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Lucas Rolim (1995-)

Lucas Rolim é poeta, editor independente e fez algumas traduções. Como poeta, lançou os livrinhos artesanais No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2015), Os Cantos de Eleanor (Selo Kizumba, 2017) e Terrário (Selo Kizumba, 2017). É colaborador do projeto Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação, participando ativamente do circuito artístico da cidade. Teve poemas e traduções publicados em revistas, jornais, sites e antologias. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado.. Os poemas “dois amantes & a metamorfose” e “pelas cercanias” pertencem ao livro O Mirábolo (ed. Moinhos, 2017). O poema “vejo melhor de olhos fechados” é inédito.

* * *

dois amantes
& a metamorfose

I
dois amantes marcham de muito longe
dentro da madrugada que os desafia

deixam suas terras danças e músicas
para se encontrarem no silêncio do deserto

um vem do ocidente que lhe diz
morrerás antes que o sol te acolha

outro desponta do oriente que o alerta
do deserto vieste e teu espírito é areia

a trilha que seguiram madrugada a fio
pertence agora ao Vento Leste – suas pegadas
foram extintas com a visita da noite que sopra.

II
frente a frente no seio das dunas
os amantes sabem que não há miragem
— que de carne e toque é feito o momento

para que a palavra do primeiro acenda
como fogo vivo nas orelhas do segundo

é preciso que se ergam defronte de si

mirando a esfinge que no outro habita
& volvendo ao que o sonho tornou real

desnudando o enigma & virando peixe
no mar que engole o deserto em sua
vertigem & mudez.

§

pelas cercanias

desiludidos,

cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.

ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.

(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)

eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.

em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.

era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.

tempo de habitar
silêncios.

§

vejo melhor
de olhos fechados

quando o labirinto amansa
o caminho se revela com passos de água.

há uma nudez própria
a todas as coisas

e um nome ao qual tudo atende:

a ternura das árvores,
o ritual das rochas,
o calor do tempo batendo nos dias.

um nome rápido, que tudo diga:

a face iluminada das abelhas,
a lição de força dos pequenos insetos,
os seres em sua mais tenra forma.

quando o labirinto amansa
finalmente entendo:

não há dor na trajetória do sol.
a noite que aporta é violenta, mas gentil,
e abriga as coisas que também
se encontram na claridade cega.

o olho atento é seu hóspede inquieto.

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poesia, tradução

Olga Sánchez Guevara

Olga Sánchez Guevara é escritora e tradutora. Licenciada em Língua Alemã pela Universidade da Havana, estudou português na União Latina de Cuba. É autora dos livros Conversación con ángeles (Editorial Ácana, Camagüey, 2005); Ítaca (Fundación Sinsonte, Zamora, España, 2007); Óleo de mujer junto al mar (Ediciones Unión, La Habana, 2007), entre outros. Tem vários ensaios e artigos em publicações periódicas e sítios web de Cuba. “Cartas de la nostalgia”; outros  textos traduzidos ao alemão foram incluídos na antologia Mosaik aus dem Innersten, em Salzburgo, Áustria. Traduziu, entre outros, Else Lasker-Schüler, Friederike Mayröcker, Marie-Thérèse Kerschbaumer, Cecília Meireles y Eugénio de Andrade. Como tradutora recebeu prêmios em Cuba e na Áustria. Foi editora e fez a tradução e o prólogo de Frau in der Landschaft/Mujer ante el paisaje, antologia poética bilingüe (Edition Art Science, St. Wolfgang, Austria, 2014).

Os poemas abaixo são do livro Ítaca, de 2007.

guilherme gontijo flores

* * *

Da série VISIONES/VISÕES

1

no hay tiempo de dormir en camagüey

desperté muy temprano; me he levantado a oscuras

es grato amanecer en esta casa donde todo está siempre como siempre

no temo a sus fantasmas; ellos, que aquí se amaron, velan, son eternos

el perro de pelaje negro está a mis pies: me reconoce cuando vuelvo al cabo de un año

los papeles se cambian, soy penélope y viajo; camagüey es también mi ítaca, y en ítaca no hay tiempo de dormir

me desperté soñando con mi madre y sentí miedo de morirme, y ahora debo enfrentarlo de una vez: me aterra convertirme en una ausencia

quiero tiempo, Dios mío: la eternidad la tengo ya

el sueño con las aguas, dice freud, revela el temor a la muerte; soñaba con mi madre y nos bañábamos en una playa tibia

me he levantado a oscuras, y en esta casa no hay fantasmas: velan, los eternos amantes          

pronto amanecerá

para vivian

1

não há tempo pra dormir em camagüey

acordei muito cedo; levantei no escuro

que bom amanhecer nesta casa onde tudo está sempre como sempre

não temo seus fantasmas; eles, que aqui se amaram, velam, são eternos

o cão de pelo negro está junto a meus pés: me reconhece quando volto ao fim de um ano

o papéis se trocam, sou penélope e viajo; camagüey é também minha ítaca, e em ítaca não há tempo para dormir

eu acordei sonhando com minha mãe e senti medo de morrer, e agora tenho de enfrentá-lo pra valer: tenho pavor de converter-me numa ausência

quero tempo, meu Deus: a eternidade eu já tenho

o sonho com as águas, disse freud, revela o temor da morte; eu sonhava com minha mãe nos nos banhávamos numa praia morna

levantei no escuro, e nesta casa não há fantasmas: velam, os eternos amantes

logo amanhecerá

para vivian

§

8

cada regreso, un renascer; cada partida, un nuevo desarraigo

aquí es la infancia, el infinito parque de juego y maravilla, sueños de adolescencia

una inflexión distinta en el hablar, una cadencia inconfundible

lejos, es la palabra

siempre lejos de algo: ítaca fragmentada en los adioses

para aquellos que parten una y otra vez

8

cada regresso, um renascer; cada partida, um novo desraizamento

aqui é a infância, o infinito parque de diversões e maravilha, sonhos de adolescência

uma entonação diferente na fala, uma cadência inconfundível

longe, eis a palavra

sempre longe de algo: ítaca fragmentada nos adeuses

para aqueles que partem vez por outra

§

Da série SALZBURGO/SALZBURGO

2

La sala iluminada; afuera hay frío, y en el jardín la escarcha marchitó las rosas

Por la ventana, el monte coronado de nieve: al otro lado es Alemania, dicen mis amigos

Yo, criatura de isla, trato de comprender la lógica de las fronteras

2

A sala iluminada; lá fora, o frio; e no jardim a geada ressecou as rosas

Pela janela, o monte coroado de neve: do outro lado é a Alemanha, dizem meus amigos

Eu, criatura de ilha, trato de compreender a lógica das fronteiras

§

Da série ÍTACA/ÍTACA

7

en el planisferio una franja apenas visible cuya exigüidad misma suscita la duda: algunas veces me pregunto si nos hemos pasado siglos, toda la vida, inventando un país inexistente, fabricando esta isla de nostalgias que se fundó desde el exilio y del exilio sigue recibiendo parte de su sustento

pero, ¿y nosotros, los que nos quedamos? ¿somos sombras acaso, o también somos el sostén de un edificio espiritual cuyo alcance está fuera de nuestras medidas?

7

no planisfério, uma parte quase visível, cuja própria existência provoca dúvidas: às vezes me pergunto se passamos séculos, toda a vida, inventando um país inexistente, fabricando esta ilha de nostalgias que se fundou pelo exílio e do exílio continua recebendo parte do seu sustento

mas, e quanto a nós, que ficamos? somos sombras por acaso, ou também somos a base de um edifício espiritual cujo alcance está além de nossas medidas?

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poesia

Fernanda Marra (1981-)

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fernanda marra é mestre em letras e linguística pela ufg e doutoranda em teoria literária pela unb. manteve o blog marés e ressacas, dedicado à publicação de seus poemas, de 2009 a 2015. o livro que reunirá os poemas do blog e a produção mais recente da autora tem previsão para 2018, pela martelo casa editoral.

 

* * *

escápulas

no bolso posterior embutido
repousam despojos
dunas encruadas
e rangentes em inadiáveis
deslizamentos anunciam
o parto superior inexequível
placas calcificadas de dejetos anorgânicos impalpáveis imprecisos
abrem-se para a passagem
de uma gestação tectônica inter-
rompida

§

 

maulla

ter um método
e me ater a ele
mesmo sabendo que se intro-
mete
na vida diária
tem isso de ver crescer os pelos
arrancá-los
fazer comida lavar os pés
abastecer as tripas
esperar um raio
isso de ver o pelo cair
de depilar o ralo
de descascar os livros
contornar a cama toda santa madrugada
(as insantas também)
transigir
com as aderidas roupas do alho
ter método
– um sonho antigo
de me ter sem barulho
abafados rangidos
no marulho de crânios dentro do aquário
eu sei o mar
tem gemido exclusivo
que aprendi a ouvir sem noite
mesmo morando no seco
mergulhando os sentidos
na água suja do vaso

§

 

sigilo

entrando sem bater
especulando a maçaneta
esbarrando na culpa

de portas trancadas
as letras truncadas
nem sempre retrucam

à mesa, só o silêncio revém
do rosto cerrado em copas
o segredo das portas sem zíper

a mesma lei de madeira das tumbas

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Cinco poemas de amor e desamor de Geir Gulliksen, por Luciano Dutra

Geir Gulliksen (n. 31 de outubro de 1963 em Kongsberg, Noruega) é escritor e editor. Desde sua estreia em 1986, publicou livros de poemas, ensaios, peças, romances e literatura infantil. Foi indicado ao prêmio Ibsen de 2013 por sua peça En kropp (Um corpo) e ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2016 pelo romance Historie om et ekteskap (História de um casamento), sua obra mais conhecida, publicada em 2015. Foi o editor na Forlaget Oktober de Min kamp (Minha luta), romance autoficcional em seis volumes de Karl-Ove Knausgård publicado entre 2009 e 2011, sucesso de crítica e público traduzido em mais de trinta idiomas e que só na Noruega vendeu mais de meio milhão de exemplares. O poema ”Alt dette skal begynne en gang til” (”Tudo isso há de começar mais uma vez”), traduzido ao final dessa remessa, foi escolhido pelos ouvintes da estação de rádio pública NRK P2 e por um juri especializado como o melhor poema da Noruega em 2005.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

UM POEMA SOBRE AQUELA QUE ELE JAMAIS ENCONTROU

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste

ET DIKT OM HENNE HAN ANDRI MØTTE

du kan gjøre noe
og så gjør du det ikke
du vet ikke hvorfor
du ikke gjør det
du gjør det bare ikke
og du vet det selv
slik blir livet ditt
bare delvis ditt
så mye som ikke skjer
og det er trist
og ikke bare for deg
tenker du i lyse stunder
og blir enda tristere

§

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar enxergar

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir

Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende

vesener som deg og meg
for å komme til syne

eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega pra todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante úmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

jeg ville bare si deg

at det kommer, at det finnes
at det kommer til alle, i de minste én enkelt gang
at det var her i rommet
mens gardinene blafret i det åpne vinduet
og mens jeg lette etter blyanten
og at det forsvant like glatt
som den ene store kjærlighet vi har hatt

det var her, og som en bestemt lukt
av et bestemt hår og en bestemt kjole
som hadde hengt ute i et helt bestemt fuktig vær
var det ikke lenger her
da jag satt meg ned for å skrive

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.

Her er vi. Det er natt.
Vi kommer hit og forsvinner igjen,
og slik de elskende forlater hverandre

skal vi forlate hverandre alle sammen,
slik verden sikkert også forlater oss til slutt.
Eller hvordan det nå var igjen.

Kjøleskapet dirrer engstelig på kjøkkenet.
Ungene sover i varme senger. Hjernene gløder
som millionbyer under hver sin mørke hvelving.

§

TUDO ISSO HÁ DE COMEÇAR MAIS UMA VEZ

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentado numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais um vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém hão de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do fato
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até as tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não por que tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilômetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

ALLT DETTE SKAL BEGYNNE EN GANG TIL

Alt dette skal begynne en gang til
den boken jeg gikk rundt med og leste i
skal bli lest av en annen. For første gang
skal noen lære å telle til ti, og så til hundre
og noen skal lære seg dagene og dermed lære seg at
fredag er den beste dagen og søndag den verste
fordi søndagen er den dagen du bare venter på mandag
og mandag til torsdag kan ingen regne ordentlig med
som jobber hele dagen og sitter i en stol om kvelden
Men alt dette skal likevel begynne på nytt:
noen skal sitte på trappa i det skvetne lyset
og prøve å skrive et lite dikt på en lapp
og noen skal lære seg å sykle,
og noen skal lese at universet utvider seg
og om soler som bare fortsetter å eksplodere
og noen skal lese gammelhebraisk og ornitologi
og gå ute om kveldene med hendene i jakkelomma
og vite at de skal dø, men ikke ennå
først skal en annen bli forelsket i dem, forhåpentligvis,
og så skal noen gå fra dem, men ikke ennå
fordi alt dette skal begynne en gang til: noen skal lese
Pablo Neruda for første gang, og Osip Mandelstam
og Bertholt Brecht, noen skal lese Wisława Szymborska
og noen skal oppdage hvor mange vi er som lever i verden
og plutselig vite at hver eneste av oss er et individ
selv om det ikke er individualisme nok til alle
og selv om det ikke er sant at alle mennesker
er like mye verdt skal noen lære det og tro på det
helt til det ikke er mulig å tro på det lenger
fordi det ikke ser ut til å være sant
fordi det ikke ser ut til å la seg gjøre
selv om ingenting annet er mulig å tro uten at mørket
strømmer oppover i etasjene
og at mørket en dag når opp til føttene dine
og at du en dag vasser i det og får det på hendene
og brøler i mørke og drikker mørke, ikke fordi du er tørst
men fordi det ikke finnes noe annet, og fordi det gamle
flekkete lyset som fantes ikke var tilstrekkelig til alle
var det ikke sånn? men alt dette skal bli gjentatt av en annen
og lyset skyter uopphørlig gjennom 300.000 kilometers
mørke og bruker kortere tid enn en mager katt på å finne deg
der du står og prøver å finne nøklene i lommene på jakka
og alt som skjer deg skjer enten du tror det er sant eller ikke

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poesia

5 poemas inéditos de Leandro Jardim

leandro jardim perfil pb

Leandro Jardim escreve poesia, prosa e letra de canção. Publicou, dentre outros, a novela A Angústia da Relevância (Oito e Meio, 2016) e as coletâneas de poesia Peomas (Oito e Meio, 2014) e Todas as vozes cantam (7Letras, 2008). Em parceria com Rafael Gryner, lançou os discos O Sonhador (2014) e Sementes musicais para um mundo cibernético (2011). Também possui canções com artistas como Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus VK. Reúne suas demais publicações em antologias e coletâneas no link: leandrojardim.blogspot.com.br . Os poemas abaixo são da série inédita Timeline.

***

Sempre tem uma besta que diz

sempre tem uma besta que diz
eu sei do que estou falando
porque leio os jornais
sempre tem uma besta que diz
eu sei do que digo justo
porque não os leio, sempre
tem uma que diz e repete e insiste
a mídia é uma orquestra manipulada
e manipuladora dizem duas bestas
que não sabem se discordam ou não
tais argumentos não tem bandeira
são de direita e são de esquerda
diz a besta diz a besta
maravilhas de uma imprensa alternativa
se olhando no espelho olhando-se
e outra besta se refastela
de algum erro gramatical
(sic) (sic) (sic) sempre tem
uma e outra besta engasgadas
com o que não sabem mas sabem dizer
que sempre tem uma besta que diz
porque não sabe não saber

§

 

Posts

As pessoas são mais frágeis que seus posts
São mais belas que suas fotos
Mais frágeis que seus posts

Seus gestos hesitam: é o belo balé
Presenças fraquejam falas, cambaleamos
O ritmo é a verdade

Todo movimento é um improviso, arte
Porque há o outro, há o espaço contido
E um desconforto que interdita o olhar

A irrefletida beleza, a improvável
Concretude da carne cheiro alcance
Vedada ao melhor dos mais frágeis posts

§

 

GIF_Estação_terminal

Um trem descarrilha,
Desgovernado.

Estrondo e hesitação
Se entreolham no terminal.

– É só, e sempre, o relógio na parede! –
Grita um.

– É a televisão que não desligam! –
Aponta outro, dedo em riste .

– Nada disso, é o coração
Que não cala, e o trabalho

Que não acaba –
Sussurra alguém.

Silêncio e movimento
Se atropelam na estação.

Desgovernado
Um homem descarrilha.

§

 

Oficina papa-prêmio

Aula 1 – Se inscreva
em todos
os concursos. Tenha sempre
inéditos à mão. Não escolha
o porte da prefeitura
ou o tamanho em dinheiro
do prêmio. Prêmio é prêmio. Aceite
até a participação em coletâneas
pagas, se esse for
o caso (geralmente é, dizem).

Aula 2 – Trabalhe
focado. Não desperdice
sua inspiração, especialmente
se ela for rara. Entenda
todos os prêmios, analise
o tipo de obra que costumam
prestigiar. Não leia clássicos,
leia os vencedores
das edições anteriores. Escreva
unicamente material aplicável,
só comece quando souber
onde vai inscrever. Inscrever é mais
importante do que escrever.

Aula 3 – Conheça
o perfil de cada jurado. Os perfis
de jurados. Onde encontrá-los. Como
se aproximar. Tenha lido
suas obras, se possível
faça citações pouco explícitas

Aula 4 – Autopromoção
até na derrota. Toda vez
que perder, escreva um texto
criticando a lisura do prêmio. Arrogue-se
um injustiçado. Outros
perdedores o apoiarão. Vire
seu porta voz e angarie
assim alguns leitores
como prêmio de consolação.
Prêmio é prêmio, aceite.

§

 

Quando incomoda

frisar quando incomoda
acomoda o que cala
e num tiro dispara
incontida escolha

e se explode à bala
o que era só bolha
quando não mais se poda
o que estava na cara

chega, pensa, sai, para
porra, cara, tá foda
ou melhora o que fala
ou te enfio uma rolha

*

Padrão
poesia

Karine Kelly Pereira

Karine Kelly Pereira publicou Anotações sobre o azul (Editora Patuá, 2016).

* * *

PARA OUVIR E CANTAR COM NINA SIMONE

Voltei a fumar.

Voltei a fumar desde o cigarro morando na tua boca, a noite insone sobre os nossos ossos, o terraço insuportavelmente cheio no centro da cidade.
“Quem aquece as mãos, aquece o coração”, dizem os tailandeses.
Por isso passado e futuro se encontram aqui-agora, fogo plantado nas falanges.
Voltei a fumar e voltei a ouvir a canção do Fausto que já ninguém em Portugal conhece.
Meu coração, brasileiro de memória e corpo, quer esquecer todas as canções já feitas, mas desvenda naquela canção indígena (que lhe fora arrancada sem saber) todo o seu gozo nela.

Em frente à praça com nome de santa fumo três cigarros, maldigo o teu nome.
Desaprendi
todas as línguas,
morri ao avesso…
morri ao avesso e todas as minhas encarnações sabem teu nome.
Todos os espelhos sentem falta do nosso reflexo juntos,
feito corpo repatriado.

Feito os cigarros, feito microfone nos dedos, os olhos se misturam à voz de Nina,
sem entender.
Impossível
traduzir, transcrever coração
na boca do gesto
saber se é benção, maldição, coragem ou voragem.
Não começa, não termina, tampouco existe aqui-agora.

Fio. Fissura. Fonte.

You put a spell on me.

QUIERO HACER EL AMOR

Eu pensei ter visto você

Pensei ter visto você me olhando do outro lado do espelho
Pensei ter visto você no voyeur da casa vizinha
Pensei ter visto você me procurando na internet, recombinando o alfabeto pra desvendar o meu nome, procurar nas redes sociais, nos sites de busca
Pensei ter visto você inventando um número pra ligar no meu celular

Pensei ter visto você na cidade da minha infância, na cidade do meu coração, na cidade do seu coração
Pensei ter visto você a me procurar nas ruas de São Paulo, indo e vindo nas estações do metrô, na areia da praia do Rio de Janeiro, pichando meu nome nos muros, lambendo o asfalto em busca do meu beijo, o teu sexo dançando com os muros, o gozo

Pensei ter visto você olhando o retrato que fez de mim nesse entre do seu abrir e fechar os olhos, com a própria retina, menina dos olhos
Pensei ter visto você surgindo de dentro dos meus livros, do café da manhã, da água caindo no chuveiro quente, do chão do meu quarto, da raíz das árvores,
da minha própria pele

Juro ter sentido a tua mão, o teu vento, agorinha
acariciando
mais uma página desse meu livro-corpo.

Eu sabia que você existia.

*Quiero hacer el amor é performance criada por Carolina Bianchi, uma experiência da aproximação íntima da mulher com os edifícios emblemáticos das cidades.

**Eu sabia que você existia é texto de Felipe Morozini, parte do seu trabalho como artista visual em constante troca e relação com a cidade de São Paulo.

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poesia, tradução

Jack Spicer, por Victor H. Azevedo

Jack Spicer nasceu em janeiro de 1925, em Los Angeles, Califórnia.

Uma boa introdução sobre o poeta, feita pelo Ricardo Domeneck, já foi feita na revista Modo de Usar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/06/jack-spicer-1925-1965.html), por isso não vou me ater a arremedar uma outra introdução sobre o poeta.

Entretanto, Spicer era um tipo interessante, de uma poética igualmente interessante, mas ainda sim pouco traduzido ao português – traduções dele temos as da Patrícia Lino (http://makelove-notbeds.blogspot.com.br/2014/07/jack-spicer-tres-poemas-three-poems.html ), do já mencionado Ricardo Domeneck, do Guilherme Gontijo Flores (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2015/02/traducao-de-guilherme-gontijo-flores.html) e algumas minhas (http://guarita.tumblr.com/post/159372718350/poemas-de-amor-por-jack-spicer).

Nessas traduções abaixo selecionei alguns poemas em fases diferentes da sua vida, a exemplo dos escritos durante a Berkeley Renaissance (“UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955” e “NÓS ACHAMOS O CORPO DIFÍCIL DE FALAR…”), alguns textos do seu livro After Lorca (“BALADA DA GAROTINHA QUE INVENTOU O UNIVERSO”, “PASSEIO DE BUSTER KEATON”, “UM DIAMANTE” e uma “carta” enviada a Federico García Lorca, e QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS”, presente no seu livro, BOOK OF MAGAZINE VERSE.

– victor h. azevedo

* * *

  “Nós achamos o corpo difícil de falar…”

Nós achamos o corpo difícil de falar,
O rosto muito duro de entreouvir,
Achamos que olhos ao beijar gaguejam
E essas pesadas virilhas erguidas
Balbuciam como idiotas.
Sexo é uma dor na boca. O
Rangido que os nossos corpos fazem
Quando eles esfregam suas bocas umas nas outras
Tentando falar.
Como crianças caladas abraçamos
Doendo juntos.
E o amor é um vazio no ouvido. Como cura
Nós colocamos um rosto contra o ouvido
E o escutamos como se fosse uma concha,
acalentada por seus rugidos.
Nós achamos o corpo difícil, e falamos
através da sua parede como estranhos.

“We find the body difficult to speak . . .”

We find the body difficult to speak,
The face too hard to hear through,
We find that eyes in kissing stammer
And that heaving groins
Babble like idiots.
Sex is an ache of mouth. The
Squeak our bodies make
When they rub mouths against each other
Trying to talk.
Like silent little children we embrace,
Aching together.
And love is emptiness of ear. As cure
We put a face against our ear
And listen to it as we would a shell,
Soothed by its roar.
We find the body difficult, and speak
Across its wall like strangers.

§

QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS

1.

Tire essas palavras da sua boca e as coloque dentro do coração. Se não
existe
Um Deus não acredite Nele. “Credo
Quia absurdum,” cria guerras e amores vazios e era
até mesmo em tempos tertulianos uma heresia. Vi ele como uma tartaruga
rastejando pelo vasto deserto da incredulidade.
“As sombras do amor não são as sombras de Deus.”
Essa é a segunda heresia criada pelo homem primevo de Piltdown na
caverna de Platão. Mesmo
O fogo moldando uma sombra ou não.
Balões vermelhos, laranjas e roxos, todos soltos
juntos em um céu chuvoso.
O céu onde os homens choram pelos homens. E sobre o céu uma lua
ou um astronauta sorri na televisão. O amor
Por Deus ou pelo homem transformado em distância.
Essa é a terceira heresia. Dante
foi o primeiro escritor de ficção cientifica. Beatrice
Cintilando no espaço infinito.

2.

Um papa quase morrendo de soluçar. Ou São Pedro
Contando à polícia, “Juro por Deus que não conheço esse homem,”
até que o galo cante três vezes e eles o soltem.
“Uma pedra
Sobre a qual eu construirei uma igreja.”
E ainda está lá. Aceitando a divindade como Jesus aceitou
a humanidade. A contragosto, sem paixão, mas o ponto
mais importante para ver no mundo.
Não acreditamos muito nisso. Deus é uma inverdade palpável. Coisas
espalhando-se pelo universo como lições.
Mas Jesus morreu e retornou com buracos nas mãos.
Como o clima,
E é, espero, para ser alcançado, e é algo para se rezar
E é o Filho de Deus.

3.

Na rubra aurora do Apocalipse (São João não é o Departamento de
Defesa) posso ouvir os soldados se movendo. Papa João
Vestido como o Anticristo é o primeiro a sair do mato
ou seja lá qual selva.
“Pacem in terris,” ele brada como se estivesse cantando “The Eyes Of
Texas Are Upon You” e é atingido imediatamente na cabeça pelo tiro
de um revólver estrondoso.
Há tantos deles nos matos ou em Seja Lá Quais Selvas
(São João) que mal valem a pena serem mortos. Eles são
franco-atiradores disfarçados com os rostos da terra que deveríamos
estar protegendo. Seus japas parecem com nossos japas. Papa João
Parece morto mesmo quando sua fantasia cai.

4.

Mecanicamente nos movemos
no Universo de Deus, Incapazes de fazê-lo
Sem a graça ou ódio Dele.
O centro do ser. Como quase um centro de computadores,
sem graça. Um mundo enfadonho
Sem Seu ódio.
Um centro do ser — não a existência de robôs.
Se Ele quisesse, Ele poderia fazer de uma máquina um Cristo, colocá-lo
na segunda pessoa que é Você.
Por que ele se incomodou com o homem é um mistério que até Jó se Perguntou.
Deus tornando-se humano, tornou-se um assunto para antropólogos,
para história, e todos as outros, miseráveis coceiras de um animal
que de repente (tão de repente?) recebe uma alma.
Quando olho nos olhos e almas daqueles daqueles que amo, eu
(em uma floresta escura entre graça e ódio) duvido de Sua
sabedoria.
Cur Deus Homo, era o título do livro de São Anselmo. Sem
pontos de interrogação.
Graça!

FOUR POEMS FOR RAMPARTS

1.
Get those words out of your mouth and into your heart. If
there isn’t
A God don’t believe in Him. “Credo
Quia absurdum,” creates wars and pointless loves and was
even in Tertullian’s time a heresy. I see him like a tortoise
creeping through a vast desert of unbelief.
“The shadows of love are not the shadows of God.”
This is the second heresy created by the first Piltdown man in
Plato’s cave. Either
The fire casts a shadow or it doesn’t.
Red balloons, orange balloons, purple balloons all cast off
together into a raining sky.
The sky where men weep for men. And above the sky a moon
or an astronaut smiles on television. Love
for God or man transformed to distance.
This is the third heresy. Dante
Was the first writer of science-fiction. Beatrice
Shimmering in infinite space.

2.
A pope almost dying of hiccups. Or St. Peter
Telling the police, “Honest to God I don’t know this man,”
until the cock crowed three times and they released him.
“A rock
Upon which I will build a church.”
And yet it’s there. Accepting divinity as Jesus accepted
humanness. Grudgingly, without passion, but the most
important point to see in the world.
We do not quite believe this. God is palpably untrue. Things
spreading over the universe like lessons.
But Jesus dies and comes back again with holes in his hands.
Like the weather,
And is, I hope, to be reached, and is something to pray to
And is the Son of God.

3.
In the red dawn of the Apocalypse (St. John’s not the Defense
Department’s) I can hear the soldiers moving. Pope John
Dressed like the Antichrist is in first to come out of the bushes
or whatever jungle.
“Pacem in terris,” he shouts as if he were singing “The Eyes Of
Texas Are Upon You.” He is immediately shot in the head
by a loud revolver.
There are so many of them in the bushes or Whatever Jungle
(St. John’s) that they are hardly worth killing. They are
snipers disguised with the faces of the land we ought to be
protecting. Their gooks look like our gooks. Pope John
Looks dead even when his costume has fallen off.

4.
Mechanicly we move
In God’s Universe, Unable to do
Without the grace or hatred of Him.
The center of being. Like almost, without grace, a computer
center. Without His hatred
A barren world.
A center of being—not the existence of robots.
If He wanted to, He could make a machine a Christ, enter it in
its second person which is You.
Why he bothered with man is a mystery even Job wondered.
God becoming human, became a subject for anthropologists,
history, and all the other wretched itchings of an animal
that had suddenly (too suddenly?) been given a soul.
When I look in the eyes and the souls of those of those I love, I
(in a dark forest between grace and hatred) doubt His
wisdom.
Cur Deus Homo, was the title of St. Anselm’s book. Without
question marks.
Grace!

§

UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955

Querido,
A diferença entre o Dada e o barbarismo
É a diferença entre um aborto e um sonho molhado.
Um aborto
É um sacrifício consciente do passado, a pintura de um bigode
Na Mona Lisa, a rendição
De crianças reais.
O outro, querido, é um sacrifício
Dos filhos de ninguém, é barbarismo, é um Esquimó
Correndo amuado em um museu, é a Boêmia
Renunciando cidades que nunca foram conquistadas.
Um Vândalo feio mijando em uma estátua não é Fídias
mijando em uma estátua. Barbarismo
É menor que um gesto.
Destrua seus próprios deuses se você quer ser Dada:
Desista dos seus vícios, queime sua jukebox,
Desenhe bigodes na música, pinte uma mãe de verdade
em cada tela não-objetiva. Suje somente
Essas coisas que pertencem a você.
“Beleza é uma coisa tão rara,” Pound disse,
“pouquíssimos bebem da minha fonte.”
Você só tem o direito de mijar na fonte
Se você for belo.

A POEM FOR DADA DAY AT THE PLACE, APRIL 1, 1955

Darling,
The difference between Dada and barbarism
Is the difference between an abortion and a wet dream.
An abortion
Is a conscious sacrifice of the past, the painting of a mustache
On Mona Lisa, the surrender
Of real children.
The other, darling, is a sacrifice
Of nobody’s children, is barbarism, is an Eskimo
Running amok in a museum, is Bohemia
Renouncing cities it had never conquered.
An ugly Vandal pissing on a statue is not Phidias
Pissing on a statue. Barbarism
Is something less than a gesture.
Destroy your own gods if you want Dada:
Give up your vices, burn your jukebox,
Draw mustaches on music, paint a real mother
On every non-objective canvas. Befoul only
Those things that belong to you.
“Beauty is so rare a thing,” Pound said,
“So few drink at my fountain.”
You only have the right to piss in the fountain
If you are beautiful.

§

TRÊS ENSAIOS MARXISTAS

HOMOSSEXUALIDADE E MARXISMO

Não deveriam haver regras para isso mas deveria ser simultâneo se fosse pra haver.

Homossexualidade é essencialmente estar só. Que é uma luta contra os patrões capitalistas que não querem
que nós sejamos sós. Sozinhos somos perigosos.

Nossa insatisfação poderia arruinar a América. Nosso amor poderia arruinar o universo se quiséssemos.

Se deixarmos nosso amor florescer na verdadeira revolução ficaremos cheios de ofertas para camas.

OS JATOS E O MARXISMO

Jatos odeiam política. Eles crescem em uma sociedade de gatos gordos onde não houve nenhuma depressão ou guerra. Eles
são contra a pena de morte.

Eles não poderiam se importar menos. Eles usam canivetes atados com fitas. Eles sabem que o que move este país
é uma máquina IBM conectada a uma máquina IBM. Eles nunca pensam em usar seus canivetes contra seus gabinetes de alumínio.

Uma Liga Contra a Juventude e o Fascismo deveria ser formada imediatamente pelo nosso Partido. Eles são nossos convidados. Eles são ignorantes.

OS JATOS E A HOMOSSEXUALIDADE

Certa vez no áureo amanhecer da homossexualidade houve um filósofo que havia dado a fórmula para uma nova sociedade —
“de cada qual, segundo sua capacidade, a cada qual, segundo suas necessidades.”

Essa fórmula aparece no Novo Testamento — a parábola da figueira — e em outros lugares.

Continuar o argumento é infrutífero.

THREE MARXIST ESSAYS

HOMOESEXUALITY AND MARXISM

There should be no rules for this but it should be simultaneous if at all.

Homosexuality is essentially being alone. Which is a fight against the capitalist bosses who do not want us to be alone. Alone we are dangerous.

Our dissatisfaction could ruin America. Our love could ruin the universe if we let it.

If we let our love flower into the true revolution we will be swamped
with offers for beds.

THE JETS AND MARXISM

The Jets hate politics. They grew up in a fat cat society that didn’t even have a depression or a war in it. They are against capital punishment.

They really couldn’t care less. They wear switchblade knives tied with ribbons. They know that which runs this country is an IBM machine connected to an IBM machine. They never think of using their knives against its aluminum casing.

A League Against Youth and Fascism should be formed immediately by our Party. They are our guests. They are ignorant.

THE JETS AND HOMOSEXUALITY

Once in the golden dawn of homosexuality there was a philosopher who gave the formula for a new society—“from each, according to his ability, to each according to his need.”

This formula appears in the New Testament—the parable of the fig tree—and elsewhere.

To continue the argument is fruitless.

§

Balada da Garotinha Que Inventou O Universo
uma tradução para George Stanley

Flor de jasmim e um touro com a garganta cortada.
Calçada infinita. Mapa. Quarto. Harpa. Amanhecer.
Uma garotinha imita um touro feito de jasmim
E o touro é um crepúsculo sangrento que sobe.

Se o céu fosse um garotinho
Os jasmins pegariam metade da noite para si
E o touro uma praça de touros azul só sua
Com o coração ao pé de uma pequena coluna.

Mas o céu é um elefante
E os jasmins são água sem sangue
E a garotinha é um buquê de flores noturnas
Perdida em uma grande calçada escura.

Entre o jasmim e o touro
Ou ganchos das adormecidas pessoas de mármore ou
No jasmim, nuvens e um elefante —
O esqueleto de uma garotinha se virando.

Ballad of the Little Girl Who Invented the Universe
A Translation for George Stanley

Jasmine flower and a bull with his throat slashed.
Infinite sidewalk. Map. Room. Harp. Sunrise.
A little girl pretends a bull made of jasmine
And the bull is a bloody twilight that bellows.

If the sky could be a little boy
The jasmines could take half the night to themselves
And the bull a blue bullring of his own
With his heart at the foot of a small column.

But the sky is an elephant
And the jasmines are water without blood
And the little girl is a bouquet of night flowers
Lost on a big dark sidewalk.

Between the jasmine and the bull
Or the hooks of the sleeping people of marble or
In the jasmine, clouds and an elephant—
The skeleton of a little girl turning.

§

Passeio de Buster Keaton
uma tradução para Melvin Bakkerud

GALO: Cocoricó!

(Buster Keaton entra carregando quatro crianças em seus braços.)

BUSTER KEATON (pega um punhal de madeira e os mata):
Minhas pobres crianças!

GALO: Cocoricó!

BUSTER KEATON (contando os corpos no chão): Um, dois, três, quatro. (Pega uma bicicleta e vai embora.)

(Entre pneus velhos e latas de gasolina um negro come um chapéu de palha)

BUSTER KEATON: Que tarde bonita!

(Um papagaio tremula no céu sem sexo.)

BUSTER KEATON: Gosto de andar de bicicleta.

CORUJA: Hoo hoo.

BUSTER KEATON: Que bonito o canto desses pássaros!

CORUJA: Hoo!

BUSTER KEATON: É lindo!

(Pausa. Buster Keaton inefavelmente cruza juncos e pequenos campos de centeio. A paisagem se encurta sob as rodas da sua máquina. A bicicleta tem uma única dimensão. É capaz de entrar em livros e expandir-se até mesmo em óperas e minas de carvão. A bicicleta de Buster Keaton não tem uma sela de caramelo ou pedais de açúcar como as bicicletas que os homens maus pedalam. É uma bicicleta como todas as outras exceto por uma única chuvarada de inocência. Adão e Eva passam correndo, assustados como se estivessem carregando um vaso cheio de água e, ao passar, acariciam a bicicleta do Buster Keaton.)

BUSTER KEATON: Ah, amor, amor!

(Buster Keaton cai no chão. A bicicleta escapa dele. Corre até atrás de duas enormes borboletas cinzentas. E roça loucamente meio centímetro no chão.)

BUSTER KEATON: Eu não quero falar. Alguém por favor diga algo?

UMA VOZ: Imbecil!

(Ele continua andando. Seus olhos, infinitos e tristes como um animal recém-nascido, sonho de lírios e anjos e cintos sedosos. Seus olhos que são como o fundo de um vaso. Seus olhos d’uma criança louca. Quais são os mais fiéis. Quais são os mais belos. Os olhos de um avestruz. Seus olhos humanos de uma equivalência segura com melancolia. A Filadélfia é vista ao longe. Os habitantes dessa cidade agora sabem que o antigo poeta de uma máquina Singer é capaz de circular as grandes rosas da estufa mas não de todo, para compreender a diferença poética entre uma tigela de chá quente e uma tigela de chá gelado. A Filadélfia brilha ao longe.)

(Uma menina americana com olhos de celuloide surge da grama.)

A AMERICANA: Olá.

(Buster Keaton sorri e olha para os sapatos da garota. Que sapatos! Nós não temos que admirar seus sapatos. Seria preciso um crocodilo para usá-los.)

BUSTER KEATON: Eu gostaria de—

A AMERICANA (sem fôlego): Você carrega uma espada adornada de folhas de murta?

(Buster Keaton dá de ombros e levanta o pé direito.)

A AMERICANA: Você tem um anel de pedra envenenada?

(Buster Keaton se entorta lentamente e levanta uma perna inquirida)

A AMERICANA: Bem?

(Quatro anjos com asas de um celestial balão de gás mijam entre as flores. As senhoras da cidade tocam num piano como se estivesse pedalando uma bicicleta. A valsa, a lua, e dezessete canoas indianas balançam o precioso coração do nosso amigo. Como a maior surpresa de todas, o outono invade o jardim como a água que explode um amontoado geométrico de açúcar.)

BUSTER KEATON (suspirando): Eu gostaria de ter sido um cisne. Mas eu não posso fazer o que eu gosto. Porque — O que aconteceu com o meu chapéu? Onde está meu colarinho de passarinhos e minha gravata mohair? Que desgraça!

(Uma moça com uma cintura de vespa e um colarinho alto surge montada em uma bicicleta. Ela tem a cabeça de um rouxinol.)

MOÇA: Quem tenho a honra de saudar?

BUSTER KEATON (com um arco): Buster Keaton.

(A moça desmaia e cai da bicicleta. Suas pernas no chão tremem como duas najas agonizantes. Um gramofone toca milhares de versões da mesma canção — “Na Filadélfia eles não têm rouxinóis”.)

BUSTER KEATON (ajoelhado): Querida Srta. Eleanor, pardon me! (mais baixo) Querida (ainda baixo) Querida (mais baixo) Querida.

(As luzes da Filadélfia piscam e saem do rosto de milhares de policiais.)

§

Um Diamante
uma tradução para Robert Jones

Existe
Um diamante
No coração da lua ou dos ramos ou da minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

O poema é uma gaivota descansando em um cais no fim do oceano.

Um cão uiva na lua
Um cão uiva nos ramos
Um cão uiva na nudez
Um cão uivando com a mente pura.

Peço ao poema que ele seja tão puro quanto a barriga de uma gaivota.

O universo desmorona e revela um diamante
Duas palavras chamadas gaivota estão pacificamente flutuando lá onde as ondas estão.
O cão está morto lá com a lua, com os ramos, com minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

Diamond
A Translation for Robert Jones

A diamond
Is there
At the heart of the moon or the branches or my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

The poem is a seagull resting on a pier at the end of the ocean.

A dog howls at the moon
A dog howls at the branches
A dog howls at the nakedness
A dog howling with pure mind.

I ask for the poem to be as pure as a seagull’s belly.

The universe falls apart and discloses a diamond
Two words called seagull are peacefully floating out where the
waves are.
The dog is dead there with the moon, with the branches, with
my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

§

CINCO PALAVRAS PARA JOE DUNN SOBRE SEU VIGÉSIMO-SEGUNDO ANIVERSÁRIO

Te devo cinco palavras de aniversário.
A primeira palavra é anthropos
Aquele que celebra aniversários.
Ele está mirrado e rijo e cego, tagarela
Das velhas guerras e da beleza morta.
Ele está lá pela calma do teu coração quando os dias correm
E as guerras se perdem e as rosas murcham.
Ele pode derrotar todos os inimigos que te atingirem.
Ele pode lembrar de toda beleza que possa morrer em teu coração.

A segunda palavra é andros
Aquele que se orgulha de seu gênero
Que se veste como um galo de rinha, ereto
Através da meia-noite do tempo
Como uma vela de aniversário.
Ele te dar sabedoria assim como um Tolo
Se esconde nos lombos
Chorando pela deselegância
De tudo isso que não é sagrado.

A terceira palavra é eros
Aquele que se apega a ti a cada nascimento
Trazendo ao teu coração sustância.
Seja lá quem for que você toque ele irá te amar,
Sentirá o apego do Seu toque
Como a luz do sol dispersa sobre um espelho antigo.

A quarta palavra é thanatos, o ventre negro
Que devora aniversários.
Eu não te dou thanatos. Eu te trago a palavra para chamá-lo
Thanatos, devorador de rapazes, mordedor cardíaco, lambedor de ossos.
Olhe, Ele se esgueira quando você o chama.
Chame-o! Thanatos.

A última palavra é agape,
A dançarina que põe aniversários em movimento.
Ela está lá para conduzir as palavras.
Contrariando tudo, Ela faz as palavras
Girarem ao Seu redor. Palavras dançam.
Veja. Anthropos perene,
Andros tornado virgem, Eros irrefletível
Thanatos devorado.
Agape, Agape, mestra de cerimônias,
Ame
Isso que vem para além dos aniversários,
Isso que faz poesia
E move estrelas.

FIVE WORDS FOR JOE DUNN ON HIS TWENTY-SECOND BIRTHDAY

I shall give you five words for your birthday.
The first word is anthropos
Who celebrates birthdays.
He is withered and tough and blind, babbler
Of old wars and dead beauty.
He is there for the calmness of your heart as the days race
And the wars are lost and the roses wither.
No enemy can strike you that he has not defeated.
No beauty can die in your heart that he will not remember.

The second word is andros
Who is proud of his gender
Wears it like a gamecock, erects it
Through the midnight of time
Like a birthday candle.
He will give you wisdom like a Fool
Hidden in the loins
Crying out against the inelegance
Of all that is not sacred.

The third word is eros
Who will cling to you every birthnight
Bringing your heart substance.
Whomever you touch will love you,
Will feel the cling of His touch upon you
Like sunlight scattered over an ancient mirror.

The fourth word is thanatos, the black belly
That eats birthdays.
I do not give you thanatos. I bring you a word to call Him
Thanatos, devourer of young men, heart-biter, bone-licker.
Look, He slinks away when you name Him.
Name Him! Thanatos.

The last word is agape,
The dancer that puts birthdays in motion.
She is there to lead words.
Counter to everything, She makes words
Circle around Her. Words dance.
See them. Anthropos ageless,
Andros made virgin, Eros unmirrored,
Thanatos devoured.
Agape, Agape, ring-mistress,
Love
That comes from beyond birthdays,
That makes poetry
And moves stars.

§

PSICANÁLISE: UMA ELEGIA

No que você está pensando?

Estou pensando no começo do verão.
Estou pensando em colinas molhadas de chuva
Água correndo. Derramando-se
Em hectares vazios de carvalho e manzanita
Na velha e verde moita emaranhada ao sol,
Chaparral, sálvia e mostarda-marrom.
Ou no vento quente que vem de Santa Ana
Vindo pelas montanhas como louco,
Um vento veloz com um pouco de poeira nele
Ferindo tudo e tornando as sementes doces.
Ou na cidade onde os pessegueiros
São estranhos como cavalos novos,
E onde pipas ficam presas nas fiações
Sobre os postes das ruas,
E os bueiros estão todos engasgados de arbustos mortos.

No que você está pensando?

Estou pensando que gostaria de escrever um poema que fosse lento como um verão
Que lentamente fosse começando
Como 4 de Julho em algum lugar pelo meio da segunda estrofe
Depois de muita chuva inusitada
A Califórnia parece maior no verão.
Eu gostaria de escrever um poema tão comprido quanto a Califórnia
E tão lento quanto um verão.
Você me entende, Doutor? Tem que ser tão lento
Quanto cada ponta do verão.
Tão lenta quanto o verão
Em um dia quente bebendo cerveja fora de Riverside
Ou parado no meio de uma estrada branca e quente
Entre Bakersfield e o Inferno
Esperando pelo Papai Noel

No que você está pensando agora?

Estou pensando que ela é bem parecida com a Califórnia.
Quando ela ainda está de vestido é como um mapa das estradas. Rodovias
Indo de cima a baixo na sua pele
Estradas longas e vazias
Com a lua perseguindo lebres
Nas noites quentes de verão.
Estou pensando que seu corpo poderia ser a Califórnia
E eu um turista do oriente, rico,
Perdido em algum lugar entre o Inferno e o Texas
Olhando para um mapa de uma Califórnia comprida, molhada e dançante
Que eu nunca vi.
Envie alguns cartões postais baratos, moça,
Envie.
Cada peito de cada fotografado parecendo
Com curiosos monumentos nacionais,
Um do seu corpo extenso como uma rodovia de três pistas
Vinte e sete milhas de uma noite hospedado
No hotel mais antigo do mundo.

No que você está pensando?

Estou pensando em quantas vezes esse poema
Será repetido. Quantos verões
Irão torturar a Califórnia
Até que os malditos mapas queimem
Até que o cartógrafo louco
Caia no chão e possua
A doce e dura terra da qual ele estava se escondendo.

No que você está pensando agora?

Estou pensando que um poema poderia continuar para sempre.

PSYCHOANALYSIS: AN ELEGY

What are you thinking about?

I am thinking of an early summer.
I am thinking of wet hills in the rain
Pouring water. Shedding it
Down empty acres of oak and manzanita
Down to the old green brush tangled in the sun,
Greasewood, sage, and spring mustard.
Or the hot wind coming down from Santa Ana
Driving the hills crazy,
A fast wind with a bit of dust in it
Bruising everything and making the seed sweet.
Or down in the city where the peach trees
Are awkward as young horses,
And there are kites caught on the wires
Up above the street lamps,
And the storm drains are all choked with dead branches.

What are you thinking?

I think that I would like to write a poem that is slow as a summer
As slow getting started
As 4th of July somewhere around the middle of the second stanza
After a lot of unusual rain
California seems long in the summer.
I would like to write a poem as long as California
And as slow as a summer.
Do you get me, Doctor? It would have to be as slow
As the very tip of summer.
As slow as the summer seems
On a hot day drinking beer outside Riverside
Or standing in the middle of a white-hot road
Between Bakersfield and Hell
Waiting for Santa Claus.

What are you thinking now?

I’m thinking that she is very much like California.
When she is still her dress is like a roadmap. Highways
Traveling up and down her skin
Long empty highways
With the moon chasing jackrabbits across them
On hot summer nights.
I am thinking that her body could be California
And I a rich Eastern tourist
Lost somewhere between Hell and Texas
Looking at a map of a long, wet, dancing California
That I have never seen.
Send me some penny picture-postcards, lady,
Send them.
One of each breast photographed looking
Like curious national monuments,
One of your body sweeping like a three-lane highway
Twenty-seven miles from a night’s lodging
In the world’s oldest hotel.

What are you thinking?

I am thinking of how many times this poem
Will be repeated. How many summers
Will torture California
Until the damned maps burn
Until the mad cartographer
Falls to the ground and possesses
The sweet thick earth from which he has been hiding.

What are you thinking now?

I am thinking that a poem could go on forever.

§

Caro Lorca,

Quando traduzo um de seus poemas e encontro palavras que não entendo, sempre deduzo os seus significados. Estou inevitavelmente certo. Uma poema realmente perfeito (ninguém escreveu ainda um) poderia ser facilmente traduzido por uma pessoa que não sabe uma palavra do idioma em que foi escrito. Um poema realmente perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.
É dificílimo. Queremos transferir o objeto imediato, a emoção imediata para o poema — e no entanto o imediato sempre tem centenas de palavras próprias agarradas a ele, de vida curta e tenazes como cracas. E é errado escalpelá-las ou substituir por outras. Um poeta é um mecânico do tempo não um embalsamador. As palavras ao redor desse murchar imediato e decaído como carne ao redor do corpo. Nenhum trapo de múmia da tradição pode ser usado para parar o processo. Objetos, palavras devem ser conduzidas através do tempo, não preservadas contra ele.
Eu grito “Merda” sob um penhasco próximo do oceano. Mesmo na minha vida o imediatismo dessa palavra irá desaparecer. Estará morta como “Alas”. Mas se eu colocar o penhasco verdadeiro e o oceano verdadeiro dentro do poema, a palavra “Merda” irá perdurar com ele, viajando na máquina do tempo até que os penhascos e os oceanos desapareçam.
A maioria dos meus amigos gosta muito de palavras. Eles as colocam sob a luz cega do poema e tentam extrair toda e qualquer conotação possível de cada uma delas, cada trocadilho temporário, cada conexão direta ou indireta — como se uma palavra pudesse se tornar um objeto por mera adição de consequências. Outros pegam palavras das ruas, dos seus bares, dos seus escritórios e os exibem com orgulho em seus poemas como se estivessem berrando, “Veja o que peguei da Língua Americana. Olhe para minhas borboletas, meus selos, meus velhos sapatos!” O que alguém faz com toda essa bosta?
Palavras são o que aderem ao real. Nós usamos elas para impulsionar o real, para arrastar o real para o poema. Elas são o que temos, nada mais. Elas são tão valiosas em si próprias como uma corda com nada a ser amarrada.

Repito — O poema perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.

Com amor,

Jack.

Dear Lorca,

When I translate one of your poems and I come across words I do not understand, I Always guess at their meanings. I am inevitably right. A really perfect poem (no one yet has written one) could be perfectly translated by a person who did not know one word of the language it
was written in. A really perfect poem has an infinitely small vocabulary.

It is very difficult. We want to transfer the immediate object, the immediate emotion to the poem—and yet the immediate always has hundreds of its own words clinging to it, short-lived and tenacious as barnacles. And it is wrong to scrape them off and substitute others. A poet is a time mechanic not an embalmer. The words around the immediate shrivel and decay like flesh around the body. No mummysheet of tradition can be used to stop the process. Objects, words must be led across time not preserved against it.

I yell “Shit” down a cliff at an ocean. Even in my lifetime the immediacy of that word will fade. It will be dead as “Alas.” But if I put the real cliff and the real ocean into the poem, the word “Shit” will ride along with them, travel the time-machine until cliffs and oceans disappear.

Most of my friends like words too well. They set them under the blinding light of the poem and try to extract every possible connotation from each of them, every temporary pun, every direct or indirect connection—as if a word could become an object by mere addition of consequences. Others pick up words from the street, from their bars, from their offices and display them proudly in their poems as if they were shouting, “See what I have collected from the American language. Look at my butterflies, my stamps, my old shoes!” What does one do with all this crap?

Words are what sticks to the real. We use them to push the real, to drag the real into the poem. They are what we hold on with, nothing else. They are as valuable in themselves as rope with nothing to be tied to.

I repeat—the perfect poem has an infinitely small vocabulary.

Love,
Jack

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