poesia

Um poema inédito de André Luiz Pinto

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), Nós, os Dinossauros (Patuá, 2016), Migalha (7Letras, 2019) e o mais recente, Na rua, em parceria com Armando Freitas Filho (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-politicas, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

* * *

O guru

Tenho horror a oficinas de poesia.
Parecem aqueles serviços
de coaching.
Mas, talvez por ter
chegado aos 40
& ainda me achasse completo idiota
na arte do verso
decidi experimentar.
O guru disse
que eu não conversava
com minha
criança interior
que ela queria
ser liberta mas não
a deixava. Quando comecei o curso
achei que me metera
em mais outra religião
mas já no fim
da primeira sessão
quando fazíamos
a poderosa técnica
de olhar
para o espelho
quebrado
falei, diante
dos outros alunos
meus irmãos
agora:
cai fora!
Trata-se
de ritual
que ajuda a gente
a se livrar das energias impuras
Abre o chacra
para a visão cósmica
que a poesia
exige. O guru não
explicou assim
de forma tão teórica
mas deixava
claro para os incautos
que quando se diz
‘cai fora’, é aí
que acontece.
O guru disse também
que eu fedia à raiva
que havia muita mágoa
dentro. E eu
nem sabia
que dava
para notar
essas coisas.
Disse que
com treino
& dedicação, chegaria lá.
Um exercício
que ensinou era observar as pessoas
Tenho, por
ex., 2 amigos –
e eles queriam
porque queriam me converter
para o budismo.
Eu dizia que os cristãos
também tentaram comigo essa proeza.
Só que esses tinham
a arma da poesia.
Mostravam com seus poemas
que o budismo ensinava
a viver – porém, antes
de eu ceder, algodoei os ouvidos
com a cera do cinismo
e só assim fui capaz
de responder:
até parece.
Tem dias
que a vida é dura
& a cruz nos
tenta. Por muito tempo
cultivei o demônio
de Sócrates
como melhor resposta.
Hoje, contudo, sei
que agir assim
é uma forma
de defesa.
Aprendi
que cada um se vira com
o que tem.
Tive também um tio
que disse
algo parecido
quando eu botava
as pessoas
contra
a parede: “acha que agindo
assim as pessoas vão te entender? Tem gente
que pira só de se sentir ameaçada em sua fé”. “E é isso
o que você quer?”. “Um abstêmio
pulando feito sapo numa cama
de pregos?”. Uma coisa
que o meu guru
não queria
era que eu julgasse
as pessoas. Queria que eu as
olhasse – apenas. Passei a observar
as crianças…
Gosto da maneira
como encaixam as palavras
Meu guru disse
que eu devia reaprender
a olhar o mundo
se quisesse sobreviver.
Insistiu também na minha autoindulgência.
Reiterou a opinião de amigos.
O guru disse
o que eu precisava
ouvir – que o
mundo é pegar
ou largar, espécie
de metáfora programada
sem data
de término.
Insistiu também na ideia
de perdão.
Que o perdão
acalma
e acalmar
é mais importante
para a poesia
do que se imagina.
Perdoar
eu
disse
é que são
elas.
Mas você devia
perdoar, respondeu o guru
com a maior calma
do mundo.
Fiz então uma lista
de dores que podiam ser
esquecidas.
Lembrei do editor
que para humilhar teria perguntado
ao poeta se sabia escrever
e este teria respondido preenchendo um cheque:
“serve?”. Outra história
é a de Wallace Stevens.
Quando Wallace morreu,
quiseram lhe prestar
homenagem entrevistando
os mais próximos.
O engraçado é que ninguém
que trabalhava
com Wallace
sabia que ele era poeta.
A resposta
da secretária foi
a melhor: “você está dizendo
que Wallace Stevens, meu chefe,
era poeta? Se ele não tivesse
enfartado eu
nem suspeitaria
que tinha
coração”.
É disso
que estou
falando
desse pequeno mal
distraidamente
misturado
a um mal maior.
Perdoar já
é difícil
& eu não sei se vale
à pena.
Sei que devia
ser menos raivoso
o que pode
ser proveitoso
para mim.
Sei que tinha outra coisa
para dizer, mas do jeito
que está, deixa.
Resta frequentar
essas oficinas
fazer parte
do discreto
charme, com médicos,
embaixadores, filhas de militares, jornalistas.
Como Edward Norton
em Clube da luta, das coisas
que me tiram o sono
a pior é
a alegria.
É esse
o meu incômodo
E eu sinto que não
é só comigo.
Está em cada um
de vocês.
O guru mesmo de vez em quando
apronta as suas. A paixão que nutre
por uma fiel o fato de ele cultivar
entre os pupilos a promessa
de que um dia serão
publicados. Outros ainda tomam
o guru pelo diabo.
Sempre gostei dessas histórias
em que para garantir
o sucesso recorre-se
a fantasmas.
Conheço um escritor
que O conjurou
para obter sucesso.
Estava sozinho.
Preparou o apartamento
Acendeu duas velas
na frente do espelho.
Foi aí que notou que enquanto
procedia o ritual
sua imagem não refletia
o rosto, mas
as costas
como se o espelho
estivesse por detrás. Apagou
imediatamente as velas
e se pôs
a dormir.
Não é qualquer um
que tem coragem
eu já visitei
também uma encruzilhada
Só não deu certo.
Hoje sei que o diabo
não procura
qualquer pessoa
só as
com talento.
Burrice comprar algo
que se tem.
Eu não tenho nada
para oferecer
O que tenho é basicamente
o que você vê
Uma mentalidade pouco refinada
que sorri quando bate
um vento
alguém que está
a maior parte
do tempo sem entender.

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3 poemas inéditos de Adriano Scandolara

Adriano Scandolara (1988) é um poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Foi um dos editores e membros fundadores do escamandro, mas acabou se afastando por motivos de sanidade mental. É autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013, esgotado, mas disponível aqui em pdf) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Como tradutor, já traduziu um monte de gente, como se pode ver nos arquivos do blog, mas especialmente os poemas de Shelley, que saíram no volume Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), e Milton, cujo Sansão Agonista permanece na gaveta. Recentemente concluiu o doutorado pela UFPR sobre poesia moderna, filosofia da linguagem e muitas coisas loucas e ainda não sabe bem o que fazer da vida depois. Os seguintes poemas são inéditos, e é uma alegria tê-lo de volta agora como autor.

guilherme gontijo flores

* * *

Anistia

Se for bater, não me venha
com essa de estou só
cumprindo ordens, foi pra isso
que você lhes entregou
teu corpo, tuas pernas,
mãos, a língua, o cu
desça
o braço com gosto, esta
é tua obra – e, pra dar
amnésia, mire na cabeça,
a obra é anônima e você
já lhes entregou também
teu nome, em todo caso,
apenas
um borrão
esse teu sorriso de filho da puta.

E continue golpeando mais
e mais
e mais até
encontrar nesse saco de ossos que você,
necrófago, anseia abrir,
chupar o tutano que te falta,
uma resposta na torção
desdentada da boca
passado certo ponto – além da amnésia,
o músculo em cãibra, as falanges já
quebradas de tanto bater,
aprende-se a amar o punho cerrado.

§

O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos

O que te traz aqui? você já
fez terapia antes? o que te aflige?
você culpa alguém por isso? você pode
descrever pra mim
tua relação com teus pais? você pode
fisgar o Leviatã com um anzol
ou amarrar uma corda à sua língua?
onde você estava quando
foi feliz pela última vez? e quando
foram deitadas as bases da terra
e as estrelas da manhã cantaram em coro?
o que você sentiu?
você já entrou às origens do mar, passeou
no mais profundo do abismo, até os tesouros da neve
e viu os tesouros da saraiva que eu retenho
até o tempo da angústia, até o dia da peleja
e da guerra? o que fazem
os teus pais?
a chuva tem pai?
ou as gotas do orvalho? de que ventre
procede o gelo? e quem gerou
a geada do céu? quem prepara
aos corvos seu alimento,
quando seus filhotes gritam a Deus
e andam vagueando, por não terem o que comer?
você pode prender as cadeias das Plêiades?
soltar os cordéis de Órion? correr o zodíaco
pelas estações ou guiar a Ursa com seus filhotes?
você usa drogas?
o que é o homem?
e o que você quer dizer quando diz
que se sente vazio?
ou remonta o abutre ao teu mando e põe no alto o seu ninho?
dali descobre a presa, seus olhos a avistam de longe
e seus filhos chupam o sangue,
e onde há mortos, ali está ele
que não sabe mais
quem é?

Escuta: o caminhão na rua,
porque não havia sistema de coleta
os antigos jogavam seu lixo
no chão e o cobriam
com novas camadas de terra,
as lascas de cerâmica, embalagens
plásticas, camisinhas, celulares
explodidos,
erguendo
as cidades verticalmente,
que permite ao arqueólogo saber
quem era quem
e onde viveu, amou e morreu, a história
como livro do que é minúsculo,
do que foi jogado fora.

§

Tabu

Mesmo quando sobre o silêncio, evidente
contradição, a palavra o
destrói —
mas que voz
é esta, que locutor reside
homuncular
em tua cabeça e recita
o jornal em tuas mãos? acaso é a mesma
nos obituários e classificados
sem a menor mudança de
tom?

daí que estas letras, menos
óbvio, não vieram da pena do escriba
no pergaminho, seu menor erro arriscando
o fim do mundo —
estas coisas mortas,
sombras sobre areia, não têm força
contra o silêncio, precisam
que esse crime você
cometa por elas

e seja castigado:
um homem certa vez
recitou estes versos e um caminhão o atropelou,
outro perdeu sua esposa e filhos,
mas talvez nada aconteça
ou a mudança
seja pequena, só trazendo
consequências quando você não mais lembrar

e em todo caso você é cético demais,
com razão, para crer em tabus, mas
se me pedirem a leitura em voz alta, recomendo
que cale por um minuto
e faça depois
o sinal de Harpócrates.

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Maria Lúcia Alvim (1932)

Algumas famílias nos pasmam. Veja esta Alvim: gerou o mais reconhecido, Francisco (1938—), Maria Ângela (1926-1959, cf. post na Modo de usar & co.) e só há pouco fui descobrir, gerou também Maria Lúcia Alvim (1932—), essa poeta impressionante, versátil, tesa, pontilhista, de virtuoso domínio técnico (passando pelo haiku à la Guilherme de Almeida, o soneto na melhor estirpe de Jorge de Lima, o rondó renascentista, a sextina enxuta, o verso livre etc.), derivas metafísicas tensas e sutis, a colagem etc. A sua reunião de poesia, Vivenda, publicada pela coleção Claro Enigma em 1989, nos diz apenas o seguinte: “Nasceu a 4 de outubro de 1932 na cidade mineira de Araxá. Autodidata, abandona a escola para se dedicar exclusivamente  a poesia e a pintura. Realiza exposições de artes plásticas e publicou cinco livros de poesia. Atualmente divide seu tempo entre a cidade do Rio de Janeiro e uma fazenda no interior do estado.” Mas consegui confirmar que realmente é da família, talvez a poeta mais vigorosa dessa família de poetas absurdos. 

Por isso fiz a maior antologia online possível: não é possível que estejamos vivendo há mais de 30 anos sem nova edição da poesia de Maria Lúcia Alvim. Seguiremos sem os XX Sonetos (1959) com sabor de Sá de Miranda e Mário de Sá-Carneiro, com sua metafísica de sujeito cindido, sua homenagem à irmã suicida, em XVII? Sem os jogos ágeis pré-leminskianos de Pose (1968), e seu modo fotográfico reflexivo, como em “Mágico desafio”? Sem a construção dissonante e cristalina do magistral Romance de Dona Beja (1979) que ora tensiona Cabral (“O fim do quilombo do Tengo-Tengo”), ora Cecília (“Rondó da desilusão”), ora Drummond (o sutilíssimo “Lúcida rendição”), sem os pastiches seríssimos e multilíngues de A rosa malvada (1980), como a série dedicada ao irmão, ou a pérola de “Num átimo de amor”, ou o resultado complexo a partir das rimas banais de “Somatização do soneto”? Sem as potências concretas, entre o sublime e o irônico, de Coração incólume (1968), como em “Cartão postal”?Para se ter uma ideia, não consegui nem uma imagem da poeta, e só uns pouquíssimos poemas transcritos na rede, como o que está no site do Antônio Miranda

E mais, não podemos estar há 40 anos sem poemas novos dessa mulher. Onde o baú, onde o borralho do que ela andou fazendo, se está viva, sem nos mostrar. Creio estarmos diante de um caso que merece revisão imediata, dessa poesia que, por ter se aproximado muito da Geração de 45, foi de pronto dispensada pelo rolo concretista e a demanda do estritamente coloquial dos anos 60-80. A sua poesia é precisamente o que uma recusa da voz única pode oferecer como poética e ética. 

guilherme gontijo flores

* * *

NUM ÁTIMO DE AMOR

ao velho Oswaldo

Sem pompa, subimos pela rampa
Que dá para o sonho. Flamba o olhar
Entre sumárias palavras: alma,
Garante um lugar ao sol. Aqui
Ao toque da mão, discriminados
Os elementos da terra se abrem
Consanguíneos, em cheiro e tato:
E apalpam no ar as tenras partes
Em lufadas de espinho e magnólia.

A volúpia de Paris se evola
No spleen das redes, nos rudimentos
Do tempo — Danaïde ou begônia?
Tufo de nádegas debulhando
A cor dos lábios, sombra de dentro —
Em teu exíguo espaço viajamos
Sem idade, sem lamúria, contra
O peito de Spinoza e o compasso
De Brancusi: “Excelentíssima,

Já viu samambaia azul?” Assim,
Submetidos ao rigor abstrato
Camuflamos no painel do medo
Um tom impressionista: nenúfar,
Ser-Em-Memória, marulho d’água.
Na tarantela da trapoeraba
Aspereza de adeuses e vinho.
Aqui te brindei: eternamente
— Trincar de cristais em meus sentidos.

(De A rosa malvada, 1980)

§

SOMATIZAÇÃO DO SONETO

O Amor está na cara: em carne viva.
Há uma porta batendo sem parar.
Palavras entram. Saem. Persuasiva,
a Loucura preserva seu lugar.

Soprarei o humor desta ferida
aberta para só me ver sangrar.
Há um golpe de ar em minha vida,
uma quina de esquina: quebra mar.

Visito. Se me vou. Irei voltar?
Entre papéis colados, sob medida,
há sempre uma paixão a recortar.

E o colo lembra a glosa, par a par.
Contraditória Rosa, assim perdida,
que te expulsa e te trava, devagar.

(De A rosa malvada, 1980)

§

NOITE DE GALA
[Série “Tapa de luva: poemas de meu irmão”, pastiche de Francisco Alvim]

Um país inteiramente nu
Pelo tempo que estamos aqui sentados
Um país que não houvesse
Nem pai nem mãe
Sem sobrenome

(De A rosa malvada, 1980)

§

DANÇA DOS ESPÍRITOS BEATOS

A navalha. O Verbo. O movimento
O Menino de barba crespa e basta.
O Cavalo-Marinho (aquele passe
de nunca ser tomada de surpresa!)

Grávido de mim. Quem? Senão a Ti
faria? Onde o Mal, em tal sacrifício?
A tua cabeleira negra e casta.
Os meus cabelos tesos e metálicos.

Chamamos pelo nome esse pecado
Amor: — penetra fundo na palavra
e reboa no ar: Amaldiçoado!…

E quanto mais te ouço mais me encorpo
cerzida ao teu Corpo, que é meu corpo,
que não vejo, não cheiro, que não toco.

(De A rosa malvada, 1980)

§

FIM DO QUILOMBO DO TENGO-TENGO

Grimpa o quilombo
pela chapada —
cobre a Canastra
desce a Zagaia.

É cativeiro
em revoada —
é Tengo-Tengo
dos urucungos.

O rei Ambrósio
polarizava
de seu harém
entre savanas,

tantãs, marimbas
deusas de javre
ocres, oblongas;
sobre os turbantes

imperturbáveis
— Serra Leoa
era tão longe!
— ao mesmo tempo

ali estava
na trajetória
dos orixás,
gatos selvagens

mulas e bás,
chitas, missangas,
dengos e figas —
nas bailarinas

em atabales
redemoinhos —
cumplicidades
alvas das canas

dos travesseiros
de paina e fronha
com monograma
em ponto cheio.

Ó africanas
amenidades!
ó malabar
torre de ébano!

que por vinte anos
se equilibrara
— e de um só golpe
era tombada.

Onde o tesouro
desenterrado?
— em moçambiques
baús, borralhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

FÁBULA

A terra traz o ventre trepidante
a fecundar, parir, a sepultar —
a fronte prepotente a ostentar
a grinalda de vermes cintilantes.
A terra é o animal pensante — diante
da própria sombra para a conspirar —
das feras tem o olfato e o paladar
e dos homens a espora penetrante.
— Sementes? São caixeiras-viajantes
de ilusão a ilusão, a germinar.
As raízes são falsas postulantes
e a seiva suculenta faz golfar
não só flores falcões e diamantes
mas dilúvios, leões, rinocerontes.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

SOLAR DO LAGO DA MATRIZ
(seleta)

Salão

Fechado em si mesmo
Opacidade dos olhos
No espelho do assoalho.

Corredores

As finas alcovas
Espreitam, de porta em porta
São almas penadas.

Despensa

Que servem as sílfides
Sobre a prata da bandeja ?
Broas de fubá.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,
marejados de sono, navegamos —
que esse rio de amor e de abandono
seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente
sacudimos a tarja temporária –
e a alma se evapora: tarlatana
sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo
impreciso e profuso, pelo pranto
que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos
entre quiosques, domos e coretos
sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

LÚCIDA RENDIÇÃO

Sei que é amor, embora dura
seja a perfeição de sua face. Sei do
frio sândalo que exala a palma reluzente
do timbre de seu riso
da madura
solidão que o aperta entre os braços.

Sei que é amor. Nenhum disfarce
diante do claro labirinto —
a voz, o gesto escasso
a velatura cúmplice dos cílios
e o secreto crivo
                                a capitular
dúctil e vivo.

Sei que é amor, conheço o passo
do gnomo solerte
o sopro exausto
a lenta
curvatura do corpo, quando espreita a própria fome,
e a língua presa
pelas palavras pálidas e tristes.
Sei que é amor. Sei e consinto
em sua lícita usura

na severa parábola ds múltiplos equívocos
— enquanto a fluida escolta

desamor
deflagra minha sombra ao seu redor.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

RONDÓ DA DESILUSÃO

Viver é um torvelinho sem motivo,
Palavras vazias, amor sem crivo —
A vida, como a flor, não se resume
Na evidência da cor ou no perfume
Mas num tempo de sonho fugitivo.

Ao rumor da ilusão, ronda cativo
O turvo coração, e tece crivo
Na fímbria das palavras, dor sem lume —

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

DO MAL PELO MAL

O molejo da alma se forma na bruma.
Entre duas estrelas finco meus pés.
Direi ao mata-burro: mata, ó ceifeiro, tenho a primazia dos párias,
ao chão pedirei: quero ser um dos teus.
— Foi de dura que bati com os olhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

TÍMIDA CONFIDÊNCIA DE UM POEMA

Em tudo há um sentimento
vigilante
que procura vir à luz do dia —
raro nos é dado
saber quando
devemos acender-lhe a boca fria.
É por isso que vamos ficando
cada vez mais fechados —
covardia
ou surdo magnetismo
palpitando
entre o que fala e o que silencia.

(De Pose, 1968)

§

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria
ser feito
para cumprir mandamentos, para
povoar
a solidária solidão
de pares amorosos, improvisados
e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido
seria para
provar
apenas isto: 
a matéria ou
mistério
ou vida
desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

§

CARTÃO POSTAL

para Chico

Repente de tarde. Plana. Ceifada.
Âncoras amortecem o peso
e se liquefazem.
Apagam-se ruivos outeiros.

Dois namorados olham o mar.

Um pássaro de insólito voo
roçou-lhes o ombro.
— Seremos assim potentes?
E subitamente puseram-se
a ferir-se a ferir-se
                               a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

§

POEMA SATURNIANO

I

Ferimos e somos feridos
— sob mares avulsos
marinheiros de
ondulantes patins
semeiam naufrágios.

II

De pai para filho
de irmão para irmão
de igual para igual
— o mal
possui os olhos grandes da complacência
em cuja pupila
um dia
nos perdermos.

III

Na fúria de ferir
iluminados,
celebramos — efusivamente
abraçados — nosso
aniversário.

IV

Há pássaros voando no ar contaminado 
mecanicamente
braços envolvem cinturas
pesadas de indiferença.

V

Na primavera
distribuiremos pêsames
como pétalas de rosas.

(De Coração incólume, 1968)

§

XVII

para Ângela, minha irmã [Maria Ângela Alvim]

És no tempo o que passa mas flutuas
noutro tempo mais livre e permanente
onde ausente serias tu somente
a ser e demorar nas coisas tuas;
novos espaços te cercam — recua
também aquela ausência — consciente
projetas o teu gesto transparente
que vai além de ti e continua;
se viver não te basta nem situa
a forma de teu mundo inexistente
fizeste mais alheia a espera tua
neste andar pela vida descontente;
perduras incontida e insinuas
a vontade de ser em ti presente

(De XX Sonetos, 1959)

§

XVIII

Verbena (mas coisa vã)
imponderável alfaquim
numa imatura manhã
em breve azul de calim
talvez precária e malsã
quase prenúncio de mim
olho tangido (avelã)
implacável serafim.
Fora tempo infância — agora
grave sucinto demora —
e tudo se faz silente
sonhos ou canto de ausente
instantes resvalam onde
o verso acode e responde.

(De XX Sonetos, 1959)

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Gregório Camilo (1992—)

Gregório Camilo nasceu em Curitiba, em 1992. é poeta, filmmaker e uma das cabeças da Catatau Filmes. ainda mora em Curitiba. Dos cinco poemas abaixo, quatro são inéditos, e apenas “paira” foi publicado na revista Ruído Manifesto.

* * *

PAIRA

silêncio no campo
e no mar silêncio
nada
nem o vento enfim
no fim todos mortos
dançaremos solo
juntos pelos mortos
ouça
o silêncio aos mortos
em silêncio eterno

§

UM RELÓGIO NÃO DEIXA DE EXISTIR
por só não marcar mais o tempo
não não deixa de existir nem
quando seu final é concreto

um relógio sim marca o tempo
de ponteiro parado ou sem

marca o tempo sim ele marca
sem sua haste pro sol

um relógio só deixa de existir
só quando ele é esquecido e só
continua a marcar o tempo

§

GIRA

uma semente gira a terra
devastada

e germina germina
germinada
uma semente gira

a terra devastada
continua a girar

§

CASA PARANAVAIENSE

dura de um setembro a outro
junho não mais que isso
uma casa quente sem chão fixo

onde se busca a sombra menos quente onde
se escorre mais demorado um pouco menos de suor

onde pousam os olhos pesados e secos
quase se tivesse dormido dobrado

a testa inteira granulada
coberta de terra vermelha

a mão mais que suada pingando
suada cada parte do corpo

casa quente rua que pega fogo
as crianças não usam roupa de dia nem
sabem o que é frio

o horizonte é sempre mesmo duvidoso e não existe
certeza pra mais de 1000m

o sol faz eco
e os ventiladores
por mais que gritem todos
não dão conta ao que foi dito

fim do dia a sola do chinelo é preta e dura
a rua mole só esfria recolhida
toda cota diária de piche

a noite entrando na cama
o corpo todo esticado busca o sono
e só acha possível quando plana

§

ENTÃO AQUI ELA DORME
e primeiro agradeço à luz a contornando

o seu corpo quase lâmina

e ela vê um cogumelo e sua cor
a sua cor assim
começa a mudar

a mudar
o contorno também levemente

e ela vai rumando sombra
e senta e come com ninguém vendo

e ela lambe os lábios lambe
os dedos e a noite
então segue

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Lubi Prates

Lubi Prates por Douglas T Pereira

Fotografia de Douglas T. Pereira

 

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*

1.

te dou de comer
na palma da minha mão.

é ancestral
o gesto de agachar,
se reconhece:

me curvo ao chão
então, você vem,
faminto.

não distingue
entre o que é comida
e quem eu sou.

penso domar a fera,
as pontas dos meus dedos se vão.

não distingo
se é dor ou prazer
me transformar em seu alimento.

voltarei amanhã,
você sabe.

2.

sequer havia luz,
mesmo assim,
aprendi a te alimentar
primeiro.

antes de qualquer verbo
ou nome:

não havia chamado,
ainda não há.

embora sequer houvesse luz
e tendo, ainda, olhos
preservados por você,
me guiei pelo cheiro da sua boca
entreaberta.

agachado,
com minha pata de bode,
te dou de comer
antes de seguir, veloz.

3.

esse chão
criamos nós

a partir do nada que havia:

era apenas linguagem.

na palma da sua mão
dei o que eu tinha,
cuspi a palavra terra
que você moldou com sua saliva.

fez-se lama.

nomeamos assim,
essa porção ínfima
onde deitamos.

4.

quando forte,
você se antecipa.

reproduz meus gestos
com uma velocidade maior.

trama uma fuga.

quando você passa,
eu lanço a pólvora.

o fim te alcança
ainda preso a mim.

aqui, agora,

explosão
diante dos nossos olhos.

5.

sobre a lama onde deitamos,
passou tempo.

confundimos
passado presente futuro:

aparentam ser o mesmo.

na lama onde deitamos,

criaram-se frestas,

nelas, imaginamos caminhos.

surgiram tantos outros iguais a nós.

abri uma encruzilhada
e te coloquei no meio.

de costas, esperei que seguisse.

§

encontrar você
como uma revisitação.

eu volto à casa onde cresci
diferente
da infância.

não há ninguém,
só você.

eu não guardei as pistas do caminho
e meus pés souberam o retorno,

o que existe é memória:

as paredes já não são as mesmas
mas sustentam os velhos quadros

impossíveis de decodificar,

eu apenas te mostro.

a luz elétrica falha
assim como o tempo.

***

 

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poesia

Priscila Lira

prilira

Priscila Lira (Amazonas – 1991) é pesquisadora, artista visual, escritora e freelancer. Publicou, pela Ellenismos Edições (Fortaleza), Manual de Feitiçaria e o Barulho do Mormaço. Tem escrito para o blog Liberoamérica  e vive em Curitiba atualmente.

*

Lagartixa emplumada

Capinei os pelos dos corpo,
depois de uns dois meses.
Só o capô foi salvo,
ficou apenas fingindo civilidade,
aparadinho.

Consulto Ana C. antes de dormir:
“Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir com a mesma leveza com que os ares me beijavam”.
*

Caqui

A luz do dia atravessa os cílios cerrados e deitados no quintal

em cima dos olhos, galhos de amor

vermelho nas bordas sem bordas lentamente
se alaranja no centro.

O   vento bate o caqui
mordido pelas folhas
tremelica no fundo invisível das minhas pálpebras.

Um cemi-círculo se rasga nos
lábios amanhecidos e tristonhos que não vejo.
*

Rastro

 o sol balança pelo calor
do corpo da rede
saliva grossa de tapiocaqueijomargarina
cobre língua e gengiva
as mãos caminham para o rosto,
cobrem a luz.
meus dedos sujos de maracujá
dão carinho pro nariz que
inspira expira
amarelo cítrico.
*

Correnteza
Me perdi na cidade entregando currículos
perfumes, azulejos, uniformes, pressa, pó compacto fiquei tonta

para amaciar os nervos
me rendo aos dedos indicadores dos transeuntes
fluo pelos bairros

(o dia escurecendo
as paredes brancas tomando cor
de concreto e fuligem)

como o rio Belém entremuros.

Lula para Jesus Cristo!
diz o vidro do ponto de ônibus
Preciso sair dessa miséria!
a artista sem-teto
na lona rosa rabiscada
jogada por cima do seu carrinho com
manequins mendigos customizados sentados e
sacos e sacos de lixo reciclável
sorri para a minha contemplação otária
que não disse boa tarde! perguntei seu nome disse isso
é muito foda EUNÃOFIZNADAOTÁRIAOTÁRIAAAAAA

esqueço o nome da rua que o moço disse pra eu dobrar
anoitece

Atrás do Capanema
casas de lona se fazem vida na grama
finalmente reconheço um lugar

me pergunto se o moradores saberão que
pelas festas que dancei ali
o território faz um pouco parte de mim também…

Sou cumprimentada como superstar
BOANOITEEEEEEEE
Tiro os fones de ouvido para devolver
maresiiia, sente a maresiiiiaaaaa
canta o moço do barraco
sorrio

Um outro
solitário
me segue com olhos de desejo violento
faço cara de gatinho raivoso
ele some por entre os trilhos do trem

Pausa para cerveja.

Vida, vida, vida, vida
se prepara para dormir na marquise do Mercado Municipal

gemidos na rua que segue
meus olhos acompanham os ouvidos

com um sorriso no canto da boca:

um casal se agarra no escurinho do portão.

*

Um peixe

Não sei como pagar o aluguel de setembro
tô procurando trampo em bar, há de dar boa
MASSSSS
encontrei um macacão roxo bufante
BABADEIRA num brechó da São Fran
talvez eu esteja meio baiacu mesmo

bufante
de raiva
dos dedos de ubu do golpista

Sem controlar o corpo rolante,
nas horas de calmaria,
segurando as colunas enfraquecidas da própria vida.
Mas essa parte não tem nada a ver com baiacu,
não sei muitas coisas sobre baiacus, na verdade

Olha, mas veja só:
“Por sua pele ser bastante elástica, o peixe não rasga quando incha, a coluna também”
#oremos

ou:
Pra me comer tem que fazer o corte direitinhosenão, queridaaaaaaaan!
rrmmmmmmmmmmmm.

Pq, ó, céus! O meu veneno não chega em fazendeiros, banqueiros, presidentes?!
Terceirização, queridan. Monocultura.
Que chegue pelo menos na praga daquele Senhor então.
#oremos #morrediabo

*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

˜

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poesia

Thiago Soeiro

soeiro2

Fotografia de Jhenni Quaresma

Thiago Soeiro nasceu em Belém do Pará em 1989. Jornalista atua na cena literária do Amapá desde 2010, é cocriador do grupo literomusical Poetas Azuis, que divulga a poesia por meio da palavra dita e cantada. Integrou a coletânea Poesia na Boca da Noite com poetas amapaenses e a exposição Poesia Agora que reuniu mais de 500 poetas do Brasil no Museu da Língua Portuguesa em 2017. Publica seus poemas no blog: pordentrodopoema.blogspot.com e em seu canal no youtube. Escreveu e editou o Livro dos Ipês, belíssimo volume que envia aos amigos por e-mail.

*

Macapá não tem mapa

[Para Tani]

encontrei a palavra saudade hoje
em um caderno de cartografia
ela se estende inteira
por essa cidade
desde o seu ponto mais seco
as margens do rio

parece mesmo que estamos
morando na saudade

no mapa
esta é
uma cidade inteira
feita de pontes
ligando as faltas
que as pessoas fazem

imagino que quando anoitece
do alto podemos
ver as luzes
que cada saudade
faz brilhar.
§

Tenho um mar

quando a gente segura um choro
é como se segurasse o mar inteiro
e é tão difícil segurar o mar
às vezes sinto ele agitado
revolto em meus pensamentos
fazendo ondas em minha cabeça
já me afoguei nele algumas vezes
e deixei naufragar alguns problemas
tenho um mar em meu peito
e convivo com ele
e todos os seus seres marinhos
criaturas que ainda desconheço
em uma vida repleta de mistérios e medos
seguro o mar em meus dedos
e toda fúria dos dias de tempestade
e toda a calmaria dos dias de sol
e sei que ninguém nunca desconfiou disso
que eu era feito de mar
que tenho corais em meus pés
peixes em minhas costas
que tenho o mar inteiro
preso em meus olhos
prestes a transbordar.
§

Um poema não sobre gatos

este poema se espreguiça devagar
pela página branca
se esticando de comprido
até a borda
depois ele deita de mansinho
meio quieto
de orelhas em pé

este poema
brinca na areia
dorme nos pés da cama
ronrona com cafuné

este poema não é felino
ele não fala do bichano
que escapou das minhas mãos

este poema
não é sobre gatos

este poema é sobre
a saudade
que eles arranham na gente.

*

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