poesia, tradução

Miriam Adelman

miriam and apollo (1 de 1)

Miriam e Apollo

Miriam Adelman nasceu, em 1955, em Milwaukee, Wisconsin (EUA). Aos 19 anos, encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em Sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, desde 1991, onde é professora da UFPR. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas, multilíngue, Found in translation, encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2020, pela nosotros, editorial. Seguem alguns poemas desta publicação, em autotradução.

*

lost in translation

not really a poet
this girl
caught
between languages
and  caught
                    também
in a speeding car
winding down
every now
and then
for a closer take
on the landscape.

what a life loses
or gains
in translation,

that
is
the
question…

lost in translation

pas vraiment une poète,
cette fille
prise
entre des langues
et prise
    também
dans une voiture
qui roule trop vite
qui ralentit

de temps

en temps,
pour qu’elle puisse capturer
un peu de paysage.

Ce que la vie perd

ou gagne
en traduction,

voilà
la
question …

lost in translation

não é realmente poeta
esta moça
    presa
entre línguas
 e presa
       as well
num veículo em alta velocidade
que apenas desacelera
     de tempos
          em tempos
para facilitar a vista da
paisagem. 

O que uma vida perde
     ou ganha
   na tradução,            

    eis
       a questão…

§

war stories

 The daily underside of war slips away.
There were those who heard nothing, not even the distant
howl of wolves when their woods went up in smoke and skin
and those who missed not even the shy boys, the ones who
were dragged away, nor the rowdy who wanted to
flee when word turned to act.  In some villages
there were those who held out in the commonplace –
the card game at the tavern, the habitual visit to the
dressmaker,  reminded of dance halls or debutant daughters.
There were, like there always are, those who stashed away
tidbits of food, or those who picked the last apples nestled in branches,
then slipped away from the fields, handing the thin slices out
to the children hiding in the grass near the train tracks.
We will never know the exact numbers:  those left hidden
in attics or wine cellars, or on some tumultuous night
or in some heart that fled into madness. The stories  they told
were constantly changing:  in the sunshine, under the moon
or when the rain washed away some of the blood,
vestiges, ashes. The bones however remained a bit longer,
slowly bleaching  in ever-returning summer. And the names
and departures we cannot ascertain. We know only
that the most urgent lessons are the ones never learned.  Easier it is
to feed our little ghouls from our hands, hover over the last of
the crumbs, tie dirty rags around mouths full of words,
nurture slowly but surely a wretched imagination
unable to remember, unable to forget.

histórias de guerra

A história cotidiana da guerra se esfuma.
Há quem não escutou nem o uivo longínquo dos lobos
quando seu bosque virou todo fumaça e pele humana.
Há quem não sentiu a falta dos rapazes tímidos, dos arrastados
ou mesmo dos brabos, esses que se arrependeram quando passou-se
de palavra ao fato. Em certas cidades, havia quem se dedicasse
ao corriqueiro: ao jogo de baralho na cantina do bairro ou à visita
costumeira à costureira, pensando ainda no baile ou nas filhas debutantes.
Havia, como sempre, quem escondia o escasso alimento
assim como aqueles que repartiam o último pão ou colhiam
as maçãs ainda aninhadas  nos galhos e saíam pelos campos
distribuindo as fatias magras entre as crianças escondidas no
capim ao lado dos trilhos. Nunca saberemos exatamente quantos:
os  perseguidos escondidos no porão ou na cava
numa noite rebelde, ou num coração refugiado na loucura.
Sempre contavam versões que mudavam: com o sol, a lua,
com a chuva que limpava um pouco do sangue,
dos restos humanos, das cinzas. Os ossos ficam,
embranquecendo uns tempos sob um verão que sempre volta,
e nunca saberemos os nomes, as partidas – somente
que as lições mais urgentes nunca se aprendem. Mais fácil é
alimentar os pequenos monstros, vigiar as últimas migalhas,
amarrar o pano na boca das palavras, cultivar – aos poucos – apenas uma
aleijada imaginação, que não consegue nem lembrar
nem esquecer.

§

This is not a love poem

Hey babe, just in case you haven’t noticed
we are not nor have we ever been in
Hollywood.  There are girls out there for you, a plethora
though  not one with Angelina’s eyes and mouth, Raquel´s
bra-size and a roll of witty comments all written
into the script. No one out there for me
as sleek and daring and charming as Johnny, and of course,
no endings with that perfect closure  of babies
and no-place-like -home.
Around here things are looking more like a freak show
these days, the littered carnival grounds where –
after hours – a few desperate creatures come scampering
in to scavenge,  or like many unedited hours of footage,
and when the lights go on or when the sun comes up &
i am here alone with my headache and you,
across town, with your change strewn
across the floor to remind how much you spent
last night, looking for happiness or at least
a few tired moments of pleasure.

Hey babe, this is just the first cold winter of a
new millennium where we can still sit in warm cafés and read
the newspaper and argue about the worth of our words. Put your
pen to the paper. Love your daughter. Open your heart and
this time, don’t be late: next train to paradise, quarter past twelve.

 

Este não é um poema de amor

 Ei, meu anjo, caso você não tenha percebido
não estamos, nunca estivemos em
Hollywood. Há muitas garotas aí pra você, verdadeira riqueza
mas nenhuma tal qual suas estrelas prediletas, os olhos de Angelina,
o busto da Raquel e esse monte de falas espirituosas formando parte
no roteiro.
Nem tem ninguém para mim assim elegante e ousado
Nem desfecho perfeito de bebês, doce lar.
Por aqui as coisas são mais parecidas
com um show de horrores ou com o final do circo
– criaturas desesperadas para recolher os dejetos –
ou como muitas horas de filmagem
sem editar e quando as luzes acendem ou o sol nasce,
tô aqui sozinha com minha dor de cabeça e você,
do outro lado da cidade, com suas moedas espalhadas
pelo chão para se lembrar do quanto
gastou ontem à noite, em busca de felicidade
ou de alguns momentos fatigados de prazer. 

Ei, meu anjo, este é apenas o primeiro inverno frio do
novo milênio e ainda podemos nos sentar em cafés quentes,
lendo jornal e discutindo o valor das palavras.
Coloque seu lápis no papel. Ame sua filha.
Abra seu coração e desta vez, não se atrase:
próximo trem ao paraíso, às doze e quinze.

§

A matter of water

We were all glad when
the rain came. Not quite
the violent tide, but some
remnant of the sea
for this hot interior. Days of
breathing in a useless earth.
And then the water, in one
sudden flood, enough
at least to overflow the river,
crack the old bridge in two,
push the floating debris down
a few miles:  a doll without arms,
plethora of plastics, spineless
bed frame. Water was once

the least of our worries.
Now you see, things are
simpler: a matter of breath,
of liquids, or where you can
place a hand, put down
a foot.

 

Questão de água

Tão felizes ficamos quando chegou
a chuva. Não exatamente a maré
copiosa, mas bem um vestígio de
mar para este interior quente. Dias
de respirar uma terra inútil. Até
vir a água, enchente abrupta,
suficiente, então, para transbordar
o rio,  partir a velha ponte em
duas, empurrar detritos flutuantes
corrente abaixo: uma boneca sem braços,
infindáveis plásticos, uma armação de
cama desvertebrada. A água já foi
o que menos angustiava. Agora, você
vê, tudo se tornou tão simples: é
questão de ar, de líquidos ou de um
lugar para colocar um pé, uma
mão.

*

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poesia latinamericana, tradução

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

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Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

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poesia norte-americana, tradução

Nikki Giovanni, por Danieli Corrêa

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Nikki Giovanni, nascida Yolande Cornelia Giovanni. Jr, em Knoxville, Tennessee em 1943, é uma grande poeta norte americana, embora pouco conhecida no Brasil. Tem uma escrita que nos soa familiar: fala sobre si, o que vive e sente, sobre suas experiências. Dentro desse espectro, aborda temas como amor, amizade, rejeição, raiva, frustração. De certa forma, organiza o que sentimos em palavras de forma natural, parecendo simples, porém com uma consistência que não tem nada de ingênua. Além de poeta, Nikki é professora, ativista e além de escreve literatura infantil e de não-ficção.

Para traduzir, passei por muitas versões de laudos e manuais para, finalmente, tentar me guiar por caminhos mais contemplativos, ainda que sem perder a firmeza. Assim como na vida, me deixei levar pela poesia buscando amaciar corações enrijecidos, além do meu próprio, e tenho prosperado. Esperando que cada pessoa, ao ler um poema, sinta o calor que dele emana em tempos cada vez mais frios.

Danieli Corrêa 

*

I would not be different

Every now and then
We all fall in love
With a totally inappropriate
Person

And I would not be different

You sort of see someone
And you don’t want to notice
That ring on his finger
Nor really that sort of happy
Look in his eyes

You do however know
Immediately
How wonderful it would be
To fall into those arms
To nuzzle the hairs
Of his underarms
To rub your cold feet
Against those thighs

You do want to know
What the water would feel like
As it caresses you two
In a rainbow shower
The soapy suds swirling around
As you kiss and kiss and kiss

You do want to know
How he takes his eggs
Whether his toast should be buttered

On both sides
If he drinks decaf or regular

But he is a totally inappropriate person
And all the world knows
This cannot work

Yet all the world would think
If they could see him
“I want to be in love with that”

And I would not be different

Comigo não seria diferente

De vez em quando
Todos nós nos apaixonamos
Por uma pessoa completamente
inapropriada

E comigo não seria diferente

Você meio que vê alguém
E não quer perceber
Aquele anel em seu dedo
Muito menos aquele olhar de felicidade
em seus olhos

Você, no entanto, sabe
Imediatamente
Como seria maravilhoso
Cair em seu braços
Acariciar os pelos
de suas axilas
Esfregar seus pés gelados
Em suas coxas

Você quer saber
Como seria sentir a água
A acariciar vocês
Em um banho de arco-íris
As bolhas de sabão borbulhando
Enquanto vocês se beijam e beijam e beijam
Você quer saber sim
Como prepara seus ovos
Se passa manteiga nas torradas

Dos dois lados
Se o café é normal ou descafeinado

Mas é uma pessoa totalmente inapropriada
E o mundo todo sabe
Que isso não pode dar certo

Mesmo assim, o mundo pensaria
Se vissem essa pessoa
“Eu quero me apaixonar”

E comigo não seria diferente

§

Bicycles

Midnight poems are bicycles
Taking us on safer journeys
Than jets
Quicker journeys
Than walking
But never as beautiful
A journey
As my back
Touching you under the quilt

Midnight poems
Sing a sweet song
Saying everything
Is all right

Everything
Is
Here for us

I reach out
To catch the laughter

The dog thinks
I need a kiss

Bicycles move
With the flow
Of the earth

Like a cloud
So quiet
In the October sky
Like licking ice cream
From a cone
Like knowing you
Will always
Be there

All day long I wait
For the sunset
The first star
The moon rise

I move
To a midnight
Poem
Called
You
Propping
Against
The dangers

Bicicletas

Poemas da madrugada são bicicletas
Nos levando a caminhos mais seguros
Do que aviões
Mais rápidas
Do que caminhar
Mas nunca um caminho
Tão bonito
Quanto as minhas costas
Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada
Cantam uma doce canção
Dizendo que
está tudo bem

Está
Tudo
aqui por nós

Me estico
Para alcançar a risada

O cachorro pensa
Preciso de um beijo

Bicicletas se movem
com a brisa
da Terra

Como uma nuvem
Tão quieta
No céu de outubro
Como lamber um sorvete
No cone
Como saber que você
Estará
Sempre lá

Espero o dia todo
Pelo pôr do sol
Pela primeira estrela
Pela lua

Me movo
Para o poema
Da madrugada
Chamado
Você
Se apoiando
Nos perigos

§

No translations

the smells of a pot roast from the oven
turnips garlic onions
potatoes celery parsnips
tomatillo yucca root

Jack Frost painting
the windows

my cold feet
your warm back
“It started in New Orleans
but now its everywhere . . .” Pure Jazz on your dial

chocolates coffee
a good red wine
18 degrees and falling
high winds
maybe a power loss

giggles laughter
sweatpants jeans

I speak to you
in the language
of love

no translations
necessary

Nenhuma tradução

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo¹ mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

§

Mercy

She asked me to kill the spider
Instead, I got the most
peaceful weapons I can find

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong place, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Misericórdia

Ela me pediu para matar a aranha
Ao invés disso, peguei as armas
mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.
Capturei a aranha, levei-a para fora
deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado
no local errado, apenas vivendo
sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida
com a mesma
misericórdia.

§

I wrote a good omelette

I wrote a good omelet… and ate
a hot poem… after loving you
Buttoned my car… and drove my
coat home… in the rain…
after loving you
I goed on red… and stopped on
green… floating somewhere in between…
being here and being there…
after loving you
I rolled my bed… turned down
my hair… slightly
confused but… I don’t care…
Laid out my teeth… and gargled my
gown… then I stood
… and laid me down…
To sleep…
after loving you

Escrevi um bom omelete

Escrevi um bom omelete e comi um poema quente…
depois de te amar
Abotoei meu carro… e dirigi meu casaco
para casa… na chuva…
depois de te amar
Segui no vermelho… e parei no verde… flutuando por aí…
aqui e ali…
depois de te amar
Enrolei minha cama… soltei meu cabelo…
um pouco confusa, mas… não me importo…
Vesti meus dentes… fiz um gargarejo na camisola…
então fiquei de pé… e me deitei…
Para dormir…
depois de te amar

§

Danieli Corrêa, tradutora e revisora de textos. Nasci, cresci e me formei no interior, moro agora em São Paulo, cidade que é um caso de amor e ódio (no meu caso, mais amor do que ódio, sempre bom dosar), trabalho regularmente como revisora em uma agência.

*

Padrão
poesia, tradução

Maria Borio, por Cláudia Tavares Alves

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Maria Borio (1985) é poeta e também editora de poesia da revista italiana Nuovi Argomenti. Seus poemas estão publicados em L’altro limite (Pordenonelegge-Lietocolle, PordenoneFaloppio, 2017) e Trasparenza(Interlinea, 2019), além de terem aparecido em diversas revistas e jornais italianos e internacionais. Publicou também o estudo Poetiche e individui: la poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio, 2017).

O poema Aquatic Centre apareceu pela primeira vez na revista online The  Los Angeles Review -, na versão original, em italiano, e na tradução para inglês, de Julia Anastasia Pelosi-Thorpe. Em nota, a tradutora explica que o título se refere ao Centro Aquático de Londres, projetado pelo Zaha Hadid Arquitetos para abrigar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos ocorridos em 2012. O título permanece, então, também em português, em referência ao lugar que parece ser desenhado pelos versos de Maria Borio. As linhas e curvas desse edifício, em que a luz incide por todos os lados, projetam uma imagem, um encontro possível entre o céu e a água. Pelo “fenômeno do olhar”, a poesia parece também incidir: nas estruturas de ferro, no concreto, nos vidros.

Cláudia Tavares Alves

 

london aquatic centre

London Aquatics Centre – ©DomePhotography 2018


Aquatic Centre 
 

Stesa sul letto a volte vedi forme,
curve che entrano e spirali che evadono.
Gli organi trasparenti in alto si aprono
e diventano una linea morbida che insegue se stessa,
pulisce il respiro dai colori scuri – il colore del sangue,
o quello denso della carne dove nascono le api.

Nulla si rigenera, ma è prolungato, infinito
nella linea che pulisce gli oggetti e fa cose
per pensare, per abitare: un grande uovo, ad esempio,
si spacca senza perdere liquido e bianchissimo invade
gli angoli del soffitto, apre un arco, una porta
tra i continenti.

Tra il cielo e l’acqua questo edificio
splende in una luce illimitata:
puoi aprirlo, aprirti
a una lingua di toni aspri,
tornare nel suono rotondo di un’altra
riprendendo quei toni come finestre sul mare
o il ponte sospeso per il parco
dove le persone stese sull’erba sono api
e il calore al sole sembra impedire la morte
anche se tra anni, milioni, un giorno
esplodendo.

Segui poi altre linee, quelle della specie,
forse come sapere che nascere
non sarà più violenza, ma fenomeno di sguardo,
e dal letto lasci il sesso arrampicarsi
attorno ai contorni di questo edificio
nel suo bianco sotto raggi tempesta,
la stella nell’attimo prima
di esplodere.

La vita è ovunque, in una linea curva
ognuno abita come pensare.
Le api ora lasciano la mia bocca perché le penso.

Aquatic Centre

Deitada na cama, às vezes vê formas,
curvas que entram e espirais que escapam.
Órgãos transparentes no alto se abrem
e se transformam em uma linha suave que persegue a si mesma,
limpa o respiro das cores escuras – a cor do sangue,
ou a densa cor da carne onde nascem as abelhas.

Nada se regenera, mas é prolongado, infinito
na linha que limpa os objetos e faz coisas
para pensar, para morar: um grande ovo, por exemplo,
se rompe sem perder o líquido e branquíssimo invade
os ângulos do teto, abre um arco, uma porta
entre continentes.

Entre o céu e a água este edifício
brilha numa luz ilimitada:
pode abri-lo, abrir-te
a uma língua de tons ásperos,
retornar ao som redondo de uma outra
retomando aqueles tons como janelas sobre o mar
ou a ponte suspensa para o parque
onde as pessoas deitadas sobre a grama são abelhas
e o calor ao sol parece impedir a morte
mesmo que em anos, milhões, algum dia
explodindo.

Segue então outras linhas, aquelas da espécie,
talvez como saber que nascer
não será mais violência, mas fenômeno do olhar,
e da cama deixa o sexo escalar
em torno dos contornos deste edifício
em seu branco sob raios tempestade,
a estrela no instante antes
de explodir.

A vida está em todo lugar, em uma linha curva
alguém mora como pensar.
As abelhas enfim deixam a minha boca porque as penso.

§

Cláudia Tavares Alves (1988) é professora de literatura. Também pesquisa e traduz literatura italiana, além de contribuir com os blogs Marca Páginas, Ponto Virgulina e Literatura Italiana Traduzida no Brasil. Atualmente, trabalha na tradução de Le mie poesie non cambieranno il mondo, da poeta Patrizia Cavalli, para as Edições Jabuticaba.

*

Padrão
poesia, tradução

Max Hölzer (1915 – 1984), por Natan Schäfer

© Rimbaud Verlag

Max Hölzer (1915 – 1984) nasceu em Graz (Áustria). Formado em Direito, foi leitor e tradutor em diversas editoras alemãs. Juntamente com Edgar Jené (sobre quem Paul Celan publica em 1948 o ensaio “O sonhos dos sonhos”, em alemão “Der Traum von Träume”), de 1950 a 1952 editou a revista Surrealistischen Publikationen, onde publica pela primeira vez após a Segunda Guerra traduções de Breton, Péret, Lautréamont dentre outros. Dono de uma obra esparsa apenas reunida e reeditada pela Rimbaud Verlag a partir de 1989, Hölzer e sua obra são muitos importantes para a compreensão dos acidentados meandros dos vasos comunicantes surrealistas nos territórios de língua alemã que, ao contrário do que muitos insistem em repetir, não foi uma Batalha de Itararé, ou seja, está longe de não ter sido. Além disso sua obra, que se constitui paralelamente à reconstrução destes países, amplia a discussão da Imagem e do pensamento analógico e simbólico nesses mesmos territórios e além, acenando para a possibilidade de ascendência após um período de lama.

Apresento aqui uma trinca de poemas em prosa do livro Gênese de uma constelação (na edição da Rimbaud Verlag acompanhado por obras do pintor K.O. Götz), profundamente marcados pelo ditado do desejo em íntima relação com o mundo visto e vivido. Os textos foram tirados de Entstehung eines Sternbilds. Surrealistische Prosa. Stierstadt im Taunus: Eremiten Presse, 1958. 2ª ed. Aachen: Rimbaud Verlag, 1992.

Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pelo espaço aberto.

Boas jornadas!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

 

“Lilli-De” III, 1992, 70 X 100 cm. Guache sobre papel cartão. K.O. Götz.

I – Gênese de uma constelação

O touro estica o focinho mas não emite ruído algum. Movimenta-se na sua própria noite ao longo da praia, de pé nas patas traseiras. As órbitas de seus olhos cheias de areia. Na sua testa, entre os chifres, um estoque de ondas e nuvens. A menina que vai à sua frente tem penas de pombos na cintura. Nenhum passo é capaz de soltar as pontas dos dedos das garras com as quais ela conduz o touro. Talvez jamais tenha sido dia. Uma explosão inaudível faz o mar e a praia naufragarem. Mas eles não tropeçam. A menina dança o touro ofuscado em seu peito. Ele penteia seu coração.

I – Entstehung eines Sternbilds

Der Stier reckt das Maul, aber kein Laut dringt hervor. Er bewegt sich in der eigenen Nacht, aufrecht auf den Hinterbeinen, den Strand entlang. Seine Augenhöhlen füllt Sand. Auf seiner Stirn, zwischen den Hörnern, ist ein Vorrat von Wellen und Wolken. Das Mädchen, das vorangeht, hat Taubengefieder um die Hüften. Kein Schritt löst die Fingerspitzen von den Klauen, an denen sie den Stier führt. Vielleicht ist es nie Tag gewesen. Eine unhörbare Explosion läßt Meer und Strand versinken. Aber sie straucheln nicht. Das Mädchen tanzt dem geblendeten Stier durch die Brust. Er kämmt ihr Herz.

§

II – Babilônia

O céu azul está cheio de açúcar empacotado. As pessoas fazem compras sem deixar rastros, como nenhum selvagem jamais o fez. Sobre trilhos. Lá vai uma que teve as orelhas entupidas por assobios. O relógio lhe espreme a boca para fazê-la calar. Não é como num balneário. A passagem é uma pedra que fica pesada em sua cama. No horizonte rodopia um pouco de poeira, ao qual se dirige o primeiro suspiro da amada. Uma nuvem se estende de uma margem à outra do céu. Guerra e paz, verrugas e riachos. Ele não se deixa mais invadir pela sanguinolenta ameaça. O próximo trem lhe atropela; ele mesmo não terá notado. Trânsito dominical. A confusão de línguas salvou seus cristais na caixa de fumaça da locomotiva, sobre as confortáveis salas de espera que mentem.

II – Babylon

Der blaue Himmel ist voll gewogenen Zuckers. Man kauft ein, spurlos wie ein Wild. Auf Schienen. Da ist einer, der den Pfiffen sein Ohr verstopft. Die Uhr preßt er auf den Mund, um sie zum Schweigen zu bringen. Ist es nicht wie ein Badeort. Die Fahrkarte ist ein Stein, der sich schwer macht in seinem Bett. Am Horizont wirbelt ein wenig Staub, der erste Atemzug der Geliebten, der ihm gilt. Eine Wolke hängt von Rand zu Rand des Himmels. Krieg und Frieden, Warzen und Rinnsale. Er läßt sich die blutige Drohung nicht mehr einfallen. Der nächste Zug überfährt ihn; er wird es selbst nicht bemerkt haben. Sonntagsverkehr. Die Sprachverwirrung hat ihre Kristalle in Rauchkammern gerettet, über den komfortablen Wartehallen, die lügen.

§

III – Bem e mal

O Elba faiscando sob obscuras nuvens ensolaradas. Guindastes aracnídeos pendem flácidos no ar. O cansaço cobrindo um poema desumano me puxa para a água. Mergulho com a força de uma hélice. O bizarro branco dos barcos se espalha pelas paredes do ancoradouro congelado. Chaminés listradas de preto, verdes e dourado. Os golpes das sirenas, o caos das antenas, vergas, enxárcias e mastros, dolfins e boias erguendo-se das águas, como um carimbo alcatroado voando em círculos: caligrafia da vida que divido a ferro afiado como se fosse um poleame incandescente. Paus de carga abertos em ângulo obtuso e o dedo cinabre dum gigante distante nas brumas portuárias em fuga ascendente. As quilhas tortas para o lado, para baixo e as paredes fuliginosas ou enferrujadas, recuando inagarráveis. Mergulho acariciado por rítmicas medusas dançantes e florescentes, conchas abrem seus colos de madrepérola e enquanto vou perdendo a consciência devagar guindastes e arames se enrijecem apontando para cima e aproxima-se, quase flutuando sobre o seio das águas profundamente crispado e rasgado, uma encosta de esmeralda, nua — vítreo barco a vapor do prazer.

III – Gut und Böse

Die Elbe liegt funkelnd unter düsterer Sonnenwolke. Spinnenkrane hängen schlaff in der Luft. Überdruß, der ein unmenschliches Gedicht verhüllt, zieht mich ans Wasser. Ich tauche mit der Kraft einer Schiffs-Schraube. Das bizarre Weiß der Schiffe, gebänderte Schlote, der Rauch und aufgeregte Sirenenstöße, die geometrische Wirrsal der Atennen, Rahen, Stage und Maste, aus dem Wasser ragend die Dalben und Bojen, wie Stempel geteert und umflogen: Schrift des Lebens, das ich wie einen heißen Block mit Eisesschärfe spaltete. Ladebäume, breitwinklig gespreitzt, und fern im Hafendunst der zinnoberrote Finger eines Riesen fliehen nach oben. Zu Seiten gebogene Kiele, abwärts, und rußschwarze oder rostige Wände, zurückweichend, grifflos. Ich tauche, von rhythmisch tanzenden und erblühenden Medusen gestreift, Muscheln öffnen ihren Perlmuttschoß, und während ich langsam das Bewußtsein verliere, steifen sich oben Krane und Drähte und es nähert sich, fast schwebend über der tiefgefurchten, aufgerissenen Wasserbrust, die Smaragdhänge entblößt, der Lustdampfer aus Glas.

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Poesia Brasileira Contemporânea

Lino Machado

Filho de pais portugueses, Lino Machado nasceu no ano de 1957 no Rio de Janeiro, Brasil. Desde 1993 trabalha na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lecionando no Departamento de Línguas e Letras, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN).
Possui graduação em Português Literaturas (1979), mestrado em Literatura Portuguesa (1988) e doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996).
Tem experiência na área de Letras (Pós-graduação inclusive), atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura Portuguesa, filosofia e semiótica de Charles Sanders Peirce, intersemiose, diálogo literatura-artes visuais, intertextualidade, filosofia da ciência.
Além de artigos vários, publicou os livros As palavras e as cores, sobre Carlos de Oliveira (1999), Sob uma capa (2010), Entre dois vetores (2014) e Viés-cegueira (2020) – este três últimos, volumes de poesia.
De 01 de Agosto de 2014 a 31 de Julho de 2015 efetuou um Pós-Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Geras (PUC-MG), sob a orientação do Prof. Dr. Júlio Pinto, um dos grandes conhecedores de semiótica peirciano no Brasil. De tal Pós-Doutorado resultou o extenso trabalho Trimedi(a)ções: Peirce, física quântica, literatura. Embora uma aproximação entre o criador do pragmatismo e a mecânica dos quanta possa parecer inusitada à primeira vista, ela vem sendo apontada desde, ao menos, 1958 (inclusive por pensadores do calibre de Karl Popper), ainda que sem um maior aprofundamento de tal paralelo, tentado, precisamente, no Pós-Doutorado em questão.
Aposentou-se como Professar Titular na Ufes. Email para contato: linomachado36@yahoo.com

* * *

O que parece

Estou num ponto de ônibus
………..ou da vida
esperando o próximo
………..………..………..oxigênio passar.

Exagero, claro,
como quem aguarda o terremoto
que faça em fran
galhos
aquele formigueiro
no quadrado de grama da calçada.

Não porque deteste as formigas
ou a calçada
com todo o resto,
mas pelo fato estranho
de que, mesmo com recursos
escassos, este mundo urbano
e zoológico
é sempre de um excesso
formidável.

§

Aceita o conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Fernando Pessoa

Constrói muros assim
contra todos os ventos e contatos.
Tenta depois morar
no interior deles ………..egoísta da vida
evitando contatos
não se esquecendo de estar
sob um ótimo teto
contra todas as estrelas,
contatos e ventos.

Ergue muros altos do tipo,
sonhando não ser mais esmurrado
pelo mundo
que teima em bater às nossas portas.
Sim, senhor, teme
este mundo deveras teimoso,
mas também às vezes trêmulo
com os seus próprios terremotos,
os tsunamis e o resto
que se agite de um modo ou de outro.

Põe de pé uns muros dessa espécie
e espera que ninguém
da tua, da nosso espécie
queira atuar
no interior deles ferozmente,
nos canteiros do jardim,
mesmo que eles só existam
na imaginação,
com flores e ervas que sejam figuras
plantadas nuns chãos de neurônios.

Levanta muros do tipo
sem mais demora
diante de mansões, apartamentos, barracos,
gostem ao não
expostos a ventos, contatos,
com sorte
contando com boas redes de esgotos.
Apenas lamenta um item
mais do que chato,
apto a provocar um curto-circuito
nos nervos:
este ou aquele vírus
que volta e meia não é parado por muros,
Troias vencidas sem cavalos.

Lamenta ainda:
vírus
que são um detalhe entre vários
num planeta (não reclame)
de fato bilionário deles,
se não triou de maiores valores
na vida
com suas bolsas e campeonatos.

Sem dúvida, amigo,
lidamos com altos, médios, baixos,
fazendo apostas
entre astros e abismos,
alegrias e pandemônios.

Naves, navios, barquinhos
(mesmo os de papel)
não naufraguem agora!

 

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Poesia Brasileira Contemporânea

Sheila Dálio

Sheila Dálio (1983) é mestranda em teoria literária pela UNESP, em Assis, SP. Nasceu em São Manuel, interior de São Paulo. Atualmente está entre os alguns que se agarram à poesia como uma tábua de salvação. 

* * *

I – Gesto

de cócoras sobre a carniça não pensava,
comia. Vejo de juntar em minhas mãos.
Esculpir essa carne de minha carne;
torço retorcido com o rosto de
Caim.

§

II – Marabu

A máscara de flandres veio caminhando
para grudar-se em minha boca.
Olho aos céus e vejo Marabu:
Grande. Feia. Magra.
Fomos nós que apressamos a noite?
Foram Eles?
Contaram-me os mistérios dolorosos: Deus, pendurado num arame,
retira o ar soprado em mim.

§

III – Máquina de costura

Percorre um vazio
entre a linha e a agulha
nele tuas angústias
passavam como gafanhotos
em delírios envoltos. Ossatura.
Ao corpo da máquina
tão perto teu rosto.
Costura,
costura,
costura
[o tecido, as veias, o sangue]
impossível mudar
tua desventura.
Na membrana das linhas
arruinadas – o corte.
Ao lado esquerdo, o vestido:
preto
três botõezinhos
e o ar que me entope.

§

IV – Mangue

escuta o som das saias
no mangue de Recife
as marcas quentes na areia
nas suspensas
ondas do seu ventre
escuta
a esquecida velha
acenando ao mar
a lágrima
caída
na concha apodrecida
escuta
(um barco chegou)
cinco homens
cinco redes
cinco anzóis
cinco furos
cinco mulheres
escuta
depois do último
cataclisma
o silêncio das saias
balançando no mangue
quente do seu ventre

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poesia

Renato Mazzini (1981—)

Renato Mazzini (1981) nasceu, vive e escreve em Santa Fé do Sul, interior de SP. Publicou os livros de poemas Paisagem com dentes (Oficina Raquel, RJ. 2009), Aqui começa a Antártida (Patuá, SP. 2015) e História inconclusa de la velocidad (Zindo y Gafuri, Buenos Aires. 2016). Os poemas aqui publicados fazem parte do livro inédito O último verão de nossos inimigos.

* * *

Los Andes

O cavalheiro acende
um cigarro, traga, oferece
a seu interlocutor
e pede que lhe arranque
a faca que cravaram nele,
entre o peito e
o pescoço, (para neutralizar
o coração e o cérebro,
ele pensa) e com profundidade
bastante para dificultar
a tarefa. O dia está
escondido entre rochas
altas e fumaça de hálito.
Somos cinco no pequeno
restaurante andino, que
nada deve a uma taberna
eslava escura qualquer, por
exemplo, exceto pela falta
do clima de morte.
Do lado de fora, minha nova
amiga lhama e eu paramos e
contemplamos:
dizem que há
um novo animal rondando
as montanhas; chama-se
sol, mas não acreditamos nele

§

Nóstromo

Quebrada a combinação,
o que restou no cofre
entre mímicas involuntárias
de falas e rostos
e filmagens mentais em 35mm,
foi a lembrança detalhada
de todo o percurso de dor
e lesões oculares.
De uma madrugada de
tempestade em que, abre aspas,
os relâmpagos tentavam comunicar
alguma coisa, fecha aspas, até
acordar abraçado
a um travesseiro em pedaços,
os sistemas aparentemente
incoerentes entre si, insistindo
em distribuir a seguinte
informação, abre aspas, talvez
você desconheça a identidade
do verdadeiro inimigo,
fecha aspas, ou, na primeira
versão que interpretamos,
as vidraças e eu, abre aspas,
o som não se propaga no vácuo,
mas realmente deveria, fecha aspas.
Isso soma mais algumas dúvidas
à mente cansada que
acorda, num escuro quase perfeito,
machucado apenas
por algumas flechas de luz
vazando os tacos da janela de
madeira, e não havendo
energia elétrica nem para o
ferro de passar, concluir que
talvez fosse melhor,
abra aspas, reorganizar todos
os pensamentos, fecha aspas,
antes de inalar a primeira carga
do dia de ar aos pulmões e ficar,
enquanto acende uma boca
de fogão com o último fósforo
não-molhado, pensando sobre
a microexasperação
de cada coisa.

§

Retrofuturismo

1. Você e a propensão
a observar mais detidamente
esta época quebrada do ano.

2. O cais dentro de suas
preocupações, as embarcações
estranhas, os navios com proas
ósseas, os monstros marinhos.

3. Dizer essa gravidade sombria
pesa todos os dias sobre mim.


4. Uma existência inteira
configurada a partir de
um golpe de caratê mal
coreografado num filme
da década de 80.

5. A perfeita equivalência
entre o que se deve perder
e o que se mantém, ilhas
enfileiradas e equidistantes,
e você ignora todos
os mecanismos disso:

7. Não importa:

6. Estamos felizes e amanhã
outro dia nascerá como
uma grande bola de demolição.

§

Velhos

Um ponto que a escuridão não alcance,
(que a escuridão não alcance)

Um ponto que a escuridão não alcance
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)
O conhecimento áspero do calabouço
calcifica no entorno do seu coração
(grave, retilíneo) talvez isso quebre,

talvez isso se parta, talvez uma rachadura
viabilize a respiração, talvez isso quebre,

(talvez se parta), quem sabe uma rachadura
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)

estamos falando de cicatrização interna
estamos falando de um café bebido às pressas
numa rodovia e de um cortejo de gárgulas

que talvez sejam cegos sob a luz do dia
(talvez sejam cegos sob a luz do dia, talvez)

§

Volta

Se o mundo se mantém
vitralizado sob seu jugo,

paciência. Deve haver
filtros mais tristes.

A sabedoria de um chinês
que nos vendeu cartelas

de ovos e ressignificou
a nossa vida permanece

o ponto alto das férias de
1993, entre tantas outras

cartas marcadas de nosso
jogo de atuações: aliviar

essa opressão no peito,
essa congestão de mentiras

não parece uma alternativa
viável; devemos nos manter

silenciosos e concentrados
olhando um banco de parque

em que bicicletas rondam
sem chegar a existir

§

Taxonomia do dever cumprido
(para meu filho, no futuro)

(44 & 4)
Aquilo se chama cosmo
É piche & são pregos
É feito de vazio e solidão
E, portanto, é nosso.
*
(54 & 14)
Isso se chama vento,
e emana da garganta
de um deus enquanto
tomamos café

§

La tristezza durerà

Piglia disse alguma coisa como
“viver num quarto de hotel é o
melhor modo de não cair na
ilusão de ter uma vida”. Isso
me faz querer dar algumas voltas
pelo bairro e respirar o mais fundo
que consigo. Retorno trazendo
algumas sacolas de hortaliças
e assobiando uma canção morta
há muito tempo. Subir as escadas
ressalta a beleza dura de estar
nesse mundo. A comunhão
entre chave e fechadura, o ranger
das dobradiças, pequenos manuais
de opacidade diária. Deposito
as compras na mesa e pergunto
ao gato, sempre reticente em
sua tigela de ração: quem é o cara
vestido de diabo sentado lá em
baixo?

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Adriano Nascimento

Adriano Nascimento nasceu em Januária/MG. É professor universitário. Publicou o livro de poemas Contraluz (2018). Mora em Belo Horizonte/MG. Os quatro poemas abaixo são inéditos.

* * *

TULE
A santa equilibra
três punhais
no peito de tule.
Sobre sua cabeça,
8 estrelas de prata.
Aqui se levanta cedo
e se morre tarde.
Não há o que ver.
Das montanhas
não há segredo.
Em silêncio, as pedras ardem.

§

Meu tio morto
me sorri na foto.
Não pergunto.
Nem ele.
Seguimos os dois
em cerimoniosa
contrição.

§

MÃOS
Frio de pedra, dos dedos:
nuvem nas bordas,
a carne dos olhos – carvão.
Nos seixos – outro;
a curva da luz.
Da neblina escorre o espinho,
sol fatiado.
Manhã posta,
seguimos a chuva
até depois do mar.

§

O verão curvou a tarde de espantos.
E aqui, onde as mangas estragam,
o mormaço sobe a garganta, a alma goteja.
Dá pra ver o longe das montanhas
entre os pingos e a luz.
Apertando bem os ossos, quase se esbarra
naquilo que, mesmo sem ter nascido,
envelheceu.
Uma litania para o azedo ácido,
a linha gelatinosa acesa.

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4 poemas inéditos de Anderson Lucarezi

Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

* * *

a saudade do futuro irrompe de uma cena de rua.

processado pela língua ecoada – ainda
mista – como as trovas pelas vagas – turmalina
em talhos – de Vigo; bradada em Aljubarrota –
em alvíssaras, vivas!, ao mestre de Avis –
e Alcácer Quibir; eternizada por quem –
simbólico – jaz nos Jerônimos, desce –
a incidir por sobre a cena – meu olhar:

janela de carro pouco acima de popular
através da qual, no trânsito, livro à mão,
o motorista, minha mesma idade,
fruto – desta – terra estrangeira
em que apostei – todas – as fichas
(apesar da alta cotação da libra),
se alheia da minha vontade que vaza,
imigrante, do transporte coletivo.

ainda que mais familiar, esta minha língua,
e ainda que eu viva o clarão da poesia,
cujo sândalo nos leva, mesmo imóveis, longe,
como não devanear com papéis em ordem,
com ter serviço que possibilite mapas,
com o existir oficial, com estar num carro,
parado – livro à mão –em plena neblina de Londres?

§

embora só suposta, perdida a pepita, me precipito à aluvião,
em cuja voragem – sedimentos, detritos – vislumbro,
ainda e sempre, tua infância por mim não vista.
penso, se verbo de ação for permitido a mente submissa,
nos teus nomes de criança – brinquedos – amigos;
em como terá ganho tuas tantas cicatrizes,
marcas de investidas rumo a desvios de rota;
em como, enfim, terá – você – sido, há décadas,
quando, a meus olhos, não era, você,
mais visível que veios auríferos ainda não descobertos
ou galerias expectantes das drusas de ametista,
ocultas, não esplendentes em lilás, dentro das trevas do geodo.

§

contudo, as palavras.

contudo, as palavras.
as mesmas que atritam traços no espaço dos dicionários fechados.
talvez letras, riscos, se entrelacem, em dança secreta,
rindo das consultas, quando desse fechamento.

como exemplo, a palavra sexo,
quase sempre atrativa,
ainda mais se encadeada à preposição com,
palavra, essa, que, unida à anterior,
causa expectativa, cujo desenlace depende da seguinte.

se essa for, por acaso, a palavra mesmo,
seguida pela já citada sexo,
poderá, tal encadeamento de sons,
tanto abrir risos de reconhecimento,
visagens do verbo feito carne,
quanto rolar no inferno das bocas,
à espera de dias como estes,
nos quais, havendo azo, vaza nova palavra:
massacra.

§

paisagem estilhaçada.

tenta-se alguma coisa no papel,
uma ponte, a serra, a cidade
se arrasta pelo tempo, toma,
morosa, as encostas, mineiras,
queijo, minério, ferrovia,
igreja, procura-se a sintaxe
fluvial, curvas, volteios,
traduzi-la em letra cursiva,
grafia dos meandros /// inter-
rupção /// fura, a luz da tela,
o pensamento, impera,
a tecla-metralha , explicita-se
a fratura do mundo,
divisa-se as novas Minas,
onde não só filigranas
de Murano, calor termal,
charrete, lua de mel: magma
move-se debaixo de tudo,
momento é o mais perigoso
entre Estados desde a crise
dos mísseis, dois terços
da população dizem
nunca ter ouvido falar
do AI-5, cabine de teleférico
despenca durante chuva
de granizo
– pop-ups – o fluxo
transborda a margem, o trem
escapa aos trilhos, PAISAGEM
ESTILHAÇADA, a cratera,
esse vulcão, qualquer momento.

Poços de Caldas, 2020

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