poesia

Eduardo das Neves (1874-1919)

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É certo que a literatura brasileira não tenha muitos exemplos de obras produzidas por aqueles que sempre se encontraram às margens da sociedade, se pensarmos a partir de uma historiografia convencional das poéticas. Raros são os casos como os de Maria Carolina de Jesus ou Lima Barreto. Em geral, nossa produção esteve sempre centrada nas mãos dos homens, mas de homens bacharéis, padres e acadêmicos. Ou seja, nossa literatura ligou-se, e continuar a ligar-se, à voz do dono, do mandatário, portanto.

No entanto, na forma mais difundida da poesia, isto é, na canção popular, o jogo parece se inverter. Nesse estilo democrático de fazer versos, portanto, as vozes mais periféricas sempre tiveram força para ocupar o centro do palco. Um exemplo disso é a figura de João do Vale, que publiquei aqui há certo tempo. Outro nome certo seria o de Cartola. Além de vários que não caberiam citar aqui a fim apenas de compor uma lista exaustiva. O samba, o choro e as formas mais populares da canção em geral sempre estiveram ligadas a essas figuras.

Eduardo das Neves, carioca, conhecido também como Dudu das Neves, Palhaço Negro ou Trovador da malandragem, foi palhaço, poeta, cantor, compositor e violonista. No começo do século XX, era um dos mais importantes compositores do Brasil. Sua poesia refletia através da oralidade própria à canção temas caros à questão negra, como a diáspora africana, a negação de uma ancestralidade que lhe era devida e além da própria boemia da qual era assíduo frequentador.

Das Neves teve três filhos, Iracema, Araci e o grande Cândido das Neves, de quem tratarei em breve em outro post.

Sem mais delongas, vamos às canções de Eduardo das Neves.

* * *

 

 

 

 

 

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crítica, poesia

“À tarde”, de Aureliano Lessa, por Raimundo Carvalho

Aureliano Lessa – Wikipédia, a enciclopédia livre

À tarde
Aureliano Lessa (1828-1861)

I

Lá descambou o sol… Vai descorando
Manso e manso o cetim vivo-cerúleo
E as vermelhas folhagens que recamam
O côncavo do céu. Transluz no ocaso
Por débil prisma cambiante facho
De semimortas cores, que se perdem
No azul ferrete do noturno manto.
Nevadas franjas flutuando em flocos
Erram nas abas do dossel da tarde,
Como da seda azul que a moça traja,
Cândida renda guarnecendo as orlas.
Galerna a viração farfalha e brinca
Na coma da palmeira; o mar soluça
Esponjando na praia; e a selva freme
Exalando inefável harmonia,
Que os gênios do ermo tímidos murmuram.
Queixosa a juriti na balsa arrula;
Com ela geme o sabiá saudoso,
Assim modula suspirosa flauta,
Assim chama a viúva pelo esposo
Qu’inda tão jovem lhe caiu dos braços.

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde,
Que mágico pintor bordou teu manto
Coas duvidosas sombras do mistério?…
Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar coa nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases…
Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d’anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d’ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam…
Não sei! Há dentro d’alma tantas cousas
Que jamais proferiram lábios d’homens…
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora,
Té de mim próprio sinto um vago olvido,
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas,
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: – todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens – té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimando ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: – sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo,
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d’alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe supram.
Talvez agora na floresta anosa,
Proscrito errante, o índio americano
Para e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amor à virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo.

IV

As inflamadas nuvens já se abatem
Do incêndio ocidental. – Reina o silêncio
Temeroso e fugaz. – A natureza
Entre o sono e a vigília está suspensa.
Oh! quem não sente sussurrar-lhe n’alma
Um desejo inefável como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amável, entre a dor e o riso,
Magicamente embala-se a existência;
Em cada coração qu’inda palpita
sonora cai da lira do Universo
Uma nota de amor e de saudade.
Extático , no cimo da montanha,
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o bálsamo de amor, que a tarde mana,
No coração do bárbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão lânguido,
Tão misterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amor em tudo.
Quiçá longe de urdir sangrentas tramas
De inóspito rochedo em negra cova
Responde agora o anjo do infortúnio,
Inimigo dos homens: Tarde ou nunca
De um dormir letárgico desperte!
Vela, gênio do bem, vela em seu sono!

LESSA, Aureliano. Poesias. Edição, apresentação e notas por José Américo Miranda. Belo Horizonte, FALE, 2000. O livro está disponível aqui.

* * *

Algumas considerações a respeito do poema “À tarde”, de Aureliano Lessa

Qualquer análise deste poema deveria começar por reconhecer o seu pertencimento a uma linhagem de poemas vesperais, assim denominados por representarem o eu-lírico meditando à tarde, tendo por objeto o próprio fenômeno natural e suas relações com a existência. Dentre esses poemas, destaco o hino “À tarde”, do pré-romântico Odorico Mendes (1799-1864), o hino “A tarde”, de Gonçalves Dias (1823-1864), o “Hino à tarde”, de Bernardo Guimarães (1825-1884) e “Louvação da tarde”, do modernista Mário de Andrade (1893-1945). Além da aludida temática, esses poemas têm em comum o fato de serem de maior fôlego. São poemas relativamente longos para o padrão lírico em geral, entre 94 a 165 versos, todos tendo por base rítmica, exclusiva ou predominante, o decassílabo branco. O que diferencia o poema de Lessa dos demais, sob o ponto de visto do desenvolvimento do tema, é que, enquanto naqueles o sujeito da contemplação se sobrepõe ao objeto contemplado, nele a presença do sujeito é minimamente anotada, na negativa ou em formas oblíquas, ocorrendo uma espécie de fusão do eu na natureza ( ver versos 33-40). Ao mesmo tempo esse eu-lírico, esquecido de si, em sua imaginação, acolhe o peregrino errante, o pobre escravo, os sôfregos amantes e o índio proscrito. Se observarmos bem a figura de acumulação que vai se formando a partir do verso 50, vemos que ela se conclui com a reiteração dos elementos enumerados, de tal forma que ocorre, no verso 69, uma perfeita identificação entre a natureza, o eu e o outro, se entendermos que a expressão “triste Bardo” condensa uma referência ao “índio americano” citado no verso 59 e uma autorreferência. Há que se perguntar por que, diante de um espetáculo de tal magnitude e beleza como um fim de tarde, a alma do poeta se tinge com as cores da melancolia para, ao mesmo tempo, se solidarizar, sem nenhum proselitismo ou queixa pessoal, com os infelizes e os desterrados: o estrangeiro, o escravo, a mulher (a viúva, a donzela) e o índio. A resposta é todo o poema, urdido das mais sutis ressonâncias, aliterações e rimas toantes adicionando reflexos prismáticos aos decassílabos brancos, numa perfeita correspondência entre gradações sonora e imagética.

Bem, penso que já passou da hora de lermos a obra dos nossos poetas românticos não como documento de época ou exemplo de uma dada poética, mas como poemas simplesmente, nos quais, nós, leitores, possamos projetar o nosso imaginário e a nossa inteligência, sem nos atermos aos juízos nem sempre acurados dos historiadores da literatura.

Raimundo Carvalho

 

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Poesia Brasileira Contemporânea

Lino Machado

Filho de pais portugueses, Lino Machado nasceu no ano de 1957 no Rio de Janeiro, Brasil. Desde 1993 trabalha na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lecionando no Departamento de Línguas e Letras, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN).
Possui graduação em Português Literaturas (1979), mestrado em Literatura Portuguesa (1988) e doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996).
Tem experiência na área de Letras (Pós-graduação inclusive), atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura Portuguesa, filosofia e semiótica de Charles Sanders Peirce, intersemiose, diálogo literatura-artes visuais, intertextualidade, filosofia da ciência.
Além de artigos vários, publicou os livros As palavras e as cores, sobre Carlos de Oliveira (1999), Sob uma capa (2010), Entre dois vetores (2014) e Viés-cegueira (2020) – este três últimos, volumes de poesia.
De 01 de Agosto de 2014 a 31 de Julho de 2015 efetuou um Pós-Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Geras (PUC-MG), sob a orientação do Prof. Dr. Júlio Pinto, um dos grandes conhecedores de semiótica peirciano no Brasil. De tal Pós-Doutorado resultou o extenso trabalho Trimedi(a)ções: Peirce, física quântica, literatura. Embora uma aproximação entre o criador do pragmatismo e a mecânica dos quanta possa parecer inusitada à primeira vista, ela vem sendo apontada desde, ao menos, 1958 (inclusive por pensadores do calibre de Karl Popper), ainda que sem um maior aprofundamento de tal paralelo, tentado, precisamente, no Pós-Doutorado em questão.
Aposentou-se como Professar Titular na Ufes. Email para contato: linomachado36@yahoo.com

* * *

O que parece

Estou num ponto de ônibus
………..ou da vida
esperando o próximo
………..………..………..oxigênio passar.

Exagero, claro,
como quem aguarda o terremoto
que faça em fran
galhos
aquele formigueiro
no quadrado de grama da calçada.

Não porque deteste as formigas
ou a calçada
com todo o resto,
mas pelo fato estranho
de que, mesmo com recursos
escassos, este mundo urbano
e zoológico
é sempre de um excesso
formidável.

§

Aceita o conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Fernando Pessoa

Constrói muros assim
contra todos os ventos e contatos.
Tenta depois morar
no interior deles ………..egoísta da vida
evitando contatos
não se esquecendo de estar
sob um ótimo teto
contra todas as estrelas,
contatos e ventos.

Ergue muros altos do tipo,
sonhando não ser mais esmurrado
pelo mundo
que teima em bater às nossas portas.
Sim, senhor, teme
este mundo deveras teimoso,
mas também às vezes trêmulo
com os seus próprios terremotos,
os tsunamis e o resto
que se agite de um modo ou de outro.

Põe de pé uns muros dessa espécie
e espera que ninguém
da tua, da nosso espécie
queira atuar
no interior deles ferozmente,
nos canteiros do jardim,
mesmo que eles só existam
na imaginação,
com flores e ervas que sejam figuras
plantadas nuns chãos de neurônios.

Levanta muros do tipo
sem mais demora
diante de mansões, apartamentos, barracos,
gostem ao não
expostos a ventos, contatos,
com sorte
contando com boas redes de esgotos.
Apenas lamenta um item
mais do que chato,
apto a provocar um curto-circuito
nos nervos:
este ou aquele vírus
que volta e meia não é parado por muros,
Troias vencidas sem cavalos.

Lamenta ainda:
vírus
que são um detalhe entre vários
num planeta (não reclame)
de fato bilionário deles,
se não triou de maiores valores
na vida
com suas bolsas e campeonatos.

Sem dúvida, amigo,
lidamos com altos, médios, baixos,
fazendo apostas
entre astros e abismos,
alegrias e pandemônios.

Naves, navios, barquinhos
(mesmo os de papel)
não naufraguem agora!

 

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Poesia Brasileira Contemporânea

Sheila Dálio

Sheila Dálio (1983) é mestranda em teoria literária pela UNESP, em Assis, SP. Nasceu em São Manuel, interior de São Paulo. Atualmente está entre os alguns que se agarram à poesia como uma tábua de salvação. 

* * *

I – Gesto

de cócoras sobre a carniça não pensava,
comia. Vejo de juntar em minhas mãos.
Esculpir essa carne de minha carne;
torço retorcido com o rosto de
Caim.

§

II – Marabu

A máscara de flandres veio caminhando
para grudar-se em minha boca.
Olho aos céus e vejo Marabu:
Grande. Feia. Magra.
Fomos nós que apressamos a noite?
Foram Eles?
Contaram-me os mistérios dolorosos: Deus, pendurado num arame,
retira o ar soprado em mim.

§

III – Máquina de costura

Percorre um vazio
entre a linha e a agulha
nele tuas angústias
passavam como gafanhotos
em delírios envoltos. Ossatura.
Ao corpo da máquina
tão perto teu rosto.
Costura,
costura,
costura
[o tecido, as veias, o sangue]
impossível mudar
tua desventura.
Na membrana das linhas
arruinadas – o corte.
Ao lado esquerdo, o vestido:
preto
três botõezinhos
e o ar que me entope.

§

IV – Mangue

escuta o som das saias
no mangue de Recife
as marcas quentes na areia
nas suspensas
ondas do seu ventre
escuta
a esquecida velha
acenando ao mar
a lágrima
caída
na concha apodrecida
escuta
(um barco chegou)
cinco homens
cinco redes
cinco anzóis
cinco furos
cinco mulheres
escuta
depois do último
cataclisma
o silêncio das saias
balançando no mangue
quente do seu ventre

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poesia

Renato Mazzini (1981—)

Renato Mazzini (1981) nasceu, vive e escreve em Santa Fé do Sul, interior de SP. Publicou os livros de poemas Paisagem com dentes (Oficina Raquel, RJ. 2009), Aqui começa a Antártida (Patuá, SP. 2015) e História inconclusa de la velocidad (Zindo y Gafuri, Buenos Aires. 2016). Os poemas aqui publicados fazem parte do livro inédito O último verão de nossos inimigos.

* * *

Los Andes

O cavalheiro acende
um cigarro, traga, oferece
a seu interlocutor
e pede que lhe arranque
a faca que cravaram nele,
entre o peito e
o pescoço, (para neutralizar
o coração e o cérebro,
ele pensa) e com profundidade
bastante para dificultar
a tarefa. O dia está
escondido entre rochas
altas e fumaça de hálito.
Somos cinco no pequeno
restaurante andino, que
nada deve a uma taberna
eslava escura qualquer, por
exemplo, exceto pela falta
do clima de morte.
Do lado de fora, minha nova
amiga lhama e eu paramos e
contemplamos:
dizem que há
um novo animal rondando
as montanhas; chama-se
sol, mas não acreditamos nele

§

Nóstromo

Quebrada a combinação,
o que restou no cofre
entre mímicas involuntárias
de falas e rostos
e filmagens mentais em 35mm,
foi a lembrança detalhada
de todo o percurso de dor
e lesões oculares.
De uma madrugada de
tempestade em que, abre aspas,
os relâmpagos tentavam comunicar
alguma coisa, fecha aspas, até
acordar abraçado
a um travesseiro em pedaços,
os sistemas aparentemente
incoerentes entre si, insistindo
em distribuir a seguinte
informação, abre aspas, talvez
você desconheça a identidade
do verdadeiro inimigo,
fecha aspas, ou, na primeira
versão que interpretamos,
as vidraças e eu, abre aspas,
o som não se propaga no vácuo,
mas realmente deveria, fecha aspas.
Isso soma mais algumas dúvidas
à mente cansada que
acorda, num escuro quase perfeito,
machucado apenas
por algumas flechas de luz
vazando os tacos da janela de
madeira, e não havendo
energia elétrica nem para o
ferro de passar, concluir que
talvez fosse melhor,
abra aspas, reorganizar todos
os pensamentos, fecha aspas,
antes de inalar a primeira carga
do dia de ar aos pulmões e ficar,
enquanto acende uma boca
de fogão com o último fósforo
não-molhado, pensando sobre
a microexasperação
de cada coisa.

§

Retrofuturismo

1. Você e a propensão
a observar mais detidamente
esta época quebrada do ano.

2. O cais dentro de suas
preocupações, as embarcações
estranhas, os navios com proas
ósseas, os monstros marinhos.

3. Dizer essa gravidade sombria
pesa todos os dias sobre mim.


4. Uma existência inteira
configurada a partir de
um golpe de caratê mal
coreografado num filme
da década de 80.

5. A perfeita equivalência
entre o que se deve perder
e o que se mantém, ilhas
enfileiradas e equidistantes,
e você ignora todos
os mecanismos disso:

7. Não importa:

6. Estamos felizes e amanhã
outro dia nascerá como
uma grande bola de demolição.

§

Velhos

Um ponto que a escuridão não alcance,
(que a escuridão não alcance)

Um ponto que a escuridão não alcance
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)
O conhecimento áspero do calabouço
calcifica no entorno do seu coração
(grave, retilíneo) talvez isso quebre,

talvez isso se parta, talvez uma rachadura
viabilize a respiração, talvez isso quebre,

(talvez se parta), quem sabe uma rachadura
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)

estamos falando de cicatrização interna
estamos falando de um café bebido às pressas
numa rodovia e de um cortejo de gárgulas

que talvez sejam cegos sob a luz do dia
(talvez sejam cegos sob a luz do dia, talvez)

§

Volta

Se o mundo se mantém
vitralizado sob seu jugo,

paciência. Deve haver
filtros mais tristes.

A sabedoria de um chinês
que nos vendeu cartelas

de ovos e ressignificou
a nossa vida permanece

o ponto alto das férias de
1993, entre tantas outras

cartas marcadas de nosso
jogo de atuações: aliviar

essa opressão no peito,
essa congestão de mentiras

não parece uma alternativa
viável; devemos nos manter

silenciosos e concentrados
olhando um banco de parque

em que bicicletas rondam
sem chegar a existir

§

Taxonomia do dever cumprido
(para meu filho, no futuro)

(44 & 4)
Aquilo se chama cosmo
É piche & são pregos
É feito de vazio e solidão
E, portanto, é nosso.
*
(54 & 14)
Isso se chama vento,
e emana da garganta
de um deus enquanto
tomamos café

§

La tristezza durerà

Piglia disse alguma coisa como
“viver num quarto de hotel é o
melhor modo de não cair na
ilusão de ter uma vida”. Isso
me faz querer dar algumas voltas
pelo bairro e respirar o mais fundo
que consigo. Retorno trazendo
algumas sacolas de hortaliças
e assobiando uma canção morta
há muito tempo. Subir as escadas
ressalta a beleza dura de estar
nesse mundo. A comunhão
entre chave e fechadura, o ranger
das dobradiças, pequenos manuais
de opacidade diária. Deposito
as compras na mesa e pergunto
ao gato, sempre reticente em
sua tigela de ração: quem é o cara
vestido de diabo sentado lá em
baixo?

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Adriano Nascimento

Adriano Nascimento nasceu em Januária/MG. É professor universitário. Publicou o livro de poemas Contraluz (2018). Mora em Belo Horizonte/MG. Os quatro poemas abaixo são inéditos.

* * *

TULE
A santa equilibra
três punhais
no peito de tule.
Sobre sua cabeça,
8 estrelas de prata.
Aqui se levanta cedo
e se morre tarde.
Não há o que ver.
Das montanhas
não há segredo.
Em silêncio, as pedras ardem.

§

Meu tio morto
me sorri na foto.
Não pergunto.
Nem ele.
Seguimos os dois
em cerimoniosa
contrição.

§

MÃOS
Frio de pedra, dos dedos:
nuvem nas bordas,
a carne dos olhos – carvão.
Nos seixos – outro;
a curva da luz.
Da neblina escorre o espinho,
sol fatiado.
Manhã posta,
seguimos a chuva
até depois do mar.

§

O verão curvou a tarde de espantos.
E aqui, onde as mangas estragam,
o mormaço sobe a garganta, a alma goteja.
Dá pra ver o longe das montanhas
entre os pingos e a luz.
Apertando bem os ossos, quase se esbarra
naquilo que, mesmo sem ter nascido,
envelheceu.
Uma litania para o azedo ácido,
a linha gelatinosa acesa.

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4 poemas inéditos de Anderson Lucarezi

Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

* * *

a saudade do futuro irrompe de uma cena de rua.

processado pela língua ecoada – ainda
mista – como as trovas pelas vagas – turmalina
em talhos – de Vigo; bradada em Aljubarrota –
em alvíssaras, vivas!, ao mestre de Avis –
e Alcácer Quibir; eternizada por quem –
simbólico – jaz nos Jerônimos, desce –
a incidir por sobre a cena – meu olhar:

janela de carro pouco acima de popular
através da qual, no trânsito, livro à mão,
o motorista, minha mesma idade,
fruto – desta – terra estrangeira
em que apostei – todas – as fichas
(apesar da alta cotação da libra),
se alheia da minha vontade que vaza,
imigrante, do transporte coletivo.

ainda que mais familiar, esta minha língua,
e ainda que eu viva o clarão da poesia,
cujo sândalo nos leva, mesmo imóveis, longe,
como não devanear com papéis em ordem,
com ter serviço que possibilite mapas,
com o existir oficial, com estar num carro,
parado – livro à mão –em plena neblina de Londres?

§

embora só suposta, perdida a pepita, me precipito à aluvião,
em cuja voragem – sedimentos, detritos – vislumbro,
ainda e sempre, tua infância por mim não vista.
penso, se verbo de ação for permitido a mente submissa,
nos teus nomes de criança – brinquedos – amigos;
em como terá ganho tuas tantas cicatrizes,
marcas de investidas rumo a desvios de rota;
em como, enfim, terá – você – sido, há décadas,
quando, a meus olhos, não era, você,
mais visível que veios auríferos ainda não descobertos
ou galerias expectantes das drusas de ametista,
ocultas, não esplendentes em lilás, dentro das trevas do geodo.

§

contudo, as palavras.

contudo, as palavras.
as mesmas que atritam traços no espaço dos dicionários fechados.
talvez letras, riscos, se entrelacem, em dança secreta,
rindo das consultas, quando desse fechamento.

como exemplo, a palavra sexo,
quase sempre atrativa,
ainda mais se encadeada à preposição com,
palavra, essa, que, unida à anterior,
causa expectativa, cujo desenlace depende da seguinte.

se essa for, por acaso, a palavra mesmo,
seguida pela já citada sexo,
poderá, tal encadeamento de sons,
tanto abrir risos de reconhecimento,
visagens do verbo feito carne,
quanto rolar no inferno das bocas,
à espera de dias como estes,
nos quais, havendo azo, vaza nova palavra:
massacra.

§

paisagem estilhaçada.

tenta-se alguma coisa no papel,
uma ponte, a serra, a cidade
se arrasta pelo tempo, toma,
morosa, as encostas, mineiras,
queijo, minério, ferrovia,
igreja, procura-se a sintaxe
fluvial, curvas, volteios,
traduzi-la em letra cursiva,
grafia dos meandros /// inter-
rupção /// fura, a luz da tela,
o pensamento, impera,
a tecla-metralha , explicita-se
a fratura do mundo,
divisa-se as novas Minas,
onde não só filigranas
de Murano, calor termal,
charrete, lua de mel: magma
move-se debaixo de tudo,
momento é o mais perigoso
entre Estados desde a crise
dos mísseis, dois terços
da população dizem
nunca ter ouvido falar
do AI-5, cabine de teleférico
despenca durante chuva
de granizo
– pop-ups – o fluxo
transborda a margem, o trem
escapa aos trilhos, PAISAGEM
ESTILHAÇADA, a cratera,
esse vulcão, qualquer momento.

Poços de Caldas, 2020

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Quatro poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1985) é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Seu livro de poemas Os Postais Catastróficos figurou entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti (2019) e em listas de melhores do ano de revistas como 451 e Suplemento Pernambuco (2018). Seu mais recente livro, adão aparas, pode ser acessado no site ismartirellineto.com. Atualmente, reside em São Paulo, traduz e ministra oficinas de escrita criativa.

* * *

Correlata
que passo a sentir vizinhos sumiços
passos à escada depurados de eco
a palavra “cumeada” atira-se novamente
é possível imergir
a rua, renova, rouqueja
é possível
o céu dizer-se emboço
a morte, cimentícia
a dor, a dor, coisa infinitamente perfectível
o azul da manhã, corrugado
e setembro, cabeceio
ao concluir-se o serviço

Já não falo de mim.
Fundo cidades.

§

A mulher mãe é as boas vindas. Afamo-a um largo trecho de escombros, vergalhões, quarteirão implodido de que emerjo: Vênus de bigode. Esvoacei por um sem-número de tardes metido em seu penhoar predileto, brandindo o revólver de espoleta. Pintei, bordei, dancei South American Way, tantas atrocidades: a mulher minha mãe é as boas vindas, anunciam-se Benvindas na manicure, a mulher hospitaleira como uma rodoviária em dia de tempestade. À minha insistência em dizer que posso ouvir-lhe o mau tempo ela responde: você não compreende. Você não compreende, vedava, e com os pequenos punhos destroçava a jangada de Lego. Compreendo, compreendo o amor. Transmitiu-se-me o apreço pelas ceias frias que duram a noite inteira.

§

Descer sobre o rosto pálido véu da cidade
Às costas pôr o grande sino
Anuários calçados, descer caminhar
Caminhar e linguageiro
Conduzir para fora do teatro cada gesto colossal
Cada desiderato
Escovar os cabelos até faiscarem cobras
Ao deixar o lavabo enxugar as mãos na mortalha
Sentar-se cruzar as mãos cruzar
Os talheres sobre as cinzas
Exaurir em adivinhas a nacionalidade de cada comensal
Se também se axioma morrer por lá

§

Fernanda
Não sem surpresa ouço que não estou voando,
que é outra, a figura não
contraventa a gravidade.
Portanto, não pairei sobre nada. Devo tê-la tomado
de frente – a caminho – cruzando
a praça da concepção. Tempo ameno
pois que fora de mim,
quando fora de nós nos cruzamos
no tempo ameno, antes
no fotograma que falta,
no soluço da fita. Branco que pulsa,
o tempo de um provérbio, “fração de segundo”.
Nunca a vi tão planadora, tão fecunda
obra do acaso. Nunca a verei passante, os cabelos
fora de toda
cogitação. Ouçam –
Em nada se engancham,
não se deixam picar
nem mesmo pelo branco. Pairam, desfiados sobre
a praça da concepção
cruzamo-nos.

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poesia

Ana Cláudia Romano Ribeiro

Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Unifesp. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR).  Traduziu também os aforismos poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot.

* * *

tempo

deitar-se nos tijolos
sentir o limo úmido nas costas
ouvir insetos
deixar virem e irem embora cachorros e galinhas
olhar a copa das árvores
saber que os abacates estão quase maduros
e que as árvores perdem folhas o tempo todo
amadurecer nos intervalos

§

moto contínuo

volta no meio da tarde
poucos estão nas calçadas
lusco-fusco
vento e mormaço na rua vazia
você alonga a coluna e sorri
dá uns passos e corre pelo declive até o jardim
recolhe as sementes
junta todas em um saquinho de juta
levará tempo até plantá-las
repetindo um gesto antigo
percebe a necessidade da poda
corta os galhos do limoeiro
da jabuticabeira
lembra do cajueiro
observa as plantas que crescem do nada
nada vem do nada
deixar no chão o imenso
pé de pitaia que despencou do arco alto de dois ipês contíguos
colher as frutas doces
serrar um tronco comido por cupins
limpar o poço
tomar banho
escutar os ossos
quem sabe à noite na rede o corpo
cansado, o radinho
sintoniza uma música
em língua desconhecida

§

cotidiano

aveludada e vermelha, a blusinha
de tripa, a corda da viola da gamba
encerada, a fita dental
que Jonas não encontrou na farmácia
o inexistente vaza no existente
só se supõe no espaço

§

Deise

daqui da minha cozinha
escuto os abacates caírem
como chumbo
no chão
e penso em te escrever
como se não houvesse um sistema de troca de mensagens tão moderno
quanto ovo solúvel
escrever a mão
te contar que aqui
vamos todos parados
mas tentamos nos mover por dentro
não guardo a caixa de aveia
pra depois esquecer
e achar graça na mesa assim
com aquele quacker sorrindo ali
que devia estar no armário
você riria algo inquieta eu sei
porque gosta das coisas em seus devidos lugares
e queria te dizer isso
numa carta escrita a mão
um acontecimento
enquanto cai outro abacate
que faz bem ao coração
e você meu amor, que tem feito?
como vai teu jardim nessa seca?
lembra da flor roxa? nem precisou adubar
foi remexer a terra e pá
impressionante como movimento faz florescer

§

isolamento domiciliar

talvez acrílico, talvez óleo, não sei
sobre tela
verdes, rosas, cor da pele
tudo desbotado e escuro
o olhar da moça pintada
delicada, destemida
único corpo humano além do meu
em quarentena
tem mãos, pescoço e flores
numa cesta
talvez o verde no fundo tenha sido pintado por último
folhagens, bosque, capim borrado
o quadro olha para a janela
e para o espelho
ao lado dele uma porta
sair por ela e encontrar no jardim
a companhia das minhocas
ouvir ossadas antigas
a lembrança das árvores abatidas
cacos de pratos
mato, cisco, parafuso, barbante
voltar para dentro
e misturar tudo
perfumes vencidos
flor de cerejeira e alfazema
avó, irmã e mãe
sentir o cheio dos ausentes
e a dor no lóbulo da orelha furada
que fez a moça desmaiar
numa farmácia
em 1987

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Carlos Orfeu

Carlos Orfeu, nasceu em Queimados, Rio de Janeiro. Publicou Invisíveis cotidianos em 2017 pela editora paraense Literacidade; Nervura em 2019, pela editora Patuá. Participou da antologia organizada pelo poeta Floriano Martins: Sob a Pele Da língua, onde reúne jovens poetas com referências surrealistas. Têm poemas publicados em revistas e sites literários.

* * *

salamandra

o sol
salamandra
           selvagem

fareja o pão
gênese de gestos
cortejo de luz

veloz manhã
faca partindo
sombras

§

cortinas

cortinas dançam
como medusas
luzentes

os cílios
giram entre
luz
e sombra

dançam
como
cabelos

presos
no limite
da janela

§

óxido

oxidada água
ser-
penteia
pelo diafragma

                     dos canos

viagem labiríntica
calcária
voz da caixa
                 d’água

viagem pela res-
piração da casa

até deitar-se
em outra língua
dente: sabor cloro
barro abrindo-se
na insônia da garganta

§

círculo

atrás das roupas
inquietas no varal

a asa
na mudez do pouso

círculo da
             luz
             suspensa

na água
trêmula do balde

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