poesia, tradução

Niels Hav, por Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

Niels Hav, nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas.

Em inglês, uma coleção de sua poesia, God’s Blue Morris, foi publicada pela Crane Editions (Canadá) em 1993. Em 2006 foi publicada outra coleção de seus poemas, intitulada We Are Here, pela editora canadense BookThug. Ambas com tradução de Patrick Friesen e P. K. Brask.

Em seu país natal já recebeu diversos prêmios do Danish Arts Council. Atualmente vive com sua família em Copenhague, em um dos bairros mais coloridos e multiétnicos da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Todos os poemas do livro foram traduzidos a partir da língua inglesa. Traduzimos na íntegra a antologia poética “We Are Here” publicada em 2006 pela editora BookThug (Toronto, Canadá) com tradução direta do dinamarquês por Patrick Friesen e P. K. Brask.

Dispusemos do apoio do autor, que também domina a língua inglesa, para nos orientar em eventuais consultas necessárias à tradução, como não possuímos conhecimento acerca da língua dinamarquesa, idioma dos escritos originais, o contato com o autor foi de extrema importância.

Nas palavras do próprio Niels Hav: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa”. Na edição brasileira objetivamos manter a simplicidade elegante de sua obra e suas características vitais, tais quais: sua linguagem graciosamente direta, seu humor fatalista e sua ironia fina.

Quando nos deparamos com os poemas do autor, publicados num blog de poemas no idioma inglês, ficamos bestificados com a áurea espirituosa que compunha suas linhas e espantados ao saber que, até então, sua obra ainda não havia sido traduzida para a língua portuguesa. Instantaneamente, fomos tomados pelo desejo de trazê-la para a nossa realidade.

Sobre a tradução para o inglês Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês praticamente originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que existam muitas perdas na tradução para o inglês”.

TRADUTORES:

Matheus Peleteiro, nasceu em Salvador – Bahia em 1995. Escritor, tradutor, poeta e contista, publicou em 2015 o seu primeiro romance, “Mundo Cão”, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri), o livro de poemas “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux). Em 2017, publicou “Pro Inferno com Isso”, seu primeiro livro de contos.

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor literário e audiovisual, em 2016 publicou seu primeiro livro “Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito” (poemas) pela BAR Editora.

* * *

Til digternes forsvar

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

Niels Hav

In defense of poets

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by Poetry.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Em defesa dos poetas

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Epigram

Man kan tilbringe et helt liv
i selskab med ord,
uden at finde
det rigtige.

Ligesom en stakkels fisk
pakket ind i ungarske aviser:
For det første er den død,
for det andet forstår den ikke ungarsk.

Niels Hav

Epigram

You can spend an entire life
in the company of words
not ever finding
the right one.

Just like a wretched fish
wrapped in Hungarian newspapers.
For one thing it is dead,
for another it doesn’t understand
Hungarian.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Epigrama

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.

Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Besøg af min Far

Min døde Far kommer på besøg
og sætter sig i sin stol igen, den jeg fik.
Nå, Niels! siger han.
Han er brun og stærk, hans hår skinner som sort lak.
Engang flyttede han rundt på andres gravsten
med stålstang og sækkevogn, jeg hjalp ham.
Nu har han flyttet sin egen
selv. Hvordan går det? siger han.
Jeg fortæller ham det hele,
mine planer, alle de mislykkede forsøg.
Inde på opslagstavlen hænger der sytten regninger.
Smid dem væk,
siger han, de skal nok komme igen!
Han smiler.
I mange år var jeg på nakken af mig selv,
siger han, jeg lå vågen og spekulerede
for at blive et ordentligt menneske.
Det er vigtigt!

Jeg byder ham en cigaret,
men han er holdt op med at ryge nu.
Udenfor tænder solen ild i tage og skorsten.
Skraldemændene larmer og råber til hinanden
nede i gaden. Min Far rejser sig
går hen til vinduet og ser ned på dem.
De har travl, siger han, sådan skal det være.
Bestil noget!

Niels Hav

Visit from my father

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Visita do meu pai

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!
(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

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Poesia nórdica| Henrik Nordbrandt, por Luciano Dutra

Henrik Nordbrandt (n. 21 de março de 1945 em Frederiksberg) é um poeta dinamarquês que viveu a maior parte da sua vida adulta em países do Mediterrâneo (Turquia, Grécia e Itália), sendo as temáticas dessa região (p.ex. cidades, paisagens e clima) presença marcante na sua poesia. Apesar de ser um poeta ateu bastante crítico do que apostrofa de ”a falta de sentido das religiões”, entende que elas são fonte de ensinamentos relevantes para o cotidiano das gentes. Recebeu em 1980 o grand prix da Academia Dinamarquesa pelo conjunto da sua obra poética e, no ano 2000, o prêmio de literatura do Conselho Nórdico por seu livro Drømmebroer (”Pontes de sonhos”). Além desses e outros importantes prêmios, Henrik Nordbrandt conta também com o amplo reconhecimento do público leitor, sendo um dos poetas mais queridos da Dinamarca, país que de resto trata a poesia como artigo da maior importância. É também tradutor de poesia turca para o dinamarquês.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

FIGO

Como um figo violeta escuro e maduro demais
que se abriu e revelou
seu âmago carmim com as sementes luzidias e besuntadas
e seca gozosamente debaixo do sol do meio dia
jazes comigo no escuro

FIGEN

Som en sortviolet og overmoden figen
der har åbnet sig og blottet
sit lyserøde indre med den glinsende, fedtede frø
og tørrer nydende ind i middagssolen
ligger du hos mig i mørket

§

DESEJO TE POSSUIR

Desejo te possuir, hás de ser minha.
Teu corpo, tua alma
os segredos mais profujndos
serão minha propriedade.
Não possuirás um fio de cabelo
nem um dente
nem recanto escuro algum
na tua mente
que não me pertença.

Senão, de que maneira
eu poderia te vender
por pilhas de prata e ouro
pedras precisas
e todos os produtos de luxo imagináveis?
Ou quem sabe?
Talvez por uma mera taça de vinho
uma noite com uma puta
um punhado de miçangas coloridas
ou uma faca ordinária
com cabo de corda.

Senão, como eu saberia
o significado de te perder?
Com qual medida
mensurar a tua ausência?

Hei de te perder de qualquer forma.
Perco-te um pouquinho a cada dia.
Nos mercados do Oriente
hei de adquirir um estoque de coisas
pelas quais eu poderia te vender
coisinhas
que hão de me fazer lembrar dos sininhos invisíveis
que os teus movimentos o tempo todo
fazem soar no quarto
e o serpenteio frenético de sedas
naquele ponto
onde o teu pescoço encontra os teus ombros.

E se um dia repentinamente
por acaso viesse a te encontrar
tudo isso eu te daria.

JEG VIL EJE DIG

Jeg vil eje dig, du skal være min.
Din krop, din sjæls
dybeste hemmeligheder
skal være min ejendom.
Du skal ikke have et hår
ikke en tand
ikke en eneste mørk krog
i dine tanker
som ikke tilhører mig.

Hvordan skal jeg ellers
kunne sælge dig
for dynger af sølv og guld
kostbare stene
og alle mulige luxusvarer?
Eller hvem ved?
Måske blot for et glas vin
en nat med en luder
en håndfuld kulørte glasperler
eller en tarvelig kniv
med håndtag af sejlgarn.

Hvordan skal jeg ellers få at vide
hvad tabet af dig betyder?
Med hvad
måle dit fravær?

Miste dig skal jeg alligevel.
Hver dag mister jeg dig lidt.
På Orientens markeder
vil jeg opkøbe sådanne ting
som jeg kunne have solgt dig for
små ting
der vil minde mig om de usynlige bjælder
dine bevægelser hele tiden
får til at ringe i rummet
og en vældig strøm af silke
som det sted
hvor din hals møder dine skuldre.

Og hvis jeg pludselig en dag
tilfældigt skulle møde dig
ville jeg forære dig det hele.

§

O NOSSO AMOR É COMO BIZÂNCIO

O nosso amor é como Bizâncio
deve ter sido
em sua última noite. Deve ter sido,
imagino,
um claridade nos rostos
das pessoas que se aglomeravam nas ruas
ou se reuniam em pequenos grupos
nas esquinas e nas praças
conversando baixinho
isso devia lembrar
da claridade que há no teu rosto
quando tiras os cabelos da frente dele
e me olhas.

Imagino que as pessoas não devem
ter falado muito e apenas de
coisas desimportantes,
que tentavam conversar
mas paravam
sem conseguir dizer o que gostariam
e tentavam outra vez
e desistiam outra vez
e se entreolhavam
e baixavam o olhar.

Por exemplo os ícones antiquíssimos
possuem em si essa claridade
como o clarão de uma cidade em chamas
ou a claridade da morte iminente
que permanece nas fotografias de mortos precoces
nas recordações dos que ficam.

Quando me viro para ti
na cama tenho a sensação
de estar adentrando numa igreja
consumida pelo fogo
há muito tempo
na qual apenas a escuridão nos olhos dos ícones
restou
prenhe das chamas que os destruiu.

VORES KÆRLIGHED ER SOM BYZANTIUM

Vores kærlighed er som Byzantium
må have været
den sidste aften. Der må have været
forestiller jeg mig
et skær over ansigterne
på dem der flokkedes i gaderne
eller stod i små grupper
på gadehjørner og torve
og talte lavmælt sammen
der må have mindet
om det skær dit ansigt har
når du stryger håret tilbage fra det
og ser på mig.

Jeg forestiller mig de ikke har talt
ret meget, og om ret
ligegyldige ting,
at de har forsøgt at tale
og er gået i stå
uden at have fået sagt hvad de ville
og har forsøgt igen
og opgivet det igen
og set på hinanden
og slået øjnene ned.

Meget gamle ikoner f.eks.
har det skær over sig
som ildskæret fra en brændende by
eller det skær kommende død
efterlader på fotografier af tidligt døde
i de efterladtes erindring.

Når jeg vender mig mod dig
i sengen, har jeg en følelse
af at træde ind i en kirke
der er blevet brændt ned
for længe siden
og hvor kun mørket i ikonernes øjne
er blevet tilbage
fulde af de flammer, der udslettede dem.

§

UMA VIDA

Riscaste um fósforo e a chama dele te cegou
e assim não conseguiste achar o que buscavas no escuro
antes de o palito arder entre teus dedos
e a dor te fazer esquecer o que buscavas.

ET LIV

Du strøg en tændstik, og dens flamme blændede dig
så du ikke kunne finde, hvad du søgte i mørket
før den brændte ud mellem fingrene på dig
og smerten fik dig til at glemme, hvad det var.

§

É TÃO IMPORTANTE

é tão importante
de que forma te dizer que

o jeito que tens
de ajeitar o cabelo

quando profundamente
concentrada numa sarda

te refletes certa noite
numa janela que dá para o oeste

é quase tão
bonito quanto a própria primavera

DET ER SÅ VIGTIGT

det er så vigtigt
hvordan man siger til dig at

den måde du har
at rette på håret på

når du dybt
koncentreret om en fregne

en aften spejler
dig i et vestvendt vindu

er næsten lige
så smuk som selve foråret.

§

AGORAFILIA

Tu és o meu amor e o meu desespero.
És a minha loucura e a minha compreensão.
E és também todos os lugares onde nunca estive

e que me conclamam de todos os cantos do mundo.
Tu és esses seis versos
aos quais me restrinjo para não gritar.

AGORAPHILIA

Du er min kærlighed og min fortvivlelse.
Du er mit vanvid og mit indsigt.
Og du er alle stederne, hvor jeg ikke har været

og som kalder på mig fra alle verdenshjørner.
Du er disse seks linier
som jeg må begrense mig til for ikke at skrige.

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