poesia

Louise Furtado (1997-)

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Louise Furtado (1997) é poeta e mestranda em teoria literária pela UFF, em Niterói, RJ. Nasceu em Guarapuava no interior do Paraná, morou em Curitiba, morou no Rio de Janeiro, atualmente mora em Niterói e amanhã não se sabe. Estes 4 poemas fazem parte de um projeto em andamento intitulado “taxidermias”. Gosta quando a ponte Rio-Niterói fica interditada porque um cachorro resolveu atravessar e de escrever quando está com sono.

* * *

memória

se um dia Maria abrisse
alguma fresta na porta do quarto
e a visão não tropeçasse
em animais vinte e seis
espalhados e empalhados
talvez não pensasse todo dia
enquanto almoça em ser
empalada e empalhada
para servir de crucifixo
na cabeceira de alguma cama

§

 

labareda

o ano é
não se sabe mais
o tempo é
não se sabe mais
a vida é
nunca soube
soube pela camisa
de papai da Maria Luiza
que ateou fogo nas mãozinhas dela
dentro da própria casa
agarrada às irmãs
da mesma terra
de cabeça dura e mal criada
com garras desgarradas
e talvez Maria Luiza agora…
a primeira filha
não se sabe mais
um flâneur de escombros
viu tudo
só não viu
papai fechar a porta
e andar na rua
com as mãozinhas dela estampadas
de cinzas

§

 

há sombras sem luz
no canto de prédios
guardados pelo tempo
numa caixa de brinquedos

há tantos joelhos com pus
sem mãos pra falar: venha cá
quando foi a última vez que você viu
um Vaga-lume piscando

vi um Cão morto latindo
tendo talvez convulsões
do outro lado da rua
que não é minha

eu dei meia volta
I’m back
eu não sei mais falar inglês
será que alguém precisa disso
falar inglês
um Cão morto latindo precisa
vai ver ele podia falar
help

será que pode carregar na cauda
esse mundo inchado
de água São Lourenço
que tem gosto de gás
que vêm de São Paulo
às sete da tarde

será que pode responder e-mail
falando sobre o tempo
ou sempre tem que
lamber as botas de alguém
falar sobre o tempo em inglês
um e-mail do tempo:
help
abraços,
Tempo.

alguém diz dias depois
as sombras do prédio
fazem sombras no outro prédio ali

mas se acabar a luz na cidade
talvez botafogo grite
PORRA
mas quando voltar todos gritam

uníssono
que não vai chegar em jacarepaguá

mas alguém pode estar lá
gritando socorro
como o Cão morto latindo em inglês
ou o tempo

mas se uma criança abre
a caixa de brinquedos do mundo
e vê o Cão vivo
talvez nasça um pedacinho
de luz no prédio
de alguém indo ao banheiro
quatro horas da manhã
o vaga-lume
que já não via há tanto tempo.

§

 

boceta antropofágica

Maria tem a boceta repleta
das Onças do Rosa
e mata alguns homens assim
lentamente
seus corpos apodrecem
naquele mesmo quarto
e deixa morar Baratas pelos seus membros
é uma pena que eles nunca descubram
o poder disso

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poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003, prêmio Nascente), Icterofagia (Hedra, 2008, ProAC), Transformador (Demônio Negro, antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (Corsário-Satã, 2018) e um inédito, couraça (Laranja Original, no prelo). Traduziu Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra, 2009), Lustra, de Ezra Pound (Demônio Negro, 2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (Dobra Editorial, 2015). É professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

a mãe do nosso açougueiro

suas mãos vieram antes. adiante, os dedos graxos
se moviam como se neles prendesse mesmo o ar.
sorrimos, brincamos, porque é uma causa infinita,
essa de compor um anjo. para esta mãe. esta das

horas de não e de ternura, e aparar tudo que esmaga:
migalhas junto dos lábios, dentes que maltratam.
seu sorriso nos mordia, mascava o mundo como
uma goma, de mandíbula feliz, e mãos tão firmes:

ele agarrava duro as contas sibilantes do chocalho,
seus punhos se fechavam no cercado do andador,
ele fatiava os ovos brancos amando o fio da faca.
mas que gosto ao ver a massa mole que a gema

alaranjava no prato pegajosa, aderência doce que
não pouco se parece com a do sangue, enamorado.
as horas de cortar, suas favoritas. nosso anjo, nosso
gabriel, nosso jorge: a espada é a força, o nosso rito.

§

cada flor uma ferida

chapéu de couro ou cocar, auréola de raios do livro
sem autor, mas o deus sol da maligna terra sem mal;
grota de angicos, gruta de cabeças cortadas, onde os
chapéus riem com dentes de fera, e mordem o cano

do fuzil mauser, estrela e costura dos olhos cerrados;
sob a igreja nova, as ruínas do anti-estado e a cabeça
arrancada, de loucura e demência e fanatismo, ordens
diretas de cães que andam em cima e cheiram em círculo

os rabos. mas rever junto à margem a forma caminhante
da natureza aberta aos pedidos cantados, com sopro de
fumo, com som enfeitado: cabeças brotam do chão em
olhos abertos de vida, que cada flor nos custa uma ferida.

§

guerra cultural

na cabeça dos godos [diz cesareia], estátuas de mármore:
o fauno adormecido nem acorda eclodindo projétil nos
chifres do elmo. endormi [diz bouchardon] ao copiá-lo res-
taurado para antes de ser gliptobomba, ou o que sabemos:

um item novo no que asnos chamam [guerra cultural]? o
fauno voador do mausoléu de adriano entraria enfim na
testa dura dos godos da barbárie. entraria após, com seu
pênis, na doce porcelana em nymphenburg, sem ironia,

[nymphenburg]. o corpo antes grego, que copiam romanos
e redescobre barberini, segue após aos alemães, virtude de
mostruário, raça superior, ignorando o fato de que o fauno,
enfim, não é humano, e a estátua tinha mira nos seus cornos.

§

jargão de pia e barril [ii]

fala também a água de fogo, chamam cachaça,
que banha a carne do cachaço de doçura, eis
a chama de sua língua ardente, escuma da cana
fervente como céu de nuvens que se dissipam

por clareza, translúcido líquido dessa prata veloz
do álcool, ou da caixa sonora do carvalho velho,
senhor ouro que tinge sua voz de saibro, sério o
cenho de seu matiz, mas doce fermento de força

muscular escondida na senzala de onde tentam-na,
nova nobre mentida, mas rememorada em insultos
de reduzir pobre e pinguço, cachaceiro e nordestino,
travo de trabalhador: seu indomável elogio, cachaça.

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poesia

Quatro poemas inéditos de Marcelo Ariel

Marcelo Ariel (1968, Santos-SP) é poeta, crítico e performer. Autor de ME ENTERREM COM A MINHA AR 15 (Dulcineia Catadora, 2003), TRATADO  DOS ANJOS AFOGADOS (Letra Selvagem, 2007) entre outros. Seu livro mais recente OU O SILÊNCIO CONTÍNUO — POESIA REUNIDA 2007-2019, lançado pela Kotter em 2019, contém trinta anos de sua produção poética. Atuou como ator-roteirista no filme PÁSSARO TRANSPARENTE, de Dellani Lima, e gravou o disco de spoken word SCHERZO RAJADA CONTRA O NAZISMO PSÍQUICO em 2012. Atualmente coordena cursos de criação literária em São Paulo. 

* * *

1.

Evandro Carlos Jardim

A razão de ser da linha
está em cada um de nós

A linha não existe
sem uma direção

seu destino
é sempre o objeto

o objeto é sua razão

A linha não nos engana
como a harmonia que
discernível na forma
se esconde
na construção

do desenho
que somos
existindo com
o mundo
como a eternidade
existe em um segundo.

2.

Carl Sagan visita o túmulo de Emilly Bronte

Os deuses são alegorias do humano
Os humanos caricaturas impotentes dos deuses

Haverá em outro século a consciência que nos livrará deste senso comum sem espaço comum
das grandes cidades, dos deuses, do Deus

E se as ideias que criamos do amor
se revelarem insuficientes para amar a existência ?

Amantes tentarão em vão fugir do tempo
em que estão para dissolver os sonhos
no desejo invencível de uma realidade

onde será nítida a proximidade
entre o movimento da espuma e o das explosões solares

entre as estrelas cadentes e os olhos fechados
durante o beijo

3.

Desde que você a veja

As crianças não foram iluminadas o suficiente
há um momento em que a possessão por si mesmas impediu isso

Estamos mais próximos dos cães
que dos leões

Os loucos são
faróis acesos no fundo
de abismos oceânicos

As crianças podem nos ensinar como

Anjos se fossem visíveis
iriam nos aterrorizar
por anos

Crianças e loucos
saem da mente
inicial para o outra
entre a água e o animal
para que Santos e santas encontrem
um sentido para a noção de eu
escoar falsamente
pelo ralo da não- mente

As crianças que um dia foram apenas vontade
se comunicando diretamente com o ato e depois gestos desvinculados da vontade
caindo através dos fatos
que dizem sem palavras
tudo o que existe depois da palavra você
é você

quem diria que
no sorriso louco das crianças
o animal e o anjo

ainda
desamparadamente humanos
nos olhassem tão de frente
de abismos tão rasos

Este poema já acabou três vezes
disse a infância para si mesma

e permanece
desde que você a veja

4.

Espinosa para crianças

Não sei dizer onde termina
o meu corpo
e começa a água

disse a água viva
para a estrela do mar

e eu não sei dizer
como estou parada e em movimento

disse a estrela do mar
para o Coral

nós somos a água
disse a água
para a Estrela cadente

que havia caído
no mar

Quando eu era
o céu
negro
antes
de ser
o céu
azul
antes
de ser
este céu
transparente
eu
era
você

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poesia, tradução

Regina Célia Colônia / Regina Colonia-Willner (1940—)

Apesar do meu interesse recente e de uma série de buscas sobre Regina Célia Colônia, sei muito pouco sobre ela. É autora de quatro livros: Sumaimana (poesia, 1974, reeditado em 1984, e sei que traduzido ao menos ao francês como Sumaymana), Canção para o Totem (contos, 1975), Sob o Pé de Damasco, sob a Chuva (contos, 1984) e Os Leões de Luziânia (contos, 1985). Participou também da antologia Muito prazer (1982, organizada por Márcia Denser). Uma página da Wikipédia diz o seguinte:

“Regina Célia Colônia-Willner (Rio de Janeiro, 1940) é uma escritora, poeta, jornalista e diplomata brasileira. Ganhou em 1976 o 18.º Prêmio Jabuti, na categoria Contos, com seu livro Canção para o Totem.
Passou a infância em diversos países da América do Sul, acompanhando seus pais e convivendo com povos ameríndios das regiões do Chaco, dos Andes e da Amazônia. A sua poesia cria efeitos líricos a partir da semântica da língua quíchua.
Trabalhou para o Jornal do Brasil de 1969 a 1970, quando entrou para a carreira diplomática. Serviu no Senegal, em Portugal e nos Estados Unidos, sendo vice-consulesa em Atlanta.”

Eu tomei conhecimento da sua poesia através do trabalho do Ricardo Domeneck na Modo de Usar & Co. Por causa disso fui arrumar um exemplar de Sumaimana e roê-lo um pouco. O livro, que teve boa recepção e recebeu elogios de ninguém menos que Drummond e Cabral, entre outros, teve até uma segunda edição, mas hoje parece bastante esquecido, ou pelo menos indevidamente sem edições. Trata-se de uma poesia impressionante, tensionada de redondilhas maiores que se desdobram em serpentes visuais e construções que recusam a continuidade das toadas rimadas da poesia mais tradicional; ao mesmo tempo, ela faz um atravessamento de mundos e poéticas, passando pelos quechua, mas também por algumas etnias indígenas localizadas no Brasil, enquanto engole também o movimento do modernismo em suas várias fases. Não é à toa que, mais recentemente, Max de Carvalho (na antologia La poésia du Brésil), Patrick Quillier (na antologia Retendre da corde vocale) e Ricardo Domeneck chamaram atenção para a sua poesia buscando ganhar um pouco mais de informações sobre ela. É um trabalho teso, translúcido e, paradoxalmente, capaz de produzir o encantatório; tem a um só tempo tensão do cerebralismo conceitual e arquitetural e a abertura àquilo que é fluido.

Enquanto escrevia estas palavras, revirando a internet com seu nome e suas obras, consegui avançar um pouco. Primeiro descobri esta entrevista com ela, publicada em 1990, no Modern Language Journal, em que ela fala de ainda escrever poesia e também indica a presença de um romance a caminho, que parece nunca ter sido publicado.
Mas a parte que mais interessa vem agora. Encontrei poemas novos dela, publicados online na Cortland Review, nos números 52 (2011) e 65 (2014). Os poemas estão aparentemente escritos diretamente em inlgês e ela ali assina como Regina Colonia-Willner. Com este nome estou tentando agora descobrir um pouco mais sobre ela, que parece continuar vivendo nos EUA e ter feito um PhD em Neurociência; mas a última postagem de sua lavra no Facebook é de 2 de janeiro de 2015. Ali consigo saber que ela estava ativa em outras revistas (como a Catamaran Literary Reader, que é impressa) e eventos literários.
Abaixo transcrevo um poema longo e belíssimo de seu primeiro livro (infelizmente o blog não tem mais permitido o trabalho de espaçamentos e recuos, que ficaram aqui perdidos), que não encontrei transcrito na internet, junto com três poemas em inglês que achei, seguidos das minhas traduções. É possível conferir mais coisas no link da Modo de Usar & Co. que coloquei acima e também um conto que saiu na Colóquio Letras, em 1983, onde vemos que a sua prosa é também poesia. Na esperança de ver mais poesia sua e mais divulgação de poesia sua no Brasil.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Sumaimana

Sumaimana é o que veio
mais lindo que o lindo,
veio
primeiro

gotorire, caiapó,
abrindo a festa na mata
ou pela estrada dos Andes
nomeando o céu que não antes
se sabia

à terra dos altiplanos
às varzeas de maracaibo
cujas negras tetas hoje
o horizonte acaricia



Sumaimana é o que trouxe
para as crianças do estreito
o peixe da patagônia,
o osso do anzol redondo
e seus pés de haver gigantes
tão macios se faziam

Sumaimana conversa
com as pedras
a chuva dorme
sobre seu ombro



Sumaimana sabia
a força dos pássaros
ia
fundindo platina e ouro
milhares de tempos antes
de Cristo
— Sumaimana é o homem
do peito florescido

(Sumaimana, meu corpo
é todo um ouvido
atento
teu passo nesta terra que é tua)



Sumaimana, no entanto,
traz o medo da baleia
— seu coração poderoso
nas noites de lua cheia —
que avisam os quipos
contam
as estrelas perguntadas
e as verdes coisas internas,
beiços de pau,
fontes claras
de um campo maior que o centro
da saudade que te ama,
desta ideia de amazonas,
de brasis mais viageiros,
de maias, de salasacas,
campesinos tiahuanacos,
caracas, chimus, araras,
uros,
changos,
guaranis,
wapitchanas, aymarás



Sumaimana é a cartilha
mais linda Chavín chegada
ao coração do povo
que aprende a pedra do centro,
as tartarugas sagradas
de quem se grou o mundo,
dragão verde, tigre branco



(gosto de estar pelos campos
da cartilha de meu povo)

espaço entre céu e terra
de Imbabura a Cotacachi
sua flauta equatoriana
Sumaimana

nos teares de Otavalo
todas as cores do arco-íris,
Sumaimana

onde as plantas se preparam,
Sumaimana

pela plaza 24 de mayo as candeias altas,
Sumaimana

a pedra
de lua veio
para moer a cevada



teu sorriso é teu sorriso
e teu rosto é o do meu povo,
por nada no mundo havia
de esquecer quanto te amo



Sumaimana é o que veio
mais lindo que o lindo,
veio
pelo Orubambo descendo
sua canoa

em maio como em setembro
no país dos quatro pontos
cardeais — Tahuantinsuyo —
Sumaimana é o que amarra
o sol por um ano ainda
e as tranças da namorada
com toda a ternura quechua



Sumaimana é o que veio
primeiro

do mais íntimo da terra,
do oceano mais guerreiro,
pela riqueza do fogo
entre as madeiras e o baile
dos ventos na cordilheira

Sumaimana, o primeiro.

§

Wild beauty

You do not need to believe
each one of your thoughts.
Sometimes they slide
as Chagall lovers in the wind.
Yet wild
beauty teaches us.

Did you know that children
grow faster in spring?
That your bones
are twice as tough as granite?
That our left lung
is smaller than the right
because there needs to be room
for the heart?

You do not have to trust
the structure where you live
for its elements
— the roof, the science paper, the flags
fluttering out of your passport upstairs —
may embrace for a time in a place,
but none
might corral the newness of identity.

You can stand tall, though,
on the ground where giraffes feed
from the top of acacia trees
by the waterfall,
where we dance therefore we are,
and we cry therefore we change
in the wild freedom
beyond grasping.


Selvagem beleza

Não precisa acreditar
em cada pensamento teu.
Eles por vezes deslizam
que nem amantes de Chagall ao vento.
E ainda a selvagem
beleza nos ensina.

Sabia que as crianças
crescem mais rápido na primavera?
Que os teus ossos
resistem duas vezes mais que o granito?
Que o nosso pulmão esquerdo
é menor que o direito
porque precisa dar espaço
ao coração?

Não precisa confiar
na estrutura onde moras
pois seus elementos
— o telhado, o artigo científico, as bandeiras
voando do teu passaporte no andar de cima —
podem abraçar um tempo algures,
mas nenhum
pode cercar a novidade da identidade.

Dá pra ficar alto, teso,
no chão onde as girafas se alimentam
da copa das acácias
junto à cachoeira,
onde dançamos, logo existimos,
e choramos, logo mudamos
na liberdade selvagem
incapturável.

§

The long diagonal

From Atlanta to Seattle, the long flight
trouts beneath the April moon. The young

Buddhist monk in me drums nails with gusto
into the coffin’s lid. Darkest green

spruce and snow: among the clouds,
the mountain.

Beyond Seattle, the ocean vibrates
like a flight of geese at dawn.


A longa diagonal

De Atlanta a Seattle, o longo voo
trota sob a lua de abril. O jovem

monge budista batuca as unhas com gosto
na tampa do caixão. Escuríssimo verde

abeto e neve: entre as nuvens,
o monte.

Além de Seattle, vibra o oceano
feito um voo de gansos na aurora

§

Gallop

With my hand still fragrant from the horse’s face,
I took the bread—the horse’s heart
still galloping in mine.

I took, with that same right hand the bread,
the Kairos,
and the newness of its fragrance floated
over the rooftops,
over the mulberry trees,
into the world.


Galope

Com a mão cheirosa ainda pela cara do cavalo,
peguei o pão – o coração do cavalo
no meu ainda galopando.

Peguei com a mesma mão direita o pão,
o Kairos,
e a novidade do seu cheiro flutuou
sobre os telhados,
sobre as amoreiras,
no mundo.

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poesia

Mila Teixeira

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Mila Teixeira (Rio de Janeiro, 1993) é poeta, prosadora, dramaturga e artista visual. Estudou Audiovisual na UFRJ e trabalha como roteirista. Sua primeira peça, Inscrição na Areia, foi montada em Londres e será montada na capital da Escócia em 2020. Acaba de finalizar seu primeiro livro, 12 Poemas Sobre Perda e atualmente está trabalhando na sua próxima peça, O Que Aprendi Roubando Queijo no Mercado. Gosta de escrever em transportes públicos.

*

agora, um poema sobre destino

quero contar pra você
de quando uma jovem carioca
que havia acabado de chegar
à maioridade
isabela o nome dela
por que bela se manca, por que manca se bela?
morreu assim que saiu de uma consulta
com uma astróloga
que lhe disse:
você tem que ser mais flexível
ah!
o sotaque da astróloga era portenho
nasceu em mendoza
sabe-se que gostava de (em ordem alfabética):
astrologia – um tanto quanto óbvio
beijo na boca – quem não gosta?
chicletes de tutti-frutti – tinha muitas cáries
italianos – nunca superou o primeiro marido e se masturbava diariamente pensando nele, que dó
john coltrane – ouvia às tardes, em oração
muamba ilegal – não me pergunte, não tenho nada a ver com isso, eu não sei de nada
sarapatel – sua comida preferida, acredite se quiser
zinixyz – uma marca de vinho, nunca bebi porque tem esse nome pouco atrativo

a astróloga chamou a ambulância assim que viu o corpo de isabela estatelado
no meio da rua
era muito infeliz para alguém tão jovem, parece que tropeçou no meio do caminho
disse a astróloga à sua terapeuta

nunca deixou de pensar em isabela
§

inutilidades

toda coleção carrega em si
seu percentual inútil
não preciso do que tenho em
grandes quantidades
mesmo assim
me satisfaço a cada novo item
coleciono:
réplicas de animais em miniatura
quero muito um elefante uma baleia uma girafa uma onça pintada
para quê?
canecas de museus que visito
uma já seria suficiente e os recipientes de
cerâmica se acumulam no armário da cozinha
para quê?
cartões
talvez minha coleção mais cruel
as réplicas adornam
as canecas são utilizadas é preciso beber
os cartões ficam na minha gaveta perdem sua função
não escrevo neles tampouco os tiro do plástico
eles não receberão palavras de afeto
declarações de amor ou
pedidos de desculpas
apenas ficam na minha gaveta

também coleciono amores frustrados
mas seria de uma cafonice só
começar a falar disso nesse
poema
deixemos para o próximo
§

vou ligar pro m. e dizer:

aquele seu livro?
uma porcaria
aquele poema? tão
ofensivo você deveria
ter vergonha
ele vai ficar
em silêncio vou continuar
relutei e li o outro
demorei a ler porque me
apaixonei pelo eu
lírico perdidamente

vou desligar se ele
me ligar não vou
atender
me encontra em dez anos
m., evita os lugares que
frequento
evita minhas fotografias
minhas bitucas de cigarro
me encontra em
dez anos com novos
poemas e sem
barba porque você é feio sem
barba
e eu te gosto feio
§

a escritora mila teixeira

não se chama mila
seu nome verdadeiro é haya, ela não sabe o que significa
só sabe que é um nome judeu e que sua avó gritava haya o tempo todo

a escritora mila teixeira
não deveria ser teixeira
ela deveria ter um sobrenome estranho
que sua mãe deixou pra lá por ser impronunciável em terras tupiniquins

a escritora mila teixeira
nem escritora é
ela é uma black block com saudade de coquetel molotov
faz explosivos caseiros como ninguém

a escritora mila teixeira sofre de crise de identidade e na verdade é haya mikhailovitch, procurada pela polícia desde junho de 2013

*

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poesia

Um poema inédito de André Luiz Pinto

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), Nós, os Dinossauros (Patuá, 2016), Migalha (7Letras, 2019) e o mais recente, Na rua, em parceria com Armando Freitas Filho (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-politicas, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

* * *

O guru

Tenho horror a oficinas de poesia.
Parecem aqueles serviços
de coaching.
Mas, talvez por ter
chegado aos 40
& ainda me achasse completo idiota
na arte do verso
decidi experimentar.
O guru disse
que eu não conversava
com minha
criança interior
que ela queria
ser liberta mas não
a deixava. Quando comecei o curso
achei que me metera
em mais outra religião
mas já no fim
da primeira sessão
quando fazíamos
a poderosa técnica
de olhar
para o espelho
quebrado
falei, diante
dos outros alunos
meus irmãos
agora:
cai fora!
Trata-se
de ritual
que ajuda a gente
a se livrar das energias impuras
Abre o chacra
para a visão cósmica
que a poesia
exige. O guru não
explicou assim
de forma tão teórica
mas deixava
claro para os incautos
que quando se diz
‘cai fora’, é aí
que acontece.
O guru disse também
que eu fedia à raiva
que havia muita mágoa
dentro. E eu
nem sabia
que dava
para notar
essas coisas.
Disse que
com treino
& dedicação, chegaria lá.
Um exercício
que ensinou era observar as pessoas
Tenho, por
ex., 2 amigos –
e eles queriam
porque queriam me converter
para o budismo.
Eu dizia que os cristãos
também tentaram comigo essa proeza.
Só que esses tinham
a arma da poesia.
Mostravam com seus poemas
que o budismo ensinava
a viver – porém, antes
de eu ceder, algodoei os ouvidos
com a cera do cinismo
e só assim fui capaz
de responder:
até parece.
Tem dias
que a vida é dura
& a cruz nos
tenta. Por muito tempo
cultivei o demônio
de Sócrates
como melhor resposta.
Hoje, contudo, sei
que agir assim
é uma forma
de defesa.
Aprendi
que cada um se vira com
o que tem.
Tive também um tio
que disse
algo parecido
quando eu botava
as pessoas
contra
a parede: “acha que agindo
assim as pessoas vão te entender? Tem gente
que pira só de se sentir ameaçada em sua fé”. “E é isso
o que você quer?”. “Um abstêmio
pulando feito sapo numa cama
de pregos?”. Uma coisa
que o meu guru
não queria
era que eu julgasse
as pessoas. Queria que eu as
olhasse – apenas. Passei a observar
as crianças…
Gosto da maneira
como encaixam as palavras
Meu guru disse
que eu devia reaprender
a olhar o mundo
se quisesse sobreviver.
Insistiu também na minha autoindulgência.
Reiterou a opinião de amigos.
O guru disse
o que eu precisava
ouvir – que o
mundo é pegar
ou largar, espécie
de metáfora programada
sem data
de término.
Insistiu também na ideia
de perdão.
Que o perdão
acalma
e acalmar
é mais importante
para a poesia
do que se imagina.
Perdoar
eu
disse
é que são
elas.
Mas você devia
perdoar, respondeu o guru
com a maior calma
do mundo.
Fiz então uma lista
de dores que podiam ser
esquecidas.
Lembrei do editor
que para humilhar teria perguntado
ao poeta se sabia escrever
e este teria respondido preenchendo um cheque:
“serve?”. Outra história
é a de Wallace Stevens.
Quando Wallace morreu,
quiseram lhe prestar
homenagem entrevistando
os mais próximos.
O engraçado é que ninguém
que trabalhava
com Wallace
sabia que ele era poeta.
A resposta
da secretária foi
a melhor: “você está dizendo
que Wallace Stevens, meu chefe,
era poeta? Se ele não tivesse
enfartado eu
nem suspeitaria
que tinha
coração”.
É disso
que estou
falando
desse pequeno mal
distraidamente
misturado
a um mal maior.
Perdoar já
é difícil
& eu não sei se vale
à pena.
Sei que devia
ser menos raivoso
o que pode
ser proveitoso
para mim.
Sei que tinha outra coisa
para dizer, mas do jeito
que está, deixa.
Resta frequentar
essas oficinas
fazer parte
do discreto
charme, com médicos,
embaixadores, filhas de militares, jornalistas.
Como Edward Norton
em Clube da luta, das coisas
que me tiram o sono
a pior é
a alegria.
É esse
o meu incômodo
E eu sinto que não
é só comigo.
Está em cada um
de vocês.
O guru mesmo de vez em quando
apronta as suas. A paixão que nutre
por uma fiel o fato de ele cultivar
entre os pupilos a promessa
de que um dia serão
publicados. Outros ainda tomam
o guru pelo diabo.
Sempre gostei dessas histórias
em que para garantir
o sucesso recorre-se
a fantasmas.
Conheço um escritor
que O conjurou
para obter sucesso.
Estava sozinho.
Preparou o apartamento
Acendeu duas velas
na frente do espelho.
Foi aí que notou que enquanto
procedia o ritual
sua imagem não refletia
o rosto, mas
as costas
como se o espelho
estivesse por detrás. Apagou
imediatamente as velas
e se pôs
a dormir.
Não é qualquer um
que tem coragem
eu já visitei
também uma encruzilhada
Só não deu certo.
Hoje sei que o diabo
não procura
qualquer pessoa
só as
com talento.
Burrice comprar algo
que se tem.
Eu não tenho nada
para oferecer
O que tenho é basicamente
o que você vê
Uma mentalidade pouco refinada
que sorri quando bate
um vento
alguém que está
a maior parte
do tempo sem entender.

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poesia

3 poemas inéditos de Adriano Scandolara

Adriano Scandolara (1988) é um poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Foi um dos editores e membros fundadores do escamandro, mas acabou se afastando por motivos de sanidade mental. É autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013, esgotado, mas disponível aqui em pdf) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Como tradutor, já traduziu um monte de gente, como se pode ver nos arquivos do blog, mas especialmente os poemas de Shelley, que saíram no volume Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), e Milton, cujo Sansão Agonista permanece na gaveta. Recentemente concluiu o doutorado pela UFPR sobre poesia moderna, filosofia da linguagem e muitas coisas loucas e ainda não sabe bem o que fazer da vida depois. Os seguintes poemas são inéditos, e é uma alegria tê-lo de volta agora como autor.

guilherme gontijo flores

* * *

Anistia

Se for bater, não me venha
com essa de estou só
cumprindo ordens, foi pra isso
que você lhes entregou
teu corpo, tuas pernas,
mãos, a língua, o cu
desça
o braço com gosto, esta
é tua obra – e, pra dar
amnésia, mire na cabeça,
a obra é anônima e você
já lhes entregou também
teu nome, em todo caso,
apenas
um borrão
esse teu sorriso de filho da puta.

E continue golpeando mais
e mais
e mais até
encontrar nesse saco de ossos que você,
necrófago, anseia abrir,
chupar o tutano que te falta,
uma resposta na torção
desdentada da boca
passado certo ponto – além da amnésia,
o músculo em cãibra, as falanges já
quebradas de tanto bater,
aprende-se a amar o punho cerrado.

§

O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos

O que te traz aqui? você já
fez terapia antes? o que te aflige?
você culpa alguém por isso? você pode
descrever pra mim
tua relação com teus pais? você pode
fisgar o Leviatã com um anzol
ou amarrar uma corda à sua língua?
onde você estava quando
foi feliz pela última vez? e quando
foram deitadas as bases da terra
e as estrelas da manhã cantaram em coro?
o que você sentiu?
você já entrou às origens do mar, passeou
no mais profundo do abismo, até os tesouros da neve
e viu os tesouros da saraiva que eu retenho
até o tempo da angústia, até o dia da peleja
e da guerra? o que fazem
os teus pais?
a chuva tem pai?
ou as gotas do orvalho? de que ventre
procede o gelo? e quem gerou
a geada do céu? quem prepara
aos corvos seu alimento,
quando seus filhotes gritam a Deus
e andam vagueando, por não terem o que comer?
você pode prender as cadeias das Plêiades?
soltar os cordéis de Órion? correr o zodíaco
pelas estações ou guiar a Ursa com seus filhotes?
você usa drogas?
o que é o homem?
e o que você quer dizer quando diz
que se sente vazio?
ou remonta o abutre ao teu mando e põe no alto o seu ninho?
dali descobre a presa, seus olhos a avistam de longe
e seus filhos chupam o sangue,
e onde há mortos, ali está ele
que não sabe mais
quem é?

Escuta: o caminhão na rua,
porque não havia sistema de coleta
os antigos jogavam seu lixo
no chão e o cobriam
com novas camadas de terra,
as lascas de cerâmica, embalagens
plásticas, camisinhas, celulares
explodidos,
erguendo
as cidades verticalmente,
que permite ao arqueólogo saber
quem era quem
e onde viveu, amou e morreu, a história
como livro do que é minúsculo,
do que foi jogado fora.

§

Tabu

Mesmo quando sobre o silêncio, evidente
contradição, a palavra o
destrói —
mas que voz
é esta, que locutor reside
homuncular
em tua cabeça e recita
o jornal em tuas mãos? acaso é a mesma
nos obituários e classificados
sem a menor mudança de
tom?

daí que estas letras, menos
óbvio, não vieram da pena do escriba
no pergaminho, seu menor erro arriscando
o fim do mundo —
estas coisas mortas,
sombras sobre areia, não têm força
contra o silêncio, precisam
que esse crime você
cometa por elas

e seja castigado:
um homem certa vez
recitou estes versos e um caminhão o atropelou,
outro perdeu sua esposa e filhos,
mas talvez nada aconteça
ou a mudança
seja pequena, só trazendo
consequências quando você não mais lembrar

e em todo caso você é cético demais,
com razão, para crer em tabus, mas
se me pedirem a leitura em voz alta, recomendo
que cale por um minuto
e faça depois
o sinal de Harpócrates.

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