poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Laura Assis

Laura

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é poeta, editora e professora. Graduou-se em Letras pela UFJF, é mestra em Estudos Literários pela mesma instituição e doutora em Literatura pela PUC-Rio. Participou da antologia Naquela língua (Elsinore, 2017), lançada em Portugal. Teve poemas traduzidos para o inglês e espanhol e publicados em revistas nos EUA e México. É autora do livro Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e das plaquetes Todo poema é a história de uma perda (Edições Macondo, 2016), Mecânica de nuvens aplicada (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e Duas vezes o sol (Aquela Editora, 2019).

* * *

Revelações

I

Nunca estou sozinha nos corredores
de lojas e supermercados;
isso poderia ser uma história de amor,
mas é exatamente o contrário.

II

Existem várias maneiras
de se livrar de um corpo:
obrigue o corpo
a esconder
seu corpo;
olhe pro corpo
como quem vê
outra coisa
no lugar
do corpo;
ensine ao corpo
que tudo bem
ser ferido e morto
por outro corpo;
convença o corpo
de que ele é
apenas um corpo
(e nada mais).

III

Sejam muito bem-vindos ao Encontro dos Pais Que Fingem Que Seus Filhos Não Existem. Apesar dos esforços insistentes de alguns juízes, familiares e de nossos quase invisíveis descendentes, nossa categoria ainda resiste na luta pelo direito de fazer de conta que não temos nada a ver com isso e se ausentar para todo sempre, seja qual for a consequência e o método. Convidamos agora todos para uma confraternização no térreo, sem culpa e sem filhos, com música ao vivo e open bar. 

IV

(outra vez essa imagem
lacerando aí dentro,
mas agora você sabe
o que fazer pra se salvar)

V

entre todas as possibilidades ela escolhe
sem saber a minha preferida quer dizer
se tudo tivesse acontecido de outro modo
se você tivesse me visto antes se tivesse
dito isso se ela tivesse sido vista ou contado
outra história e dito a mesma coisa mas
vindo de outra família enfim eu gosto de
jazz sim e não acredito em astrologia ela
disse e eu até que me viro na cozinha o que
dizer dessa conversa continuo é bom olhar
algo pronto e existindo no mundo e saber
que fui eu que enfim era algo parecido
com o primeiro encontro mas aquele não era
o primeiro e é claro que a gente não chamava
de encontro como se o telefone tocasse agora
e pudesse ou não ser engano um sonho uma
coincidência tudo tinha que poder ser lido até
o último momento de outro modo o acaso um
livro que só se entrega na última página mas
o que fazer nesse caso com a intuição e mais
do que tudo onde colocar as mãos do que você
está falando desculpa talvez eu tenha entendido
tudo errado ou imagina nada disso talvez não

VI

Então peguei o livro, falei que gostava da capa e que leria em breve.
Ela me olhou como se fosse contar um segredo, mas apenas sorriu e disse:
— Meu sobrenome é muito comum, nunca vou ser sua poeta preferida.

VII

Os nomes desaparecem aos poucos,
como luzes desafiando a lógica,
pequenos incêndios que se afogam,
quando amanhece se confundem
com a claridade irrestrita do dia.

Ninguém sabe se foram ofuscados,
ou apenas se desmancharam no ar.

VIII

mãos distantes
corpos próximos
apenas longe
de outros olhos

IX

Há quantos anos escapando por muito pouco todos os dias
antes mesmo do que chamamos manhã começar?

X

Depois de tudo,
acender os olhos,
e repetir o código,
quase um aviso:
a cada corpo,
de um modo
ou de outro,
abandonado
ou perdido,
um verso novo
pra desalinhar
de vez
esse
seu mundo.

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Cecília Floresta

Cecília

Cecília Floresta, afrodescente, é escritora, editora e tradutora. pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, macumbarias, lesbianidades e literaturas insurgentes. tem editados os poemas crus (Patuá, 2016), genealogia (móri zines, 2019) e panaceia¸ que será lançado pela Urutau no segundo semestre de 2020 e de onde foram retirados os poemas aqui publicados.

* * *

quarto crescente

tem dias que escrevo em voz alta
com as mãos relaxadas nas coxas
acho que as palavras cansam
me dobram os joelhos
fazem cair os cabelos
& crescer ideias onde não tinha

Cecília, deixa disso
a princípio
ela não deu indício

tem dias também que não escrevo
deixo que os termos derretam
escorrendo paredes internas
esquentando por dentro o peito
dormitando os sentidos
& calando derradeiros poréns

ela não deu indício
deixa disso
deixa

há dias também que nem sei
como ou por onde começar
a desfazer o silêncio e seus resquícios
que resmungam em meus ouvidos atentos
alimentados por canções antigas
ou a bobeira lânguida & matinal dos gatos

mas as unhas abrindo caminho no estofado
só poderiam ser minhas
embora você não tenha dado início

então deixa disso, Cecília
deixa

§

odisseia

por entre suas coxas devaneio
mareada de perigos assim me vejo
nos movimentos fluidos de seus líquidos
como Ulisses liquefeito em sete mares
ou Grace O’Malley
pirata de águas bravias irlandesas
que esqueceu-se de deixar história contada
ou que apagada se foi dos livros

sereias que me cantam aos ouvidos
convidativas rumo ao fundo
cila, caríbdis, a força das marés
as tempestades incansáveis de ogunté
agindo ao sabor das fúrias

pirata, sim, me faço corsária
muito mais que herói mito
embrenho adentro os mistérios escuros
que carregas no meio das pernas
tão altivos quanto os rochedos
de que falou Victor Hugo
e que guardam certamente
selvagens monstros marinhos

vislumbro através de seu monte
por fim ávida sedenta & aflita
uma esperança distante de terra
e de água doce fonte contínua
que me vem então de encontro à língua

§

a mulher-macho

a mulher-macho
andava pela cidade pisando duro
com seu coturno surrado
& de grande número

a mulher-macho
que desbrava ruas & anula
o território do homem
que tudo heteronormativa

tudo menos ela.

até que cientistas
capturam a machona
pra estudos mirabolantes
sobre as possíveis causas
de seu sufixo

prendem numa jaula
a sapata destemida
os cientistas
de bigodes pontudos
alvos jalecos
& canetas esferográficas
cutucam a mulher-macho
que esbraveja
mostra os dentes
sacode as grades
& cerra os punhos

os curiosos agentes
despem as roupas da mulher-macho
e se dão conta de que assim
nua & a base de tranquilizantes
ela se parece até
com suas esposas obedientes

a mulher-macho é adornada
com firulas babados & fru-frus
que julgam exaltar de seu corpo
a feminilidade perdida
pintam-lhe as unhas curtas
os lábios de vermelho
lhe arranjam os cabelos
& lhe perfumam a pele

de longe então
& dentro de uma jaula
qualquer um diria
que a mulher-macho
não passa de uma mulher comum
apesar de certa virilidade
que lhe salta aos olhos

após uma semana de coletas
de sangue de amostras
de urina saliva & tecidos
por um cochilo do grisalho
sofrido de insônias terríveis
virago empreende fuga

agora a mulher-macho
adquiriu um novo coturno
& voltou às ruas

um belo exemplar, você diria.

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beatriz rgb

beatriz

beatriz rgb (Beatriz Regina Guimarães Barboza) pesquisa na área de Estudos da Tradução na UFSC — trabalhando com os estudos feministas de tradução e/m queer —, assim como escreve, traduz, revisa e edita. publicou a plaquete with a leer of love (Macondo, 2019), traduziu com Meritxell Marsal o livro Desglaç, de Maria-Mercè Marçal, como Degelo (Urutau, 2019) e escreveu livros de poesia: quartos esvaziados (Urutau, 2015) e Entre rios (Kazuá, 2017). edita a Pontes Outras com Emanuela Siqueira e Julia Raiz e, também com esta, a revista Arcana. os poemas selecionados fazem parte do livro querides monstres — tradutora em sentido insular que está em processo de reescrita.

* * *

4 POEMAS DE QUERIDES MONSTRES — TRADUTORA EM SENTIDO INSULAR

I

Ofélia lleva 10 minutos
espremendo 3 naranjas
em 7 goles bebe el zumo
morde cada gomo
e em 21 años já tiene
trincados los caninos

fín del invierno andaluz
huelen las flores abiertas
um llamado às laranjeiras
ao despertar as desejou
boca que lambe y chupa

caminando estrangeira
por las tardes y las noches

só en su despedida
tomou en las manos
aquelas laranjas caídas
grudadas a las viejas
piedras de las plazas
de Córdoba y Granada

o melado daquele cheiro
envenenou-lhe a memória pero
se tuviera preguntado a
qualquer ume que talvez jamás
tenha lido Machado o Lorca
qualquer ume saberia dizer-lhe
aloka, son agrias, no se las coma

§

II

Jackie, acabam-se as tardes
homens regam seus jardins
varões viris com suas varas ah
papapá mas minhas plantas,
Jonas, não as toque

vaza daqui te cutuca uó
tua própria próstata vai

molhadas por minhas mãos
abraço gavinhas com ânsia
me perfuram o pescoço
Jackie meus dedos
se tornaram secos
pelos inúmeros cortes
não resisto, só peço isso,
sempre que te agarro
pelo fio lascivo de uma faca
na feral tentação de
abrir minhas veias

quero regar a terra
ao sangrar a garganta
lancetando as artérias
para articular guelras
viver
20 Jahre imersa sobre
a língua de 1 jubarte

Jonas, hoje tenho apenas
unhas quebradiças
escamas tenras
1 açougue aberto das
fatias de minha carne
logo não me impeça
de chorar pelas ausências
llorando por vosotres
mis amores

troquei minhas paredes
amarillas
pelas cerdas de um cetáceo
serei a serva
dele piraquê em sua boca
esfolie minhas cicatrizes

aprenderei mascando algas
como gozar
do que falta
só voltarei quando souber
queimar meus tecidos
vestir palhas trançadas
empilhadas pelas pombas
sobre os sulcos das calhas
ser espantalhe em peles
furry nights com sues amigues
querides mortes-vives
a quem ofereço sangue
há 21 Jahre gegen alles
alles Lüge

§

III

Goluboy Angel me dá
um gole do seu charme
vira essa cartola
na minha boca não
é necessária a música
falling in love again
tem chuva escorrendo

as calhas cantam
o que por elas caia
não sou atirada
mas me deu oi
tem boi na linha

“demos tiempo al tiempo:
para que el vaso rebose
hay que llenarlo primero”

nos ressoa, né, Simone? bueno é
Machado poeta do Guadalquivir
a gente se vira na rima aos 30
afia nossa lábia nosso lábris

cá e lá entre córregos rasos
vejo-nos cântaros vertidos
Carla & as criaturas aquosas
uma grande banda das Yabás

“con el tú de mi canción
no te aludo, compañero;
ese tú soy yo”

jo sóc l’altra, tu ets jo mateixa
o tempo corre
espelho partido
por nós filhes do rio

em perpétua sentença
morrem-nas-cheias
renascem-nas-estiagens

confuses em densos turnos
plutoniano fluxo

que feio ficar no meio, Quéfren,
chega junto e não se faz de muro

Goluboy Angel amadurece
suculente pronte pro corte
resseca e corrói na espera
nossa voz muda sussurra
chama inflamada
o caminho ao mar aberto

§

IV

toda vida subindo a morreba

amonstres sorriem no salão
transição sidecut
arranca cara serra dedo
gozam de próteses
no contato entre peles ciborgues
o deserto se inunda
profetas lançando confetes
biodegradáveis

amonstres não se matam
arrancam de si o que sobra
se acolhem pela dobra torta
vaza dessa mania de Maria

bota as tripas pra fora,
queride,
da última curva do duodeno
faz sua via
amonstres comem teu reflexo
no espelho partido

chega de morde e assopra
de murro em ponta de faca
muro é matéria fraca

mete os pés pelas mãos
suje e translúcide
um afago enlameado
amor entre cúmplices

mein Teil my ass
ninguém se come
a gente se alimenta
corrente alternada
de reparação constante

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Poesia Brasileira Contemporânea

Michele Soares

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Michele Soares [São Paulo, 2000] tem vinte anos e mora em Itapecerica da Serra/SP. É graduanda do curso de Letras – Português/Grego Antigo da Universidade de São Paulo (USP). Nunca divulgou seus versos em nenhuma plataforma – é na ​escamandro que publica pela primeira vez.

*

 

Fevereiro em São Paulo

lanças-me um olhar duro e demorado
duro e demorado
como são as horas e as manhãs.

agora o mundo sangra
sob o toque vináceo
tudo sangra no triste embalo
daqueles outros carnavais…

torço para que o corpo não esqueça
que tudo não me esqueça
e que se esqueçam de esquecer de mim
a carne e as primaveras
girassol… rondó… dindi. 

é Fevereiro e há
selos atrás de selos
beijos atrás de carros
tudo se empilhando aos montes
ventos, cartas, dias…

 é que o mundo é tão menos
o mundo é tão pouco, amor
sem seu olhar duro e demorado
duro e envenenado
como um poema quase cantado:
uma tal de balada ancestral
nascida intempérie do Hoje.

§

 exposição 

Estavam apoiados no ombro um do outro
como se decidindo
o que fazer quando se afastassem
debatendo todos os planos
e todos os sonhos de uma vida.

Como se não fossem estátuas.

Ou ainda pior!
Como se soubessem que eram estátuas
mas que profundamente
não se importassem

§

Novíssimo Oeste

é meio-dia
o trem se aproxima.

em plena Luz te avisto de azul
e tudo o que digo é
ARME-SE! mas sem palavras
ou ficarás presa
ao sabor doce da vida
e ao nunca ter conhecido
olho a olho e fronte a frente
o nu de uma questão.

*

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Lucas Litrento

desdobros

Lucas Litrento é escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural, vive na parte alta de Maceió. Como o Sobrevivendo no Inferno, nasceu em 1997. Estuda Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e integra os coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Os meninos iam pretos porque iam (Graciliano, 2019) é seu primeiro livro. O zine de poesia ROBYN (1TXW, 2020), foi lançado recentemente. TXOW, de contos, será lançado pela Edipucrs, como vencedor do primeiro Prêmio Delfos de Literatura. O livro também ganhou o Prêmio Malê de Literatura. Assina, com Janderson Felipe, o roteiro e a direção do curta-metragem Samuel foi trabalhar (em produção).

* * *

EXU

I

exu me deu um abraço
caminho caminho caminho
quantos braços
formando um outro braço
estendido pro abismo?

II

dentro do sopro
uma voz várias vezes
uma voz várias vezes
feito bússola dentro do sopro
tipo música dentro do corpo
uma voz várias vezes
uma voz

III

a repetição da roda:
só sabe onde termina

a porta giratória dos bancos
sempre trava a origem das ondas
onde começa o atlântico e termina o corpo preto?

IV

repetir o ponto
esperando que desçam
com respostas

e que o refrão
acabe em acalanto

V

caminho
caminho
caminho
acabe
acalanto

VI

vermelho e preto nas costas
a coluna em dobras, es-
trala

VII

a repetição da roda
é um sample
váriasvezesumavozváriasvezesumavozváriasvezesumavoz
todos os seus nomes ao mesmo tempo

§

prê

um sample de uma do d’angelo

há algo de indivisível na concha
jogada ao acaso no leito de um rio
algo de acalanto na meio de um vocativo
partícula carregada de desejo
prê
ensaiam carícias no invisível
no mesmo movimento de chamar
o que não pode se mover
quase um suspiro até as pernas
e as costelas também dizem
que tudo implode tudo é passível de dissolução
tudo é gozo se souberem fazer
sem recuar
o jogo é de mão única

§

01

frexta

vira uma página do muhammad speaks
como quem respira
não deixa que lhe tirem o ar
é ele quem fala a partir da fresta

foge sempre que betty dá à luz
a leveza das crianças é demais
pro seu corpo esguio feito de areia

com a cabeça encostada na janela do avião
cochila feito o menino que já foi
porque é um homem como todos os outros

seus passos são a geografia de uma encruzilhada
mas ainda é um homem
X é um homem como todos os outros

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Poesia Brasileira Contemporânea

Mari Matos

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Mari Matos (1991, São Paulo/SP) é uma poeta e escritora que começou a escrever quase que por acidente e muito despretensiosamente. Fala sobre as violências e afetividades que atravessam a vida da mulher negra. É formada em psicologia e possui mestrado pela Universidade de Glasgow.

*

Ofereci um buquê de ervas
Para as deusas
Pedi a cura de você

Há quem ache louca uma mulher nua a dançar com um buquê de ervas
Mas eu uso a palavra
“Livre”

§

Se eu toco minha pele
Consigo sentir o toque de cada uma das mãos que já me percorreu
Consigo ouvir cada uma das vozes que já me descreveu
Sinto os buracos do que foi roubado
A moldura do que me foi feito
Se eu toco a minha pele sinto meus dedos gelados
Passando por pelos que eu já não podo mais
Por traços que me são ancestrais
Se eu me olho no espelho
digo que sou uma mulher muito melhor do que sonhei
Se eu olho para dentro
Percebo um corpo que sempre se empresta para a necessidade de outras pessoas
e tenho a dor de saber que ainda não sei quem eu sou para além do que deixei que fizessem de mim
Se eu toco a minha pele
No silêncio de uma casa que pela primeira vez é só minha
Cercada por um monte de móveis a montar e pertences que ainda não sei onde colocar
Começo a sentir um prazer discreto
E solto um choro engasgado
Me perguntando se isso é começar a existir
30 anos depois de ter nascido

§

Entre uma violência e outra
Eles nos mandam sorrir
Parei com o gesto
Para não lhes dar a satisfação
Depois percebi
Que quando o sorriso é genuíno
Não gostam
Mulher feliz
É uma revolução

§

Tem mulheres pretas se amando
O povo todo escandalizado
A vizinhança se põe a falar
Vem a família julgar
Dizer que é errado
A avó diz que não é de Deus
Os pais decepcionados

Tanta desaprovação que fica claro
que no Brasil
Se abraça o genocídio
Se aceita a violência doméstica
Ignora-se a tragédia
E só indigna-se
Quando tem mulheres pretas se amando

Por mulheres pretas se amarem
As pessoas ficam mais escandalizadas do que com o fato de que morrem 13 mulheres assassinadas por dia no Brasil
A maior parte nas mãos de companheiros, pais, irmãos
E quem mais morre são as mulheres pretas
Sem amor algum
É sempre bom lembrar que
Tem mulheres pretas se amando
Para ninguém tentar apagar essa história (ou a vida) em nome do Senhor
E você está certo
Elas anunciam o fim da mundo tal como ele é
Neste país que foi construído em cima do trabalho escravo de mulheres pretas e do estupro de seus corpos

Por isso, repito
Tem mulheres pretas se amando
Não foi perfeito
Não foi à primeira vista
Não foi sempre fácil
Mas construído com carinho
Descoberto diariamente
Por quem ancestralmente
É impedida de amar em paz

Tem sim mulheres pretas se amando
Ouvi boatos de que sorriem como nunca
Sorrisos largos em lábios cheios
E que às vezes ficam na dúvida se sorriem, riem ou beijam
Tentando sincronizar os movimentos de alegria

Tem mulheres pretas se amando
Se encaixando perfeitamente em abraços
Se encaixando perfeitamente em outras coisas mais (se é que você me entende)

Tem mulheres pretas se amando
Há quem diga que é pecado ou revolução
um desastre ou desconstrução
Mas o importante é saber que
Tem mulheres pretas se amando
Amadas
-que sorte a nossa, ein

*

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João Gabriel Madeira Pontes

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Saúvas avulsas (Garupa, 2019).

* * *

Manobra de Heimlich

Chegará o dia em que todos os argumentos, mesmo os mais infundados/ o confuso marulho dos helicópteros em movimento, o embrulho, estes montes/ rasos que nos espreitam, a febre terçã, as rugas nos teus pesadelos, o gênero/ da maçã, a prisão das fortunas, as tribunas, os meus tantos conselhos tardios/ romperão, feito abrolhos solares sobre tumbas de arrepios, o parco entendimento/ do cão invisível que dorme aos nossos calcanhares, sem maiores sobressaltos/ (apenas os tremores sucintos de quem também consome pesadelos e atalhos)/ para ocupar as cavidades desta garganta, a única garganta do mundo, e desdobrá-la/ ao modo mais jagunço, até que reste só a chaga urgente e seca, a ser temperada/ e digerida, traduzida, dita e vivida, no dia em que o teu filho nascer e, antes de abrir/ os olhos, pôr-se a caçar o teu seio esquerdo, tão esquerdo quanto a mão/ com que agora escreves, não sem medo, a entrada mais recente do teu diário// e certamente nos lembraremos do que comemos naquele dia e das conversas ocas/ que nossas bocas tergiversas trocaram, as bulas e os recortes de jornal engasgando/ os anos seguintes, os poucos requintes da minha coleção de dicionários, os livros/ do Mario Levrero, repletos de anotações, as encomendas, as malas desfeitas, as lições/ de matemática que escaparam à consciência errática do teu único filho, o teu menino/ e, assim, talvez este cachorro poderá ganhar corpo, som e desaforo, no lodo/ dos planos clandestinos que não tocarão a realidade, tampouco a língua áspera/ e covarde do tempo, a lamber os teus ossos lentos, abrindo sulcos entre os coqueiros/ da tua memória, sorvendo os óleos de que precisarás para acalmar os bichos/ matreiros que despertarão na tua cabeça quando, da Praça Mauá, assistires/ a última embarcação deixar o porto, sua quilha de açúcar mascavo a roçar/ o tombadilho, o pavilhão a beijar o favo das tuas mágoas dormidas, as lágrimas/ no rosto do teu filho, que hoje tem o seu próprio filho, reflexo justaposto à imagem/ de quem não mais te parece familiar, mera miragem às quatro da madrugada/ hora em que costumavas desterrá-lo dos teus braços, o relógio a te negar intervalo/ para o descanso, mas, embora estranha, esta nova imagem amansa e consolida/ o espírito do teu menino, como no famoso autorretrato pintado por Parmigianino/ a partir de um espelho convexo e do seu reflexo disforme, imagem em que coube/ (segundo especularia o poeta John Ashbery séculos depois) a alma pequena do artista/ italiano, condenada à imobilidade enquanto intercalam-se chuvas, ventos, outonos/ e, entretanto, absolutamente capaz de provocar em qualquer observador atento// comoção similar à que o filho do teu filho experimentou diante do pescado/ agonizante que te açoitava a rabanadas, o clarão do meio-dia quarando as escamas/ prateadas, suas guelras asfixiando em prece, pois o que é a prece senão a mais pura/ forma de asfixia, todo o peso de Deus sobre o teu diafragma, nada ao alcance/ das barbatanas e, no anzol, a garganta que não constará dos manuais de anatomia.

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Victor H. Azevedo

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Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

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Mariana Botelho

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Mariana Botelho nasceu em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha/MG. Publicou seu primeiro livro (o silêncio tange o sino) pela Ateliê Editorial em 2010 e em seguida o “K” pela Clãdestina Cartonera em 2015. Tem publicações em meios digitais e impressos espalhados pela internet, revistas acadêmicas e jornais diversos. Prepara um terceiro livro, a ser lançado quando Deus der o bom tempo, com estes poemas dentro.

* * *

CAVALO I

intempérie
assolou o quintal

devorou alface
(sonhos
do sol
sobre as folhas
às quatro da tarde
com café novo
no bule)

– não é fácil
respirar –

rasga meu sono

põe as patas
no meu peito

me aperta entre
vida e morte:

por cima
sem cuidado

por dentro e
através

§

a força
do esvaziamento

presença
excessiva
do corpo
no corpo

– do corpo
no chão –

como que plantado
na queda

a “mói” de um trator
sabe explicar
todas as ruínas

um fio na chuva, –
se tivesse
ainda
outro lugar por
onde chorar

chorava

§

é como estar debaixo d’água

em transe
numa casa
de vários quintais:
o amor

família inteira à espera
(araras
no cerrado
às seis da tarde) –
talvez
para jantar –

à luz de um sol

(talvez dois)

dos olhos mais
bonitos
que já vi

§

um corpo cai

nem as feridas atestam a veracidade
do que parece sonho

inaugura todos os dias
uma nova vertigem
para a mesma viagem:

um trem de ferro que passa
ao largo
de nossa morte

Padrão
Poesia Brasileira Contemporânea

Carol De Bonis

Caro

Carol De Bonis (São Paulo, 1982), escreve para mudar os caminhos por onde passa ou perder-se em alguns deles, professora e estudante de pedagogia, autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015), os poemas aqui são inéditos.

*

Pequenas equações para o sol

algumas mulheres não sonhavam
em outra língua antes de nascerem
qual a melodia para a memória
qual a melodia para as armadilhas
da essência do retorno?
Do duplo caminho envolto da floresta
ela escolhia o lado de fora do delírio.
Ir pelo outro lado e fundir o dia na noite
ou a noite no dia. Fundir o fora no dentro
ou o dentro no fora. Fundir um círculo
noutro círculo e recolher na sombra das árvores
o som da fusão entre a madureza e o estio
de inventar uma saída nômade
para as pequenas equações do sol.

§

O outro lado da floresta

seguiremos pelo outro lado da floresta
talvez haja perigos demais para que me mantenha
impassível. Qual parte recortada no jornal
escreve sobre o lado da história que não se repete?

no fim, sua escolha é apenas mais uma
feito dizer flor alheio sem querer-se ingênuo
ou como se fosse a primeira vez que pisamos
nessa zona fantasmagórica de rosas. O mundo
não vale o mundo? Jogo.
Eu não jogo, deixo o corpo
como quem se despe ocultamente.

não é preciso fechar as mãos
como ato de proteção
saber abrir dedo por dedo tocar
essa curvatura, apanhar migalhas
nesse sótão, apalpar o mundo
dispensando a luz elétrica baixar o tom
como quem ouve algumas mortes
encontrar-se dentro da terra
cavar origens curar o dom
para despossuir-se.

§

Quando o hipnotizador entra em cena

quando o hipnotizador entra em cena
basta acreditar em sua missão
para que todos fechem os olhos
se movam feitos peixes cardíacos
no mar agitado a atravessar a correnteza
no prenúncio do código:
o hipnotizador sempre observa
uma margem de manobra imensa
a natureza errada do poema
no absorver da seiva gasta sabe
das influências dos poetas
em sua veia homicida.
Quando o hipnotizador entra em cena
muda o poder dos pensamentos
como o regente da orquestra
inicia um concerto musical imaginário.

ele a faz pensar num poema a partir
da outra língua, ela pensa
no poema a partir de sua língua,
como quem traduzisse o personagem
como um outro a partir do que
se imbrica em seu cerne,
a composição instantânea corta a cena,
rasga a pele e sonha sem parar
até encontrar a rima correta.

sonha que mora dentro da caixa
de música, os corpos desabam
nos ouvidos visuais
o hipnotizador e a tradutora:
aprendem a passar desapercebidos
o contorno dos olhares perdem
seus invólucros de caligramas
escapam sempre mais fora do que dentro.
Já ter acontecido hipnotizar-se?

é uma cena quando o hipnotizadorentra.
Mas há alguém sempre
a duvidá-lo a interpelar a verdade do ato,
alguém que pensa em caminhos herméticos
ilhas, simulacros, grutas ou espelhos
no oculto desse momento
sem pressentir o que o levaria
à infância de um sentimento.

§

Da hipnose que transfere

 do alto você vê o que em mim cala
nos gestos do outro lado, não te vejo
somente simulacro ao que representa
alquimia das mulheres que guardam
a alma detrás do palco, para algum
script secreto, pescador de fundos falsos

experimentamos o palco para pura montagem
o tempo é real, mas os ângulos falsos.

quando do alto avista pássaros de asas leves
pensa que sou o que em mim está
passo perene como nas voltas
daquele prato de sopa que, certa vez,
vimos num restaurante tailandês
entre curvas claras as pessoas comem
os alimentos inexistentes com olhares quites
deliciam unidas um mundo de belezas ausentes.

o branco sobre o branco sobre o branco
sombras retas e uma mulher encostada no divã
uma curva real e um segredo fabricado.

*

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