tradução

Mario Pera, por Nina Rizzi

Mario_Pera_Ruido_blanco

Mario Pera, poeta e ensaísta peruano. Formado em Direito pela Universidad de Lima e em Desenho Gráfico pelo IPAD (Peru). Foi coeditor da Editora Magreb. Diretor da Revista Literária Digital Vallejo & Co., e da editora de mesmo nome. Em 2013 obteve o Premio Ilustre Municipalidad de Cuenca no Festival de la Lira (Equador). Publicou os livros de poemas Preparaciones anatómicas (2009), Ruido Blanco (2011, 2015, 2016), Mirando sobre el heno, Muestra de poesía peruana reciente (2014), The Most Natural Thing. New American Poetry (2015, junto a David Keplinger) e Y habrá fuego cayendo a nuestro alrededor (2018); os ensaios Fare l’America or learn to live in it? Italian immigration in Peru (2012) e Comunicaciones marcianas. Revista Amauta, a 90 años de la vanguardia peruana 1926-2016 – Una muestra (na prensa, em conjunto com Roger Santiváñez).

Conheci Mario Pera em 2016, quando traduzia alguns poemas de Guilherme Gontijo Flores para a antologia “Inventar la felicidad” (e-book da Vallejo & Co., do Peru), e então me tornei leitora da revista. A convite do Suplemento Literário de Minas Gerais, traduzi uma leva de seus poemas para a edição setembro/ outubro, 2018; gostei tanto que trouxe outros três, os poemas abaixo, aqui pra escamandro.

nina rizzi

*

Oração do clochard moribundo

Três manchas de merda
revelam meu rosto melhor que qualquer fotografia
ao menos esse sou eu, digo
um adorador egocêntrico
a lepra no cu da minha família
o rosário da minha mãe
que arde debaixo do meu travesseiro

e todas as cruzes
escorregam do meu cangote desorientadas
enquanto ouço cair suas orações num saco vazio
e no meu sonho mais calmo
vejo que Lima arde, minha família arde
este poema entre tuas mãos
arde
meus ossos se empolam
e meu sangue se afina até se transformar
em cordas muito finas que me enforcam.

Sempre fui um péssimo filho
sou agnóstico e me masturbo, mas
meu sangue jamais nutriu
o ideal de outro corpo.

Um abutre velho me observa
e canta um estribilho alegre
onde se ergue a árvore de Judas
eu também sou um traidor, respondo
vendi meu nome e minha voz
e sufoquei eternamente
o pranto da minha mãe.

Pela primeira vez
transpira em frente à Cruz
um homem que já morreu.

 

Oración del clochard moribundo

Tres manchas de mierda
develan mi rostro mejor que cualquier fotografía
al menos ese soy yo, digo
un adorador egocéntrico
la lepra en el culo de mi familia
el rosario de mi madre
que arde bajo mi almohada

y todas las cruces
resbalan de mi cogote desorientadas
mientras oigo caer sus oraciones en saco roto
y en mi sueño más calmo
veo que Lima arde, mi familia arde
este poema entre tus manos
arde
mis huesos se ampollan
y mi sangre adelgaza hasta convertirse
en cuerdas muy delgadas que me ahorcan.

Siempre fui un mal hijo
soy agnóstico y me masturbo, pero
mi sangre jamás nutrió
el ideal de otro cuerpo.

Un buitre viejo me observa
y canta un estribillo alegre
donde se yergue el árbol de Judas
yo también soy un traidor, respondo
vendí mi nombre y mi voz
la enclaustré eternamente
en el llanto de mi madre.

Por primera vez
suda frente a la Cruz
un hombre que ya ha muerto.

§

 

Brecht entre clavelinas

 I
Sentado e com as mãos sujas
pensou que era um velho estúpido
mais uma daquelas placas de mármore da praça
que puderam ser talhadas com melhor arte para conseguir um Davi
uma Vênus
ou outra deusa de seios sutis
e nádegas avultadas
porém em algum momento seu destino sofreu um desvio
sua divindade tropeçou no bico do formão
e com cada estalo sua pele foi esmigalhada
como um totem incapaz de profanar seu próprio culto.
Aquele revés se fez indelével
e com o passar do tempo teve que se conformar em ser
mais um bloco da pracinha ou
o ignorado detalhe
onde cagam os pombos.

II
Sentado
observou o asfixiar do dia no ocaso
e desejou guardar suas dúvidas
na felicidade de outros
no monte de palavras que ano a ano
nomeou como algo importante, quase urgente
o eterno espiral de perguntas
que talhou na memória de sua boca
a matutina barbárie de uma frase:
Você que me deu a palavra
agora só estorva minha língua
toda vez que a invoca.

 

Brecht entre clavellinas

I
Sentado y con las manos sucias

pensó que era un viejo estúpido
una más de aquellas losas de mármol de la plaza
que pudieron ser talladas con mejor arte para lograr un David
una Venus
u otra diosa de senos sutiles
y nalgas abultadas
pero en algún momento su destino sufrió un desvío
su divinidad tropezó en el pico del cincel
y con cada crujido su piel fue burilada
como un tótem incapaz de profanar su propio culto.
Aquel revés se hizo indeleble
y con el paso del tiempo tuvo que conformarse con ser
un bloque más de la plazuela o
el ignorado detalle
donde cagan las palomas.

II
Sentado

observó el asfixiar del día en el ocaso
y deseó guardar sus dudas
en la felicidad de otros
en la ruma de palabras que año a año
nombró como algo importante, casi urgente
el eterno espiral de preguntas
que talló en la memoria de su boca
la matutina barbarie de una frase:
Tú que me diste la palabra
ahora solo estorbas mi lengua
cada vez que la invocas.

§


Mirmillón: requiescat in pace

Sou apenas
uma das grades da tua prisão,
que observa como
com o passar do tempo,
teu rosto se desgasta e
se descasca
teu olhar.

Fui testemunha,
de como a folhagem vasta que eram tuas expressões
se enrugaram
e envelheceram
como um ancião
enquanto florescia o outono.

Tantos anos cativo
te deformaram o rosto.
Tua triste colheita
amadureceu e
nasceu,
entre aplausos e aclamações,
seca e sem nome.

 

Mirmillón: requiescat in pace

Solo soy
uno de los barrotes de tu prisión,
que observa cómo
con el correr del tiempo,
se desgasta tu rostro y
se descascara
tu mirada.

He sido testigo,
de cómo el follaje vasto que eran tus expresiones
se ha arrugado
y ha envejecido
como un anciano
mientras floreció el otoño.

Largos años cautivo
te han deformado el rostro.
Tu triste cosecha
ha madurado y
ha nacido,
entre aplausos y vítores,
seca y sin nombre.

***

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Padrão
poesia, tradução

Blanca Varela (1926—2009), por Daniel Paiva

Blanca Varela (10 de agosto de 1926, Lima, Peru — 12 de março de 2009, Lima, Peru) é considerada uma das vozes mais significativas da lírica hispano-americana no século XX. Suas obras se inscrevem no Movimento Surrealista e na chamada Geração de 50 da poesia peruana.

Em 1943, Blanca ingressou na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, para estudar Letras e Educação. Nesta universidade, conheceu seu futuro esposo, o pintor Fernando de Szyszlo, com quem teve dois filhos.

A partir de 1947, começou a colaborar na revista Las Moradas, dirigida pelo poeta surrealista e ensaísta Emilio Adolfo Westphalen.

Mudou-se para Paris em 1949, onde entraria em contato com a vida artística e literária, guiada por Octavio Paz, figura determinante em sua carreira literária. Deste período data também o início de sua amizade com figuras como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Henri Michaux.

Após uma longa temporada na capital francesa, Blanca viveria em Florença e, depois, em Washington, cidades onde se dedicaria à tradução e a eventuais trabalhos jornalísticos.

Em 1962, regressaria a Lima, onde se estabeleceu definitivamente, fazendo viagens ocasionalmente para os Estados Unidos, Espanha e França.

Blanca foi condecorada com a Medalha de Honra pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru. Tornou-se a primeira mulher a ganhar o Premio Internacional de Poesía Federico García Lorca. Durante a cerimônia de entrega do prêmio, em 10 de maio de 2007, Blanca seria anunciada como ganhadora da XVI edição do Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana.

Desde sua estreia, com o livro Ese puerto existe (1959), a obra poética de Blanca Varela se caracteriza por uma escritura exigente, escritura do desejo e também escritura do desastre, que configura um jogo de forças e de pulsões que a dinamizam.

A formação de Blanca passa também por sua imersão em universos artísticos que vão da canção popular à pintura contemporânea, que, juntamente com o existencialismo, exerceriam grande influência sobre a elaboração de uma poética fortemente imagética, para o que contribui a inserção do transcendental e do animal.

Entre seus títulos publicados, destacam-se ainda Luz de día (1963), Valses y otras falsas confesiones (1971), Ejercicios materiales (1978), Concierto animal (1991) e El falso teclado (2001).

Daniel Paiva nasceu e vive em Juiz de Fora (MG). Possui graduação em Letras — Língua Portuguesa e suas Literaturas e Língua Inglesa e suas Literaturas — pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, da Faculdade de Letras da UFJF (FALE/UFJF). Trabalha principalmente com os seguintes temas: Literatura e Filosofia; Literatura e Transdisciplinaridade; Literatura, Intertextualidades e Outras Manifestações Culturais. e-mail: danielpvjf20@yahoo.com.br

* * *

Assim seja

O dia fica para trás,
mal consumido e já inútil.
Começa a grande luz,
todas as portas se abrem diante de um homem
adormecido,
o tempo é uma árvore que não para de crescer.

O tempo,
a grande porta entreaberta,
o astro que cega.

Não é com os olhos que se vê nascer
essa gota de luz que será,
que foi um dia.

Canta abelha, sem pressa,
percorre o labirinto iluminado,
de festa.

Respira e canta.
Onde tudo termina abre as asas.
És o sol,
o aguilhão da aurora,
o mar que beija as montanhas,
a claridade total,
o sonho.

Así sea

El día queda atrás,
apenas consumido y ya inútil.
Comienza la gran luz,
todas las puertas ceden ante un hombre
dormido,
el tiempo es un árbol que no cesa de crecer.

El tiempo,
la gran puerta entreabierta,
el astro que ciega.

No es con los ojos que se ve nacer
esa gota de luz que será,
que fue un día.

Canta abeja, sin prisa,
recorre el laberinto iluminado,
de fiesta.

Respira y canta.
Donde todo se termina abre las alas.
Eres el sol,
el aguijón del alba,
el mar que besa las montañas,
la claridad total,
el sueño.

§

Máscara de algum Deus

Frente a mim esse rosto lunar.
Nariz de prata, pássaros na frente.

Pássaros na frente?

E logo há vermelho
e tudo o que a terra esquece.
Umidade com poderes de fogo
florescendo por trás dos negros cílios.
Um rosto na parede.
Detrás do muro, além de toda vontade,
mais longe ainda que olhar e calar:
o quê?

Sempre há algo a romper, abolir ou temer?
E do outro lado? Ao contrário?

Voa a mão, nasce a linha,
vibrante destino, negro destino.
Por um instante a melodia é clara,
parece eterna a tarde,
puríssima a sombra do céu.

Volto outra vez. Pergunto.
Talvez esse silêncio diga algo,
é uma imensa letra que nos nomeia e contém
em seu ar profundo.
Talvez a morte detrás desse sorriso
seja amor, um gigantesco amor
em cujo centro ardemos.

Talvez o outro lado exista
e seja também o olhar
e tudo isto seja o outro
e aquilo isto
e sejamos uma forma que muda com a luz
até ser só luz, só sombra.

Máscara de algún Dios

Frente a mí ese rostro lunar.
Nariz de plata, pájaros en la frente.

¿Pájaros en la frente?

Y luego hay rojo
y todo lo que la tierra olvida.
Humedad con poderes de fuego
floreciendo tras las negras pestañas.
Un rostro en la pared.
Detrás del muro, más allá de toda voluntad,
más lejos todavía que mirar y callar:
¿qué?

¿Siempre hay algo que romper, abolir o temer?
¿Y al otro lado? ¿Al revés?

Vuela la mano, nace la línea,
vibrante destino, negro destino.
Por un instante la melodía es clara,
parece eterna la tarde,
purísima la sombra del cielo.

Vuelvo otra vez . Pregunto.
Tal vez ese silencio dice algo,
es una inmensa letra que nos nombra y contiene
en su aire profundo.
Tal vez la muerte detrás de esa sonrisa
sea amor, un gigantesco amor
en cuyo centro ardemos.

Tal vez el otro lado existe
y es también la mirada
y todo esto es lo otro
y aquello esto
y somos una forma que cambia con la luz
hasta ser sólo luz, sólo sombra.

§

Persona

o querido animal
cujos ossos são uma recordação
um sinal no ar
jamais teve sombra nem lugar

da cabeça de um alfinete
pensava
ele era o brilho ínfimo
o grão de terra sobre o grão
de terra
o autoeclipse

o querido animal
jamais para de passar
me contorna

Persona

el querido animal
cuyos huesos son un recuerdo
una señal en el aire
jamás tuvo sombra ni lugar

desde la cabeza de un alfiler
pensaba
él era el brillo ínfimo
el grano de tierra sobre el grano
de tierra
el autoeclipse

el querido animal
jamás cesa de pasar
me da la vuelta

§

Curriculum vitae

digamos que ganhaste a corrida
e que o prêmio
fosse outra corrida
que não bebeste o vinho da vitória
mas teu próprio sal
que jamais escutaste ovações
mas latidos de cães
e que tua sombra
tua própria sombra
foi tua única
e desleal concorrente.

Curriculum vitae

digamos que ganaste la carrera
y que el premio
era otra carrera
que no bebiste el vino de la victoria
sino tu propia sal
que jamás escuchaste vítores
sino ladridos de perros
y que tu sombra
tu propia sombra
fue tu única
y desleal competidora.

§

Segredo de família

sonhei com um cachorro
com um cachorro esfolado
cantava seu corpo seu corpo vermelho silvava
perguntei ao outro
ao que apaga a luz ao açougueiro
o que aconteceu
por que estamos às escuras

é um sonho estás sozinha
não há outro alguém
a luz não existe
tu és o cachorro tu és a flor que ladra
aguça docemente tua língua
tua doce língua negra de quatro patas

a pele do homem se queima com o sonho
arde desaparece a pele humana
só a polpa vermelha do cão é limpa
a verdadeira luz habita sua remela
tu és o cachorro
tu és o cão esfolado de cada noite
sonha contigo mesma e basta

Secreto de familia

soñé con un perro
con un perro desollado
cantaba su cuerpo su cuerpo rojo silbaba
pregunté al otro
al que apaga la luz al carnicero
qué ha sucedido
por qué estamos a oscuras

es un sueño estás sola
no hay otro
la luz no existe
tú eres el perro tú eres la flor que ladra
afila dulcemente tu lengua
tu dulce negra lengua de cuatro patas

la piel del hombre se quema con el sueño
arde desaparece la piel humana
sólo la roja pulpa del can es limpia
la verdadera luz habita su legaña
tú eres el perro
tú eres el desollado can de cada noche
sueña contigo misma y basta

§

Casa de corvos

porque te alimentei com esta realidade
mal cozida
por tantas e tão pobres flores do mal
por este absurdo voo ao rés do pântano
eu te absolvo de mim
labirinto filho meu

não é tua a culpa
nem minha
pobre pequeno meu
do qual fiz este impecável retrato
forçando a obscuridade do dia
pálpebras de mel
e a bochecha constelada
fechada a qualquer toque
e a formosíssima distância
de teu corpo
tua náusea é minha
herdaste-a como herdam os peixes
a asfixia
e a cor de teus olhos
é também a cor de minha cegueira
sob a qual sombras tecem
sombras e tentações
e é minha também a pegada
de teu calcanhar estreito
de arcanjo
mal passado na janela entreaberta
e nossa
para sempre
a música estrangeira
dos céus batentes
agora leãozinho
encarnação do meu amor
brincas com meus ossos
e te ocultas entre tua beleza
cego surdo irredento
quase saciado e livre
com teu sangue que já não deixa lugar
para nada nem ninguém

aqui me tens como sempre
disposta à surpresa
de teus passos
a todas as primaveras que inventas
e destróis
a estender-me — nada infinita —
sobre o mundo
erva cinzenta peste fogo
o que queiras por um olhar teu
que ilumine meus restos
porque assim é este amor
que nada compreende
e nada pode
bebes o filtro e dormes
nesse abismo cheio de ti
música que não vês
cores ditas
longamente explicadas ao silêncio
misturadas como se misturam os sonhos
até esse torpe gris
que é despertar
na grande palma de deus
calva vazia sem extremos
e lá te encontras
sozinha e perdida em tua alma
sem mais obstáculo que teu corpo
sem mais porta que teu corpo
assim este amor
um só e o mesmo
com tantos nomes
que a nenhum responde
e tu olhando-me
como se vai a luz do mundo
sem promessas
e outra vez este prado
este prado de negro fogo abandonado
outra vez esta casa vazia
que é meu corpo
onde não hás de voltar

Casa de cuervos

porque te alimenté con esta realidad
mal cocida
por tantas y tan pobres flores del mal
por este absurdo vuelo a ras de pantano
ego te absolvo de mí
laberinto hijo mío

no es tuya la culpa
ni mía
pobre pequeño mío
del que hice este impecable retrato
forzando la oscuridad del día
párpados de miel
y la mejilla constelada
cerrada a cualquier roce
y la hermosísima distancia
de tu cuerpo
tu náusea es mía
la heredaste como heredan los peces
la asfixia
y el color de tus ojos
es también el color de mi ceguera
bajo el que sombras tejen
sombras y tentaciones
y es mía también la huella
de tu talón estrecho
de arcángel
apenas pasado en la entreabierta ventana
y nuestra
para siempre
la música extranjera
de los cielos batientes
ahora leoncillo
encarnación de mi amor
juegas con mis huesos
y te ocultas entre tu belleza
ciego sordo irredento
casi saciado y libre
con tu sangre que ya no deja lugar
para nada ni nadie

aquí me tienes como siempre
dispuesta a la sorpresa
de tus pasos
a todas las primaveras que inventas
y destruyes
a tenderme — nada infinita —
sobre el mundo
hierba ceniza peste fuego
a lo que quieras por una mirada tuya
que ilumine mis restos
porque así es este amor
que nada comprende
y nada puede
bebes el filtro y te duermes
en ese abismo lleno de ti
música que no ves
colores dichos
largamente explicados al silencio
mezclados como se mezclan los sueños
hasta ese torpe gris
que es despertar
en la gran palma de dios
calva vacía sin extremos
y allí te encuentras
sola y perdida en tu alma
sin más obstáculo que tu cuerpo
sin más puerta que tu cuerpo
así este amor
uno solo y el mismo
con tantos nombres
que a ninguno responde
y tú mirándome
como si no me conocieras
marchándote
como se va la luz del mundo
sin promesas
y otra vez este prado
este prado de negro fuego abandonado
otra vez esta casa vacía
que es mi cuerpo
a donde no has de volver

§

As coisas que digo são certas

Um astro explode em uma pequena praça e um pássaro perde os olhos e cai. Ao redor dele os homens choram e veem chegar a nova estação. O rio corre e arrasta entre seus braços frios e confusos a matéria escura acumulada por anos e anos atrás das janelas.
Um cavalo morre e sua alma voa para o céu sorrindo com seus grandes dentes de madeira manchada pelo orvalho. Mais tarde, entre os anjos, lhe crescerão asas negras e sedosas para espantar as moscas.
O que é que chega, que se precipita de cima e enche de sangue as folhas e de escombros dourados as ruas?
Sei que estou doente de um mal profundo, cheio de uma água amarga, de uma febre inclemente que silva e espanta a quem a escuta. Meus amigos me deixaram, meu papagaio já morreu, e não posso evitar que as pessoas e os animais fujam ao olhar para o terrível e negro resplendor que deixa meu passo nas ruas. Hei de almoçar só sempre. É terrível.

Las cosas que digo son ciertas

Un astro estalla en una pequeña plaza y un pájaro pierde los ojos y cae. Alrededor de él los hombres lloran y ven llegar la nueva estación. El río corre y arrastra entre sus fríos y confusos brazos la oscura materia acumulada por años y años detrás de las ventanas.
Un caballo muere y su alma vuela al cielo sonriendo con sus grandes dientes de madera manchada por el rocío. Más tarde, entre los ángeles, le crecerán negras y sedosas alas con qué espantar a las moscas.
Todo es perfecto. Estar encerrado en un pequeño cuarto de hotel, estar herido, tirado e impotente, mientras afuera cae la lluvia dulce, inesperada.
¿Qué es lo que llega, lo que se precipita desde arriba y llena de sangre las hojas y de dorados escombros las calles?
Sé que estoy enfermo de un pesado mal, lleno de un agua amarga, de una inclemente fiebre que silba y espanta a quien la escucha. Mis amigos me dejaron, mi loro ha muerto ya, y no puedo evitar que las gentes y los animales huyan al mirar el terrible y negro resplandor que deja mi paso en las calles. He de almorzar solo siempre. Es terrible.

§

“Lady’s journal”

o camundongo te contempla extasiado
a aranha não se atreve a descer nem um
milímetro mais à terra
o café é um espectro azul sobre
a boca do fogão
disposto a desaparecer para sempre

oh sim minha querida
são sete da manhã
levanta menina
arruma teu cabelo na fotografia
mostra tua fronte teu sorriso
sorri ao lado do menino que se
parece contigo

oh sim fazes como podes
e és idêntica à felicidade
que jamais envelhece

fica quieta
nesse paraíso
ao lado do menino que se parece contigo
são sete da manhã
é a hora perfeita para começar
a sonhar
o café será eterno
e o sol eterno
se não te moves
se não despertas
se não viras a página
em tua pequena cozinha
em frente à minha janela

“Lady’s journal”

el ratón te contempla extasiado
la araña no se atreve a descender ni un
milímetro más a la tierra
el café es un espectro azul sobre
la hornilla
dispuesto a desaparecer para siempre

oh sí querida mía
son las siete de la mañana
levántate muchacha
recoge tu pelo en la fotografía
descubre tu frente tu sonrisa
sonríe al lado del niño que se
te parece

oh sí lo haces como puedes
y eres idéntica a la felicidad
que jamás envejece

quédate quieta
allí en ese paraíso
al lado del niño que se te parece
son las siete de la mañana
es la hora perfecta para comenzar
a soñar

el café será eterno
y el sol eterno
si no te mueves
si no despiertas
si no volteas la página
en tu pequeña cocina
frente a mi ventana

§

Malevitch em sua janela

1

ah mon maitre
me enganaste como o sol a suas criaturas
prometendo-me um dia eterno todos os dias

do inexato me alimento
e toda a água dos céus é incapaz de lavar
esta ferida ínfima e rebelde de tempo que sou

pó rebelde sim
com os cabelos de pó desordenado
para sempre jamais por um pensamento peregrino
persigo toda sagrada inexatidão

suave violência do sonho
palavra escrita palavra apagada
palavra desterrada
voz expulsa do paraíso
catástrofe no céu da página
inchada de silêncios

aqui o olho começa a desvanecer-se
a não ser
e a voz se quebra inaudita
(alguém perdeu definitivamente sua balsa)
à deriva sobre o oceano
sopra o vento da indiferença
pela porta entreaberta chega a aurora
mais silenciosa e pálida que nunca

é o dia sobrevivente com seu carrinho vazio
continua brilhando a lâmpada penitente
mas não creio em sua luz
nem compro a morte com nome de peixe
nem é certo que sob sua escama mortiça
deus nos contempla

2

sim senhores
este é outro dia inevitável
em que me alimento do inexato
da monstruosa fruta que se agita
da pegada no ar
da recordação
do mercúrio perdido em alguma sarjeta
do irrecuperável que se acumula e agiganta
em cristais febris
e cruza o ar como uma chama
recém-nascida

o corpo flamejante em luta com o sol

a farsa diária desaparece por trás de uma mão
que acende e apaga à vontade
sua própria luz
penitente claridade
arde o escuro azeite da consciência
sobre esta mesa que é todo o mundo

do outro lado da janela
alguém resolveu o enigma
para entrar na vida basta uma porta
o outro lado continua igual
nada que a luz não atravesse e oculte
nada que não seja a antiga e sagrada inexatidão
que golpeia madeiras bate asas
e incendeia gargantas e corações

3

hoje me desperta
com seu delgado resplendor abstrato a esperança
a obscuridade do naufrágio
escapa como um gato pela janela
e alguém volta
sim
alguém volta desvelado e sem pressa
com um pequeno retângulo de eternidade entre as mãos

Malevitch en su ventana

1
ah mon maitre
me has engañado como el sol a sus criaturas
prometiéndome un día eterno todos los días

de lo inexacto me alimento
y toda el agua de los cielos es incapaz de lavar
esta ínfima y rebelde herida de tiempo que soy

polvo rebelde sí
con los cabellos de polvo desordenado
para siempre jamás por un peregrino pensamiento
persigo toda sagrada inexactitud

suave violencia del sueño
palabra escrita palabra borrada
palabra desterrada
voz arrojada del paraíso
catástrofe en el cielo de la página
hinchada de silencios

aquí el ojo comienza a desteñirse
a no ser
y la voz se quiebra inaudita
(alguien ha perdido definitivamente su balsa)
a la deriva sobre el océano
sopla el viento de la indiferencia
por la puerta entreabierta llega la aurora
más silenciosa y pálida que nunca

es el día sobreviviente con su carreta vacía
sigue brillando la lámpara penitente
pero no creo en su luz
ni compro la muerte con nombre de pez
ni es cierto que bajo su escama mortecina
dios nos contempla

2
sí señores
este es otro día inevitable
en que me alimento de lo inexacto
de la monstruosa fruta que aletea
de la huella en el aire
del recuerdo
del azogue perdido en alguna alcantarilla
de lo irrecuperable que se acumula y agiganta
en afiebrados cristales
y cruza el aire como una llama
recién nacida

flamante cuerpo en pugna con el sol

la farsa diaria desaparece tras una mano
que enciende y apaga a voluntad
su propia luz
penitente claridad
arde el oscuro aceite de la conciencia
sobre esta mesa que es todo el mundo

al otro lado de la ventana
alguien ha resuelto el enigma
para entrar en la vida basta un puerta
el otro lado sigue igual
nada que la luz no atraviese y oculte
nada que no sea la antigua y sagrada inexactitud
que golpea maderos bate alas
e incendia gargantas y corazones

3
hoy me despierta
con su delgado resplandor abstracto la esperanza
la oscuridad del naufragio
se escapa como un gato por la ventana
y alguien vuelve

alguien vuelve desvelado y sin prisa
con un pequeño rectángulo de eternidad entre las manos

§

Talvez na primavera…

Talvez na primavera.
Deixa que passe esta estação suja de fuligem e lágrimas
hipócritas.
Faze-te forte. Guarda migalha sobre migalha. Faz uma fortaleza
de toda a corrupção e a dor.
Chegado o tempo terás asas e um rabo forte de touro ou
de elefante para liquidar todas as dúvidas, todas as
moscas, todas as desgraças.
Desce da árvore.
Olha-te na água. Aprende a odiar-te como a ti mesmo.
És tu. Rude, nu, primeiro sobre quatro patas, então sobre
duas, depois sobre nenhuma.
Arrasta-te até o muro, escuta a música entre as
pedrinhas.
Chama-as de séculos, ossos, cebolas.
Dá no mesmo.
As palavras, os nomes, não têm importância.
Escuta a música. Só a música.

Tal vez en primavera…

Tal vez en primavera.
Deja que pase esta sucia estación de hollín y lágrimas
hipócritas.
Hazte fuerte. Guarda miga sobre miga. Haz una fortaleza
de toda la corrupción y el dolor.
Llegado el tiempo tendrás alas y un rabo fuerte de toro o
de elefante para liquidar todas las dudas, todas las
moscas, todas las desgracias.
Baja del árbol.
Mírate en el agua. Aprende a odiarte como a ti mismo.
Eres tú. Rudo, pelado, primero en cuatro patas, luego en
dos, después en ninguna.
Arrástrate hasta el muro, escucha la música entre las
piedrecitas.
Llámalas siglos, huesos, cebollas.
Da lo mismo.
Las palabras, los nombres, no tienen importancia.
Escucha la música. Sólo la música.

Padrão
poesia, tradução

Paul Éluard, por Natan Schäfer

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944.

Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos.

Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas:

“(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda França, vozes se respondem, cantando para encobrir os pesados murmúrios da besta, para que triunfem os vivos, para fazer desaparecer a vergonha. Cantar, lutar, gritar, batalhar e se salvar. (…)

Mas era preciso que a poesia tomasse parte na resistência. Ela não podia continuar por mais muito tempo brincando com as palavras sem correr riscos. Enfim, ela pôs tudo a perder para acabar com as brincadeiras e se fundir no seu eterno reflexo: a verdade mais nua, mais pobre, mais ardente e eternamente bela. E se digo “eternamente bela” é porque no coração dos homens ela ocupa um lugar de estima, o lugar de toda beleza, tornando-se a única virtude, o único bem. Um bem incomensurável”.

In: Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “Raisons d’écrire, entre autres, et bibliographie”, p . 78.

* * *

Depois de tantos anos [Éluard, Paul. Poèmes politiques, 1948. Oeuvres II, p. 225. “Après tant d’anées”]

Depois de tantos anos de martírio
De tantos anos-pó muito mais longos
Que anos-luz seguindo um astro perdido
De novo miséria a dar e vender
Por nada, que pra nós não é palavra

Lutando e trabalhando falimos
O desespero deita onde dormimos
Sonhamos abraçar saúde e jovens
A boca e a cabeça ainda sonham
A vida vai mudar como um infante

Não desesperamos, sobrevivemos
Tudo nunca foi tão duro tão obscuro
Mas a noite não misturou-se ao sangue
Mais um passo juntos rompe-se o beco
Dando a nós todos o bem e um rumo.

Après tant d’années

 Après tant d’années passées à souffrir
Tant d’années-poussière au souffle plus long
Qu’années-lumière vers un astre disparu
Nous retrouvons misère à vendre et à revendre
Pour rien et rien n’est pas un pour nous

 Notre combat notre travail font-ils faillite
Le désespoir s’est-il couché dans notre lit
Nous rêvions d’embrasser la santé la jeunesse
Sur la bouche et le front nous en rêvons encore
Notre vie changera comme change un enfant

 Nous n’avons pas désesperé nous survivons
Tout a été plus dur plus obscur que jamais
Mais la nuit ne s’est pas mêlée à notre sang
Un pas de plus ensemble et le sentier se rompt
Pour nous offrir à tous notre bien notre route.

§

 De um tempo futuro [Éluard, Paul. Pouvoir tout dire, 1948. Oeuvres II, p. 373. “D’un temps futur”]

As prisões foram fechadas aos prisioneiros
Elas se tornaram rochedos em meio a multidão
Falo isso assim como respiro
Se estivessem abertas eu estaria lá dentro
Todo mundo está fora.

*

O trabalho está vivo
O cansaço está feliz
Além disso eu respiro
Usando meu próprio peito.

*

As ruas as casas as campinas as florestas
Cintilam um mesmo brilho cada qual com seu sol
As nuvens se dispersaram
Uma multidão de sóis paira no ar
E o amor é mútuo
E a emoção é geral

Já nem me lembro mais
Do passado desolador.

D’un temps futur

Les prisons sont fermées aux prisonniers
Elles sont devenues des rochers dans la foule
J’en parle comme je respire
Si elles étaient ouvertes je serais dedans
Tout le monde est dehors 

*

Le travail est vivant
La fatigue est joyeuse
Je respire au-delà
De ma propre poitrine. 

*

Le rues et les maisons les prés et les forêts
Brillent d’un même éclat chacun a son soleil
Il y a une foule de soleils dans l’air
Et l’amour est mutuel
Et l’émotion est générale

 Je ne me souviens pas
Du passé désolant.

§

Não são mãos de gigantes [Éluard, Paul. Poesie initerrompue: Abolir les mystères, 1953. Oeuvres II, p. 692. “Ce ne sont pas mais de géants”]

Não são mãos de gigantes
Não são mãos de gênios
Que forjaram o crime e nossos grilhões

São mãos acostumadas a si mesmas
Vazias de amor vazias de mundo
Mãos que os mais ordinário dos mortais não apertou

Ela se tornaram cegas estranhas
A tudo aquilo que não é besta caça
Seu prazer parece o fogo nu do deserto

Seus dez dedos multiplicam zeros nas contas
Que levam somente às profundezas da falência
E sua habilidade lhes enche de nada

Essas mãos seguram a popa ao invés da proa
O crepúsculo ao invés da alvorada reluzente
E segmentando o ímpeto anulam toda esperança

Não são mãos de condenados sempiternos
Pela multidão em festa descendente do dia
Em que todo mundo poderia ser justo para sempre

E poderia rir de saber que não está só na terra
Decidindo sua conduta em virtude de seus irmãos
Em prol de uma felicidade única onde o riso seja lei

É preciso entre nossas mãos mais numerosas
Esmigalhar a morte idiota abolir os mistérios
Construir a razão de nascer e viver feliz.

Ce ne sont pas mais de géants

Ce ne sont pas mains de géants
Ce ne sont pas mains de génies
Qui ont forgé nos chaînes ni le crime

 Ce sont de mains habituées à elles-mêmes
Vides d’amour vides du monde
Le commun des mortels ne les a pas serrées

Elles sont devenues aveugles étrangères
A tout ce qui n’est pas bêtement une proie
Leur plaisir s’assimile au feu nu du désert

 Leurs dix doigt multiplient des zéros dans des comptes
Qui ne mènent à rien qu’au fin fond des faillites
Et leur habileté les comble de néant

Ces mains sont à la poupe au lieu d’être à la proue
Au crépuscule au lieu d’être à l’aube éclatante
Et divisant l’élan annulent tout espoir

Ce ne sont que des mains condamnées de tout temps
Par la foule joyeuse qui descend du jour
Où chacun pourrait être juste à tout jamais

 Et rire de savoir qu’il n’est pas seul sur terre
A vouloir se conduire en vertu de ses frères
Pour un bonheur unique où rire est une loi

 Il faut entre nos mains qui sont les plus nombreuses
Broyer la mort idiote abolir les mystères
Construire la raison de naître et vivre heureux.

§

Àquela com quem sonham [Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “À celle dont ils rêvent”, p. 36]

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Dai-lhes ainda mais força humana
Alegria de estar no mundo
Dai-lhes em meio a sombra imensa
Os lábios de um amor doce
Que faça esquecer o sofrer

Senhora do sono do povo
Moça mulher irmã e mãe
De seios inchados de beijos
Dai-lhes este nosso país
Tal qual eles sempre estimaram
Um país louco por viver

Um país onde cante o vinho
Onde a colheita é generosa
Onde a criançada é sapeca
Onde os velhinhos são mais finos
Que pomares brancos de flores

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Neve negra de noites brancas
Atravessando um fogo exangue
Santa Alva branca bengala
Fazei-lhes ver caminhos novos
Além da sua cela de tábuas

Pagos para que conhecessem
As piores forças do mal
Entretanto não se curvaram
Mesmo crivados de virtudes
Assim como de ferimentos
Porque a si sobreviveram

Senhora do descansar
Senhora do despertar
Dai a liberdade ao povo e
Deixe a vergonha de
Crer na vergonha ainda que
Para aniquilar-lhe.

À celles dont ils rêvent

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Donne-leur des force d’homme
Le bonheur d’être sur terre
Donne-leur dans l’ombre immense
Les lèvres d’un amour doux
Comme l’oubli des souffrances

Maîtresse de leurs sommeil
Fille femme soeur et mère
Aux seins gonflés de baisers
Donne-leur notre pays
Tel qu’ils l’ont toujours chéri
Un pays fou de la vie

 Un pays où le vin chante
Où les moissons ont bon coeur
Où les enfants sont malins
Où les vieillards sont plus fins
Qu’arbres à fruits blancs de fleurs
Où l’on peut parler aux femmes

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Neige noire des nuit blanches
À travers un feu exsangue
Sainte Aube à la canne blanche
Fais-leur voir un chemin neuf
Hors de leur prison de planches

Ils sont payés pour connaître
Les pires forces du mal
Pourtant ils ont tenu bon
Ils sont criblés de vertus
Tout autant que de blessures
Car il faut qu’ils se survivent

Maîtresse de leur repos
Maîtresse de leur éveil
Donne-leur la liberté
Mais garde-nous notre honte
D’avoir pu croire à la honte
Même pour l’anéantir.

§

Marielle [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Gabriel Péri”, p.41]

Morreu uma mulher que se escudava
Só com seus braços abertos à vida
Morreu uma mulher que só seguia
O caminho do ódio ao revólver
Morreu uma mulher que ainda briga
Contra o esquecimento e a morte

O que era seu desejo
Nós queremos também
E agora nos convém
Que a alegria seja um candeeiro
No fundo do olhar e do peito
E a justiça no mundo inteiro

Há palavras que nos dão vida
E são palavras inocentes
Por exemplo calor confiança
Justiça amor e também liberdade
A palavra gentileza ou criança
E alguns nomes de flores e nomes de frutos
Coragem e a palavra descobrir
E alguns nomes de países cidades
E alguns nomes de amigos e mulheres
Adicionamos Marielle
Marielle morreu pelo que nos faz viver
Nossa amiga perfuraram seu peito
Mas você fez que com nos conhecêssemos
Sejamos amigos seu sonho segue vivo

Gabriel Péri

Un homme est mort qui n’avait pour défense
Que ses bras ouverts à la vie
Un homme est mort qui n’avait d’autre route
Que celle où l’on hait le fusils
Un homme est mort qui continue la lutte
Contre la mort contre l’oubli

Car tout ce qu’il voulait
Nous le voulions aussi
Nous le voulons aujourd’hui
Que le bonheur soit la lumière
Au fond des yeux au fond du coeur
Et la justice sur la terre

Il y des mots qui font vivre
Et ce sont des mot innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certain noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays et villages
Et certains noms de femmes et d’amis
Ajoutons-y Péri
Péri est mort pour ce qui nous fait vivre
Tutoyons-le sa poitrine est trouée
Mais grâce à lui nous nous connaissons mieux
Tutoyons-nous son espoir est vivant.

§

O mesmo dia para todos [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Le même jour pour tous”, p.46]

I

A espada que evita o peito do chefe dos culpados
Se enfia no coração dos pobres e inocentes

O olhar primeiro é da inocência
E o segundo é o da pobreza
Há que se saber protegê-los

Não quero condenar o amor
Por não ter matado o ódio
E aqueles que o despertaram

II

Caminha um passarinho por imensas terras
Onde o sol tem asas

III

Ela ria a minha volta
A minha volta despida
Era como uma floresta
Uma turba de mulheres
A minha volta

Como uma armadura contra o deserto
Como uma armadura contra injustiça

A injustiça dava em todos
Estrela singular estrela inerte de um céu gordo que é a privação de luz
A injustiça golpeava os inocentes e os heróis os sem piedade
Quem sabe um dia aptos a administrarem

Pois os ouvi dar risada
No seu sangue e na beleza
Na miséria e na tortura
Rindo um riso por vir
Rindo para a vida e nascendo ao rir.

19 de novembro de 1944

Le même jour pour tous

I

L’épée qu’on enfonce pas dans le coeur des maîtres des coupables

On l’enfonce dans le coeur des pauvres et des innocents

Les premiers yeux sont d’innocence
Et les seconds de pauvreté
Il faut savoir les protéger

Je ne veux condamner l’amour
Que si je ne tue pas la haine
Et ceux qui me l’ont inspirée 

II

Un petit oiseau marche dans d’immenses régions
Où le soleil a des ailes

 III

Elle riait autour de moi
Autour de moi elle était nue

Elle était comme une forêt
Comme une foule de femmes
Autour de moi

Comme une armure contre le désert
Comme une armure contre l’injustice

L’injustice frappait partout
Étoile unique étoile inerte d’un ciel gras qui est la privation de lumière
L’injustice frappait les innocents et les héros les insensés
Qui sauront un jour régner 

Car je les entendais rire
Dans leur sang dans leur beauté
Dans la misère et les tortures
Rire d’un rire à venir
Rire à la vie et naître au rire. 

19 novembre 1944

§

Fazer viver [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Faire vivre”, p. 54]

Eram somente alguns vivendo na noite
Sonhando com um céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na lenha em chamas
Ainda que distante lhes alegrava o aroma das flores
Cobertos pela nudez de seus desejos

Reuniam no peito o fôlego em compasso
Com este nada de ambição da vida no mato
Que cresce no verão como um verão ainda mais intenso

Reuniam no peito a esperança dos tempos que vêm vindo
E que saúdam mesmo de longe um outro tempo

Um pouquinho de sono
Lhes entregava o sol do futuro
Resistiam sabiam que viver eterniza

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

*

Não passavam de uns poucos
Subitamente se tornaram multidão

Desde sempre isso acontece.

Faire vivre 

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort 

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert 

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue 

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.

§

Logo [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Biêntot”, p. 64”]

Das primaveras do mundo
Esta é a mais terrível
Do meus modos de ter sido
Confiante é meu preferido

Feito a pedra ergue a tumba
A grama ergue a neve branca
Durmo sob bruta chuva
E acordo meus olhos claros

Lento e miúdo tempo afunda
Onde passaria a rua
Por minhas íntimas fugas
Para que eu encontre alguém

Não escuto mais os monstros
Disseram tudo já os conheço
Vejo apenas rostos lindos
Rostos lindos com certeza

De logo aniquilar os chefes.

Biêntot 

De tous les printemps du monde
Celui-ci est le plus laid
Entre toutes mes façons d’être
La confiante est la meilleure

L’herbe soulève la neige
Comme la pierre d’un tombeau
Moi je dors dans la tempête
Et je m’éveille les yeux clairs

Le lent le petit temps s’achève
Où toute rue devait passer
Par me plus intimes retraites
Pour que je rencontre quelq’un

Je n’entends pas parler les monstres
Je les connais ils ont tout dit
Je ne vois que les beaux visages
Les bons visages sûrs d’eux mêmes

Sûrs de ruiner bientôt leurs maîtres.

§

De fora [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Du dehors”, p. 69]

A noite o frio a solidão
Me encerraram com cuidado
Mas na cela abriam caminho os galhos
Grama e céu se encontravam a minha volta
Encarceram o céu
Desmoronou a prisão
Segurou-me nas mãos o frio ardente e vivo.

Du dehors

La nuit le froid la solitude
On m’enferma soigneusement
Mais les branches cherchaient leur voie dans la prison
Autour de moi l’herbe trouva le ciel
On verrouilla le ciel
Ma prison s’écroula
Le froid vivant le froid brûlant m’eut bien en main.

Padrão
poesia

QUATRO POEMAS INÉDITOS DE MARCELO ARIEL

 

Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS ( LetraSelvagem, esgotado), RETORNAREMOS DAS CINZAS PARA SONHAR COM O SILÊNCIO ( Editora Patuá, esgotado) , JAHA ÑANDE ÑAÑOMBOVY’A ( Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado OU O SILÊNCIO CONTÍNUO -POESIA REUNIDA 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.

* * *

ANTÍFONA

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

E aí, branquitudes, purezas, certezas

De luares, de neves, de neblinas!…

De clareiras, nuvens, névoas

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

E aí, branquíssimas peles lapidadas

Incensos dos turíbulos das aras…

nuvens brancas atravessando avenidas cercadas

Formas do Amor, constelarmente puras,

Modos de  se matar, celestiais estáticos

De Virgens e de Santas vaporosas…

Em estados líquidos, enevoados

Brilhos errantes, mádidas frescuras

Fosforescências efêmeras

E dolências de lírios e de rosas…

e melancólicas orquídeas vaporosas

Indefiníveis músicas supremas,

  Inefáveis  mixtapes esquecidas

Harmonias da Cor e do Perfume…

perfeitas mas sem cheiros e sem lume

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

vindo em ondas de  sangue  que o Sol queima

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Velórios da luz no vidro que o projétil quebra

Visões, salmos e cânticos serenos,

Delírios, funks,  risos, celas

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Ecos de toques de celulares nas biqueiras

Dormências de volúpicos venenos

Sonabulismos do beck com doce batendo na viela

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..

.

vagos e violentos, santos rostos faíscantes

Infinitos espíritos dispersos,

Duplos vetorizados, capturados  logo adiante

Inefáveis, edênicos, aéreos,

encurralados ao revés por  ancestrais , mortos, indigentes

Fecundai o Mistério destes versos

florescendo em galáxias distantes

Com a chama ideal de todos os mistérios.

na parte azul do sangue, nenhuma verdade

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

que se dissolvam no refrão gritando não

E as emoções, sodas as castidades

com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

germinando o sonho do mais fino grão do ser

Fecunde e inflame a rime clara e ardente…

sejam  flores, os que desabrochando debaixo do  chão e

Que brilhe a correção dos alabastros

como baleias  nadando no mar de esgoto , em sua amplidão

Sonoramente, luminosamente.

entoando para a luz , a ultima canção evocando

Forças originais, essência, graça

forças de dentro que jamais avançam em vão

De carnes de mulher, delicadezas…

através da pele mestiça e negra , docemente

Todo esse eflúvio que por ondas passe

dos rios soterrados,  subindo em ondas quentes

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

sobem, crescem, todos sentem

Cristais diluídos de clarões alacres,

tudo se refletindo em tudo, sem alarde

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Eros regendo o ritmo das carnes

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

E aí, Branquitudes, a hora é agora!

Os mais estranhos estremecimentos…

a mais feroz doçura

Flores negras do tédio e flores vagas

desce até a piscina a matéria escura

De amores vãos, tantálicos, doentios…

de tristezas cósmicas, sem vagueza

Fundas vermelhidões de velhas chagas

fendas, falésias, fios, chamas, feras são

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..

sangram , fluem, pela água , antes represada

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

vórtices, espirais de outra realidade

Passe, cantando, ante o perfil medonho

engolem vossos corpos, como  o  sono

E o tropel cabalístico da Morte…

chega para reger a manhã da insurreição

§

SIDERAÇÕES

GRAVITAÇÕES

Para as Estrelas de cristais gelados

Para os oceanos que vagam na matéria escura

As ânsias e os desejos vão subindo,

os sentimentos  vastos são atraídos

Galgando azuis e siderais noivados

como no casamento do Sol e da Lua

De nuvens brancas a amplidão vestindo…

a anterioridade de contrários se fundindo

Num cortejo de cânticos alados

num ritmo , pulsação e vibração contínuos

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

crianças na ocupação cantam esse hino

Passam, das vestes nos troféus prateados,

dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados

As asas de ouro finamente abrindo…

de uma revoada de pássaros no peito tatuado

Dos etéreos turíbulos de neve

fortes em porosidade etérea

Claro incenso aromal, límpido e leve,

doçuras moventes , risos firmes permanentes

Ondas nevoentas de Visões levanta…

atravessam o sereno

E as ânsias e os desejos infinitos

agem derrubando muros, tropas, policias, fascistas

Vão com os arcanjos formulando ritos

da insurreição dos proscritos

Da Eternidade que nos Astros canta…

ecoando a força infinita de um grito

Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUÉIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas . É minha homenagem ao legado do poeta negro  Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.

§

O NASCIMENTO DA PAISAGEM

“Amor e coração nobre são uma única coisa.“

Dante

A menina vê o mar

a partir de dentro

………………………………

nasce para dizer

caminho por uma rua

chamada luar

segurando crisântemos

……………………………………..

os corpos

reunidos pela água

que molha as plantas

…………………………………….

mulher de sal

nadando

depois

pássaro de água

depois

flor   esta

§

UMA CONVERSA INFINITA ONDE ESPINOSA , O AFRICANO EXPLICA AS ESTRATÉGIAS INSURRECIONAIS DO JAGUAR-ORQUÍDEA

como uma partitura para uma contrametafísica mestiça  *para a ocupação do  campo transcendente

Para Suely Rolnik e Felix Guattari

o estado mundial é o corpo                     O CORPO LIVRE                                                              

ATRAVÉS DELE OS CÍRCULOS MENORES IRÃO DESTRUIR O GRANDE CÍRCULO

O  MOVIMENTO INCESSANTE DOS CÍRCULOS MENORES NÃO ACONTECE COMO UM EVENTO E PODE SER SENTIDO  COMO O ANÚNCIO  DE UM NASCIMENTO QUE SÓ PODE ACONTECER NA IMPOSSIBILIDADE

NASCER É UM INCÊNDIO AO CONTRÁRIO

O NOMADISMO DOS CÍRCULOS MENORES É UM NOMADISMO SUFINAMBÀ

O QUE PODERIA ACELERAR INTERNAMENTE O MOVIMENTO INCESSANTE DOS CÍRCULOS MENORES SERIA A ________________________ DAS AUTONOMIAS IMANENTES :

A CRIAÇÃO DAS ESCOLAS DE DESOBEDIÊNCIA CIVIL  E A CONVERSÃO DAS PRISÕES EM UNIVERSIDADES LIVRES POPULARES É A PARTE DISSO QUE PODERIA GERAR OS CÍRCULOS DE VISITAÇÃO DA PRIMEIRA ESCULTURA DO SER * ONDE ESTÁ ESCRITO SER AQUI ENTENDAM COMUNIDADE

A FUSÃO DO DEVIR DOS POVOS-DO-DESERTO COM O DEVIR-TUPINAMBÀ EVOCO COMO O JAGUAR-ORQUÍDEA QUE PODE SER ESCULPIDO PELO SER

o mundo roda o louco em sua chave imanente

NÃO APENAS COMO FORMA MAS COMO ABERTURA PARA A ÁRVORE-MOVENTE QUE PERMITE O ACESSO AS SINAPSES EM ESTADO DE SONO NA COPA DAS ÁRVORES E NOS RIOS  ENCOBERTOS

é preciso trincar o nome das coisas com o surto

trincar o que é nomeado e assim capturado pelos esquemas desnaturantes da máquina de opressão

ESTA PRIMEIRA ARTE ESCULTÓRIA A PARTIR DAS POTÊNCIAS INTUITIVAS DA INTERIORIDADE SEMPRE EVOCANDO OS SABERES FORA DO TEMPO CRONOLÓGICO NO ESTADO MUNDIAL DO CORPO QUE HÁ DENTRO DO SONHAR, DA CONVERSA IMANENTE E DE GRADAÇÕES DE ESTADOS SURTOLÓGICOS

OS MOVIMENTOS DO NOMADISMO EXTERINTERIOR QUE ALIMENTAM OS GESTOS INVISIVEIS QUE COMPÕE OS MOVIMENTOS INCESSANTES DOS CIRCULOS MENORES DO SER QUE PODEMOS EVOCAR COMO DECISÃO SURTOLÓGICA DE NASCER OU COMO REPETIÇÃO QUE GERA DIFERENÇA DE ‘INCÊNDIO AO CONTRÁRIO ‘  ATRAVESSANDO A IMPOSSIBILIDADE DE_____________________________________ POR ISSO O IMPOSSÍVEL É UMA ENERGIA DO PRÉ-DEVIR QUE ESTIMULA A DECISÃO DE NASCER

as conversas-caminhadas-surtos são na dimensão micropolítica da respiração como o movimento das águas-vivas e inauguram o nascimento do estado mundial do corpo

do jaguar-orquídea que canta e dança para o desaparecimento  da nossa imagem  no espelho

A SINGULARIDADE É UMA SÉRIE DE GESTOS DE DISCERNIMENTO DAS MISTURAS ENTRE O CORPO E O MUNDO QUE COMPÕE UMA CIRCULARIDADE  DIALÓGICO-SURTOLÓGICA

são gestos que expandem o nomadismo para regiões psíquícas externas onde a caminhada, a conversa, o sonhar e o surto se  misturam no nomadismo para fora do nome na direção do ser topológico-numinoso

junho de 2013 é um campo movente que se origina no corpo insurrecional

das potências nômades dos rios soterrados e depois migra para a copa das árvores

nanoêxtase  para a criação de novas temporalidades

para a desfantasmagorização pela via do campo-dança-surto do devir-jaguar-orquídea que como o devir-negro é

JÁ uma práxis ontológica

O DEVIR NEGRO INAUGURA O QUILOMBO INTERIOR DE CADA SER

É UM IRMÃO SIAMÊS DOS MOVIMENTOS DO JAGUAR-ORQUÍDEA

AMBOS SEM NENHUMA RELAÇÃO COM O PENSAMENTO BINÁRIO

IRÃO ASSASSINAR O ANJO DA HISTÓRIA * NOSSO INIMIGO

PELO VOO DESNOMEADOR DO PÁSSARO DA ETERNIDADE

e todos nós podemos sentir o que é o seu cantar no fundo de todos os sonhos

os círculos menores e sua expansão biogeonanocosmopolitica

NOMÁDICA

levam para a mestiçagem da floresta do quilombo , das aldeias que são

a placenta rizomática das potências surtológicas insurrecionais

que se mannifestam principalmente como AMIZADE

É DA CONVERSA SILENCIOSA DOS AMIGOSAMIGAS

QUE CRIA OS DUPLOS INCENDIADOS DAS TRANSPARÊNCIAS

o incêndio das projeções identitárias

E DA TERCEIRA CAMADA IMPESSOAL  DO SER

que surgirão as estratégias para a destruição das máquinas de opressão

ENTRE O CÍRCULO MAIOR E O MENOR

ESTÁ O DESERTO

E EM NÓS A FLORESTA

E OS RIOS ONDE O JAGUAR-ORQUÍDEA

NOS ESPERA

NO LUGAR DE NOSSO NOME

LUGAR-PÓLEN RESERVA DE IMPESSOALIDADES IMANENTES

  QUE NOS FARÁ NASCER

mas não somos nós que devemos nascer

mas os sopros de atravessamento

irradiados pela expansão topológica do nosso corpo

emanando memórias de sensações impossíveis

de serem capturadas

memórias do futuro

* não acaba aqui , não começa aqui

** Lido durante a abertura do Seminário Novos Povoamentos na PUC-SP em 12 de junho de 2018

Do livro inédito O TREMOR ESSENCIAL DA MATÉRIA ESCURA

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O Brasil na cena do ódio, por Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 4 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) , Transformador (antologia, 2014), de um inédito, couraça (2017) e de uma plaquete inédita, speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (2018), a sair em breve pela editora Corsário Satã. É tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015).

* * *

o inominável

nós fizemos um monstro com duas asas
de colunas dóricas, mas fizemos mais,
fizemos-lhe também um uniforme negro
dos nossos pesadelos, capacete e luvas,
nós o pusemos hierático nos quadros e
creio que o dissecamos em nossos filmes.
nós o compusemos em pedaços de coisas
em tempos diversos, nós o consagramos
com barba comandante e doçura feminina,
ou com crueldade feminina, macheza dócil.
nós o pusemos na escuridão dos cantos
esquecidos das nossas casas, sótão e porão,
entalamos sua cauda pontuda nas estantes,
nós lhe demos de comer comida gorda,
comida magra, nós o deixamos de jejum,
o revelamos em fotos do melhor contraste,
ou mal o discernimos fundido às sombras.
nós o amamos em sua invencível beleza
e o abominamos por sua inaceitável feiúra;
nós lhe demos um nome, mas subitamente
o medo de o dizermos nos paralisou e eis
que o conjuramos apenas e somente sem
o verbo, já perdido, entre a razão e o instinto.

§

homem velho à deriva

                cadáver ou fantasma,
as costas se curvam em um arco,
o rosto cai no queixo em ondas de pele,
a boca, um ponto e pregas como um ânus
e os olhos se revolvem lentos
                como os das tartarugas: também delas,
seu pescoço murcho e erodido, quieto.

o blusão bege se deforma
                nas varas finas, frágeis do não-corpo;
ele pensa ou remói não mais o mundo,
mas a si mesmo: as mãos só ossos,
garras sem força, brancos esforços.
                                duros, pretos, seus sapatos.

§

arrector pili

puxam os músculos ao vosso animal
ele que ri agora do corpo caindo do
helicóptero do corpo varado de balas
na cabeça e mais do que o animal aqui
a sua cauda satânica do inimigo escuro
medieval se insere no material preênsil
dos vossos pés na voz da cabana das
ferramentas onde o anjo triste tortura
o anjo caído e onde o mesmo músculo
pede isolamento doença e insanidade
vos diz som e dor o mesmo músculo
vos faz rir ou retrair o mesmo músculo
do riso ou do ruído insuportável é aí
onde os caninos ainda sobressaem aí
onde a verdade empapada de sangue
jaz nas pessoas boas da cozinha nas
pessoas boas da poltrona nas pessoas
quietas do trabalho tolerado esse mesmo
músculo vosso prazer indizível de matar

brasil fascista, 2018

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poesia, tradução

Fernanda Vivacqua, por Anelise Freitas

ferr

Fernanda Vivacqua nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Desde os anos 2000, vive em Juiz de Fora (MG), onde se formou em Letras-Português e, atualmente, conclui seu mestrado em Estudos Literários. Publicou o livro Maria Célia (Edições Macondo, 2016), reeditado esse ano com cinco poemas inéditos e em versão bilíngue (português-espanhol). Sua plaquete Para os homens que não amam as mulheres (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e María Celia serão lançados no Brasil e na Argentina.

BREVE NOTA SOBRE “MARÍA CELIA”

Os poemas da Fernanda Vivacqua sempre me causaram aquela sensação de quando lemos um poema que parece um grande soco no estômago, porque ela ambienta seus versos em lugares que, em um primeiro momento, poderiam ser relacionados à calmaria. Entretanto, os espaços da casa e do quintal vão dando lugar à uma violência da linguagem, com versos longos e cavalgamentos que tiram o fôlego e promovem leituras inquietantes. Seus poemas mexem com o corpo e colocam esse corpo em perigo, como deve ser.

Dessa inquietação que os poemas causavam em meu corpo, surgiu a necessidade de traduzi-los. É isso que me move a traduzir um poema: como ele mexe com meu corpo e a curiosidade de saber como encontraria meu corpo em outra língua. A sinestesia do poema não é o suficiente, claro, porque a tradução envolve ler a contracapa do poema, compreender alguns mecanismos que nem mesmo quem o escreveu originalmente havia se dado conta.

Desde que comecei a aprender o espanhol, nutro um carinho pela variante rio-platense e depois de minha viagem à Argentina me senti mais à vontade para usá-la. Assim, optei pela variante rio-platense, não só pelo carinho espontâneo, mas porque é nessa variante que me comunico com as pessoas que eu amo, é com ela que me aproximo afetivamente da América Latina e seus corpos.

Anelise Freitas

 *

 POEMAS

 Para Babalu

DO BANCO DE TRÁS É SILENCIOSO

estática na ponte rio-niterói
o trânsito imerso
denso e pesado o trânsito
funda e funda
a guanabara
fede e você nem sente
do banco de trás
cai um tempo
uma pequena parede amarela
e aquela casa de bonecas
onde nada muda ou envelhece
só os móveis
que vão
e vem
como os carros depois do trânsito
desaguam na rio-niterói
depois do trânsito
você grita

para Babalu

 DESDE EL PUESTO DE ATRAS ES SILENCIOSO

estática en el puente rio-niteroi
el transito inmerso
denso y pesado del trafico
honda y honda
la guanabara
apesta y vos tampoco sentís
desde el puesto de atrás
cae el tiempo
una pequeña pared amarilla
y aquella casa de muñecas
donde nada cambia o envejece
solo los mobiles
que van
y vienen
como los coches después del trafico
desaguan en rio-niteroi
después del tráfico
gritás

§

 APRENDEMOS DA PEDRA E DO FEIJÃO

do tempo e da espera e
de quando em quando
a tempestade encruzilhada
o corpo estilhaçado e a dúvida
porque o que ensina destrói
constrói sobre destroços e reconstrói
com corpos despedaçados, aparentemente
despedaçados

quantos livros de poesia você já leu?
quantos poetas você chama de preferido?
eu vi uma redoma cercada de espinho
não havia pedras e o feijão era duro
e minha mãe é da cidade você não sabe
eu nem me lembro das canções de ninar
mas
quantos cantos ancestrais você já ouviu?
quantas vezes seu corpo vibrou e você soube
a corda da cítara não pode estar muito esticada
nem solta demais
é uma matemática ancestral que nos diz
dos cantos, da casa, dos cantos da casa
do feijão e do corpo quando se cata
pelo chão memória dos que pisaram
em um dia atrasado para o serviço público
mas

quando você disse ser poeta?
foi do feijão da barriga da mãe do batuque no quintal?
e eu não entro na redoma que pode ser apenas
um jardim sensorial, sentidos
dispersos corpos estilhaçados
mas quando o vento passa carrega
eu tenho memórias que me ensinam
porque elas não são palavras
porque elas caminham
pela minha mãe e sua vida urbana
pelas pedras portuguesas em terras
brasileiras
pelo feijão que fica não é de exportação
foi dela que aprendi e ela não dá respostas
como a palavra que não ensina
mas destrói e com os destroços
respondo,
dia a dia
não saber do vento
mas ele passa buracos abertos
marca o corpo que aprende
e reaprende
quando você disse não saber das coisas?
eu não sei e por isso não tenho medo
o prédio desabado não tem porque temer
a tempestade de amanhã

APRENDIMOS DE LA PIEDRA Y DEL POROTO

del tiempo de la espera y
de cuando en cuando la tempestad encrucijada
el cuerpo astillado y la duda
porque lo que enseña destruye
construye sobre destrozos y reconstruye
con los cuerpos despedazados, aparentemente
despedazados

¿cuántos libros de poesía vos leíste?
¿cuántos poetas vos llamás preferidos?
yo vi una redoma cercada de espino
no había hiedras y el frijol era duro
mi madre es de la ciudad vos no sabés
y ni me acuerdo de las canciones de cuna
pero
¿cuántas canciones ancestrales vos oíste?
¿cuántas veces su cuerpo vibró y vos supiste?
la soga de la cítara no puede estar muy estirada
ni muy suelta es un matemática ancestral la que nos dice
de los rincones, de la casa, de los rincones de la casa
del poroto y del cuerpo cuando se recoge
por el piso memoria de los que pisaron
en un día retrasado para el servicio publico
pero

¿cuándo vos dijiste ser poeta?
¿fue del frijol del vientre de tu madre del tambor en el patio?
y yo no entro en la redoma que pude ser solo
un patio sensorial, sentidos
dispersos cuerpos astillados
pero cuando el viento pasa lleva
yo tengo memorias que me enseñan
porque ellas no son palabras
porque ellas caminan
por mi madre y su vida urbana
por las piedras portuguesas en tierras
brasileñas
por el poroto que se queda no es para exportación

 fue de ella que aprendí y todavía no me contesta
como la palabra que no enseña
pero destruye y con los destrozos
contesto
día tras día
no saber del viento
pero él pasa agujeros abiertos
señala el cuerpo que aprende
y reaprende
¿cuándo vos dijiste no saber de las cosas?
no sé y por ello no tengo miedo
el edificio derrumbado no hay que temer
la tempestad de mañana

§

 SEUS DENTES PELOS MEUS DEDOS

fruto maduro esquartejado aos cubos
começo pela unha casca incerta
escalpelar cabeças de dedos
pelos seus dentes corre
um sorriso afiado a lâmina
afoita boca saliva a língua
como cortar tomates
o caldo quente entorna
limpa os nervos dedos em riste
o tempo entre a lâmina e a carne
os dedos separados da mão
pelos seus dentes escorre
o sangue da gengiva incrustrada
o corte exato de minhas extremidades
passeiam entre a tábua e a fome
a tudo dá sabor hoje
eu te dei meus dedos cortados
em pedaços miúdos cala
a boca aberta
é como cortar tomates
o fruto ácido

TUS DIENTES POR MIS DEDOS

fruto maduro descuartizado a los cubos
empiezo por la uña corteza incierta
escarapelar cabezas de dedos
por sus dientes corre
una sonrisa filosa la lámina
deseosa boca saliva la lengua
como cortar tomates
el caldo caliente se derrama
limpia los nervios dedos en ristre
el tiempo entre la lámina y la carne
los dedos separados de la mano
por tus dientes escurre
la sangre de la encía incrustada
el corte exacto de mis extremidades
pasean entre la tajo y el hambre
a todo da sabor hoy
yo te di mis dedos cortados
en pedazos cortos cierra
la boca abierta
es como cortar tomates
el fruto ácido

*

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015), e Sozé (2018). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Já apareceu com poemas aqui na escamandro.

***

 

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crítica, xanto

XANTO| Os bois alados na poesia de Eustáquio Gorgone de Oliveira, por Prisca Agustoni

O presente trabalho pretende abordar a obra do poeta mineiro Eustáquio Gorgone de Oliveira – nascido em Caxambu, em 1949 e falecido em São Paulo, em 2012 –, considerando, particularmente, a coletânea Manuscritos de Pouso Alto (Juiz de Fora: Funalfa Edições; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004). O livro se apresenta rico em imagens enigmáticas, cifradas, nas quais é possível entrever um mundo em processo de distorção. Essa característica não é exclusiva apenas dessa coletânea de poemas, ao contrário, é possível encontrar rastros de uma representação da realidade transfigurada em função do impacto que esta provoca na sensibilidade do poeta desde a primeira recolha em livro de poemas do autor, em 1974, com o livro Delirium-tremens. Inúmeras vezes, a esse traço expessivo, traiçoeiro – por não representar um real “tal qual ele é”, mas “tal qual ele se dá” à percepção sensível do artista – , foi atribuída uma vinculação com a corrente estética do surrealismo (como nos textos críticos de Márcio Almeida e Luiz Ruffato).

No entanto, é nossa intenção mostrar aqui como a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira se aproxima de uma estética expressionista, por revelar um processo de construção textual embasado numa percepção do mundo decorrente de uma sensibilidade próxima àquela manifestada pelos expressionistas alemães.

Vejamos, a esse respeito, e para introduzir nossa reflexão, este fragmento retirado do livro O expressionismo, de Roger Cardinal (1988, p. 63): quase todo pintor expressionista insiste ser fundamental que haja uma mudança de enfoque, no qual a visão do mundo real centrada no espírito (ou essencialista) prevaleça sobre a visão que se restringe ao olhar – “o olhar mítico é, para mim, o fundamento de todas as artes” – escreve Barlach, acrescentando que “ter visões é a capacidade de ver com os sentidos ” – aparentemente uma afirmação da preferência do artista por uma entrega quase mediúnica à experiência da percepção, em oposição aos estados de distanciamento crítico controlados intelectualmente.

Nos poemas de Gorgone, encontramos disseminados estranhamentos intraduzíveis pelo logos humano, uma manifestação que revela a origem sensível, toda interior, que gerou essas visões. A linguagem empregada, muitas vezes, trilha o percurso dos mitos – aqui ecoando as palavras do pintor alemão Barlach –, convocando o real e o imaginário para o desafio da apreensão e da estruturação desse mundo inteligível, uma vez que os mitos têm a vantagem de encarnar situações específicas de cada indivíduo, confrontando-o com os mitos de temas universais, aos quais o indivíduo se sente religado por identificação. Vejamos o fragmento do poema n.57, que coloca em vista exatamente essa questão: “mulher e lua alucinantes/ a executar a tarefa dos mitos/ em repetir o destino humano”. A condição humana, na sua tragédia, entre grandeza e finitude, ilusão e eternidade, e a constante ameaça da morte, está toda resumida no ateliê da memória, que “em seu veículo/ apenas reúne as perdas/ seculares” (poema 57).

Talvez seja por esse fundo de universalidade que a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira nos fale tão próxima e conhecida. Esse encantamento provocado pelos seus versos é o mesmo que experimentamos ao ler o também mineiro Guimarães Rosa, ou o mexicano Juan Rulfo, o poeta italiano Giorgio Caproni ou, ainda, a poeta angolana Paula Tavares, autores que souberam construir a partir do olhar sobre o local uma poética universal, que traça o itinerário humano, entre peso e leveza, amor e abandono, cegueira e clarividência, fragilidade e vitalidade. Todos eles mostram esse itinerário através de uma linguagem que, ao invés de revelar apenas a claridade do mundo, faz alusão a elementos inexplicáveis. No caso do poeta mineiro, essa realidade apresenta traços de um real deformado – como se estivéssemos olhando uma pintura de Edward Munch –, pela subjetividade do poeta, que se volta em direção ao espaço da sua interioridade e da “realidade interna do fenômeno” (CARDINAL, 1988, p. 63).

Vejamos, no poema n.16, como a cena representada assume características que vão além do real, isto é, se aproximam daquilo que poderíamos chamar de “visões” ou de “segredos das sensações” (Macke Apud Cardinal, p. 63) do poeta: “eles se abraçavam na sala / como cobras que se picam / dando filhos de pedra / aos alicerces das casas. / em plena luz do dia / caranguejos órficos / dormiam em seus braços”.

Ao longo do livro, Gorgone revela uma grande habilidade para estabelecer uma mediação entre os “manuscritos plurais” de Pouso Alto: de um lado, o manuscrito intraduzível, subjacente ao texto poético e anterior à palavra, resultado de um “mergulho espiritual” do poeta; do outro, o manuscrito decifrado, traduzido e fixado em palavras, em que é cura e danação, já que o poeta invoca, no poema 17, “a cura pelo poema/ e o respeito às palavras” para poder cantar “a cicatriz da separação” (poema 13) e “a felicidade não tola/ de ser apenas palavra” (poema 19). Como destacou Ítalo Calvino, nas Seis propostas para o próximo milênio (1990, p.90), “a palavra põe em relação o desenho visível com a coisa invisível, com a coisa ausente, com a coisa desejada ou temida, como uma fragilíssima ponte lançada sobre o vazio. Por isso o correto emprego da linguagem é […] aquele que permite a aproximação às coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, com o respeito àquilo que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem palavras”.

Nesse sentido, a voz do poeta tem um valor epifânico, pois ao empregar determinadas imagens, sugere outro mundo, percebido apenas (e inicialmente) por seu olhar, que tem a dupla lucidez de pensamento e de sentimento. Da mesma forma, em relação ao sentimento, Santo Agostinho considerava o coração como o ápice da alma, o espaço da vida interior. E tal como Santo Agostinho nas Confissões, Eustáquio relata em Manuscritos de Pouso Alto a peregrinatio animae de um eu lírico que vive em tensão com o mundo, pois percebe o mundo mesmo como tensão, áspero e dulcíssimo. Nesse mundo apocalíptico e profético, de “laranjas cancerosas e perfumosas” (poema 25), a natureza cumpre o papel de mensageira, carregada de significantes prestes a serem consultados. Ela sabe ser uma mãe cúmplice do ser humano, amparando-o como a “bromélia [que é] pouso alto” (poema 2), a “rosa que resiste à ferrugem” (poema 3), ou as “sete montanhas de paina/ [que] já preparam o leito” (poema 61). No entanto, a outra cara da medalha revela uma natureza ameaçadora, onde surgem “filhos de pedra” (poema 16), “uma cabeça de gato cortada” (poema 6), “estrelas mortas e janelas grávidas” (poema 17) e “erva morta” (poema 11). Essa ambivalência da natureza responde aos câmbios que o olhar do eu lírico imprime sobre a realidade, já que ele orquestra o desvelar-se do mundo aos seus olhos.

A angústia do poeta, decorrente dessa constante tentativa de se reajustar ao real, dá lugar ao espanto, à maravilha, à medida que as suas relações com o real são renegociadas. Eis porque a “rosa que resiste à ferrugem” do poema 3 se torna “flor de tijolos” (poema 10), “estrela – pétalas de ferro – / em Pouso Alto florindo” (poema 15), “puras avencas de farpas” (poema 25), “flores negras” (poema 17), enfim, “flores calcinadas” (poema 4). Esse olhar recriador da realidade se dá sem defesas, isto é, o poeta está ciente da carga significante que condensa em cada imagem, já que sabe a hora exata de se misturar com o mundo num movimento de aproximação e de reconciliação, assim como a hora de se afastar. A partir dessa relação de fusão versus contemplação do mundo, o poeta adquire um olhar mais compenetrado em relação à vida, pois “em tarefas banais resultou/ o profundo entendimento” (poema 18).

É nesse momento que a sua poesia se aproxima mais da linha conceitual que sustenta a corrente estética do expressionismo, principalmente na maneira como se manifestou na pintura, na medida em que, de acordo com Cardinal (1988, p.31), “a transmissão direta das energias emocionais para a pincelada do pintor representa a expressão imediata de uma realidade fenomenológica, e seu imediatismo coloca-se de modo imperativo para o receptor”. A tensão manifesta pelo eu – lírico em relação ao mundo decorre daquilo que Franz Kafka chamara de “a vida interna imaginária” (apud CARDINAL, 1988, p.61), ou seja, o transbordamento do imaginário que transforma / deforma a representação do real, atribuindo-lhes cores que impressionam muito mais do que aquelas da percepção comum.

A esse respeito, podemos reparar como Eustáquio Gorgone de Oliveira escreve: “faço telas de tintas fortes/ amarelo de manga espada” (poema 36). Impossível aqui não lembrar as telas em que Vincent Van Gogh expressa os vórtices interiores através de uma realidade distorcida pelas suas pinceladas. Nas telas apresentando a natureza morta, os amarelos das flores expressam muito mais do que a luz do sol iluminando os girassóis: eles expressam, ou melhor, simbolizam a força com a qual surge, no pintor, a angústia perante determinadas imagens, e a ameaça desse mal-estar se faz explícito, nas telas, através do preto que escurece o azul usado como cor de fundo de muitas telas dos girassóis.

No caso do poeta, seus instrumentos – adjetivos, verbos, silêncios – são conjugados na medida necessária para atingir não apenas a retina, mas, como diria o filósofo Max Scheler (1996), o ordo amoris do leitor, ainda que isso se faça com a singeleza e força de uma “manga espada”, deliciosa, porém inquietante. O ordo amoris é o núcleo da ordem do mundo como ordem divina na qual o homem se situa. Antes de ser um ens cogitans ou um ens volens, o homem é um ens amans. Isso significa que aquilo em direção ao qual ele inclina o seu coração se torna para ele, a cada vez, a essência das coisas. A escala de suas preferências determina também a estrutura e o conteúdo da sua concepção do mundo, assim como sua disposição para atentar para as coisas ou para dominá-las. Mas, se a realidade é mutante, o sujeito se encontra numa situação de precariedade, pois não consegue encontrar apoio num espaço que se modifica e estremece à sua volta.

Por essas razões, a poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira foi apresentada, inúmeras vezes, como contendo evidentes aspectos da tradição do barroco mineiro, e isso principalmente nos momentos em que o poeta realiza uma erotização do contexto religioso da cultura mineira. Sem dúvida, a referência ao mundo distorcido nos lembra a figura do Aleijadinho e as tensões manifestadas pela estética barroca. O sentimento que perpassa o livro, intermitência de prazer e dor, luz e sombra, provoca no leitor encantamento e espanto e se abre para uma interessante leitura fenomenológica. No entanto, é preciso acrescentar que a tendência que privilegia, em termos estéticos, os momentos de êxtase, inclusive erótico, é evocada com freqüência como uma experiência central ao expressionismo. Nessa direção, o erotismo representaria a manifestação de uma energia transbordante (CARDINAL, 1988, p. 65) e, ao mesmo tempo, o êxtase encaminhar-se-ia, se estimulado sob determinados influxos, para “uma euforia generalizada de fundo místico” (CARDINAL, 1988, p. 66).

Nos poemas de Gorgone, descobrimos que a obscuridade luminosa desses versos (“a vista não alcança/ a luz interior”, poema 24) nos conduz à experiência dos místicos, na qual as visões do outro mundo se dão junto com o sangramento do corpo, como lemos no poema 11: “alguém tece o destino/ nos corpos que desfiam/ sangue após o corte”.   Assim sendo, fica para o leitor esse chamado para uma poética dos “loucos sem a loucura” (poema 12), em que “a carne retém o nome/ às vésperas de perdê-lo” (poema 53) e em que “expelimos a língua” (poema 38) para calar e assistir ao “amargo sortilégio” do “pinheiro que expele o verde” ou do “balé das coisas mortas” (poema 35).

O leitor atento dos Manuscritos de Pouso Alto perceberá que, atrás da aparente normalidade da “porta [que] se fecha” e do “quadro [que] está na parede” (poema 40), a natureza se exilou em um presente eterno como se, de repente, Medusa tivesse petrificado tudo ao redor, deixando “olhos fixos” (poema 8) e uma “meia lua” (poema 8) que logo se torna “de crepom” e “presa em ramos” (poema 36). No entanto, se o leitor aguçar melhor o ouvido, sentirá que há um mundo onde os sinais de vitalidade são gritos sottovoce de pessoas como “o vidraceiro [que] bebe vidros” (poema 41) ou os “casais de um só corpo/ à procura de seus membros” (poema 42). Pessoas que lembram as personagens dos quadros de Edvard Munch, silenciosos seres humanos gritando por dentro.

A urgência desses gritos humanos, desde sempre caracterizados pela perda, pela angústia e pela solidão, convoca na poesia ao convívio do real e do mítico a fim de recriar um mundo mais em acordo com a redescoberta da profundidade humana vivenciada no corpo e na alma graças ao movimento intencional do amar, que é “despir-se para exibir/ a carne a outro mortal” e “[ter] o apego profundo à frieza dos ossos” (poema 29). Em decorrência disso, não há razão para nos assustarmos com os “bois alados” que nascem atrás da igreja (poema 52), nem com os “caranguejos órficos” que dormem nos braços da amada (poema 16) e menos ainda com os “meninos de louça” surpreendidos no poema 9.

Ao longo do livro, o autor levanta questões e perguntas que tocam a definição ontológica do ser humano, como no poema 45: “o que o tempo busca em mim?/ eternidade na finitude?”. Ao fazer isso, ele questiona também a condição existencial de cada leitor que se aventura a consultar os Manuscritos de Pouso Alto. No entanto, o poeta deixa de sobreaviso o leitor, para que não procure respostas nos manuscritos já que, logo depois no poema 50, afirma: “não sabes a resposta/ quieto em teu olhar sincero./ aceito a dor e leio o salmo/ excluído dos Salmos”. Eis porque, para terminar, acredito que a única bússola capaz de nos orientar na paisagem poética de Eustáquio Gorgone de Oliveira seja o impacto da emoção estética provocada pelos versos. Porque a felicidade que brota dessa emoção está relacionada ao sentimento de algo que, na obra, nos diz respeito a nós mesmos profundamente, mesmo que nós não saibamos exatamente qual tecla da nossa intimidade ele vem tocar e despertar, desde o “segredo das nossas sensações”.

 Referências bibliográficas

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CARDINAL, Roger. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
OLIVEIRA, Eustáquio Gorgone de. Manuscritos de Pouso Alto. Juiz de Fora / Rio de Janeiro, Funalfa / 7 Letras, 2004.
SCHELER, Max. Six essais de philosophie et de religion. Fribourg:Ed. Universitaires Fribourg, Suisse, 1996.

Prisca Agustoni

* * *

 EUSTÁQUIO GORGONE DE OLIVEIRA. POEMAS ESCOLHIDOS

Vejo Minas, chove.
Há Cristos de lama nas igrejas
e fardas no cinema.
Vejo águas, Gerais.
Há cidades imersas nos rios,
peixes nos hotéis de luxo.
Vejo Minas Gerais.
Depois da soleira,
o vento é de mármore.
Além das minas,
os amantes são estrábicos.

(Do livro: Minas, 1983)

§

A poesia vai sendo assim
escrita, cardo-santo no
estômago. Aos poucos,
outra luz na noite,
azul que costura o corpo
das crianças. Em glebas
os fonemas se encontram,
os amargos e doces.
A poesia vai sendo assim
escrita. Enquanto
houver tardes, âmbulas,
cada palavra será guardada
em óleos santos.

(Do livro: Exercício, 1983)

§

A idade vem nos envenenando
Da infância à velhice.
Alguns imigos são flores entre flores,
Imigos em garrafão de vidro opaco,
Escondidos na graveza existente.

É o crudelíssimo silêncio das escarradeiras
Onde flores se tornam cogumelos.

(Do livro: Comarca do Rio das Mortes, 1990)

§

Às vezes, antes do poema,
Vamos à janela.
O céo não está no céo,
Nem flores proliferam
Flores.
Já se formou o mundo
E agora a luz repete
A luz.
Amor e solidão apenas
Palavras móveis:
As duas mãos do esmoler.

(Do livro: Comarca do Rio das Mortes, 1990)

§

Olho a cidade que veio do solo.
………….Girassol fixo.
Seus moradores imóveis nos umbrais,
Suas mobílias fitando os enfermos.
………….Meio-dia.
Sobras de sonho formam monturos,
Cascalhos abarrotam nimbos.
………….Aragem fixa.
Rosas presas em papel couché.

(Do livro: Girassol fixo, 1995)

§

Deixa o poema germinar.
Depois, será esquecido.
Instrumento sem uso, terá repouso.
Procura no arco-íris a cor serva,
aquela que há muito te acompanha.
Dê nome às tuas jóias
antes que pertençam a outro.
Ao amor vindo à tona, inconsútil,
deixa-lhe marcas de azul-tártaro.
E enquanto houver incenso nas palavras
confirma o abraço que não existe.

(Do livro: Passagem na orfandade, 1999)

§

Quando o amor circula nas bocas,
ele se move entre os vermelhos.
Qual cidade é assim por dentro?
A primavera viaja sobre carris
e aonde vamos ela também leva
no toucado as suas flores.
Cornos forrados de abelhas
trazem o mel das liturgias.

Fossem todos os dias luminosos,
a quem distribuir as sombras?

(Do livro: Passagem na orfandade, 1999)

§

já não encontro o teu corpo
aquietado numa abside.

procuro-te entre as pedras
dentro dos tinteiros de chifre.

ficou a alma sobre a carne
como nas telas impressionistas.

o vazio agora me aperta
à medida que se revela
e a tinta mestra se apresenta
com pincéis dolorosos.

peço refúgio ao esquecimento
ao Conselho das Sombras.
nunca serei o livro iluminado
pelas cerdas de tuas mãos.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

§

ó casa de muitos cômodos.
há sempre um quarto
que evitamos.
acaso são as palavras
contraprovas do ser?

non me tangere.
o verbo e os actos humanos
dispersam-se ao vento.

serei doado à solidão:
o nome numa cártula.

(Do livro: Ossos naives, 2004 )

§

auto-retrato em dezembro

agora usando corretor
para a bolsa ocular e a calva
já seguindo silencioso percurso;
o nariz bem feito e o sorriso triste
de quem há dias caminha
entre os muros de Utrillo;
cabelos brancos e u’a obstinada
crença de que a luz vive por si;
tez clara voz baixa e grave
enfim um rosto semelhante
àqueles que provaram as perdas.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

§

por que não usar rosto ………….o arqueamento pode se dar
mui claro em pinturas. ………….entre os supercílios
………….………….………….………….e a tristeza vir à tona.

………….………….………….………….sob as sombras de face interna
………….………….………….………….o escuro pode alargar-se.

………….………….………….………….é inútil trabalhar os solventes
………….………….………….………….quando a secura dos lábios
………….………….………….………….espalha-se na luz dos olhos.

………….………….………….………….recomenda-se pano virgem
………….………….………….………….que nunca foi tingido
………….………….………….………….ou linho em trama firme
………….………….………….………….que suporte o sofrimento
………….………….………….………….dos pincéis.

(Do livro: Ossos naives, 2004)

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