crítica, poesia, tradução

“O diálogo do pessimismo”

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“O diálogo do pessimismo” é um poema babilônico que fazia um tempo que eu queria traduzir. Também chamado de arad mitanguranni (o primeiro verso do poema no original: “vem servir-me, escravo” ou “escuta, escravo”) ou “O diálogo de um senhor e seu escravo”, por motivos óbvios, ele consiste nisso mesmo. São 10 ou 11 estrofes, cada uma com uma estrutura bastante simples, mas eficaz: elas começam com o chamado do senhor e a resposta do escravo. Então o senhor diz que quer fazer alguma coisa (ir ao palácio, jantar, fazer um sacrifício ao seu deus) e o escravo responde comentando as vantagens disso que ele deseja fazer. Depois o senhor muda de ideia, e o escravo comenta as vantagens de não fazê-lo. A literatura chamada sapiencial era um gênero respeitável na Mesopotâmia e muito popular entre a classe de escribas, que treinavam seu ofício com provérbios e consideravam secreto o conhecimento que registravam nas tabuletas, algo só para a pequena elite capaz de ler a complexa escrita cuneiforme do sumério e do acádio – os iniciados. Há algo de literatura sapiencial no poema, e durante algum tempo (até 1954, como comenta Lambert) os pesquisadores o incluíram como parte do gênero. De fato, nota-se um verniz de profundidade nas falas do escravo: “Comer alegra o coração”, “Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”, “o cão de rua sempre encontra o osso”. São versos que têm toda a carinha de provérbios e frases de efeito (e suas subversões resultam em versos poderosos como “Terra nua é o leito do onagro”, “olha as caveiras dos nobres e da plebe, / quais foram vilões e quais os benfeitores?”). Há citações e alusões a um poema religioso chamado “Hino a Šamaš” (o deus do sol) e ao Épico de Gilgámeš. Esse movimento argumentativo que oscila entre o desejo da ação e da inação também já levou os estudiosos a compará-lo com o livro do Eclesiastes.

No entanto, como já apontou Frye sobre o gênero cômico, uma das origens do efeito cômico é a repetição, e é isso o que temos aqui. Se, ao lermos suas estrofes separadamente, fica a impressão de que o tom dos versos poderia ser tido como mais pura e seriamente filosófico, é inevitável, conforme avançamos, a sensação de que o autor não está sendo de todo sério. A cada repetição, o escravo parece menos um sábio e mais um bajulador tentando a todo custo obter os favores do seu mestre (e, né, na situação dele, quem pode culpá-lo?), o que lembra muito o estereótipo da comédia latina (uma invenção, porém, muito posterior) do seruus currens, o escravo ardiloso de comédia que vemos em Plauto e Terêncio. O próprio texto parece reconhecer isso, e caminha num crescendo – que leva à comparação ridícula e blasfema entre os deuses e cachorros e ao desespero da relatividade moral da penúltima estrofe – até culminar na piada de humor negro que encerra o poema, que eu não consigo ler sem pensar nas discussões de suicídio de Esperando Godot (no ato 1 eles pensam as possibilidades de se enforcarem no galho, aparentemente frágil, da única árvore no palco. Gogo comenta que Didi é mais pesado, então se ele se enforcar antes e o galho quebrar, Gogo vai ficar sozinho e sem galho para poder se enforcar também). E tudo isso é ancorado num problema que talvez não seja tanto diretamente ético, mas mais linguístico, na medida em que a linguagem nos dá a capacidade de justificar qualquer ação ou inação. Ainda há discussão entre estudiosos sobre qual o tom exato do poema, se solene, cínico, fanfarrão ou de fato pessimista. Em todo caso, fica a impressão do quanto é tênue a fronteira entre a sabedoria e o cômico.

Por fim, algumas informações bibliográficas: o poema foi escrito por volta de 1000 a.C. (a menção a uma adaga de ferro exclui a possibilidade de ser uma composição mais antiga, do período paleobabilônico) em acádio, a língua do Império Babilônico e principal língua da Mesopotâmia até ser substituída, mais tarde, pelo aramaico como língua franca do antigo Oriente Médio. Esquecido ao longo dos séculos, ele é redescoberto aparentemente no final do século XIX (quando o processo de deciframento da língua estava já em estágio razoavelmente avançado) em cinco manuscritos diferentes, dos quais um está quase completo, de modo que dos 86 versos do poema apenas 15 estão danificados (porém seu possível conteúdo é em parte recuperável pelo contexto). Ele foi transcrito e publicado nos círculos de especialistas por G. Reisner e E. Ebeling entre 1896 e 1919 e desde então tem sido traduzido em diversas edições, uma das mais célebres sendo a de Wilfred G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature, de 1960 (pp. 139-149), que conta com uma introdução, transcrição (incluindo das variações) e uma tradução literal. Em 19 de novembro de 1987, saiu uma tradução poética do poema no The New York Review of Books, de autoria de ninguém menos que Joseph Brodsky, com o título ‘Slave, Come to My Service!’, com base na edição de Lambert e de James B. Pritchard. Brodsky se equivoca, porém, ao se referir ao poema como um poema sumério, mas é uma confusão compreensível. Não tinha internet nos anos 80 para esclarecer esse tipo de dúvida em cinco minutos. Neste caso, para a minha tradução, eu me baseei na de Brodsky, porque o poeta eliminou as lacunas (é tão frustrante ler poema com verso faltando) e especialmente porque ela funciona muito bem, que é o critério mais importante. No entanto, onde Brodsky se desvia demais (por exemplo, o que ele traduz como “do some evil” costuma ser interpretado pelos estudiosos como “liderar uma revolução”), eu preferi me aproximar mais das traduções acadêmicas. No tocante ao tom do poema, numa tentativa de fazer jus à sua ambiguidade entre seriedade e humor, eu procurei manter ao mesmo tempo algum grau de poeticidade (com o uso algo arcaizante do “tu”, aliterações, vocabulário) e uma oralidade à brasileira que eu acho que funcionam para esse propósito.

 

Arad mitanguranni: o Diálogo do Pessimismo
ou: um Senhor e seu Escravo

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei ao palácio!”
“Vai ao palácio, meu senhor. Vai ao palácio.
O rei ficará feliz em te ver e será benevolente”.
“Não, meu escravo. Não irei ao palácio!”
“Não vás, meu senhor. Não vás ao palácio.
Serás mandado pelo rei a alguma missão longínqua,
por estradas estranhas, montanhas hostis;
dia e noite sujeito a mazelas e dor”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Busca a água e derrama-a em minhas mãos: quero jantar”.
“Janta, meu senhor. Janta.
Comer alegra o coração. O jantar de um homem
é o jantar de seu deus, e mãos limpas fisgam o olhar de Šamaš”.
“Não, meu escravo. Não jantarei!”
“Não jantes, senhor. Não jantes.
Bebida e sede, comida e fome
nunca abandonam o homem, nem a si próprias”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei passear pelo campo”
“Isso, meu senhor, isso. Despreocupado, o caçador
tem sempre a barriga cheia, o cão de rua sempre
encontra o osso, a andorinha que migra domina a arte de fazer ninhos
o onagro encontra a relva no mais seco dos desertos”.
“Não, meu escravo, não irei passear pelo campo”.
“Não vás, meu mestre. Não te dês ao trabalho.
É sempre fugaz a sorte do caçador,
o cão de rua perde os dentes. O ninho
da andorinha que migra é enterrado pela argamassa.
Terra nua é o leito do onagro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Tenho vontade de constituir família, desejo ter filhos”.
“Bem pensado, meu senhor. Isso, tem filhos.
Quem constitui família garante o seu nome, orações póstumas o repetem”.
“Não, meu escravo. Não constituirei família, não terei filhos!”
“Não o faças, meu senhor. Não os tenhas!
Uma família é uma porta torta, sua dobradiça range.
De cada três filhos, só um é sadio; os outros dois, doentes.”
“Mas devo constituir família?” “Não, não o faças.
Quem constitui família desperdiça seu lar ancestral”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Vou ceder aos meus inimigos; calarei diante das acusações no tribunal”.
“Isso, meu senhor, isso. Cede aos inimigos;
guarda teu silêncio, meu senhor, diante das acusações”.
“Não, meu escravo! Não irei calar e não cederei!”
“Não cedas, meu senhor, e não te cales.
Mesmo que não abras a boca
impiedosos teus inimigos serão e cruéis,
além de numerosos”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo liderar uma revolução”.
“Ótimo, meu senhor. Isso, lidera a revolução.
Pois, do contrário, como tu hás de encher tua barriga?
Como poderás vestir o corpo sem revolução?”
“Não, meu escravo. De modo algum serei um revolucionário!”
“Os revolucionários acabam mortos ou cegos e esfolados vivos
ou cegos, esfolados vivos e trancados na masmorra”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero amar uma mulher”. “Ama, senhor, ama!”
Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”.
“Não, meu escravo. Não quero amar mulher nenhuma!”
“Não ames, meu senhor. Não ames.
Mulher é cilada, tocaia, fosso sem luz,
o ferro afiado de uma adaga para cortar-te a garganta no escuro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca água para lavar-me as mãos: farei oferenda ao meu deus”.
“Isso, faz oferenda, faz oferenda.
Quem sacrifica ao seu deus enche o coração de riquezas;
sente-se generoso, abre-se a sua bolsa”.
“Não, meu escravo. Não farei oferenda alguma!”
“Tem razão, meu senhor. Tem toda razão!
Treina teu deus para te seguir como um cãozinho,
com suas carências de servidão, rituais, sacrifícios”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero fazer um investimento, vou emprestar com juros”.
“Ah, sim, investe, empresta com juros.
Quem investe preserva o que tem, e seu lucro é enorme”.
“Não, meu escravo, não emprestarei, nem investirei!”
“Não invistas, meu senhor. Não emprestes.
Emprestar é como amar, e receber de volta, gerar maus filhos:
todos maldizem o dono do pão que comem.
Ficarão ressentidos e diminuirão teu lucro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo fazer uma boa ação pela minha pátria!”
“Muito bom, meu senhor, muito bom. Faz isso!
Quem faz boas ações pela pátria grava seu nome no ouro do anel de Marduk”.
“Não, meu escravo, não farei boa ação alguma pela pátria”.
“Não faças isso, meu senhor. Não te dês o trabalho.
Vai e caminha pelas ruínas antigas,
olha as caveiras dos nobres e da plebe,
quais foram vilões e quais os benfeitores?”

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Se é assim, então o que é bom?”
“Bom mesmo seria se quebrassem o meu e o teu pescoço
e depois fôssemos desovados no rio – isso sim!
Quem é tão alto que alcança os céus?
Tão amplo que abarca os infernos?”
“Se assim for, melhor eu te matar, meu escravo: prefiro que tu vás na frente”.
“E o meu senhor crê que saberias viver três dias sem mim?”

(poema mesopotâmio anônimo, introdução e tradução de Adriano Scandolara com base nas traduções de Brodsky e Lambert)

 

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Trilussa, por Daniel Dago

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Trilussa, pseudônimo de Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871-1950) – Trilussa é anagrama de Salustri –, foi um dos maiores poetas satíricos da Itália. Apesar da enorme fama em seu país natal, não alcançou sucesso no exterior, em grande por ter escrito especialmente em dialeto romano. Suas inúmeras “favole” (fábulas) são conhecidíssimas até hoje.

Escrito em italiano, “L’uccelletto” (literalmente, “o passarinho”, mas escolhemos “o pintinho” a fim de manter a conotação sexual do original) tem duas versões, ambas atribuídas a Trilussa. Escolhemos a mais conhecida, que se tornou viral na internet com a hilária interpretação feita numa rádio pelo tenor Andrea Bocelli. Dá para escutá-la aqui:

“Er porco e er somaro” (O porco e o burro) faz parte das “fábulas” escritas em dialeto romano. “Avarizzia” (Avareza), também em romano, faz parte de um círculo de poesias sobre os sete pecados capitais.

Daniel Dago

* * *

L’UCCELLETTO

Era d’Agosto e un povero uccelletto
ferito dallo fionda di un maschietto
andò per riposare l’ala offesa,
sulla finestra aperta di una chiesa.

Dalle tendine del confessionale
il parroco intravide l’animale
ma, pressato dal ministero urgente,
rimase intento a confessar la gente.

Mentre in ginocchio alcuni altri a sedere
dicevano i fedeli le preghiere,
una donna, notato l’uccelletto,
lo prese al caldo e se lo mise al petto.

D’un tratto un cinguettio ruppe il silenzio e il prete a quel rumore
il ruolo abbandonò di confessore.
Scuro in viso peggio della pece,
s’arrampicò sul pulpito e poi fece:

“Fratelli! Chi ha l’uccello per favore
esca fuori dal tempio del Signore!”
I maschi, un po’ stupiti a tal parole,
lenti s’accinsero ad alzar le suole,

ma il prete a quell’errore madornale
“Fermi” gridò “mi sono espresso male!
Rientrate tutti e statemi a sentire,
solo chi ha preso l’uccello deve uscire!”

A testa bassa, la corona in mano,
cento donne s’alzarono pian piano.
Ma mentre se ne andavano ecco allora che il parroco strillò:
“Sbagliate ancora, rientrate tutte quante figlie amate
che io non volevo dir quel che pensate!

Ecco, quello che ho detto torno a dire,
solo chi ha preso l’uccello deve uscire,
ma, mi rivolgo, non ci sia sorpresa,
soltanto a chi l’uccello l’ha preso in chiesa!”

Finì la frase e nello stesso istante
le monache s’alzarono tutte quante
e con il volto pieno di rossore
lasciavano la casa del Signore.

“O Santa Vergine!” esclamo il buon prete
“Fatemi la grazia se potete.
Poi senza fare rumore dico, piano piano
s’alzi soltanto chi ha l’uccello in mano!”

Una ragazza che col fidanzato
s’era messa in un angolo appartato
sommessa mormorò con viso smorto
“Che ti dicevo, hai visto? Se n’è accorto!”

O PINTINHO

Era agosto e um pobre pintinho,
ferido por um estilingue de um menininho,
pousou com a asa quebrada
na janela aberta de uma igreja lotada.

Pela cortina do confessionário
entreviu o animal o pároco solidário,
mas pressionado pela urgência,
foi obrigado às pessoas prestar assistência.

Enquanto de joelho alguns ficavam
e os fiéis rezavam,
uma mulher, notando o pintinho,
num ímpeto, o pegou e o colocou entre seus peitinhos.

Certo momento, um gorjeio quebra o silêncio e o padre, nesse ruído minoritário,
abandona as pessoas no confessionário.
Com a cara vermelha, pior do que de um visceral,
sobe no púlpito e diz a todos no local:

“Irmãos! Quem tiver um pintinho, por favor,
que vá embora do templo do Senhor!”
Os homens, um pouco pasmos com tal declaração,
já se preparavam para rua tomar direção,

mas o padre disse sobre erro fatal:
“Esperem” gritou “me expressei mal!
Entrem todos e fiquem a me ouvir,
só quem pegou no pintinho deve sair.”

Com a cabeça baixa e o véu na mão,
devagarzinho, cem mulheres se foram em vão.
E, enquanto iam-se, o padre gritou:
“Errei novamente, entrem todos os filhos amados,
pois não falei aquilo que vocês tinham pensado!

Bom, repito o que havia dito.
Só quem pegou no pintinho daqui deve ser expelido,
mas me dirijo, não sem surpresa,
apenas a quem pegou no pintinho dentro da igreja!”

Quando terminou a frase, naquele mesmo instante,
as freiras se levantaram e seguiram adiante,
e com rosto cheio de rubor
deixavam a casa do Senhor.

“Ó Virgem Maria!” exclamou o bom padre
“Dê-me uma graça, por piedade.
Sem fazer barulho, digo devagarzinho, devagarzinho,
que se vá somente quem na mão está com o pintinho!”

Uma menina com seu namorado
estava em um canto isolado
quando disse calmamente, mas com o rosto assombrado:
“Não te falei, viu? Sabia que ele tinha notado!”

§

ER PORCO E ER SOMARO

Una matina un povero Somaro
Ner vede un Porco amico annà ar macello,
Sbottò in un pianto e disse: – Addio, fratello,
Nun ce vedremo più nun c’è riparo!

– Bisogna esse’ filosofo, bisogna:
– Je disse er Porco – via nun fa’ lo scemo,
Chè forse un giorno ce ritroveremo
In quarche mortatella de Bologna!

O PORCO E O BURRO

Uma manhã, um pobre Burro,
vendo um Porco amigo ao matadouro tomar direção,
estourou em lágrimas e disse: – Adeus, irmão,
não nos veremos mais, não tem zurro!

– Se recomponha, calma, se recomponha
– disse o Porco – não seja ingênuo.
Talvez um dia nos encontraremos
em alguma mortadela de Bolonha!

§

AVARIZZIA

Ho conosciuto un vecchio
ricco, ma avaro: avaro a un punto tale
che guarda li quatrini ne lo specchio
pe’ vede raddoppiato er capitale.

Allora dice: — Quelli li do via
perché ce faccio la beneficenza;
ma questi me li tengo pe’ prudenza… —
E li ripone ne la scrivania.

AVAREZA

Conheci um velho
rico, mas avarento: avarento a ponto tal
que olha o dinheiro no espelho
para ver duplicado o capital.

Então diz: – Aquele dou para alguém
porque o faço por beneficência;
mas fico com este por prudência… –
E na escrivaninha o mantém.

(Trilussa, trad. Daniel Dago)

 

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Quatro poemas de Abu Nuwas (756 – 814)

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estátua de Abu Nuwas em Bagdá, por Rasoul Ali (flickr)

 

Motivado pelas discussões desta semana sobre questões delicadas, como religião, sobretudo o Islã, radicalismo, humor e liberdade de expressão, uma discussão já recorrente, aliás (pelo menos desde a fatwa lançada contra Salman Rushdie por conta de Os Versos Satânicos algumas décadas atrás), e, para variar, vendo o adjetivo “medieval” sendo usado por aí como um termo pejorativo, eu acabei inevitavelmente sendo relembrado de certos autores medievais que fazem muitos dos nossos satiristas e comediantes atuais parecerem amadores – dos quais um, pelo menos, escreveu em árabe, e não só era muçulmano, como uma das figuras mais influentes da então florescente cultura muçulmana.

Nascido na Pérsia, em Ahvaz, antigo reino de Elam, hoje Irã, entre 756 e 757 (a data exata varia conforme a fonte), seu nome era Abu ‘Ali al-Hasan ibn Hani’ al-Hakami (Abu ‘Ali para os íntimos), mas ele ganhou o apelido Abu Nuwas por causa de seus cabelos (o nome significa algo como “Pai das Madeixas Pendentes”). Sua mãe era persa e não dominava a língua árabe, mas Abu Nuwas, que em sua infância e adolescência foi educado em Basra, onde se tornou um Hafiz (pessoa encarregada de decorar o Corão), foi um poeta inteiramente ligado à tradição árabe. Segundo Philip F. Kennedy, professor de estudos orientais e cultura islâmica, autor de Abu Nuwas: a Genius of Poetry (de onde tirei os poemas desta seleção), ele se via como herdeiro de uma poética pré-islâmica (evidenciada pelas referências constantes ao vinho, considerando que bebidas alcóolicas são haram), porém influenciado pela linguagem do Corão e cuja fé era “inabalavelmente muçulmana”. Ao mesmo tempo séria e cômica, sua poesia é marcada pela sexualidade burlesca (com muitos poemas homoeróticos), pelo vinho, pela sátira (às vezes direcionada até mesmo aos que lhe pagaram por panegíricos) e pela temática religiosa – Íblis, o diabo, é uma presença constante, ao mesmo tempo em que o poeta dialoga e refuta teólogos como Ibrahim al-Nazzam e demonstra uma notável tolerância religiosa, sobretudo em poemas como o “Diálogo com o Taberneiro Judeu”… mas há poemas ascéticos também, que, diferente do que se pode pensar à primeira vista, não são poemas de arrependimento quanto ao hedonismo escritos no final da vida, mas versos compostos ao longo de toda a vida, lado a lado com a poesia de sacanagem. Abu Usama Waliba ibn al-Hubab al-Asadi, autor também de poemas báquicos e homoeróticos, dos quais só fragmentos sobreviveram, foi outra influência, inclusive pessoal, tendo escolhido o jovem Abu Nuwas como discípulo. Outros eventos marcantes de sua biografia incluem a vida em Bagdá, onde arranjou o mecenato da família dos Barmecidas, sua posterior prisão (por heresia, ao que parece) e um tempo passado no Egito. Há vários relatos conflitantes sobre sua morte (que variam de envenenamento a morte por bebedeira), mas se sabe que ela se deu aos 59 anos, após a morte do califa Muhammad al-Amin. Qualquer que tenha sido o seu fim, Abu Nuwas acabou se tornando uma figura folclórica e aparece em várias histórias d’As mil e uma noites, além de ter influenciado poetas famosos como Hafez e Omar Khayyam.

Para compartilhar aqui no escamandro, eu selecionei alguns dos poemas contidos, em tradução inglesa, em Abu Nuwas: a Genius of Poetry. Esses quatro poemas tratam de uma variedade interessante de temas, ainda que todos relacionados à libertinagem: o primeiro é sobre masturbação (que me lembra um pouco os epigramas de Marcial); o segundo, um pouco menos explícito, trata da paixão do poeta por um rapaz cristão; o terceiro, sobre a clássica dicotomia entre razão e emoção, posta de forma burlesca; e o quarto e último, sobre uma situação bizarra (que nos soa surreal, para usar um termo anacrônico) em que mulheres roubam o pênis do eu-lírico. Pois é.

Não tive acesso aos originais, nem sou leitor do árabe, para além de um conhecimento rudimentar do alfabeto, mas tentei reproduzir algo da estrutura formal dos poemas em árabe dentro dos limites que me foram dados. Como comenta Kennedy, os poemas de Abu são escritos numa forma que emprega dois hemistíquios por verso (que ele e outros tradutores reproduzem através de dísticos, uma solução que mantive na tradução portuguesa), e todos os versos são rimados com um único som de rima, às vezes demonstrando também rimas internas e aliteração. Para reproduzir esse efeito dentro das possibilidades, optei por me permitir rimas toantes, à moda de João Cabral.

De resto, infelizmente, não conheço ainda nenhuma coletânea dedicada inteira à poesia de Abu Nuwas em português. Temos um poema, em tradução para o português de Paulo Azevedo Chaves, que foi postado no blogue da Modo de Usar, como parte de uma antologia organizada por Chaves e Raimundo de Moraes de poesia homoerótica (clique aqui), bem como um poema no blogue Acontecimentos de Antonio Cicero. Em todo caso, para mim, ele foi uma descoberta impressionante e um poeta que precisa muito ser mais lido.

Adriano Scandolara

 * * *

Vejo que os verdadeiros amantes buscam conforto
     em lágrimas e pranto quando o amor os atormenta.
Ayyub, porém, quando seu coração o lembra
     daquela cujo nome não direi, toma providência:
Ele pede um tinteiro e um chumaço de algodão,
     escreve o nome dela na mão e toca punheta.
Se os amantes se contentassem com o que
     te contenta, ninguém que ama jamais teria queixas.

*

Uma moléstia consome meu corpo exausto em lassidão:
     dói meu peito como se chama nele ardera.
Pois me apaixonei por alguém cujo nome não digo
     sem que dos meus olhos brotem duas ribeiras.
A lua cheia é seu rosto, e o sol, sua fronte. Seu olhar
     e seu peito são os da gazela.
Cingido do zunnar[1], ele caminha até a igreja;
     seu deus é o Filho e a Cruz, ele dissera.
Ó, quem dera eu fosse o padre ou metropolita de sua Igreja!
     não, quem dera
Eu fosse seu Evangelho e Escrituras.
     não, quem dera eu fosse a Hóstia ou o cálice que tempera
O vinho servido.
     não, quem dera eu fosse a espuma do vinho que bebera.
A fim de gozar de sua companhia, a esta moléstia pondo fim
     e a estes cuidados e miséria.

*

Travo uma guerra contra os meus olhos,
     meu coração e meu cacete;
Queria ter por meus olhos os de outrem
     e um coração que não este,
E em vez do meu pau o de um velho
     que os dias de ‘Ad[2] guarda ainda em mente.

*

Se algum dia fores dormir com Abu Riyah,
     dorme com a mão na espada segurando o cabo,
Pois ele tem umas mulheres que,
     ao anoitecer, roubam as pontas dos dardos;
Uma vez, quando dormi com ele, elas roubaram meu caralho
     que só peguei de volta após o sol ter raiado;
Ele voltou todo cheio de arranhões
     e gemendo pelos seus machucados…

 

Notas

[1] zunnar: um tipo de cinto ou faixa usada por cristãos e judeus (i.e. os dhimmah (singular dhimmi), ou não-muçulmanos) para distingui-los dos muçulmanos, tal como acordado no chamado “Pacto de Umar”.

[2] ‘Ad: antiga tribo árabe pré-islâmica mencionada no Corão como exemplo de um povo destruído por Deus.

 

(poemas de Abu Nuwas, comentário e tradução de Adriano Scandolara, com base em Philip F. Kennedy)

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O festim divino de El – um poema do ugarítico

Ugarit

Ugarit foi uma cidade portuária do Oriente Próximo localizada nos arredores de onde hoje se situa Ras Shamra, no norte da Síria, perto do monte Hérmon e da ilha de Chipre. Ela foi destruída por volta do final da Era do Bronze e, num dos grandes achados arqueológicos do século XX (ainda mais impressionante pelo fato de ter ocorrido por completo acidente), só veio a ser redescoberta em 1928. Situada numa posição excelente para o comércio, num ponto de encontro entre quase todos os povos da região, Ugarit floresceu cultural e financeiramente, tornando-se um dos grandes centros cosmopolitas do mundo antigo.

A cidade tinha o seu próprio idioma, o ugarítico, uma língua semítica cananeia, parente do fenício, do aramaico e do hebraico. Diferente dessas línguas, porém, o ugarítico não utilizava um sistema de escrita derivado do fenício. O hebraico, por exemplo, utilizava um abjad (esse tipo de alfabeto comum no Oriente Próximo e Médio que, diferente dos alfabetos completos, não marca as vogais ou as marca só com diacríticos) descendente do fenício, o chamado alfabeto paleo-hebraico, até cerca do século V a.C., quando foi substituído por um alfabeto diferente derivado do aramaico – só os samaritanos, porém, que são um outro povo semítico que disputa com os judeus o título de herdeiros da tradição israelita e que hoje são uma minoria, mantiveram o paleo-hebraico. Já o ugarítico desenvolveu o seu próprio sistema de escrita com base no cuneiforme. O cuneiforme, como se sabe, é o sistema que utiliza uma cunha para traçar os caracteres numa tabuleta de argila e que, até onde se tem registro, foi inventado e utilizado pelos sumérios desde pelo menos por volta do terceiro milênio antes de Cristo. Nos diz a assirióloga Marie-Louise Thomsen, em seu The Sumerian Language: an Introduction, que a escrita do sumério se desenvolveu não como uma forma de representação da fala, mas como um auxílio mnemônico, o que é um motivo pelo qual as tabuletas sumérias mais antigas são de uma extrema dificuldade para serem decifradas (não por acaso, os textos que formam corpus que a autora usa para tratar da gramática da língua datam de entre 2600 e 900 a.C.). Com o tempo, a escrita foi se tornando mais complexa e passou a representar, mais ou menos, frases inteiras, o que se tornou muito importante para a sobrevivência da língua por escrito do período neossumério (2200 a 2000 a.C.) em diante, em que ela deixou de ser falada na mesopotâmia, mas continuou a ser utilizada em textos de natureza burocrática, literária e religiosa.

chuvaA unidade do cuneiforme sumério era um grafema chamado de logograma: AN, por exemplo, era o símbolo para “deus”, “acima” ou “céu”. Combinado com A (“água”… mas também “sêmen”), forma a palavra “chuva” (na imagem ao lado), A.AN, transliterada “šeĝ” (“sheg”, mas a pronúncia exata é desconhecida e incognoscível). É bem complicado e não convém agora entrar nos pormenores, que envolvem ainda questões de homofonia e variações e tudo o mais, mas é interessante apontar que esse sistema foi repassado aos acádios, um povo semita como os ugaríticos (diferente dos sumérios, que não eram semitas e cuja língua é considerada uma língua isolada), e sua cultura e língua se desenvolveram lado a lado com a suméria – diz-se dos dois que linguisticamente formam um Sprachbund, de modo que é difícil dizer quais palavras e construções (incluindo a ordem das palavras na frase) do sumério são originalmente sumérias e quais são empréstimos do acádio, e vice-versa. Uma narrativa como o Épico de Gilgamesh, tal como o reconhecemos hoje, parte de fontes acádias, mas a mitologia em torno da figura de Gilgameš, rei de Uruk, tem origem numa tradição anterior de tabuletas sumérias.

Acontece, porém, que, por conta de questões fonológicas, essa forma de escrita não era bem adequada ao acádio (e isso talvez tenha pesado na hora de manter o sumério como língua burocrática, mesmo após o acádio se tornar a língua oficial das sucessões de impérios babilônicos). Os escribas de Ugarit, então, resolveram o problema desenvolvendo o seu próximo alfabeto: a escrita do ugarítico é cuneiforme, visto que também se faz com uma cunha sobre uma tabuleta de argila, mas, diferente da do sumério e do acádio, ela consiste num abjad com uma letra para cada consoante (com algumas duplicadas, como ocorre também com o hebraico). Esse sistema também foi utilizado para escrever textos em acádio, tal como atestam alguns documentos escavados em Ugarit.

tabuleta-em-ugarítico

Ugarit tinha ainda sua própria religião e mitologia, e a sua descoberta serviu para iluminar algumas questões importantes para os estudos bíblicos. A religião ugarítica, ainda que tenha alguns deuses menores, se concentra basicamente sobre o casal principal de divindades, El, pai dos deuses, e sua esposa Asherah, a Rainha dos Céus. O casal tem três filhos, Hadad (também chamado Baal, “Senhor”), Yamm e Mot. Hadad, deus das tempestades, governa sobre os céus, Yamm, sobre os mares, e Mot, sobre o mundo dos mortos, numa relação que parece muito próxima da espelhada pelos deuses gregos Zeus, Posêidon e Hades, respectivamente (já Crono, pai de Zeus, não seria um bom equivalente para El, e o paralelo meio que termina aí). El, que é o nome próprio da divindade, mas também um termo genérico para “deus”, provavelmente deriva de Ilu, termo acádio para “deus” que traduz o An ou Anu sumério, e o nome, como se sabe, é usado com frequência na Bíblia para se referir a YHWH, o deus dos israelitas, presente tanto em construções como “El Shaddai” (“Deus Poderoso”) quanto em palavras como “Israel” (“o que lutou com Deus”). De fato, nas últimas décadas, diversos autores, como Raphael Patai e Frank Moore Cross, têm traçado paralelos entre El e YHWH, e é muito provável que os dois fossem adorados como a mesma divindade na região, com frequência junto de Asherah, que, se a hipótese de Patai estiver correta, acabou eliminada da Bíblia e dos cultos após o Primeiro Templo ser derrubado e a elite religiosa israelita fechar o cerco contra o politeísmo. Há cartas em aramaico da região, datando de pelo menos 500 a.C., em que os autores usam certas expressões equivalentes a um “deus te abençoe” que indicam o culto a YHWH lado a lado com outros deuses, como Ptah, Khnum e Asherah (mais sobre isso no livro Ancient Aramaic and Hebrew Letters, editado por James M. Lindenberger & Kent Harold Richards). Há outros resquícios de referências a deuses pagãos ainda no hebraico que podem ser encontrados inclusive no texto biblico: Shamash/Utu era o deus acádio/sumério do sol, e “shemesh” (שמש) é “sol” em hebraico. Mot (m.t.), o deus do submundo, lembra “mawet” (מות), nome utilizado para personificação da morte no texto bíblico, ao passo que “met” (מת), sem o vav no meio (o caractere hebraico para o som de “v”, que é uma mater lectionis e também funciona para marcar as vogais “o” e “u”), significa “morto”. E assim por diante.

Muitos textos oficiais (a principal função da escrita, em sua origem, era provavelmente burocrática) e alguns literários foram recuperados em Ugarit. Os mais longos de que se tem notícia foram analisados e traduzidos no volume Ugaritic Narrative Poetry, organizado por Simon B. Parker (tradutores: Mark S. Smith, Simon B. Parker, Edward L. Greenstein, Theodore J. Lewis e David Marcus), que são os épicos Kirta, Aqhat e Baal. O volume, de que me vali para fazer este post, também acompanha 10 outros poemas mais curtos, dos quais um eu selecionei para traduzir para o português a partir da tradução inglesa de Theodore J. Lewis.

“O festim divino de El” (tabuleta 19.CAT1.114) é um poema bastante curioso, porque, apesar da linguagem cujas fórmulas e epítetos remetem à épica e à poesia mais solene, retrata o venerável pai dos deuses numa situação, digamos, comprometedora (ainda mais se pensarmos na relação El-YHWH): El prepara um banquete (um churrasco, a bem dizer, cena comum da épica da região), se farta de carne (servida por Yarikh, deus da lua e aparentemente um bom churrasqueiro) e vinho e talvez sexo (ah, essas lacunas do texto), depois volta cambaleante para casa, escorado por divindades menores, desmaia e dorme sobre os próprios excrementos. Athtartu (Asherah) e Anat, uma deusa adolescente que aparece também no ciclo de Baal, então vão buscar uma cura para a sua ressaca, que envolve uma planta desconhecida chamada de pqq (lembrando que o ugarítico, como o hebraico, só marca as consoantes, então, ppq poderia ser paqaqa, paqaqe, paqeqe, etc, etc), que teria essas capacidades milagrosas. Infelizmente, apesar de termos ainda uma quantidade substancial de texto, a tabuleta está danificada e com lacunas, atiçando eternamente a nossa curiosidade sobre o que mais teria nesse poema, que já é por si só lacônico e parece deixar o melhor para a imaginação. Obviamente, eu o selecionei para postar aqui hoje não só por causa do clima generalizado de ressaca de fim de ano (apesar de que isso influenciou também, é claro), mas por este ser um desses raros poemas de escopo menor – se haveria uma tradição de poesia mítica cômica na região, desconhecemos – em que a representação dos deuses é muito próxima, desbragadamente próxima, do humano, e, por isso, dotada talvez de maior curiosidade e interesse imediato para nós do que as narrativas sobre grandes reis e suas linhagens.

Adriano Scandolara

deus-El-pedra

 

O festim divino de El

El abate a caça em sua morada,
Mata as bestas em seu palácio,
Aponta aos deuses os cortes da carne

Os deuses comem e bebem
Bebem do vinho até que baste,
Da vindima até que fiquem bêbados.

Yarikh grelha o lombo como um [   ].
Agarra a sobrecoxa sob as mesas.

Para o deus que conhece,
Grelha um banquete para que se farte;
Para os deuses que desconhece,
Dá pauladas sob a mesa.

Ele se aproxima de Athtartu e Anat,
Athtartu lhe grelha um filé,
Anat assa uma costela.

O porteiro da morada de El o censura,
Que não grelhe filé para um cão,
Que não asse costela para um viralata.
Ele censura a El, seu pai, também.

El se senta…
El se assenta ao bacanal.

El bebe do vinho até que baste,
Da vindima até que fique bêbado.

El vai cambaleante até sua morada,
Tropeçando adentra seu pátio.

Thukamuna e Shunama o carregam,
Habayu então esbraveja com ele,
O dos dois chifres e um rabo.

Ele escorrega em seu esterco e urina,
El cai como um morto
El como os que descem à Terra.

Athtartu e Anat seguem para uma caçada

Athtartu e Anat…
E com elas trouxeram…
Como se sara quando se rejuvenesce.

Sobre seu cenho se deve pousar:
– pelos de cão
– a copa da planta pqq e sua haste
Misturar com o sumo de azeite virgem.

 

El’s divine feast

El slaughers game in his house,
Butchers beasts in his palace,
Bids gods to the cuts of beef.

The gods eat and drink,
Drink wine till sated,
Vintage till inebriated.

Yarikh grills the haunch like a [    ].
Grabs the hind-quarter beneath the tables.

As for the god whom he knows,
He grills fare for him to feast;
As for the god he does not know,
He strikes with sticks beneath the table.

He nears Athtartu and Anat,
Athtartu grills a steak for him,
Anat roasts a rack of ribs.

The porter of El’s house chides them,
Not to grill a steak for a dog,
Not to roast a rib for a cur.
He chides El, his father, too.

El sits…
El settles into his bacchanal.

El drinks wine till sated,
Vintage till inebriated.

El staggers into his house,
Stumbles in to his court.

Thukamuna and Shumana carry him.
Habayu then berates him,
He of two horns and a tail.

He slips into his dung and urine,
El collapses like one dead
El like those who descend to Earth.

Athtartu and Anat march off to hunt

Athtartu and Anat…
And with them they brought back…
As when one heals to return to youth.

On his brow one should put:
– hairs of a dog
– the top of a pqq-plant and its stem
Mix it with the juice of virgin oil.

(poema ugarítico anônimo, tradução de Adriano Scandolara sobre a tradução inglesa de Theodore J. Lewis)

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poesia

um ano é pouco

um ano é pouco
& claro nós
queremos mais nós
queremos muito
mais queremos tudo agora
(citando queen)
um ano é pouco mas
para nós foi
muito muito
embora cientes
que esse nosso
muito ainda
seja pouco
– a ponta do iceberg
derretida espalhada
no oceano i.e.
perdida i.e.
investida sobre
nada –

por isso nessa
nossa pequenez
megalomaníaca
4 novos poemas
maníacos
i.e. cínicos
(o riso de um falstaff)
ou melhor
cômicos mesmo
com todo mal-estar
que se possa
imaginar

guilherme gontijo flores

falstaff, de eduard von grützner

POEMAS

comédia de dores desregradas
som de um sileno insolente
tramando a própria fuga

somos o choque
de átomos cadentes e espaço
a borbulhar mundos infinitos
e sua dissolução

a procrastinar a existência
na fronteira de cada calafrio

a pairar perdido no pós
            coito da modernidade
                                      como grito engolido

a desvelar-se sob o sol do meio-dia

bernardo brandão

* * *

NEM NUM ESTRONDO
nem num suspiro este mundo termina
mas num só grande gordo metafísico
com toda papelada  do mundo
(ele a passa sem pressa
por toda extensão da sua imensa
             bunda)
com toda nossa papelada
                          inútil
& nela ele assinala todo sentido possível
todo nosso horror sob
              o signo do
                            vazio

guilherme gontijo flores

* * *

Naturalidade

Amar a natureza como mãe
megera,
o abutre (da foto premiada)
faminto rondando
a criança sudanesa
ainda mais
faminta.

E o leão marinho
estuprador
de pinguins sobre a tundra glacial.

(Nada há de mais
                            natural)

Noé enchia a cara
e não era à toa.

adriano scandolara

* * *

ode à dobradinha do gontijo

ah,
     gloriosas tripas no caldinho
dissílabo ao feijão salamalandro
ah, josé
            cachaça verborreia

entranhas dedirróseas
e poivres
           falanges mineiras

monumental orgastronômico
                              meu deus

e lá se foi um romance!

vinicius ferreira barth

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poesia, tradução

6 poemas de Jacques Prévert

Não sei vocês, mas meu primeiro, e até pouco tempo, único, contato com a poesia de Jacques Prévert havia sido um poeminha engraçadinho chamado “Mea culpa”, que transcrevo abaixo:

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grande faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe

(in Histoires)

…que traz consigo também uma discussão chata que ronda os estudos da tradução sobre a tradução de Mário Laranjeiras do poema, que, para sermos breves, considera a “girafa” (escrita errado em francês) do último verso semanticamente irrelevante – i.e. ela serve para rimar com “orthographe” e para estar escrito errada (o certo é girafe) – e a substitui por uma “bassia”, assim:

Minha culpa
Minha culpa
Minha máxima culpa em ortografia
Vejam como escrevi
Bassia

A discussão sobre se a decisão de Laranjeiras é uma boa decisão ou não e blá blá blá já foi repetida inúmeras vezes e quem tiver paciência, pode ter alguma ideia sobre ela nos artigos da primeira página de busca do google por “mea culpa” prévert laranjeiras. Eu, pessoalmente, acho válida a substituição, mas me incomoda um pouco a “bassia”… não é por nada, não, mas sinto que falta algo da expressividade sonora e da exoticidade da palavra girafa, que acho que tem a ver com a poética do Prévert. Eu pensei, talvez, em algo como harpia (arpia) ou lichia (lixia), que são mais estranhos do que uma “bacia”, mas para não fazer uma tradução que seja mera cópia de uma já existente com uma alteração do último verso, eis uma versão minha tentando manter a rima, a girafa e o erro de ortografia:

Eu errei
Eu errei
Eu errei muitíssimo como se ortografa
Olhem como escrevi
Jirafa.

Agora esqueçam este poema, que a obra do poeta é infinitamente mais rica do que este pequeno chiste.

Nascido em 1900 e morto em 1977, Jacques Prévert foi um importante membro do surrealismo francês, ao lado de Marcel Duchamp e do cofundador da Oulipo, Raymond Queneau. Ele escreveu 7 livros de poemas (Paroles, SpectacleGrand bal du printemps, La pluie et le beau temps, Histoires, Fatras e Choses et autres), alguns livros infantis e redigiu roteiros para uma dezena de filmes e animações, sobretudo para o diretor Marcel Carné, cujo filme Boulevard do Crime (Les infants du Paradis) é considerado por muitos um dos melhores do cinema francês. E ainda em se falando de aproximações com o cinema, acredito que não seria um exagero aproximar Prévert de Buñuel, não o Buñuel que todo mundo conhece de Um Cão Andaluz, mas de sua obra mais tardia como a bizarra comédia O Fantasma da Liberdade – ou poderíamos ainda aproximá-lo a filmes posteriores ainda mais bizarros como A Montanha Sagrada, de Jadorowski, e Eu irei como um cavalo louco, de Fernando Arrabal –, em que a famosa porralouquice de imagens do surrealismo se encontra carregada de uma dimensão política e de crítica social, que, convém lembrar, são parte integrante já do surrealismo, pois, afinal de contas, Prévert não só viveu e escreveu durante o período da guerra, como estava na França na época da invasão nazista. Esse é um “detalhe” que parece se perder no meio das imagens loucas de Dali que são mais prováveis de vir a mente ao se falar em “surreal”.

Seu projeto mais curioso, na minha opinião, é o livro Fatras – que, em francês significa algo como “baderna”, “bagunça”, “zona”- , de 1966, uma obra esquisita, que faz jus ao título, ao misturar poemas com imagens surreais, feitas pelo autor através de colagens, mais uns textos em prosa, que, às vezes compõem sketches teatrais, às vezes simulam colagens de frases de outras pessoas, reais ou imaginárias. Procurei algumas das imagens no google para compartilhar com vocês, para não ter que scanear o livro, e, embora não tenha achado exatamente as que eu queria, pelo menos eu as encontrei a cores (enquanto as da minha edição são em preto e branco).

Infelizmente, Prévert se encontra pouco traduzido para o português. A única edição de que tenho notícia é a da editora Nova Fronteira, entitulada simplesmente Poemas, um antologia traduzida por Silviano Santiago. Sua escolha de poemas é boa, porém a execução com frequência deixa muito a desejar, especialmente quando alguma dificuldade de tradução se apresenta. O problema principal que podemos citar é que o tradutor parece ter seguido o caminho da tradução literal, perdendo as rimas e ignorando a expressividade do vocabulário de Prévert. No poema “O meteoro”, por exemplo, Santiago traduz a palavra “éclaboussé” por “sujo”, e, embora ele não esteja errado, “sujo” me parece mais adequada para traduzir a palavra “sale” do que “éclaboussé“, cujo comprimento de 4 sílabas e o uso das consoantes sugere algo mais icônico, mais sujo… por isso optei por “lambuzado”, que acho que passa melhor essa noção.

Compartilho com vocês, então, 2 poemas da antologia de Santiago (originalmente de Histoires), em retradução minha, mais 3 poemas do 3º livro de Prévert, La pluie et le beau temps (A chuva e o tempo bom) e um de Fatras, estes inéditos. Um desses poemas, creio, merece alguma explicação sobre sua problemática de tradução, o “Sceaux d’hommes égaux morts”, cujo título, que significa literalmente “Selos de homens iguais mortos”, revela, em sua sonoridade, as palavras “Sodome et Gomorrhe“. Dois versos próximos do final do poema também repetem esse efeito e confirmam a sugestão feita pelo título: “Seaux d’eau / Mégots morts” (literalmente “Balde d’água / Bitucas mortas”), como comenta Eclair Antonio Almeida Filho, neste artigo da Revista Agulha. Daí a necessidade de quebrar um pouco com a semântica para se manter o efeito na tradução.

E, como disse, a “jirafa” lá de cima é o menos interessante por aqui.

Adriano Scandolara

O Meteoro

Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.

Le Metéore

Entre les barreaux des locaux disciplinaires
une orange
passe comme un éclair
et tombe dans la tinette
comme une pierre
Et le prisonnier
tout éclaboussé de merde
resplendit
tout illuminé de joie
Elle ne m’a pas oublié
Elle pense toujours à moi.

(in Histoires)

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

(in Paroles)

Confissão pública (Loteria crítica)

Misturamos tudo
é fato
Aproveitamos o dia de Pentecostes pra pendurar os ovos de Páscoa de São Bartolomeu na árvore de Natal do Catorze de Julho
Teve um mau efeito
Os ovos estavam vermelhos demais
A pomba se safou
Misturamos tudo
é fato
O dia e o ano o desejo e o remorso e o leite e o café
No mês de Maria que parecia o mais belo colocamos a Sexta-feira Treze e o Grande Domingo dos Camelos o dia da morte de Luís XVI o Ano terrível a Hora do amante e cinco minutos da pausa pro almoço.
E somamos sem rima nem razão nem ruína nem mansão sem fábrica e sem prisão a grande semana de quarenta horas e aquela das quatro quintas-feiras
E um minuto de baderna
por favor
Perdemos nosso tempo
é fato
Um minuto de surto de alegria de canções pra rir e ruídos e longas noites pra dormirmos no inverno com as horas suplementares pra sonharmos que é verão e longos dias pra fazermos amor e rios pra nos banhar e grandes sóis pra nos secarem
Perdemos nosso tempo
é fato
mas era um mau tempo
Avançamos o pêndulo
Arrancamos as folhas mortas do calendário
Mas não tocamos as campainhas
é fato
Só o que fizemos foi escorregar pelo corrimão das escadas
Falamos de jardins suspensos
vocês já vinham em fortalezas voadoras desbastar a cidade mais rápido do que um pequeno barbeiro desbasta a própria vila num domingo de manhã
Ruínas em vinte e quatro horas
o próprio tintureiro morre
Como você quer que se fique de luto

Confession publique (Loto critique)

Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Nous avons profité du jour de la Pentecôte pour accrocher les oeufs de Pâques de la Saint-Barthélemy
dans l’arbre de Noël du Quatorze Juillet
Cela a fait mauvais effet
Les oeufs étaient trop rouges
La colombe s’est sauvée
Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Les jours avec les années les désirs avec les regrets et le lait avec le café
Dans le mois de Marie paraît-il le plus beau nous avons placé le Vendredi treize et le Grand Dimanche des Chameaux le jour de la mort de Louis XVI l’Année
terrible l’Heure du berger et cinq minutes d’arrêt bufet.
Et nous avons ajouté sans rime ni raison sans ruines ni maisons sans usines et sans prison la grande semaine des quarante heures et celle des quatre jeudis
Et une minute de vacarme
s’il vous plaît
Une minute de cris de joie de chansons de rires et de bruits et de longues nuits pour dormir en hiver avec des heures supplémentaires pour rêver qu’on est en été et de longs jours pour faire l’amour et des rivières pour nous baigner de grands soleils pour nous sécher
Nous avons perdu notre temps
c’est un fait
mais c’était un si mauvais temps
Nous avons avancé la pendule
nous avons arraché les feuilles mortes du calendrier
Mais nous n’avons pas sonné aux portes
c’est un fait
Nous avons seulement glissé sur la rampe de l’escalier
Nous avons parlé de jardins suspendus
vous en étiez déjà aux forteresses volantes
et vous allez plus vite pour raser une ville que le petit
barbier pour raser son village un dimanche matin
Ruines en vingt-quatre heures
le teinturier lui-même en meurt
Comment voulez-vous qu’on prenne le deuil

A riviera

Teus jovens seios brilhavam ao luar
Mas arremeti o
Gelo frio
Da pedra gélida do ciúme
Contra o rio
Que refletia o
Dançar de tua nudez na riviera
Pelo esplendor do estio.

La rivière

Tes jeunes seins brillaient sous la lune
Mais il a jeté
Le caillou glacé
La froide pierre de la jalousie
Sur le reflet
De ta beauté
Qui dansait nue sur la rivière
Dans la splendeur de l’été.

Soldados mas iguais morrem

Nas nádegas do chefe decapitado estava tatuado o nome familiar do soldado
e o nome do chefe estava tatuado no peito do homem fuzilado
Nos dedos crispados e enlaçados parecia ainda haver algum calor
Misoginia mãe das guerras
Xícaras e talheres
O sol doma
Ego mor
Dois corpos nos escombros
sob a sombra do pudor.

Sceaux d’hommes égaux morts

Sur les fesses du chef décapité était tatoué le prénom du soldat familier
et le prénom du chef était tatoué sur la poitrine de son homme fusillé
Leurs mains enlacées et crispées faisaient semblant de vivre encore
Misogynie mère des guerres
Tasses et théières
Seaux d’eau
Mégots morts
Deux corps sous les décombres
dans l’ombre du décor.

(in La pluie et le bon temps)

O bailado velado

Na encruzilhada impossível da imobilidade
uma turba de objetos inertes
não consegue parar de se mover fremir dançar
E os carteiros do vento
como os do mar
espalham a correspondência aqui e lá
Cada coisa sem dúvida se destina a alguém
       ou a alguma coisa talvez
A pluma da ave
como a concha da ostra
a cruz da legião de honra
como a estrela do mar
ou a pinça do siri e a âncora da fragata
a perereca verde de lata
e a boneca de som
e a coleira do cão
E nesta paisagem onde nada parecia se mexer
exceto a vela do náufrago na lanterna em ferrugem
é o bailado velado
o bailado dos objetos inanimados.

La fête secrète

Au carrefour impossible de l’immobilité
une foule d’objets inertes
ne cesse de remuer de frémir de danser
Et les facteurs du vent
comme ceux de la marée
éparpillent le courrier
Chaque chose sans doute est destinée à quelqu’un
       ou à quelque chose peut-être
La plume de l’oiseau
comme l’écaille de l’huître
la croix de la légion d’honneur
comme l’étoile de mer
ou la patte du crabe et l’ancre du navire
la grenouille de fer vert
et la poupée de son
et le coller du chien
Et dans ce paysage où rien ne semble bouger
sauf la bougie du naufrageur dans la lanterne rouillée
c’est la fête secrète
la fête des objets.

(in Fatras)

Traduções de Adriano Scandolara.

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poesia

registro do pedido eneassilábico de um croissant de chocolate pela senhora gordinha ao atendente da cantina presenciado e transcrito pelo poeta que esperava na fila e ouvia sem pudores – vinicius ferreira barth

hilda5

é dieta
             rapaz
                       é saúde
corpo são
            (hahaha)
                       mente sã

me veja uma coquinha
                        com gelo
e o chocolate
             mas sem croissant

Vinicius Ferreira Barth

Padrão
poesia

mensagem fragmentária do poeta psicografada pelo outro poeta no exato momento de sua transmissão, ou simplesmente dó… – vinicius ferreira barth

caros, hoje inauguramos a geringonça conhecida por soundcloud, que nos proporcionará a leitura e gravação de alguns poemas. perdi um tempo aqui aprendendo a usar o troço e farei a honra de meter-lhes o negócio no ar. aproveitando ainda pra homenagear o grande pessoa, que me ditou pessoalmente esse poeminha lá do inf… céu. creio que em breve outros trabalhos dos nossos integrantes, que não são bestas nem nada, aparecerão por aqui via oral.
p.s.: inseri neste post a tag ‘audio’, que deverá acompanhar os demais posts sonoros, o que facilitará a localização pra quem sem interessar.

mensagem fragmentária do poeta psicografada pelo outro poeta no exato momento de sua transmissão, ou simplesmente

dó…

peguei no meu …
e pu-lo na minha mão

olhei-o como quem olha
grãos … … ou … …

olhei-o pávido e absorto
como quem sabe estar morto

… … só como…
… … … pouco … …

Vinicius Ferreira Barth

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crítica, poesia

marcelo sandmann

marcelo sandmann (curitiba, 1963) é professor da ufpr, poeta e compositor. sua produção, por enquanto, ainda é pequena e pode ser degustada num dia, desde que se aceite que alguns sabores precisam de mais tempo, pro caso – necessário – de maturação, ou curtição, como o couro, que, trabalhado, acaba por ganhar aquele cheiro típico, que pros enólogos é algum tipo de sinal de reverência a qualidades quase transcedentais, junto com baunilha, frutados, caramelo, ou coisa que o valha.

mas eu perdi o fio da meada. voltando pra poesia de sandmann, ao contrário dos enólogos, ela é toda irreverência, daquele tipo leve e ridente, o que não implica em nada a falta de labor, em muitos pontos numa estética que recorda alguns trabalhos de josé paulo paes. mas é claro que não se limita a isso, e um dos pontos fortes da sua poesia é exatamente a variação de estilo, temas, ou modulações possíveis da leveza. por isso, na minha escolha por um só poema, creio que não posso dar uma boa do que é ler uma série de poemas de sandmann.

então façamos assim. eu paro de escrever e faço só duas coisinhas: deixo as obras, pra vocês – os não preguiçosos, claro – procurarem e curtirem, ou curarem, ou degustarem, ou devorarem; e, falando em comida, deixo também o “pato ao tucupi”.

OBRAS :

cantos da palavra (CD, em parceria com benito rodriguez), 1998
lírico renitente, 7letras, 2000.
criptógrafo amador, medusa, 2006. donde sai este “pato”

p.s.: não me aguentei. um comentário sobre o “pato ao tucupi”, que já é longo: o poema me atraiu de pronto na primeira vez que o li, pela sua duplicidade cômica. por um lado, sandmann faz uso da oitava rima, uma forma tradicional do épico camoniano e que dá um puta dum trabalho (ô se dá, tentem pra ver); porém um puta dum trabalho em nada gratuito. basta ver que enlaçado a ela está um estilo rápido, dialógico e de todo contemporâneo. é nessa duplicidade que se dá o cômico poético, mas não só nisso. há dois acontecimentos simultâneos: a incoveniência do tema (um quê de pedofilia ou crise de meia idade com tara e drogas) conveniente à linguagem, que, anacrônica ao metro, estabelece essa dúplice relação poética na forma, se eu fosse um bom estruturalista, de um triângulo. nos momentos em que ela se torna propriamente pseudocamoniana (isso mesmo, “propriamente pseudocamoniana”, e não “propriamente camoniana”) é que ela expressa um modo heroico possível do nosso tempo.

vejam versos como : “À língua perfurava fero pierci'”, em que pierci’ rima com Circe (rima tão rica vale mais do que dinheiro!), ou “Dispor propus a todos grana preta: / Alguém cascou-me o casco da escopeta”, em que a sintaxe é revista pelo vocabulário, e o próprio contexto, fundido à métrica, cria a naturalidade necessária para o seu funcionamento.

pronto, paro por aqui.

guilherme gontijo flores

PATO AO TUCUPI

 (uma breve digressão herói-cômica)

“Well, she was just seventeen,

You know what I mean”

 (“I saw her standing there” – Lennon & McCartney)

 

“A soma dos quadrados dos catetos

É igual ao quadrado da hipotenusa”.

Assim foi me dizendo, em tom faceto,

Enquanto desabotoava a blusa.

Eu, de natural um tanto obsoleto,

Com medo de encarar ali Medusa,

Os olhos para o teto desviei.

Mas em vão, que um espelho vislumbrei!

 

Ela, que rubor algum maculava,

Fitando em minhas faces forte pejo,

Já larga gargalhada desatava,

Finda a qual, sapecou-me honesto beijo.

Se do amplexo fatal eu me esquivava,

Nas gingas imitando o caranguejo,

Mais e mais ela a mim arremetia,

Decidida a pôr fim à carestia.

 

Como leoa esfaimada que deixa

Seus cachorrinhos todo um dia ao léu;

Léguas e léguas percorre, sem queixa,

Sob sol rigoroso no ancho do céu;

Té que manada cerque, que desleixa

Tenra rês em meio ao grosso escarcéu;

Da pobre no dorso as garras cravando

E na garganta as presas incrustando:

 

Tal e qual ela ali me acarinhou.

Ou das vodcas com limão que libamos,

Que Diônisus Polaco prostrou;

Ou do vidro de rollmops que emborcamos,

Quitute que Tiestes desdenhou;

Sobre estar eu há muito entrado em anos:

Quanto mais junto a mim já se inclinara,

Tanto mais do escrutínio eu declinara.

 

Canta-me a cólera, ó Musa, daquela

Pequena, dir-se-ia vera Circe,

Que ao artelho premia jóia bela,

À língua perfurava fero pierci’,

Tatuada do cachaço às canelas

(Quem pudera dali, então, partir-se?),

Logo a mim metamorfo me querendo

Em pato ao tucupi, ó caso horrendo!

 

“Ora sus!”, trovejou, a cavaleiro.

Mas por mais que eu vibrasse na rabeca,

O som saía cavo e não brejeiro.

Levar prevendo eu cá uma fubeca

E a fama conquistar de potoqueiro,

Palpar-lhe ofereci por ceca e meca,

E quando já adentrava Santarém:

Ai-meu-Jesus-José-Maria-amém!

 

(Em lendo, acaso, o derradeiro dístico,

Julgar, leitor, que um tanto já me excedo,

Eu juro: meu intuito é cabalístico,

Que prezo de ser sublimado aedo.

Pesar pois do pendor folhetinístico,

Deveras, qu’ele-o-há, isso eu concedo,

Matéria assaz subida e meritória

Subjaz lá nos desvãos da nossa história.)

 

No couro, enfim, convindo que eu não dava,

No couro, sim, quis dar-me, por desplante.

Co’a meia com que os pés agasalhava,

Meus pulsos preste atava, ó terna amante!

Saca da saia a cinta, fibra brava.

Zurze já o frigobar, febricitante.

Mas antes que lambasse por detrás:

“Cruz-credo! Te arrenego, Satanás!”

 

Ó, que não sei de nojo como o conte!

Agora que me vi predestinado

Ao carro, só, tirar de Automedonte,

Ai!, crendo-me mui firme e bem picado,

Ei-la: faz-se de serpe aglifodonte.

Maldito o malo dia em que fui nado!

Que a ver se recobrava a robustez,

Nas artes confiava do Marquês.

 

Pois ela, no nariz já me afagando,

“Benzinho”, disse assim, “deixa pra lá!”

E a crua tessitura desatando,

Bem certa de não ver-me ao deus-dará,

Ao colo, muito casto e muito brando

(Menina que aninhasse o seu preá),

A mim de modo terno recebeu,

E ao prélio descanso breve ora deu.

 

Juntinhos, bem juntinhos sobre o tálamo

(A tudo, enfim, supera a pura estima!),

As unhas, deslizando como cálamo

(A quanto não obriga o amor da rima!),

Furunc’lo lacerou. Reclamo: “Ai, amor!”

(E nova vez maculo est’obra-prima.

Pois onde lá me falham consoantes,

Eu meto, sem piscar, tonitruantes.)

 

Passada esta propícia moratória,

Havendo dos trabalhos repousado,

Cioso de evitar objurgatória,

À pugna, pois, me fiz reconvocado.

Às artes recorrendo da oratória,

Expus algum receio bem fundado.

Da bolsa ela boceta retirou,

Que tal a de Pandora se mostrou.

 

Grânulos brancos de pequena ampola

Sobre caco de cristal esparzia,

Em que a pintura, a fim de recompô-la,

Do rosto ali mirar lesta soía.

“Pões-te logo a arrulhar, pequena rola,

Ufana de ciscar fina iguaria!”

Com lâmina, que penugem estirpava,

Estreitos, seis carreiros perfilava.

 

Qual hexagrama ch’ien, o criativo,

Que ao próprio céu semelha tem a imagem;

Que àquele a quem, em lance consultivo,

Tirar coube da sorte na triagem

Já favorece, pois, por forte e ativo,

Perseverante e inflo de coragem:

O esquisso tal ali foi debuxando,

Eflúvios positivos instilando.

 

Cédula de cem mangos requestou,

Que um tanto a contragosto forneci.

Nos dedos, já bem hábeis, enrolou,

Canudo muito fino obtendo aqui.

Um extremo à fossa destra achegou

Do nariz; o outro depôs bem ali

Onde o primeiro carreiro se via.

Num relance, por inteiro o sorvia.

 

Tais passos segui, de fio a pavio,

Fiado, ao fim, de alcançar salvação.

Varado fui por súbito arrepio,

A que seguiu-se forte comichão.

Privado assim de qualquer alvedrio

(Toldado se via o sol da razão),

Presto, terceira trilha palmilhei:

Piparote prestíssmo tomei.

 

Co’as mentes afiladas a estilete,

Convictos de rasgar todo o ilusório,

Sentamo-nos em lótus no tapete,

Início dando logo ao parlatório.

Idéias vêm e vão em ricochete,

Imagens de fulgor fulminatório,

Conceitos entre si tão concertados,

Que cá ficamos nós desconcertados.

 

Paroxismos de intelectivo gozo

Coroavam a festa dos sentidos.

Iluminações em fluxo assombroso,

Transubstanciações de toda a libido.

Mas quando, enfim, o Verbo portentoso

Já nada ocultava a nossos ouvidos,

Ouvimos algures um forte rataplã,

Pancadas abruptas: pam! pam! pam! pam!

 

Fora dos gonzos, a porta esboroa.

“Parado todo mundo, documento!”

Quatro gorilas pós uma elefoa

Congestionavam nosso apartamento.

“Uchoa, junta as roupa’ do coroa”,

Disse aquela, de um modo virulento.

Este, recém-fardado cabo-mor:

“A mina, capitão, é de-menor.”

 

(A menos que enganado muito esteja,

À estrofe acima cabe revisão,

Já pelo emaranhado que sobeja,

Já pelo mistifório em profusão.

Ai de quem na gramática manqueja!

Por mais que brote o estro em borbotão,

Se num lapso mero acento esquecesse,

Logo excluso de Parnaso vivesse.)

 

Três lanços nós descemos, manietados,

Vestidos só c’orvalho madrugueiro,

Contritos, cabisbaixos, mui vexados,

Cercados por aqueles perdigueiros.

De minha amiga vi-me separado;

Trancado fui em camburão coiceiro.

Dispor propus a todos grana preta:

Alguém cascou-me o cabo da escopeta.

 

Memória inda metida em torvelim,

A nuca dolorida e latejando,

Aos poucos, de mansim, assim-assim,

Do transe atroz me fui recuperando.

A tudo explicar, tintim por tintim,

Em torpe distrito foram-me instando.

Jurando haver ali crocodilagem,

Incluso já me vi na carceragem.

 

Quiçá tivesse ao fim eu boa xênia!

Já séc’lo e meio empós a escravidão,

Mesclada sempre mais nossa progênia,

Conceitos, preconceitos em questão,

Aos afro-descendentes peço vênia:

A cela estava cheia de negão!!!

Quem vai orar por mim, ó alma minha?

Acaso, minha mãe, eu sou neguinha?

 

O que ali dentro depois sucedeu

É segredo que guardo cá comigo.

Por que bramar que Deus nos esqueceu,

Que foi o Demo quem nos deu abrigo?

Ao fim e ao cabo, sim, tudo valeu,

Mormente quando safos do perigo.

Em breve, pois, aqui, segunda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

(marcelo sandmann)

 

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