poesia

Eliza Caetano (1980 –)

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Nasceu em Belo Horizonte, é jornalista e mãe de duas filhas. Escreve desde sempre. Publicou O caderno das inviabilidades (Ed. Urutau, 2016).

 

sergio maciel

* * *

 

seria preciso um muro inteiro
um muro inteiro que lamentasse
seria preciso um muro que chorasse
um de pedras largas e entre elas pequenos vãos por onde nós pudéssemos tentar ver o outro lado
sem sucesso
seria preciso um muro alto
de pedras largas
seria preciso pés descalços que chegassem até lá.
dois dígitos em horas de vôo
algum dinheiro para a passagem
um outro lado do mundo
seria preciso antes que nós lamentássemos (e lamentamos)
mas que estivéssemos no lugar impróprio
que fosse verão, claro
que estivéssemos em boa companhia
na praia
e que as mãos dadas enchessem nossos olhos
que nos olhássemos cientes do mundo
(e nos olhamos)
que tomássemos mais um picolé
e desejássemos que houvesse um muro alto
de pedras largas
do outro lado do mundo
antigo o bastante para nos manter de pé

§

 

A curva infinita

estou, estivesse esta noite

pronta para receber a água, o sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo, tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do vento que entra pela janela, a planta que coloquei no canto e que deposita dentro do quarto perguntas sobre o frio que

a lâmpada incandescente não será capaz de responder.

as folhas secas e frias que me fazem sonhar com a água e tensionar músculos – maxilar, ombros, mãos, talvez pés em espasmos que não assisto e para os quais não haverá testemunha, só o silêncio no quarto seco, barulho no sonho úmido, fracasso, barulho da água caindo, fracasso, barulho dos dentes rangendo, dentro e fora do sonho, sempre sobre a matéria da cama, do lençol, do colchão frio, da curva do rio sob a chuva, da curva da planta, do canto do quarto, do arco do voo decidido de

um pássaro fêmea – a curva infinita

do ovo deitado à margem pelo pássaro que ainda dormia, aguardava no sonho algo que pudesse nascer de si, uma forma infinita e curva, o resultado do esperar para nascer de novo a partir da terra, do rio, dos seixos que úmidos no sonho do pássaro fêmea se jogassem ou pudessem ser jogados no ponto mais fundo do rio, um esboço de gesto infinito, impossível para o pássaro fêmea, produzido no instante de nascer ou de dar à luz, dar a vida, entregar à luz do mundo mesmo que seja noite e que chova, mesmo que eu tenha que fazer nascer e abrigar da chuva e chorar a morte dentro do rio ou sobre a cama de dentro do quarto onde terei dado um nome, qualquer um e toda a luz do mundo como se nenhuma luz a menos fosse suficiente. terei dado

a eletricidade de todas as lâmpadas acesas de todas as cidades de todas as hidrelétricas e suas comportas

o fôlego da água incansável move turbinas, cidades, peixes e sinos de igrejas submersas, onde nascer já não importa, onde não se batizam mais crianças e elas permanecem sem nome diante de deus, sem vida porque a vida de qualquer criança será insignificante dentro da igreja submersa das águas profundas de cima da cama onde o pássaro fêmea contorna o sonho e dá à luz um ovo que por dentro ainda está no breu e é possível sentir do interior da forma infinita e curva o risco de não conseguir

produzir a rachadura necessária

para brotar através da dureza de uma casca de ovo. amanhã outro risco – debaixo d’água, sobre a cama, para o pássaro fêmea peixe brotado da igreja das crianças sem nome – de dentro do sonho, um risco maior:

não conseguir dormir.

escrever é então dar palavras a sonhos, nomes a crianças pagãs batizadas em igrejas submersas, gênero a pássaros, dar nomes, tempo, número, dar palavras novamente, ser pássaro fêmea mulher peixe igreja ovo e dentro do ovo outra mulher.

homem é depois rachar, seguir, mover, passar. é verbo e o verbo pode então caminhar longas distâncias

sem se lembrar os nomes das coisas, sem entender os enigmas deixados em cada curva de rio, dentro de cada ovo e em cada seixo fracassado e submergido pela mulher, que ao final observa o homem que enfim se deita e deixa descansar.

§

 

passando rapidamente os fotogramas na tela meus olhos não têm tempo de absorver
as últimas férias o nascimento
………….do filho o tórax oscilando durante o sono

por mais que pense sobre os fotogramas que passam rápido pela tela
vejo apenas
uma criança um sorriso de papel
carros que já passaram
por ruas cujo dia já morreu
um lugar bombardeado

por mais que eu não
queira olhar e passe rapidamente
pelos fotogramas em minha tela como quem passa de carro
rápido porém reduzindo
para um acidente
com vítimas
fatais

Ou que eu não
queira ainda olhando
compreender as imagens que passam
reduzindo a velocidade e
voltando-se
discretamente
para olhar enquanto
preparam uma frase
de desprezo a ser cuspida
da janela sobre aqueles que têm
o mórbido hábito de reduzir
a velocidade ao passar
por corpos caídos:
a frase das ultimas férias a do nascimento do filho a frase proclamada pelo tórax em movimento a bomba no ar

Passando rapidamente os fotogramas não compõem um movimento.

Mesmo que passe rapidamente
sempre olharei de lado
o corpo derramado
sobre o asfalto e é perigoso
dirigir mesmo que eu faça isso todo dia por muito tempo
ainda é perigoso e eu
poderia mesmo morrer ao falar ao celular
ou passando o dia parada neste lugar
veja bem eu podia morrer e podia morrer
ao ver o quanto é normal simples e
corriqueiro que as coisas acabem
e que eu acabe sentada
no banco do motorista com uma ferragem
qualquer atravessada
no peito como uma lança
arremessada com precisão
e muita força
e mesmo que eu merecesse orações não adiantaria nada
nada veja que o asfalto será lavado
na próxima chuva

passando rapidamente os fotogramas
paralisam e paro
de olhar
paro os olhos como peixe
fresco, morto recente
ainda quente no asfalto
paro os fotogramas
à força em voz alta
antes de morrer no asfalto
antes de olhar como peixe
os fotogramas descendo na tela e que eles por favor não façam sentido
não tenham memória
não produzam movimento.

por mais que eu pense sobre
os fotogramas que passam rápido pela tela e veja
apenas: a criança um sorriso que não existe
um campo cujas minas explodiram
carros que já passaram por ruas cujo dia já morreu
um campo cujas minas não explodiram

por mais que não me lembre
dos fotogramas e que os fotogramas
sejam palavras e que as palavras sejam
hoje só uma profusão de
imagens produzidas
por minha cabeça a partir
dos sons emitidos por pessoas que falam
sobre nada nada sem parar
e as palavras de que não me lembro sejam só
uma nuvem densa de estupidez que passa
e passa e passa em branco
sobre a minha testa diante
de um cansaço profundo
não sei se das últimas noites mal
dormidas se das poucas horas
de sono ou se dos meses e meses e meses que insistem
na repetição como 24 fotogramas
que criam um único segundo
afinal o que importa o que importa mesmo será sempre
repetido até criar raízes e asas e levantar voo e segurar a terra e partir-se ao meio.

§

 

O caderno das inviabilidades

Minha vontade irremediável de listar palavras inviáveis.
…………..Inviáveis, sua barba ou cabelos.
O avião, incapaz de remediar minhas convicções inviáveis ou
………………………………………………………………o defeito no lobo da orelha.
Minha perversidade.
O que me ocorre embaixo do chuveiro.

A ereção inviável e o beijo.
Os homens inviáveis.
Os homens, de onde nada nasce.
…………….Onde não há menstruação
…………………………não cabe vida, as mãos injustas e protetoras dos homens.
Os filhos inviáveis dos homens cujo desejo me torna inviável.
Os pés grandes demais, os olhos dos homens que não sabem
……………………………………………………………..chorar, ou nem só falar,
………….os homens que não sabem.
………….Os homens e seus pelos inviáveis, suas mãos sujas,
……………………………………………………………………………………….seu tesão exposto.

O homem que me alimenta, inviável, o caderno de inviabilidades, a quem sorvo diariamente na cama da casa que eu fiz viável para o homem morar.
O homem cuja inviabilidade eu exponho debaixo do lençol a
…………………………………………………………………..cada dia, todos os dias,
na inviabilidade selada com o anel, o olhar pobre ora meu,
ora dele, diante ao mesmo tempo
do dever inviável e do

mero amor,

livre de mim, livre dele,
o amor insone sobre a cama feita ao lado da janela voltada para
……………………………………………o prédio vizinho à revelia de nós dois.

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6 poemas inéditos de Júlia de Carvalho Hansen

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Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) é poeta, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira. Estudou literatura na Universidade de São Paulo e na Universidade Nova de Lisboa. Os poemas abaixo são de seu novo livro, ainda sem título. Já apareceu aqui no escamandro com poemas e entrevista.

***

POSSO

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

*

 

 

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2 poemas inéditos de Valeska Torres

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Fotografia de Fernando Targino

Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, nas revistas Mulheres que Escrevem Mallamargens, finalista do Slam das Minas RJ 2017 e vai publicar um livro em 2018 pela editora Kza1. Já apareceu aqui no escamandro com outros 2 poemas.

***

(Insira uma frase de Eva Perón)

do bico do peito

os que mamam em grandes tetas

o pingo de leite
branco
sobre a hispano américa amedrontada

sobra-nos:
1. os farelos,
2. o chupar de dedos,
3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho.

aos que não tomam leite
– esses que infestam a cidade com cartazes de desaparecidos –
restam-lhe
o café preto amargo

trepamos sobre essa cama, mas não nos lambemos
tampouco
partilhamos nossas línguas
falta-nos salivas

a cerveja o matte dividimos no poema após um pancho entre Catarmaca y Sarmiento

da goela
o pollo descendo abaixo
até o engasgo
yo soy soy yo
a balsa que atraca no Rio Paraná
a faca que corta o pão massudo
dentro
salsicha temperada de salsa crioulla

§

 

Nós dois cantando Sidney Magal no karaokê da Feira de São Cristóvão
Para o Fernando

Estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo
– como se percebem os furos de tatuí na areia de Grumari –
o grão de purpurina no fim do carnaval,
são quatro por dois isso que inflama o meu peito.
Não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó,
mas ainda sonho em me bronzear sob o sol de Ramos
me banhar no piscinão
ao seu lado
com as mãos entrelaçadas as suas
bebendo itaipava.

Sou mulher de gostos caros, digo a você enquanto
rasga meu sutiã
gasto
por amaciantes.

Picho na murada do prédio
seu nome ❤ o meu
para que você saiba o quão merda eu sou
quando apaixonada.

Meus pais me apontam dedos disseram para não me perder demais
¡perigo águas profundas, correnteza e redemoinho!
É tarde,
depois de meia noite
nossos horários são verões.
É tarde e estou fudida
porque a foda tem o gosto do meu homem
e disso
os meus lábios não cansam.

*

 

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5 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985—)

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Nasceu no Rio de Janeiro a 1985; vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os livros synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados, todos pela 7Letras.

* * *

Disciplina da extinção

Devem já ser desoras no mundo

Com os mesmos passos
cuidados com que costumávamos
deixar agosto
faz-se agora o torno do ano
inteiro, impensável

Neste poema ao menos
vencem
as tropas inimigas

Uma aragem má
destelha nossos galpões,
corre toda a alegria

Da linguagem
para os muros da cidade

No apagado arrabalde
(no apagado arrebol)
catar
palavras para dizê-lo

§

Enrique Lihn em Manhattan, II

O móbil do crime talvez seja a clareza
O que nos faz enxergar impérios no pó da mariposa
Capinar aporias
Comprimir
Os poemas até
A desumana exposição
Das linhas de força
De uma qualquer situação
Em tela
Citareiros jogados pelos corredores do metrô
Servos do sopro, de nada
Proliferando
Ascese de escadas rolantes
Que rompem claraboias cinzentas
Vamos, vamos
Irradiar mais uma metrópole
Perder os sinais na chuva negra
À mulher sentada a meu lado
Conto que acabo de ser expulso da República
Ela tem o bom gosto de me ignorar
Ela efabula
Faxinas que lhe roubaram a manhã
As varizes, o preço do extrato de tomate
Os tapumes crivados de balas
A esperança, ela diz, por pouco
Não dá cabo de si própria
E do marido também idoso
Noite passada
Esqueceu aberta uma das bocas do fogão
Depois da janta
Pegou no sono
Embalada pelo perfeito rolamento do veículo

§

Disciplina da extinção, II

Já neste poema
Circunstanciou-se que nós
Vencemos a guerra

Contudo
O problema da narrativa
Continua
A fazer-nos frente

Neste silêncio, cesura
Procuramos
Palavra de elevação
As palavras sonantes
Palavra de uma inocência
Emudecedora

Tomamos de sua fome
Para escrever saciedade

Para escrever sáfaro

Para escrever
O sol presidia vermelho sobre os campos
(Ao desincumbir-se
Era vermelho também)

§

Comparecimento diante do Provador

Descenso com pernas.
Não “ocaso”.
Não “crepuscular”, o verbo, não
Chamemos
Astro vestigial.
Não o tornar-se vestigial.
Não entre panejamentos.
Não o ter uma imagem
Tão demorada
Em nos atingir.
Não a tarde devagar
Desfibrada.
Descenso com pernas, com peso
De pernas.
Descenso
De cepas roliças
Comprimindo
Coxas
Que florem
Em pé
Inculto com
Sem caminho
Com
Solidão de jaula
Com
Fumos de centro
Com ócios
De preferido

Descenso

Descenso

Descenso

§

As andanças a que venho me referindo dão-se no mais dos casos em prejuízo dos pés.
Que poderá sobreviver à descoberta profunda, para além dos tipos, à redescoberta de que as estrelas não são senão os mortos,
senão revérberos?
Digressiona-se.
Tentei estabelecer as balizas mágicas desta excursão.
No Planetário, veem-se uns aos outros, não veem nada.
Que testemunham, afinal, os espelhos dos banheiros do Planetário?
Que eficácia?
Tentei dizer “baldio”, um substantivo.
Tentei dizer “engodados”, “engodados pela luz”.
Este Planetário é antigo. Bem como as crianças lá levadas em excursão.
Este Planetário é também o meu passado.
Estas crianças que entram, saem, dão a informação altiva e irracional.
Tentei dizer “baldio”, tento.
Esvaziar a ostra, ouvir atentamente ao ditado.
De seguida, a redação.
As crianças regressam de minhas notas com um Planetário, deixam-no aos meus pés.
Digo-lhes, os globos são caros.
Os ossários são caros.
Os revérberos, o passado… Tarde demais.
Entraram já para as notas.

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Israel Azevedo

ISRAEL AZEVEDO_REVISTA ESCAMANDRO

Israel Azevedo nasceu em São Paulo (SP), cidade onde vive. Integra as antologias: Qasaêd Ila Falastin – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012) e Poetas Jovens no Papel Rascunho (Lumme Editor, 2006). Ainda na internet, seus poemas também podem ser lidos nas revistas Germina – Revista de Literatura e Arte, Diversos Afins, Mallarmargens e Zunái.

***

ESBOÇO PARA FRANZ KLINE

fortuita moldura ampara a pintura
onde uma face afilada adorna a figura
de dois olhos tristes
de estreita abertura.

 §

REYKJAVÍK

Agora a vemos bem
Realçada pela névoa
Penumbra tranqüila e cálida
Onde olhos cor de anis brilham
Vêem como o céu é belo
Vêem como estrelas não tardam
Vêem como há sentido em perder-se
De dentro para fora do coração.

§

GAROTA HÚNGARA

Dentro dela
o deleite por perder-se
sobre desigual e branco
território de lençóis,
divagando, pensamentos
soltos.

*

 

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Adão Ventura (1946—2004)

Adão Ventura (1946, Santo Antonio do Iambém, MG) foi criado primeiramente pobre, no mato do então distrito do Serro; depois mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em Direito pela UFMG. Trabalhou no Suplemento Literário de Minas e teve vários empregos nos anos subsequentes, até se mudar para Brasília, onde presidiu a Fundação Palmares, dedicada à cultura negra. Publicou 5 livros de poesia: ‘Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul’, 1970; As musculaturas do arco triunfo (1976); A cor da pele (1980), Jequitinhonha – poemas do vale (1980); Texturaafro (1992); Litanias de cão (2002); e um livro infantil Pó-de-mico macaco de circo (1985). pelos quais recebeu vários prêmios. Adão Ventura morreu de câncer, em 2004. Como bem disse Ricardo Domeneck, na Modo de Usar & Co.”Outro ótimo poeta ainda pouco conhecido, certamente por motivos que retratou em sua poesia, mas na sintonia de nossa sincronia.”

Os poemas abaixo foram retirados da antologia póstuma, “Costura de Nuvens” (Edições Dubolsinho, 2006), organizada por Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes, feita a partir do título que o próprio Ventura havia dado para a edição de sua poesia completa, incluindo inéditos. Escolhi alguns poemas fortíssimos que não constam nas já ótimas antologias apresentadas por Domeneck aqui, por Antônio Miranda aqui, por Elfi  Kürten Fenske aqui e por Leonardo Morais aqui. Trata-se, então, de uma antologia por ampliação do que já estava disponível. Creio que com essas cinco reuniões online, teremos um panorama importante desse poeta que merece, sem dúvida, mais leituras.

* * *

Breves elementos para a instituição do poema

Inaugure no corpo
a seiva dos sonhos
forjados no mito.

Instaure no sangue
a força da fala
gerada no termo.

Imprima na pele
o silêncio da pose
haurida na forma.

Inscreva nos gestos
a forma do rito
usual do anônimo.

§

Recusa

— Recusei-me a receber as
divisas do madeiro da cruz,
porque meu nome já estava
escrito nos papiros falsos.
Minhas vestimentas
sobrecarregavam punhais e
outros sinais de desespero.

§

Diário de Teodoro

— Foi quando senti dividirem meu corpo
em suásticas,
lâminas cortavam minha pele.
O sol desintegrava meus pés ante o pó
das estradas.

A fúria das palavras fazia
cegar os homens.
— seus chicotes classificavam
as carnes para o sacrifício.

Aí as palavras iam tendo vértebras nos
seus lençóis próprios, gerando gerais
comarcas de papéis que forçavam os
reis a reinarem nos seus séquitos de
súbitas samambaias.

A metade das montanhas apinhadas de
selos e brenhas
capitulava os voos dos pássaros
em suas moradas de origem.

Porque, na verdade, eu não possuía
mais a minha carta de alforria e todos
os mapas de identificação estavam
limitados às circunscrições de minha
pele.

Tudo era começo
de um longo deserto
onde flores coloridas
anunciavam fluidos de um amargo sal.

§

Nesta mão

Nesta mão eu te trago a
estrada suja de suor,
nela escrevi meu nome, dela
reconheci firma,
muitos anos se passaram até eu
chegar aqui,
com este testamento
todo timbrado em armaduras e
distâncias.

Indico apenas as correntes que
possuo no nó do sangue,
herança corrosiva de comarcas
de muitas eras.
— O meu mundo é limitado por
selos, números e ossos.

§

Identidade

Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minhas
Sebastiana de Tal

vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça

vem cantar cantiga
de ninar
para mim.

§

Dar nome aos bois

Ai de ti, ó terra, quando teu rei
é criança e quando teus príncipes

se banqueteiam ao amanhecer.
Eclesiastes

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
— de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

— Isolando-os da ralé dos bois de
corte.

§

Da palavra em seu habitat

Lavre-se a palavra
em fluvial lagoa
pura de escamas,
fuligem & circunstância.

Louve-se a palavra
na lúdica atadura
de um nítido invólucro
ainda que insepulto.

Livre-se a palavra
da inaugural magia,
iluminando-a num ato
puro de si mesma.

Lustre-se a palavra
ao seu exato cerne
— esmeril e águas claras
de recolhidos despojos.

 

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Carla Diacov: A Menstruação de Valter Hugo Mãe | 2 + 1

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Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975). Livra-se em fazer a loca (livro digital, Edições Ellenismos, 2014), Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, Portugal, 2015), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro digital, Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), Dois Pontos Pescoço X Sobreviventes (no prelo pela Editora Urutau). Já apareceu aqui no escamandro com 4 poemas inéditos.

***

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2 poemas +1 desenho
A Menstruação de Valter Hugo Mãe
Escrito (e ilustrado) a convite de Valter Hugo Mãe
No projecto não comercial, Casa Mãe, 2017

havia somente uma cadeira para o casal
na cadeira se sentava a esposa ovulada
e se sentava a esposa menstruada
o homem na cadeira se sentava ereto havia
somente esta convenção entre o casal
que a cadeira fosse o rito regulador
da sujidade espécie de objeto de contaminação
das coisas mulher nas coisas homem
depois se deitavam na tão somente cama para um
nunca aconteceu a gravidez e a esposa morreu sentada
na cadeira o marido se casou de novo mas
a nova esposa trouxe junto outra cadeira e
nunca aconteceu a gravidez pensou
o marido primeiro
não usamos a mesma cadeira
o marido morreu na primeira cadeira
e a segunda esposa ficou com a casa
com a somente cama e se desfez da primeira
cadeira
um pescador comprou a cadeira por três
sardinhas magras e se sentava na cadeira
diante do mundo e exatamente do mundo se soube
cercado da áurea primeira
uma cadeira onde a primeira
e a contaminação
o pescador estava a gerar outra cadeira
a terceira
uma
filha daquela convenção primeira

§

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.para Isaura.

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
especialistas dizem
a vênus de willendorf
era usada em ritos de fertilidade
pequena usável
era usada como amuleto era
usada como objeto de limpeza abjeto
introduzido na
capacidade das vênus ordinárias era
usada como peso de segurar porta aberta
era usada para mexer alimentos ritualísticos
era usada na fervura dos alimentos mais ordinários
usada na terra era plantada antes dos alimentos
usada bolota aromatizadora pingava-se
óleo de casca de árvore ordinária na capacidade
da vênus de  willendorf
que ficava ali ao uso do recinto
a vênus de willendorf era usada
dizem os especialistas
usada como socador de ervas
usada como amplificadora da pequenez
das outras vênus
todas ordinárias
usada para amaciar
carnes relações couros discussões
pois basta olhar para a vênus de willendorf
notável pequena usável
hojendia os especialistas usam
a vênus de willendorf
em suas especialidades
a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada

*

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