poesia

Louise Furtado (1997-)

Screenshot_20200220-103706_2

Louise Furtado (1997) é poeta e mestranda em teoria literária pela UFF, em Niterói, RJ. Nasceu em Guarapuava no interior do Paraná, morou em Curitiba, morou no Rio de Janeiro, atualmente mora em Niterói e amanhã não se sabe. Estes 4 poemas fazem parte de um projeto em andamento intitulado “taxidermias”. Gosta quando a ponte Rio-Niterói fica interditada porque um cachorro resolveu atravessar e de escrever quando está com sono.

* * *

memória

se um dia Maria abrisse
alguma fresta na porta do quarto
e a visão não tropeçasse
em animais vinte e seis
espalhados e empalhados
talvez não pensasse todo dia
enquanto almoça em ser
empalada e empalhada
para servir de crucifixo
na cabeceira de alguma cama

§

 

labareda

o ano é
não se sabe mais
o tempo é
não se sabe mais
a vida é
nunca soube
soube pela camisa
de papai da Maria Luiza
que ateou fogo nas mãozinhas dela
dentro da própria casa
agarrada às irmãs
da mesma terra
de cabeça dura e mal criada
com garras desgarradas
e talvez Maria Luiza agora…
a primeira filha
não se sabe mais
um flâneur de escombros
viu tudo
só não viu
papai fechar a porta
e andar na rua
com as mãozinhas dela estampadas
de cinzas

§

 

há sombras sem luz
no canto de prédios
guardados pelo tempo
numa caixa de brinquedos

há tantos joelhos com pus
sem mãos pra falar: venha cá
quando foi a última vez que você viu
um Vaga-lume piscando

vi um Cão morto latindo
tendo talvez convulsões
do outro lado da rua
que não é minha

eu dei meia volta
I’m back
eu não sei mais falar inglês
será que alguém precisa disso
falar inglês
um Cão morto latindo precisa
vai ver ele podia falar
help

será que pode carregar na cauda
esse mundo inchado
de água São Lourenço
que tem gosto de gás
que vêm de São Paulo
às sete da tarde

será que pode responder e-mail
falando sobre o tempo
ou sempre tem que
lamber as botas de alguém
falar sobre o tempo em inglês
um e-mail do tempo:
help
abraços,
Tempo.

alguém diz dias depois
as sombras do prédio
fazem sombras no outro prédio ali

mas se acabar a luz na cidade
talvez botafogo grite
PORRA
mas quando voltar todos gritam

uníssono
que não vai chegar em jacarepaguá

mas alguém pode estar lá
gritando socorro
como o Cão morto latindo em inglês
ou o tempo

mas se uma criança abre
a caixa de brinquedos do mundo
e vê o Cão vivo
talvez nasça um pedacinho
de luz no prédio
de alguém indo ao banheiro
quatro horas da manhã
o vaga-lume
que já não via há tanto tempo.

§

 

boceta antropofágica

Maria tem a boceta repleta
das Onças do Rosa
e mata alguns homens assim
lentamente
seus corpos apodrecem
naquele mesmo quarto
e deixa morar Baratas pelos seus membros
é uma pena que eles nunca descubram
o poder disso

Padrão
poesia, tradução

Maya Angelou, por Lubi Prates

Recentemente, escutei algo como “os aniversários são para sempre”. Não sei quem me disse isso, se li ou ouvi, e nem o contexto. Mas quando penso sobre hoje, aniversário de Maya Angelou, só consigo concluir que, sim, é uma data para ser sempre celebrada.

Maya (Marguerite Annie Johnson) foi uma poeta, escritora, condutora de bondes (a primeira negra contratada para a função), atriz, cantora, dançarina, diretora de cinema, ativista pelos direitos dos negros, ou seja, teve uma vida recheada de histórias – que ela gostava de contar e repetir, e que lhe renderam 7 autobiografias, sucessos mundiais.

Com a poesia, Maya conquistou o Pulitzer (com o livro “Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa) e 3 Grammy com álbuns de poesia falada,  e essa era uma relação especial porque foi através da poesia que Maya conseguiu romper com um trauma vivido na infância. Quando tinha 7 anos, Maya foi estuprada pelo namorado de sua mãe. Ela compartilhou o acontecido com seu irmão, Bailey, que contou para o resto da família – dias depois, o estuprador foi encontrado morto. Com isso, Maya acreditou que sua voz tinha matado aquele homem e que, portanto, poderia matar qualquer um, por isso, parou de falar e esse mutismo durou anos, sendo quebrado pela provocação feita por uma amiga da família, a senhora Flowers, com quem Maya passava algumas tardes. A senhora Flowers lia para Maya uma infinidade de poetas (Shakespeare, Dickens, Poe) que, depois, se tornaram referências para ela. “Maya, você não gosta de poesia… Você nunca vai gostar até que a recite, até sentí-la rolar pela sua língua, sobre os dentes, através de seus lábios. Você nunca vai gostar”. Diante disso, 5 anos depois que decidiu parar de falar, Maya tentou recitar um poema. Essa relação que criou com a poesia, Maya explicava como “a prova de que algo bom pode nascer de uma situação ruim”.

Desse momento em diante, mesmo com diversas atividades, Maya sempre enxergou a poesia como seu trabalho e algo de extrema importância.

Publicou 5 livros de poesia: Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa; Oh, reze para que minhas asas me caiam bem; E ainda assim eu me levanto; Shaker, por que você não canta? e Eu não serei levada, além de diversos poemas avulsos, que foram traduzidos e publicados no Brasil, em março.  Seus poemas falam sobre a condição da mulher negra estadunidense, que ama, que viaja, que trabalha, que tem fé, que resiste e luta – como dizia: “afiando a ponta da caneta nas cicatrizes que existiam no seu próprio corpo”. Com a chegada desta publicação ao país, é possível, ainda, se tratando de uma existência particular, encontrar diversas relações entre a vida da Maya e as vidas de tantas mulheres negro-brasileiras.

Abaixo, poemas de Maya e suas traduções, um bocado de cada livro. Que com eles, que com a vida que existe neles, possamos celebrar a existência dessa mulher fenomenal – como ela mesma se enxergava.

Lubi Prates

* * *

Quando penso sobre mim mesma

Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que se anda,
Uma canção que se fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.

When I think about myself

When I think about myself,
I almost laugh myself to death,
My life has been one great big joke,
A dance that’s walked,
A song that’s spoke,
I laugh so hard I almost choke,
When I think about myself.


Sixty years in these folks’ world,
The child I works for calls me girl,
I say “Yes ma’am” for working’s sake.
Too proud to bend,
Too poor to break,
I laugh until my stomach ache,
When I think about myself.


My folks can make me split my side,
I laughed so hard I nearly died,
The tales they tell sound just like lying,
They grow the fruit,
But eat the rind,
I laugh until I start to crying,
When I think about my folks.


Para assistir a Maya declamando esse poema: https://youtu.be/k9ywTJvBwTc

§

Minha culpa

Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.

My guilt

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.


My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.


My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.


*Nota: Vesey, Turner e Gabriel, assim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm X, Marcus Garvey e Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros.

§

Um brinde à recomposição

Eu fui numa festa
lá em Hollywood.
A atmosfera era péssima
mas as bebidas estavam boas
e foi onde ouvi você rir.

Então, eu fiz um cruzeiro
num velho navio grego.
A tripulação era divertida
mas os convidados não eram descolados,
foi aí que encontrei suas mãos.

Numa caravana
para o Saara,
O sol acertava como uma flecha
mas as noites eram grandiosas,
e foi assim que eu encontrei seu peito.

Numa tarde no Congo
onde o Congo termina,
Eu me encontrei sozinha, ah
mas eu fiz alguns amigos,
e foi onde eu vi seu rosto.

Eu tenho dedicado
todo meu tempo para reunir
partes suas que flutuam
ainda descoladas.

E você não vai se recompor
Para
Mim
N E N H U M A V E Z?

Here’s to Adhering

I went to a party
out in Hollywood,
The atmosphere was shoddy
but the drinks were good,
and that’s where I heard you laugh.


I then went cruising
on an old Greek ship,
The crew was amusing
but the guests weren’t hip,
that’s where I found your hands.

On to the Sahara
in a caravan,
The sun struck like an arrow
but the nights were grand,
and that’s how I found your chest.

An evening in the Congo
where the Congo ends,
I found myself alone, oh
but I made some friends,
that’s where I saw your face.

I have been devoting
all my time to get
Parts of you out floating
still unglued as yet.
Won’t you pull yourself together
For
Me
O N C E.

§

Trabalho de mulher

Eu tenho crianças para cuidar
As roupas para remendar
O chão para esfregar
A comida para comprar
Depois, o frango para fritar
O bebê para secar
Eu tenho as visitas para alimentar
O jardim para aparar
Eu tenho camisetas para passar
O bebê para vestir
A cana para cortar
Eu tenho que limpar essa cabana
Depois, cuidar dos doentes
E colher o algodão.

Brilhe sobre mim, luz do sol
Chova sobre mim, chuva
Caiam suavemente, gotas de orvalho
E refresquem minha testa novamente.

Tempestade, me sopre daqui
Com seus ventos violentos
Me deixe flutuar através do céu
Até que eu possa descansar novamente.

Caiam gentilmente, flocos de neve
Me cubram de beijos
Brancos e gelados e
Me deixem descansar esta noite.

Sol, chuva, céu turvo
Montanha, oceanos, folhas e pedras
Luz das estrelas, brilho da lua
Vocês são tudo que posso chamar de meu.

Woman Work
I’ve got the children to tend
The clothes to mend
The floor to mop
The food to shop
Then the chicken to fry
The baby to dry
I got company to feed
The garden to weed
I’ve got the shirts to press
The tots to dress
The cane to be cut
I gotta clean up this hut
Then see about the sick
And the cotton to pick.

Shine on me, sunshine
Rain on me, rain
Fall softly, dewdrops
And cool my brow again.

Storm, blow me from here
With your fiercest wind
Let me float across the sky
Till I can rest again.

Fall gently, snowflakes
Cover me with white
Cold icy kisses and
Let me rest tonight.

Sun, rain, curving sky
Mountain, oceans, leaf and stone
Star shine, moon glow
You’re all that I can call my own.

§

Mais uma rodada

Não há pagamento mais doce sob o sol
Do que o descanso depois de um trabalho bem feito.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas eu não nasci
Para ser escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Papai molda o aço e Mamãe mantinha a guarda,
Nunca os ouvi reclamando porque o trabalho era pesado.
Nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Irmãos e irmãs sabem as tarefas diárias,
O trabalho não fez com que perdessem a cabeça.
Eles nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

E agora vou contar qual é minha Regra de Ouro,
Eu nasci para trabalhar, mas não sou nenhuma mula.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas não nasci
Para morrer escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

One more round

There ain’t no pay beneath the sun
As sweet as rest when a job’s well done.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Papa drove steel and Momma stood guard,
I never heard them holler ’cause the work was hard.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Brothers and sisters know the daily grind,
It was not labor made them lose their minds.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

And now I’ll tell you my Golden Rule,
I was born to work but I ain’t no mule.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

§

Despertando em Nova York

Cortinas se forçam
contra o vento,
as crianças dormem,
trocando sonhos com
os anjos. A cidade
se força a acordar nas
vias do metrô; e
eu, alarmada, acordo como
um rumor de guerra,
me espreguiçando pelo amanhecer,
indesejado e ignorado.

Awaking in New York

Curtains forcing their will
against the wind,
children sleep,
exchanging dreams with
seraphim. The city
drags itself awake on
subway straps; and
I, an alarm, awake as
a rumor of war,
lie stretching into dawn,
unasked and unheeded.

§

Por que eles estão felizes?

Arreganhe seus dentes, maldito seja,
agite seus ouvidos,
sorria enquanto os anos
correm
do seu rosto.

Levante as bochechas, garoto negro,
enrugue seu nariz,
sorria enquanto os seus dedos
cavam
o seu túmulo.

Revire esses olhos grandes, garota negra,
emborrache seus joelhos,
sorria quando as árvores
se curvarem
com seus parentes.

Why are they happy people?

Skin back your teeth, damn you,
wiggle your ears,
laugh while the years
race
down your face.

Pull up your cheeks, black boy,
wrinkle your nose,
grin as your toes
spade
up your grave.

Roll those big eyes, black gal,
rubber your knees,
smile when the trees
bend
with your kin.

* * *

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação, em 2020, na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

Padrão
poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

yusef-komunyadaa-866

Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

Padrão
poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa

Dirceu Villa (1975, São Paulo) é autor de 5 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003, prêmio Nascente), Icterofagia (Hedra, 2008, ProAC), Transformador (Demônio Negro, antologia, 2014), speechless tribes: três séries de poemas incompreensíveis (Corsário-Satã, 2018) e um inédito, couraça (Laranja Original, no prelo). Traduziu Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra, 2009), Lustra, de Ezra Pound (Demônio Negro, 2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (Dobra Editorial, 2015). É professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária).

* * *

a mãe do nosso açougueiro

suas mãos vieram antes. adiante, os dedos graxos
se moviam como se neles prendesse mesmo o ar.
sorrimos, brincamos, porque é uma causa infinita,
essa de compor um anjo. para esta mãe. esta das

horas de não e de ternura, e aparar tudo que esmaga:
migalhas junto dos lábios, dentes que maltratam.
seu sorriso nos mordia, mascava o mundo como
uma goma, de mandíbula feliz, e mãos tão firmes:

ele agarrava duro as contas sibilantes do chocalho,
seus punhos se fechavam no cercado do andador,
ele fatiava os ovos brancos amando o fio da faca.
mas que gosto ao ver a massa mole que a gema

alaranjava no prato pegajosa, aderência doce que
não pouco se parece com a do sangue, enamorado.
as horas de cortar, suas favoritas. nosso anjo, nosso
gabriel, nosso jorge: a espada é a força, o nosso rito.

§

cada flor uma ferida

chapéu de couro ou cocar, auréola de raios do livro
sem autor, mas o deus sol da maligna terra sem mal;
grota de angicos, gruta de cabeças cortadas, onde os
chapéus riem com dentes de fera, e mordem o cano

do fuzil mauser, estrela e costura dos olhos cerrados;
sob a igreja nova, as ruínas do anti-estado e a cabeça
arrancada, de loucura e demência e fanatismo, ordens
diretas de cães que andam em cima e cheiram em círculo

os rabos. mas rever junto à margem a forma caminhante
da natureza aberta aos pedidos cantados, com sopro de
fumo, com som enfeitado: cabeças brotam do chão em
olhos abertos de vida, que cada flor nos custa uma ferida.

§

guerra cultural

na cabeça dos godos [diz cesareia], estátuas de mármore:
o fauno adormecido nem acorda eclodindo projétil nos
chifres do elmo. endormi [diz bouchardon] ao copiá-lo res-
taurado para antes de ser gliptobomba, ou o que sabemos:

um item novo no que asnos chamam [guerra cultural]? o
fauno voador do mausoléu de adriano entraria enfim na
testa dura dos godos da barbárie. entraria após, com seu
pênis, na doce porcelana em nymphenburg, sem ironia,

[nymphenburg]. o corpo antes grego, que copiam romanos
e redescobre barberini, segue após aos alemães, virtude de
mostruário, raça superior, ignorando o fato de que o fauno,
enfim, não é humano, e a estátua tinha mira nos seus cornos.

§

jargão de pia e barril [ii]

fala também a água de fogo, chamam cachaça,
que banha a carne do cachaço de doçura, eis
a chama de sua língua ardente, escuma da cana
fervente como céu de nuvens que se dissipam

por clareza, translúcido líquido dessa prata veloz
do álcool, ou da caixa sonora do carvalho velho,
senhor ouro que tinge sua voz de saibro, sério o
cenho de seu matiz, mas doce fermento de força

muscular escondida na senzala de onde tentam-na,
nova nobre mentida, mas rememorada em insultos
de reduzir pobre e pinguço, cachaceiro e nordestino,
travo de trabalhador: seu indomável elogio, cachaça.

Padrão
sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Laura Accerboni, por Prisca Agustoni

Laura Accerboni nasceu em Gênova em 1985. Formada em Letras Modernas, viveu em Lugano (Suíça) onde conseguiu o Master em Literatura Italiana (USI). Atualmente vive em Genebra. Tem poemas publicados em inúmeras revistas italianas e internacionais (Nuova Corrente, Italian Poetry Rewiew, Gradiva, Poesia, Lo Specchio, Steve, Capoverso, Loch Raven Rewiew). Em 2010 publicou seu primeiro livro, Attorno a ciò che non è stato (Edizioni del Leone, Prêmio Marazza Opera Prima, 2012). Em 2015 publicou La parte dell’annegato, uma versão e-book pela editora Nottetempo. Está no prelo com a editora Einaudi de Turim sua próxima coletânea de poemas, Acqua acqua fuoco.
Seus poemas foram traduzidos para o alemão, o francês, o inglês, o armênio o e romeno. Accerboni realizou leituras em numerosos festivais literários internacionais.

Prisca Agustoni

* * *

De La parte dell’annegato, Ed. Nottetempo

1.
L’ospedale
è popolato da pesci.
E non si respira.
Pare che l’ossigeno
qualcuno lo paghi
per morire più sereno
e non pensare.
Non pensare
alle enormi vasche
dove ti gettano.
E che non c’è acqua
non lo capisci subito.
Solo quando
le braccia tirano
e la trasformazione in branchie
è già avvenuta.
Rivoglio i miei polmoni
qualcuno urla
altri più tranquilli
smettono di tremare.


1.
O hospital
é povoado por peixes.
E não se respira.
Parece que alguém
paga o oxigênio
para morrer mais sereno
e para não pensar.
Não pensar nas banheiras enormes
onde te jogam.
Você não entende logo
que não tem água.
Somente quando
os braços puxam
e a transformação em guelras
já aconteceu.
Quero meus pulmões de volta
grita alguém
outros mais tranquilos
param de tremer.

§

2.
Ho pensato
non fosse giusto
per i pesci
abitare corpi
per smaltirli
più in fretta
quando l’uomo
li rilascia sul fondo
per non farsi trovare
magari uniti al cemento
i piedi
e corde
e un sacchetto
sulla testa.
Questo a un pesce
non si dovrebbe fare:
costringerlo
a nuotare tra le vene
e obbligarlo a imparare
la geografia polmonare
di altre specie.


2.
Pensei
não está certo
que os peixes
habitem corpos
para escoá-los
mais rápido
quando o homem
os solta no fundo
para não serem descobertos
talvez colados ao concreto
os pés
e cordas
e uma sacola
na cabeça.
Não se deveria fazer
isso com um peixe:
forçá-lo
a nadar entre as veias
e obrigá-lo a aprender
a geografia pulmonar
de outras espécies.

§

3.
Mi sono riempita
una guancia sola
per assomigliare di più
al cadavere che sarò.
E mi farò tirare la pelle
e sarò tossica.
Ingiustamente
guardata come viva
non sanno
che già mi ritiro dentro:
tra gli organi interni
un’intera casa delle bambole
e qualche sigaretta di troppo.


3.
Preenchi
somente uma bochecha
para ser mais semelhante
ao cadáver que serei.
Farei com que puxem minha pele
e serei tóxica.
Injustamente
observada como viva
não sabem
que dentro já estou me encolhendo:
entre os órgãos internos
uma inteira casa de bonecas
e algum cigarro a mais.

Padrão
poesia, sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Laura di Corcia (1982—), por Prisca Agustoni

Laura Di Corcia, nasceu em Mendrisio, Suíça, em 1982, formou-se em Letras Modernas em Milão. Poeta, jornalista cultural, professora e ensaísta. Organizou a biografia de Giancarlo Majorino, Vita quasi vera di Giancarlo Majorino (La vita felice, 2014). É de 2015 sua estréia como poeta, Epica dello spreco, pela editora Dot.com Press. Os poemas aqui traduzidos foram extraídos da sua segunda publicação, In tutte le direzioni (2018, Lietocolle, Gialla), apresentado ao Festival de PordenoneLegge. O livro foi finalista do Prêmio Maconi e do Prêmio Fogazzaro.

Prisca Agustoni

* * *

1.

Violavano la notte, custodivano
nelle mani chiare
perle come bombe.

Quelli occhi trasparenti avrebbero mai potuto
celebrare il mistero della morte?
pensavano le donne, di fronte lo specchio.

Li uccisero senza fremere
le loro dita erano bianchissime.

In fila indiana no si voltarono
avevano fatto il loro lavoro
il mondo era um mantello sbiadito.


1.

Violavam a noite, guardavam
nas mãos claras
pérolas como bombas.

Aqueles olhos transparentes poderiam
celebrar o mistério da morte?
pensavam as mulheres, diante do espelho.

Foram mortos sem tremer
seus dedos eram muito brancos.

Em fila indiana não se viraram
tinham realizado seu trabalho
o mundo era um manto apagado.

§

2.

Tradurre è gettare la schiena sui sassi
guardare l’orologio compiere un giro su se stesso.

Portavamo bestiami dalle montagne alle pianure
le rocce profumavano di salvia.

È stato um grido a squarciare l’ipocrisia
a trasformare il nettare in cinghiale.

Abandonammo il campo con la pioggia:
rimasero le mucche, a testimoniare l’erba.


2.

Traduzir é jogar as costas sobre as pedras
ver o relógio dar uma volta sobre si mesmo.

Levávamos o gado das montanhas para a planície
a rocha perfumava a sálvia.

Foi um grito que rasgou a hipocrisia
que transformou o néctar em javali.

Abandonamos os campos com a chuva:
ficaram as vacas, testemunhando a grama.

§

3.

Abbiamo eretto barriere, steccati
nelle nostre menti, ma è bastato sfiorarsi
perché tutto tacitassero le mani, dapprima,
poi le braccia e anche le spalle.

La mente costruisce cumuli di cose,
montagne di mattoni, iati, i corpi,
invece, tendono alla caduta, sprofondano
nell’energia dell’atomo, si arrendono
alla discesa e annichiliscono il piombo.

Non so se hai capito con che disperazione
mi sono aggrappata al tuo collo,
annullando tutto ciò che non era presente.


3.

Erguemos barreiras, cercas
em nossas mentes, mas foi suficiente roçar-se
para que tudo silenciassem, primeiro as mãos,
logo os braços e as costas também.

A mente constrói cúmulos de coisas,
montanhas de tijolos, hiatos, os corpos,
no entanto, tendem à queda, mergulham
na energia do átomo, se rendem
à descida e aniquilam o chumbo.

Não sei se você entendeu com que desespero
me agarrei a seu pescoço,
anulando tudo o que não estava presente.

* * *

Prisca Agustoni nasceu na Suíça italiana, viveu muitos anos em Genebra e desde 2003 vive entre a Suíça e o Brasil, onde leciona literatura italiana e comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora e onde trabalha também como tradutora.  Poeta, escreve e se auto traduz em italiano, francês e português. Colabora com o jornal italiano IL SOLE 24 ore, com resenhas de literatura, e também com alguns festivais literários suíços. Como tradutora recebeu apoio da Pro Helvetia para traduzir em português uma antologia do poeta suíço-italiano Fabio Pusterla (Macondo, 2017) e está com outros projetos de tradução em curso.

Padrão
poesia

Quatro poemas inéditos de Marcelo Ariel

Marcelo Ariel (1968, Santos-SP) é poeta, crítico e performer. Autor de ME ENTERREM COM A MINHA AR 15 (Dulcineia Catadora, 2003), TRATADO  DOS ANJOS AFOGADOS (Letra Selvagem, 2007) entre outros. Seu livro mais recente OU O SILÊNCIO CONTÍNUO — POESIA REUNIDA 2007-2019, lançado pela Kotter em 2019, contém trinta anos de sua produção poética. Atuou como ator-roteirista no filme PÁSSARO TRANSPARENTE, de Dellani Lima, e gravou o disco de spoken word SCHERZO RAJADA CONTRA O NAZISMO PSÍQUICO em 2012. Atualmente coordena cursos de criação literária em São Paulo. 

* * *

1.

Evandro Carlos Jardim

A razão de ser da linha
está em cada um de nós

A linha não existe
sem uma direção

seu destino
é sempre o objeto

o objeto é sua razão

A linha não nos engana
como a harmonia que
discernível na forma
se esconde
na construção

do desenho
que somos
existindo com
o mundo
como a eternidade
existe em um segundo.

2.

Carl Sagan visita o túmulo de Emilly Bronte

Os deuses são alegorias do humano
Os humanos caricaturas impotentes dos deuses

Haverá em outro século a consciência que nos livrará deste senso comum sem espaço comum
das grandes cidades, dos deuses, do Deus

E se as ideias que criamos do amor
se revelarem insuficientes para amar a existência ?

Amantes tentarão em vão fugir do tempo
em que estão para dissolver os sonhos
no desejo invencível de uma realidade

onde será nítida a proximidade
entre o movimento da espuma e o das explosões solares

entre as estrelas cadentes e os olhos fechados
durante o beijo

3.

Desde que você a veja

As crianças não foram iluminadas o suficiente
há um momento em que a possessão por si mesmas impediu isso

Estamos mais próximos dos cães
que dos leões

Os loucos são
faróis acesos no fundo
de abismos oceânicos

As crianças podem nos ensinar como

Anjos se fossem visíveis
iriam nos aterrorizar
por anos

Crianças e loucos
saem da mente
inicial para o outra
entre a água e o animal
para que Santos e santas encontrem
um sentido para a noção de eu
escoar falsamente
pelo ralo da não- mente

As crianças que um dia foram apenas vontade
se comunicando diretamente com o ato e depois gestos desvinculados da vontade
caindo através dos fatos
que dizem sem palavras
tudo o que existe depois da palavra você
é você

quem diria que
no sorriso louco das crianças
o animal e o anjo

ainda
desamparadamente humanos
nos olhassem tão de frente
de abismos tão rasos

Este poema já acabou três vezes
disse a infância para si mesma

e permanece
desde que você a veja

4.

Espinosa para crianças

Não sei dizer onde termina
o meu corpo
e começa a água

disse a água viva
para a estrela do mar

e eu não sei dizer
como estou parada e em movimento

disse a estrela do mar
para o Coral

nós somos a água
disse a água
para a Estrela cadente

que havia caído
no mar

Quando eu era
o céu
negro
antes
de ser
o céu
azul
antes
de ser
este céu
transparente
eu
era
você

Padrão