poesia

Valeska Torres

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Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, e no jornal bairrista Rio Suburbano.

* * *

Carne Moída

Torrando no meio fio do Ceasa,
homens armários me olham de esguelha,
sabem que ferida aberta é lugar para mosca botar ovos.

Abobrinha carne moída arroz feijão
no tribunal
vencem
os mais fortes
de pele
de olhos
de cabelos
de sacos
no cemitério de Inhaúma
um atrás do outro

pretos acumulam cargas,
dentro de caminhões baús
o burrinho sem rabo empena
no sol à pino
dá gargalhadas
ri de mim
ri de todos
menos
das sungas maiôs

Búzios. General Osório. Zona Sul.

Praias e praias com gente miúda na quarta-feira
o dólar está em alta magra sexy salto 15 saindo da boate um escândalo
na bolsa da mulher foi baleado um garoto correndo entres os carros na avenida
Nossa Senhora de Copacabana, onde a Senhora se escondeu?

Pintei minhas unhas
de vermelho
nas ruas de São Paulo
o gongo em colapso nervoso grita comigo,
não sei revidar.

Acumulam-se inacabados:

cinco ou seis projetos arquitetados que estão a essa hora do dia remendados com fita crepe.

dois ou três possíveis relacionamentos que nunca disseram a hora ou o lugar de encontro.

um quebra cabeças, duas costuras no rasgo de minhas blusas e 46 horas mal dormidas.

Depois de velha e pelancuda o que me resta é ser comida pelas traças
em mim cabem
vigas aço concreto camisinhas cacos estiletes balanças dedos esmalte absorvente fígado queijo nojo

§

Corações de Alcachofra

corações de alcachofra em conserva de óleo
mastigados depois do jantar
sobre a mesa
os pratos, os talheres, os corpos usados

abutres miúdos e vesgos
rasantes
afiam suas unhas no amolador de facas

arrancam as peles gorduras
jogam na vala atrás de minha casa
desfiguram a carne putrefata

explosões sucateiam o ferro
agora corroído serve de mordaça

a cidade dorme como se nunca houvesse
amanhecido. na madrugada
forra-se o tapete infestado
de ácaros

odor de alho na sola dos pés
caminhando sobre as ruas
os velhos não usam sapatos

deus não anda entre os meus
sobrevoa em helicópteros
arranhas céus
onde dorme em colchão de penas

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três poemas de yasmin nigri

nigri

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta e escritora convidada da Revista Caliban (https://revistacaliban.net/) onde escreve ensaios críticos, crônicas e traduz poesia alemã. É bacharel em filosofia pela UFF onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. É co-fundadora e integrante do coletivo feminista de artes e poesia Disk Musa onde atua em diversas frentes tais como elaboração e realização de performances, ações urbanas e oficinas de criação poética. É inédita em livro e possui poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.

***

Flora

será verdade que as pessoas
solitárias preferem animais
a outras pessoas

a três baias de Flora pensava
qual seria seu animal favorito

pela brevidade
talvez uma mariposa
pela intolerância

talvez uma doninha
talvez um panda que só tem olhos

para ramos de bambu
do ornitorrinco

admira a solidão
ou prefere a agilidade
da toupeira

a três baias de Flora pensava
convidá-la para jantar

na madrugada será
que vai sozinha à caça

ou fecha os olhos
mente opaca e

fantasia inquieta
se abrir para a noite

como a mariposa
será que afugenta a todos

como a doninha ou
às vezes é vista em par

como o ornitorrinco
a três baias de Flora desesperou-se

porque talvez ela fosse uma toupeira
que vai pouco à superfície

brinca sozinha
nos túneis que cava

quem sabe queira companhia
para atravessar a bruma

branca sob o pôr do sol
será mesmo feliz entre a nervura das folhas e o húmus

§


largar você não vai ser fácil

no início especialmente
não vai ser nada fácil
mas também não vai ser
como das primeiras vezes
essas doeram um bocado
mesmo assim
largar você não vai ser fácil
lembra aquele mochilão
que fizemos pela europa e
descobrimos que quase toda estátua
é uma estátua da sorte
basta fechar os olhos
esfregar as mãos
na parte mais clara
geralmente os joelhos
pés seios ou mãos
e fazer um pedido
largar você vai ser
passar pelas estátuas
sem pedir por nada
sentir fome
de barriga cheia
o que me lembra que
cozinhar só pra mim não tem graça
viajar sozinha sai mais caro
largar você não vai ser fácil
como um intercâmbio em genebra
no início vai tudo bem
depois faz silêncio demais
as horas são demais
tudo vai calmo demais
é frio demais
não tem feijão em genebra
não sei lidar com términos
escrevi depois rasguei um bilhete que dizia
se você me atazanar te largo 1tiro
vê se me erra, satanás.
não sou comum com despedidas
sabe como é
no meu copo sempre fica um dedo de café
lavo a louça e largo o ralo sujo
tomo banho e esqueço o gás ligado
abandono um par de meias na máquina
fins pra mim são terríveis
tem sempre um vestígio
por onde eu passo
um prato sobre a mesa
alguns fios de cabelo no pente
não é uma questão urgente
é que a idade não é mais de esperar
a mágoa, a injúria e o rancor se instalarem
pra que contar com a mágoa imperdoável
largar você não vai ser fácil
mas lembra quando eu voltei de genebra
e perdi meu passaporte
não faz diferença
§

 

À guisa d’O Amante, de Marguerite Duras

“Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.” – Marguerite Duras

Lembro exatamente suas palavras e olhar lacrimosos.

-Tentei, mas não estou apaixonado. Sinto muito.

Todo resto um alívio.

Não me deixei revelar.
Esse pouco,

porém,
foi o suficiente.

Dureza
Desfigurada.

Desculpa
amarela.

Pude revê-lo anos mais tarde.
Quase disse.

– Queria que estivéssemos nos conhecendo agora.

Calei.
Aos seus ouvidos soaria fraqueza.

Aquela dor inconfessável.
As costas arqueadas levaram suas mãos até mim.

Outra noite juntos.

Quem sabe ali, unidos,
se eu me pusesse a chorar,

você compreendesse tudo,
num súbito,
e me acompanhasse.

Talvez ali
o amor brotaria.

Chorar aos seus olhos não é fraqueza.
Era imprescindível que a primeira lágrima fosse minha.

Não tive forças.
Lembro das suas palavras.

– Um dia você irá mandar na mesa. Você está se afastando deles por [achar que não pode dar as cartas.

Talvez mandar na mesa seja
apostar alto.

Talvez mandar na mesa seja
saber chorar primeiro.

*

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poesia

Luiz Coelho (1984-)

luiz coelho. foto para escamandro

Luiz Coelho (1984) nasceu e vive no Rio de Janeiro. Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publicou poemas na Revista Modo de Usar & Co. e no Jornal Plástico Bolha. Autor dos volumes de poemas agulhas descartáveis (2012) e Hágalo Despacio (2013) — o último, também com poemas de Aline Miranda e Maíra Fernandes de Melo.

 

sergio maciel

* * *

falanges

a.
fiados em
redemunhos

trabalham
sozinhos

b.
a sóis
cinzéis

zonzam
cabeças
de cochilo

b.
tralhar
o vento

festa

moenda
moinhos

c.
os céus
balançam
gaiolas

d.
necran
cabulosa
encaminho

§

trópicos

a.
nas saliências parte metal
dos tinteiros se anuncia
qual coração uma unha
nem sempre tácita

imediata comunicados
afincos de boa intenção
a fiança se um dia houve
tergiversa o mote

eufemismas a rodo

o ódio terceiriza
o afeto borrifa

a contraprova do lucro
um resto e uma fartura

pilha corpos por milhas
b.
fruto grifado
a ferro fátuo

tição a fogo
na dentição

novo contrato
mesmo mercado

cadinho de afiar
rosto aterrado

barro pelo torso

c.
nada na boca
sem profecia

mudo nos búzios
uns vãos caracóis

a borra ainda
passa o café

costura engole
sapo não dorme

§

se o tigre não fala

um tigre não se fala?

a língua
mordida

triste tigre

ao peito
a palma amarela
da mão

arcada

à forja
há flagra

a terceira via
a tigela vazia

a bolsa
a firma

afaga

gentileza
a galope

amostra grátis
a lá no portão

a lápis

assina
à linha de baixo

crânio

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poesia

3 poemas inéditos de Danilo Augusto

Danilo Augusto nasceu em Salvador, em 1990, e é autor dos livros Poemas, Zumbi e Begginner. Esses três poemas fazem parte de Estar na grama, ainda não lançado.

* * *

A mais estranha coisa
É haver leis
Na natureza
E podermos pô-las
Em uma folha

Se leis não houvesse?
Ou se não pudéssemos vê-las?
Seria como meu espirito
A natureza?

Quem inventará
A matemática
De uma alma?

E, depois,
Onde escrevê-la?

§

Você se deita comigo esta noite?
Quero apenas dormir de conchinha
Como imagino que deus se deita com o universo

Meu corpo, ele é tão engraçado
Nem vi de onde veio
E esse desejo de amar
Não é que tenha opção

Eu preciso da ajuda Deus
Só ele tem algo a ver comigo
Mas se você me beijasse essa noite
Como uma bomba sob um rio…
Poderia ser algo bom

Desliga o celular, tenho algo pra dizer
Deixa eu encher suas mãos
Porque a única coisa que sobrou foi eu mesmo
Afinal, não era eu
A brisa? as bolhas na correnteza?
Ah… não era não?

Apenas me diz
Como eu tiro este nascer do sol de dentro mim?
São seis da tarde, o ônibus vai sair
Nós confiamos tanto, não foi?
Se bem que não tanto assim

§

eu amei o meu filho, e daí?
você amou o seu. hoje, fechemos a conta.
quanto dá?

deus, esquece felicidade e verdade,
quero apenas tocar em sua barba de estrelas
guarda a máquina do mundo em outra sala
chegou o dia na agenda pra danilo fraga
eu rimo pra você, pra quem mais?

olha, pai, mãe, vocês são tão inocentes quanto eu
mas quanto amor não nasceu para que pudéssemos nos criar uns aos outros?
quanta história inata. hoje, fechemos a conta
quem vai pagar?

respirar é uma oração
mas eu tapo boca e nariz
como eu posso conhecer mais que o cão que matei
a relva sobre meus pés ou o ar seguindo para uma região de menor densidade?

a poesia é como um filho que criamos
o maior orgulho de se estar vivo
mas de onde vem esse orgulho senão da ironia de seu jogo?
senta comigo à mesa, me dá os dados pelo menos uma vez.

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Iago Souza

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Iago Souza é portovelhense, o extremo-norte do norte da periferia do país, filho bem parido da América Latina, tem 20 anos e nunca publicou nada na vida, apesar disso espalha por aí que é escritor, estudante de psicologia e autor da página Contos de fodas no facebook. De resto e do que se pode saber dele: terá que lê-lo.

***

é tanto,
o tempo
e tão escasso,
longínquo,
é tanto que a gente
escreve,
sem saber pra quê
ou quem, pra onde vai e
de onde vem.
e tem o Carlos,
sentado,
de pernas cruzadas
na beira de um precipício
segura os óculos
pra não cair, e sorri,
porque tem gente por aí
que é solitária,
mas gosta de rir,
mesmo sem ter pro’nde fugir
atirando verso avulso,
letras trêmulas,
de choro ou riso ou sangue

e é tanto que se sente,
sabe, Carlos,
é tanto que se grita no papel,
ainda, Carlos,
ainda há tanto o que escrever,
tanto o que dizer
pra essa gente cafona,
que a gente se esquece,
às vezes, do resto
e só deixa o rastro
a marca grafada
pra quem quiser procurar
um traço de nós,
um traço de nada,
um traço de tudo,
um poema.

mas o que fizeram com a poesia, Carlos?

(em homenagem a Carlos Drummond de Andrade)

§

 

deus e eu, vez
ou outra,
batemos um papo
ele conta das melhores
e das mais tristes
histórias
fala sempre das
promessas
que não gosta de cumprir
me confessa os pobres e duros
pecados
que cometeu e os que
ainda não
chora no meu ombro
e agradece
depois vai embora
cabisbaixo
com o olhar nostálgico
melancólico
de quem tudo sabe e tudo viu
sem os mistérios e as descobertas
que a vida oferece

deus me disse que
quando anoitece
e os
anjos vão dormir
ele chora baixinho
de joelhos suplicando
perdão às crianças
da Somália

§

 

tenho olheiras fundas no rosto
de modo que meus olhos parecem
distantes
quase que esquecidos
dentro
do crânio
tenho olheiras fundas no rosto
de modo que não me imagino
sem elas

§

 

se eu te disser que
essa garrafinha de pitu
poderia salvar a noite
você bem que poderia ficar
comprei uns filmes piratas que travam
na metade
a gente pode pôr pra tocar
e parar de ver no começo
você pode ficar
de calcinha no meu quarto
e gritar da janela que o mundo se acabe
em boêmia
você bem que poderia ficar
e cantar comigo Belchior
poderíamos dormir de bêbados
no chão da cozinha
rindo de algum filme do Adam Sandler
felizes como aqueles dois viciados
que se abraçam em frente às lojas
do centro
e estão pouco se fodendo para o mundo

e todas as suas sutilezas engravatadas

§

 

o mundo anda tão triste

que eu posso sentir bombardearem

a Palestina

dentro do meu peito

*

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crítica, poesia

In memoriam Belchior (1946—2017)

Os deuses também morrem. Todos o sabem, talvez até demais. Na verdade, deuses não param de morrer, a todo instante, e todo ano lamentamos uns bons tantos que se vão talvez — ou muito provavelmente — ao nada. Belchior é mais um dos imensos que se vão, mas nos imensos há muitos casos menores, o caso pequeno deles em nossas vidas mesquinha, e Belchior é uma parte da minha vida que não se vai com sua morte, e que não quero narrar aqui, nem contar quantas vezes já toquei “A palo seco” nesta vida. Ele fica nos que ficam, arrisca-se a ir ficando ainda além. Paradoxo dos deuses que morrem, mas não de todo (non omnis moriar “não morrerei de todo”, diria o romano Horácio). Foi-se um deus, não quero aqui lamentar, nem vou apresentar aos leigos. O mistério, eu mesmo já escrevi isso, está na cara.

Há muito tempo eu pensava em comentar aqui no escamandro o poder da poesia de Belchior,  como também desejo e adio comentar Djavan e Zé Ramalho (pelo fato de receberem ainda tão pouca atenção poética), eu pensava em comentar coisas impressionantes, como “De primeira grandeza”:

Quando eu estou sob as luzes, não tenho medo de nada
E a face oculta da lua, que era minha, aparece iluminada,
Sou o que escondo sendo uma mulher, igual a tua namorada,
Mas o que vês, quando mostro estrela de grandeza inesperada,

Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina,
A força masculina atrai, não é só ilusão.
A mais que a história fez e faz, o homem se destina
A ser maior que Deus por ser filho de Adão

Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino,
A glória feminina existe e não se fez em vão,
E se destina a vir ao gozo a mais do que imagina
O louco que pensou a vida sem paixão.

Mas acho que daria pra resumir tudo repetindo “a mais que a história fez e faz, o homem se destina | a ser maior que Deus por ser filho de Adão”, simplesmente lembrar que ele, como homem, soube dar-se à voz de cantar tamanha violência, poeta da crueldade, que feito faca fura as nossas carnes. Muito pensei na necessidade simples de canções como “Galos, noites e quintais”:

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;

Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia,
quando havia galos, noites e quintais.

Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

Por ser essa re-versão do topos dos meus oito anos. “Eu era alegre como um rio | um bicho, um bando de pardais; | como um galo quando havia, | quando havia galos, noites e quintais” — versos que já citei na minha poesia (meu modo de dizer que isso é poesia de primeira grandeza) — isso resume muito da melancolia infantil que assola a tantos, que por sua vez infelizmente não conseguem repetir com a mesma força outra frase como “não sou feliz, mas não sou mudo”, nesses tempos de mudez geral, assolada pelo excesso de repetição das redes sociais; em parte não conseguimos como grupo dar força de verdade ao “hoje canto muito mais” que supere o lamento. Eu pensava ainda em analisar o engajamento desse homem que tinha por alucinação “suportar o dia a dia”, o delírio da “experiência com coisas reais”; ou aquele engajado no viço que convocou todos a rejuvenescer,; mencionar “enquanto houver espaço, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”, e o fato de que ele mesmo parou de cantar (para inventar outros nãos? haveria um não em traduzir a Commedia de Dante?, devemos muito pensar nisso); lembrar que esse cidadão teve colhão de nos lembrar há tanto tempo que “nada é divino, nada é maravilhoso” (embora eu mesmo penso que tudo é também divino e maravilhoso, mesmo não sendo) para bater num outro deus Caetano, porque deuses têm lá rixas, desde que o mundo é mundo; que na mesma canção, “Fotografia 3×4, ainda teria o vigor de expor-se-nos (quem o sujeito?) assim:

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você

Pensei em simplesmente mostrar que poema impresisonante é Paralelas

Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor

E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar

No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão

E as paralelas dos pneus n’água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu

No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

Poderia ainda comentar que coisa genial foi traduzir o Raven/Never de Poe em Blackbird dos Beatles em Assum Preto de Gonzaga, em “Velha Roupa Colorida”:

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: Black bird, Assum-preto, o que se faz?
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Assum-preto, passo preto, blackbird, me responde, tudo já ficou atrás
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Black bird, passáro preto, passáro preto, me responde
O passado nunca mais

Mas isso temos às pencas por aí. Imagino que os louvores de hoje dos próximos dias vão citar aos montes esses trechos. Eu queria, queria há muito tempo, como disse, falar de outra, “Ypê:

Contemplo o rio, que corre parado
e a dançarina de pedra que evolui,
completamente sem metas, sentado,
não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui.

A mente quer ser, mas querendo erra;
pois só sem desejos é que se vive o agora.
Vede o pé de ypê, apenasmente flora,
revolucionariamente apenso ao pé da serra.

É uma espécie de síntese dos contrates que foi Belchior, do estudante de medicina ao poeta/compositor/cantor, passando pelo bardo cronista engajado, ao interessado amador por pintura e caligrafia (inclusive o shodo japonês). O poema se abre com uma cena de contemplação natural: um rimo que funde movimento e estase se vê desdobrado em dançarina de pedra (água sobre rocha, saltos de gotas) que evolui parada num movimento que recorda o fragmento de Heráclito (não se entra duas vezes num mesmo rio); o observador quase se funde à imagem, no jogo entre sem metas/sentado, ele percebe que o único tempo é o presente pontual, que recusa tanto o pretérito quanto o futuro, mas também o presente perfeito do “tenho sido”.

A segunda parte do poema parte para o logro mental do desejo de ser, um problema que parece surgir lá no poema de Parmênides, com a vida do ser e do não-ser, que acaba por elencar o “ser” como o caminho melhor. A mente, então, quer “ser” esse ser contínuo que funde o tempo numa essência clara, quer reconhecer-se no passado, apontar para um futuro coerente; a mente, nesse desejo, erra (no sentido de vagar e no sentido de cometer um erro) por almejar a coerência da essência, em vez do mero ser agora. Assim vamos ao postulado, lugar comum, por exemplo, do budismo, é zerando o desejo e o reconhecimento do sujeito coerente, que se busca uma espécie de dissolução, aniquilação do eu (muito além daquela desaparição elocutório do sujeito, de Marllarmé); o sujeito aqui procura, na recusa dos quereres, viver o agora, a cada agora.

Mas aí vem a pedra de toque, o exemplo natural, que sai do rio em seu paradoxo, para um ypê que flora em plena mata atlântica, à beira da serra, dependurado na serra. O ypê, como o rio, não se pensa (poderíamos lembrar Ricardo Reis, “os deuses são deuses porque não se pensam”), mas aliterativamente (pé, ypê, apenas, apenso, pé), esse pé que se desdobra no pé de si, no pé da serra, no apenas do florir; e aí podemos perceber que outro eco invade o poema inteiro, “mente”. O adverbial “completamente” que parecia apenas um jogo sonoro com “contemplo”, depois se desdobrará na “mente quer ser”, no “apenasmente”, “revolucionariamente” do ypê, que então nos apresenta outra mente (transfiguração do real para além do simbólico?) contra a mente desejante de coerência e essência. Não à toa, este ypê está “apenso”, com tudo que isso pode querer dizer (pendurado, penso, mas também a+penso, uma negação do pensar), ele que não pensa apenasmente apenso: um ypê como revolução, cultural, pessoal, política, como tudo na obra de Belchior. Apaixonado e violento, como você.

Eu pensei demais, Belchior, pensei em te citar muitas vezes pra insistir, ainda uma vez mais, nas poéticas orais, nas poéticas dos vivos. Pensei em falar da tua voz grave e fanha, fora dos padrões, que os bêbados imitam, e bêbado eu imitei, só pra lembrar que era essa falha que era também a tua poética, porque poesia é coisa de corpo, e no teu caso essa voz era parte da faca. Agora que você não tem agoras, fui fazer tudo isso, como posso. Com uma certa alegria em notar que fiz quase tudo de cabeça, que carrego neste corpo agora este teu tanto. Meio que com vontade de só cantar de volta: eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você.

guilherme gontijo flores

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poesia

Ana Carolina Figueiredo de Assis

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Ana Carolina Assis é poeta e educadora. Mora em São Gonçalo desde que nasceu, em 1991, e ainda investiga esse trânsito mato-asfalto ao ir pro Rio. Cursa o mestrado na UFF, pesquisando poesia, corpo e esquizofrenia em Adília Lopes e Stela do Patrocínio. Tem poemas publicados na Revista Garupa. Constrói a muitas mãos a Oficina Experimental de Poesia desde 2015 e esse ano publicou com el_s o Almanaque Rebolado (2017, Açougue, Cozinha Experimental e Garupa).

* * *

aos 16 parou de tocar piano os pássaros e as geografias dos homens
(para a joana)

a luz laranja
atravessava a pedra
era impossível

sobre a rocha gigante
detrás do vidro
antes da fome

da rocha aparente
manchada laranja

não sei se musgo
líquen raiz

criavam liga
e uma pedrinha
equilibrada
era impossível

e seria preciso
derrapar o carro
perder o olho
a liga
e as pontas

você dizia dos pássaros e da geografia dos homens e que estudou piano com a vó embora tenha parado aos 16

uma pedra sobre
a rocha gigante
sustentava a queda
d’água o abrigo dos
pássaros lentes

que só funcionariam
caso parássemos
o carro

coisa que não fizemos
pela mínima fome
que nós acometia

você dizia da acidez extrema entre as coxas e das vitórias-régias e do pincel mergulhado na sopa de cores trocadas e que viveu aqui desde os 11

a pedrinha sobre
o fundo laranja
nos olhava
fundo

e dizia eu não sou daqui
como disseram muitas vezes
aquelas mulheres

§

pássaro morto não é guerra, eu te dizia
e por isso não se pode
suspendê-lo como um
boi
ou proteger a carne
das carapaças

e rangiam teus pés na escada
já são muitos vermes
roendo o corpinho

sim, a fuligem das penas
dos olhos minúsculos
pretos
tinta aos besouros
que pronto chegaram
mas já eram toco a carambola
a fruta do conde
e os restos da feira

eu que nunca troquei de casa
agradeço por não cair do ninho

§

ponte presidente costa e silva

agora sabíamos
cidade de Ilhabela
aquele cargueiro
pro qual correr
caso rasgassem contratos

suas crostas
crustáceos agora sabíamos
feito cascos de tartaruga
guardavam – casa
de corpos –
segredos

vigas guardavam
dos corpos a maior parte
agora sabíamos
caldo de caranguejos
e areia lavada

corpos que cuspiram
como caroços de ameixa
seu gosto por trocas
agora sabíamos

eu te dizia dos
corpos secretos
sob a frágil pele
da ponte

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