poesia

Pedro Tostes: 2 poemas e 1 movimento de 4 haicais

sem título (4 de 4)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como “o mínimo” (2003), “Descaminhar” (2008), “Jardim Minado” (2014) e esta mais recente contravenção. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa “Poesia Maloqueirista”, entre outros crimes, editou a infame revista “Não Funciona”, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Já foi visto aqui na escamandro, mas ninguém sabe seu paradeiro. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

*

A ARTE DA GUERRA SEGUNDO OVÍDIO

Amar é briga de foice –
açoite que o peito clama
enquanto a bomba ainda pulsa;

trincheira cavada no corpo
por onde percorrem os cheiros
de cuspe, de sangue, de gozo;

napalm inflamando sentidos,
o toque suave na pele
que explode o fogo do ser;

espada que fere sem fio
e encrava no meio de si
todo aço que vem no osso;

exército de terracota
enfrentando a força da chuva
pra semear as flores;

é conquistar o território
apenas pra se entregar ao
inimigo – bandeira branca,
eu quero mais é te querer

§

 

CANÇÃO DA GUERRA

Sei que de certo está
na fúria dos dentes
a arte de amar

tão bela quanto
assaltantes de banco
recitando Rimbaud.

As janelas que
nos olham não
vertem lágrimas

enquanto o néctar
dos inocentes
derrama nas noites

Das coisas que
não estão em
nossas telas,

sendo elas o abismo
encravado em
teus olhos

ou o riso das flores
na lapela do
findo transeunte.

Pois entre estrelas
que cantam pra
musa distante

eu, planeta, vagueio
orbito a pele elástica
da ampulheta.

E é tanta treta,
punheta intelecta
furtando o senso

sem sangue nem medo
nem peso nem nada
– encarando essa parada

dura e aguda como
a força da letra &
a briga de foice

testemunho na vista:
é depois do chorume
que soergue a vida.

§

 

VARANDA

1 – TREPADEIRA

Num sol de 40
escala aquilo que abala
feito o tempo tenta

2 – COLEÓPTERO

Lento pousa o tanque
no vaso seco no raso
– forte, belo e estanque.

3 – MANDACARU

A torre do cacto
com frio não perde seu fio:
permanece impacto.

4 – ESPADA DE SÃO JORGE

Vem rasgando a terra
na chuva o broto que luta,
armeiro de guerra

*

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1ns inéditos de Luís Gomes

luisgomes

Luís Gomes é poeta alagoano. Nasceu em maceió, no ano 2000, escreve desde os 15. Já apareceu na escamandro com outros poemas; escreve no: azuldesolado.wordpress.com

*

p/ Ismar Tirelli Neto

i

um escasso sorriso.
amargo fumo
hoje um pouco mais perdi
o mundo.
não tenho fogo
atropelei as pedras, perdi
as horas.
diminui-se o hábito do amanhecer
(houvera alguém que me visitasse,
curvaria a cabeça e engoliria palavra de consolo)
deus me perdoe
mas é impossível neste momento
amar o próximo

ii

eternidade nenhuma. foram-se
as obviedades, as conclusões empíricas
os versículos. antigas bíblias, instantes
de santos.
impossível pedir fogo nas ruas.
estou escuro.
estou no quarto entre diálogos e tempos.
estou silencioso e sequer tenho vontade
de chorar

§

p/ roy david frankel

i

do quarto

um faquir guarda silêncio
como posso me referir?

do quarto
um faquir guarda silêncio
e o estado reelegerá um calheiros novamente

com a ordem do dia entre os dentes
muros altos,
tradições nos domingos culturais
como posso me referir
a maceió?
a alagoas?

para morte, e
ainda que exite dizer seus nomes:
pátria
bairro, estado, país
digo:
todos morrem
sem saber

jorge de lima
marcos francisco

os mortos que picharam palavras maoistas no muro
à beira pista

seja em bairros, pátrias, estado, país

ii

promessa que nos legou progresso e caminhos
inalcançáveis,
pés rotos de poeira
mortes por fome,
mãos caliçadas entre as canas-de-açúcar
maceió que tapa o alagadiço

as calçadas, as esquinas,
a morte
engole-nos
fosse meu último dia no mundo eu picharia
minha mãe é maior que o maoismo

até quanto tempo mais se juntará a mais e mais outros corpos,
estes corpos?
e até quanto
tempo mais se fixará à nossa memória estes já
corpos?
do quarto um faquir guarda silêncio

nomes velhos nas praças
desfiles de nomes, rostos comuns
nas praças

do quarto eu moço triste silencio

iii

formulam-se frases, cumprimentos.
decoram-se nomes, poemas, santos
ainda não canonizados. muito distante,
na volta, rastejando-se
solitário
farta-se
de guerras e gerações, notas
merencórias de infância
farta-se sobretudo

§

p/ carla diacov

i

cortar o vento com os
cacos de vidro que as menininhas cortam os pulsos
colorir a água com papel machê
o mundo não é um livro de colorir mas se fosse
com que cor você pintaria
as sarjetas e os mercados e as praças sonolentas
com que cor

(mais fácil seria lançar pro alto e queimar os olhos
contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

ii

olharia os pulsos
a silhueta das veias
os objetos em queda
o passado e o passado
bastaria  para ver todo o sangue bastaria
rio abaixo
o torpor do sangue
a língua a morte como
desejo mastigando [os lábios]
seria estrela seria
lembrança a ser esquecida
vaidade a escorrer ralo abaixo
destino a modo líquido
com o sangue olharia os pulsos
e qualquer gesto me diria vida

iii

um corpo-fábrica reproduzido desde
a tintura da omoplata à silhueta da garganta
em seu modo líquido
(contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

§

i

esfumaça-se
no céu nublado, o pensamento
entre os olhos
taciturnos, abaixando-se ao
modo de bichos caçados.

gastando horas, frases mágicas, caranguejos de aço
diluindo-se nos meio-termos
do medo
(dos poros dilatados do medo)

ii

ainda agora
memória
diluindo-se pelas
coisas
pelas mãos
pelas mães mortas
por povos inteiros
agora e somente
agora

iii

o primeiro amor morreu

primeiro amor, você morreu
ainda tão bonito…

iv

a insônia
não muda noite em
dia

sobe aos olhos, vidra-se
em agora

a insônia
só muda os lençóis

v

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se da inteligência, dos
presentes de natal,
de não fumar,
de fumar pouco, de estar parando de
fumar.

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se dos domingos mornos
dos filhos bem formados, das viagens
aos finais de ano.

com os números, estimo
somente a quantidade de
confeitos no jarro

e basta.

§

faz falta um guerrilheiro

pais e filhos que rezam ave-maria em oratórios
e dividem
espaço com discussões
políticas.
padres
hóstias
coronéis
eventualmente uma morte (a mando)
eventualmente um sorriso generoso,
eventualmente um crisma e festejos.
tantas vezes e pra quê
filas de supermercado
cortinas vermelhas
histórias iguais e óculos escuros
moro num país
moro numa cidade de
praças escuras.

 

***

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crítica, xanto

XANTO | Rodrigo Tadeu Gonçalves e a transfiguração do espasmo em ironia, por Sergio Maciel

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Todas as fotos deste post foram feitas pelo fotógrafo Rafael Dabul e ilustram o livro Quando o verão, de Rodrigo Tadeu Gonçalves (Kotter/Patuá, 2018).

[…]
Tudo chega de um mundo antiquíssimo
Onde encontraremos pedaços desajustados de fotografias:
Recortes de pensamentos visuais
E um amor que não quer colaborar com a morte
– Vasto pássaro bicando as montanhas lavadas.

“Natureza”, de Murilo Mendes

 

Há uma miríade de sentimentos que podemos nutrir diante de situações traumáticas, e a psicologia vai dar conta disso, o que me interessa aqui, particularmente, é o modo como poeticamente utilizamos a ironia como ferramenta, como meio de transporte durante situações que se nos apresentam como desagradáveis. Tomemos como primeiro exemplo o livro de Adelaide Ivánova. Como eu disse em outra oportunidade (clique aqui), em “O Martelo temos uma narrativa, ou a tentativa de construção de uma narrativa, sobre uma situação de catástrofe. Freudianamente, dá pra dizer que se trata de uma narrativa que busca desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou. Precisamente por isso, a linguagem – que todos sabemos insuficiente – se ergue sobre a ambiguidade (ou dificuldade de definição) do gênero. Cria-se uma poética sobre uma narrativa que pretende, quase jornalisticamente, retratar um acontecimento, ao passo que essa poética constantemente parece sucumbir à apresentação dos fatos – movimento, aliás, que tensiona a mesma busca pela apresentação e aceitação dos fatos na instância jurídica do crime –, como na descrição física, no relato preciso do golpe de um martelo no primeiro poema ou na notícia que é o poema para laura. Há uma tensão constante, como é costume entre poéticas que se queiram políticas, entre aquilo que se pretende poético e aquilo que se pretende factual, quase jornalístico, mas que aqui, me parece, reflete quase que um embate entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, ou seja, o adiamento da satisfação – que ocorrerá na segunda parte do livro – através da tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”.

Bem, aquilo que eu quis dizer, mas não disse é que essas apresentações dos fatos, em Ivánova, se dão por meio de uma descrição didática de determinados eventos que se revela, no final, extremamente irônica. Lá – pintemos aqui todo o quadro que a poeta busca retratar: a violência e o silenciamento, sobretudo intelectual, que a acomete a mulher em nossa sociedade –, a ironia é moldada através do uso desse didatismo – quando não se tem outras armas que não as palavras – contra os atos, gestos construídos propositalmente para desestabilizar, para ferir. Descrever, de modo quase científico, o acontecimento físico-mecânico de um golpe de martelo é um modo irônico de se opor à violência; como se a violência velada da ironia no discurso quisesse anular a violência contra o corpo. Citando Ida Lucia Machado (clique aqui),

Por que algumas pessoas ironizam ao narrar suas vidas? Podemos arriscar algumas respostas: ironizam para tornar os acontecimentos passados mais aceitáveis, para “fazer de conta” que eles não machucaram muito o narrador que conseguiu construir uma vida, apesar de todos os obstáculos; ironizam para imaginar que essa vida é algo único e especial; mesmo se depois concluírem que todos os destinos, todas as vidas são especiais e únicas e todas podem ser objetos de narrativas.

Bem, no fundo é isso: a ironia pode servir como ferramenta para a criação de uma narrativa na qual sejamos capazes de transgredir o convencional-banal da vida, o discurso passado traumático, o medo do futuro, os dogmas, os discursos totalitários, a amargura, entre outras coisas. A ironia é uma via de trânsito possível, um escoamento clínico através do qual o sujeito pode se recompor, organizando seu tempo de vida (eu-passado, eu-presente, eu-porvir, eu-em-trânsito), e dar coerência a seu desejo em meio a um mundo completamente incoerente.

No livro de estreia de Rodrigo Tadeu GonçalvesQuando o verão (Kotter-Patuá, 2018), no entanto, ao contrário do livro de Adelaide, em que a ironia tensiona a digestão de um crime, não há um evento em específico que justifique, que deixe às claras esse recurso da ironia. Trata-se, portanto, de um modo, demasiado humano, de lidar com o medo, com a aflição, a angústia, a vivência, afinal, da morte; da transfiguração do espasmo da existência em ironia. Negar a existência dos deuses, do pós-vida, de qualquer espécie de redenção e acreditar na finitude do ser aqui mesmo na Terra não nos exime de temer constantemente esse inacabado que é viver. E, bem, é meio isso que acontece aqui no livro de Rodrigo, que se divide, basicamente, em quatro partes: i) a abertura com o longo poema que dá título ao livro; o capítulo CORPORA BARBARA, que se subdivide entre ii) corpora e iii) barbara; iv) o capítulo final psicotrópicas. A tudo isso intercalam-se fotografias de Rafael Dabul, que, pra dizer com Murilo Mendes ali em cima, parecem ‘recortes de pensamentos visuais’.

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O poema de abertura Quando o verão voltar instaura logo de início a relação que o eu-lírico estabelecerá com um tempo que se apresenta sempre externo a ele, i.e., com a expectativa, com a ânsia do futuro. É a partir dessa tensão, portanto, entre o tempo futuro, ansiado, e o eu-lírico, que aparece “desejando a finitude” (p. 21), que se instalará a ironia como método de suporte da vida. Trata-se, como no caso das instâncias performativas da linguagem de que trata Shoshana Felman, de uma espécie de promessa irônica que busca performar a cada verso essa própria finitude que se teme. No fundo, o eu-lírico não deseja presenciar o retorno do verão, senão desfazer-se de toda espécie de corpo, de linguagem – que ele tentará desfiar nos dois capítulos seguintes. Não por acaso, os dois primeiros poemas do capítulo seguinte tratam do corpo e da linguagem.

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É em corpora que aquela espécie de ironia didática, que comentei acima em relação à poética de Adelaide Ivánova, começa a exibir seus contornos – aliás, a relação entre essas duas poéticas fica extremamente clara no poema “O cavalo e o martelo” (p. 49), que é dedicado à própria Adelaide. O procedimento irônico aqui em Rodrigo parece muito semelhante àquele operado por Ivánova; trata-se do distanciamento do sujeito em relação ao assunto que discorre. O tom com que nos é apresentado o corpo, “sistema complexo composto por milhares de nomes”, repousa entre o pedante-informativo e o jocoso-irônico. É justamente nesse embate entre um registro que parece almejar ao enciclopédico ao mesmo tempo que descamba para o extremo banal que o corpo e toda sua vulnerabilidade vai se desmontando em pequenos pedaços de ironia até que o ser, desprovido de pele, pareça estar imune aos apelos da dor, do sofrimento e, principalmente, da morte. O corpo vai se transformando em subpartes incapazes de serem recompostas ou reordenadas em um único eu. O corpo do primeiro poema, que se incrusta no capítulo corpora, não é mais corpo, é antes língua, unha, “deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico/ do qual parece ser partícipe”. Ou seja, essa espécie de ‘desmonte’ das funções do corpo serve para escavar de suas cavidades tudo aquilo que seja humano, tudo aquilo passível de perecimento, tornando-o meio invólucro, mero meio.

Bem, se o corpo é invólucro, resta-nos então saber que coisa ele está guardando? O espírito, talvez? Possibilidade que parece ser logo descartada pelo descaso que o poema “Espírito” (p.51) revela:

ESPÍRITO

o espírito é o sopro que te leva passear
de noite, quando a insônia vai dormir cansada
o que explica mesmo com abluções recomendadas
o bafo matinal

O sopro que é o espírito aqui se equipara e equivale ao fétido e corriqueiro bafo matinal. Não é exatamente este o trato esperado com algo tão metafisicamente relevante. A linguagem, então, talvez? Vejamos o poema a seguir:

TEORIA DA LINGUAGEM

tenho a sensação
que é a imagem que impressiona.
mas a minha obsessão
não é foto,……é pathos.
o pathos que assola em reverberação associativa
por sequências de pequenas insonâncias
……..aleatórias ou não
que ritmam.

ouça este poema:
ele parte da constatação
que não foi defendida pela primeira vez por humboldt
nem por locke
nem mesmo por górgias o sofista
de que a palavra é mestre titereiro
titerando espíritos em afetos
mexendo em convulsão com seus amores;
seus sim, não dele ou dela.

apaixonando com palavra, entonação,
sotaque ou timbre,
que é muito mais paixão que peito ou olho,
que faz você escutar poema, texto,
memória de palavra ou invenção,
com a voz de quem quiser, ou corpo.

Fica claro que o trato dado aqui à linguagem, sobretudo às suas capacidades operativas no mundo, ultrapassam a faculdades do corpo. Não se trata do corpo, do espírito e nem da habilidade cognitiva linguística dos humanos. Importa a convulsão do corpo causada pelos estalos significantes da língua, pela ironia. Vejamos bem como pode funcionar esse recurso da ironia. Tomemos como exemplo o poema “Sêmen” (p.61):

SÊMEN

semente cremosa, espumosa, esbranquiçada e opalina;
em casos de abstinência sexual, amarelada
(pela morte e necrose de células haploides mais antigas)

depois de 10 a 30 minutos no ambiente
torna-se extremamente fluida
(curiosamente exposta ao ar em baixas latitudes,
a parte mais líquida evapora e fica menos fluida e mais pegajosa)
o sabor é acentuado (geralmente adstringente)
e um pouco salgado com variações relacionadas
com a alimentação de cada indivíduo

homologia une o um e o múltiplo

a ejaculação de um homem sadio varia entre 3,5 e 5 ml

Que porra, com o perdão do trocadilho, o poema acima parece introduzir de novo no mundo? Parece se tratar simplesmente da disposição em versos de uma explicação friamente científica a respeito da composição e do funcionamento biológico do sêmen, com exceção do penúltimo verso, que se pretende poético.  Isto é, semelhante à descrição do golpe do martelo citado acima no livro de Adelaide, o esmiuçamento do sêmen parece não servir a outro propósito que não o de desumanizar progressivamente qualquer resquício do corpo. É o único modo que o eu-lírico encontra de atravessar seu caminho em direção ao fim. Soma-se a esse desmembramento e consequente desumanização do corpo em corpora, a inconstância da linguagem em barbara. Gesto que parece colocar quem fala numa posição externa, indolor, capaz de assistir ao lentos avanços da morte.

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É no último capítulo, Psicotrópicas, que o tema da morte corrompe todo o dizer. É somente no final, portanto, que o eu-lírico parece contemplar o fato de que “a morte é natural/ a vida acaba” (p.122). No entanto, após o intenso processo de dessensibilização provocado pela ironia com que tratou o corpo e o próprio discurso, aliado a um forte tom epicurista adquirido a partir do contato com a poética do poeta romano Lucrécio, o eu-lírico parece ir se dissolvendo no tom grave dos poemas como se buscasse evitar que aquele verão, anunciado no primeiro poema, retornasse e, assim, ele tivesse que enfrentar toda essa travessia outra vez. É nos “destroços da linguagem claustro” (p.150), “enquanto a natureza orquestra sua cura/ e a noite apaga o quente da sua têmpora”, que se busca refúgio. Agora, e somente agora, após despir-se de toda a fantasia da morte, que o poeta permite acabar-se assim:

sentir pena de si mesmo
só por ser mortal
ter medo da claustrofobia no caixão
imaginar a dor dos outros no velório
como se você tivesse ali do lado
mão no peito do cadáver
recebendo condolências

o que te dói mesmo mesmo é
ver que isso é besteira
saber que morte é
necessariamente o fim
dessa funérea fantasia

Rodrigo, enfim, através da ironia busca lidar com os apelos incessantes da morte. Insere-se numa longa tradição de gente que, querendo assumir ou não, precisar lidar com esse fim inerente a todo ser. A poesia, ou a arte, afinal, é “um amor que não quer colaborar com a morte”, pra dizer com Murilo; e, pra dizer com João, “o amor comeu meu medo da morte”. O amor nos salva, assim como a poesia.

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Guilherme Rocha Braga de Araujo (1988-)

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Guilherme Rocha Braga de Araujo (Botucatu — São Paulo, 1988) é poeta, bacharel em Tradução e licenciado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Publicou pela editora Chiado os seguintes livros de poesia: No Olho do Furacão (2015), Ordinária (2016), O Livro de Lázaro (2016), O Caminho de Volta (2017) e Aqui (2017). Tem também mais duas obras na gaveta, Caderno Comum e Notas Para Rasgar Pedras, maturando para publicação.

* * *

 

PESADELO COM A INOCÊNCIA DAS MÃOS

as mãos, surdas às trombetas do fim,
lavam a louça sob os estalos de tiros.
não há sinais de melhora e, entretanto,
laboriosas, prosseguem as mãos.

compram e vendem o pão,
quebram os ovos, entregam o jornal,
tiram e embalam o leite.

é bem possível acordar de madrugada
surpreendentemente vivo
num continente pouco a pouco devastado
enquanto os mortos são jogados no mar.

§

 

TREM FANTASMA

o presente, vala clandestina
cheia de cadáveres palpáveis,
de cheiros inconvenientes
e total falta de humor,

o presente, que não deve ser tocado
sob pena de terríveis aflições
nem passa de um delírio atroz
com uma ligeira construção de carne,

o presente, que cada dia insiste
em derramar-se num abrir de olhos,
perpetuar-se após o próprio fim,
comer e incorporar todos os filhos,

o presente, que quando a noite acaba,
detestando o despontar do sol,
acorrenta-o, feito um grão de areia,
à fenomenologia da carência,

o presente, vulto de tantas patas,
teia grávida de tantos rostos, funesta
malha estendida entre toda superfície
ao longo de cada exíguo espaço,

o presente, que é a persistência
do passado, a recusa do futuro,
a depressão, o punhal teleguiado,
a verdade adaptada ao clima,

o presente, perigo real
mas o realismo é uma miragem,
olhos para diante, essa gente sabe ler
e não boia morta nesse rio,

o presente, carcaça pérfida
carregada de vísceras vazias,
de sapatos de crianças mudas
e seios murchos de mulher.

§

 

ASAS PRETAS

todo santo dia
sou condenado
a comer fígado:
sentir o gosto
da mesma víscera,
ouvir os gemidos
da mesma boca.

sou o maestro
de uma canção
atávica pairando
religiosamente
ignoto num espaço
que não obstante
é obra minha.

entretanto levo eu
crédito algum?
não, o concerto
é de Prometeu,
o abutre é apenas
um elemento
desencadeador.

nunca hei de tirar
de donzela alguma
um único suspiro
de consternação
por minhas penas:
deixo isso a esse
oboé de carne.

deixo isso a essa
tuba de sangue.
compareço sempre
ao mesmo horário
na mesma pedra.
considero isso
a minha função.

Padrão
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Anelise Freitas

ane

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Os poemas abaixo são de Sozé, seu quarto livro e o quarto número da coleção Casa de Barro das Edições Macondo.

*

recuperação do território ancestral

para Deborah Damasceno

a terra da gente uma bandeira levantada entre o azul da cor
quente entre o verde da natureza que te habita e o vermelho do sangue
que ora pinga entre as pernas enquanto bebe
o mesmo radical para selvagem e inimigo
a língua é o som da terra a terra
bem e mal contemplando o mesmo corpo
o universo cosmogônico do teu povo
e a tua forma de habitar
meu corpo baixo o teu corpo
e tua cintura desenhando o círculo
naquela posição eu conhecia
vênus em câncer um infinito ao
redescobrir o seio sob o laranja
a tua parte alaranjada que a língua fala
o corredor nos arrasta
a janela aberta
não há exploração
mas há dominação
a terra mexida na fricção avança
a tua boca miúda

§

as meninas

 para Thalita Portela e Juliana Giese

 faziam uma arma
com a mão
e apontavam para a têmpora
(mas sem disparar)

enquanto riam
as mãos descuidavam
as bocas tocavam
(mas sem disparar)

os dedos em forma
mas sem disparar

§

sunset memorial park

o barulho do teu corpo, ava gardner
a cada golpe ou distração da tua roupa o barulho que ela faz ao
toque dos braços no tecido grosso

editar esse rascunho doloroso
dos dias que passo com a tua voz
na minha cabeça e os
ouvidos interpelando algum sinal

quanto tempo ainda falta eu
me pergunto como o teu pé
levanta a essa altura e as
mãos fazem esse movimento

a negação é só mais uma fase
como quando nos olhamos
passou teu corpo naqueles segundos
como uma casa sem portas
ou um osso quebrado antes do mundial

§

o estudo do ritual em berlim

de Lisboa a Berlim
ainda não entendi por que saio
a casa para escrever
a casa é já bem velha

a imagem da fumaça entre a boca das meninas
como um subterfúgio
um interregno

Berlim com você
em uma tarde de verão
mostrando suas pernas
e os desenhos feitos a agulha

as filhas de Júpiter e Urano
organizando-se como a tempestade oval
com o mesmo diâmetro da Terra
estamos falando do maior planeta do sistema solar
composto de hidrogênio e hélio, Annie Hall

por que ainda falar do barulho
do som ensurdecedor de algum ponta de lança
a buzina, o paradoxo, a metanfetamina
por que ainda falar do barulho
que a língua faz com ela
e na busca pelo oriente ela
não sabe a forma que a especiaria dá

*

1

capa_sozé

sobre sozé
[numa postagem do facebook]

Hoje encontrei este caderno. Eu tinha 12 anos quando Maria Rosa nos pediu um caderno pautado porque teríamos aulas pra escrever poesia. Foi ela e a Tanuse Fonseca, professoras de português da cidade do interior, que me fizeram querer ser também professora e escritora; não foi nenhum professor de universidade, nenhum poeta importante.

Hoje, na casa onde nasci e me criei, na casa onde velamos o corpo morto de meu pai, na casa onde minha mãe me deu as primeiras lições de feminismo, eu percebi que tudo que sou veio de casa, da casa da roça e do interior. Não me deslumbro com a cena cosmopolita de poesia contemporânea porque foi a cena do interior que me formou: as manhãs de aulas com mulheres incríveis, as noites de vinho na pracinha, os poemas lidos na casa da Rosi de Alcantara. Não me deslumbro porque sei que a cena e eu temos concepções distintas do que é

a poesia. Obrigada mulheres que me antecederam, pra vocês eu dedico esse “Sozé”, que nasce desse corpo do interior, desse corpo que escreve desde os 12 anos, desse corpo orgânico que pensa.

[Sozé será lançado na Casa do Desejo – Literatura que desejamos na Flip 2018, às 11h00 no sábado, 28/07.]

***

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poesia

João do Vale (1934-1996)

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Posso começar aqui quase parafraseando Ruth Finnegan e dizer que possuímos uma tradição tanto escrita quanto não escrita de “literatura”, ou, melhor dizendo, de poesia, de poética; que apesar de sermos a cultura mais letrada do ocidente de toda a história, não surpreende a ninguém dizer que as formas não escritas são, certamente, muito mais conhecidas e apreciadas; e que a canção, portanto, figura como a nossa forma mais efetiva e popular forma daquilo que podemos chamar ‘poesia’. Somos uma ilha de escrita num mar de oralidade, afinal. Não à toa um poeta como Ricardo Domeneck, ao tratar da poesia dos trovadores portugueses (clique aqui), enxerga uma ligação, um continuum entre Martim Codax e Vinícius de Moraes, por exemplo. Nada absurdo: essa oralidade da poesia, ou, melhor, essa relação entre canção, entre a voz e aquilo que consideramos poesia se estabelece como tensão desde Homero, passando pela lírica romana, pelas cansó em provençal, pelos trovadores, pela ópera, pelo samba, enfim. Eu havia pensado em me justificar demais, mas vou apenas dizer: apreciem a poesia de João do Vale.

BIOGRAFIA:

João Batista do Vale (Pedreiras, MA, 1934 – São Luís, MA, 1996) foi um cantor e compositor brasileiro. Em 1947, vai com a família morar em São Luís e lá integra o Linda Noite, grupo de bumba meu boi, para o qual compõe versos. Por gostar de cantar e dançar recebe o apelido de Pé de Xote. Dois anos depois viaja para o Sudeste do país em um pau de arara (transporte irregular feito em caminhões adaptados para levar passageiros) e pedindo carona. No longo trajeto, para em diversas cidades e desempenha as mais variadas tarefas, como pedreiro, ajudante de caminhão, artista de circo e garimpeiro.

Chega ao Rio de Janeiro, em 1950, onde consegue emprego em uma obra no bairro de Copacabana, zona sul da cidade. Com algumas composições, a maioria baiões, começa a frequentar programas de rádio e mostrar suas músicas a outros artistas. O sanfoneiro Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga, grava sua canção Madalena (1953). Com o cantor Luís Vieira compõe Estrela Miúda, gravada por Marlene em 1953. João do Vale ainda está trabalhando como pedreiro no Rio de Janeiro quando esta música começa a tocar no rádio. Por ser menor de idade, tem dificuldade para receber os primeiros direitos autorais. Os duzentos mil réis parecem uma fortuna para quem ganha cinco mil réis mensais na construção.

Na Asa do Vento (parceria com Luis Vieira), gravada em 1956 por Dolores Duran (1930-1959), torna João do Vale compositor em tempo integral. Astros do rádio, como Ivon Cury e Jackson do Pandeiro, gravam suas músicas. No Nordeste, Marinês registra discos inteiros somente com suas composições. Entre suas canções mais conhecidas estão Peba na Pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), gravada por Ari Toledo, e O Canto da Ema (c/ Aires Viana e Alventino Cavalcante), gravada com sucesso por Jackson do Pandeiro. Luiz Gonzaga passa a gravar suas músicas. A associação com o rei do baião rende algumas parcerias mas, por problemas contratuais, Luiz Gonzaga nem sempre aparece nos créditos, substituído por sua mulher, Helena – o que não o impede de gravar as músicas.

João do Vale assume que vende várias de suas composições para ajudar no orçamento – só que nunca nomeia os compradores. Não é de se estranhar nomes desconhecidos entre seus parceiros, já que entre eles há de garçons a bicheiros.

Em 1954, participa como figurante do filme Mãos Sangrentas, dirigido por Carlos Hugo Christensen (1914-1999), e conhece o então assistente de direção Roberto Farias (1932), que mais tarde, como diretor, o chama para compor as trilhas sonoras de alguns de seus filmes, como No Mundo da Lua (1958). Na década de 1960, convidado pelo sambista Cartola (1908-1980), faz show no restaurante Zicartola, onde conhece Oduvaldo Viana Filho (1936-1964), Paulo Pontes (1940-1976), Ferreira Gullar (1930), Augusto Boal (1931-2009) e Armando Costa (1933-1984). Do encontro nasce a ideia do show Opinião (1964), primeiro espetáculo contestador da época do regime militar. O musical estreia no teatro de um shopping center de Copacabana, com direção de Oduvaldo Vianna Filho e com elenco composto de Nara Leão (1942-1989), Zé Kéti (1921-1999) e João do Vale, entre outros. É de sua autoria um dos maiores sucessos do repertório da peça, Carcará (parceria com José Cândido), composição que, mais tarde, é a música de lançamento da carreira de Maria Bethânia (1946), que substitui Nara Leão no espetáculo. A repercussão de Carcará é tão grande que, em 1965, é convidado a gravar seu primeiro disco, O Poeta do Povo.

Em 1969, compõe a trilha do filme Meu Nome É Lampião, de Mozael Silveira. Depois de quase alguns anos de ausência do meio artístico, participa, em 1975, da remontagem do show Opinião, no Rio de Janeiro. Somente em 1982 lança seu segundo disco, em parceria com Chico Buarque (1944), que pouco antes havia produzido o LP João do Vale Convida, com participações de Nara Leão, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, Tom Jobim, Amelinha, Clara Nunes, Hermeto Pascoal, Jackson do Pandeiro e Gonzaguinha, além do próprio Chico, que em 1994 volta a reverenciar o amigo reunindo artistas para gravar o disco João Batista do Vale, vencedor do Prêmio Sharp de Melhor Disco Regional.

João do Vale vive no Rio de Janeiro por mais de 30 anos, mas nunca abandona o universo do sertão, mesclando com maestria o samba carioca com o baião nordestino. Apesar de uma obra com mais de duzentas canções registradas em seu nome (fora as outras tantas que vende), morre quase tão pobre quanto na época em que foge de casa, em 1949.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras (clique aqui).

ps: ao final deste post está o documentário João do Vale, Muita Gente Desconhece, de Weriton Kermes, com argumento de Miriam Cris Carlos, sobre o poeta e compositor maranhense.

 

sergio maciel

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poesia

Patricia Lavelle

Patrícia Lavelle nasceu no Rio de Janeiro, é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, associada ao Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Doutora em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde morou entre 1999 e 2014, tem livros de ensaios publicados na França e no Brasil, suas pesquisas problematizam as relações entre criação literária e reflexão filosófica. Como poeta, publicou Migalhas metacríticas (7Letras, coleção megamíni, 2017) e Bye bye Babel (7Letras, 2018)

Bye bye Babel obteve a primeira menção honrosa do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2016.

* * *

Eco
(a Paulo Henriques Britto)

Nem sempre corresponde. “Responde onde?”
Pondera, repetindo. “Repetindo?”
Responde, repetindo lindo lindo
o eco à minha última palavra.

A lavra de ouro, essa palavra em larva…
“A lavra em larva?” Metáfora parva.
Imagem sonora em caricatura?
Cacofonia numa bela figura?

Figura bela “belabel a bel”
em eco invertida: abel, babel.
Vertida essa vertigem em espelho

partido de Narciso… “Ciso, siso?”
E nisso ironizo… é, ironizo.
Quem é que sonha em prosa? Eco trova.

 

§

O Tradutor

O corpo contorce
um gesto sem
som
esboça ritmos
em movimento arrítmico
dos lábios.

Entre duas tramas
(fonemas
palavras
sintagmas
sintaxes
sentidos
entre parêntesis)

um hiato:
cesura a-semântica
intervalo

e salto

§

Traduzida
(a partir de um poema de Ricardo Domeneck)

A língua do tradutor invade a minha boca
e lúbrica aliso a plástica muscular
de suas vogais macias
e essa reta ligeiramente ascendente
de cada frase sua
penetra
o elástico rítmico das minhas sílabas
em duplo silêncio
gozo
o eco nessa outra voz
langueur monotone
dentro.

§

Diálogo

Senti teu olhar endurecer
entre as minhas
palavras:
intumescência imediata
naquela fenda
obscura
entre o corpo e o discurso.

§

O corpo e a voz

Na sucessão de gestos matinais
uma involuntária contração
no músculo do braço
esquerdo

distrai minha atenção

Entre o corpo que ele é
e o corpo que ele tem,
um vai-e-vem
move membros e coisas

Tensão que se traduz
no timbre grave da voz

Entre a palavra que ele é
e as línguas que ele fala
uma só voz
vem e vai.

§

Metáfora

Suspenso o significado
a palavra espera
aberta
numa frase estranha,
brecha de onde o sentido
se projeta.

No abismo da imagem
o verbo é vertigem.

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