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Lucas Rolim (1995-)

Lucas Rolim é poeta, editor independente e fez algumas traduções. Como poeta, lançou os livrinhos artesanais No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2015), Os Cantos de Eleanor (Selo Kizumba, 2017) e Terrário (Selo Kizumba, 2017). É colaborador do projeto Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação, participando ativamente do circuito artístico da cidade. Teve poemas e traduções publicados em revistas, jornais, sites e antologias. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado.. Os poemas “dois amantes & a metamorfose” e “pelas cercanias” pertencem ao livro O Mirábolo (ed. Moinhos, 2017). O poema “vejo melhor de olhos fechados” é inédito.

* * *

dois amantes
& a metamorfose

I
dois amantes marcham de muito longe
dentro da madrugada que os desafia

deixam suas terras danças e músicas
para se encontrarem no silêncio do deserto

um vem do ocidente que lhe diz
morrerás antes que o sol te acolha

outro desponta do oriente que o alerta
do deserto vieste e teu espírito é areia

a trilha que seguiram madrugada a fio
pertence agora ao Vento Leste – suas pegadas
foram extintas com a visita da noite que sopra.

II
frente a frente no seio das dunas
os amantes sabem que não há miragem
— que de carne e toque é feito o momento

para que a palavra do primeiro acenda
como fogo vivo nas orelhas do segundo

é preciso que se ergam defronte de si

mirando a esfinge que no outro habita
& volvendo ao que o sonho tornou real

desnudando o enigma & virando peixe
no mar que engole o deserto em sua
vertigem & mudez.

§

pelas cercanias

desiludidos,

cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.

ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.

(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)

eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.

em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.

era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.

tempo de habitar
silêncios.

§

vejo melhor
de olhos fechados

quando o labirinto amansa
o caminho se revela com passos de água.

há uma nudez própria
a todas as coisas

e um nome ao qual tudo atende:

a ternura das árvores,
o ritual das rochas,
o calor do tempo batendo nos dias.

um nome rápido, que tudo diga:

a face iluminada das abelhas,
a lição de força dos pequenos insetos,
os seres em sua mais tenra forma.

quando o labirinto amansa
finalmente entendo:

não há dor na trajetória do sol.
a noite que aporta é violenta, mas gentil,
e abriga as coisas que também
se encontram na claridade cega.

o olho atento é seu hóspede inquieto.

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poesia

Fernanda Marra (1981-)

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fernanda marra é mestre em letras e linguística pela ufg e doutoranda em teoria literária pela unb. manteve o blog marés e ressacas, dedicado à publicação de seus poemas, de 2009 a 2015. o livro que reunirá os poemas do blog e a produção mais recente da autora tem previsão para 2018, pela martelo casa editoral.

 

* * *

escápulas

no bolso posterior embutido
repousam despojos
dunas encruadas
e rangentes em inadiáveis
deslizamentos anunciam
o parto superior inexequível
placas calcificadas de dejetos anorgânicos impalpáveis imprecisos
abrem-se para a passagem
de uma gestação tectônica inter-
rompida

§

 

maulla

ter um método
e me ater a ele
mesmo sabendo que se intro-
mete
na vida diária
tem isso de ver crescer os pelos
arrancá-los
fazer comida lavar os pés
abastecer as tripas
esperar um raio
isso de ver o pelo cair
de depilar o ralo
de descascar os livros
contornar a cama toda santa madrugada
(as insantas também)
transigir
com as aderidas roupas do alho
ter método
– um sonho antigo
de me ter sem barulho
abafados rangidos
no marulho de crânios dentro do aquário
eu sei o mar
tem gemido exclusivo
que aprendi a ouvir sem noite
mesmo morando no seco
mergulhando os sentidos
na água suja do vaso

§

 

sigilo

entrando sem bater
especulando a maçaneta
esbarrando na culpa

de portas trancadas
as letras truncadas
nem sempre retrucam

à mesa, só o silêncio revém
do rosto cerrado em copas
o segredo das portas sem zíper

a mesma lei de madeira das tumbas

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poesia

5 poemas inéditos de Leandro Jardim

leandro jardim perfil pb

Leandro Jardim escreve poesia, prosa e letra de canção. Publicou, dentre outros, a novela A Angústia da Relevância (Oito e Meio, 2016) e as coletâneas de poesia Peomas (Oito e Meio, 2014) e Todas as vozes cantam (7Letras, 2008). Em parceria com Rafael Gryner, lançou os discos O Sonhador (2014) e Sementes musicais para um mundo cibernético (2011). Também possui canções com artistas como Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus VK. Reúne suas demais publicações em antologias e coletâneas no link: leandrojardim.blogspot.com.br . Os poemas abaixo são da série inédita Timeline.

***

Sempre tem uma besta que diz

sempre tem uma besta que diz
eu sei do que estou falando
porque leio os jornais
sempre tem uma besta que diz
eu sei do que digo justo
porque não os leio, sempre
tem uma que diz e repete e insiste
a mídia é uma orquestra manipulada
e manipuladora dizem duas bestas
que não sabem se discordam ou não
tais argumentos não tem bandeira
são de direita e são de esquerda
diz a besta diz a besta
maravilhas de uma imprensa alternativa
se olhando no espelho olhando-se
e outra besta se refastela
de algum erro gramatical
(sic) (sic) (sic) sempre tem
uma e outra besta engasgadas
com o que não sabem mas sabem dizer
que sempre tem uma besta que diz
porque não sabe não saber

§

 

Posts

As pessoas são mais frágeis que seus posts
São mais belas que suas fotos
Mais frágeis que seus posts

Seus gestos hesitam: é o belo balé
Presenças fraquejam falas, cambaleamos
O ritmo é a verdade

Todo movimento é um improviso, arte
Porque há o outro, há o espaço contido
E um desconforto que interdita o olhar

A irrefletida beleza, a improvável
Concretude da carne cheiro alcance
Vedada ao melhor dos mais frágeis posts

§

 

GIF_Estação_terminal

Um trem descarrilha,
Desgovernado.

Estrondo e hesitação
Se entreolham no terminal.

– É só, e sempre, o relógio na parede! –
Grita um.

– É a televisão que não desligam! –
Aponta outro, dedo em riste .

– Nada disso, é o coração
Que não cala, e o trabalho

Que não acaba –
Sussurra alguém.

Silêncio e movimento
Se atropelam na estação.

Desgovernado
Um homem descarrilha.

§

 

Oficina papa-prêmio

Aula 1 – Se inscreva
em todos
os concursos. Tenha sempre
inéditos à mão. Não escolha
o porte da prefeitura
ou o tamanho em dinheiro
do prêmio. Prêmio é prêmio. Aceite
até a participação em coletâneas
pagas, se esse for
o caso (geralmente é, dizem).

Aula 2 – Trabalhe
focado. Não desperdice
sua inspiração, especialmente
se ela for rara. Entenda
todos os prêmios, analise
o tipo de obra que costumam
prestigiar. Não leia clássicos,
leia os vencedores
das edições anteriores. Escreva
unicamente material aplicável,
só comece quando souber
onde vai inscrever. Inscrever é mais
importante do que escrever.

Aula 3 – Conheça
o perfil de cada jurado. Os perfis
de jurados. Onde encontrá-los. Como
se aproximar. Tenha lido
suas obras, se possível
faça citações pouco explícitas

Aula 4 – Autopromoção
até na derrota. Toda vez
que perder, escreva um texto
criticando a lisura do prêmio. Arrogue-se
um injustiçado. Outros
perdedores o apoiarão. Vire
seu porta voz e angarie
assim alguns leitores
como prêmio de consolação.
Prêmio é prêmio, aceite.

§

 

Quando incomoda

frisar quando incomoda
acomoda o que cala
e num tiro dispara
incontida escolha

e se explode à bala
o que era só bolha
quando não mais se poda
o que estava na cara

chega, pensa, sai, para
porra, cara, tá foda
ou melhora o que fala
ou te enfio uma rolha

*

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poesia

Karine Kelly Pereira

Karine Kelly Pereira publicou Anotações sobre o azul (Editora Patuá, 2016).

* * *

PARA OUVIR E CANTAR COM NINA SIMONE

Voltei a fumar.

Voltei a fumar desde o cigarro morando na tua boca, a noite insone sobre os nossos ossos, o terraço insuportavelmente cheio no centro da cidade.
“Quem aquece as mãos, aquece o coração”, dizem os tailandeses.
Por isso passado e futuro se encontram aqui-agora, fogo plantado nas falanges.
Voltei a fumar e voltei a ouvir a canção do Fausto que já ninguém em Portugal conhece.
Meu coração, brasileiro de memória e corpo, quer esquecer todas as canções já feitas, mas desvenda naquela canção indígena (que lhe fora arrancada sem saber) todo o seu gozo nela.

Em frente à praça com nome de santa fumo três cigarros, maldigo o teu nome.
Desaprendi
todas as línguas,
morri ao avesso…
morri ao avesso e todas as minhas encarnações sabem teu nome.
Todos os espelhos sentem falta do nosso reflexo juntos,
feito corpo repatriado.

Feito os cigarros, feito microfone nos dedos, os olhos se misturam à voz de Nina,
sem entender.
Impossível
traduzir, transcrever coração
na boca do gesto
saber se é benção, maldição, coragem ou voragem.
Não começa, não termina, tampouco existe aqui-agora.

Fio. Fissura. Fonte.

You put a spell on me.

QUIERO HACER EL AMOR

Eu pensei ter visto você

Pensei ter visto você me olhando do outro lado do espelho
Pensei ter visto você no voyeur da casa vizinha
Pensei ter visto você me procurando na internet, recombinando o alfabeto pra desvendar o meu nome, procurar nas redes sociais, nos sites de busca
Pensei ter visto você inventando um número pra ligar no meu celular

Pensei ter visto você na cidade da minha infância, na cidade do meu coração, na cidade do seu coração
Pensei ter visto você a me procurar nas ruas de São Paulo, indo e vindo nas estações do metrô, na areia da praia do Rio de Janeiro, pichando meu nome nos muros, lambendo o asfalto em busca do meu beijo, o teu sexo dançando com os muros, o gozo

Pensei ter visto você olhando o retrato que fez de mim nesse entre do seu abrir e fechar os olhos, com a própria retina, menina dos olhos
Pensei ter visto você surgindo de dentro dos meus livros, do café da manhã, da água caindo no chuveiro quente, do chão do meu quarto, da raíz das árvores,
da minha própria pele

Juro ter sentido a tua mão, o teu vento, agorinha
acariciando
mais uma página desse meu livro-corpo.

Eu sabia que você existia.

*Quiero hacer el amor é performance criada por Carolina Bianchi, uma experiência da aproximação íntima da mulher com os edifícios emblemáticos das cidades.

**Eu sabia que você existia é texto de Felipe Morozini, parte do seu trabalho como artista visual em constante troca e relação com a cidade de São Paulo.

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Três Poemas Inéditos de Marcus Groza

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Escreveu e encenou a antiópera Rua Carne Entre as Articulações (2016), trabalha atualmente na criação dos espetáculos Maré Morta e RãCô. É autor dos livros e a lua com órgão principal (Ed. Primata, 2017) e Sossego Abutre (Ed. Patuá, 2015), entre outros. Os poemas aqui apresentados integram o livro inédito A milésima demão nas paredes de estar perdido.

* * *

Rescaldo

diáfano resto de lilás e vermelho
a sua voz é buquê de flores
suando dentro de um saco
hoje na rua me ofereceram a assinatura
de um jornal inexistente
paguei e pedi para entregarem na sua casa
…….uma notícia do que não houve
…….seria mais ou menos imunda
…….do que o silêncio desidratando?

cinzas mornas e telepatias amargas
indícios de um desespero
que ganha corpo cada vez mais
dentro de outros corpos
como vegetais suando numa vitrine
o isopor com a alegria das festas

o que não ardeu pode gerar catástrofes?
a pétala das queloides o vigor cativo das lunações?

posso gritar que todo abrigo é vil
como qualquer resíduo de almíscar
num balde de lodo
posso gritar que as sementes da maça
são projéteis a serem lançados

mas é pouco
é parco azeite besuntado
para tanto atrito
enquanto escorre chorume
da verdade escalavrada
…….vapor e fumaça endurecendo
…….pincel mergulhado
…….num pote de tinta esquecido aberto
…….lava gelada de antigos temascais

o pútrido e as forças cósmicas
numa mesma voz suando frio

§

ʧ

três quintos do que você chama
de inferno

ela se refere como sendo
tristezas orvalhadas

angústia é marca de ferro
ela diz

você pensa no
cosmético antirrugas
que ela comprou e não usa

a etimologia é só uma desculpa nobre
para o fracasso

prataria turva
pela fumaça do cigarro

§

Canção Submersa

o monge disse
o que circula não
transborda
por isso a maré
não enlouquece

não estou tão certo
mas pressinto
maré imprópria
e só desejo a cura
que não supõe
o curso do rio
pelo ciclo das alturas
suporta lagoas
e riquezas mortas
no costado
sem escora

…….o pesadelo a nível do mar
…….é dia
…….deitar a cabeça em reticências

antes encher
os corredores da casa
suportar a água
não como ave sobrevoando
sentir a música em todo corpo
dançar dentro da neblina

…….viver submerso
…….pagar o preço da miopia

 

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5 poemas inéditos de Daniel Francoy

Daniel Francoy, 38 anos de idade, natural de Ribeirão Preto – SP. Participou da coletânea 4 Poetas na Net (Sete Sílabas), do número 1 da Revista Literária Agio (Editora Artefacto), da coletânea de poemas mixtape (doladoesquerdo), do Caderno 2 e Caderno 3 (Enfermaria), além de colaborar com diversos sites de literatura. Em Portugal, publicou Em Cidade Estranha/Retratos de Mulheres (Editora Artefacto) e Calendário (Editora Artefacto). No Brasil, estreou em livro com Identidade (Editora Urutau, 2016), premiado com a terceira colocação na 59a Edição do Prêmio Jabuti, na categoria Poesia. Os poemas ora selecionados integram o seu novo livro de poemas, ainda inédito.

* * *

O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS

Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.

§

OS LIMITES DO INVERNO

Serpenteio, nos limites do inverno,
por uma alameda de condomínios
com nomes de principados e prédios
com nomes de ilhas mediterrâneas.
Entre mim e o outro, intransponível,
uma fria e úmida aragem.
A cidade aparece lá embaixo
sob a garoa: opaca, névoa leitosa.
A imensidão é uma força que fracassa
e a chuva é alheia ao cão que arrasta a pata,
ao cadáver enterrado na semana passada,
às rachaduras na parede da casa de família,
ao pássaro gris que luta para se manter em voo
e ao lixo na margem do rio
em meio à bruxa assassinada.

§

UMA TERRA COMO ESSA

Não chamo deserto uma terra como essa.
Sob o sol que brilha como calcário
não vislumbro os ferozes e magros
homens cobertos de negro, abutres
que caminham e não encontro
as serpentes e os escorpiões
e tampouco a noite reverbera
o enluarado uivo dos chacais
ou o riso das hienas à espreita.

Por isso me pergunto onde estou
quando me encontro sob a canícula, sem
que o meu corpo projete sombra,
a garganta incendiada, o rosto fustigado
por uma das muitas tempestades de areia
que se erguem do ventre da terra
ou quando observo com que velocidade
desaparecem os sinais dos meus passos.

§

UMA ALDEIA VIZINHA

Imagino uma aldeia vizinha de Pompeia
e o assombro da erupção: um crepúsculo
forte, rútilo, escarlate, e depois a nuvem
avançando – cinza, lenta, maciça –
sem ninguém desconfiar do que ocorria
no outro lado da cordilheira
e de que a sombra que soprava
era a poeira de uma cidade desfeita.
Eis que os homens dizimados
no ar revolto, tornados fuligem,
logo revestiram a epiderme dos sobreviventes;
fantasma que se tornou nítido na manhã
seguinte, ao despertar:
em cada lençol jazia um vulto de carvão.
Depois, imagino que foi horrível se banhar.
Perceber a sujeira que se desprendia do corpo
descendo em redemoinhos, água
escura, oleosa – enfim, refratária
ao instinto da branca espuma.

§

POEMA PARA PICHAR NO MURO DO BECO

A força e o ingovernável das ervas daninhas está no sol.

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Nathalia Campos (1986—)

Nathalia Campos (1986, Belo Horizonte) é doutoranda em Estudos Literários pela UFMG, professora, revisora e cantora. Está entre os 12 poetas brasileiros contemplados na antologia bilíngue (português-espanhol) Inventar la felicidad – muestra de la poesia brasileña reciente (2016), organizada por Fabrício Marques e Tarso de Melo, e possui publicações em jornais e revistas regionais e nacionais. Desinfinito (Editora Patuá, 2017) é seu livro de estreia.

* * *

ACADEMIA

Submergir
Nos baldes de pipoca
Azeitando a mola das rótulas
Pra não me restar um piruá sequer
Na alma encruada
Chorar com as pitangas
Todo o meu vermelho
Pra aumentar o retorno das válvulas
E chamar o lobo anêmico em jornada
Fazer flexões na superfície natural
Que até Jesus preferiu
A abrir funduras sem causas
Tão velhas quanto andar pra frente
Desempatar meu 0 x 0
Em campeonatos de risos
Partidas com 12 músculos em campo
E sisos de leite
Alongar o dorso na barra maciça
Dos teus ombros altos
Em olimpíadas de abraços
Sem tempos alternados pra voltar ao chão
Dançar com os coelhos do céu
E abrolhar calos nas pestanas açucaradas
Binóculos bulindo a ventarola de algodão
Estrear poros sonantes
Na fumaça dum balneário
As árias tontas de pedras
Rendendo a mudez do corpo
O zênite
No dedão do pé e na ponta do seio
Sem a mania do aposto bronco
Entre a cabeça e o resto

Agora dei pra ser atleta

§

 CIÊNCIA

Derreter a certeza dos astros
E com a parafina colorida do giz de cera
Animar os sistemas
Como nos dias da nossa infância
Quando a luz elétrica pingava
Um dia sim um dia sim
E qualquer verde era azul
Ou nem tanto

Acaçapar as bolas de sinuca em gozo de anarquia
(Rico mesmo era quem nem vela tinha)
Nos dava o luxo de recontar o universo
Com a goela do breu

Só as crianças sabem
Que o que existe mesmo é a luz
E se safam da fogueira

§

CÂMERA ESCURA

CENA 1: PINTURA

o sol tomba no pátio uma oliveira seca
como a narrar a tarde em voz alta
à carmelita sem janelas e os males de quem canta:
uma traqueia embargada de ferrugens e gemas
arfando a queda
para que olhos se o deserto também é claustro?
auscultar a paisagem é ouvir espelhos

CENA 2: MORTALHA

os objetos são para os olhos
o que a mulher amada é para os artistas:
só têm alma se admirados
bem o sabem os espelhos
que vendados em dias de luto
choram o morticínio invisível de suas Galateias
não lavradas à luz

CENA 3: IMAGEM

e se na verdade os espelhos não refletissem
mas observassem?
atrás de nossas familiares lentes
em autocontemplação apaixonada
Narciso se divertisse em dançar
com o mundo que perdeu para si mesmo
ao som do compacto
lado a – eu, lado b – você?
(repare
como assoma sempre um meio riso cínico
no canto da sua boca após algum tempo de cisma
diante da incurável face)

CENA 4: ECLIPSE
há coisas
dizem
só se nos dão a ver
quando olhadas por outros olhos
o balé dos ciprestes por Van Gogh
a louça pelo vizinho
o gênio pelo amanhã
o cinema pela Górgona
o corpo pelo desejo forâneo
penso eu me encarando de costas
de dentro da polaroide

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