poesia

Carla Diacov, 4+1

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Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Autora de Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), A Munição Compro Depois (a sair pela Cozinha Experimental, 2018). Sua poesia já apareceu na escamandro outras vezes.

*

4 POEMAS DE AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA

significar o osso da coisa queridinha
os enfeites da casa gritam comigo
ombreiras esquadrias agulhas gatinhos da china
decoram as margens do meu amor
o ossome afundo na tua reminiscência
o osso e as antenas
gritam
como se tudo fosse o grande do tempo
as esquadrias dos óculos gatinhos da china
omoplatas de prata queridinha
o bafo da trilha
a carne da coisa
tão necessária insignificante
na estrutura superfície da aberração amor

§

eu tinha medo de morrer tímida mordia a ideia
tinha medo do suicídio sendo tão tímida
outras noites já batiam meu queixo
outras dicções
e eu ainda com medo de morrer tímida
mudei os móveis de lugar
encontrei uma agulha perdida tinha anos
e ainda o medo de morrer tímida
abocada numa quina da casa
a boca tão perto do segredo
tímida
lembrando a uma poltrona torta
lembrando a uma boca morta
um peixe sem boca
uma poltrona sem braços

§

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

§

passo por esse casal de amantes
é como meter as mãos num balde de sardinhas
são tantas as mordidelas
estou ferida
não é mortal
passei por aquele casal de amantes
foi como meter num balde de sal
estraçalhadas
as mãos
são tantas as sardinhas
como corta o sol
nem meio gato à vista
como corta a luz
como corta o navio
são tantas as escamas
é como meter as mãos
são tantos os braços
nem meio gato
nem meia língua
nem meio mal

§

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1 POEMA INÉDITO

sons – colo

deita o garfo mudo no meu colo
diz coisas incompreensíveis sobre o amor
diz coisas domesticáveis sobre a vida e o ódio
diz não saber separar a morte da morte momentânea
diz a aflição sobre a comunicação entre gatos
deita a faca nua no meu colo
diz coisas interditadas sobre uma ideia de flor
diz coisas debaixo das unhas dos mortos
entre seus cabelos
deita o prato sujo no meu colo
diz coisas e diz e dança os dedos
deita o copo trincado no meu colo
diz coisas diz coisas e tudo que escuto é o rasgo nesse nosso manso idioma

***

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crítica, xanto

XANTO | Deslocamento e estranheza em ‘Ao jeito dos bichos caçados’, de Otávio Campos, por Sergio Maciel

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O livro Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos, é um livro muito particular. Comecemos pelo título. Comecemos por aquilo que o poeta Ismar Tirelli Neto diz na introdução à coletânea:

O título do presente apanhado nos remete a um aparte do autor americano Robert Glück constante da narrativa “Sanchez and Day”, que abre seu Elements of a Coffee Service, publicado em 1981, a saber, a pergunta: “when aren’t we being chased?”.

Ora, é precisamente como animalidade perseguida – animalidade que a dogmática judaico-cristã recomenda subjugar sem nenhuma ambiguidade – que o poeta textualmente homossexual se coloca no cerne da especificidade brasileira. Ele opera atualmente diante de uma dupla ameaça: a “boa e velha” violência patriarcal e também o perigoso descanso prometido por vertentes mais assimilacionistas do pensamento queer.

Esse título, então, retirado do poema Tarde de Maio, de Carlos Drummond de Andrade, e que se referia lá ao amor, assim amplo, vago e abstrato, pois ele dizia que “o próprio amor se desconhece e maltrata / o próprio amor se esconde ao jeito dos bichos caçados”, vem denotar aqui um amor e transfere o papel de caça para o sujeito que ama. Afinal, agora, quem nunca deixou de ser caçado, quem está na mira do jugo, é o homem amando outro homem, semelhante a um bicho caçado em sua “dissidência afetiva-sexual”, para ainda citar Ismar.

Talvez para tratarmos dessa animalidade perseguida, portanto, seja necessário remetermos àquilo que Rafael Zacca fala sobre o livro de Marília Floôr Kosby (clique aqui), i.e., da apresentação poética de um movimento de deslocamento (lá ele chama ‘êxodo’, mas aqui vou dizer só de ‘movimento de deslocamento’ mesmo). Essa condição de deslocamento, que pode ser considerada sine qua non para toda produção artística, ainda que seja um clichê, no livro de Campos vai se moldando através de uma melancolia que perpassa seus textos. Melancolia porque esse deslocamento concede ao sujeito a condição (e a consciência dessa condição) de estrangeiro, de estranho, e, com isso, obriga-o a lidar com as diferenças de direitos, de acesso aos prazeres. Exemplo dessa relação com o jugo se faz claro no poema “A última experiência dos nossos tempos” (p. 67), em que lemos o seguinte:

é próprio da violência
que sigamos calados
o corpo limite
o que te atravessa

Silêncio, aliás, ou espécie de silêncio cúmplice, que a poesia por si só não cumpre e nem cabe cumprir. Torno a dizer: chega dessa balela de poesia = silêncio. Todo poema pra mim é um discurso em chamas, incendiário e nada tem que ver com silêncio nenhum. Para conferir mais sobre essa relação poesia versus silêncio, favor ler a página 69 do livro L’azur blasé, de Guilherme Gontijo Flores.

Agora, se partirmos para uma análise mais formal do livro, o negócio fica mais interessante. Pelo título, temos que o eu-lírico se apresentava semelhante/”ao jeito dos bichos caçados”. A epígrafe de abertura, retirada de um poema de Edimilson de Almeida Pereira, adverte: “Chamem o amador de blues/ vou bater nele como um boxeur”, anunciado que dali pra frente um embate (alguma espécie de embate) será travado. O primeiro poema do livro, inserido na seção “O bicho que come dentro da gente”, tem por título “Os corpos fraturados”. i.e., se antes mesmo da proposição poética temos um duelo anunciado, o livro logo se abre com uma espécie de apresentação dos espólios desse embate, num poema que remete ao poema “Graveyard”, de Marianne Moore (que Adriano Scandolara traduziu e pode ser lido aqui) e subverte, ironicamente, os versos iniciais do poema inglês. Aparte disso e do belíssimo poema intitulado “Mommy” (que o poeta André Capilé leu e pode ser visto aqui), não vejo grande importância nessa primeira seção.

Me interessa mais as duas seções finais, i.e., “O desejo e outras armas de corte” & “A última experiência dos nossos tempos”. Ora, se no prefácio Ismar nos aponta a importância de uma poética queer brasileira e, no final do livro, Campos nos traz um verso de Allen Ginsberg que diz “i’m putting my queer shoulder to the wheel”, não há como deixar passar a apresentação desse desejo como uma arma de corte, desse “duro tão duro” (p. 44) que vem vindo como uma pororoca desde Piva. Trata-se, creio, de ansiar ver “o desejo imenso do rito” (p.45), que aqui se dá poeticamente, ocorrer “no mundo real agora” (p. 48). Esse terceiro capítulo, intitulado “O desejo e outras armas de corte”, encerra-se com o poema “Como utilizar uma arma de corte” (p. 64), que reproduzo abaixo:

oc

O último capítulo vai colocar muito em evidência a condição do corpo enquanto agente mediador das “últimas experiências dos nossos tempos” e também daquela “animalidade perseguida” a que se referiu Ismar logo no prefácio. Vide:

Cálculo 4:

Quando sobrevivermos ao século e ao massacre
da fera sobre o corpo, da fera em rompante sobre
as instituições e por fim restar apenas o rastro
da língua do animal da fera e suas instituições

Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmãmãmã
mãmãmãmã Mã-mã-mã-mãmãmãmã Uhmmm
Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmã-mamá
Uhm-uhm-uhm Mãmãmã-mãmãmãmã –Mahm!
Uhm… Uhm.. UGH! Mamãmã mamãmã fera.

Áli áli alá! Uhm… [Alá! Alá!] Uhm… Uhm…
desejo da representação: Uma cartografia absurda

O curioso é que boa parte de toda a estranheza que o livro de Campos proporciona decorre ou sintaxe ou do uso inusitado dos enjambements, numa espécie de recusa do verso lapidar (em linguagem popular: àquele verso de tatuagem), numa quase construção do antiverso, que vai de encontro às poéticas, também queer, de Ricardo Domeneck e Ismar Tirelli Neto. Claro que qualquer um que leia o livro verá que há outros direcionamentos, no sentido de dicções que se aproximem daquela de Frank O’Hara ou até mesmo a de Roverto Piva; mas me interessam menos que essa dicção deslocada, estranhada, quase portuguesa, quase brasileira, quase qualquer coisa que Otávio Campos reclama pra si. Dentre os poemas constantes nessa coletânea, são esses, ao estilo de “Mommy” que me interessam, que me pegam, que me prendem. Que moldam esse sujeito caçado por todos os lados.

* * *

post-scriptum: A primeira edição deste livro foi lançada em Portugal, pela editora da Enfermaria6 (clique aqui). Agora, uma edição brasileira será lançada através da parceria entre as Edições Macondo e a Editora Moinhos, a sair dia 15/05, no ciclo de conferências Poesia e Experiência – a delicadeza e a fúria,  evento organizado pelos professores Gustavo Silveira Ribeiro e Prisca Agustoni, na UFMG.

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3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor, roteirista, biscateiro editorial, ator bissexto, curador, dramaturgo, cantor de bar de hotel frustrado, mau filho e marido exemplar. Vive atualmente em Curitiba e lançou os livros Os Ilhados, Ramerrão, synchronoscopio Duas ou Três Coisas Airadas, este último em parceria com Horácio Costa. Não foi lido em pelo menos quatro idiomas.

* * *

O caso em apreço

Falou-se muito de amor naqueles dias

Curioso

Só agora as palavras começam a constituir-se

Com que então

…………………….(Não eram palavras)

Muito se falou de amor

Por aquelas semanas

Falou-se muito – amor, amor –

Com ambas as mãos sobre a morte

Com ambas as mãos sobre a brisa

O movimento de amoldar, de amoldar

Amor

Inabilmente codificado

Urticante

Imprestável para adágios

Chuva de rãs, de chumbo, de areia

Amor com que então de desenredo

Nada fez a ninguém

Remetendo falou-se

Muito de amor

Muito de amor naqueles dias

Tem-se falado

As circunstâncias não foram ainda esclarecidas

§

Caso Postal

Compro um postal
E para deter-nos
…………………….(A mim, a ele)
……………(Ao postal)
Sento-me a uma mesa do lado de fora
Dobrando a rua figurada
Na frente
Em tempo de maré alta
Depara-se este mesmo casario de sólidas fachadas brancas
Perfeitamente ritmadas
As juntas, as juntas das janelas
Os limiares ásperos, cores inambíguas, a sombra colonial
Centenárias construções abrigando
Agências de contabilidade, escritórios de advocacia
(Era este o verso
………………………….de que fugíamos no início?)
Tudo aqui tem luz e pedra e preço
Tudo quanto é figurado à frente nos conduz
A empórios
Lojas de souvenir
Balcões onde se negociam – som, fúria – passeios de escuna
Contudo no verso
Onde escrevo (onde
Ao escrever
Assumo forçosamente que estamos distantes
Ou mesmo mortos)
Não existe senão grande extensão
De breu
Não existe senão encerrar-se
O escuro de orfanatos
(Eles existem, esquecemos)
Eu subscrevo
O escuro de orfanatos, o escuro que canta
De pé
Atrás de um estacionamento, num jângal,
No verso do postal mais soalheiro, quem sabe, talvez
Seja a mesma paisagem
As mesmas correntes amarelas
Que apartam aquilo que é propriamente histórico
De tudo
O mais o escuro
A tudo empalma o escuro
Forrado de passos, de mar
………………………………e morgues, maternidades
………………………………música insituável
Cigarras que berram o tempora o mores
Brenha onde me perde a sugestão
De branco areal
Ao longe
(Existe, não existe, não existe mais)

§

Hermes

I.

Este personagem diante dele
jamais
as ondas resolveram-se
………………………..num qualquer ritmo
E as ondas, sendo cada uma
Um contêiner o céu
Não se seguia
Rolamento ingrato
Descerrando nada nunca
Hermes pusera ferrolhos
Até mesmo
Às paisagens de férias
Era já àquela altura
um nome, nada
Conotava oco e ignorado
À boca
De quantos o cumprimentavam
nada                            nunca
Cumprimentavam
A este personagem para quem
Nada jamais se abrira
Em texto
Nada jamais regrara-se
Em gráceis
Continuidades emersas
as coisas
Sempre emersas
Um único ronco de motor
Enfeixando avenidas
Ao ventre a bulha tão oca
impenetrável
Como o nome
Como os nomes
Espraiando-se cidade
Homens inabitáveis mal
Amanhados em acenos
de cabeça
Àquela altura já não
diziam sequer
escuridão
Ninguém descerrando nada

II.

Este personagem diante de seus olhos
estupefatos
…………….tomavam-lhe a voz
Substituindo-a pouco e pouco
por um coro
………………………………de interditos
Hermes põe-se a falar, a evoluir
………………………………por interditos
Hermes tem a boca cheia
………………………………(cidades e homens)
Rueiro Hermes pôs-se ventre
………………………………cheio e conotando nada
Ante a vitrine
de uma chapelaria
que não ruíra
ainda nas cercanias
do escritório
Um homem
……….habitável?
Representando de nós para nós
as crateras abertas
de redor
Semblantes humanos
………….de grande fadiga
………….na crosta azulada
Vedada
a indagação
que se vai formando
Vedado
responder
com planetas

Eram isto mesmo
Os mistérios

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Luis Marcio Silva (1992 -)

1.1

Luis Marcio Silva nasceu na cidade de Franca/ SP. É geminiano sob o regimento do horóscopo Ocidental. Pelo calendário chinês, nasceu no ano do macaco. Pós-Graduando em Letras, pesquisa poesia brasileira pela UNESP de Assis.

*

Sem título

Permita-nos
/Sem a frivolidade dos verdugos/

Um passo que não seja duro e reto ao abismo
Mas retida no seu reverso
Uma lágrima vertida em chuva fina sem dilúvio
que repousa o equilíbrio do orvalho sobre a pétala

E a seiva                     a vingança de um espírito sagrado
/em surdina/
Sem extirpar nossos ossos da terra.

§

Trocadilhos ferinos
 (Os sertões, Euclides da Cunha)

DIPLOMAS E CANUDOS

O sertanejo é antes de tudo um norte.
A terra,
Um triste disparo de trava-línguas;
O homem,
Um tanque tracionado avant-garde,
A guerra,
Não de bater roupas sujas em ruínas,

*
Mas a marcha que centrifuga os trapos
Sobre as dramáticas Troias de taipas.

§

 

Homo Spiritualis
(A caverna dos sonhos esquecidos, Werner Herzog)

HOMO SAPIENS                                                                  

Há quem quebre bêbado uma taça e
No vinho e no sangue se desenhe rupestre
Distanciando-se do corpo de Cristo;

As lentes de vidro muito amigas das areias
Há quem dispense saber disto,
Até mesmo o saibro o mar e o barulho;

HOMO FICTUS

Frente ao mar num domingo,
(o voo suspenso de uma gaivota)
o homem fotografa a família
brinca o ritual do espírito
e da ampulheta:

Califa do tempo e das sereias.

§

3.

um burburinho
e abre-me a fenda do silêncio uma fotografia
a vaga angústia
os nervos
a pupila aberta
a tristeza elíptica
a turva promessa no alvo da alegria.

12.

Angústia

As unhas presas
No cadafalso de remorso
O espelho
E o ruir dos olhos.

As pernas pairam
Na angústia da vida
Se não te governas
A pele que segura os ossos.

§

PUPILAS DE CARONTE

A morte é um livro
negro de contabilidade
best-seller lido na fila
de um banco em estado like;

É unidade de sentido
empreendido de lógica
Matemática em papel
branco a título corrente;

Sem divisa de alforjes,
a língua das finanças é
Uma bolsa de valores
em óbulos cambiantes

Flores secas e moedas
na vitrine de Caronte;
Se não, vis-à-vis,
pauladas a remo do calote.

Em latim, a morte
e seus disfarces
soam reza morta
na língua do sacerdote

Quem não se traduz
em nenhuma parte
no tecido descobre
o fogo do chicote.

A morte é o poder
de três tigres tristes
Com a língua travada
na inércia da carcaça,

Mecanismo de natureza
primitiva;
Espia, a barbárie
da terra devastada.

***

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Guilherme Bernardes (1993-)

 

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Guilherme Bernardes nasceu em Curitiba (1993). Terminou o curso de Letras Português/Latim com ênfase em estudos da tradução em 2017. Em 2018 começa seu mestrado sobre a obra do poeta norte-irlandês Paul Muldoon, em que também organizará uma seleção de poemas traduzidos. Faz parte do grupo de tradução e(m) performance Pecora Loca. Seu primeiro livro, de contos, O óbvio nosso de cada dia nos trai hoje, foi lançado pela editora Dybbuk em 2016. Publica esporadicamente no blog reconceber.wordpress.com.

* * *

 

damien hirst: a impossibilidade física da morte na mente de alguém que vive

mas e se pelo menos por enquanto
fosse possível que considerássemos
o fim. fizéssemos dele o poder
pra que pudéssemos dar novo início.
ou mesmo imaginássemos o sempre
eterno e ínfimo mundo sem volta

e que, pra cada um a nossa volta,
será o mesmo nada. porém, quanto
êxito. precisaríamos sempre
estar prontos pra que considerássemos
a possibilidade de outro início.
mas pena que querer não é poder.

ainda acreditamos que o poder
inevitavelmente está de volta
se repetindo porque lá no início
viu-se o sol nascer e se pôr. em quanto
tempo pra que nós já considerássemos
seguro confiar nisso pra sempre.

nada garante que será pra sempre.
e nem que fosse um ser todo poder-
oso, impossível que considerássemos
seriamente o fim. ele sempre volta.
e todos dispostos a porem quanto
fosse preciso, para o novo início,

da própria vida. porque desde o início
é assim. a mesma coisa de sempre.
que vida conseguimos pôr enquanto
sentimos total falta de poder.
a vida fica totalmente envolta
num ciclo. por mais que considerássemos

que, se de fato não considerássemos
o fim como apenas fim, mas início
também, talvez já não fizesse a volta
e mudasse. dessa vez para sempre.
e agora. então finalmente poder-
íamos terminar. mas por enquanto

não há fim. sempre há fins. e tudo volta
como considerássemos o início
a fonte do poder do por enquanto.

§

 

necesse est multos timeat quem multi timent

ele tinha de epíteto temido (
o que era mais do que justificado).
não se viu ninguém sentado a seu lado

que não sentisse falta de um abrigo,
assim que possível, vendo o temido

semblante e nele inevitável fado;
a cada gesto dele um novo estado

de pânico, de não ter existido.
até que em tantos o temor crescia
tanto que ele jamais previra os danos.

apenas viu a multidão na via
não vendo nele mais um ser humano.

videntes, realizando a profecia
de que temê-lo havia sido engano.

§

 

hen panta einai

numa palavra dizer
o começo
e o fim; o que é depois e o
que vem antes;
de modo igual marcar a dois
instantes
e em ambos poder ver
desgraça e apreço; é como
uma mudança de endereço;
a mesma ação, motivos
conflitantes; perder; ganhar; questões
irrelevantes;
quem vai saber se é
impulso ou se é
tropeço
vai ser apenas aquele
que passa; se
a lágrima vem por dor
ou deleite; se o ciclo
do sol é
bom ou desgraça
qualquer chance de que alguém
aproveite tudo da vida enquanto
ela esfumaça;
se é o duplo
sentido entre útil e
enfeite;

§

 

a vida nunca é simples nesse frio

I
a vida nunca é simples nesse frio.
há tanto tempo tudo se embaralha
que o estado natural é o arrepio.

tem vezes que eu nem penso em dar um pio
e tudo se transforma em represália.
a vida nunca é simples nesse frio.

bem mais do que a temperatura hostil,
odeio ouvir dos outros, feito gralha,
que o estado natural é o arrepio.

discordo totalmente do meu tio:
o mundo sempre insiste em ser canalha;
a vida nunca. é simples: nesse frio

eterno e que não dá lugar pro estio,
qual fim pior (que encolhe a genitália)
que o estado natural? é o arrepio

final, já quando o brilho é fugidio
dos olhos, que usarei tal qual mortalha.
a vida nunca é simples nesse frio
que o estado natural é o arrepio.

II
a vida nunca é simples nesse frio.
sair da cama é sempre uma batalha.
mas sempre penso em algo mais sombrio:

tem tanta coisa estranha nesse rio,
tem tanta coisa presa nessa calha,
a vida nunca é simples nesse frio.

não acho raro estar entre o vazio
de um jeito tal que só o vazio se espalha,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

os planos de escapar são mais de mil.
mas tudo do que eu tento sempre falha.
a vida nunca é simples. nesse frio

precisa-se de um modo mais sutil
na hora de lidar com a migalha.
mas sempre penso em algo, mais sombrio,

talvez o cheiro azedo, quem sentiu
se lembra, da carniça na navalha.
a vida nunca é simples nesse frio,
mas sempre penso em algo mais sombrio.

§

 

mnemosine

“protect me from what i want”
— jenny holzer

eu vou fazer de tudo que eu puder
pra sempre ter comigo essa lembrança
tua. pra sempre ter comigo alguma
fotografia nossa. como prova
de comprometimento a essa promessa,
te escrevo. quem sabe a tua memória,

ouvindo o que lembra a minha memória,
também se aguce e lembre. se não der
certo, acho que ainda vale a promessa
do início. se ainda houver a lembrança
do que ela era. se alguém desaprova
essa insistência, nós, de forma alguma,

temos motivo pra alarde ou alguma
preocupação. o que conta é a memória.
mesmo que falsa, ela ainda comprova,
no mínimo, um desejo de algum der-
radeiro momento de ser lembrança.
aquilo que eu prometo eu cumpro. meça

muito cuidadosamente a promessa
primeiro, pois não quero ouvir alguma
desculpa esfarrapada. essa lembrança
persiste grudada em minha memória:
nós, deitados na cama, ouvindo there
is a light that never goes out e prova-

ndo que sim, há, depois daquela prova
que a gente estudou tanto, na promessa
de irmos bem, mas que, mesmo assim, nos der-
rubou, e você foi buscar alguma
coisa pra beber. perder a memória
era o plano. extinguir toda lembrança

de que sequer já houve antes lembrança.
funcionou? pra mim, isso apenas prova
que não. não é possível que a memória
desse dia suma. embora a promessa
tenha sido essa. ainda que alguma
luz, de fato, se apague, se eu puder

quebro a promessa. quero essa memória.
prefiro a lembrança como uma prova
de que alguma parte vai transcender.

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Assionara Souza

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Assionara Souza. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.

*

Espelho meu

Estávamos na sala eu e minha mãe
[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos
Somente até aquele dia]
Eu lia a história de Branca de Neve
Virando as páginas assim que as personagens do
Disquinho azul alcançavam a última linha
— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo —
Mal sabia que alimentava naquele gesto
O pequeno monstro do desejo incontrolável
Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez
O carro parou na frente de casa com uma freada brusca
Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que
As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração
Bateram palmas lá fora
Ela largou a costura
Eu desliguei o disquinho
E toda a paz de nossas tardes
Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe
Sempre que ouço a história de Branca de Neve
Esbarro naquele ponto em que o caçador
Arranca o coração de um cervo

§

 

Para todos os efeitos, estamos felizes
Não vamos considerar
O tempo que perdemos no trânsito ou ao telefone
Tentando reconduzir a vida
Aos trilhos onde o carrinho desliza sem trancos ou sustos
É preciso confiar na eficácia da ciência
Quando os cientistas saem tarde da noite dos centros de pesquisa
Uma barata os espia roendo os resíduos das drogas que caem das mesas de trabalho
E o psiquiatra jamais adormeceria sem a pílula milagrosa que despluga pensamentos
O que importa de fato é o investimento e a publicidade
De que um mundo admirável está prestes a surgir

Para todos os efeitos, as novas marcas de café e cerveja têm dado um novo alento
Ao homem médio e sem tempo para se dedicar à
Eficiência misteriosa dos clitóris do mundo
É suficiente o uso de poucas palavras em situações burocráticas
Deixando o excesso para a solidão das páginas virtuais
E o amor, o amor, o amor…
Por favor, aguarde na linha e logo mais o atenderemos
Para todos os efeitos, o jazz e a música clássica escorrerão pelos seus ouvidos
Até que a moça do telemarketing com sua voz provinda de insuspeitos grotões
Transgrida a maciez semântica de humanidade própria da frase:
“Bom dia, em que posso ajudar?”

§

 

A Mulher de Lot

Um passo atrás
Enquanto a cidade desaba
Todos correndo
Um tumulto dos diabos
O filho, a filha, o marido
A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado
Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz
Como se ela não soubesse
Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida
Ele perguntando se a camisa vermelha
— Aquela com um só bolso no lado direito?
— Sim. Essa mesma.
Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada
E o filho indo no mesmo caminho
Tratando-a feito lixo
— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!
Estúpidos todos
Até a filha, que ela tanto ensinou
Agora andava com um centurião
Um centurião!
Maior desgosto para uma mãe
E depois dessa correria toda
Quando arrumassem pouso
Adivinhem quem prepararia o jantar?
Não teve a menor dúvida
Mirou a cidade em chamas
Uma sensação incrível
Deixar de ser uma mulher de pedra
Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

***

 

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A insgugliambaçó de Juó Bananére

Eu ia escrever uma apresentação da minha lavra, mas li isto aqui:

“Quando a primeira edição de La divina increnca foi lançada em 1915, em produção independente, a figura hilária e carnavalesca de Juó Bananére — pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado  (1892—1933) — estava no auge de sua popularidade.

No entanto, sua brilhante carreira de cronista no jornal O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade em 1911, seria abruptamente interrompida nesse mesmo ano, em função de dois artigos jocosos sobre Olavo Bilac e seu nacionalismo ufanista. Dessa vez, até mesmo para as almas mais avançadas do período, Juó Bananére — sem dúvida um dos nomes mais instigantes do pré-Modernismo brasileiro —, tinha ido longe demais com suas blagues.

Em suas crônicas mordazes, como um caleidoscópio louco, Bananére atirava contra tudo e contra todos. Na literatura, por exemplo, atacou clássicos e modernos, parnasianos e futuristas. Na política, mesmo sendo civilista, não deixou de ironizar figura tão respeitada quanto Rui Barbosa. Sua máxima foi semelhante à do dadaísta Arthur Craven: “Todo grande artista tem a brotoeja da provocação.”

Revelando desde o princípio uma capacidade de reconstruir o mundo a partir das associações mais inusitadas, Bananére foi nesse sentido um precursor do texto-montagem, das paródias, ready mades e poemas-piada, recursos que seriam mais tarde empregados por Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, entre outros. A exemplo das vanguardas europeias do início do século XX, instaurou o blefe e o mau gosto como procedimentos artísticos e — assim como os dadaístas — recusou com ironia o rótulo de artista.

La divina increnca, sua obra mais célebre, reúne textos que parodiam poemas clássicos de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Raimundo Correia e Olavo Bilac, ao mesmo tempo em que ridicularizam figuras públicas da época como o marechal Hermes da Fonseca (chamado Hermeze, Dudú e Maresciallo), Nair de Teffé (Nairia), o general Pinheiro Machado (Pignêro e Pentifigno), o senador Rodolfo Miranda (Capitó), Washington Luís (Oxinton) e o vereador e coronel José Piedade (Garonello).

Com sua extrema irreverência, Juó Bananére acabou escrevendo uma espécie de “antilivro”, que se assemelha, numa leitura apressada, a uma brincadeira de estudante. Entretanto, esta algaravia radicalmente popular — que, dado o desuso de certas formas do idioma, hoje chega a nos parecer quase erudita — tornou-se uma forma vitoriosa no tempo, como exemplo genial de humor, ousadia e invenção”

Escrito por Cristina Figueira, como orelha para a edição de La divina increnca, publicada em 2001 pela editora 34 e reeditada em 2007. É um caso raríssimo de concisão certeira, que dizia praticamente tudo que eu poderia querer dizer, e de modo mais preciso. Como não achei esse texto online, optei por disponibilizá-lo aqui, como empenho crítico de primeira, ainda que breve. A ela acrescento apenas quatro coisas. Em primeiro lugar, Bananére é, por assim, dizer, o grande pioneiro do também gênio Adoniran Barbosa; nesse aspecto, poderíamos pensar os vínculos da poesia cantada de Adoniran com certa vertente vanguardista de Zan Baolo. Em segundo lugar, uma série de poemas de sua lavra são também modelos muito radicais de tradução apropriativa, paródica, reviravoltante; temos de pensar nisso com cuidado, porque com Bananére vemos versões inusitadíssimas de Poe-Machado, La Fontaine, e também poetas brasileiros, como Bilac ou Correia, dentre outros; porque, afinal de contas, Bananére não escreve exatamente em português. Em terceiro lugar, parece-me que sua obra é mais um motivo para revermos com cuidado isso que chamamos porcamente de pré-modernismo, limbo vago e sem sentido com ranço de historiografia escolar da literatura brasileira. Em quarto e último lugar, aqui vai um site onde o leitor interessado poderá encontrar mais da obra de Bananére, com toda La divina increnca: http://www.bananere.art.br/.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

O GORVO
P’ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c’un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s’imagine o ch’io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

— Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
— Nos signore, sô dottore…
Io stô c’un medo do signore

— Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
— Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p’ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p’ra elli assí:

– Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

§

AMORE CO AMORE SI PAGA
Pra Migna Anamurada

XINGUÊ, xingaste! Vigna afatigada i triste
I ttiste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno
I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m’amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna de féra
E io di féra tigna uma garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apiso nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbracio mi deu vucê,
Moltos abbracio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.

§

O LOBO I O GORDERIGNO
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére

UN dia n’un ribeiró,
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.

Abebia o gorderigno,
Chetigno come un Jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo saì

O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
Os zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:

— Olá! ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?

— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Foi o gordêro aparlano…

Nos vê intô Incelencia,
Che du lado d’imbaixo stó io
I che nessum ribêro ne rio,
Non górre nunca p’ra cima?

— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno qui io sô un pau d’agua.

— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d’indade?!

— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo é tuo ermô.

— Giuro, ó inlustre amigo,
Che isto tambê é invençó!
Perché é verdado o che digno,
Che nunca tive un ermô.

— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c’oa migna vida.

I avendo acussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p’ru matto
I comeu illo intirigno.

MORALE: O que vale nista vida é o muque!

§

SUNETTO CRASSICO

SETTE anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da rafaella, serrana bella,
Ma non servia o pai, chi illo non era trosa nó!
Servia a Rafaella p’ra si gazá c’oella.
I os dia, na esperanza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o paio, fugindo da gumbinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quando Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaida na sparrella,
Ficô c’un brutto d’un garó di arara
I incominció di servi otros sette anno
dizeno: si o Labó non fossi o pai della
Io pigava elli i lí quibrava a gara.

§

SONETTO FUTURISTE
Pra Marietta

TEGNO una brutta paxó,
P’rus suos gabello gôr di banana,
I p’ros suos zoglios uguali dos lampió
La da igregia di Santanna.

Ê mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.

Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;

I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d’un carrapatto.

§

UVI STRELLA

CHE scuitá strella, né meia strella!
Você stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p’ra iscuitalas montas veiz livanto,
i vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno c’oella,
Inguanto cha as otra lá d’un canto
St’o mi spiano. I o sol como um briglianto
Nasce. Ogliu p’ru çeu: — Cadê strella?!

Direis intó: — O’ migno inlustre amigo!
O chi é chi as strallas tidizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p’ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.

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