poesia

Maíra Mendes Galvão

maíra mendes galvão (Brasília, DF, 1981) é tradutora e poeta. Mestranda na FFLCH/USP, pesquisa teorias da tradução e traduz a poeta modernista Mina Loy. Seus poemas foram publicados em revistas como Raimundo, Diversos Afins, Parênteses, Casulo, Gazeta de Poesia Inédita e Ruído Manifesto. Teve traduções e outros textos publicados na revista Geni e também na Asymptote, com a qual colaborou por um ano. Teve poemas publicados em duas antologias, Golpe: Manifesto, publicada pela editora Nosotros, e Sierra Tropicalia, pela editora mexicana Cielo Aberto. Desenvolveu trabalho de performance poética com Jeanne Callegari em 2018, ano em que também publicou a plaquete nove poemas de mau gosto pela Corsário-Satã. Em 2019, publicou o livro jamanta na testa pela Editora Quelônio e desenvolve trabalho próprio de poesia com áudio. Site pessoal: http://turgescencia.wordpress.com.

a jazida da minha cabeça

na terra cinábrica
ou descorada de sonho
me vi órbitas afora
já morta:
cabeça autodecepada.

os cabelos entremeando a superfície
desenhavam o solo como lava,
a jaca ainda tenra,
glaucas bilas opalescentes;
eu via, olhava fixo, sabia
ser a legomena assassina
a executora da degola
a híbris desvairando arremedada
em cálculos e amolações.

e, examinando, tentava engenhar
o escape e como acordar
com aquele agora eterno
metal na língua
lingote grosso

apuro rômbico e
todavia embuçado
nas meias-tintas da vigília.

viva e morta adejam:
hagia-hetaira-daemonia
aristi cthonia-megara

§

the dream is always the same

pelo olhar sensível de gael, anita foi registrada
ao sorver seu remédio urbano, uma panaceia
de talos nutridos em gosma atmosférica
da dedigrisa pauliceia desvairada

simulacro bem efeito e postado
ante o brilho de coreografado reboliço
de dedos glissantes e stacattos
o par ex-sedento caiu na trombada

no que a chôcha vontade degringolava
e se quase cantava batalha gorada
gael cuidava de martelar o pino
na prenda rosa-médio cada vez mais baça

anita lhe dizia, sem fogo nas bilas vagas
que uma diezira tremenda lhe acometia
ao superlotar-se a polpa sanga
de estandartes fincados em várzea

gael, já morto no banhado
– o coco esbagaçado –
queixou-se de cafubira baita
e baliu: não sei de nada!!!

§

astsu

de membro inferior lançando o início
palavra primícia deposta do centro

estação da ressonância – seme
fórmula como criança de forma feita

invocação propínqua ao silogismo
carrega a letra para os sentidos

estação da abundância – ceva
conservação de posição recíproca

K-metonímico (árvore da senciência)
de frutos necessários e cômodos, mas alheios

octanagem de operação corrente
ka se investe de pluma e cilício

eu tinha bá nos dias da turgência
e mucura na soleira da língua

hapi, autóctone prelado, envia-me cá
nos dias da branca tinta

écfrase-homenagem ao “ka” de khlebníkov traduzido e comentado por aurora bernardini

§

tempos bicudos

lip
lab
lang
langue
linguagem
láparo
long
lab
lip

bo
bo
boca
balal
bela
ba
ba

sim
safa
sofia
safadita
sofis
safo
sim

§

quem, além de f.?

não adivinhar as linhas mas entrar no contratempo da cabeça de f.
esperar por f. e não perceber a mosca que pousa no lábio
pensar na morte, beliscar os seios e f. não constar
escalar a híbris de escalar o complexo de f.
e cair da cabeça de f. sem ver o cume
na mão aberta de f. se tornar míope
no antebraço de f. ser projétil
nem pelo nariz enquadrar f.
sugar a meia-frase de f.
esconder de f.
as outras
letras
de
f.

§

estio

* * *

“a jazida da minha cabeça”, “astsu” – de jamanta na testa, ed. quelônio, 2019

“the dream is always the same” – publicado na gazeta de poesia inédita em 27 de janeiro de 2019

“tempos bicudos” – de nove poemas de mau gosto, ed. corsário-satã, 2018

“quem, além de f.?” – inédito

“estio” – inédito

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte XI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

De todos os livros verdadeiramente influentes publicados na última década, talvez Um teste de resistores seja, dentre todos, o mais estranho, isto é, aquele que traz em si maior carga de diferença e negatividade em relação às formas poéticas correntes no país. Nada do que se escrevia entre nós até então de fato antecipava o circuito criativo de Marília Garcia: nem as formas em fuga de um Manoel Ricardo de Lima, nem as suspensões e modos de desaceleração pensante de uma Annita Costa Malufe, nem as tensões da poética de um escritor-crítico como Marcos Siscar, com quem sua poesia tem mais afinidade no Brasil. Mesmo seus livros anteriores, se lidos com atenção, anunciavam com alguma clareza os desdobramentos que ainda estavam por vir. Na passagem de um livro a outro a poeta se movimenta, vai descartando alguns processos enquanto depura outros, mantendo alerta o sentido de busca da sua poética: da tela de colagens e de soma de muitas vozes que é Encontro às cegas (2001) às formulações especulativas, mas ainda concentradas (restritas, modeladas) de 20 poemas para o seu walkman (2007), se nota um trabalho de esgarçamento do verso moderno, distante, mas ainda em diálogo (talvez melhor seria dizer negociação) com algumas referências centrais da sua geração, os que passaram a escrever entre o fim dos anos 1990 e o início do novo século: Francisco Alvim, Ana C., algumas outras vozes da Poesia Marginal carioca; na escrita-deriva de Engano geográfico (2012), na qual acaso, viagem e desconhecimento (questões decisivas para os trabalhos posteriores) se misturam a leituras de teóricos e poetas franceses do presente (Roubaud, Gleize, Alferri) impondo uma textualidade nova, onde também se vê mais claramente como a presença de um eixo narrativo ganhava corpo em seu trabalho. A publicação de Um teste de resistores, no entanto, radicaliza cada uma das questões que seus livros anteriores traziam, deslocando balizas e subvertendo sentidos que pareciam estáveis. O hibridismo, traço recorrente, mas não dominante, no material pretérito transforma-se nele em ponto fulcral: indeterminam-se prosa, verso e imagens; narrativa autobiográfica, reflexão teórica e algum esboço de filosofia; exercícios de uncreative writing, comentários metatextuais e a encenação contínua do ato da criação poética, feita quase como uma performance. Tudo isso e mais inúmeros outros elementos menores acomodam-se, sem solução definitiva e às vezes de modo excessivamente irregular, dentro do livro em poemas longos e inclassificáveis, fluidos e incertos como os ensaios (uma das matrizes formais desses textos, certamente), musicais a sua maneira (Victor Heringer lembrou, no texto da orelha, dos caprichos; talvez seja mais correto pensar, como já se tentou, nos improvisos do jazz) recusando o lirismo confessional e ligeiro de tantos poemas brasileiros antigos e contemporâneos, preferindo os modos da repetição – que conduzem, ou podem conduzir nos seus melhores momentos, à pequena epifania que lança luz oblíqua sobre o poema e a realidade que o cerca. Procurando interrogar a forma do poema continuamente, testando a sua resistência – isto é, a sua duração, maleabilidade e paciência – Marília propõe, às vezes de modo incômodo para certa crítica, que nela vê apenas devaneios teóricos e o abandono do artesanato do verso, caminhos distintos para a sua arte e para a produção poética atual, centrada na observação insistente de um conjunto de procedimentos. Pois essa é, com tudo o que isso implica de potente e eventualmente limitador, uma poética de procedimento. As referências que a poeta passa a mobilizar mais frequentemente a partir daqui (e que permanecem nos livros posteriores, Paris não tem centro [2015] e Parque das ruínas [2018]), Emmanuel Hocquard sobretudo, além de Kenneth Goldsmith, descortinaram leituras e possibilidades criativas pouco exploradas no país até então, perspectivas que colocam em xeque questões como a autoria, a autonomia do poema, a relação entre criação e crítica.

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crítica, xanto

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte X

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro. O texto que segue é uma derivação da orelha escrita para a antologia poética POESIA +, de Edimilson de Almeida Pereira, que a Editora 34 publicará no início de dezembro. Qvasi, um de seus últimos livros, é também, a seu modo, uma espécie de releitura da trajetória do poeta.

pedra angular dos sem palavra
qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

*

Arcaico. Informe. Ancestral. Três caminhos que apontam, sem os esgotar, os compromissos de um poeta e os traços de uma poética, que nesse Qvasi alcançam um ponto de inflexão. Esses três termos podem funcionar como palavras-passe para uma poesia exigente, que se entrega aos poucos, feita de voltas no tempo, torções na linguagem e retomadas simultâneas de múltiplas tradições. O livro em tela é feito da matéria impura de línguas e épocas em sobreposição. Cortados com o rigor da melhor tradição moderna (Valéry, Cabral, Ponge) seus versos (enxutos mesmo quando apresentados sob a armadura da prosa) lançam-se sobre a oralidade do interior de Minas Gerias, elaborando nesse encontro, entre saltos e elipses, o poema – uma forma-força peculiar, intervalo entre passado e presente. O repertório de temas e imagens dessa poesia é também território do amálgama: ali estão a especulação filosófica, a racionalidade científica, a pesquisa histórica, e filológica, junto aos casos da gente comum, mateiros e benzedeiras, caçadores e professoras de crianças. O popular e o erudito são continuamente embaralhados no livro, num processo que resulta na desierarquização crítica dos saberes: os discursos do poder não importam, as vozes da cozinha e do terreiro é que oferecem a sua verdade possível. Múltiplos espaços formam o livro: o das paisagens de Ouro Preto e arredores, montanhas e igrejas envoltas pela História; as ruazinhas, as vilas, os territórios perdidos em que se movem, distantes das grandes cidades, homens e mulheres de outra época, atentos a formas de vida resistentes e necessárias. São habitantes da periferia da Modernidade, egressos de quilombos e capoeiras, uma coleção de personagens desviantes (“os letrados”), cujo traço de vida e violência a poesia de Edimilson capta com perícia, movendo-se numa língua que é, ao mesmo tempo, ‘legal’ e ‘letal’, isto é, esforço de nomeação preciso e gesto secreto de negação, fechamento a qualquer operação de sentido. Atentos à lição metapoética que atravessa toda a sua extensa produção (de 1985 para cá já são dezenas de livros, dos quais se destacam Veludo azul [1985], Árvore dos Arturos [1988] e, mais recente mais quase clandestino, Homeless [2010] meditação trágica sobre águas da e cicatrizes históricas), seus poemas aqui meditam a natureza dissolvente do canto e a força cheia de riscos da palavra escrita. A relação do poeta com a sua arte aqui, longe de ser confortável ou atenta a identitarismos de reconhecimento imediato, é ambígua – num só movimento áspera e vital. Retorno ritual, a atividade poética em Qvasi se inclina na direção de sujeitos apagados e vidas menores, tomadas como afirmação de um outro mundo (mais autêntico, talvez) fixado como um enclave potencial no coração do nosso – burguês, convencional e em frangalhos. Poesia pensante, os versos de Edimilson convidam o leitor (num aceno, quem sabe?, a certa tradição crítica que deve à metafísica heideggeriana seus pressupostos fundamentais) a reaprender, ou inventar, os nomes das coisas da terra, desvelando, no esforço de um olhar tantas vezes inaugural, seu lugar e seu sentido.

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poesia

um poema inédito de André Nogueira

Igrejinha Mariana

Fotografia de Caio dos Santos

André Nogueira é poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique, vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. É Autor de Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão Cada (Ed. Medita, 2011),  O Manifesto Lenitivo (Ed. Urutau, 2015), e O Presidente me quer morto (Ed. Urutau, 2019); já apareceu na escamandro com traduções de Marina Tsvetáieva e poesia autoral.

*

Notre Dame do Agreste
(ou “Não existe uma mãe que não sangre”)

1.

Aqui não existe milagre dos peixes.
Entre seixos e caveiras,
vestidinhos
de boneca.

Nos altares resplandece
da cidade a padroeira
— pelos séculos! —

Ornada a igrejinha
— pisca-pisca e bandeirola —
todo o povo se acerca
para ver…

“Nos cobri com vosso manto, minha Mãe”.
E, como os santos das abóbodas
caíssem sobre o coro,
a ninguém a tensa prece
mais consola.

Até que enfim no campanário o sino dobra!
O povo canta na quermesse
sob o choro
de violas.

Pelo manto tão fino de seda
azul-claro como as águas
de nascentes
cristalinas,

Pelo roto vestidinho da boneca
e pela lágrima que seca
da menina,

Por cada igrejinha de Minas,
Notre Dame do agreste,
esquecida de Deus e o resto
e do mundo,

Que num manto de poeira — ela se veste,
chora igual a carpideira
sobre a tumba,

Que num último repique — ela afunda,
badalando vai a pique,
volta a torre a se esconder
na catacumba,

De olhos fechados e guelras abertas,
o grito inaudível
abafado
de tristeza:

Da campana o afogado som de alerta
pelo pranto represado
e pelo nível
da represa.

2.

Que na pedra se edifica,
em prata rica
se enfeita, —
Igreja santa e prostituta!

Com o manto azul de seda,
com a cruz na mão esquerda
e a espada na direita —
ela exulta.

Museu a céu aberto e soterrada catacumba,
pedra de toque
e tropeço,

Que entregou pelo minério
o mistério de seus terços,
terça parte
dos altares que relumbra…

Todo mundo tem seu preço.

Adorada e maldita,
a carne apodrece
na tumba,

Mas de mármore ou granito
a escultura que habita
a solidão dos cemitérios, —
o sino de cobre e até os canhões
de chumbo, —

De marfim os seus archotes,
de prata seus ícones,
ricos minérios e até
suas pérolas líricas, —
alto quilate
de ouro mundano
que as obras de arte
lhe banha, —

Assim o templo do Senhor é para sempre,
imperecível como a rocha
e, ao redor, essas montanhas.

Imperecível, com certeza, uma pedra angular,
não fosse o nível
da represa
uma última vez
lhe banhar.

Mas se na Terra nem a terra
se mantém em seu lugar,
se derreteu a rocha eterna
e virou pedra
o coração,
portanto peca, peca mesmo e com paixão!
Entre pérolas peca, entre lama
e vestidinhos de boneca, —
o sangue derrama
e o corpo de Cristo
no chão.

Então mergulha no avesso
de teu fim e teu começo,
— Tu, do espírito a seara
e da carne a carcereira! —
nem o joio não separa
nem o ouro — na peneira.

Pois devora teus defuntos
junto com
teus sacramentos,
do maná celestial te satisfaz
e a sétima praga.
E goza o começo
do fim,
os archotes apaga.
Por eles o preço
é mais que marfim:

— Aqui se faz, aqui se paga.

3.

Mas, pobre igrejinha, — tão longe de Roma!
Com sacrários de vidro
e com Madonas
de madeira,

Barroco tosco das colônias,
de barro encardido
e poeira!

Não importa o quão alto badale,
o tremor das explosões
é mais forte!

A sombra da morte passeia no vale.
Pois, se a fé move montanhas,
o dinheiro —
as explode.

Igrejinha de Minas, tão rica e tão pobre.
Barroca e pudica,
de lírica sóbria.

De oratórios embriaga-se e de música,
o espírito a habita —
os cochichos e fofocas
de anciãs e senhoritas,
de crianças e viúvas
choramingo.

Cemitério que, tomado pelo musgo,
esverdeia sob a chuva,
onde a aranha fez a toca
num jazigo —

(Sudário da teia que envolve
o rosto de Cristo).

Não pode ser que também os seus mortos
a terra devolve,
também serão rotos
seus véus, pela última vez
serão vistos!

Pelo buraco da agulha,
na muralha a portinhola,
passará toda a montanha
que esmorece,
vindo ao chão mergulhará sua campana,
as bandeirolas
da quermesse.

Não pode ser que,
sob o olhar indiferente das nações,
a seus pés abra-se a fenda,
que sobre os seus santos
de pau, sobre os mantos
bordados de renda —
a latrina do mundo derrame!

Antes que cale o coral da capela
das sirenes a trombeta,
do quintal da cidadela
a todo o planeta
— pelos séculos dos séculos! —
bem alto se proclame:
— Existe a nossa
Notre Dame!

Aí está ela, cravada no agreste,
bendita, divina.
Que o mundo inteiro possa
ouvir o dobre
desse sino.
Com seu manto verde-azul ela nos cobre,
é do próprio Criador
a obra prima.

O lambari do pescador
e do poeta — sua rima.

4.

E o que você queria?
Por acaso, uma mãe de pedra fria,
a mão furada da escultura
e que segura a flor de quartzo?

Que, no sol queimando as costas,
no rosto gelado do filho
o regaço,

A mãe de pedra assim se prostra,
inerte e dura sob o véu,
ensimesmada nesse abraço.

Da sepultura o tampo gélido
entre o talhe do cinzel
e a ferida do flagelo,
entre o céu
e o cadafalso,

Enquanto a sirene ressoa,
nesse seu eterno gesto
como morto de cansaço,
com a mão nos abençoa…

Até que só restem
pedaços.

5.

Palpita, palpita!
Palpita aquilo
que habita seu corpo.
É quente seu sopro —
o bafo de onça.
Espírito jubila,
estômago ronca —
o esturro. Ouça…
A mata treme à luz da lua:
Em uma só boca —
mais de mil coros.
Socorro! — Aleluia!
Aleluia! — Socorro!

Palpita, palpita!
Mãe de sangue — sim, hosana! —
e mãe de seiva — nas alturas!
Nas alturas e também
nos humildes rincões
da terra.

Transmuta-se e transita
entre feições mais que humanas,
toda e cada criatura
— cem milhões vezes cem! —
nela se encerra.

Não existe uma mãe que não sangre:
na praia, no mangue,
no areal, na mata-virgem…
Poderia não sangrar aquela mãe
que é de tudo e cada qual
a origem?

De todas as fontes — milagre,
de todo jardim — oliveira
e não só

(Porque também a macaxeira
é de vós, Senhora Nossa!) —
todo fruto é de seu ventre
o bendito.

A fronte — queimada de sol,
as mãos — calejadas da roça.
Da aranha tecelã
para a agulha experiente
da vovó Benedita,

É anciã e senhorita:
em novo vestido
a boneca de pano.
É cada história que foi dita
ao pé da roca
pelos séculos fiando.
Assim também terão nascido
os humanos.

Manto — não aquele
que do céu à terra desce.
Nem mãe que, de pedra,
a esperar do véu a queda
na eterna imóvel prece.
Mãe que tece
com o fio de costureira,
corta, prega
— não os pregos do martírio —
botões
de flor.
Botões que um dia florescem
de cravos e lírios
no madeiro que, outra vez primaveril, — Ressuscitou!

Mãe flor, mãe aranha, felina, humana!
Cria raízes, agita as entranhas — Divina-mundana!
Que a todos na teia — emaranha!
No ventre ou nas garras — a tudo ela apanha!

Mãe que se adorna de todas as cores
e com pétalas de flores,
manto verde
das florestas,

Mãe cuja prata, escamas de peixe,
seu milagre pelas redes
de humildes pescadores
manifesta,

Com manto azul de águas claras
cobre a terra
enfeitando-a com asas
de arara,

Gruta que nos pariu,
na mesma gruta
para nós
o leito último prepara.

Mãe que escorre das nascentes
pela frente e pela costa
da serra,

Mãe eternamente prenha
como as fêmeas
das panteras,

Mãe que grita e se desgrenha
sob o ronco da — blasfêmia! — moto-serra,

Verte lava dos vulcões,
no tremor das explosões
também sangra
das crateras.

Que recebe paciente
seu flagelo — ah, que provas
ela enfrenta!

O manto azul-claro deságua
e outra vez ela desova
sua prenda:

O verbo, a quem é de poema,
ao pescador — a piracema.

O milagre dos peixes,
suportando toda dor
e superando qualquer pena,
nada contra a correnteza…

Até com a pedra topar
da represa.

Canta, galho em galho, o colibri.
Assim também os homens cantam:
“Nos cobri
com vosso manto!”

O coro, entretanto, dos anjos
responde em uníssono:
“Senhor,
o sacrifício santifique!”

Olhos gélidos celestes
vão fitá-la do altíssimo,
igrejinha que badala
antes de prestes
ir a pique.

Abra, pois, as guelras
e feche seus olhos,
— Olhos de peixe,
que nunca se fecham,
vigília insone e atenta
da Dama, —

Abra as guelras
e dos olhos
eis que a lágrima derrama.

Deixe que se estenda
outra vez sobre seus córregos,
Mãe Terra,
a mortalha de lama.

Ascensão (fins de maio — princípios de junho) 2019
*

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XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte IX

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

Proposta, organizada e publicado em curtíssimo espaço de tempo, nas últimas semanas de Junho de 2013, no centro dos acontecimentos políticos que sacudiram vigorosamente o país, Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (editada apenas como livro eletrônico), feita por Fabiano Calixto e Pedro Tostes, ainda é, passados já mais de seis anos, a expressão artística mais imediata e ao mesmo tempo mais significativa daquele contexto, surgindo como uma sua consequência direta, uma espécie de instantâneo tomado no calor da hora, pleno de espontaneidade e desorganização, nascido sem planejamento prévio, de modo algo semelhante às manifestações massivas que inundaram as cidades brasileiras. Atuando como um elaborado arquivo dos afetos e das tensões, das violências, das imagens e dos desejos daqueles dias de fúria e expectativa, os poemas reunidos em Vinagre, sob essa perspectiva, vêm se somar – guardadas, é verdade, as muitas e importantes distinções existentes – aos milhares de vídeos e fotos pessoais feitos durante os protestos, cada um deles, em pequenos fragmentos, apropriando-se de um acontecimento que, pela sua natureza movente e coletiva, intempestiva e paradoxal, permanece até hoje um enigma, um evento não-reconstituível em sua totalidade, posto como desafio ao pensamento político tradicional. Mesmo que a direita do espectro ideológico tenha, vistas as coisas do belvedere privilegiado – e catastrófico – deste ano de 2019 (posterior, portanto, às práticas corrompidas e partidarizadas da Operação Lava-Jato, à destituição do mandato de Dilma Rousseff, ao debacle do sistema político brasileiro e à eleição, enfim, do candidato autoritário e proto-fascista Jair Bolsonaro) tenha se apoderado da narrativa principal dos protestos de 2013 e das suas consequências político-eleitorais imediatas, a origem das explosões populares e de suas pautas mais consequentes e duradouras se situa à esquerda, no campo das aspirações democráticas e da realização plena da justiça social. Tudo isso é relevante para a compreensão do papel que cumpre Vinagre na cena poética brasileira porque o livro como que consolida e expande a orientação política que se esboçava, há já alguns anos, em parte significativa da poesia escrita no Brasil. Se livros como os de Marcelo Ariel (Tratado dos anjos afogados [2008]), Pádua Fernandes (Cinco lugares da fúria [2008] e Alberto Pucheu (Mais cotidiano que o cotidiano [2013], por exemplo, apontavam, cada um a sua maneira e a partir de pressupostos muito diversos, para a violência histórica das relações sociais no país, sem que fosse possível, numa escala mais ampla, dar contorno e sentido à sucessão de poemas que, dispersivamente, insistiam em voltar às mesmas imagens e às mesmas questões. Vinagre vai reunir muitos outros poetas, conhecidos e desconhecidos, veteranos e estreantes, bons e maus artistas, que irão explicitar, no conjunto informe que é a antologia, a tendência que antes podia ser apenas vista de relance. O desejo de participar dos protestos, de fazer a poesia se posicionar entre os discursos públicos em luta naquele momento pode ser percebido pela extensão do projeto: em curtíssimo tempo, depois de um chamado divulgado nas redes sociais, mais de 150 poetas enviam contribuições para Vinagre, num gesto que não deve ser interpretado como simplesmente voluntarista ou casuístico. O grande número de autores e a quantidade relativa de bons poemas que se juntaram na antologia (dentre os quais é preciso destacar os de Adriano Scandolara, Diego Vinhas, Julia de Carvalho Hansen e Maiara Gouveia) indicam a latência de um elemento realista na poesia brasileira do presente, e o desejo vivo, até então talvez recalcado, de intervir no presente, responder poeticamente, com todas os problemas que isso tem, aos pequenos e grandes acontecimentos do tempo. Parte da explicação para esse fenômeno está na dinâmica da internet, que reconfigurou os ritmos de leitura, a disponibilidade de textos acessíveis, a velocidade de publicação e mesmo os modos de consumo da poesia. O melhor e o pior de Vinagre tem a ver, quem sabe?, com esses novos agenciamentos que as comunidades virtuais das redes foram formando, e que alteraram sensivelmente a cena poética brasileira. Uma parte da energia crítica e dos excessos militantes que se apresentaram na antologia ainda se fazem visíveis no que se publica agora no país, contribuindo para o grande número de poemas políticos que todos os dias surgem. Nem todos, no entanto, guardam a mesma força expressiva, a mesma capacidade de estranhar a forma e colocar em xeque o próprio sentido da ação política que alguns dos melhores poemas de Vinagre traziam.

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crítica, xanto

XANTO| Poesia brasileira, livros da década, parte VIII

uma casa para conter o caos

dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

* * *

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

Ao desdobrar alguns motivos e imagens de seu livro imediatamente anterior, o notável e curtíssimo Cigarros na cama (Berinjela, 2011), Ricardo Domeneck consolidava com o seu Ciclo do amante substituível um novo momento na sua trajetória poética, bem como dava contornos claros a um estilo e a uma assinatura hoje muito facilmente reconhecíveis pelos leitores de língua portuguesa que se interessam pela produção poética atual. Se até então os livros de Domeneck buscavam amalgamar a cerebralidade construtiva da geração de poetas brasileiros dos anos 1990 (do que ela buscava e bebia em João Cabral de Melo Neto, principalmente) com uma tradição carnal e mística que atravessava, subterrânea, a cultura poética do país (mas que era sistematicamente posta de lado, se não mesmo invisibilizada pelas poéticas e correntes críticas dominantes), numa proposta que atingiu seu ponto mais alto em a cadela sem Logos (2007) – nos poemas editados a partir de 2011 o poeta deixa de lado as formas mínimas e os exercícios de contenção – em mais de um sentido – que elas poderiam implicar, para assumir um projeto diverso, na aparência quase avesso ao que antes desenvolvia, mas jamais incoerente com suas linhas de força centrais. A necessidade de dar corpo e espírito ao minimalismo antilírico que dominava os círculos poéticos principais do país se consuma e radicaliza no Ciclo do amante substituível, livro de poemas longos e discursivos que mantém afiado o corte do verso, quase sempre curto e rápido, feito de enjambements que se sobrepõem, e que incorpora agora ao seu repertório tanto as formas e motes arcaicos da poesia Antiga (as odes e elegias da tradição greco-latina, seus modos de celebração hedonista e de lamento público) quanto os ritmos, entonações e imagens da música popular brasileira, especialmente de sua vertente mais sentimental e histriônica. A carga erótica notável nos livros anteriores se eleva, bem como o coeficiente lírico dos poemas, que dramatizam sem cessar a perda do objeto amoroso, bem como o êxtase sensual de sua presença rememorada. O alto grau de elaboração linguística, a consciência profunda da historicidade das formas e um permanente travo auto-irônico distanciam o livro de uma reativação do que a poesia brasileira, ao longo dos tempos, cultivou de pior – a grandiloquência derramada e o sentimentalismo confessional, cheio de verdades e bons sentimentos. Têm razão críticos como Laura Erber (autora, aliás, de um sofisticado livro de poemas, Os corpos e os dias [2008], que também procurou reposicionar o lirismo e o discurso amoroso no campo da poesia brasileira contemporânea, nesse momento refratário a eles]) que apontam, no Ciclo do amante substituível, o jogo de máscaras em meio às quais o eu se apresenta, num movimento cambiante de encobrimento e revelação que esvazia qualquer leitura apressadamente biográfica e circunstancial. A única verdade definitiva: o sujeito lírico constrói a sua mitologia e opera através dela. O embaralhamento de verdade e ficção tão decisivo para o livro se apoia nesse processo de contínua fabulação de si, e que encontra na identificação projetiva do eu com personagens diversos, famosos e anônimos, antigos e contemporâneos, um modo de configuração particular. O Moço, amante desejado e ausente, é peça central do quebra-cabeça que é o Ciclo do amante substituível, do qual também fazem parte Elizabeth Taylor, Antínoo, um acordeonista de Bruxelas, Frank O’Hara, Maysa e tantos outros, inumeráveis nesse livro longo. Erudito e derramado, reflexivo e pop, o livro de Ricardo Domeneck reabriu caminho para a lírica amorosa no Brasil, desenvolvendo um modo bastante fértil de aproveitar os excessos melodramáticos que formam e cercam a cultura brasileira, na poesia e em tantas outras expressões artísticas. A presença da poesia de Domeneck no que se produz hoje é considerável, podendo ser vista em autores como Adelaide Ivánova, William Zeytounlian ou Ismar Tirelli Neto; do mesmo modo, é também notável o papel que cumpre como arqueólogo de poetas e poéticas, orientando, bem ou mal, releituras que se têm feito de nomes do passado remoto ou recente que permaneciam à sombra.

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crítica, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Parte VII

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

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nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

Monodrama é um livro sujo, convulsivo, no qual a forma em desagregação do poema convive e se mistura com o estado permanente de crise em que o mundo aparece mergulhado – não apenas o Brasil. Num certo sentido, pode-se dizer que o livro antecipa (num movimento que continua e radicaliza o que já havia feito Tarso de Melo em Planos de fuga (2005), ao passo em que dialoga com o que no mesmo ano indicava Eduardo Sterzi em Aleijão (2009)) o mal-estar que se instalaria na cultura brasileira (com a literatura à frente) poucos anos depois, no pós-2013, mas que no momento preciso de sua publicação talvez não se deixasse perceber em meio à euforia do crescimento econômico e das políticas de redistribuição de renda àquela altura em seu auge, entre o fim do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma Rousseff. A alternância entre o verso curto, veloz e fraturado (que não traz mais a limpidez do corte preciso – cabralino, para alguns – que marcaria a lírica minimalista dos anos 1990) e a prosa cumulativa, às vezes próxima da crônica alucinada, às vezes configurada como diário íntimo ou como ficção especulativa, singularizam o livro no panorama da poesia brasileira, dando a ele, ainda, forte lastro político, já que a forma em crise aberta e a paisagem de catástrofes que se insinuam nos poemas são, de fato, uma coisa só no livro, sobrepostas sem qualquer interrupção. Há como que um movimento pendular que atravessa e constituiu Monodrama,segundo o qual os seus textos ora se aproximam do discurso poético, visto como modo de resistência e sobrevida da beleza e de formas autênticas de habitar o mundo, ora o rejeitam fortemente, esgarçando o seu tecido pela ironia e pela violência, num movimento que se coloca em sintonia, por exemplo, com elaborações negativas da antipoesia de Nicanor Parra (com sua anti-grandiloquência característica, avessa também ao sentimentalismo barato ou à confissão melodiosa e autoindulgente) ou ainda com as tentativas de saída do território da poesia operadas por certos poetas franceses das últimas décadas como Jean-Marie Gleize, entre outros, que pressupõem outros territórios, como a prosa, para o reposicionamento do poético. Reconhecido por críticos e por outros poetas como uma referência incontornável de seu tempo, a época das promessas e da catástrofe no Brasil, o livro de Carlito pode ser rastreado em diferentes projetos criativos desenvolvidos nos anos seguintes, dos quais o perturbador Nominata morfina (2014), de Fabiano Calixto, composto inteiramente por poemas em prosa, talvez seja o exemplo mais bem elaborado. 

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O que ainda virá:

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

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a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

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