poesia, tradução

Ernst Herbeck (1920-1991) por Cristiane G. Bachmann

Ernst Herbeck (Stockerau, 1920-Gugging, 1991) tornou-se poeta de um modo incomum. Depois de oito anos de silêncio e isolamento, numa rotina controlada diariamente por psicotrópicos e choques insulínicos que lhe eram aplicados como tratamento no hospital psiquiátrico de Maria Gugging (Áustria), onde foi internado aos 26 anos, Herbeck foi convidado por Leo Navratil[i] a envolver-se com o entorno por meio da escrita. Navratil, antropólogo e psiquiatra da clínica, sugeriu-lhe um tema: “Der Morgen” [“Manhã”]. A resposta de Herbeck foi um poema. O psiquiatra percebeu o talento literário do paciente. Todos os dias, passou, então, a fornecer-lhe materiais pra escrever e a lhe sugerir temas.

Herbeck produziu intensamente, escrevendo poemas sobre os mais variados assuntos: guerra, vida, morte, amor, liberdade, máquinas, personagens de contos de fadas, cores, objetos, estações do ano, atividades cotidianas e banais (como fumar, por exemplo), entre outros. Há poemas dedicados a Navratil, a outros internos do Gugging, a Goethe, a Rilke, à relação entre paciente e psiquiatra, e muitos deles versam sobre animais.

Desde que seus primeiros poemas foram publicados (em 1966), Herbeck chamou a atenção na cena intelectual. Em 1977, a editora alemã DTV publicou uma extensa antologia de sua obra, que foi recebida num momento em que fervilhavam discussões sobre conceitos de “normalidade” e loucura”. No mesmo ano, Herbeck tornou-se membro da Grazer Autoren Versammlung [Associação de Autores de Graz, na Áustria]. Em 1980, o escritor alemão W. G. Sebald, a quem tanto a obra herbeckiana quanto suas condições de produção causaram forte impressão, publicou o romance Schwindel. Gefühle [“Vertigem”, na tradução de José Marcos Macedo], que insere a figura de Herbeck em uma de suas passagens. No mesmo ano, o poeta austríaco saiu da clínica, após receber alta. Mas retornou em definitivo ao Maria Gugging no ano seguinte.

Herbeck[ii] deixou um espólio de mais de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.

* * *

Canarinho

Os canarinhos nas gaiolas
esperam pelo alvorejar na
manhã absoluta.
E nisso, gaiteiro, ele canta
porque ele canta e se banha
e então recanta.

O canarinho vê e ouve
a mobília. Gigantemente
cândido, ele veste amarela
plumagem.

Ouça, candidamente ouça.

Kanarienvogel

Kanarienvögel sind im Käfig drin,
warten auf das Frühgeschehen am
Morgen ganz und gar.
Insoweit ist er vergnügt und singt,
weil er singt und sich auch badet
und dann wieder singt.

Der Kanarienvogel hört und sieht
sich die Möbel an. Er ist riesig
unverdorben und hat ein gelbes
Gefieder an.

Hören Sie sich, unverdorben, Sie sich das
mal an.

§

Paciente e Poeta

Poeta

Quanto maior a dor
tanto maior o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido.

Paciente

Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
tanto mais Doidos os condenados

Paciente e Poeta

Quanto maior a dor
tanto menor o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido
Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
Tão mais doidos os condenados.

Patient und Dichter

Dichter

Je größer das Leid
desto größer der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn

Patient

Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto Irrsinniger die Verdammten

Patient und Dichter

Je größer das Leid
desto kleiner der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn
Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto irrsinniger die Verdammten.

§

A língua.

b + a cintilam no patuá[iii].
Flores na borda do campo.
A língua. —
a língua é dependente dos animais.
e sonha no a da soada.
o c cicia só assim ao redor e
……….é também num instante sua
…………………………………………arma.

Die Sprache.

a + b leuchten im Klee.
Blumen am Rande des Feldes.
Die Sprache. —
die Sprache ist dem Tier verfallen.
und mutet im a des Lautes.
das c zischt nur so umher und
………..ist auch kurz dann sein
………………………………..Gewehr.

§

A ninfeia.

Nenhum bicho sabe daonde ela[iv]
…………………….vem.
Ainda assim, um sapo venera,
……………………ela a Beira (E)
……………………e a Eira –
A beira de alguma
……………………….flor.

Die Seerose.

Es weis kein Tier von wo sie
……………………Stammt.
Und dennoch, ein Frosch verehrt,
……………………sie den Rand (B)
……………………und den Band –
Den Rand irgendeiner
………………………Blume.

* * *

NOTAS

[i] Navratil tratava seus pacientes aplicando um método que desenvolveu com base no conceito de art brut (formulado por Jean Dubuffet).

[ii] O poeta também participou do documentário Zur Besserung der Person [“Para o aprimoramento da pessoa”], do suíço Heinz Bütler, que retrata o cotidiano de cinco artistas internos do Gugging. [Disponível aqui: https://vimeo.com/18427012]

[iii] Em alemão temos uma rima de “b” com Klee, que significa “trevo”. Em português, não encontrei nenhuma solução correspondente que terminasse com a tônica em “e”. Como “patuá” é um amuleto de sorte, assim como trevo, optei por inverter a soma (de “a + b” pra “b + a”) pra obter a rima e, assim, manter a proximidade semântica.

[iv] Neste verso, weis e von wo são desvios ortográfico e gramatical, respectivamente, típicos de falante de alemão que está aprendendo a escrever ou que não tem domínio da Standardsprache (“língua-padrão”). Herbeck foi consultado por Navratil sobre seu desejo de corrigir os poemas pra publicação. Alguns ele quis corrigir, outros não. Sua vontade foi respeitada por Navratil. Dessa forma, também procurei respeitar isso e busquei traduzir esses desvios. Para von wo, experimento usar “daonde”, porque me parece de natureza semelhante. Mas pra weis (o correto seria weiss) ainda não cheguei a uma solução, pois se trata de um “erro” bem comum e nada grave, como da ordem de uma distração. (Achei que “çabe” ficaria muito forçado…)

Cristiane G. Bachmann desenvolve seu projeto de estudo e tradução de poemas de Ernst Herbeck como mestranda em Estudos Literários na UFPR, na linha de Alteridade, Mobilidade e Tradução. Trabalha como revisora e preparadora de textos e durante vários anos dedicou-se também ao teatro, como atriz.

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poesia

Eliza Caetano (1980 –)

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Nasceu em Belo Horizonte, é jornalista e mãe de duas filhas. Escreve desde sempre. Publicou O caderno das inviabilidades (Ed. Urutau, 2016).

 

sergio maciel

* * *

 

seria preciso um muro inteiro
um muro inteiro que lamentasse
seria preciso um muro que chorasse
um de pedras largas e entre elas pequenos vãos por onde nós pudéssemos tentar ver o outro lado
sem sucesso
seria preciso um muro alto
de pedras largas
seria preciso pés descalços que chegassem até lá.
dois dígitos em horas de vôo
algum dinheiro para a passagem
um outro lado do mundo
seria preciso antes que nós lamentássemos (e lamentamos)
mas que estivéssemos no lugar impróprio
que fosse verão, claro
que estivéssemos em boa companhia
na praia
e que as mãos dadas enchessem nossos olhos
que nos olhássemos cientes do mundo
(e nos olhamos)
que tomássemos mais um picolé
e desejássemos que houvesse um muro alto
de pedras largas
do outro lado do mundo
antigo o bastante para nos manter de pé

§

 

A curva infinita

estou, estivesse esta noite

pronta para receber a água, o sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo, tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do vento que entra pela janela, a planta que coloquei no canto e que deposita dentro do quarto perguntas sobre o frio que

a lâmpada incandescente não será capaz de responder.

as folhas secas e frias que me fazem sonhar com a água e tensionar músculos – maxilar, ombros, mãos, talvez pés em espasmos que não assisto e para os quais não haverá testemunha, só o silêncio no quarto seco, barulho no sonho úmido, fracasso, barulho da água caindo, fracasso, barulho dos dentes rangendo, dentro e fora do sonho, sempre sobre a matéria da cama, do lençol, do colchão frio, da curva do rio sob a chuva, da curva da planta, do canto do quarto, do arco do voo decidido de

um pássaro fêmea – a curva infinita

do ovo deitado à margem pelo pássaro que ainda dormia, aguardava no sonho algo que pudesse nascer de si, uma forma infinita e curva, o resultado do esperar para nascer de novo a partir da terra, do rio, dos seixos que úmidos no sonho do pássaro fêmea se jogassem ou pudessem ser jogados no ponto mais fundo do rio, um esboço de gesto infinito, impossível para o pássaro fêmea, produzido no instante de nascer ou de dar à luz, dar a vida, entregar à luz do mundo mesmo que seja noite e que chova, mesmo que eu tenha que fazer nascer e abrigar da chuva e chorar a morte dentro do rio ou sobre a cama de dentro do quarto onde terei dado um nome, qualquer um e toda a luz do mundo como se nenhuma luz a menos fosse suficiente. terei dado

a eletricidade de todas as lâmpadas acesas de todas as cidades de todas as hidrelétricas e suas comportas

o fôlego da água incansável move turbinas, cidades, peixes e sinos de igrejas submersas, onde nascer já não importa, onde não se batizam mais crianças e elas permanecem sem nome diante de deus, sem vida porque a vida de qualquer criança será insignificante dentro da igreja submersa das águas profundas de cima da cama onde o pássaro fêmea contorna o sonho e dá à luz um ovo que por dentro ainda está no breu e é possível sentir do interior da forma infinita e curva o risco de não conseguir

produzir a rachadura necessária

para brotar através da dureza de uma casca de ovo. amanhã outro risco – debaixo d’água, sobre a cama, para o pássaro fêmea peixe brotado da igreja das crianças sem nome – de dentro do sonho, um risco maior:

não conseguir dormir.

escrever é então dar palavras a sonhos, nomes a crianças pagãs batizadas em igrejas submersas, gênero a pássaros, dar nomes, tempo, número, dar palavras novamente, ser pássaro fêmea mulher peixe igreja ovo e dentro do ovo outra mulher.

homem é depois rachar, seguir, mover, passar. é verbo e o verbo pode então caminhar longas distâncias

sem se lembrar os nomes das coisas, sem entender os enigmas deixados em cada curva de rio, dentro de cada ovo e em cada seixo fracassado e submergido pela mulher, que ao final observa o homem que enfim se deita e deixa descansar.

§

 

passando rapidamente os fotogramas na tela meus olhos não têm tempo de absorver
as últimas férias o nascimento
………….do filho o tórax oscilando durante o sono

por mais que pense sobre os fotogramas que passam rápido pela tela
vejo apenas
uma criança um sorriso de papel
carros que já passaram
por ruas cujo dia já morreu
um lugar bombardeado

por mais que eu não
queira olhar e passe rapidamente
pelos fotogramas em minha tela como quem passa de carro
rápido porém reduzindo
para um acidente
com vítimas
fatais

Ou que eu não
queira ainda olhando
compreender as imagens que passam
reduzindo a velocidade e
voltando-se
discretamente
para olhar enquanto
preparam uma frase
de desprezo a ser cuspida
da janela sobre aqueles que têm
o mórbido hábito de reduzir
a velocidade ao passar
por corpos caídos:
a frase das ultimas férias a do nascimento do filho a frase proclamada pelo tórax em movimento a bomba no ar

Passando rapidamente os fotogramas não compõem um movimento.

Mesmo que passe rapidamente
sempre olharei de lado
o corpo derramado
sobre o asfalto e é perigoso
dirigir mesmo que eu faça isso todo dia por muito tempo
ainda é perigoso e eu
poderia mesmo morrer ao falar ao celular
ou passando o dia parada neste lugar
veja bem eu podia morrer e podia morrer
ao ver o quanto é normal simples e
corriqueiro que as coisas acabem
e que eu acabe sentada
no banco do motorista com uma ferragem
qualquer atravessada
no peito como uma lança
arremessada com precisão
e muita força
e mesmo que eu merecesse orações não adiantaria nada
nada veja que o asfalto será lavado
na próxima chuva

passando rapidamente os fotogramas
paralisam e paro
de olhar
paro os olhos como peixe
fresco, morto recente
ainda quente no asfalto
paro os fotogramas
à força em voz alta
antes de morrer no asfalto
antes de olhar como peixe
os fotogramas descendo na tela e que eles por favor não façam sentido
não tenham memória
não produzam movimento.

por mais que eu pense sobre
os fotogramas que passam rápido pela tela e veja
apenas: a criança um sorriso que não existe
um campo cujas minas explodiram
carros que já passaram por ruas cujo dia já morreu
um campo cujas minas não explodiram

por mais que não me lembre
dos fotogramas e que os fotogramas
sejam palavras e que as palavras sejam
hoje só uma profusão de
imagens produzidas
por minha cabeça a partir
dos sons emitidos por pessoas que falam
sobre nada nada sem parar
e as palavras de que não me lembro sejam só
uma nuvem densa de estupidez que passa
e passa e passa em branco
sobre a minha testa diante
de um cansaço profundo
não sei se das últimas noites mal
dormidas se das poucas horas
de sono ou se dos meses e meses e meses que insistem
na repetição como 24 fotogramas
que criam um único segundo
afinal o que importa o que importa mesmo será sempre
repetido até criar raízes e asas e levantar voo e segurar a terra e partir-se ao meio.

§

 

O caderno das inviabilidades

Minha vontade irremediável de listar palavras inviáveis.
…………..Inviáveis, sua barba ou cabelos.
O avião, incapaz de remediar minhas convicções inviáveis ou
………………………………………………………………o defeito no lobo da orelha.
Minha perversidade.
O que me ocorre embaixo do chuveiro.

A ereção inviável e o beijo.
Os homens inviáveis.
Os homens, de onde nada nasce.
…………….Onde não há menstruação
…………………………não cabe vida, as mãos injustas e protetoras dos homens.
Os filhos inviáveis dos homens cujo desejo me torna inviável.
Os pés grandes demais, os olhos dos homens que não sabem
……………………………………………………………..chorar, ou nem só falar,
………….os homens que não sabem.
………….Os homens e seus pelos inviáveis, suas mãos sujas,
……………………………………………………………………………………….seu tesão exposto.

O homem que me alimenta, inviável, o caderno de inviabilidades, a quem sorvo diariamente na cama da casa que eu fiz viável para o homem morar.
O homem cuja inviabilidade eu exponho debaixo do lençol a
…………………………………………………………………..cada dia, todos os dias,
na inviabilidade selada com o anel, o olhar pobre ora meu,
ora dele, diante ao mesmo tempo
do dever inviável e do

mero amor,

livre de mim, livre dele,
o amor insone sobre a cama feita ao lado da janela voltada para
……………………………………………o prédio vizinho à revelia de nós dois.

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xanto

XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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poesia

6 poemas inéditos de Júlia de Carvalho Hansen

ju

Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) é poeta, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira. Estudou literatura na Universidade de São Paulo e na Universidade Nova de Lisboa. Os poemas abaixo são de seu novo livro, ainda sem título. Já apareceu aqui no escamandro com poemas e entrevista.

***

POSSO

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

*

 

 

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poesia

2 poemas inéditos de Valeska Torres

valeska 2

Fotografia de Fernando Targino

Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, nas revistas Mulheres que Escrevem Mallamargens, finalista do Slam das Minas RJ 2017 e vai publicar um livro em 2018 pela editora Kza1. Já apareceu aqui no escamandro com outros 2 poemas.

***

(Insira uma frase de Eva Perón)

do bico do peito

os que mamam em grandes tetas

o pingo de leite
branco
sobre a hispano américa amedrontada

sobra-nos:
1. os farelos,
2. o chupar de dedos,
3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho.

aos que não tomam leite
– esses que infestam a cidade com cartazes de desaparecidos –
restam-lhe
o café preto amargo

trepamos sobre essa cama, mas não nos lambemos
tampouco
partilhamos nossas línguas
falta-nos salivas

a cerveja o matte dividimos no poema após um pancho entre Catarmaca y Sarmiento

da goela
o pollo descendo abaixo
até o engasgo
yo soy soy yo
a balsa que atraca no Rio Paraná
a faca que corta o pão massudo
dentro
salsicha temperada de salsa crioulla

§

 

Nós dois cantando Sidney Magal no karaokê da Feira de São Cristóvão
Para o Fernando

Estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo
– como se percebem os furos de tatuí na areia de Grumari –
o grão de purpurina no fim do carnaval,
são quatro por dois isso que inflama o meu peito.
Não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó,
mas ainda sonho em me bronzear sob o sol de Ramos
me banhar no piscinão
ao seu lado
com as mãos entrelaçadas as suas
bebendo itaipava.

Sou mulher de gostos caros, digo a você enquanto
rasga meu sutiã
gasto
por amaciantes.

Picho na murada do prédio
seu nome ❤ o meu
para que você saiba o quão merda eu sou
quando apaixonada.

Meus pais me apontam dedos disseram para não me perder demais
¡perigo águas profundas, correnteza e redemoinho!
É tarde,
depois de meia noite
nossos horários são verões.
É tarde e estou fudida
porque a foda tem o gosto do meu homem
e disso
os meus lábios não cansam.

*

 

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poesia

5 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985—)

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Nasceu no Rio de Janeiro a 1985; vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os livros synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados, todos pela 7Letras.

* * *

Disciplina da extinção

Devem já ser desoras no mundo

Com os mesmos passos
cuidados com que costumávamos
deixar agosto
faz-se agora o torno do ano
inteiro, impensável

Neste poema ao menos
vencem
as tropas inimigas

Uma aragem má
destelha nossos galpões,
corre toda a alegria

Da linguagem
para os muros da cidade

No apagado arrabalde
(no apagado arrebol)
catar
palavras para dizê-lo

§

Enrique Lihn em Manhattan, II

O móbil do crime talvez seja a clareza
O que nos faz enxergar impérios no pó da mariposa
Capinar aporias
Comprimir
Os poemas até
A desumana exposição
Das linhas de força
De uma qualquer situação
Em tela
Citareiros jogados pelos corredores do metrô
Servos do sopro, de nada
Proliferando
Ascese de escadas rolantes
Que rompem claraboias cinzentas
Vamos, vamos
Irradiar mais uma metrópole
Perder os sinais na chuva negra
À mulher sentada a meu lado
Conto que acabo de ser expulso da República
Ela tem o bom gosto de me ignorar
Ela efabula
Faxinas que lhe roubaram a manhã
As varizes, o preço do extrato de tomate
Os tapumes crivados de balas
A esperança, ela diz, por pouco
Não dá cabo de si própria
E do marido também idoso
Noite passada
Esqueceu aberta uma das bocas do fogão
Depois da janta
Pegou no sono
Embalada pelo perfeito rolamento do veículo

§

Disciplina da extinção, II

Já neste poema
Circunstanciou-se que nós
Vencemos a guerra

Contudo
O problema da narrativa
Continua
A fazer-nos frente

Neste silêncio, cesura
Procuramos
Palavra de elevação
As palavras sonantes
Palavra de uma inocência
Emudecedora

Tomamos de sua fome
Para escrever saciedade

Para escrever sáfaro

Para escrever
O sol presidia vermelho sobre os campos
(Ao desincumbir-se
Era vermelho também)

§

Comparecimento diante do Provador

Descenso com pernas.
Não “ocaso”.
Não “crepuscular”, o verbo, não
Chamemos
Astro vestigial.
Não o tornar-se vestigial.
Não entre panejamentos.
Não o ter uma imagem
Tão demorada
Em nos atingir.
Não a tarde devagar
Desfibrada.
Descenso com pernas, com peso
De pernas.
Descenso
De cepas roliças
Comprimindo
Coxas
Que florem
Em pé
Inculto com
Sem caminho
Com
Solidão de jaula
Com
Fumos de centro
Com ócios
De preferido

Descenso

Descenso

Descenso

§

As andanças a que venho me referindo dão-se no mais dos casos em prejuízo dos pés.
Que poderá sobreviver à descoberta profunda, para além dos tipos, à redescoberta de que as estrelas não são senão os mortos,
senão revérberos?
Digressiona-se.
Tentei estabelecer as balizas mágicas desta excursão.
No Planetário, veem-se uns aos outros, não veem nada.
Que testemunham, afinal, os espelhos dos banheiros do Planetário?
Que eficácia?
Tentei dizer “baldio”, um substantivo.
Tentei dizer “engodados”, “engodados pela luz”.
Este Planetário é antigo. Bem como as crianças lá levadas em excursão.
Este Planetário é também o meu passado.
Estas crianças que entram, saem, dão a informação altiva e irracional.
Tentei dizer “baldio”, tento.
Esvaziar a ostra, ouvir atentamente ao ditado.
De seguida, a redação.
As crianças regressam de minhas notas com um Planetário, deixam-no aos meus pés.
Digo-lhes, os globos são caros.
Os ossários são caros.
Os revérberos, o passado… Tarde demais.
Entraram já para as notas.

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poesia

Israel Azevedo

ISRAEL AZEVEDO_REVISTA ESCAMANDRO

Israel Azevedo nasceu em São Paulo (SP), cidade onde vive. Integra as antologias: Qasaêd Ila Falastin – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012) e Poetas Jovens no Papel Rascunho (Lumme Editor, 2006). Ainda na internet, seus poemas também podem ser lidos nas revistas Germina – Revista de Literatura e Arte, Diversos Afins, Mallarmargens e Zunái.

***

ESBOÇO PARA FRANZ KLINE

fortuita moldura ampara a pintura
onde uma face afilada adorna a figura
de dois olhos tristes
de estreita abertura.

 §

REYKJAVÍK

Agora a vemos bem
Realçada pela névoa
Penumbra tranqüila e cálida
Onde olhos cor de anis brilham
Vêem como o céu é belo
Vêem como estrelas não tardam
Vêem como há sentido em perder-se
De dentro para fora do coração.

§

GAROTA HÚNGARA

Dentro dela
o deleite por perder-se
sobre desigual e branco
território de lençóis,
divagando, pensamentos
soltos.

*

 

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