poesia

Carla Diacov, 4+1

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Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Autora de Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), A Munição Compro Depois (a sair pela Cozinha Experimental, 2018). Sua poesia já apareceu na escamandro outras vezes.

*

4 POEMAS DE AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA

significar o osso da coisa queridinha
os enfeites da casa gritam comigo
ombreiras esquadrias agulhas gatinhos da china
decoram as margens do meu amor
o ossome afundo na tua reminiscência
o osso e as antenas
gritam
como se tudo fosse o grande do tempo
as esquadrias dos óculos gatinhos da china
omoplatas de prata queridinha
o bafo da trilha
a carne da coisa
tão necessária insignificante
na estrutura superfície da aberração amor

§

eu tinha medo de morrer tímida mordia a ideia
tinha medo do suicídio sendo tão tímida
outras noites já batiam meu queixo
outras dicções
e eu ainda com medo de morrer tímida
mudei os móveis de lugar
encontrei uma agulha perdida tinha anos
e ainda o medo de morrer tímida
abocada numa quina da casa
a boca tão perto do segredo
tímida
lembrando a uma poltrona torta
lembrando a uma boca morta
um peixe sem boca
uma poltrona sem braços

§

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

§

passo por esse casal de amantes
é como meter as mãos num balde de sardinhas
são tantas as mordidelas
estou ferida
não é mortal
passei por aquele casal de amantes
foi como meter num balde de sal
estraçalhadas
as mãos
são tantas as sardinhas
como corta o sol
nem meio gato à vista
como corta a luz
como corta o navio
são tantas as escamas
é como meter as mãos
são tantos os braços
nem meio gato
nem meia língua
nem meio mal

§

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1 POEMA INÉDITO

sons – colo

deita o garfo mudo no meu colo
diz coisas incompreensíveis sobre o amor
diz coisas domesticáveis sobre a vida e o ódio
diz não saber separar a morte da morte momentânea
diz a aflição sobre a comunicação entre gatos
deita a faca nua no meu colo
diz coisas interditadas sobre uma ideia de flor
diz coisas debaixo das unhas dos mortos
entre seus cabelos
deita o prato sujo no meu colo
diz coisas e diz e dança os dedos
deita o copo trincado no meu colo
diz coisas diz coisas e tudo que escuto é o rasgo nesse nosso manso idioma

***

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XANTO | Deslocamento e estranheza em ‘Ao jeito dos bichos caçados’, de Otávio Campos, por Sergio Maciel

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O livro Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos, é um livro muito particular. Comecemos pelo título. Comecemos por aquilo que o poeta Ismar Tirelli Neto diz na introdução à coletânea:

O título do presente apanhado nos remete a um aparte do autor americano Robert Glück constante da narrativa “Sanchez and Day”, que abre seu Elements of a Coffee Service, publicado em 1981, a saber, a pergunta: “when aren’t we being chased?”.

Ora, é precisamente como animalidade perseguida – animalidade que a dogmática judaico-cristã recomenda subjugar sem nenhuma ambiguidade – que o poeta textualmente homossexual se coloca no cerne da especificidade brasileira. Ele opera atualmente diante de uma dupla ameaça: a “boa e velha” violência patriarcal e também o perigoso descanso prometido por vertentes mais assimilacionistas do pensamento queer.

Esse título, então, retirado do poema Tarde de Maio, de Carlos Drummond de Andrade, e que se referia lá ao amor, assim amplo, vago e abstrato, pois ele dizia que “o próprio amor se desconhece e maltrata / o próprio amor se esconde ao jeito dos bichos caçados”, vem denotar aqui um amor e transfere o papel de caça para o sujeito que ama. Afinal, agora, quem nunca deixou de ser caçado, quem está na mira do jugo, é o homem amando outro homem, semelhante a um bicho caçado em sua “dissidência afetiva-sexual”, para ainda citar Ismar.

Talvez para tratarmos dessa animalidade perseguida, portanto, seja necessário remetermos àquilo que Rafael Zacca fala sobre o livro de Marília Floôr Kosby (clique aqui), i.e., da apresentação poética de um movimento de deslocamento (lá ele chama ‘êxodo’, mas aqui vou dizer só de ‘movimento de deslocamento’ mesmo). Essa condição de deslocamento, que pode ser considerada sine qua non para toda produção artística, ainda que seja um clichê, no livro de Campos vai se moldando através de uma melancolia que perpassa seus textos. Melancolia porque esse deslocamento concede ao sujeito a condição (e a consciência dessa condição) de estrangeiro, de estranho, e, com isso, obriga-o a lidar com as diferenças de direitos, de acesso aos prazeres. Exemplo dessa relação com o jugo se faz claro no poema “A última experiência dos nossos tempos” (p. 67), em que lemos o seguinte:

é próprio da violência
que sigamos calados
o corpo limite
o que te atravessa

Silêncio, aliás, ou espécie de silêncio cúmplice, que a poesia por si só não cumpre e nem cabe cumprir. Torno a dizer: chega dessa balela de poesia = silêncio. Todo poema pra mim é um discurso em chamas, incendiário e nada tem que ver com silêncio nenhum. Para conferir mais sobre essa relação poesia versus silêncio, favor ler a página 69 do livro L’azur blasé, de Guilherme Gontijo Flores.

Agora, se partirmos para uma análise mais formal do livro, o negócio fica mais interessante. Pelo título, temos que o eu-lírico se apresentava semelhante/”ao jeito dos bichos caçados”. A epígrafe de abertura, retirada de um poema de Edimilson de Almeida Pereira, adverte: “Chamem o amador de blues/ vou bater nele como um boxeur”, anunciado que dali pra frente um embate (alguma espécie de embate) será travado. O primeiro poema do livro, inserido na seção “O bicho que come dentro da gente”, tem por título “Os corpos fraturados”. i.e., se antes mesmo da proposição poética temos um duelo anunciado, o livro logo se abre com uma espécie de apresentação dos espólios desse embate, num poema que remete ao poema “Graveyard”, de Marianne Moore (que Adriano Scandolara traduziu e pode ser lido aqui) e subverte, ironicamente, os versos iniciais do poema inglês. Aparte disso e do belíssimo poema intitulado “Mommy” (que o poeta André Capilé leu e pode ser visto aqui), não vejo grande importância nessa primeira seção.

Me interessa mais as duas seções finais, i.e., “O desejo e outras armas de corte” & “A última experiência dos nossos tempos”. Ora, se no prefácio Ismar nos aponta a importância de uma poética queer brasileira e, no final do livro, Campos nos traz um verso de Allen Ginsberg que diz “i’m putting my queer shoulder to the wheel”, não há como deixar passar a apresentação desse desejo como uma arma de corte, desse “duro tão duro” (p. 44) que vem vindo como uma pororoca desde Piva. Trata-se, creio, de ansiar ver “o desejo imenso do rito” (p.45), que aqui se dá poeticamente, ocorrer “no mundo real agora” (p. 48). Esse terceiro capítulo, intitulado “O desejo e outras armas de corte”, encerra-se com o poema “Como utilizar uma arma de corte” (p. 64), que reproduzo abaixo:

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O último capítulo vai colocar muito em evidência a condição do corpo enquanto agente mediador das “últimas experiências dos nossos tempos” e também daquela “animalidade perseguida” a que se referiu Ismar logo no prefácio. Vide:

Cálculo 4:

Quando sobrevivermos ao século e ao massacre
da fera sobre o corpo, da fera em rompante sobre
as instituições e por fim restar apenas o rastro
da língua do animal da fera e suas instituições

Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmãmãmã
mãmãmãmã Mã-mã-mã-mãmãmãmã Uhmmm
Mãmãmã-mãmãmãmã Mãmãmã-mãmã-mamá
Uhm-uhm-uhm Mãmãmã-mãmãmãmã –Mahm!
Uhm… Uhm.. UGH! Mamãmã mamãmã fera.

Áli áli alá! Uhm… [Alá! Alá!] Uhm… Uhm…
desejo da representação: Uma cartografia absurda

O curioso é que boa parte de toda a estranheza que o livro de Campos proporciona decorre ou sintaxe ou do uso inusitado dos enjambements, numa espécie de recusa do verso lapidar (em linguagem popular: àquele verso de tatuagem), numa quase construção do antiverso, que vai de encontro às poéticas, também queer, de Ricardo Domeneck e Ismar Tirelli Neto. Claro que qualquer um que leia o livro verá que há outros direcionamentos, no sentido de dicções que se aproximem daquela de Frank O’Hara ou até mesmo a de Roverto Piva; mas me interessam menos que essa dicção deslocada, estranhada, quase portuguesa, quase brasileira, quase qualquer coisa que Otávio Campos reclama pra si. Dentre os poemas constantes nessa coletânea, são esses, ao estilo de “Mommy” que me interessam, que me pegam, que me prendem. Que moldam esse sujeito caçado por todos os lados.

* * *

post-scriptum: A primeira edição deste livro foi lançada em Portugal, pela editora da Enfermaria6 (clique aqui). Agora, uma edição brasileira será lançada através da parceria entre as Edições Macondo e a Editora Moinhos, a sair dia 15/05, no ciclo de conferências Poesia e Experiência – a delicadeza e a fúria,  evento organizado pelos professores Gustavo Silveira Ribeiro e Prisca Agustoni, na UFMG.

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XANTO | Ana Hatherly: a dificuldade essencial de uma botânica, por Bárbara Costa Ribeiro

 

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 Olho para a estante e dali me olha de volta uma antologia azul, A idade da escrita e outros poemas (2005), de Ana Hatherly. A ideia de uma antologia me agrada: justamente, colher flores, a imagem que me toca e me conclama.

Essa imagem que brota de Ana em mim é a paisagem do jardim, com todos os seus mínimos mistérios. Colho o livro da estante e rapidamente o cenário está pronto: a geografia incontornável de um botânica misteriosa, silenciosa, sensual. Pueril, também. Porque o jardim é sempre a primeira aventura da criança, a terra a desbravar, o insólito vegetal, onde fazem o amor lagartas e plantas. Toda criança está votada ao mistério da linguagem e da natureza. E mesmo para a criança de apartamento, o cacto no parapeito da janela é a aventura completa de um mundo insondável.

Planta, bicho, silêncio, lago, rio, o vórtice de Ana Harthely convoca a arquitetura de uma linguagem que se imanta de magia. Já dissera Octavio Paz, para as crianças e para os poetas, a língua é este brinquedo imantado, uma fala amorosa, estrépito, muitas perguntas, lacunar.

Se estivesse viva a portuguesa Ana Hatherly, poeta, ensaísta, artista plástica, professora, nascida em 1929, completaria então 89 anos em maio, no dia 8. A poeta faleceu em 2015, deixando atrás de si um rastro enigmático entre a escrita e a pintura, a caligrafia e o desenho, a possibilidade mais que barroca de ir a todos os lugares claros e escuros da poesia, suplantando o código dos anos 60 e 70 da poesia portuguesa mais experimental.

Desenho, pintura, colagem, palavra, letra, traço, rabisco – tudo compôs a poética de Ana Hatherly. Em sua poesia gráfica, a escrita e o tracejado não se separam, a linha e a dobra. Quebra a forma e o sentido pelo esgotamento da experiência, fazendo circular então pela caligrafia e pela mancha tipográfica o incomunicável: dádiva do silêncio é o que nos entrega sua poesia.

Aí mesmo então a poeta que neste ano completaria 89 anos encontra a criança que de modo algum morre: porque o desenho é a primeira forma de escrita infantil, e volta-se então para o jardim, onde a criança brinca como se manuseasse segredos, vivendo o insólito de uma aventura que pode tantas vezes caber num retângulo de quintal exíguo – aprende a densidade primitiva da poesia. Há ainda, no jardim, a sensualidade dos segredos de todos os seus seres vivos, a primeira erótica de um corpo. Na fenda entre desenho e escrita – e o que haveria de mais amoroso e lúbrico do que a imagem da fenda? –, o rio da memória, margeado de palavras, compõe esta poética toda mágica:

“[…] Lembrança dos jardins entrevistos através das grades altas, quando os olhos são pequenos demais para a imensidade de uma paisagem através de um buraco de fechadura, através da fenda de uma grade, através de uns muros sempre cobertos de vidros partidos brilhando ao sol como dentes de um crocodilo que é o símbolo do silêncio.

Quando o perfume dos jardins ao pôr-do-sol embriaga, fere, fica gravado na memória como a cicatriz de uma queimadura, indelével, constantemente odorífero até fazer as glândulas salivares doerem, odor de fazer subir as lágrimas aos olhos, por ser tanto, tão grande, sufocante no seu excesso” (“do crocodilo”, Sigma, 1965).

Dádiva do silêncio, que é preciso uma vida inteira para ser compreendida, a trajetória de um poeta como o sonho infantil, a dificuldade misteriosa de uma botânica. Me atravessa por entre mim e Ana Hatherly o que dela em mim não posso explicar, ou mesmo compreender, mas sinto ainda assim, como quando o seu gesto de escrita dissolve a palavra e me entrega o desenho, incompreensível mas de todo modo espantoso. Nesse espanto, há também calma e muito silêncio, numa dicção amorosa que esconde o eros frenético na mansidão do jardim que aguarda como se sem suspeitar a chegada do amor:

“Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão
quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venha peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
Eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava
sentia as veias ligeiramente ativas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavas-te como um simulacro
Intui peço-te,
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pelo alma recorrente silva”

(“Esta obscuridade salubre”, Eros frenético, 1968).

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Ana Hatherly: “Ah, o mar que se quebra”, 1998

Quieto, quieto – como sempre antes de qualquer surpresa. Nesta obscuridade salubre, o poema, este amante que me chega como um particípio, a ideia do particípio compondo o verso tão inusitado me quebra ao meio, me deixa sem continuidade, rompe um passado e inaugura o meu instante presente, transforma o langor da tarde que finda em sensualidade noturna. O amor como um animal selvagem que dorme e depois me espreita.

“Penso em ti
tranquilamente
como quem está sentado ao sol no Outono
deixando o pensamento fluir.
É o rio de sempre
um rio que corre lentamente
como decorre a noite.
Chega inadvertidamente
tendo estado sempre ali
a correr muito calado
de modo a não darmos por ele
se não quisermos.
É como um grande amigo
junto de quem podemos estar silenciosos
sem estarmos longe.
É como uma noite muito quieta
que está ali
mas só damos por ela quando de repente
saímos de casa e ela surge enorme
ante os nossos olhos.

Penso em ti
tranquilamente como numa tarde
em que resolvemos não fazer nada e os livros
arrumados verticalmente
são apenas o dorso ondulado
de um animal que dorme
enquanto por dentro
todo o trabalho se processa.

Penso em ti
tranquilamente
como deitamo-nos no chão
debaixo de uma árvore e olhamos
a sua copa em leque
a sua ramagem ondulando lenta
como o ventre de um animal adormecido.
Até que a luz da lua
entra e percorre tudo
sem refletir coisa alguma

(“Tranquilamente como numa tarde”, A idade da escrita, 1998).

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Ana Hatherly: “Pormenor”, in: “A reinvenção da Leitura”

Que outras imagens tão poderosas podem se esconder neste jardim de plumas, a ocultar um rio que geme muitas frases indiscerníveis mas poderosas? Bem, há ainda os jardins proibidos da infância, aqueles nos quais não se pode brincar, e que mais tarde se transformam em memória, se esgotam na ferida que abriram, para então se tornarem matéria de poesia, e mesmo transformar, na adulteza, todo jardim e toda botânica na dificuldade essencial de uma escrita, no mistério da poesia, trazendo a palavra sitiante, que me circunda por toda parte, não me deixando quase respirar e mal viver sossegadamente.

É possível, de fato, crescer e deixar para trás as coisas de menino. Mas há, ainda, e sempre, o jardim, de uma alegria distante, o jardim fechado, que se torna, na idade madura, esta tristeza como um rio.

“Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão”

(“Os jardins imaginários”, Rilkeana, 1999).

st, 2003 spray sobre papel

Ana Hatherly: Spray sobre papel, obra sem título

     To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale

Pensar é encher-se de tristeza
e quando pensonão em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço o seu imenso clamor”

(“Pensar é encher-se de tristeza”, O pavão negro, 2003).

Ei-la. Ana Hatherly, em sua poesia, publicou mais de dez livros, como Eros frenético, O pavão negro, A idade da escrita, tantos outros; e ainda está aqui, pulsando como a vida misteriosa de um jardim noturno.

[HATHERLY, ANA. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.]

*

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poesia

3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor, roteirista, biscateiro editorial, ator bissexto, curador, dramaturgo, cantor de bar de hotel frustrado, mau filho e marido exemplar. Vive atualmente em Curitiba e lançou os livros Os Ilhados, Ramerrão, synchronoscopio Duas ou Três Coisas Airadas, este último em parceria com Horácio Costa. Não foi lido em pelo menos quatro idiomas.

* * *

O caso em apreço

Falou-se muito de amor naqueles dias

Curioso

Só agora as palavras começam a constituir-se

Com que então

…………………….(Não eram palavras)

Muito se falou de amor

Por aquelas semanas

Falou-se muito – amor, amor –

Com ambas as mãos sobre a morte

Com ambas as mãos sobre a brisa

O movimento de amoldar, de amoldar

Amor

Inabilmente codificado

Urticante

Imprestável para adágios

Chuva de rãs, de chumbo, de areia

Amor com que então de desenredo

Nada fez a ninguém

Remetendo falou-se

Muito de amor

Muito de amor naqueles dias

Tem-se falado

As circunstâncias não foram ainda esclarecidas

§

Caso Postal

Compro um postal
E para deter-nos
…………………….(A mim, a ele)
……………(Ao postal)
Sento-me a uma mesa do lado de fora
Dobrando a rua figurada
Na frente
Em tempo de maré alta
Depara-se este mesmo casario de sólidas fachadas brancas
Perfeitamente ritmadas
As juntas, as juntas das janelas
Os limiares ásperos, cores inambíguas, a sombra colonial
Centenárias construções abrigando
Agências de contabilidade, escritórios de advocacia
(Era este o verso
………………………….de que fugíamos no início?)
Tudo aqui tem luz e pedra e preço
Tudo quanto é figurado à frente nos conduz
A empórios
Lojas de souvenir
Balcões onde se negociam – som, fúria – passeios de escuna
Contudo no verso
Onde escrevo (onde
Ao escrever
Assumo forçosamente que estamos distantes
Ou mesmo mortos)
Não existe senão grande extensão
De breu
Não existe senão encerrar-se
O escuro de orfanatos
(Eles existem, esquecemos)
Eu subscrevo
O escuro de orfanatos, o escuro que canta
De pé
Atrás de um estacionamento, num jângal,
No verso do postal mais soalheiro, quem sabe, talvez
Seja a mesma paisagem
As mesmas correntes amarelas
Que apartam aquilo que é propriamente histórico
De tudo
O mais o escuro
A tudo empalma o escuro
Forrado de passos, de mar
………………………………e morgues, maternidades
………………………………música insituável
Cigarras que berram o tempora o mores
Brenha onde me perde a sugestão
De branco areal
Ao longe
(Existe, não existe, não existe mais)

§

Hermes

I.

Este personagem diante dele
jamais
as ondas resolveram-se
………………………..num qualquer ritmo
E as ondas, sendo cada uma
Um contêiner o céu
Não se seguia
Rolamento ingrato
Descerrando nada nunca
Hermes pusera ferrolhos
Até mesmo
Às paisagens de férias
Era já àquela altura
um nome, nada
Conotava oco e ignorado
À boca
De quantos o cumprimentavam
nada                            nunca
Cumprimentavam
A este personagem para quem
Nada jamais se abrira
Em texto
Nada jamais regrara-se
Em gráceis
Continuidades emersas
as coisas
Sempre emersas
Um único ronco de motor
Enfeixando avenidas
Ao ventre a bulha tão oca
impenetrável
Como o nome
Como os nomes
Espraiando-se cidade
Homens inabitáveis mal
Amanhados em acenos
de cabeça
Àquela altura já não
diziam sequer
escuridão
Ninguém descerrando nada

II.

Este personagem diante de seus olhos
estupefatos
…………….tomavam-lhe a voz
Substituindo-a pouco e pouco
por um coro
………………………………de interditos
Hermes põe-se a falar, a evoluir
………………………………por interditos
Hermes tem a boca cheia
………………………………(cidades e homens)
Rueiro Hermes pôs-se ventre
………………………………cheio e conotando nada
Ante a vitrine
de uma chapelaria
que não ruíra
ainda nas cercanias
do escritório
Um homem
……….habitável?
Representando de nós para nós
as crateras abertas
de redor
Semblantes humanos
………….de grande fadiga
………….na crosta azulada
Vedada
a indagação
que se vai formando
Vedado
responder
com planetas

Eram isto mesmo
Os mistérios

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poesia

Luis Marcio Silva (1992 -)

1.1

Luis Marcio Silva nasceu na cidade de Franca/ SP. É geminiano sob o regimento do horóscopo Ocidental. Pelo calendário chinês, nasceu no ano do macaco. Pós-Graduando em Letras, pesquisa poesia brasileira pela UNESP de Assis.

*

Sem título

Permita-nos
/Sem a frivolidade dos verdugos/

Um passo que não seja duro e reto ao abismo
Mas retida no seu reverso
Uma lágrima vertida em chuva fina sem dilúvio
que repousa o equilíbrio do orvalho sobre a pétala

E a seiva                     a vingança de um espírito sagrado
/em surdina/
Sem extirpar nossos ossos da terra.

§

Trocadilhos ferinos
 (Os sertões, Euclides da Cunha)

DIPLOMAS E CANUDOS

O sertanejo é antes de tudo um norte.
A terra,
Um triste disparo de trava-línguas;
O homem,
Um tanque tracionado avant-garde,
A guerra,
Não de bater roupas sujas em ruínas,

*
Mas a marcha que centrifuga os trapos
Sobre as dramáticas Troias de taipas.

§

 

Homo Spiritualis
(A caverna dos sonhos esquecidos, Werner Herzog)

HOMO SAPIENS                                                                  

Há quem quebre bêbado uma taça e
No vinho e no sangue se desenhe rupestre
Distanciando-se do corpo de Cristo;

As lentes de vidro muito amigas das areias
Há quem dispense saber disto,
Até mesmo o saibro o mar e o barulho;

HOMO FICTUS

Frente ao mar num domingo,
(o voo suspenso de uma gaivota)
o homem fotografa a família
brinca o ritual do espírito
e da ampulheta:

Califa do tempo e das sereias.

§

3.

um burburinho
e abre-me a fenda do silêncio uma fotografia
a vaga angústia
os nervos
a pupila aberta
a tristeza elíptica
a turva promessa no alvo da alegria.

12.

Angústia

As unhas presas
No cadafalso de remorso
O espelho
E o ruir dos olhos.

As pernas pairam
Na angústia da vida
Se não te governas
A pele que segura os ossos.

§

PUPILAS DE CARONTE

A morte é um livro
negro de contabilidade
best-seller lido na fila
de um banco em estado like;

É unidade de sentido
empreendido de lógica
Matemática em papel
branco a título corrente;

Sem divisa de alforjes,
a língua das finanças é
Uma bolsa de valores
em óbulos cambiantes

Flores secas e moedas
na vitrine de Caronte;
Se não, vis-à-vis,
pauladas a remo do calote.

Em latim, a morte
e seus disfarces
soam reza morta
na língua do sacerdote

Quem não se traduz
em nenhuma parte
no tecido descobre
o fogo do chicote.

A morte é o poder
de três tigres tristes
Com a língua travada
na inércia da carcaça,

Mecanismo de natureza
primitiva;
Espia, a barbárie
da terra devastada.

***

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poesia, tradução

Niels Hav, por Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

Niels Hav, nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas.

Em inglês, uma coleção de sua poesia, God’s Blue Morris, foi publicada pela Crane Editions (Canadá) em 1993. Em 2006 foi publicada outra coleção de seus poemas, intitulada We Are Here, pela editora canadense BookThug. Ambas com tradução de Patrick Friesen e P. K. Brask.

Em seu país natal já recebeu diversos prêmios do Danish Arts Council. Atualmente vive com sua família em Copenhague, em um dos bairros mais coloridos e multiétnicos da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Todos os poemas do livro foram traduzidos a partir da língua inglesa. Traduzimos na íntegra a antologia poética “We Are Here” publicada em 2006 pela editora BookThug (Toronto, Canadá) com tradução direta do dinamarquês por Patrick Friesen e P. K. Brask.

Dispusemos do apoio do autor, que também domina a língua inglesa, para nos orientar em eventuais consultas necessárias à tradução, como não possuímos conhecimento acerca da língua dinamarquesa, idioma dos escritos originais, o contato com o autor foi de extrema importância.

Nas palavras do próprio Niels Hav: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa”. Na edição brasileira objetivamos manter a simplicidade elegante de sua obra e suas características vitais, tais quais: sua linguagem graciosamente direta, seu humor fatalista e sua ironia fina.

Quando nos deparamos com os poemas do autor, publicados num blog de poemas no idioma inglês, ficamos bestificados com a áurea espirituosa que compunha suas linhas e espantados ao saber que, até então, sua obra ainda não havia sido traduzida para a língua portuguesa. Instantaneamente, fomos tomados pelo desejo de trazê-la para a nossa realidade.

Sobre a tradução para o inglês Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês praticamente originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que existam muitas perdas na tradução para o inglês”.

TRADUTORES:

Matheus Peleteiro, nasceu em Salvador – Bahia em 1995. Escritor, tradutor, poeta e contista, publicou em 2015 o seu primeiro romance, “Mundo Cão”, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri), o livro de poemas “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux). Em 2017, publicou “Pro Inferno com Isso”, seu primeiro livro de contos.

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor literário e audiovisual, em 2016 publicou seu primeiro livro “Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito” (poemas) pela BAR Editora.

* * *

Til digternes forsvar

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

Niels Hav

In defense of poets

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by Poetry.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Em defesa dos poetas

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Epigram

Man kan tilbringe et helt liv
i selskab med ord,
uden at finde
det rigtige.

Ligesom en stakkels fisk
pakket ind i ungarske aviser:
For det første er den død,
for det andet forstår den ikke ungarsk.

Niels Hav

Epigram

You can spend an entire life
in the company of words
not ever finding
the right one.

Just like a wretched fish
wrapped in Hungarian newspapers.
For one thing it is dead,
for another it doesn’t understand
Hungarian.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Epigrama

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.

Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Besøg af min Far

Min døde Far kommer på besøg
og sætter sig i sin stol igen, den jeg fik.
Nå, Niels! siger han.
Han er brun og stærk, hans hår skinner som sort lak.
Engang flyttede han rundt på andres gravsten
med stålstang og sækkevogn, jeg hjalp ham.
Nu har han flyttet sin egen
selv. Hvordan går det? siger han.
Jeg fortæller ham det hele,
mine planer, alle de mislykkede forsøg.
Inde på opslagstavlen hænger der sytten regninger.
Smid dem væk,
siger han, de skal nok komme igen!
Han smiler.
I mange år var jeg på nakken af mig selv,
siger han, jeg lå vågen og spekulerede
for at blive et ordentligt menneske.
Det er vigtigt!

Jeg byder ham en cigaret,
men han er holdt op med at ryge nu.
Udenfor tænder solen ild i tage og skorsten.
Skraldemændene larmer og råber til hinanden
nede i gaden. Min Far rejser sig
går hen til vinduet og ser ned på dem.
De har travl, siger han, sådan skal det være.
Bestil noget!

Niels Hav

Visit from my father

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Visita do meu pai

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!
(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

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poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

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Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

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