poesia, tradução

Fernanda Vivacqua, por Anelise Freitas

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Fernanda Vivacqua nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Desde os anos 2000, vive em Juiz de Fora (MG), onde se formou em Letras-Português e, atualmente, conclui seu mestrado em Estudos Literários. Publicou o livro Maria Célia (Edições Macondo, 2016), reeditado esse ano com cinco poemas inéditos e em versão bilíngue (português-espanhol). Sua plaquete Para os homens que não amam as mulheres (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e María Celia serão lançados no Brasil e na Argentina.

BREVE NOTA SOBRE “MARÍA CELIA”

Os poemas da Fernanda Vivacqua sempre me causaram aquela sensação de quando lemos um poema que parece um grande soco no estômago, porque ela ambienta seus versos em lugares que, em um primeiro momento, poderiam ser relacionados à calmaria. Entretanto, os espaços da casa e do quintal vão dando lugar à uma violência da linguagem, com versos longos e cavalgamentos que tiram o fôlego e promovem leituras inquietantes. Seus poemas mexem com o corpo e colocam esse corpo em perigo, como deve ser.

Dessa inquietação que os poemas causavam em meu corpo, surgiu a necessidade de traduzi-los. É isso que me move a traduzir um poema: como ele mexe com meu corpo e a curiosidade de saber como encontraria meu corpo em outra língua. A sinestesia do poema não é o suficiente, claro, porque a tradução envolve ler a contracapa do poema, compreender alguns mecanismos que nem mesmo quem o escreveu originalmente havia se dado conta.

Desde que comecei a aprender o espanhol, nutro um carinho pela variante rio-platense e depois de minha viagem à Argentina me senti mais à vontade para usá-la. Assim, optei pela variante rio-platense, não só pelo carinho espontâneo, mas porque é nessa variante que me comunico com as pessoas que eu amo, é com ela que me aproximo afetivamente da América Latina e seus corpos.

Anelise Freitas

 *

 POEMAS

 Para Babalu

DO BANCO DE TRÁS É SILENCIOSO

estática na ponte rio-niterói
o trânsito imerso
denso e pesado o trânsito
funda e funda
a guanabara
fede e você nem sente
do banco de trás
cai um tempo
uma pequena parede amarela
e aquela casa de bonecas
onde nada muda ou envelhece
só os móveis
que vão
e vem
como os carros depois do trânsito
desaguam na rio-niterói
depois do trânsito
você grita

para Babalu

 DESDE EL PUESTO DE ATRAS ES SILENCIOSO

estática en el puente rio-niteroi
el transito inmerso
denso y pesado del trafico
honda y honda
la guanabara
apesta y vos tampoco sentís
desde el puesto de atrás
cae el tiempo
una pequeña pared amarilla
y aquella casa de muñecas
donde nada cambia o envejece
solo los mobiles
que van
y vienen
como los coches después del trafico
desaguan en rio-niteroi
después del tráfico
gritás

§

 APRENDEMOS DA PEDRA E DO FEIJÃO

do tempo e da espera e
de quando em quando
a tempestade encruzilhada
o corpo estilhaçado e a dúvida
porque o que ensina destrói
constrói sobre destroços e reconstrói
com corpos despedaçados, aparentemente
despedaçados

quantos livros de poesia você já leu?
quantos poetas você chama de preferido?
eu vi uma redoma cercada de espinho
não havia pedras e o feijão era duro
e minha mãe é da cidade você não sabe
eu nem me lembro das canções de ninar
mas
quantos cantos ancestrais você já ouviu?
quantas vezes seu corpo vibrou e você soube
a corda da cítara não pode estar muito esticada
nem solta demais
é uma matemática ancestral que nos diz
dos cantos, da casa, dos cantos da casa
do feijão e do corpo quando se cata
pelo chão memória dos que pisaram
em um dia atrasado para o serviço público
mas

quando você disse ser poeta?
foi do feijão da barriga da mãe do batuque no quintal?
e eu não entro na redoma que pode ser apenas
um jardim sensorial, sentidos
dispersos corpos estilhaçados
mas quando o vento passa carrega
eu tenho memórias que me ensinam
porque elas não são palavras
porque elas caminham
pela minha mãe e sua vida urbana
pelas pedras portuguesas em terras
brasileiras
pelo feijão que fica não é de exportação
foi dela que aprendi e ela não dá respostas
como a palavra que não ensina
mas destrói e com os destroços
respondo,
dia a dia
não saber do vento
mas ele passa buracos abertos
marca o corpo que aprende
e reaprende
quando você disse não saber das coisas?
eu não sei e por isso não tenho medo
o prédio desabado não tem porque temer
a tempestade de amanhã

APRENDIMOS DE LA PIEDRA Y DEL POROTO

del tiempo de la espera y
de cuando en cuando la tempestad encrucijada
el cuerpo astillado y la duda
porque lo que enseña destruye
construye sobre destrozos y reconstruye
con los cuerpos despedazados, aparentemente
despedazados

¿cuántos libros de poesía vos leíste?
¿cuántos poetas vos llamás preferidos?
yo vi una redoma cercada de espino
no había hiedras y el frijol era duro
mi madre es de la ciudad vos no sabés
y ni me acuerdo de las canciones de cuna
pero
¿cuántas canciones ancestrales vos oíste?
¿cuántas veces su cuerpo vibró y vos supiste?
la soga de la cítara no puede estar muy estirada
ni muy suelta es un matemática ancestral la que nos dice
de los rincones, de la casa, de los rincones de la casa
del poroto y del cuerpo cuando se recoge
por el piso memoria de los que pisaron
en un día retrasado para el servicio publico
pero

¿cuándo vos dijiste ser poeta?
¿fue del frijol del vientre de tu madre del tambor en el patio?
y yo no entro en la redoma que pude ser solo
un patio sensorial, sentidos
dispersos cuerpos astillados
pero cuando el viento pasa lleva
yo tengo memorias que me enseñan
porque ellas no son palabras
porque ellas caminan
por mi madre y su vida urbana
por las piedras portuguesas en tierras
brasileñas
por el poroto que se queda no es para exportación

 fue de ella que aprendí y todavía no me contesta
como la palabra que no enseña
pero destruye y con los destrozos
contesto
día tras día
no saber del viento
pero él pasa agujeros abiertos
señala el cuerpo que aprende
y reaprende
¿cuándo vos dijiste no saber de las cosas?
no sé y por ello no tengo miedo
el edificio derrumbado no hay que temer
la tempestad de mañana

§

 SEUS DENTES PELOS MEUS DEDOS

fruto maduro esquartejado aos cubos
começo pela unha casca incerta
escalpelar cabeças de dedos
pelos seus dentes corre
um sorriso afiado a lâmina
afoita boca saliva a língua
como cortar tomates
o caldo quente entorna
limpa os nervos dedos em riste
o tempo entre a lâmina e a carne
os dedos separados da mão
pelos seus dentes escorre
o sangue da gengiva incrustrada
o corte exato de minhas extremidades
passeiam entre a tábua e a fome
a tudo dá sabor hoje
eu te dei meus dedos cortados
em pedaços miúdos cala
a boca aberta
é como cortar tomates
o fruto ácido

TUS DIENTES POR MIS DEDOS

fruto maduro descuartizado a los cubos
empiezo por la uña corteza incierta
escarapelar cabezas de dedos
por sus dientes corre
una sonrisa filosa la lámina
deseosa boca saliva la lengua
como cortar tomates
el caldo caliente se derrama
limpia los nervios dedos en ristre
el tiempo entre la lámina y la carne
los dedos separados de la mano
por tus dientes escurre
la sangre de la encía incrustada
el corte exacto de mis extremidades
pasean entre la tajo y el hambre
a todo da sabor hoy
yo te di mis dedos cortados
en pedazos cortos cierra
la boca abierta
es como cortar tomates
el fruto ácido

*

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015), e Sozé (2018). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Já apareceu com poemas aqui na escamandro.

***

 

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