se puede ya, sonrisa guarda un amor que asustaría a dios.


II

 Volverá esa mujer de muchos nombres, su mirada sin ojos.

 Ella gritaba ya en los corredores como un cardumen de violines rabiosos, ya se nutrían las cornejas de su hermosura cuando avanzaba yo por los puentes de mi madre, desnuda y mínima, para iniciar el gran error.

 En este mundo, en esta piedra oscura ¿no es crimen invocarte, rasgar tu párpado de luz con amor, con despiadados anzuelos?

 ¿Somos pequeñas muertes en tu muerte?

 ¿O nos recibes como a sombras en tu espalda de sombra, en tu silencio acostumbrado al mar?

 No: he aquí que llegas con tu murmullo alrededor, que nos amas, después de todo, con la clara paciencia de un río, tú, circuída de viento, rostro de alma.


III

 viento en las torres del oeste ríe lejana la boca extinta empapado en sudor el cuerpo busca una cabeza de chacal en los patios se enciende el nombre oculto vibra la noche (por qué mi amor este poema vacío) bajo la luna de metal el gallo sueña aglomeradas vigilias (por qué amor mío esta casa de aire)


IV

 las palabras en blanco borroneadas repletas malqueridas las palabras acechan al que escribe ¿convertiremos cada noche en palabra?

 ¿altas mentiras?

 ¿techos de aire que alberguen para no recordarte a cada paso que el zorro está en la huella y permite que escapes todavía?

 corre sí corre quemas la estopa de tu libertad y anhelas barrotes pero ¿dónde hay barrotes?

 solo hay ajenidad y te hago señas y alguna vez hay flores o espesura de sol qué lejos estoy dentro de mí nunca te dije: soy un infinito enmascarado de hueso corre corre búscate suelta a los dioses por el rastro corre corre engéndrate suelta a las furias por el rastro y alguna vez hay luces o herradura de amor (altas mentiras) (redenciones del barro) las palabras proféticas tachadas malheridas las palabras atrapan al que escribe.

***

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Juan Laurentino Ortiz, por Sandra Sandos

Juan L. Ortiz

Juan Laurentino Ortiz (Puerto Ruiz, 1896 – Paraná, 1978) foi um poeta argentino, mais conhecido por Juan L. Ortiz. A sua infância foi passada num meio rural da Mesopotâmia argentina e a sua juventude em Buenos Aires, onde se envolveu ativamente a nível político e intelectual nos valores do anarquismo. Regressou à sua cidade natal, Entre Ríos, trabalhando como empregado público. Inicialmente, a sua poesia revelava algum intimismo pós-modernista, contudo evoluiu para temáticas relacionadas com o sentimento cósmico da paisagem e um humanitarismo solidário. Traduziu a poesia de Paul Éluard, Guisseppe Ungaretti, Ezra Pound e alguns poetas chineses. Retirado dos círculos literários, a sua obra obteve uma difusão escassa e publicada de forma dispersa em vários poemários: “El agua y la noche”; “El alba sube”; “El ángel inclinado”; “La rama hacia el Este”; “El álamo y el viento”; “El aire conmovido”; “La mano infinita” e “La brisa profunda”. Em 1971, estas obras reuniram-se em três volumes com o título “En el aura del sauce”. Juan L Ortiz falece com 82 anos, legando uma escrita profundamente comungante com a natureza e os conflitos sociais.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

PARA QUE LOS HOMBRES

Para que los hombres no tengan vergüenza
de la belleza de las flores,
para que las cosas sean ellas mismas: formas sensibles
o profundas de la unidad o espejos de nuestro esfuerzo
por penetrar el mundo,
con el semblante emocionado y pasajero de nuestros sueños,
o la armonía de nuestra paz en la soledad de nuestro pensamiento,
para que podamos mirar y tocar sin pudor
las flores, sí, todas las flores
y seamos iguales a nosotros mismos en la hermandad delicada,
para que las cosas no sean mercancías,
y se abra como una flor toda la nobleza del hombre:
iremos todos hasta nuestro extremo límite,
nos perderemos en la hora del don con la sonrisa
anónima y segura de una simiente en la noche de la tierra.

PARA QUE OS HOMENS

Para que os homens não tenham vergonha
da beleza das flores,
para que as coisas sejam elas mesmas: formas sensíveis
ou profundas da unidade ou espelhos do nosso esforço
em penetrar o mundo,
com o semblante emocionado e passageiro de nossos sonhos,
ou a harmonia da nossa paz na solidão de nosso pensamento,
para que possamos olhar e tocar sem pudor
as flores, sim, todas as flores
e sejamos iguais a nós mesmos na irmandade delicada,
para que as coisas não sejam mercadorias,
e se abra como uma flor toda a nobreza do homem:
iremos todos até o nosso limite extremo,
perder-nos-emos na hora do dom com o sorriso
anónimo e seguro de uma semente na noite da terra.

§

HAY EN EL CORAZÓN DE LA NOCHE

Hay en el corazón de la noche
un roce,

anterior al ángel que deshace
el éxtasis de las hojas,
anterior a los gallos,
al desmayo primero, tenue,
tenuísimo

del cielo,
a esas alas sobresaltadas
¿qué sueño, pesadilla de pájaro?

Hay en el corazón de la noche
un roce.

Cómo es de sensible la noche!

HÁ NO CORAÇÃO DA NOITE

Há no coração da noite
um roçagar,
anterior ao anjo que desfaz
o êxtase das folhas,
anterior aos galos,
ao desmaio primeiro, ténue,
tenuíssimo
do céu,
a essas asas sobressaltadas
que sonho, pesadelo de pássaro?

Há no coração da noite
um roçagar.
Como é sensível a noite!

§

CÓMO ES DE SENSIBLE

¡Cómo es de sensible la emoción del crepúsculo!
El silencio es tan hondo que hace daño casi,
a pesar de que arde, todo floral, arriba,

en la emocionada palidez del cielo,
con eucaliptus negros, de improviso, subidos.

¡Y cómo se prolonga la emoción! ¿Cuándo
una dulzura suave, flotante, alargó tenues
sombras entre las plantas? ¿Cuándo salió la luna?

Soledad de los campos con luna. Soledad.
Campo y luna, dos notas sólo que sostienen
esta música eterna. Campo y luna.
¿Para qué más? Tengamos el oído sutil.

COMO É SENSÍVEL

Como é sensível a emoção do crepúsculo!
O silêncio é tão profundo que quase magoa,
pese embora arda, todo floral, acima,
na emocionada palidez do céu,
com eucaliptos negros, de improviso, elevados.

E como se prolonga a emoção! Quando
uma doçura suave, flutuante, distendeu ténues
sombras entre as plantas? Quando apareceu a lua?

Solidão dos campos com lua. Solidão.
Campo e lua, duas notas só que sustêm
esta música eterna. Campo e lua.
Para quê mais? Tenhamos o ouvido subtil.

§

ES OTOÑO MUCHACHOS…

Es Otoño, muchachos. Salid a caminar.
Otoño en su momento inicial, más hermoso.
No os engañará este azul casi alegre?
¿Alegre?
¿La profundidad tiene alguna vez alegría?

¿No os engañará este verde joyante por momentos?
¿O esta invitación alada de la tarde?
No, una honda presencia deshace las azules sombras
y apaga la alegría del campo
—un luminoso, puro sueño que tiembla.

¿Cómo, y la tarde no se corona de flores
como de un fuego quieto de ángeles guardianes?

Ya está el viento, muchachos, el viento del otoño, del otoño,
violento o suave casi como un suspiro,
una enfermiza alma
de qué oscuros reinos?
que revela en las cosas
un herido pensamiento
de sorprendidas criaturas.

El viento,
niño fúnebre que juega con las últimas ilusiones del cielo
hasta darle una aguda limpieza de extraña agua final.

El viento, muchachos, el viento infinito.

É OUTONO, RAPAZES…

É Outono, rapazes. Ide caminhar.
Outono no seu momento inicial, mais formoso.
Não vos enganará este azul quase alegre?
Alegre?
A profundidade tem alguma vez alegria?

Não vos enganará por momentos este verde jubilante?

Ou este convite alado da tarde?
Não, uma profunda presença desfaz as sombras azuis
e apaga a alegria do campo
– um luminoso, puro sonho que treme -.

Como, e a tarde não se coroa de flores
como de um fogo quieto de anjos guardiões?

Está já o vento, rapazes, o vento do outono, do outono,
violento ou suave quase como um suspiro,
uma enferma alma
de que escuros reinos?
que revela nas coisas
um ferido pensamento
de surpreendidas criaturas.

O vento,
menino fúnebre que joga com as últimas ilusões do céu
até dar-lhe uma aguda limpeza de rara água final.

O vento, rapazes, o vento infinito.

NADA MÁS QUE ESTA LUZ

El éxtasis, el éxtasis,
entre el cielo y la tierra, suspendido,
mejor: que se abre y se dilata como un alma
profunda, pero de una
claridad delicada de serenos
pensamientos sensibles.
Nada más que esta luz, otoño,

otoño, nada más que esta luz
que penetra sutil
las cosas
pero queda
al rededor de ellas, como temblando,
sensitiva
y casi pudorosa.
Nada más que esta luz, otoño.
¿ Es de todos esta luz ?
La calle humilde está
traspasada, y como elevada,
ligera,
en esta dicha etérea.
Pero a todos llegas, otoño,
a todos llegas en esta tarde
en que hay manos translúcidas y eternas
que hacen signos tiernos en el aire

NADA MAIS QUE ESTA LUZ

O êxtase, o êxtase,
entre o céu e a terra, suspenso,
melhor: que se abre e se dilata como uma alma
profunda, mas de uma
claridade delicada de serenos
pensamentos sensíveis.
Nada mais que esta luz, outono,
outono, nada mais que esta luz
que penetra subtil
as coisas
mas permanece
ao redor delas, tremendo,
sensitiva
e quase pudorosa.
Nada mais que esta luz, outono.
É de todos esta luz?
A rua humilde está
trespassada, e como que elevada, ligeira,
na ventura etérea.
Mas a todos chegas, outono,
a todos chegas nesta tarde
en que há mãos translúcidas e eternas
que fazem sinais ternos no ar.

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poesia, tradução

Enrique Molina (1910-97), por Sandra Santos

enrique molina

Enrique Molina foi um poeta e pintor argentino, nascido em Buenos Aires em 1910. Tripulou barcos mercantes nas Caraíbas e na Europa e viveu em vários países da América Latina. A sua poesia e pintura imbuíram-se dos ideais do movimento surrealista, sendo que, junto com Aldo Pellegrini, em 1952, fundou a revista “A partir de cero”. Entre os prémios mais importantes que ganhou, destacam-se o Gran Premio Fondo Nacional de las Artes (1992) e o Premio Konex de Platino (1994). Alguns dos seus títulos publicados: “Las cosas y el delirio” (1941); “Pasiones terrestres” (1946); “Fuego libre” (1962); “Monzón Napalm” (1968); “Los últimos soles” (1980); “El ala de la gaviota” (1985). Faleceu em Buenos Aires aos 87 anos.

Sandra Santos é estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro (Portugal). Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e pro/traduz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.

* * *

ALTA MAREA

Cuando un hombre y una mujer que se han amado se separan
se yergue como una cobra de oro el canto ardiente del orgullo
la errónea maravilla de sus noches de amor

las constelaciones pasionales
los arrebatos de su indómito viaje sus risas a través de las piedras sus plegarias y cóleras
sus dramas de secretas injurias enterradas

sus maquinaciones perversas las cacerías y disputas
el oscuro relámpago humano que aprisionó un instante el furor de sus cuerpos con el lazo
fulmíneo de las antípodas
los lechos a la deriva en el oleaje de gasa de los sueños
la mirada de pulpo de la memoria
los estremecimientos de una vieja leyenda cubierta de pronto con la palidez de la tristeza y
todos los gestos del abandono

dos o tres libros y una camisa en una maleta
llueve y el tren desliza un espejo frenético por los rieles de la tormenta
el hotel da al mar
tanto sitio ilusorio tanto lugar de no llegar nunca
tanto trajín de gentes circulando con objetos inútiles o
enfundadas en ropas polvorientas
pasan cementerios de pájaros
cabezas actitudes montañas alcoholes y contrabandos informes
cada noche cuando te desvestías
la sombra de tu cuerpo desnudo crecía sobre los muros hasta el techo
los enormes roperos crujían en las habitaciones inundadas
puertas desconocidas rostros vírgenes
los desastres imprecisos los deslumbramientos de la aventura
siempre a punto de partir
siempre esperando el desenlace
la cabeza sobre el tajo
el corazón hechizado por la amenaza tantálica del mundo

Y ese reguero de sangre
un continente sumergido en cuya boca aún hierve la espuma de los días indefensos bajo el soplo del sol
el nudo de los cuerpos constelados por un fulgor de lentejuelas insaciables
esos labios besados en otro país en otra raza en otro planeta en otro cielo en otro infierno
regresaba en un barco

una ciudad se aproximaba a la borda con su peso de sal como un enorme galápago
todavía las alucinaciones del puente y el sufrimiento del trabajo marítimo con el desplomado
trono de las olas y el árbol de la hélice que pasaba justamente bajo mi cucheta

éste es el mundo desmedido el mundo sin reemplazo el mundo desesperado como una fiesta
en su huracán de estrellas

pero no hay piedad para mí
ni el sol ni el mar ni la loca pocilga de los puertos
ni la sabiduría de la noche a la que oigo cantar por la boca de las aguas y de los campos con las
violencias de este planeta que nos pertenece y se nos escapa
entonces tú estabas al final
esperando en el muelle mientras el viento me devolvía a tus brazos como un pájaro
en la proa lanzaron el cordel con la bola de plomo en la punta y el cabo de Manila fue recogido
todo termina
los viajes y el amor
nada termina
ni viajes ni amor ni olvido ni avidez
todo despierta nuevamente con la tensión mortal de la bestia que acecha en el sol de su instinto
todo vuelve a su crimen como un alma encadenada a su dicha y a sus muertos
todo fulgura como un guijarro de Dios sobre la playa
unos labios lavados por el diluvio y queda atrás
el halo de la lámpara el dormitorio arrasado por la vehemencia del verano y el remolino de las
hojas sobre las sábanas vacías

y una vez más una zarpa de fuego se apoya en el corazón de su presa
en este Nuevo Mundo confuso abierto en todas direcciones
donde la furia y la pasión se mezclan al polen del Paraíso
y otra vez la tierra despliega sus alas y arde de sed intacta y sin raíces
cuando un hombre y una mujer que se han amado se separan.

*

MARÉ ALTA

Quando um homem e uma mulher que se amaram se separam
ergue-se como que uma cobra de ouro o canto ardente da vanglória
a errónea maravilha das suas noites de amor
as constelações passionais
os arrebatos da sua indómita viagem os seus risos através das pedras as suas preces e cóleras
os seus dramas de secretas injúrias sepultadas
as suas maquinações perversas as buscas e disputas
o escuro relâmpago humano que aprisionou num instante o furor de seus corpos com o laço
fulmíneo dos antípodas
os leitos à deriva na ondulação de gaza dos sonhos
o olhar de polvo da memória
os estremecimentos de uma velha lenda coberta de repente com a palidez da tristeza e todos
os gestos do abandono
dois ou três livros e uma camisa numa mala
chove e o comboio arrasta um espelho frenético pelos carris da tormenta
o hotel dá para o mar
tanto sítio ilusório tanto lugar que nunca chega
tanto trânsito de gente circulando com objectos inúteis ou
envoltas em roupas empoeiradas
passam cemitérios de pássaros
cabeças atitudes montanhas bebidas e contrabandos
cada noite quando te despias
a sombra do teu corpo desnudo sobre os muros até ao tecto crescia
os enormes roupeiros chiavam nos alagados quartos
rostos virgens portas desconhecidas
os desastres imprecisos os deslumbramentos da aventura
sempre a ponto de partir
sempre à espera do desenlace
a cabeça sobre o talhe
o coração maravilhado pela ameaça tantálica do mundo.

E essa corrente de sangue
um continente submerso em cuja boca ferve ainda a espuma dos dias indefesos sob o sopro do sol
o nó dos corpos revestidos por um fulgor de lantejoulas insaciáveis
esses lábios beijados em outro país em outra raça em outro planeta em outro céu em outro inferno
regressava de barco
uma cidade se acercava à margem com o seu peso de sal como um enorme galápago
no entanto as alucinações da ponte e o sofrimento do trabalho marítimo com o desmoronado
trono das ondas e a árvore da hélice que passava precisamente sob o meu camarote
este é o mundo desmedido o mundo sem substituição o mundo desesperado como uma festa
no seu furacão de estrelas
mas não há piedade de mim
nem o sol nem o mar nem a louca pocilga dos portos
nem a sabedoria da noite em que ouço cantar pela boca das águas e dos campos com as
barbaridades deste planeta que nos pertence e nos escapa
então estavas tu enfim
à espera no molhe enquanto o vento me entregava em teus braços como um pássaro
na proa lançaram o cordel com a bola de pólvora na ponta e o cabo de Manila recolhido
tudo termina
as viagens e o amor
nada termina
nem viagens nem amor nem avidez nem olvido
desperta tudo novamente com a tensão mortal da besta que espia no sol o seu instinto
volta tudo ao seu crime como uma alma cativa aos seus mortos e à sua sina
fulgura tudo sobre a praia como um gode de Deus
uns lábios lavados pelo dilúvio e fica atrás
o clarão da lâmpada o aposento arrasado pela veemência do verão e o remoinho das folhas
sobre os lençóis vazios
e uma vez mais uma pata de fogo se apoia no coração da sua presa
neste Novo Mundo confuso aberto em todas as direcções
onde a fúria e a paixão se misturam no pólen do Paraíso
e novamente a terra expande as suas asas e arde de sede intacta e sem raízes
quando um homem e uma mulher que se amaram se separam.

(Enrique Molina, trad. Sandra Santos)

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jacobo fijman, por nina rizzi

fijman

 

James/Jacobo Fijman (Orhei, Bessarábia, atual Moldova, 25 de janeiro de 1898 – Buenos Aires, 1970). De família judia-russa, mudou para Argentina aos seis anos. Fez parte da avant-garde literária de Martín Fierro, que também estava ligada a Jorge Luis Borges e Oliver Girondo. Além de poeta, foi ensaísta, tradutor, violinista e pintor; desenvolveu vários trabalhos irregulares, e a partir de 1921 começou a sofrer ‘colapsos mentais’, adepto do misticismo, se converteu ao catolicismo em 1930, e colaborou em diversas revistas religiosas antes de ser internado definitivamente com atestado de psicose delirante em 1942, até morrer em 1970 praticamente abandonado. Publicou: Molino Rojo (1926), Hecho de estampas (1930), Estrella de la mañana (1931) e San Julián el pobre (relatos, publicado postumamente em 1985).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente. A tradução é de Nina Rizzi.

Nina Rizzi (SP, 1983), escritora historiadora e tradutora. Tem textos, traduções e poemas em diversas antologias, revistas e suplementos; publicou tambores pra n’zinga (poesia; Multifoco/ Orpheu, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística; Edições Ellenismos); Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução; Edições Ellenismos, 2013) e A Duração do Deserto (poesia; Patuá, 2014).

PS: a Nina já apareceu aqui no blogue anteriormente, com poemas próprios e tradução.

escamandro

 

POEMA VI

Minha voz caiu, minha última voz, que ainda guarda meu nome.
Minha voz:
Pequena linha, pequena canção que nos separa das coisas.

Estamos distantes de minha voz e do mundo, vestidos de umidades brancas.
Estamos no mundo com os olhos na noite.
Minha voz fria e suja como a pele dos mortos.

 

POEMA VI

Ha caído mi voz, mi última voz, que aún guarda mi nombre.
Mi voz:
pequeña líneas, pequeña canción que nos separa de las cosas.

Estamos lejos de mi voz y el mundo, vestidos de humedades blancas.
Estamos en el mundo y con los ojos en la noche.
Mi voz fría y sucia como la piel de los muertos.

(poema de Jacobo Fijman, tradução de Nina Rizzi)

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Julián Axat (1976) por Pádua Fernandes

Julián-AxatJulián Axat (La Plata, 1976) é um dos nomes mais notáveis da poesia argentina contemporânea. Publicou os livros de poesia Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003), Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), Médium (Poética belli) (Buenos Aires: Paradiso, 2006), Ylumynarya (City Bell: Libros de la talita dorada, 2008), Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado, 2013) e Musulmán o biopoética (City Bell: Libros de La Talita dorada, 2013). Organizou a antologia de poesia argentina contemporânea Si Hamet duda lo daremos muerte (City Bell: 2010) e edita a coleção Los detectives salvajes, na editora Libros de la talita dorada, que recupera os escritos dos mortos e desaparecidos pelo terror de Estado e publica autores contemporâneos atentos a essas práticas autoritárias.

Axat é membro da organização HIJOS, criada por filhos desses desaparecidos e mortos. Seus pais foram sequestrados pelos agentes da repressão quanto ele tinha seis meses, e jamais seus corpos foram encontrados. Como jurista, era Defensor Judicial para menores em Plata; agora atua como coordenador do programa Agencia Territorial de Acceso a La Justicia (ATAJO), de acesso comunitário à justiça, do Ministério Público argentino.

O livro musulmán o biopoética refere-se, desde o título, à biopolítica (a que a “biopoética”, nome criado por Axar, faz contraponto) e à figura do “muçulmano” segundo Agamben: não se trata de um islâmico, e sim do preso, nos campos de concentração, que já não mais falava, que estava apartado de tudo. Essa figura, no livro, é o menor em conflito com a lei e as instituições, ou o menor apanhado por instituições em conflito com os direitos humanos, empregando práticas autoritárias que remontam aos tempos da última ditadura.

No poema escolhido, há uma referência à ESMA, Escola Superior de Mecânica da Armada, que serviu de centro de tortura e execução, e foi transformada em um memorial dos crimes da última ditadura. Axat lida com o material de seus processos como defensor na primeira parte, “Mal sobre ruínas del bien”, e expõe na segunda parte do livro, “Pasajes em espejo”, os materiais (jornalísticos e jurídicos) que usou nos poemas da primeira. Trata-se de uma possibilidade de forma poética benjaminiana a partir do Livro das Passagens (que recebeu um texto aqui no escamandro como “extensa obra de colagem deixada inacabada”).

Neo alude ao filme Matrix e seus jogos entre planos de realidades. O poema escolhido alude ao imaginário de Bolaño e sua busca pela poesia e/ou pelos poetas, em um futuro após 2666 (esse ano deu o título do monumental romance do autor chileno publicado postumamente). Andrew Wylie é o agente literário que editou Bolaño em inglês.

O terceiro poema foi retirado de um dos blogues de Axat, El niño rizoma; seu outro é Detectives por la Memoria. Embora o primeiro se concentre em temas jurídicos e o segundo, em assuntos editoriais, em ambos se encontra poesia, e creio que esse é o fundo comum a todas as atividades de Axat.

(Pádua Fernandes)

 

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) é autor dos livros de poesia O palco e o mundo (Lisboa: &etc, 2002), Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012 e, na tradução para o espanhol de Anibal Cristobo, City Bell: Libros de la Talita Dorada, 2013) e Código negro (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013). Organizou a única antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil, A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004). Escreve no blogue O palco e o mundo.

 

de musulmán o biopoética (City Bell: De la talita dorada, 2013)

Mal sobre ruínas do bem

33.
o futuro não / um ossário cheio de vermes

Nadando no extermínio encontrarás / a palavra
“extermínio” /
novamente submersa a encontrarás / e assim / em todas as
camadas do extermínio /
seguirás como possesso / até dar com o último verme /
a gota não exterminada que / levarás a tua garganta
em um gole /
para procurar / um novo dizer

 

Mal sobre ruinas del bien

33.
el futuro no / un osario agusanado

Nadando en el exterminio hallarás / la palabra
“exterminio” /
debajo otra vez la hallarás / y así / en todas las
capas del exterminio /
seguirás como poseso / hasta dar con el último gusano /
la perla no exterminada que / llevarás a tu garganta
de un sorbo /
para procurar / un nuevo decir

 

Passagens em espelho (Bitácora)

33. o futuro não é um ossário cheio de vermes

… cadáveres … / cemitérios de carros afogados no vazio / a memória dos crimes do passado / todo o tempo / a memória dos crimes do presente / como na poesia / escrever Direito depois da ESMA / encontrar “a palavra justa” / escrita / nos expedientes judiciais do porvir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

Pasajes en espejo

33. el futuro no es un osario agusanado

… cadáveres … / cementerios de fojas ahogados en vacio / la memoria de los crímenes del pasado / todo el tiempo / la memoria de los crímenes del presente / como en la poesía / escribir Derecho después de la ESMA / encontrar “la palabra justa” / escrita / en los expedientes judiciales del porvenir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

de Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado Ediciones, 2013)

Bolaño & co.

a Dani Krupa

na noite passada sonhei
com nossa fuga
visitávamos poetas
menores
perdidos
tomávamos vinho
com um poeta prestes a morrer
no ano 2745
nos dizia
já não têm retorno
nesta bolha do tempo
ou buraco ou terceiro olho
as portas da percepção
se se abriram
não se fecham
para vocês
e essa será sua felicidade
a viagem
até o último verso
de mãos dadas
o verso final
escrito com fogo
o verão apagar-se
e dizer
fumarão as cinzas
acharão a saída
para voltar a fugir

Despertei
com um manuscrito do meu lado
chamei Andrew Wylie
o negro literário era eu

Agora tomo daiquiris
e filmo o Ulisses de minha vida
dê-me um filho
que farei dele um criminoso ou um santo

 

Bolaño & co.

a Dani Krupa

anoche soñé
en nuestra fuga
visitábamos poetas
menores
perdidos
tomábamos vino
con un poeta a punto de morir
en el año 2745
nos decía
ya no tienen retorno
en esta burbuja del tiempo
o el agujero o tercer ojo
las puertas de la percepción
si se abrieron
no se cierran
para ustedes
y esa será su felicidad
el viaje
hasta el último verso
agarrados de la mano/
el verso final
escrito con fuego
lo verán apagarse
y decir
se tragarán las cenizas
hallarán la salida
para volverse a fugar

Desperté
con un manuscrito a mi lado
llamé a Andrew Wylie
el negro literario era yo

Ahora tomo daikiris
y filmo el Ulises de mi vida
dadme un niño
que yo haré de él un criminal o un santo

 

Antologia de maus poetas

(retirado do blogue El niño rizoma)

Quero montar una antologia de maus poetas mas ninguém se inclui

eu me incluiria sem falsa modéstia quem mais

os maus poetas buscam a lua e tropeçam no sol

se autoeditam pedem licença ou subornam para figurar em antologias

e na maior parte do tempo / como são maus / ferem o silêncio

até que um dia escrevem de passagem o verso da eternidade mas depois

continuam sendo maus

os maus poetas assaltam bancos perseguem moinhos se disfarçam de funcionários públicos buscam a palavra justa em lixeiras de que não saem senão injustos

por isso os maus poetas de minha futura antologia dão tudo o que têm

por um punhado de sonhos de absolutos escritos malformes segundo os bons poetas

esses que são bons e ponto

Antología de malos poetas

Quiero armar una antología de poetas malos pero nadie se anota

yo me anotaría sin falsa modestia quién más

los malos poetas buscan la luna y tropiezan con el sol

se autoeditan piden permiso o coimean para figurar en antologías

y la mayor parte del tiempo / como son malos / hieren el silencio

hasta que un día escriben al pasar el verso de la eternidad pero después

siguen siendo malos

los malos poetas asaltan bancos persiguen molinos se disfrazan de empleados públicos buscan la palabra justa en basurales de los que no salen sino injustos

por eso los malos poetas de mi futura antología se juegan todo lo que tienen a mano

por un puñado de sueños de absolutos escritos malformes a la vista de los buenos poetas

esos que son buenos y punto

 

(poemas de Julián Axat, tradução de Pádua Fernandes)

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