poesia

Gilcevi

Foto de Warley Desali

Gilcevi é poeta, músico e produtor cultural. Integrou a banda Carolina Diz, com a qual lançou os álbuns Se perder (2004) e Crônicas do amanhecer (2008). Aprendeu a ler aos sete anos de idade devido ao seu interesse por decifrar os jornais e revistas que vendia nas ruas para sobreviver. Teve as mais diversas profissões ao longo da vida: jornaleiro, office boy, vendedor de produtos de limpeza, auxiliar de biblioteca, produtor, entre muitas outras. Embora escreva desde os 16 anos, só publicou recentemente seu primeiro livro intitulado Os ratos roeram o azul (editora Letramento, 2016). Atualmente apresenta seus poemas com a banda Cadelas Magnéticas.

* * *

 infância

a santa desce da nuvem
& com violência enterra o pecado nos meus olhos
como a placenta ocre lêndeas o Verbo

vó preta macera patuás me benze
com alquímicas negras vogais
desamarra a memória do tronco (há um negreiro
navio que à noite aporta no seu sono)
mas ainda sente o estalido da chibata: gritos
porejando na mordaça

vovô se aferra ao colchão intumescido
de fado & notas inflacionadas chora
o mar & a todos xinga com seu renascido
sotaque português

na beira do córrego vejo a vida: a véspera do bote
hipnotizando o sapo

mamãe bate roupa no tanque & sonha
com a cesta de alimentos um roach gordos
dízimos no ofertório
os pés de barro do domingo
ainda são embalados pelo saltério

na primavera papai enlouquecerá
& caminhará nu pelo quintal catando o eco das pedras

meu nome é de imperador
nas mãos do armilo três vezes
a infância regressou ao futuro
minha alma começa a ser íngreme me escalam
os elementos as vidências soturnas da inocência
o rútilo esperma do anjo caído

§

infância III (sangue ruim)

I
clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d’além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

II
clã dos souza

os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
: o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra

§

infância X (barreiro de cima)

o meu pai teve a mãe
& o meu pai teve o pai
só que para ele ter o pai
ele teve os avós
a única viva é a mãe da mãe do meu pai
a bisa dasdor que matou o marido com o pilão
pra se casar com o primo
ele arrancou uma costela dela
& do osso nasceu uma amante
que com ele teve mais vinte anti-heróis
que sabiam amansar o azul & a pólvora
& povoaram o barreiro

deus viu que isso era bom
& foi-se embora

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poesia

Carla Andrade

Carla Andrade é mineirinha de Belzonte. Tem três livros publicados: Conjugação de Pingos de Chuva (LGE), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Voltagem (7letras). Participou de diversas antologias poéticas como na Escriptonita: pop-esia, mitologia-remix & super-heróis de gibi (Patuá), Fincapé, Contemporâneas (Vida Secreta), além de ter poemas publicados em várias revistas de poesia contemporânea: Mallarmargens, Germina, a portuguesa InComunidade, entre outras.

Está em Brasília desde 2000, e atua como jornalista e poeta. Inquieta e arteira, herdou um grande talento da tradicional família mineira: a arte de boiar e atravessar pinguelas. Os dois poemas abaixo são de Caligrafia de nuvens (Patuá), que acabou de ser lançado.

* * *

Moinho

Se amanhecer:
o prato esmaltado
e o sangue depenado
em cova rasa,
a galinha mais lenta.

As linguiças enforcadas
expostas por seus crimes
no estandarte da cozinha,
o porco mais gordo.

Lambança do chiqueiro,
a lavagem – cevada de bicho de pé,
berne, barbeiro,
sanguessuga.

A descontinuidade da vida
resolvida no erotismo do moinho,
no gozo exterminado do moedor.

A violência da roça.
É disso que preciso.

§

Nossa primeira viagem

Nova caligrafia de nuvens
o sol e sua esgrima de raios
bromélias como cataporas nas montanhas
e o caleidoscópio nos seus olhos.
É manhã – e a eternidade cabe na distância
entre nossos pés delicados.

 

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poesia

Gabriel Gorini

 

gabriel gorini é poeta e editor da revista USINA.

* * *

helena

como se fosse um bruto,
os braços rijos as pernas
fartas de tanto cantar.
a pele, tão áspera, já nem
rompesse o calendário, o
silvo do contato
desaparecido nas mãos.
um bruto como um poste,
um mercado às sextas-feiras,
a face fixa de antevéspera
e o nome talhado no
dente (de onde saem
os gritos, meu deus?)

como fosse um bruto,
a armadura retida os músculos
tênues de tanto mentir.
os olhos, tão rotos, nem
curvassem as vitórias, a
ranhura do metal já
contida no sangue.
um bruto como um rato,
um átrio cinza em carnaval,
a presa posta no jantar
e o sufoco:
a guerra de tróia chegou
no largo de são francisco
e os monges, irresolutos,
ainda insistem em
rezar.

§

 epígrafe (fala do forasteiro)

ai meu deus quem comove
o asfalto o concreto quem
perturba o signo do zodíaco
e seu exército de sussurros
marítimos quem impede
os golpes os gestos os
toques quem ri no dia
das graças abençoado
seja este mundo abençoado
seja vós louvado
seja deus ele está no meio
de nós glória a deus
pai todo poderoso ai
meu deus quem descreve
as planícies ora desacreditadas
quem de ferro fere o fogo quem
de quase fura o corpo qual
carícia em tempo firme
qual malícia escapa à
sorte seremos nós guerreiros
do apocalipse seremos
nós milícias do fim do
mundo seremos nós pagãos
adictos organismos febris
espíritos abandonados
seremos nós visão do amanhã
predispostos ao ocaso
não vamos chorar nenhum morto
ai meu deus qual nome
te dar qual tanto e pouco e sinto
pode haver nessa hora de
santos nessas horas de missas
de bandas de preces quem vai
rezar por último somos nós
urbanos indiscretos formigas
indigestas somos nós orgasmos
industriais ciborgues xamânicos
sob nossos pés não estará
ninguém sob nossos pés restará a
ruína e nossas fogueiras tomarão
o continente e todas as
muralhas serão destruídas
até não haver mais nada
que não seja afeto até não
haver mais nada que não
seja gozo

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crítica, poesia

Cesar Kiraly, por Daniel Mano

O Corpo Escrito, que foge, por Daniel Mano

<All wisdom is profoundly trivial>
Love is gravitation
   Elsa von Freytag-Loringhoven

   Fuga sobre o branco [ ]., o livro de poemas recém-lançado por Cesar Kiraly, porta a severidade secular dos oráculos: não há transigência, a linguagem poética não absolve, não reconcilia, não suplementa a experiência humana. Distancia-se, assim, de longeva tradição solar nas artes e no pensamento, atravessada pela crença na obra como espelho pacífico, suave duplo da autoria, território por excelência de sua realização.

“Escrever”, comenta Jean Starobinski a respeito de Montaigne “visa reconquistar um domínio interno posto em risco”. Montaigne, com os Ensaios, visa pintar a si, retratar-se a si mesmo, fazendo da obra um artefato deliberado de restituição de sua subjetividade fugidia, fragmentada, acossada pelas dúvidas oriundas da vida teorética. O jovem Marx, por sua vez, identificou nas obras produzidas pelo labor humano a exteriorização (Entäusserung) emancipadora, a efetivação de si, brutalmente interrompida e convertida em seu inverso na modernidade, o estranhamento (Entfremdung). E W. B. Yeats entreviu a possibilidade de se harmonizar vida e obra, traída em um de seus mais expressivos versos: “how can we know/the dancer from the dance?”.

A esses exemplares da solar tradição, podemos contrapor a Fuga. Aí, a palavra não se firma como artifício restitutivo, não se trata de composição deliberada, representação objetiva de labor consciente, embora a forma se aproxime da arte conceitual. Dito de outro modo, a palavra não remonta a conceitos originários, ao longo de toda a Fuga, embora não seja possível evitar sua conceituação, como aqui faço. Desse modo, somos conduzidos em muitos momentos, à temática da nudez: para nos lembrarmos de que a forma – o signo verbal – não oculta referentes, mas os constitui: “não há nada no mundo que não seja nudez. se. / não há nada no mundo que não se deixe ver” (p.27); “Um poema é tão nu que está vestido” (p.133). O primado das aparências – da nudez – também é, anedoticamente, celebrado, em Dos Acidentes (p.22). Ao mesmo tempo, ecos daquilo que Derrida intitulou emancipação da escritura são sentidos: “pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem” (p.36). A percepção da quebra na escritura (p.44) aparece como seu princípio de emancipação, afinal, nada mais mortificado que o íntegro, o contínuo, as xícaras intactas e perfeitas (p.96).

Donde chegamos a um eixo fundamental de A Fuga, a tensão que aí se estabelece em relação ao fonocentrismo, ao primado da phonè e a consequente deflação da escritura e, por que não, do gesto. Uma das vozes do livro, Margarida, viu no mutismo um problema não pela incapacidade de articular proposições, mas por lhe vedar uma forma de alívio e grito (p.54). Outra voz, Raimundo, afirma: “a minha / língua de lamber. Margarida. / É uma catacrese de chupar. / Margarida. Até que eu aprenda / a falar e cuspa a língua. cuspa / a língua. cuspa. cuspa. cuspa. / fique com a voz Margarida. / com a voz” (p. 70).

Temos diante de nós, portanto, um objeto estético – um corpo, nu, feito em escrita, como sugere o Prólogo. Corpo que se revela e oculta em seus soluços, tiques, gagueiras e atos falhos, representados pela pontuação ostensiva e irregular, pelas repetições, elipses, reticências, parênteses e colchetes, que se espalham ao longo do texto como cicatrizes. Corpo que hesita diante do branco, diante da violência que se lhe é imposta pelos imperativos de enunciação, de logos e phonè: “e cá. assim. esta página em branco / a me fazer corar de brandura contra / o branco tão irônico. / por que me satiriza o rosto, Ó branco?” (p.31).

A temática do trauma se faz igualmente presente, sendo não por acaso, um termo de extração corporal, ortopédica: “naquela guerra / de que me lembro / preto e branco. Os / homens morreram / colorido. ( )olorido / ( ) ( )”; também em A. (p.163) e no poema Trauma (p.230), no qual o vão é focalizado, este espaço que se define tão negativamente, no entre repouso e movimento.

A tradição solar que mencionei acima veria o fim da caneta como fim do que se tem a dizer, não haveria grande embaraço, pois poderíamos sempre nos ajustar às possibilidades objetivas da tinta, sendo previdentes e realistas. Os limites do mundo seriam os limites da linguagem, mas n`a Fuga, essa economia se apresenta vedada, o que há é transbordamento, e o espanto por continuarmos quando já não há tinta: “não entendo por que as canetas acabam antes de mim” (p.126). Sempre é disponível (a auto-ilusão de) se crer coextensivo à caneta, mas é preciso cuidado com aquilo que se deseja, como nos lembram os lábios derretidos pela piteira quente do cachimbo (p.210) da boca que se queria incólume.

Margarida viu, (p.54) em sua sensibilidade dialética, a dimensão de silêncio presente em tudo aquilo que é dito, viu, por assim dizer, o branco, a tela, que subjaz a todo pigmento, tornando-se especialista em silêncio. Como suportar, no entanto, o silêncio? Como viver sem o alívio, o grito? Essa questão talvez seja a principal de uma obra que se define pela mordeção dos lábios e o não-dizer (p. 249). Como suportar o silêncio que se impõe sobre um corpo repleto de traumas? Uma possível resposta encontra-se no movimento inverso, na consideração da dimensão expressiva que acompanha todo silêncio, magistralmente representada no poema Variações sobre um tema de John Cage (p.135), no qual se apresenta diante de nós uma das possíveis eloquências contidas no silêncio: a presença espectral do dito, sua possibilidade abortada, emasculada, mas sempre presente, sempre presente. Cinza sobre branco. Suporta-se o silêncio, afinal, dizendo-se.

A Fuga é um fragmento de corpo, um corpo escrito, lacerado, nu – como todo corpo. Há muito a ver em seus gestos e movimentos, nas cicatrizes que singram sua pele, nos traumas que rangem seus ossos, no negro maciço que impera em algumas de suas páginas, na textura macia destas mesmas, nas orelhas. A visão requer sensibilidade e despudor: diante desse corpo silente que se mostra, despir-se também. E silenciar.

Daniel Mano

* * *

 O branco do olho

se entre o branco e a letra
existe um abismo.
o que falar então? deixar falar
pois não? silenciar o não?
o que falar do entre uma
página e outra? lá. antes. estava
a ferver imagens. lá. depois. estou
a pintar o mundo. suas crenças.
e cá. assim. esta página em branco
a me fazer corar de brandura contra
o branco tão irônico.
por que me satiriza o rosto, Ó branco?
será. então. talvez. que o branco pensa
que não posso acordar monstro? sombrio?
letra? ponto? traço? julga o branco
que não posso lhe cortar o pescoço? fazê-lo
jorrar vermelho? lhe arrancar o braço?
letra. ponto. traço. julga o branco que não posso
lhe tascar um beijo? lhe prender os
pulsos? arremessar aos fracos?
interromper o
verso? incendiar
perverso? remediar
o feito? permi-
tir o vento. fazer
cair do alto?
amarelar na
foto?
remediar
sem gesto?
letra.
ponto.
traço?

§

Escritura

pode-se pensar que existe algo que não seja escritura. mas isso seria dizer que existe algo que não é imagem. então tento dizer para os sem imagens que tudo o que existe é traço sobre traço e sobre traço. sobreposição de traços. estes traços são traços imagens. estas imagens são escritura. então tento dizer para os sem traço que tudo o que existe é marca. tudo o que existe é sinal. e este sinal que é marca. este sinal que é traço. nada mais é do que escritura. nada mais é do que uma imagem. nada mais do que um ponto. então, tento dizer para os sem ponto. que basta uma impressão de experiência para se ter escritura, imagem, traço, marca, sinal e mundo. basta uma impressão para se ter mundo.

§

A nudez de Margarida, o desfazimento no Outro

Mutismo, ela só conseguia pensar em mutismo, nesta forma de confusão das ideias característica das pessoas que pensam muito, para ela o mutismo se tornou um problema, antes de tudo, porque não podia deixar de esperar algum alívio na transformação dos pensamentos em sons. Ela só conseguia pensar em mutismo, porque sendo muda via nisso um modo de ser com a humanidade, uma partícula de composição com tudo o que há, mas uma participação por cima, porque ao contrário dos outros que eram mudos por intermitência, ela era muda por condição. Ao mesmo tempo em que era calada pela profusão das ideias, deveria permanecer calada, muito embora preenchidas todas as condições enunciativas do som. Ela não deixaria de pensar em mutismo, porque em sendo uma forma de mutismo, pela ostentação do silêncio, lhe eram vedadas todas as formas de alívio pelo dizer.

Mas Margarida, apesar da tormentosa proximidade com a vedação às formas de alívio pelo som, sobretudo lhe era vedado o grito, sempre percebeu uma forma de aprofundar seu gosto no silêncio. Na verdade, ela sacrificara a possibilidade do dizer pela sensibilidade brutal nisso que é condição a todas as coisas ditas, Margarida percebeu que em tudo o que é dito existe uma forte dimensão de silêncio sem a qual o dizer não acontece. Margarida se tornou especialista em silêncio.

Margarida dizia a si mesma: – o som emitido não é necessário, eu posso suportar o que for sem som, sem, até mesmo, me entregar por estar sentindo prazer ou dor pela respiração, posso viver a minha vida de escrever sem emitir sons, desde que eu possa escutar tudo o que se passa, eu posso ser comida de costas sem emitir som algum, e não posso dizer que não me sinta confortável no horror que provoco com a minha mudez: a escritura e a nudez se dão com o silêncio: são formas de mutismo. Mas uma vida sem janelas não é suportável. As janelas são o mutismo nas coisas. Cabe sempre preservar passagens translúcidas de qualquer coisa para qualquer coisa. Amar a perfeição das janelas é sempre um amor perigoso, porque quanto mais se as consertam, piores ficam. Estou sempre afastada dos sedutores homens mudos, é muito bom ver por eles, mas impossível fazê-los falar, quão mais se os conserta, piores ficam, e daí não sabem mais calar direito, ou falar. Por outro lado, existem homens que falam uma língua infinita do infinito da língua. Não se deve beijar homens de língua infinita. Para não se ter a alma roubada. Ou lambida. Ou roubada. Ou lambida. como a minha.
como a minha.
existem homens que falam.
uma. língua. infinita. do.
infinito da língua.
não se deve beijar homens de língua
infinita. para não se ter:
– dizia Margarida a si mesma –
meu amor querido, que acaba
de lavar as mãos, deixe que
sequem para me bater no rosto, apenas
um pouco mais secas, para me bater no
rosto, quero as mãos secas e limpas que cultiva
para escrever nos seus cadernos e livros.

a alma roubada. roubada.
ou. lambida. como. a. minha.
como. a. minha. alma-língua-roubada.
e. perdida.

Intervenções poéticas de Margarida sobre anotações de Enquanto Agonizo de William Faulkner, logo após a constatação de que o mutismo era um boa coisa para se responder ao perdimento da alma-língua:

p. 70

se eu ainda não estou.
de todo lugar para estar.
estou muda apenas onde estou.
não muda por estar lá. mas antes.
muda. por ser deixada aqui. se estou
muda. eu sou.
para tudo. eu. tenho.
o. mutismo. como. resposta:

p. 99

para se ouvir dizer que a mãe está
morta. que. se. escute. muda.
para se desejar ter. tempo. para
deixá-la morrer. para se desejar.
desejar. ter tempo para desejar
poder vê-la morrer. que se deseje
em silêncio. muda. nua. certa
vez. acordei. com um vazio. negro.
ameaçador. correndo. por.
debaixo de mim. fiquei.
muda. nua. muda.

p. 103

desejo um amor que me estapeie
de mãos secas e limpas. porque são
as mãos com que manuseia seus
cadernos e livros. não quero suas
mãos sujas de fazer carícias. mas
as mãos limpas de criação e estalido.
ele está olhando para mim. só me
olha. nada diz. o maldito
falador sabe como se fica em
silêncio. sempre me digo que ele
não fez tanto. como me olha o
demônio. como se estivesse entrado
em mim. de. alguma. forma.
como se eu estivesse olhando para
mim mesma com os olhos dele. como
se fosse a minha mão que fizesse
o estalido no meu rosto.

p. 122

como se tivéssemos. atingido. o
lugar onde o movimento. do.
mudo. devastado. se. acelerasse
em mundo. bem antes do derradeiro
precipício. como se o espaço entre
nós. fosse. tempo. a distância.
a ausência de voz.

p. 175

como se tivéssemos. apenas. o
cheiro do álcool de suas mãos.
essa limpeza brutal daqueles
demônios que não pertencem ao
mundo. aquela limpeza brutal
dos homens que caminham
durante horas sem transpirar.
daqueles que não fumam.
não. bebem. assistem. tudo.
de. olhos abertos. assistem.
de. olhos. nus. o próprio desfazer no tempo.
julgam agradável. o
sentir do desfazimento do
corpo no tempo.

p. 201

se pudesse chamar de
sorte. tenho certeza de
que chamaria de sorte.
foi a mesma perna. a.
mesma. perna. quebrada.
antes. a mesma perna de
minha manca perna. mudez.
se pudesse chamar de
sorte. mudez. chamaria. de
sorte. mudez. ou. morte.

se encerram as notas de Margarida.

estivera eu na sala a entender que a habitação também é uma forma de ausência e que a presença não é apenas fitar nos olhos, mas também um aprendizado do olho e que se as pessoas são presenças que fitam, existe habitação nos cheiros que uma pessoa deixa: o seu café no copo. o seu café feito amanhã, os vapores do banho, os vapores do banho entre hoje e amanhã. os sons que produz (passos, respiração, instrumentos) para que ninguém ouça. eles se oferecem à habitação. o viver junto tem que ver com o fornecimento de disponibilidade a isso: a espectralidade da presença. mas a solidão também é uma espécie de presença, também a tristeza é uma espécie de presença. a diferença entre a espectralidade do amor e a espectralidade da solidão é que na segunda o espectro deixado pelo movimento não é deixado por ninguém. ela não deixa ninguém. não cheira ninguém. não nasce ninguém. não morre ninguém.

se torna claro que o cheiro
do café é melhor do que outros
cheiros pela existência do café.
manhã. após. manhã. após. manhã.
apanha da manhã arrebatadora
de cheiros. apanha na
constelação de cheiros
arrebatadores. arrebatados. ao. dormir.

eis um fio de cabelo na parede, Margarida. não entendo o seu alemão, Margarida. deve ser um alemão menor. meio Kafka. eis um fio de cabelo molhado, Margarida. não deixa de ser bonito que outros bebam que não em sua poesia, Margarida. não deixa de ser bonito e estranho que nas minhas memórias, Margarida. eu não beba leite. mas beba café. sem. leite. Margarida. outros bebem desse leite derramado. não deixa de ser libidinoso. que. se. beba. feito. gato. Margarida. nos seus cabelos de fogo, Margarida. nos seu cabelos de palha, Margarida. a tristeza é uma espécie de presença.

tudo isso que se fez pequeno na
espectralidade da tua presença. era algo do
cheiro. ou algo da textura feita por algo que
era sempre feito na e por causa das
nervuras da tua presença.
aquilo que é excessivamente. pois me diz. excessivamente.
pois. me diz. excessivamente. me. diz. insignificante
para ser notado. equivale a conhecer pouco
a imensa. sutileza. das. coisas. das. das. das.
coisas neutras. em toda parte. sempre.
em toda parte. sempre.
um infinito atual. todo infinito
atual desses cheiros no banho. entorno. entorno.
entorno. da tua presença.

Margarida e seus cabelos de fogo, ouro, palha – adornada que estava pelas luzes cênicas deste belo começo de noite – se referia à possibilidade do amor de maneira demonstrativa, dizia, como cabia, e cabe, cabia, e cabe, aos que cabiam, e cabem: – o amor aniquila a possibilidade de estarmos destituídos de pensamento. porque o amor aniquila. aniquilado.
desilude. desiludido.
enxerga razões acerca das grandezas infinitas.
visto. que. o amor é um tipo de visão. por. certo. que.
o amor. aniquilado. aniquila. é uma espécie de
mudo. o amor. mutismo. mutismo. mutismo.
Margarida ama quando não fala.
ela ama na cadeira. apoiada. de costas. muda.

§

[ ]

naquela guerra
de que me lembro
preto e branco. os
homens morreram
colorido. ( )olorido
( ) ( ).

§

Antes de mim

não entendo por que as canetas acabam antes de mim.

§

Variações sobre um tema de John Cage

( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( )

§

Godard et la poulet (1945)

Em 45, durante um
jogo de futebol em que
atuava como goleiro, Godard
recebeu a notícia do fim da
guerra. O mensageiro gritava
a plenos pulmões. A eloquência
fez com que Godard virasse o
corpo para ouvi-lo e por falha
de atenção levasse um gol.

Freud, instado a analisar o
oportunismo do artilheiro,
aventou que aquilo que
não podemos andando, mancamos
para atingir.

Restou claro que o
oportunismo é um problema
motorzinho.

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poesia

quatro poemas de Mariana Basílio

mariana basilio

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

***

2 poemas do futuro Megalômana e 2 poemas de Sombras & Luzes

 

COMO ANIMAIS NOTURNOS FARIAM

 À memória de Ingeborg Bachmann

Como animais noturnos fariam
rastejo nas covas do instinto.
Recriando as dores perdidas.
Arpando âncoras no silêncio –
e não sou mais do que um eclipse.

Ausente na ideia que é cega,
se muito penso. Orbitando
cadente na estéril realidade –
incendiária névoa vermelha.

Fervendo palavras sobre a
cabeça felina sorvendo em
brasas dissolvendo veloz a
tristeza metálica deste corpo.

E o mundo não é como antes.
O mundo é como sempre foi.
O mundo mudo como o nunca.

Mas abutres ardem imortais
na cidade sitiada pelo caos.
Alíneas saltam corrompidas
na cidade sitiada pelo caos.
Entranha de teias temporais.
A cidade sitiada pelo caos.
Raízes do espanto-movediço.

Tudo acontece enquanto envelheço

na utopia em que me teço.
Tudo acontece febre terçã
pois sozinha eu vago
entre os muros.
Sinfonia sem saída –
Ânsia sem alarde e melodia.

Como animais noturnos fariam
me contenho vasta no silêncio.
Renascendo, sonho improvável.
Percorrendo linhas intocáveis.

O grito existe e o espanto rasga
os mapas diáconos das estações.

Em memórias de veredas que são
miragens ao limite do que fomos.
Traços inegáveis do que somos –
nada mais do que um pouco
mais que o nada.

§

 

ENTRA A NOITE POR MIM DENTRO

Entra a noite por mim dentro.
Como um áspero tutano
Arqueando o meu pranto.
Entre os sismos do silêncio
A revestir as gotas secas
Deste dia que se finda
No ébrio pensamento.

Dura dura é nossa sina.
Composta de uma morte
Que se anuncia. Inteira.
Extensa em dimensões
Que se somam, ano a ano.

E quem de nós terá mais sorte?
O jovem que se vai desperto?
O velho que se vê disforme?
Nunca nunca saberemos.

Dispor do tratado geral da morte.
Mesmo que existam amuletos.
Mesmo que inventem remédios.
Há um limite arrancado das mágoas.
Um centro sísmico que nos acolhe.
Dissolvendo nossas antigas chamas,
Crias do absoluto nada.

Tudo tudo é mesmo um argumento:
Para que sejamos desenhos em nuvens.
Para que nódoas cicatrizem elementos.
Quimicamente a fenecerem, duais,
Por nossa humana descendência.

Aguardo assim a morte sob este corpo.
Bem como aguardo a vida, enquanto penso.
Insolúvel. Estendida em sentimentos.
Pois os olhos se alimentam
Deste frágil instante em que perduro.

No vício da pele, nos crivos dos pés.
Absorta no limite desta cama.
Que sou escorrimento.
Que sou vertigem
De sangues ferventes.
Dançando no túnel
De frívolos elos.
De carícias
Crescentes.

No fundo das córneas embaraçadas.
No futuro corrupto do ofício taciturno
Dos coveiros – a morrerem sustentados
Pela dura dura morte, diariamente.

Entra a noite por mim dentro.
Felina como línguas que se enlaçam
Feito pólvora. E preenchem o mundo.
Preenchem o breu que habita o meu peito.
Como a vórtice de um empírico anagrama.
Vertigens de um invisível espelho.
Refletindo, refletindo, o oco fundo
Do mundo, que se alimenta no cerne
De nossos infindáveis erros.

 

XXIX

(Do livro, Sombras & Luzes)

Eu sei que toco o firmamento
eu sei que toco os dedos da noite
eu sei que toco o que te prende
a um cometa desvairado
quando toco o último fado
a ser feito –
como um animal que morre
a cada novo grito do alvorecer.
Renasço neste instante.

Eu sei que é tarde quando se é cedo,
beijando-te a carne mole, a carne
que fede do ânus aos olhos
de um avestruz
por
tua
sombra,
que se recobre do pó estelar
de espadaúdos aguilhões.

Abraço-te as ferrugens, grudo
in natura e tua pele enrugada
se estica durante a tarde, se estica
e me come a consumir os miolos
do pensamento que me enlaça –
como uvas-passas estilhaçadas
nas fronteiras da qualidade
imoral (moralíssima) de fatos,
dos frutos de bocas pardais.

E eu sei que é cedo quando se é tarde,
porque toco-te as beiradas da voz, e
há um cuspe que te salta os olhos –
medonhos de medo – e que me traduz
<cética> quando sou a bendita santa
que te alarga as frontes de
pícaras
que te permite um repouso
rasteiro,
que te ilumina com os olhos
de raposa.

Porque sei.

 

XLVII

Todo escritor é um país estrangeiro.
Quando ultrapassa os limites do

seu coração ao cutucar
o fundo de um
silêncio, que
escapa aos
próprios
sentimentos.

Um estrangeiro de flores
rasgadas no fundo do peito.
Nos pomares desérticos de
antigos pensamentos.

Mesmo sendo poeira.
Mesmo tendo um ar pueril
que dissecaria um oceano.

Caminhando no céu
que engole,
na vida que esgana as
contas de sangue,
as gotas do tempo –
que não perdoam
o côncavo dos dedos.

Estrangeiro.
Ao sonhar alto demais
num topo de voz
que não se ouve
e
que
NUNCA
se imaginaria
tão luzente.

Em arqueiros
de nuvens
a dançar
ruas
e
carmins
em
futuros
passos.

Aos berros dos
pedregulhos,
nos acalantos
de casas que
apertam
nossas palavras
contra o peito.

A escalar
o silêncio das águas.
A ser navegante,
a ser
correnteza.
***

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poesia

Muimbu, por André Capilé

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Acabou de publicar muimbu pela Edições Macondo. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

kuzuela

ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero

papagaio ê!

seja bem vindo
gostamos de recebê-lo

mas não nos garantimos boas novas

os maridos ainda recusam a voz das esposas
os pais renunciam a voz de seus filhos

nossos avós saíram da raiz faz tempo
mas o tronco resiste apesar dos inventos

esta é a terra e o que se tornou

veja
estamos sempre prontos a nos repetir

viemos a esta terra
comemos desse esterco

em um mundo
que não devia ser tão espalhado
em um mundo
que se distrai por trair ser pacífico
em um mundo
que é apenas um lugar de mercado

uê papagaio uê!

será possível que se instale um vau
que se preciso atravessemos juntos?

e o que virá depois do salto, o óbvio?

de um lesa-majestade ouvi a prece
nem todos voltarão pra casa um dia

até que dê ciência a concha ao molde
é o estéril que engravida o caracol

viemos até aqui
agora chamamos de casa

ó há terra para todos

talvez devesse um elogio
que te fizesse mais feliz

ó há terra para todos

e me escutasse o que rezava
e respondesse cada reza

ó há terra para todos
é de lá meu papagaio

uê que espalha o mundo no lajedo
tão grande, tão poderoso

que não pode vencê-lo a calma
a violência de teu silêncio

quem ousar eiá eu vos digo
enxaguará as mãos pra comer terra

quem ousar eiá eu vos digo
entrará pelo duto ó cu dos céus

e quem ousar eiá que aproxime
mil e um passos contados pra trás

hoje não vou ousar ser tão rude com ele
são mais de mil passos à frente do rei

ó colorido com a tintura do açafrão
patrono dos tapetes sem tamanho

esta terra deve ser pacífica
esta terra deve ser prolífica

a terra deve ser boa pra nós
a terra deve nos favorecer

não botamos nossos ovos pra guerra
nós que somos testemunhas do luto

não merecemos castigo
não devemos ser roubados

papagaio ê!
venha ouvir nossas súplicas

papagaio ê!
prestamos homenagens ao senhor

ó pássaro verdadeiro
ó pássaro sincero

seja bem vindo
gostamos de recebê-lo

não ouça amanhã nossos gritos
não nos garantimos boas novas

§

ngana jila kaliban
em colaboração com Luiz Coelho

1

se aqui

há um inferno
duvido

só fui o que criei

2

acesso de todas
as portas

sou de todas
as cruzes

a passagem

3

que importa se
é verdade?

caminho qualquer caminho

4

um de muitos

também me chamam
guardião

5

acordam pra que coma
o que nunca dorme

se aceita a devoração
dos devotos não deixa

que o cariá
vos foda

6

o diabo prometeu

mas sou
quem recebe a oferta

e divide o dízimo

7

a cara
grande não

é maior
a máscara

do boca que tudo engole

os dentes duram
no osso largo que mastiga

8

nessa rua
cheia

algum deus

míngua
o ualuá cheiroso

o beijo
de nenhum deles

não
vale o mijo

da mula que cavalga
a noite

9

cada caveira que lamba
a própria caceta

ao passear os cães
na clavícula da madrugada

10

eu vim

naquela vez
não deu

11

voltei

mas dessa vez
deu ruim

12

virei
novamente

e não vai
ter volta

: vou comer
vocês tudinho

13

que batismo quê
ó dai-me um nome

o balanço dos dias
aqui não faz cadeira

ó boca que tudo engole
há pelo meio um certo?

inventei trabalho
correndo uns cafundós

dos cu de judas
nesses mundos de deus quem

em depois ideei salário
que pelo reto deu um desvio

a quê me serviu?

acorda cadáver
e dê logo paga à feira

essa que serve a qualquer um

§

kuenda

ao través                da tradição
das mariinhas     as marinhas

de mais uma vez

um arranque de toada          a dixisa
tecida fora dos dedos

a divisa de uma penélope          mendiga
tocada de sua toca             à laia dos cães

e         não há               dúvida quê
entre sirenas         a sombra kianda

extrapole a carne           escamada
na espuma                         de kaiáia

a gambiarra                      do inútil dizer
que se dá         melhor fora aos ouvidos

muimbus                     da um banda um
rito de muitos         muitos à possessão

nós mútuos         na música
de máxime              muxima

kuxika                   tundundun

escuma de um carnaval antes da avenida
nessa rua que arrima            as passagens

todas as passagens         de que fomos
fome                   &                    travessia

de um mar que já dito         reedite uma sempre
nova maresia         da ginga      de um kimbanda

que se mandinga    muléke           língua de dança
a dançar para ficar                                  cá estamos

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poesia

3x sara síntique

sss

Fotografia de Beto Skeff

Sara Síntique é graduada em Letras Português-Francês e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia “Corpo Nulo” (2015, Editora Substânsia), também é atriz e performer.

***

tomei um gosto por azul
que adveio dos teus lábios
somente agora percebo
essa cor
que me invade
feito tuas mãos no amanhecer
e assim sei de ti:
teu rosto é toda essa cor
que atravesso a nado

£

 

apanhar tudo com as mãos
vento areia acaso

£

 

mais uma vez
toca-me a mão
chama-me

recuso olhar
sigo:

nossas mãos
dadas
flamejam

caminho
ao teu lado

como quem sabe
todas as pedras
(exatas)

para o tropeço
e a queda.

***

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