poesia

Patricia Lavelle

Patrícia Lavelle nasceu no Rio de Janeiro, é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, associada ao Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Doutora em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde morou entre 1999 e 2014, tem livros de ensaios publicados na França e no Brasil, suas pesquisas problematizam as relações entre criação literária e reflexão filosófica. Como poeta, publicou Migalhas metacríticas (7Letras, coleção megamíni, 2017) e Bye bye Babel (7Letras, 2018)

Bye bye Babel obteve a primeira menção honrosa do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2016.

* * *

Eco
(a Paulo Henriques Britto)

Nem sempre corresponde. “Responde onde?”
Pondera, repetindo. “Repetindo?”
Responde, repetindo lindo lindo
o eco à minha última palavra.

A lavra de ouro, essa palavra em larva…
“A lavra em larva?” Metáfora parva.
Imagem sonora em caricatura?
Cacofonia numa bela figura?

Figura bela “belabel a bel”
em eco invertida: abel, babel.
Vertida essa vertigem em espelho

partido de Narciso… “Ciso, siso?”
E nisso ironizo… é, ironizo.
Quem é que sonha em prosa? Eco trova.

 

§

O Tradutor

O corpo contorce
um gesto sem
som
esboça ritmos
em movimento arrítmico
dos lábios.

Entre duas tramas
(fonemas
palavras
sintagmas
sintaxes
sentidos
entre parêntesis)

um hiato:
cesura a-semântica
intervalo

e salto

§

Traduzida
(a partir de um poema de Ricardo Domeneck)

A língua do tradutor invade a minha boca
e lúbrica aliso a plástica muscular
de suas vogais macias
e essa reta ligeiramente ascendente
de cada frase sua
penetra
o elástico rítmico das minhas sílabas
em duplo silêncio
gozo
o eco nessa outra voz
langueur monotone
dentro.

§

Diálogo

Senti teu olhar endurecer
entre as minhas
palavras:
intumescência imediata
naquela fenda
obscura
entre o corpo e o discurso.

§

O corpo e a voz

Na sucessão de gestos matinais
uma involuntária contração
no músculo do braço
esquerdo

distrai minha atenção

Entre o corpo que ele é
e o corpo que ele tem,
um vai-e-vem
move membros e coisas

Tensão que se traduz
no timbre grave da voz

Entre a palavra que ele é
e as línguas que ele fala
uma só voz
vem e vai.

§

Metáfora

Suspenso o significado
a palavra espera
aberta
numa frase estranha,
brecha de onde o sentido
se projeta.

No abismo da imagem
o verbo é vertigem.

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poesia

Ericson Pires (1971-2012)

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Ericson Pires (1971-2012) era poeta, performer, ator, músico, produtor e agitador cultural, além de mestre e doutor em Literatura pela PUC-RJ e um dos fundadores do CEP 20.000, ao lado de Guilherme Zarvos e Ricardo Chacal. Foi também faixa preta e professor de jiu-jitsu, além de professor adjunto do Instituto de Arte da UERJ. Criou o coletivo musical HAPAX, o RRRadical et alii. Publicou, como poeta, os livros Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7Letras, 2010). Como ativista, publicou o livro Cidade ocupada (Aeroplano, 2007), um manifesto que defendia a ocupação urbana pela arte. Como acadêmico, publicou Zé Celso Oficina-Uzyna de corpos (Annablume, 2004), que é um desdobramento de sua dissertação de mestrado. Morreu em 2012 devido a problemas decorrentes de uma pancreatite aguda.

 

sergio maciel

* * *

 

CANTO III
(MISTÉRIO DA NECESSIDADE)

– aquele que escreve é
também aquele que
é escrito –
…………………………………………a potência
…………………………………………de nadar no tempo
…………………………………………a insistência
…………………………………………de sentir o fio
…………………………………………a querência
…………………………………………de brotar acaso

…………………………..continuo a inventar o instante
…………………………..contínuo
…………………………..mantenho meus sentidos alertas
…………………………..desperto
…………………………..imagino um mundo que não acaba
…………………………..destaco

e não acontecerá mais coisa alguma que não se possa inventar
e não esqueceremos absolutamente que se pode esquecer
e não poderemos ficar parados diante do imenso centro sol

as mudanças são encontros de mundos que se movem

– tudo pulsa –

é necessário fazer listas intermináveis
…………………….cruzar linhas infindáveis
…………………….tecer sonhos inimagináveis

é necessário cozer a roupa que parte o dia da noite
…………………….a luva que colhe o prato do sol
…………………….a calça que cobre o rubro do céu

é necessário criar no peito o grito que alinhava os fios

……………………………………………..o grito frio do calor que queima

o grito de todos os gritos de todas as paixões
…………..de todos os anseios de todas as medidas

o grito de todos os cantores de todas as desditas
…………..de todos os que mentem de todos os que gritam

…………..de todos
……………………………………….os que traem
……………………………………….os que sujam
……………………………………….os que mudam
……………………………………….os que lutam
……………………………………….os que sacam
……………………………………….os que escapam
……………………………………….os que traçam
……………………………………….os que podem
…………..de todos
……………………………………….os que partem
……………………………………….os que primam
……………………………………….os que saem
……………………………………….os que vibram
……………………………………….os que lascam
……………………………………….os que lambem
……………………………………….os que sentem
……………………………………….os que gozam

é necessário devorar leão ser leão ter a juba leão
…………………….correr na pata leão rugir leão quando ruge leão
…………………….cheirar como cheira leão
………………………………………………………………………….atacar leão

é necessário levar o dia a rodar o cu da boca
…………………….a boca a gemer gozo lua
…………………….a luz a beijar o útero sol

é necessário manter o corpo aberto
………………………………….o topo aberto
………………………………….o toque aberto
………………………………….o foco aberto

………………………………………………….manter aberto tudo que escoa
……………………………………………………………………………tudo que esvai
– pensar:
necessidade –

………………………………………………….trazer as linhas
………………………………………………….novo novilho
………………………………………………….fazer as linhas
………………………………………………….movo moinho
………………………………………………….perder as linhas

………………gritar uma super nova a cada minuto

……………………………….– o amor brilha –

§

 

CANTO I
(ROMANCE DE PERDER)

– a hora do que é
poderá ser a obra do que
SERÁ

neste momento

tudo pode

SERÁ
SOL

neste momento
(ser agora novamente)

noite perdida
pequena

noite perdida
tornada

de novo sol
de novo –

serei aquele que imaginou o não agora?
serei só o número ímpar no destacamento?
serei o instante instável reforçando o mínimo?
serei o que não poderá o que não retornará?

o que será aquilo que simplesmente é
o que simplesmente foge
o que simplesmente
simples escorre?

Lista lisa de tecido solto

– não ser no sou só:
encontrar fios –

serão os traços que esconderão?
as bordas que transportarão?
os acasos que multiplicarão?

(nenhuma verdade existirá ou restará)

imagens se sucedem:

anúncios estabelecendo possibilidades amargas do possível
taperas tentando esconder aquilo que é comum ao comum
serpentes escapando do jardim fechado pela madrugada

ser aquilo que será sendo
(o ser não existe
existe o é
é o é que será)

– sendo senderos –

será real não escapar do que pode ser?
será alguém escapando ao dito?
será você escutando o que não deveria?
será meu irmão cantando por não saber o que poderá ser?

Fios seguem
Rumos sedem
Trapos rompem

Você é o que não poderá ser sem poder
Você esqueceu que qualquer um que só quer poder
não será
Você pediu para dizer que qualquer um é um que poderá
não ser
você acha que é
simplesmente é

você brilhará no espelho que eu quebro

imagens tecem:

falhas moverão folhas de um álbum que jamais irá perdurar
fontes capturam bicas que secarão solitárias trabalhando secando
flâmulas estarão completamente ríspidas seguindo o refugo
faixas não sinalizarão o Sol surgindo desesperadamente só

solitude é uma canção
– chamarei o Sol para conversar –

remédio é sentar ao sol

SOB O SOL
SALVE SOL
SANGUE SOL

Às vezes dói

– chão se rasga céu sem nunca parar chão –

dói sem dor

quero curar da cura que cura

SOL

voltar ao resto que repete outro

o que retorna é aquilo que sempre esteve de novo
– teia circular: querer perder –

§

 

FALA TECIDA

Tecer-se
Catar em cada parte o fio que se perde
Tecer-se
Trair cada fim que se pretende
Tecer-se
Criar cada outro que cria outros

Não há equidistância possível entre o dito e o imaginado
Nenhuma palavra resume em si o sentido que lhe cabe
A fatalidade inesperada do som abrevia a fala novamente falada

Tecer-se
Em cada linha que cruza
Em cada ponto que surge
Em cada salto que escapa

Esquecer o silêncio.
Esquecer todos os silêncios que nos calam. Esquecer que os
silêncios nos calam.
Esquecer que somos calados. Esquecer que estamos calados.
Esquecer silêncio.
Todo o imenso som do silêncio. Todo o silêncio que brota
da fala. Todo o silêncio que fala alto na fala. Todo silêncio
estagnado em todo som,
em todo silêncio.
Esquecer que meu cio é silêncio, que morro no silêncio, que
só vivo em silêncio, que falo em silêncio.

……Esquecer silêncio.
……Tecer-se.

É preciso inventar aquilo que já existe sem nunca esperar
que aquilo termine um dia.
É preciso aventurar-se naquilo que é teu silêncio redivivo a
aventura de inventar o dia.
É preciso não descansar enquanto a fala não terminar. É
preciso não terminar a fala.

……Esquivar do silêncio é perceber-se como silêncio inventado
……Falar é inventar o silêncio novo

……Tecer-se na fala os silêncios
…………no silêncio as falas

……Tecer-se fio de fala som
…………silêncio de fala tecida

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Um poema inédito de Luciano Ramos Mendes (1986-)

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Foto de Natália Faustino Marques.

Luciano Ramos Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever.

O poema aqui-agora publicado integra seu segundo volume de poesia, intitulado autotanatografia, e me parece que segue um pouco da tradição de “poema para vozes”, algo ao modo de Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto, algo ao modo de antigonick, de Anne Carson. Um tipo de poética que se concentra no limiar entre o gênero dramático e o literário-poético, criando um irresolução que funda um novo sentido, talvez, na performance.

 

sergio maciel

* * *

 

DISSOLUÇÃO

Personagens:
Shaul: um homem envelhecido, magro, cabeça raspada – com várias falhas. Costelas salientes, olheiras profundas. Chagas lhe cobrem as mãos e o tórax.
Shulamite: um mulher que já foi bela. Está devastada. Cabelos cor de cinza.
Itstok: um jovem forte, vigoroso, porém extremamente pálido. Está nú.

 

Um não-lugar, de cor vermelho-escuro, que lembre sangue. Uma espécie de fundo infinito. No início não há ninguém em cena. Das trevas, faz-se Shaul.

 

Shaul

sem direção nem
foco
como a fumaça
do cigarro que
se espalha
eu me
perco
e não sei
mais quem sou
eu sinto meu coração
batendo forte
batendo fora de compasso
prestes a explodir
não vai explodir
pois
é como a fumaça
e se espalha
sem ruído algum
apenas
desaparece
o desejo murcho
o desejo morto
o desejo nulo
que me resta
é incapaz de
manter as forças de atração
entre os átomos
que me formam
carbono
hidrogênio
enxofre e nem sei
mais o quê
me desagrego
sem forças
o começo do
fim
encarcerado
em mim
não sei mais onde ir
acendo esse
cigarro – e nem quero
fumar
sem direção nem
foco não sei mais
aonde ir a
fumaça que se espalha e se dissolve e se perde
se torna
invisível como parte do ar
me espalho e me dissolvo e
me perco
me torno
invisível
como parte da morte
como parte dos
dias

Shulamite (surge, gritando)

o que você pensa
que vai conseguir?
que eu tenha pena
que eu te despreze
que eu te ame
não
se sente não se faz
nada
a respeito dos dias
ou da morte ou do ar ou da fumaça
eu não me importo
com sua tristeza
não
me importo com
seus sentimentos confusos
suas desesperanças
ou os poemas idiotas
que você
escreve com sangue

Shaul

não esqueça
que todas
e cada uma
das vezes
fui eu quem
te desprezei
não quero
que se
importe
eu
simplesmente
não quero
coisa
alguma

Me’ahevet

por que
por que
por que então você não
morre e me deixa
em paz
sem que
essa sua dor
estrague a lembrança
da felicidade

Shaul

sem rumo
sem direção
como
a fumaça de
um cigarro
que
eu acendo sem
ao menos querer
fumar
desapareço
me dissolvo
no ar
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte

Me’ahevet

eu segui
com a vida
eu até esqueci
que você
existia
você
e sua falta
de desejo
seu desejo morto seu desejo murcho
seus cigarros sem vontade e seu uísque anestésico
os comprimidos de felicidade
que sempre acabavam no ralo
porque com eles
dizia você
não se pode escrever porque
com eles não
sou eu
dizia você
mas eu esqueci tudo
isso como
se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte
e continuei
com a vida
só que a mancha da
sua miséria
me maculou para sempre

Shaul

por outro lado
nunca esqueci
e nunca vou esquecer
de nada
que disse
de nada que fiz
cada palavra
cada lágrima ou gota
de sangue
cada fio de baba
de tudo me recordo
menos
de mim
me recordo de tudo e não esqueço de nada
mesmo daquilo
que fingi
nunca saber
e de tudo
que nunca acreditei

Shulamite

por acaso algum
dia acreditou
em algo
não no amor nem
na liberdade até mesmo
seus esforços
para crer em
algo maior que
tudo foi em vão
nem mesmo em si
acreditou
por acaso algum
dia

Shaul

minha única verdade
sempre foi a
descrença
meu único sentimento
sempre foi a dor
ensimesmado
preso acorrentado
mesmerizado
dentro
da caixa de pandora
da minha alma
se é que
um dia tive uma
por acaso
algum dia

Shulamite

você não faz ideia
depois que
se foi
o que passei
sofri chorei tentei
esquecer
porque amei você
porque aceitei
você dentro de mim
e quis ser parte
do seu mundo
podre
onde tudo é
parte dos dias
parte da morte
por acaso
seu egoísmo
sem filhos sem liberdade
sem amor sem vida
apenas acreditava em
não acreditar
apenas vivia para
um gesto derradeiro
que nunca cometeu
não era fácil
a corda ou a lâmina do bisturi
os pulsos ou mesmo a jugular
quem sabe um tiro
e você prometeu
que não me amava
porque só sabia
disso
porque era parte dos dias
parte
da morte

Shaul

seria fácil
seria muito fácil
eu poderia
fingir amar
eu poderia fingir acreditar
e mentir sobre
ser feliz
e um dia
por acaso
não mais acordar
mas o que
então
aconteceria
sofri
depois que você se foi
como se fosse parte dos
dias parte da morte
sem filhos sem vida
sem amor sem
nada
sem um único
sentimento sequer
apenas o desejo
murcho
morto
vazio
um dia por
acaso

Shulamite

e agora
que nos reencontramos
não existe mais
nós
pois esqueci
de você de mim
amei e amei e amei
várias vezes
vários dias
e nunca foi por acaso
tive filhos
fui livre
e esqueci
de você
mas nunca
da sua dor
como se fosse parte
dos dias
como se fosse parte
da morte

Shaul

eu nunca esqueci
de nada
mesmo que por acaso
algum dia
tenha fingido esquecer
como se fosse parte dos dias
como se fosse
parte da morte
eu nunca esqueci
e eu nunca acreditei

Shulamite

você quem
nunca
esqueceu eu
que nunca lembrei
apesar
de tudo apesar
do tempo
apesar dos dias e da morte eu
penso em algo que não
foi
algo que nunca lembrei

Shaul

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
você ainda sangrava
você ainda
tinha dores mas ninguém
se dava conta
apesar
de tudo eu
vi

Shulamite (coloca uma das mãos na vagina, a tira suja de sangue)

um dia
uma semana
nós dois quase um
ano depois
eu ainda sangrava
eu ainda
tenho dores mas ninguém
se dá conta
apesar de tudo
você
viu
apenas você

Itstok (surgindo do escuro)

e eu
estive lá
o tempo todo
em que nunca
existi
eu estive lá
o tempo todo
em que deveria
ter sido algo

Shaul

e ele
que nunca
existiu nós não
permitimos
e assim
entre nós
mais um
fantasma
mais uma
dor

Shulamite

foi você
que não existiu
foi você
que se negou
eu sempre quis
a vida mas
desisti
em seu nome
eu sempre quis
um filho
mas desisti
em seu
nome
o nome do pai

Itstok

vocês dizem cor
mas eu digo sangue vocês dizem
fantasma mas eu digo
eu
vocês dizem desistir
e eu não
quebro o silêncio

Shaul

como se fosse parte
dos dias como se
fosse parte
da morte
nunca escapei
nunca desejei
pois tudo era
morto tudo era nada
como a fumaça do cigarro eu
me espalho eu me separo eu me
dissolvo
como os mortos
que eu enterrei eu
lamento mais
de uma vez
por todas
eu ainda vejo seu sangue

Shulamite

meu sangue não
meu sangue não é meu sangue
meu sangue não é
minha cor
minha voz
tudo isso foi você
quem fez foi
você quem
tirou foi
você
sempre

Itstok

meu sangue não
é meu
sangue é
minha cor
de vocês
tudo isso é
nada
vocês dizem cor
eu digo sangue
vocês dizem o mundo
eu digo um altar
vocês dizem nada eu
digo morte
eu digo tudo
e os vejo
separados por uma distância
infinita
de meu tamanho

Shaul

de todos os vazios entre
os tempos de todas as distâncias entre as
filas de
soldados das brechas
de tapume das portas
que fechamos mal
das mãos
que separamos do vazio
entre os corpos
nasce uma planície um
deserto
para onde
eu vou sempre
onde eu sempre
estive

Itstok

nesse vazio nessa
solidão
um deserto a fumaça
onde você diz que
está eu
sou

Shulamite

de todos os vazios o
que mais me dói
é o que vocês
deixaram dois
fantasmas
sempre como seres dormentes
e palpitantes
que saltam de
meu corpo
sempre

Itstok

ouço meu sangue e tua
voz numa única
pulsação
vejo teus olhos e minha
miséria num único
clarão
sempre

Shaul

acendo um cigarro e
nem ao menos quero
aceno um adeus e nem
ao menos
sei
porque
mas é o que faço
como se fosse parte
dos dias como se
fosse
parte da morte
nem ao menos
quero

Shulamite

dois fantasmas
como seres dormentes e palpitantes
que saltam
de meu corpo

(Lentamente, todos desaparecem.)

FIM.

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poesia

Silvana Guimarães

sil_paper.jpg

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora brasileira. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

*

depois do vendaval

começar a estudar geografia humana
para entender as distâncias

fazer cálculos de estatística
para banalizar os prazos de validade

recolher os quatro elementos
para asfixiar a revoada de pássaros no meu peito

comer um saco de sal
para juntar os cacos de cristal dentro de mim

esperar o galo cantar
para te negar três vezes

repara: quanta crueldade existe na palavra corpo

§

supermercado

devo-lhe um poema de amor mas
preciso fazer a lista das compras
andar sobre as águas quebrar pedras
romper a fortaleza das palavras
convencer estrelas e cotovias
buscar um farrapo de eternidade
limpar a angústia dos móveis
tirar o encantamento do armário
desvendar seu abismo meus ismos
ferir o pudor raspar o desejo
pera uva maçã ou algodão doce
como se como sempre como sou
adivinhar seu cheiro de magnólia
a febre a dor o desalento implícitos
amar e desamar o seu avesso

: apalpo a palavra pêssego e ela
se diz entrega em suas mãos

§ 

dois bem-te-vis

— como foi?
— o poste explodiu, pegou fogo, o
ninho foi parar longe e o corpo do
homem ficou grudado ao fio, estrebuchando,
os olhos mutilados, a alma presa nos
mistérios da insignificância.
— nossa, horripilante.
— assim.
— e aí?
— a mãe apavorou-se e abandonou os
dois, ali, no chão, com as penas queimadas.
hoje, abri a porta da gaiola e eles voaram,
encabulados com a liberdade: mudos.

§

o óbvio lancinante

a morte é um milagre: ela vem leva um
e outros morrem ao redor de quem foi:
todo morto nunca é um só na sua dor

não existe rota de fuga não há esconderijo
ela chega e acaba com as flores pássaros
espaço consciência memória tempo beleza

descobre códigos senhas mapas da cidade
nada está a salvo: nada segura a sua gula
nenhuma valentia lhe dobra a arrogância

nunca mais eu te amo, te ligo amanhã
nunca mais essa música: olha que triste
nunca mais aquela viagem aquela droga

fica faltando um verso no poema impossível
tudo o que podia ter acontecido e não vai ser
o morto carregando seus mortos que respiram

bendita seja a morte: essa rainha da liberdade
que me faz rastejar nesse escuro dia das mães

***

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crítica, xanto

XANTO| Adília estreia, por Guilherme Gontijo Flores

É sempre o caso de celebrar quando uma poetisa (assim ela prefere) relevante de língua portuguesa recebe atenção no Brasil, mais ainda quando temos a chance de ler um livro inteiro como foi originalmente publicado, de modo que revele sua poética sincrônica, seu modo de organizar um volume, pensar os poemas com conjunto, etc. Um jogo bastante perigoso, o primeiro livro de Adília Lopes (pseudônimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira), lançado em 1985 em edição da própria autora, é agora também o primeiro livro integral da poetisa a ser publicado no Brasil. Antes dele, tínhamos apenas a Antologia, publicado em 2002, pelo fundamental selo Ás de Colete, numa parceria da editora 7 Letras com a finada Cosac & Naify. Hoje é a Moinhos, editora independente sediada em Belo Horizonte e tocada por Nathan Matos e Camila Araujo, quem assume essa empreitada num belo voluminho de 64 páginas. O livro tem ainda um prefácio afetivo da poetisa e fotógrafa Adelaide Ivánova, que revela a influência de Adília em sua poesia, mas também acaba por indicar a importância de seu nome em muitas obras da poesia brasileira contemporânea, em nomes que vão de Ismar Tirelli Neto a Angélica Freitas, para ficarmos apenas em dois dos muitos que poderiam entrar na lista. Na quarta capa, um texto curtíssimo de valter hugo mãe resume pontos essenciais dessa poesia: “adília lopes é pura desmistificação. tudo que você sabia sobre poesia precisa de ser repensado. […] adília é nua.” E talvez haja mesmo uma nudez mais notável numa estreia, mesmo que ela nos chegue apenas 33 anos depois.

Apesar de não ser propriamente o melhor livro da autora, que então tinha 25 anos, nem o mais experimental, os poemas de Um jogo bastante perigoso já revelam uma escrita muito madura, como vemos nos versos de “Arte poética”:

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
[…]
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer.

Nestes versos, o deconcerto da escrita de poesia torna-se também o desconcerto da leitura da metáfora: poema peixe que escapa e que precisa ser pego, para que assim melhor escape. (Em atenção a este poema, o volume brasileiro é marcado por peixes na capa e nas folhas iniciais e finais). Noutra peça metapoética, lemos:

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são águas passadas

Neste livro vemos também como Adília passa com leveza pelas citações eruditas (referências a Sylvia Plath, Proust, Sá-Carneiro, Ingres, Verlaine, Camões etc.) entremeadas por um clima de conversa que provoca o gosto coloquial, por vezes íntimo, que desarma o leitor. O riso abre espaço em muitas cenas que beiram o absurdo, como em “Um quadro de Rubens”:

Vi-me comoprimida
num ajuntagente
ora eu só suporto pessoas à distância
de preferência com uma mesa de permeio
acontece que uma mulher foi projectada
para cima de mim com um cigarro aceso
há pessoas que vão para ajuntagentes
fumar cigarros!
ora eu temo as queimaduras
muito por sua vez caí por cima de uma mulher
que era um sex symbol depois
de sofrer uma homotetia de razão
superior a 1
há pessoas que vão para ajuntagentes
com dez alcinhas!
era o caso do sex symbol
o vestido tinha três alcinhas
de cada lado
e o soutien alças em duplicado
se caio para baixo passam-me por cima
a única saída é sair por cima
disse de mim para mim
as pessoas do ajuntagente
reparei então
eram feitas aos degraus
comecei a subir pela que
estava mais perto
era uma mulher
dei por isso quando começou
a gritar
a menos que fosse
um contratenor
mas alguém teve a mesma ideia
que eu
e começou a subir por mim acima
ora eu sou intocável
agora já nem consigo
dizer nada de mim para mim
o de mim para mim acabou
não há lugar para mim
num quadro de Rubens

A sensação é que, em sua poética de uma lucidez tremenda e assustadora, apesar da recorrência certa dicção narrativa e doméstica, por vezes assumidamente autobiográfica, Adília percebe que o real não tem fundura, mas é pura superfície, e que, diante disso, a falta sentido deve vir como um constitutivo da experiência humana, que não pode ser escamoteado pela poesia.

Dado o impacto de seu trabalho em tanta gente, dada a potência de riso e desconcerto que ela é capaz de criar como ninguém, é de fato uma felicidade termos finalmente um livro integral; porém a distância de três décadas entre a primeira edição portuguesa e a brasileira é indício de como os diálogos literários entre Portugal e Brasil ainda precisam superar uma tendência conservadora do mercado editorial, sobretudo no quesito poesia. Precisamos mesmo de moinhos que andem ao contrário.

guilherme gontijo flores

Padrão
poesia, tradução

Christophe Tarkos, por Paulo Serber

Cristophe Tarkos nasceu em Martigues, no sul da França, em 1963. Poeta-improvisador-performer, construiu obra múltipla desde o início da década de 1990, quando passou a dedicar-se integralmente à arte. Participou da criação de importantes revistas de poesia contemporânea – como RR, com Nathalie Quintane e Stéphane Bérard, Poèzie Prolétèr, com Katalin Molnàr, Facial, com Charles Pennequin, e Quaderno, com Philippe Beck –e integrou movimentos de caráter inovador, colaborando numa rede de artistas e produtores culturais de significativa reverberação. Publicou pelas editoras Al Dante e P.O.L. Faleceu em 2004, em Paris, de um tumor cerebral.

Paulo Serber é mestre em teoria e história literária pela Unicamp. É tradutor de literatura francófona, tendo traduzido Emmanuel Bove, Henri Calet e Georges Perec.

* * *

Eu me agito

eu me agito.
eu já não posso mais me reter.
eu estou agitado. estou saindo pela tangente.
não há mais guia.
eu não sei mais onde eu estou.
isso não vira.
eu estou nervoso.
já não sei onde virar o olho.
meus olhos viram.
eu me retorço.
eu não sou mais do que agitação.
do que nervosismo.
do que nevos.
do que incontroladas agitações.
incontroláveis.
já não me controlo

eu me agito.
eu já não me quero.
eu quero que isso parta.
eu quero que se isso não pode partir que eu me sobreleve.
que eu dissipe.
que eu desloque.
que eu interrompa.
eu posso tudo parar.
eu posso me fazer morrer.
eu posso me suicidar.
eu vou me fazer parar.
se eu não posso continuar eu paro com tudo.
eu vou me fazer sumir.
eu paro.
eu corto.
eu cesso.
eu morro.
eu me mato.
eu me suicido

eu me agito.
eu passo mal.
eu não paro o mal me agitando.
isso se agita.
isso só faz aumentar a agitação.
o mal agita.
a dor continua precisa insinua insiste martela se agita.
eu me agito.
eu quero que cesse.
eu não tenho.
eu não tenho como fazer parar.
eu não terei meio de fazer cessar

do que se agita.
do que se debate.
do que ser não está afim.
do que ser não está afim do que acumulou.
que ele acumulou.
que ele tem que trajar.
que ele tem que levar.
do que ele viu tudo que se acumulou.
do que se tornou agitado.
do que se tornou insuportável de levá-lo.
de ter que levá-lo.
de o saber colado para sempre à pele

eu me agito.
eu estou nervoso.
eu quero a morte.
eu quero morrer.
eu não quero mais continuar.
é continuar nessas condições que é impossível.
quando se tornou impossível é preciso poder parar.
eu tenho o poder de fazer cessar.
eu posso parar por aqui.
eu posso acabar com tudo.
eu quero acabar aqui.
eu quero parar comigo.
eu vou me fazer morrer.
eu suicido

eu já não quero mais que me olhem.
eu já não quero altas visões.
eu já não quero portar meu olhar sobre mim.
eu já não quero mais esse olho.
eu já não quero divinas visões.
eu já não quero ver.
eu já não quero ver-te.
eu já não quero mais ver viver.
eu quero me ver morrer.
eu quero ver-me perder a vista.
em um segundo já não mais ver

do que ele quer crescer seus cabelos.
do que ele quer que seus cabelos cresçam.
do que ele sente ver ter crescer seus cabelos.
do que ele quer ver seus cabelos crescer.
sentir que eles crescem.
sentir que eles crescem todos.
ele quer que eles se alonguem.
que sejam mais e mais longos.
do que ele quer ter cabelos longos que cresceram.
que ele sentiu crescer se alongaram

eu me agito do que ele quer que quer que ele saia do saco.
que ele saca que está ensacado.
que sabe que é um saco que ele não quer.
do que ele quer se extirpar.
do que ele quer que esse saco suma.
seja dissipado.
seja deslocado.
seja esquecido.
seja morto.
que ele não quer mais desse saco que nele cola.
nessa vida cola.
nesse saco cola.
nesse viu não rola.
que ele o quer quebrado.
que ele o quer extirpado

os demônios são contos bons que fazem pesadelos.
que fazem delírios.
que fazem ilusões.
que fazem delirar.
que fazem espantos.
que fazem medo.
que fazem enormes espantos.
que fazem escorregar.
que fazem pender.
que fazem cair.
que fazem histórias estranhas estranhamente espantosas.
estranhamente espantosas de querer sair de dentro de dentro delas

eu me agito.
da decisão de já não mais ser da matéria que sou.
da matéria de que sou feito.
de essa matéria aí.
dessa cola aí.
dessa pele aí.
desse couro aí.
desse peito aí.
se eu não mais quero ser isso aí.
eu já não tenho outra solução que partir de novo.
que de me juntar a outra matéria.
que de executar uma meia-volta.
que de tudo fazer cessar.
o que não poderia continuar com essa matéria

ele se mexe.
ele se agita.
eu me mexo.
eu me agito.
ele não quer bater suas botas.
ele tem uma ideia de como sair.
de como salvar-se.
eu tenho uma ideia de como sair.
eu vou sair.
eu vou encontrar solução para sair.
eu não posso ficar assim sem nada fazer.
a não me salvar.
a não me esgueirar

ele não sabe.
eu me agito.
ele não sabe.
eu não sei em cima do que eu vou me apoiar para saber.
para dizer.
para apoiar o que sou.
ele não sabe em cima do que se apoiar para ser se dizer.
para saber que é.
para provar.
para se apoiar.
eu não sei em cima do que eu vou daqui a pouco apoiar-me para dizer.
para dizer que eu sou.
para saber

 

Je m’agite

je m’agite.
je ne me retiens plus.
je suis agité. je pars dans tous les sens.
il n’y a plus de guide.
je ne sais plus où je suis.
ça ne tourne pas.
ça s’agite.
je suis nerveux.
je ne sais plus où tourner mon regard.
mes yeux ont tourné.
je me retourne.
je ne suis plus que de l’agitation.
de la nervosité.
des nerfs.
des agitations incontrolées.
incontrôlables.
je ne me controle plus

je m’agite
je ne veux plux de moi.
je veux que cela parte.
je veux que si cela ne peut pas partir que je soulève.
que j’éloigne.
que j’enlève.
que j’arrête.
je peux tout arrêter.
je peux me faire mourir.
je peux me suicider.
je vais me faire arrêter.
si je ne peux pas continuer j’arrête tout.
je vais me faire disparaître.
j’arrête.
je coupe.
je cesse.
je meurs.
je me tue.
je me suicide

je m’agite.
j’ai mal.
je n’arrête pas le mal en m’agitant.
ça s’agite.
ça ne fait qu’accentuer l’agitation.
le mal agite.
la douler continue précise insinue insiste martèle s’agite.
je m’agite.

je n’arrête pas d’avoir mal.
le mal est là.
je m’agite.
je veux que ça cesse.
je n’ai pas.
je n’ai plus de moyens d’arrêter.
je ne vais plus pouvoir arrêter

de ce qui s’agite
de ce qui se débat.
de ce qui ne veut pas être.
de ce qui ne veut pas être ce qui s’est accumulé.
qu’il a accumulé.
qu’il doit traîner
qu’il doit accumulé..
de ce qu’il a vu tout ce qui s’est accumulé.
de ce qui est devenu insuportable de le porter.
de le devoir porter.
de le savoir collé à la peau por toujours

je m’agite.
je suis nerveux.
je veux la mort.
je veux mourir.
je ne peut plus continuer.
c’est de continuer dans ces conditions qui est impossible.
quand c’est devenu impossible il faut pouvoir arrêter.
j’ai le pouvoir de le faire cesser.
je peux m’arrêter là.
je peux en finir.
je veux en finir là.
je veux m’arrêter.
je vais me faire mourir.
je suicide

je ne veux plus que l’on me regarde.
je ne veux plus d’yeux.
je ne veux plus porter mon regar sur moi.
je ne veux plus de regards.
je ne veux plus avoir d’yeux.
je ne veux plus voir.
je ne veux plus te voir.
je ne veux plus voir vivre.
je veux me voir mourir.
je veux me voir perdre la vue.
dans une seconde ne plus rien voir

de ce qu’il veut pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut que ses cheveux poussent.
de ce qu’il sent avoir voir pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut ses cheveux pousser.
sentir qu’ils poussent.
sentir qu’ils poussent tous.
Il veut qu’ils se rallongent.
qu’ils soient encore plus longs.
de ce qu’il veut avoir des cheveux longs qui ont poussé.
qu’il les a sentis pousser se sont rallongés

je m’agite de ce que de ce qu’il veut sortir de ce sac.
qu’il est dans un sac.
qu’il ne veut plus de ce sac-là.
de ce qu’il veut s’extirper.
de ce qu’il veut que ce sac disparaisse.
soit enlevé.
soit éloigné.
soit oublié.
soit mort.
qu’il ne veut plus de ce sac qui colle à lui.
à ce colle vit.
à ce sac vit.
à ce qu’il lui vit.
qu’il le veut enlever.
qu’il le veut s’extirper

les démons sont de bons contes qui font des cauchemars.
qui font des délires.
qui font des illusions.
qui font délirer.
qui font des frayeurs.
qui font peur.
qui font de grandes frayeurs.
qui font glisser.
qui font descendre.
qui font tomber.
qui font des histoires étranges étrangement effrayantes.
étrangement effroyables à vouloir sortir à vouloir en sortir

je m’agite.
de la décision de ne plus être de la matière dont je suis.
de la matière dont je suis fait.
de cette matière-là.
de cette colle-là.
de cette glu-là.
de cette peau-là.
de ce coeur-là.
se je ne veut plus être de cette façon-là.
je n’ai pas d’autre solution que de repartir.
que de rejoindre une autre matière.
que de revenir en arrière.
que de tout faire cesser.
ce qui ne pourrait pas continuer avec cette matière-là

il bouge.
il s’agite.
je bouge.
je m’agite.
il ne veut pas crever.
il a une idée de comment s’en sortir.
de comment se sauver.
j’ai une idée de comment sortir.
je veux sortir.
je vais sortir.
je vais trouver une solution pour m’ en sortir.
je ne peux pas rester comme ça à ne rien faire.
à ne pas me sauver.
à ne pas m’évader

il ne sait pas.
je m’agite.
il ne sait pas.
je ne sait pas sur quoi je vais m’appuyer pour savoir.
pour dire.
pour appuyer ce que je suis.
il ne sait pas sur quoi s’appuyer pour dire ce qu’il est.
pour savoir qu’il est
pour prouver.
pour s’appuyer
je ne sait pas sur quoi je vais bientôt m’appuyer pour dire.
pour dire que je suis.
pour savoir

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entrevista

A palavra coisa: conversa com Almandrade, por Patrícia Lino

almandrade

Almandrade por Mário Cravo Neto, 1987

O trabalho de Almandrade (1953, Salvador, Bahia) é, no contexto da poesia e artes visuais brasileiras, singular. Influenciado, de modo claro, pelo movimento de Poesia Concreta e sobretudo pelo Poema/Processo, Almandrade fez inúmeras peças que combinam vários modos de expressão literário-artística. Desde dos poemas visuais, publicados e expostos a partir dos anos 70, à pintura ou às peças escultóricas mais recentes, a sua voz interdisciplinar e, além do mais, descentralizada — e com isto me refiro à distância com que trabalha do eixo São Paulo-Rio de Janeiro — estende, independentiza-se e atualiza, de modo absolutamente original, os projetos sintético-ideogramáticos das vanguardas brasileiras do século passado. Deve ser, no entanto, analisada de dentro das vanguardas do século passado para fora; como, de resto, deverá ser lido qualquer poeta brasileiro(a) que, ao defender a ideia de poesia como totalidade ou união de todas ou quase todas as expressões artísticas, produz, apoiando-o ou rejeitando-o, desde do rasgo linguístico dos anos 20 e do poema pluridimensional das décadas seguintes.

Salvador, Brasil
Março 2018

Patrícia Lino

* * *

 

Patrícia Lino: Pau Brasil (1925) de Oswald de Andrade é um dos primeiros livros de poesia brasileira a combinar texto e ilustração no mesmo suporte material. Diria que tal empreitada modernista foi fundamental para o seu trabalho?

Almandrade: Eu diria que foi fundamental ou exerceu alguma influência em iniciativas ou experimentações literárias posteriores que possibilitaram o desencadear do meu trabalho. O trabalho de um artista é resultado de um debruçar sobre trabalhos alheios, que outros realizaram e deixaram como legado para as gerações seguintes.

PL: Quando tomou conhecimento dos trabalhos do grupo Noigandres? Teve ou não impacto o movimento da Poesia Concreta no teu trabalho criativo? Se sim, em que medida?

Almandrade: No começo dos anos de 1970, entre 72 e 73. Para mim, que iniciava o curso de arquitetura, dividido entre a poesia e as artes visuais, a poesia concreta foi um achado. Foi um ponto de partida para encontrar uma opção estética. Da Poesia Concreta, me aproximei do Concretismo, Neoconcretismo, Poema/ Processo e Arte Conceitual.

PL: Foram vários os níveis de resistência que a Poesia Concreta teve, ao longo de várias décadas , de enfrentar. Como explicaria você isto?

Almandrade: Primeiramente a Poesia Concreta ficou restrita a São Paulo, influenciou a publicidade, o design e os sectores da música popular. Chegou mais tarde à academia. Nos últimos anos, ela vem-se destacando no mercado de arte e nas dissertações acadêmicas.

PL: Qual é a sua opinião sobre as tentativas neoconcretas mais experimentais (estou a pensar especificamente nos projetos mais arrojados de Ferreira Gullar; como, por exemplo, os seus livros-poema ou O Poema Enterrado)?

Almandrade: Depois do lançamento do Concretismo e da Poesia Concreta em 1956/57, surgiram duas tendências que divergiam do grupo paulista: Ferreira Gullar, que inaugurou com um grupo de artistas o Neoconcretismo. A experiência de Gullar é exemplar, aproximando mais ainda a poesia das artes plásticas. A outra tendência partiu de Wlademir Dias-Pino, em direção do Poema/ Processo.

PL: Pode contar-nos mais sobre a sua relação com o movimento do Poema/Processo? Como começou? Em que medida é fundamental até hoje para o seu trabalho criativo? Entre os trabalhos mais importantes do movimento, houve algum que o tenha marcado ou influenciado mais do que os restantes? Por que razão? Há, além disso, alguma divisão maior entre o que você fez naquela época e o que você faz agora?

Almandrade: Também no início de 70 tomei conhecimento do Poema/Processo e entrei em contato com o grupo, logo após a parada tática como movimento. Por ser um grupo mais aberto, estabelecemos um circuito de informações, via mail arte, participamos da corrente internacional. Nossos trabalhos circulavam e discutíamos nossos projetos.

A Ave [1953-56] de Dias–Pino foi sem dúvida o trabalho que mais chamou a atenção de todos nós, pelo seu investimento conceitual. Por assumir o poema como coisa física, a leitura depende do manuseio.

Entre o que fiz e faço hoje não há divisões, há desdobramentos, obsessões. Entre a poesia e as artes visuais, utilizo vários suportes obedecendo às suas possibilidades: poesia visual, desenho, pintura, objeto, instalação e escultura, mantendo sempre a singularidade de elementos plásticos e expressivos.

PL: No seguimento da pergunta anterior: encara o objeto poético como o esqueleto da matéria semiótica? É exigido ao leitor que participe ativamente, quase de modo performático, nos seus objetos poéticos?

Almandrade: O objeto poético é a base para desencadear um programa semiótico. A participação do leitor, primeiramente é cerebral, depois em alguns casos a intervenção física, a manipulação a exemplo do livro objeto.

PL: Pode o seu trabalho ser pensado à luz da seguinte afirmação? “O poema define-se como a união de todas as dimensões — bidimensional e tridimensional — e formas de expressão. A linguagem poética é interdisciplinar; além de verbal, ela é visual, escultórica, performática e sonora”.

Almandrade: O verbal e o visual surgem no plano ou no espaço, existem interações e complementações. Na união ou não de todas as dimensões busca-se alternativas de manifestação de uma poética.

PL: Em poemas como “SOL”, de 1974, exposto recentemente na Biblioteca Mário de Andrade (SP) pela Galeria Superfície, assistimos à transformação do discurso verbal (SOL — significante) em imagem (SOL — significante). É por termos acesso à palavra SOL que acompanhamos, sem questionar, a metamorfose inter-semiótica de um discurso no outro. Pergunta: é forçoso, pela indispensabilidade do código alfabético, ter acesso à palavra de modo a entender a imagem? Ou pode o código visual sobreviver por si e em si? O Almandrade tem trabalhos em que uma e outra opções são exploradas.

Almandrade: A leitura da visualidade deve sobreviver por si. Cabe ao espectador/ leitor através de seu repertório fazer a leitura ou interpretação que lhes parece conveniente. O autor tem suas referências e o espectador tem as suas.
No caso do poema SOL, a palavra sol (digital) cede lugar para o ideograma (analógico) e deste para o código icônico. Uma inter-semioticidade, a passagem de um código para outro. Claro que é possível outras leituras.

sol

Almandrade. SOL, 1974.

PL: Participou na exposição “Histórias da Sexualidade” (MASP, 2017, São Paulo) com duas peças, “HomeMulher” (poema visual de 1974) e “SEXOS” (poema visual de 1975). Pode falar-nos um pouco mais delas? Há uma relação direta entre ambas? O que o levou a produzi-las?

Almandrade: Em ambos são os opostos que se unem no plano do código, da linguagem.
Homem terminar com M e mulher começar com M possibilita essa experiência visual que provoca outras interpretações no campo do “real”, social, sexual…

“Sexos” é o X do problema que une, separa e divide, é o elemento significante de se e os. Foram pensados no contexto dos anos de 1970. O que me levou a produzi-las foi, em primeiro lugar, realizar um fazer no interior da linguagem.

sexos

Almandrade. SeXos, 1975.

homemulher

Almandrade. HomeMulher, 1974.

PL: Como encara, no contexto do seu trabalho criativo, a performance e/ou a instalação?

Almandrade: Eu sempre trabalhei com diversos suportes, desde o final dos anos 70 que faço projetos de instalação, alguns realizados. Acho importante saber tirar partido do suporte e manter uma coerência em termos de linguagem artística.

PL: A escultura é fundamental para você. Parece-me que os objetos de pequenas dimensões (como aquele em que uma lâmina de barbear está suspensa por um fio dentro de um frasco e que a Hélio Oiticica pareceu “genial” [1979]), bem como os objetos de grandes dimensões (como a escultura incluída no acervo da Baró Galeria em São Paulo) partilham a linguagem estética dos seus poemas bidimensionais. Estou certa? A nível do processo criativo, quais são as semelhanças e as diferenças entre ambos?

Almandrade: A escultura é fundamental para mim até pela minha formação de arquiteto, trabalhar com o espaço é criar uma poética. Com relação aos poemas, são soluções ou problemas diferentes que têm pontos de convergência, o construtivo e o conceitual dialogam entre si. A diferença diz respeito às especificidades. Na escultura, entre o plano, o espaço e a cor, o corte e o encaixe são os estruturadores da tridimensionalidade.

garrafa

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade)

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” — mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S. Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Realizou mais de trinta exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 2018. Tem trabalhos em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro), Museu da Cidade (Salvador), Museu Afro (são Paulo), Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), Museu de Arte Contemporânea de Chicago ou Pinacoteca Municipal de São Paulo.

Patrícia Lino

Professora, poeta e artista visual portuguesa. É finalista do doutorado em Literatura Brasileira e Artes Visuais na University of California, Santa Barbara. Apresentou e publicou ensaios, artigos, poemas e ilustrações em Portugal, no Brasil, em Espanha, no México e nos Estados Unidos.

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