poesia, tradução

Rose Ausländer (1901-1988), por Luiz Abdala Jr.

A história de Rose Ausländer ecoa a de milhares. Nascida no multifronteirístico Império Austro Húngaro, mais precisamente na região de Bucovina (entre o que hoje é a Romênia e a Ucrânia), em uma família de origem judaica da comunidade de língua alemã e iídiche da região, a poeta logo parte para os Estados Unidos com o objetivo superar a crise financeira que viviam os seus pais. Retorna a Bucovina no final dos anos 20, devido a um adoecimento da mãe, e depara-se logo de cara com os primeiros movimentos do horror nazista. Impedida de deixar Bucovina, sobrevive à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial escondendo-se, com a mãe, em guetos da região. Já em 1946 parte novamente para os Estados Unidos, onde se estabelece por cerca de 20 anos e corta relações com a lírica moderna alemã, deixando não só de ler a poesia contemporânea em alemão como também de escrever no idioma, passando a compor em inglês. Vivendo em Nova York, Ausländer aproxima-se de nomes importantes do modernismo norte-americano tais como: Robert Frost, William Carlos Williams, T.S Eliot, E. E. Cummings… e também trava relações com a poeta Marianne Moore, uma forte influência para Ausländer. Apenas no final dos anos 50, bastante motivada por um encontro com o conterrâneo e companheiro de juventude, Paul Celan, Ausländer volta paulatinamente a escrever em alemão. Em 1967 retorna definitivamente à Alemanha e à lírica alemã, falecendo na cidade de Düsseldorf em 1988.

A trajetória errante da poeta é um dos motivos que atravessam o seu trabalho poético. A origem judaica, a relação conflituosa com o alemão, o exílio, a vivência nos Estados Unidos são experiências que se entreveem em uma poesia que jamais nega a língua, mas sempre a coloca em desconfiança, em uma relação de deslizar constante. Partindo da discussão adorniana sobre a possibilidade de fazer poesia após Auschwitz, Ausländer parece dizer que sim, pois “as palavras me ditam: escreva-nos[1]. Escrever não é apenas um gesto necessário, mas incontrolável na medida em que o escrever escreve-se no escritor. Porém, estendendo a discussão, qual é então a possibilidade de escrever poesia em alemão após Auschwitz?  Como escrever poesia na mesma língua de uma máquina de genocídio moderno? Como escrever em sua língua materna, mas que é também a língua que tentou te matar? Aqui as relações e vínculos se tornam mais delicados e conceitos unificadores como pátria e língua materna não parecem dar conta das relações sensíveis que a poesia estabelece com a linguagem. Nesse sentido, o trabalho poético de Rose Ausländer é também um gesto de testemunho e resistência. Testemunho das complexas relações sensíveis com as noções de território e língua, da experiência histórica-subjetiva e da memória, e resistência na medida em que as próprias noções de território e língua são colocadas em desestabilidade e diferença, em que o escrever em alemão jamais deixará de ser escrever na língua do nazismo, do horror, porém pode vir a ser também outra coisa, outras coisas. Em tempos em que estratégias de manipulação do discurso estão explícitas, apontando que modos de dizer não são somente modos diferentes de falar, mas de agir, Ausländer abre uma imprescindível reflexão sobre a palavra e as relações que com ela incessantemente construímos (e também destruímos). 

Os poemas aqui selecionados são de diferentes fases da poeta, mas mantém elos em comum. Todos eles foram retirados do livro Rose Ausländer – Gedichte (Fischer Verlag, 2012), coletânea organizada por Helmut Braun e que contempla parte considerável da produção poética da autora, que no total contabiliza mais de três mil poemas escritos.


[1]Weil Wörter mir diktieren: schreib uns”, trecho do ensaio Alles kann motiv sein da autora.

Zwischenzeilwort

Viele Gedichte gefunden
aber
Ich suche das Wort
Zwischenzeilwort
im bunten Buchstabentanz
Konsonanten Vokale
Vokabeln ich taste
die Weite und Tiefe
der Wörter
suche erfinden
das verstohlene
Wort

Palavra entre-linha

Muitos poemas encontraram
porém
Eu busco pela palavra
A palavra entre-linha
Na alegre roda da letra
Consoantes vogais
Verbetes tateio
a amplidão e o abismo
das palavras
procuro atinar
a furtiva
palavra

§

Mutterland

Mein Vaterland ist tot
sie haben es begraben
im Feuer

Ich lebe
in meinem Mutterland
Wort

Mátria

Minha pátria morreu
a enterraram
no fogo

Eu vivo
na minha mátria
Palavra

§

Ich vergesse nicht

Ich vergesse nicht

das Elternhaus
die Mutterstimme
den ersten Kuß
die Berge der Bukowina
die Flucht im ersten Weltkrieg
das Darben in Wien
die Bomben im zweiten Weltkrieg
den Einmarsch der Nazis
das Angstbeben im keller
den Arzt der unser Leben rettete
das bittersüße Amerika

Hölderlin Trakl Celan

meine Schreibqual
den Schreibzwang
noch immer

Eu não me esqueço

Eu não me esqueço

da casa dos pais
da voz da mãe
do primeiro beijo
dos montes de Bucovina
da fuga na primeira guerra
da penúria em Viena
das bombas na segunda guerra
da marcha nazista
do tremor no porão
do médico que salvou nossa vida
da agridoce América

Hölderlin Trakl Celan

minha aflição em escrever
a obsessão em escrever
de novo e de novo

§

Wer bin ich

Wenn ich verzweifelt bin
schreib ich Gedichte

Bin ich fröhlich
schreiben sich die Gedichte
in mich

Wer bin ich
wenn ich nicht
schreibe

Quem sou eu

Em desespero,
eu escrevo poemas

Quando contente,
os poemas se escrevem
em mim

Quem sou eu
Quando não
escrevo

§

Sätze

 Kristalle
unregelmäßig
kompakt und durchsichtig
hinter ihnen die Dinge
erkennbar

Diese Sucht
nach bindenden Worten
Satz an Satz
weiterzugreifen
in die bekannte
unbegreifliche
Welt

Frases

Cristais
irregulares
compactos e transparentes
detrás de si as coisas
reconhecíveis

Essa busca
pelas palavras atadas
frase na frase
apalpando apalpando
no conhecido
impalpável
mundo

§

Spiel

Treibst dein Spiel mit mir
Sprache
schon spielst du mir manchmal
mit

Spiel mit mit
ich bin alt
nicht älter als du
Traumwort

Finger
   Augen
       Worte
unendlicher Spielraum

Spiel mit mir
ich bin jung
nicht jünger als du
Traumwort

Wer spielt uns auf
wenn ich mit dir
mein Spiel treibe

du mich verspielst
an die Nacht

Jogo

Língua
conduza seu jogo comigo
às vezes você joga seu jogo
comigo

Jogue comigo
sou velha
não mais velha do que você
Verbonírico

Dedos
     Olhos
           Palavras
infinito jogo de dados

Jogue comigo
sou jovem
não mais jovem do que você
Verbonírico

Quem nos toca
quando eu jogo
meu jogo contigo

você me joga
para a noite

§

Was du nicht weißt

Als wüßtest du
woher

Als wüßten Wasser Sterne Luft

Was du nicht weißt
erschafft
dein Wort

unwissend
sicher

O que você não sabe

Como se você soubesse
da onde

Como se soubessem água estrelas ar

O que você não sabe
cria
sua palavra

desconhecida
segura

§

Mein Gedicht

Mein Gedicht
ich atme dich
ein und aus

Die Erde armet
dich und mich
aus und ein

Aus ihrem Atem geboren
mein Gedicht

Meu poema

Meu poema
te respiro
inspiro e expiro

A terra respira
eu e você
expira e inspira

Do seu respiro nasce
meu poema

§

Nicht vergessen I

Heute
hat ein Gedicht
mich wieder erschaffen

Ich freute mich
am Leben
bewunderte die Landschaft
vor meinem Fenster

Ich vergaß
das Gedicht zu schreiben
vergaß es

Es hat mich
nicht vergessen
kam zurück zu mir
und schrieb sich
in meine Worte

Não esquecer I

Hoje
um poema
novamente me criou

Me alegrei
com a vida
admirando a paisagem
da minha janela

Eu esqueci
de escrever o poema
esqueci

Ele não
esqueceu
veio logo até a mim
e se escreveu
nas minhas palavras

§

Mutter Sprache

Ich habe mich
in mich verwandelt
von Augenblick zu Augenblick

in Stücke zersplittert
auf dem Wortweg

Mutter Sprache
setzt mich zusammen

Menschmosaik

Língua mãe

De momento em momento
eu me transformei
em mim mesma

Estilhaçada em pedaços
no palavrandar

Língua mãe
me reconstrua

 Mosaico-humano

§

Miteinander

für Marie Luise Kaschnitz

Du
und der Kirschbaum
und die rasende Straße
und der Ozean
und der Blitz

Du
und deine Angst
und dein Zorn
und dein Aberglaube
und dein Glaube
             “Let My People Go”

Du
und der Stern
und das Wort Stern
und das Hauptwort
un das Nebenwort

und das Nebeneinander
und das Miteinander
und
   du

Convivência

para Marie Luise Kaschnitz

Você
e a cerejeira
e a rua rápida
e o oceano
e o relâmpago

Você
e o seu medo
e sua cólera
e sua superstição
e sua crença
     “Let My People Go”

Você
e a estrela
e a palavra estrela
e a palavra principal
e a palavra auxiliar

e a coexistência
e a convivência
e
     você

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poesia, tradução

2 poemas de Paul Celan, por Matheus Guménin Barreto

Sobre Celan, não precisamos mais fazer nenhuma apresentação aqui. Temos agora dois poemas traduzidos por Matheus Guménin Barreto.

guilherme gontijo flores

***

Salmo

Ninguém nos molda de novo da terra e do barro,
ninguém conjura o pó nosso.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor a ti queremos
florescer.
Ao encontro
de ti.

Um nada
éramos, somos, seremos
ainda, a florescer:
a Rosa-de-Nada, a
Rosa-de-Ninguém.

Com
o almacândido cálamo,
o ermoceleste filamento,
a rubra coroa
do verbo purpúreo, que cantávamos
sobre, oh sobre
o espinho.

Psalm

Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

 

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn.

§

Em Praga

A meia morte,
amamentada com a nossa vida,
jazia afim-à-cinza em torno a nós –

também nós
bebíamos ainda dois sabres, alma-entrecruzados,
cerzidos a rochas celestes, verbo-sangrento-nascidos
no leito noturno,

mais e mais
crescíamos no outro emaranhados, não havia
mais nome algum para
o que nos impelia (uma das trinta-
e-mais-tantas
era a minha sombra vivente
que a ti galgava os degraus da loucura?),

uma torre,
erigiu-se a meia morte rumo ao Aonde,
uma Hradčany
de puro Não alquimista,

osso-hebraico
moído e feito esperma
escorreu pela ampulheta
que atravessávamos a nado, dois sonhos agora, a soar
contra o tempo, nas praças.

In Prag

Der halbe Tod,
großgesäugt mit unserm Leben,
lag aschenbildwahr um uns her –

auch wir
tranken noch immer, seelenverkreuzt, zwei Degen,
an Himmelssteine genäht, wortblutgeboren
im Nachtbett,

größer und größer
wuchsen wir durcheinander, es gab
keinen Namen mehr für
das, was uns trieb (einer der Wieviel-
unddreißig
war mein lebendiger Schatten,
der die Wahnstiege hochklomm zu dir?),

ein Turm,
baute der Halbe sich ins Wohin,
ein Hradschin
aus lauter Goldmacher-Nein,

Knochen-Hebräisch,
zu Sperma zermahlen,
rann durch die Sanduhr,
die wir durchschwammen, zwei Träume jetzt, läutend
wider die Zeit, auf den Plätzen.

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