crítica, poesia, tradução

Finn’s Hotel

Finns-Hotel-capaFinn’s Hotel, o dito “livro perdido de James Joyce”, foi publicado pela primeira vez como um volume à parte só em 2013, em junho (só podia), pela editora Ithys Press, numa edição acompanhada de ilustrações do cartunista Casey Sorrow. Ao que parece, pelo menos em sua maior parte, não se trata exatamente de um texto “novo”, nem perdido no sentido arqueológico da palavra, mas de pedaços que já eram algo conhecidos dos estudiosos da obra de Joyce há algumas décadas, com alguns desses textos tendo sido incluídos em A First-Draft Version of Finnegans Wake (1963), de David Hayman – e aí alguns outros, pelo que eu entendi, foram descobertos mais tarde, enquanto o fio condutor que amarra esses textos foi encontrado nas cartas de Joyce. O que causou muita confusão foi a declaração do pesquisador Danis Rose de que esses textinhos, escritos depois de Ulysses, em 1923, e apelidados pelo próprio Joyce de “epiclets” (epiquetos), seriam não um primeiro esboço do Wake, mas uma obra separada que não foi concluída intitulada Finn’s Hotel, cujas partes acabaram posteriormente recicladas – e um exemplo pontual dessa reciclagem pode ser observado no texto 5, “O grande beijo”, em que lemos um parágrafo que começa com “Três quarks para Muster Mark”, que depois aparece assim também na página 383 (livro II, início do capítulo 4) do Wake.

Acadêmicos joycianos do mundo todo, incluindo Hayman, porém, em vez de rejoyciarem, ficaram é muitíssimo contrariados com a alegação de Rose, que qualificaram como “infundada”, “um mal entendido” e “um hoax”. E não é a primeira vez que reagem assim: ele já havia tentado publicar uma versão anterior do Finn’s Hotel em 1992, mas não deu certo, porque, mesmo após ter conseguido a (extremamente difícil) aprovação da família, o bruaá todo assustou os editores (fazendo com que esse seja um dos raros momentos na atualidade em que um incômodo na academia afeta o mundo real, curiosamente). Enfim, se eles têm razão ou não é algo para discutirem futuramente até uma hora chegarem (ou não) a uma conclusão. Em todo caso, o volume que chega a nós – aqui no Brasil na tradução de Caetano Galindo para a Companhia das Letras, que prescinde de apresentações  –, seja ele uma obra distinta ou um esboço do Wake, é uma preciosidade.

falamos anteriormente aqui no escamandro sobre o Finnegans Wake, com um post em que eu apresento e traduzo o finalzinho e começo do livro (quem quiser pode ler um pouco mais sobre o livro num post detalhado do blogue do Mavericco, clicando aqui), e é importante retomar o Wake, porque muitos dos arquétipos e situações que surgem nele aparecem já no Hotel: HCE e ALP, os pais, os filhos (bem, um deles), Tristão e Isolda, os 4 evangelistas, a constituição da Irlanda, a carta, etc. Mesmo o tom, situado entre o cômico (de tendência sexual-escatológica, para variar), o mítico e o lírico amoroso, e a linguagem já são muito próximos do que Joyce viria a fazer, com as distorções e palavras-valise, porém ainda não plenamente inserida e desvairada até a enésima potência no estilo wakiano, de modo que talvez pudéssemos descrevê-la como uma versão light deste. Como tudo nesta fase de Joyce, o título Finn’s Hotel também é uma referência que aponta para diversas direções: a mais óbvia é a semelhança dos nomes Finn’s Hotel e Finnegans Wake, e, de fato, Finn é um nome recorrente no Wake, presente não só dentro do nome Finnegan, o pedreiro da canção, mas também na referência a Finn MacCool (Fionn mac Cumhaill), um gigante da mitologia irlandesa. A outra referência é menos óbvia, porque é biográfica: Finn’s Hotel foi o hotel real na Irlanda onde Joyce conheceu Nora Barnacle, futura Nora Joyce, que lá trabalhava como camareira, e, que, como conta a história, teria pensado que o Jim fosse um marinheiro norueguês. Diferente da edição norte-americana, a edição brasileira parece reforçar esse aspecto temático e emocional da obra joyciana ao apresentar os textos do Finn’s Hotel propriamente com um bônus, que é a tradução de Galindo para o poema em prosa “Giacomo Joyce”, um texto bastante esquisito escrito em 1914 sobre a paixão irrealizada de Joyce (sempre autobiográfico, ao que parece) por uma jovem judia que foi sua aluna em Trieste. Assim como Finn’s Hotel pode ser visto, ainda que algo polemicamente pelo menos por ora, como o “elo perdido” entre Ulysses e o Finnegans Wake, “Giacomo Joyce” já é reconhecido há tempos pela crítica joyciana como um estágio experimental entre o Retrato do Artista Quando Jovem e Ulysses – assim, reunidos, eles dão esse toque duplamente emocional e crepuscular ao volume, que, se não foi intencional, poderia muito bem ter sido.

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Mais sobre esses ecos e recorrências do Wake no Hotel: nos epiquetos 2 e 3 (“Bondade com peixinhos” e “Uma história de um tonel”) temos a figura de Kevin (nome real de um dos dois irmãos em FW… ao passo que o outro se chama Jerry, mas não aparece no Hotel), que aqui é o eremita irlandês Kevin de Glendalough; o mito de Tristão e Isolda é o foco principal de dois textos (5, “O grande beijo”, e 7, “Firmamente ao estrelato”), sendo mencionado também em 6, “Bordões da memória”, que conta ainda com a participação dos 4 evangelistas (na forma de 4 ondas do mar da Irlanda que são também velhos hermafroditas que observam e reescrevem a história da ilha), os que marcam sua presença no Wake enchendo as frases de palavras terminadas em -ation (que é a piada por trás do nome do livro Our Examination Round His Factifiation for Incamination of Work in Progress lançado à época do desenvolvimento do livro), mas que ainda não ganharam o cacoete que viria a distingui-los; o texto 8, “A casa dos cem cascos”, é uma despedida do “último preelétrico rei de toda Irlanda”, Roderick O’Connor, que, ao dar sua última ceia e ir catando os restos dos copos, ecoa uma cena parecida no Wake em que HCE faz o mesmo até desmaiar do porre tomado; o texto 9, “Homem Comum Enfim”, apresenta a narrativa, no registro de lenda de romance de cavalaria, de como ele ganhou seu nome Earwicker, e o texto 10, “Eis que te carto”, é a famosa carta de ALP defendendo/denunciando ao mesmo tempo o marido. No mais, porém, há uma coisa notável aqui que é o fato de este livro ser muito menos edipianizado do que o Wake: enquanto no FW há uma preocupação constante com a temática dos filhos virem a substituir os pais (HCE por Shaun, ALP por Issy, com o casamento entre os dois estruturando a sociedade como um tipo de recalque do incesto), no Hotel essa temática não havia ainda sido desenvolvida absolutamente e tampouco se encontra qualquer coisa sobre qualquer tipo de Queda, outro tema principal do Wake.

Em todo caso, as vantagens da leitura do Finn’s Hotel para qualquer um que queira começar a se arriscar pela parte mais complicada da obra de Joyce (do Ulysses em diante) são evidentes: os textos são poucos (só 10), independentes (na forma de vinhetas distintas, não contínuas) e curtos, e a edição, ainda que enxuta (só 153 páginas em formato de livro de bolso e com as ilustrações de Casey Sorrow ainda, como na edição americana), conta também com notas introdutórias de Danis Rose e Seamus Deane, além do comentário do tradutor e do anexo com o “Giacomo Joyce”. Minha única reclamação é que, como não se trata de prosa “normal”, nem de um texto facilmente disponível online de forma lícita (como é o caso do restante da obra em domínio público), teria sido melhor se a editora tivesse incluído também o texto original de Finn’s Hotel. É claro que, no caso de um livro longo como o Wake, esse tipo de empreitada beira o inviável, já que dobrar o tamanho do livro obriga uma divisão custosa em diversos volumes, mas aqui acredito que daria para inserir o texto em inglês tranquilamente sem comprometer o formato.

Dito isso, compartilho com vocês abaixo o texto de número 6, “Bordões da Memória”, que eu talvez tenha escolhido pelo fato de hoje, data do aniversário de Joyce, ser o dia de Iemanjá. Joyce, que tanto gostava do mar como tema, provavelmente acharia graça da coincidência.

Adriano Scandolara

Ilustração de Casey Sorrow

Ilustração de Casey Sorrow

Bordões da memória

As quatro ondas da Irlanda ouviram também, apoiadas em bordões da memória. Quatro eminentes respeitáveis velhos damaradas pareciam, trajadas em desamassadas vestes demissas para a ocasião, barrete cinza meialtura, casaco alfaiatado a combinar, óculos salares e assim por diante, sabe como, entudo e portudo, fora a salobridade, o quarto visconde de Powerscourt ou North, leiloeiro na anual feira equina da sociedade dublinense.

Tinham visto o que lhes bastasse: a captura de sir Arthur Casement no ano de 1132, a coroação de Brian pelos dinamarqueses em Clonmacnois, o afogamento do Pharaó Phitsharris no mar (prolepticamente) vermelho, o afogamento do pobre Matt Kane de Dunleary, a dispersão da armada Flamenga nas costas de Galway e Longford, o pousio de S. Patrício em Tara no ano de 1798, a separação da frota franca do General Boche no ano de 2002. E era tal sua memória que tinham sido nomeados professores nas quatro principais sés do saber de Erin, as Universidades de Matoucura, Matentodos, Sentrematem, Matimorte-Sôbolo-Chão, donde telegrafavam quatro vezes por semana nos quatro modos da história: passado, presente, ausente e futuro.

Viúvas do mardelargo todos, tinham sofrido muitas eras divórcios sumários de parte das respectivos maridas (com quem se mantinham em termos amicabílimos) por um decreto absoluto exarado pelo Meritíssimo Juiz Piante no tribunal de crimonosos machos matrimoniados de Bohernasondas, um por ineficiência no coçar de dorsos, dois por terem soltado seus gases sem primeiro protocolar solicitação por escrito em papel-ofício timbrado, três por terem tentado toscas familiaridades depois de uma refeição decomposta de siris, quatro em função de suas feições em geral. Apesar de ter isso sido tudo há tanto tempo, podiam ainda puxando pela memória e contando acuradamente os quatro botões liláceos das bragilhas lá das cuelcas recordar o nome das quatro lindas irmãs Salmoroivas que estavam no momento percorrendo os Estados Unidos da África.

Mas de pronto fizeram-se urgicantes, atraídos pela rosa imortal da beleza do Uteromem. Viviam tentacularmente a pender das cinturas náuticas dos botes de Northwall e Holyhead e dos vapores de turistas da Ilha de Man, espiando com glaucomatosos olhos pelas escotilhas cataráticas de cabines de luas de mel ou de apartamentos toaléticos das senhoras dos salões. Mas quando ditos vetustas, as Quatro Ondas de Irlanda, ouviram a detonação da osculação (cataclísmico cataglotismo) que com ostentação (osculum cum basio necnon suavioque) deu Tristão em Isolda, então soltaram alto à roda das praias de Irlanda o uivo do prantocantado dos velhos.

Altissonaram as idosas ondas de Erin em Palestrina melodia a quatro vozes, quatro contra todos, todos em só gáudios de nênias de só solidão dessa idade mas com bárdica licença, havendo em volta de aves e estrelas e ruído o que aprouvesse em quantidade.

Espraiamaram seu poemarola:

Um céu sem aves, tardemar, estrela;
Baixa no Oeste
Amas a imagem, mas mal podes vê-la;
Não esqueceste
Olhos marfrios e as ondas no cabelo
Perfumado
Caindo, que o silêncio há de vertê-lo
Em sol levado:

Um ai por quê,
Um ai por que te hás de lembrar
Um ai,
Rechora, peito meu,
Se num suspiro o amor dela se esvai

Nunca foi teu!

(texto de James Joyce, tradução de Caetano W. Galindo)

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Quatro manhãs de Rimbaud

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Rimbaud, desenhado por Verlaine

 

Aproveitando o embalo da temática do poema em prosa da minha postagem anterior sobre o Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand, geralmente visto como o pai do gênero na França, agora voltaremos nossa atenção sobre Rimbaud. Como se sabe, a obra de Rimbaud inclui, além de poemas famosos em verso propriamente como “Vênus Anadiômene”, “Vogais”, “No Cabaré Verde”, “O adormecido do vale”, “Oração da tarde” e o “Barco bêbado”, dois voluminhos de poesia em prosa chamados Une Saison en Enfer (traduzido ou como “Uma temporada no inferno” ou “Uma estação” ou “Uma estadia”) e Les Illuminations (título dado por Verlaine que pode ser tanto “Iluminações” quanto “Iluminuras” e se refere às ilustrações das páginas de livros medievais). As Iluminações são um volume um pouco complicado, porque foi composto aos trancos e barrancos ao longo de um período maior de tempo (com poemas que seriam anteriores à Temporada ao lado de poemas que datariam de até dois anos após sua publicação) e em diferentes espaços, publicado por Verlaine em 1886, depois que Rimbaud já havia desistido da literatura e partido para a Abissínia.

Já a Temporada no Inferno é uma obra mais coesa, composta sob circunstâncias já bem conhecidas. Em 1872 Verlaine chama Rimbaud de volta a Paris, abandonando a esposa e o filho pequeno (sejamos francos, Verlaine era bem canalha) em julho do mesmo ano para ir com seu amante para Londres. Como apontam críticos (como Niall McDevitt, nesta resenha da Wolf Magazine à data da publicação da tradução de John Ashbery das lluminações para o inglês), as paisagens londrinas, às quais Rimbaud retornaria mais tarde, ao lado do poeta Germain Noveau, tiveram uma influência considerável sobre as imagens mais cosmopolitas da cidade utilizadas em Iluminações, ao passo que a Temporada é uma obra mais notavelmente francesa – como se pode observar, por exemplo, quando Rimbaud reflete sobre sua própria ascendência gaulesa no poema “Sangue ruim”. Em abril de 1873, Rimbaud parte para Roche, de volta à região de Charleville, sua cidade natal, onde começa a escrever a Temporada. No mês seguinte, ele acompanha Verlaine de novo em viagem a Londres. Após muitas brigas, o casal se separa e se reencontra em Bruxelas em julho, onde se passa o episódio mais infame da biografia dos dois poetas, em que Rimbaud tenta mais uma vez romper laços com Verlaine, e Verlaine, ensandecido, atira em Rimbaud, ferindo-o na mão. No hospital, a causa do ferimento é descrita como um acidente (velha história dos relacionamentos abusivos…). No dia seguinte, enquanto caminham, Rimbaud teme que Verlaine fosse atirar nele outra vez e chama a atenção de um policial. Verlaine acaba detido e é condenado a dois anos de prisão, não tanto por agressão ou tentativa de homicídio (o próprio Rimbaud, ao que parece, não queria prestar queixas, nem levar adiante o processo), mas pelo crime de “sodomia”, após ser submetido a certos exames médico-legais escabrosos.

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Enquanto Verlaine se convertia ao catolicismo na prisão, Rimbaud retornava à fazenda em Roche, onde termina de escrever a Temporada. Na sequência, ele pede à sua mãe para que banque a publicação do livro, que sai em outubro do mesmo ano em Bruxelas. E, assim, esse relacionamento tempestuoso com o poeta mais velho, regado a absinto e ópio, acaba marcando tanto o começo quanto o fim desse volume. Não por acaso, há algumas menções (muito pouco) veladas a ele, como no poema “Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal”, em que a tal virgem louca é ninguém menos que o próprio Verlaine, com quem Rimbaud só viria a se reencontrar uma única vez após ele ter saído da cadeia em 1875 – e só para lhe entregar os manuscritos de Iluminações, para serem repassados a Germain Noveau, com quem Rimbaud viveu por três meses em Londres logo após a prisão de Verlaine, em 1874.

Uma Temporada no Inferno consiste de 9 poemas em prosa: uma introdução sem título, “Mauvais sang” (Sangue ruim), “Nuit de l’enfer” (Noite do inferno), “Délires I: Vierge folle – L’Époux infernal” (Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal), Délires II: Alchimie du verbe (Delírios II: a Alquimia do verbo), “L’impossible” (O impossível), “L’éclair” (Relâmpago), “Matin” (Manhã) e “Adieu” (Adeus). Estruturalmente, diferente das Iluminações, em que os poemas não apresentam maiores relações evidentes entre si (e onde a própria ordem de sua apresentação no livro é motivo de discussão), ele revela uma certa unidade de ação, com uma narrativa básica, esquemática, subjacente. No caso, essa narrativa esquemática consiste da catábase do eu-lírico de Rimbaud, que começa a sua descida ao inferno em “Noite do inferno”, tomando veneno, e dele emerge, enfim, transformado, em “Manhã”. Em termos de jornada do herói campbelliana, por exemplo, esse trajeto equivaleria à parte chamada de “abismo”, o ponto mais baixo da jornada, anterior à morte e renascimento simbólicos do herói. Em termos textuais, o que Rimbaud faz vai muito além dos trabalhos de Baudelaire e Bertrand sobre a forma do poema em prosa, ao privar completamente o leitor de qualquer tipo de contexto. Há uma sensação muito peculiar de estarmos tateando no escuro quando lemos esses poemas em prosa de Rimbaud: não sabemos quem fala (é o próprio Rimbaud? um eu-lírico? quanta proximidade ele tem em relação ao Rimbaud real?), nem com quem ele fala, nem onde, quando ou em qual situação, motivo pelo qual essa narrativa que eu descrevi é isso apenas, esquemática. Como resultado, os textos adquirem um caráter enigmático que antecipa e influencia os desenvolvimentos posteriores da poesia moderna.

Em português, que eu tenho notícia, temos 3 traduções desse livro. A primeira foi feita pelo poeta e tradutor Lêdo Ivo (1924 – 2012), com o título de Uma temporada no inferno, publicada em 1957 pela editora Civilização Brasileira, numa edição junto com Iluminações, republicada depois em 1985 pela Francisco Alves. Em 1997, Paulo Hecker Filho (1926 – 2005) publicou pela L&PM a sua tradução, também com o título de Uma temporada no inferno (sem as Iluminações, porém), e a mais recente é a de Ivo Barroso (1929), publicada logo no ano seguinte e ganhadora do prêmio Jabuti do seu ano (reeditada depois em 2007) pela Topbooks, que também já tinha publicado em 1994 a sua tradução da obra poética em verso. A edição de Barroso é a mais abrangente, com o título de Prosa poética: Estadia no inferno, Iluminações, Coração sob a sotaina, Os desertos do amor e Prosas evangélicas, incluindo, como fica claro, além dos dois livros célebres, alguns esboços e fragmentos anteriores. Em 2009, Barroso também publicaria a edição das Correspondência do poeta.

Como costumamos fazer no escamandro, segue abaixo um dos poemas de Uma Temporada/Estadia/Estação no Inferno, “Matin”, o último antes do encerramento do volume em “Adeus”, nas traduções dos três autores. A elas somamos ainda uma quarta tradução, inédita, feita pela jovem Lua Koepsel (1995), aluna de Letras da UFPR e promissora aprendiz de poeta e tradutora literária. A motivação por trás da tradução dela é a de propor uma atualização da linguagem de Rimbaud em português, ao identificar uma tendência arcaizante nas traduções já existentes, que, segundo ela, acaba por homogeneizar a produção de Rimbaud, fundindo a fase de sua produção mais livre em prosa com a sua fase anterior, ainda escrita sob o peso sufocante da versificação francesa – e, com isso, diluindo o impacto do caráter inovador da Temporada no Inferno e Iluminações. Em todo caso, esse tipo de iniciativa me soa como bastante produtiva (quantos tradutores já não começaram por sentir que as traduções já existentes de um poeta, por mais que competentes, seriam, de algum modo inadequadas?), e esperamos que ela dê continuidade ao trabalho.

Seguem as quatro traduções, então – que demonstram que, não é porque um poema (ou um texto em geral) assume a forma de prosa que ele deixa de abrir um leque de possibilidades diversas, nada automáticas ou “naturais”, quando se trata de traduzi-lo.

Adriano Scandolara

Claude Monet - Impressão, amanhecer (1872)

Claude Monet – Impressão, amanhecer (1872)

 

Matin

N’eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d’or, – trop de chance ! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle ? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m’expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave Maria. Je ne sais plus parler !

Pourtant, aujourd’hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C’était bien l’enfer ; l’ancien, celui dont le fils de l’homme ouvrit les portes.

Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l’étoile d’argent, toujours, sans que s’émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur l’âme, l’esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer – les premiers ! – Noël sur la terre !

Le chant des cieux, la marche des peuples ! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

(Arthur Rimbaud)

 

Manhã

Não tive uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em folhas de ouro – Que sorte! Por qual crime, por qual erro, pago com minha fraqueza? Você que imagina os animais chorando com tristeza, doentes desesperados, mortos tendo pesadelos, tente narrar minha queda e meu sono. Eu, eu já não consigo me descrever como mais do que um mendigo com seus Pais-nossos e Ave Marias. Já não sei o que dizer!

Mas hoje creio ter terminado a narração do meu calvário. Calvário rumo ao inferno, aquele antigo, para o qual o filho do homem abriu as portas.

Neste mesmo deserto nesta mesma noite, sempre acordar com os olhos cansados à luz da estrela de prata, sempre, sem piedade dos Reis da vida, três magos, o coração, a alma e a mente. Quando iremos além das praias e dos montes saudar o nascimento do novo trabalho, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, e adorar – os primeiros! – o Natal na terra.

Canto dos céus, marcha dos povos! Escravos, chega de amaldiçoar a vida.

(tradução de Lua Koepsel)

 

Manhã

Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em fôlhas de ouro, – sorte a valer! Por que crime, por que êrro, mereci a fraqueza atual? Vós que achais que animais dão soluços de dor, que doentes desesperam, que mortos tem pesadelos, tratai de narrar minha queda e meu sono. Quanto a mim, posso explicar-me tanto quanto o mendigo com os seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!

Contudo, creio ter terminado hoje a narração de minha temporada no inferno. Era realmente o inferno: o antigo aquêle cujas portas o filho do homem abriu.

No mesmo deserto, à mesma noite, meus olhos cansados sempre despertam sob a estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros! – os primeiros! – o Natal sôbre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Lêdo Ivo)

 

Manhã

Não é verdade, que uma vez vivi uma juventude amável, heróica, fabulosa, digna de gravar-se em páginas de ouro? Incomparável ventura! Por que crime, por que erro vim a ser castigado com a fraqueza de hoje? vós que pretendeis que os animais solucem de dor, que os doentes desesperem, que os próprios mortos sofram pesadelos, procurai aclarar os motivos da minha queda e do meu sonho. Quando a mim, não posso melhor explicar-me do que um mendigo com seus monótonos Pater e Ave Maria. Eu não sei mais falar.

Todavia, agora, creio ter encerrado o relato de meu inferno. Era, não há negar, o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem descerrou.

Do mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos sempre cansados se voltam para a estrela de prata, sempre, sem que os Reis da vida, se comovam, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos enfim, para além das praias e das montanhas, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o desaparecimento da superstição; quando iremos adorar – os primeiros! – a Natividade sobre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Paulo Hecker Filho)

 

A manhã

Já não foi uma vez adorável, heróica, fabulosa a minha mocidade, dessas de se inscrever em páginas de ouro, – promissora demais! Qual o crime, que erro, me fez merecer a miséria de agora? Vós que admitis possam as bestas soluçar de dor, os doentes se desesperarem, terem os mortos sonhos maus, tentai descrever minha queda e meu sono. E por mim, já não me explico melhor do que um mendigo com seus constantes padre-nossos e ave marias. Não sei mais falar!

Hoje creio haver, no entanto, terminado a relação de meu inferno. E era bem o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu.

Neste mesmo deserto, nesta mesma noite, meus olhos cansados despertam sempre à luz da estrela de prata, sempre, sem que se comovam os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar- os primeiros! – o Natal na terra!

O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Ivo Barroso)

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Gaspard de la Nuit

Autoporttrait-Bertrand-Aloysius

Louis Jacques Napoléon Bertrand – ou Aloysius Bertrand, que era como assinava seus textos – foi um poeta francês do começo do século XIX. Piemontês nascido em Ceva, em 1807, à época território francês, Aloysius passou a maior parte de sua vida na cidade de Dijon, cuja variedade arquitetônica de construções do passado, remetendo aos períodos capetiano, gótico e renascentista, serviu claramente de inspiração para a atmosfera de suas composições. Apesar de bem recebido em Paris, onde morou por um breve período, por figuras literárias importantes como Charles Nodier e Victor Hugo, preferiu manter uma vida sem maiores reconhecimentos, trabalhando como jornalista em Dijon mesmo. Seu grande livro, Gaspard de la Nuit: Fantasies à la manière de Rembrandt et de Callot, foi concluído em 1836, mas só pôde ser publicado em 1842, um ano após o autor morrer de tuberculose.

Considerado pioneiro do gênero do poema em prosa, pelo menos em língua francesa, Gaspard de la Nuit é um livro bastante curioso. Ficcionalmente, ele consiste de um livro dentro de um livro, isto é: de seus 65 textos, 64 deles são apresentados como textos contidos em um volume chamado Gaspard de la Nuit, cuja autoria é atribuída a uma figura misteriosa com esse mesmo nome (que, por acaso, é o diabo) que o autor relata ter encontrado no primeiro texto do volume, o mais longo deles, que tem o título “Gaspard de la Nuit”. É um pouco confuso de explicar, mas é fácil de entender com o livro em mãos, observando a sua estrutura: há esse primeiro poema em prosa, mais longo, que carrega o título dos dois livros (o ficcional e o real), só então seguido pelo prefácio e a dedicatória a Victor Hugo e depois a folha de rosto com os dizeres “As Fantasias de Gaspard de la Nuit” e “Aqui começa o primeiro livro das Fantasias de Gaspard de la Nuit”. Ao todo, o volume se divide em 6 seções, chamadas de 6 livros: “Escola Flamenga”, “A Velha Paris”, “A Noite e suas Seduções”, “As Crônicas”, “Espanha e Itália” e “Silvas”, ao que se segue uma segunda dedicatória, a Saint-Beuve, e uma sétima seção chamada de “Peças Soltas: Extraídas do Portfólio do Autor”. O subtítulo do volume – fantasias à moda de Rembrandt e Callot – remete a dois pólos simbolicamente representados pelos dois gravuristas que, para o tal Gaspard, formariam o esboço de uma teoria estética exposta pela obra: Rembrandt seria, segundo o prefácio, “o filósofo de barba branca que se encolhe em seu reduto, que absorve o pensamento na meditação e na prece, que fecha os olhos para se recolher, que se entretém com os espíritos da beleza, da ciência, da sabedoria e do amor, e que se consome a penetrar os misteriosos símbolos da natureza”, ao passo que Callot “é o soldado fanfarrão e chulo que se pavoneia em público, que faz barulho na taverna, que acaricia as filhas dos ciganos, que não jura senão por seu espadagão e sua escopeta, e que não tem outra preocupação que não a de encerar o bigode”. Algo como os pólos Ariel e Calibã do nosso Álvares de Azevedo então, mas talvez aqui mais mistos do que separados, como são na Lira dos Vinte Anos.

Em português, temos uma tradução de Gaspard de la Nuit feita pelo poeta e tradutor José Jeronymo Rivera e publicada pela editora Thesaurus, de Brasília, em 2003, com prefácio de Xavier Placer. É dela que eu retiro os poemas em prosa que reproduzo abaixo, tanto como uma muito necessária divulgação de uma edição importante, quanto como um ponto para futuras discussões aqui sobre o poema em prosa. Rivera também foi tradutor responsável por volumes como Poesia Francesa: Pequena Antologia Bilíngüe, Cidades Tentaculares, de Émile Verhaeren, e Rimas, de Gustavo Adolfo Bécquer (esses três também pela Thesaurus), além de Poetas do Século de Ouro Espanhol (2000) e os volumes de tradução de Victor Hugo, O Sátiro e Outros Poemas (2002) e Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia (2002). Mas talvez antes fosse interessante fazermos uma breve digressão sobre essa forma algo polêmica que é o poema em prosa.

Gaspard-de-la-nuit (Félicien Rops)Apesar de desconhecido em vida, Bertrand foi lido por ninguém menos que Baudelaire, que confessa sua influência na composição de seu próprio volume de poemas em prosa, Le Spleen de Paris (1869). A questão de o que diabos é a poesia em prosa é um assunto espinhoso: Bertrand costuma ser creditado como pai do gênero, mas Xavier Placer já identifica um antecessor em William Blake, no Matrimônio do Céu e do Inferno (1790), ao que poderíamos somar ainda, na Alemanha, o exemplo dos Hinos à Noite (1800) de Novalis, que misturam prosa e verso. E então em Baudelaire encontramos provavelmente a encarnação mais influente da forma em sua versão moderna, oscilando entre a dicção romântica, dotada do medievalismo e temas sentimentais e metafísicos que marcam essas obras anteriores, e o rumor das ruas da vida urbana, que também são elementos constituintes da poesia em prosa das Illuminations e Une Saison en Enfer, de Rimbaud. Não posso pretender dar qualquer resposta sobre o que define de fato o poema em prosa – em oposição aos outros tipos de prosa, como a prosa narrativa dos contos e dos romances –, mas, se me perguntassem, eu arriscaria começar a discussão afirmando que se trata de uma questão de foco. Quando um prosador começa a escrever um conto ou um romance, ele costuma ter uma ideia geral de como são os personagens que terão parte nele (sua personalidade, suas motivações, sua história de fundo) e das situações às quais eles estarão submetidos – e então a narrativa trata de avançar essas situações (i.e. o enredo) e expor e desenvolver a personalidade desses personagens. Acredito que essa seja a fórmula mais básica para resumir, em pouquíssimas palavras, o funcionamento da maioria dos romances, mesmo os mais atípicos em que nada acontece e em que a ação é inteiramente ou quase inteiramente psicológica, como foram, no século XIX, Às Avessas, de J. K. Huysmans, e Os loureiros estão cortados, de Edouard Dujardin. E o conto, em sua encarnação mais comum (óbvio que não em casos aberrantes como alguns dos contos de Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace, por exemplo), tende a seguir por esse mesmo caminho, porém de forma mais concentrada ou fragmentária. O poema em prosa, porém, parece ter outras preocupações: os textos de Bertrand, de fato, apresentam personagens, mas são esquemáticos, personagens-tipo, narradores anônimos e figuras sobre as quais sabemos muito pouco, mesmo quando de fato têm nome, que emergem e somem no espaço de uma ou duas páginas que a maioria desses poemas ocupa, antes que pudéssemos saber mais sobre elas. E as situações, no geral, são bastante ordinárias: não a culminação dramática dos eventos a que visa a unidade de ação de Poe, nem a epifania dos contos de Joyce, mas cenas, quadros, breves retratos, que, antes de tudo, servem de pretexto para imagens e impressões poéticas – aquilo que costuma-se chamar de lírico, que George Steiner, em A morte da tragédia, identifica como o principal modo de expressão do romantismo (e daí em diante), o modo da poesia que passa a predominar, enquanto os outros dois, o épico e o dramático, se transformam em outras coisas (o teatro passa a preferir a prosa, mas os poetas ainda compõem peças em verso para serem lidas e não encenadas, e a prosa também passa a ser preferida para as narrativas longas, ao passo que a epopeia se transforma em algo bastante diferente do romantismo em diante, como atestam poemas como Mensagem, de Pessoa, ou Os Cantos, de Pound).

E é óbvio que o lírico também pode fazer parte da prosa narrativa – e nos melhores casos ele faz mesmo, mas com parcimônia, surgindo em momentos chave (o meu exemplo favorito disso é o final emblemático de “Os Mortos”, de Joyce), enquanto nos exemplos menos felizes, a insistência nesse registro de linguagem em detrimento do avanço da narrativa ou da adequação de tom entre o registro e a cena sendo descrita resulta no que em inglês chamam de “purple prose”. O exemplo mais clássico desse tipo de prosa florida é o clichê “It was a dark and stormy night…” que abre o romance Paul Clifford (1830) de Edward Bulwer-Lytton. Não por acaso, existe o concurso Bulwer-Lytton da San Jose State University, que desde 1983 tem dado prêmios anuais para os autores das piores frases de abertura possíveis para um romance, que costumam seguir nessa verve cheia de floreios excessivos. Com isso, é possível notar já que o poema em prosa é, desde o princípio, um gênero arriscado, tendo como seu objetivo, no século XIX, um tipo de exuberância da linguagem que o século XX passaria a ver como mero acessório na prosa narrativa, o que o levou, obviamente, a ter de se modificar também – e podemos observar com Gertrude Stein um outro rumo que o gênero viria a tomar então, focado na autonomia radical da linguagem, o que também poderíamos enxergar como o principal elemento das imagens evocativas do poema em prosa do XIX, que se realizou, porém, de outra maneira. Acho que temos aí um bom ponto inicial para a discussão do assunto.

Seguem, então, 7 desses breves poemas em prosa de Bertrand, acompanhados pela suíte para piano Gaspard de la nuit: Trois poèmes pour piano d’après Aloysius Bertrand, de Ravel, que consiste de 3 peças inspiradas por 3 poemas, “Ondine”, “Le Gibet” e “Scarbo”. Os poemas que selecionei abaixo incluem os 3 poemas que inspiraram Ravel (em português, “Ondina”, do livro 3, e “Scarbô” e “Cadafalso”, do livro de peças soltas) e mais 4 outras peças interessantes dos outros livros (“O alquimista”, do livro 1, “O lampião”, do livro 2, “A um bibliófilo”, do livro 4, e “A cela”, do livro 5). Os originais em francês podem ser conferidos no site do Project Gutenberg, clicando aqui.

Adriano Scandolara

 

O alquimista

Nossa arte se aprende de duas maneiras, ou seja, com o ensinamento de um mestre, boca a boca, e de outra forma, pela inspiração e revelação divinas; ou então pelos livros, que são muito obscuros e confusos; e para nestes achar-se concordância e veracidade convém ser muito sutil, paciente, estudioso e vigilante.

A Chave dos Segredos da Filosofia,

de Pierre Vicot

Nada ainda! E em vão folheei durante três dias e três noites, à luz pálida da lâmpada, os livros herméticos de Raimundo Lúlio.

Não, nada, apenas, com o silvo da retorta brilhante, o riso debochado de uma salamandra, que se diverte a perturbar minhas meditações.

Logo lança uma fagulha a um pêlo de minha barba, logo solta com o estilingue uma fagulha em meu casaco.

Ou então lustra uma armadura e é agora a cinza do forno que sopra sobre as páginas de meu in-fólio e sobre a tinta do tinteiro.

E a retorta cada vez mais cintilante silva igualzinha ao diabo, quando Santo Elói lhe aperta o nariz com a tenaz na forja.

Mas nada, ainda! E durante três outros dias e três outras noites vou folhear, sob os lampejos pálidos da lâmpada, os livros herméticos de Raimundo Lúlio.

 

O lampião

O MASCARADO – Está escuro, empresta-me a lanterna.
MERCÚRIO – Bah! as lanternas dos gatos são os olhos.

Uma Noite de Carnaval

Oh! Por que estou, esta noite, condenado a me encolher contra a tormenta, eu, pequeno lampião de calha, no lampião maior da Senhora de Gourgouran!

E achava graça, ouvindo um espírito encharcado pelo aguaceiro rosnar em torno da casa luminosa, sem poder encontrar a porta pela qual eu entrara.

Em vão me suplicava, transido de frio, que lhe permitisse ao menos acender o pavio em minha chama para achar o caminho.

De repente, o papel amarelo da lanterna se inflamou, atingido por um golpe de vento que fez gemer as tabuletas penduradas como se fossem bandeiras.

– Jesus! Misericórdia! gritou a devota, benzendo-se com cinco dedos.

– O diabo te atanaze, feiticeira! gritei, cuspindo mais chamas que os fogos de artifício.

Que lástima, logo eu, que ainda esta manhã rivalizava em graça e enfeites com o pintassilgo de brincos escarlates do donzel de Luynes!

 

Ondina

…………………Eu pensava escutar
Uma vaga harmonia encantando meu sono,
E, junto a mim ouvia um murmurar igual
Ao canto singular de uma voz triste e terna

Ch. Brugnot: Os Dois Gênios

Escuta! Escuta! Sou eu, Ondina, que roço com gotas de água os losangos sonoros de tua janela iluminada pelos tristes raios da lua; e também, em vestes de tecido ondulado, a castelã, que contempla de sua varanda a bela noite estrelada e o belo lago adormecido.

– Cada onda é um ondino nadando na corrente, cada corrente é um caminho serpenteando rumo ao meu palácio, e meu palácio foi erguido fluido, no fundo do lago, no triângulo do fogo, da terra e do ar.

– Escuta! Escuta! Meu pai bate a água murmurante com uma vara de álamo verde, e minhas irmãs acariciam com seus braços de espuma as frescas ilhas de ervas, de nenúfares e de gladíolos, ou zombam do salgueiro caduco e barbudo que pesca com sua linha.

*

Sua canção murmurada, suplicou-me que recebesse em meu dedo seu anel, para tornar-me esposo de uma Ondina, e que visitasse com ela seu palácio, para tornar-me o rei dos lagos.

E como eu lhe respondesse que amava uma mortal, ela, amuada e com ciúmes, derramou algumas lágrimas, deu uma gargalhada e dissolveu-se entre jorros de água, que escorreram brancos ao longo de meus vitrais azuis.

 

A um bibliófilo

Crianças, agora só existem cavaleiros nos livros.

Contos de uma Avó a seus Netinhos

Por que iremos restaurar as histórias carunchosas e empoeiradas da Idade Média, agora que a cavalaria foi-se embora para sempre, acompanhada dos cantos de seus menestréis, dos encantamentos de suas fadas e da glória de seus valentes?

Que importam – a este século tão incrédulo de nossas lendas maravilhosas – São Jorge rompendo uma lança contra Carlos VII no torneio de Luçon, o Paracleto descendo à vista de todos sobre o Concílio de Trento reunido e o Judeu Errante abordando, perto da cidade de Langres, o Bispo Gotzelin, para narrar-lhe a Paixão de Nosso Senhor?

As três ciências do cavaleiro são hoje menosprezadas. Ninguém mais está curioso de saber que idade tem o gerifalte cuja cabeça se coroa, com quais peças o bastardo compõe seu escudo e a que horas da noite Marte entra em conjunção com Vênus.

Toda a tradição da guerra e do amor está esquecida, e minhas histórias não vão ter nem mesmo a sorte do lamento de Genoveva de Brabante, do qual o vendedor de imagens não sabe o começo e jamais soube o fim.

 

A cela

A Espanha, o país clássico das confusões, dos golpes de punhal, das serenatas e dos autos-de-fé.

Extraído de uma Revista Literária

……………E eu não ouvirei mais
Ferrolhos se fechando sobre o eterno recluso.

Alfred de Vigny: A Prisão

Monges tonsurados caminham lá embaixo, silenciosos e meditativos, rosário na mão, medindo lentamente, de coluna em coluna, de tumba em tumba, o pavimento do claustro que um eco fraco permeia.

*

– Ó tu, este é teu lazer, jovem recluso que, sozinho na cela, te divertes traçando figuras diabólicas sobre as páginas brancas de teu livro de orações, e pintando com impura cor ocre os ossos dessa cabeça de morto?

Não esqueceu o jovem recluso que a mãe é uma cigana, e o pai, chefe de ladrões; e lhe agradaria mais ouvir, ao nascer a manhã, a trompa soando o toque de montar a cavalaria do que o sino tangendo as matinas para correr à igreja!

Não esqueceu que dançara o bolero nos rochedos da serra de Granada com uma morena de brincos de prata e castanholas de marfim; e gostaria mais de fazer amor no campo dos ciganos que de rezar a Deus no convento.

Uma escada foi trançada em segredo com a palha do leito; dois barrotes foram serrados sem ruído com a lima, e do convento à serra de Granada a distância é mais curta que a do inferno ao paraíso.

Logo que a noite fechar todos os olhos e adormecer todas as suspeitas, o jovem recluso acenderá a lanterna e escapará da cela a passos furtivos, com um bacamarte sob a sotaina.

 

Cadafalso

O que vejo agitar-se em torno deste patíbulo?

Fausto

Ah! O que ouço será o vento noturno a soprar, ou o enforcado exalando um suspiro na forca patibular?

Será algum grilo cricrilando escondido na grama e na hera estéril, com a qual por piedade se aduba o bosque?

Ou será alguma mosca a caçar, soando sua trompa junto às orelhas surdas à fanfarra dos toques de caça?

Será algum escaravelho que colhe em vôo desigual um pêlo sangrento do crânio calvo?

Ou será talvez uma aranha bordando meia vara de musselina para uma gravata a ser atada no pescoço estrangulado?

É o sino que tange nos muros de uma cidade abaixo do horizonte, e a carcaça de um enforcado que o sol poente avermelha.

 

Scarbô

Procurou sob o leito, na lareira, na arca: ninguém. Não pôde compreender onde ele se havia introduzido, nem por onde se evadira.

Hoffmann: Contos Noturnos

Oh! Quantas vezes ouvi e vi Scarbô, quando à meia-noite a lua brilhava no céu como um escudo de prata, por sobre o manto azul semeado de abelhas de ouro!

Quantas vezes o ouvi zumbir seu riso na sombra de minha alcova, e arranhar com a unha a seda das cortinas de meu leito!

Quantas vezes o vi descer do teto, piruetar sobre a ponta do pé e rolar pelo quarto como o fuso tombado da roca de uma feiticeira!

Pensava-o desaparecido? o anão crescia entre mim e a lua como o campanário de uma catedral gótica, com um guizo de ouro suspenso no boné pontudo!

Mas logo seu corpo se azulava, diáfano como a cera de uma vela, o rosto empalidecia igual à cera de um toco – e de repente ele se extinguia.

 

(poemas de Aloysius Bertrand, traduções de José Jeronymo Rivera)

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James Joyce, Finnegans Wake

james-joyceO irlandês James Augustine Aloysius Joyce (1882 – 1941) é provavelmente o mais badalado dos escritores do século XX – qual outro, afinal, tem um dia, como o de hoje, dedicado a si? Ou pior, aliás, não a ele propriamente, mas a um personagem que foi criação sua. E, no entanto, ele teve uma carreira razoavelmente enxuta, consistindo de um livro de contos chamado Dublinenses (1914), o Bildungsroman autobiográfico Retrato do Artista Quando Jovem (1916), o monumental romance Ulysses (1922) e a bizarra obra experimental Finnegans Wake (1939), além de dois livros de poemas – Chamber Music (1907) e Pomes Penyeach (1927) –, uma peça de teatro (Exiles, de 1918) e um livro infantil (O Gato e o Diabo) que brotou meio que espontaneamente a partir de cartas para o seu neto, o terrível Stephen James Joyce. Completam a sua bibliografia póstuma algumas obras mais fragmentárias como Giacomo Joyce, Stephen Hero e o há pouco tempo descoberto Finn’s Hotel, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras na tradução do Caetano Galindo, que fez fama recentemente por conta de sua tradução do Ulysses e desde então tem ficado inacessível com todas as viagens ao castelo de Caras e tudo o mais (mais sobre esse textinho curioso que é o Finn’s Hotel pode ser lido no blog do Caetano no site da Companhia clicando aqui).

Apesar de ter escrito dois livrinhos de poemas, Joyce é melhor conhecido como prosador do que como poeta, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, ele merece um lugar nas discussões sobre poética e poesia, não por causa desses dois livrinhos, mas pelo Finnegans Wake – que, como se sabe, ao lado da obra de cummings, Mallarmé e Pound, foi elencado pelos irmãos Campos como base para a poesia concreta, como expresso em seu manifesto.  A princípio visto como um romance, o Wake vai muito além da forma romanesca, mas imagino que seja necessário dizer algumas palavras para explicar o porquê de se afirmar esse tipo de coisa.

Para se começar a entender o que é o Wake é bom partir do Ulysses ou do Retrato. Em ambos os casos temos textos que são difíceis, mas não se trata de uma dificuldade gratuita. No caso do Retrato, porque ele acompanha desde a infância a trajetória de vida do seu protagonista Stephen Dedalus, alter-ego do próprio Joyce, o autor achou que seria razoável empregar uma linguagem que acompanhasse o desenvolvimento da própria linguagem e pensamento do seu protagonista – por isso temos nele um dos começos mais absurdos de qualquer romance do ocidente, escrito na linguagem infantil do idade que o protagonista tinha nesse momento da narrativa: “Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo…”  No caso do Ulysses, esse procedimento continua, sondando os processos de pensamento dos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom, inclusive em estados algo alterados de consciência (no episódio 9, por exemplo, chamado de Cila e Caríbde, Stephen está bebaço… depois no 15, Circe, há o recurso de alucinações), e, para sermos breves, boa parte dos recursos de que Joyce se vale que acabam deixando a leitura pouco transparente se justificam por conta desse objetivo. E essa é a chave para sairmos do Ulysses e entrarmos no Wake: se o Ulysses é o livro do dia e acompanha os seus personagens nos momentos de consciência, da hora em que se levantam de manhã até quando se deitam de madrugada, o Wake é o livro do sono, em que Joyce aplica técnicas semelhantes para tentar dar conta de representar esse mundo noturno do inconsciente ou subconsciente. E é aí que as coisas começam a ficar mais violentas, porque, como todos sabem, tentar contar um sonho para alguém usando a linguagem normal do cotidiano é uma das experiências mais frustrantes da nossa comunicação, porque o sonho não obedece a uma lógica que não a sua lógica própria, em que as coisas não são exatamente o que elas aparentam (uma pessoa num sonho, por exemplo, pode ser e não ser a pessoa que se vê) e as cenas são instáveis. Portanto, tendo isso como matéria-prima para o livro, Joyce não poderia ficar satisfeito usando uma linguagem mais normal. Eis aí o ponto de entrada do Wake.

Ilustração de John Vernon Lord para o Finnegans Wake (2014)

Mas tem mais: o Wake também não tem bem um enredo ou personagens: em vez disso, ele trabalha com arquétipos míticos (já diz Campbell, não por acaso um dos primeiros estudiosos do Wake, que o sonho é o mito privado, e o mito, o sonho coletivo, havendo portanto uma relação entre as suas linguagens). Um deles é o HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), que é o arquétipo paterno masculino heroico e representa todas as figuras que já sofreram uma Queda, desde as mais elevadas, como Adão, Lúcifer ou o gigante adormecido da mitologia céltica Finn McCool, até o político irlandês Charles Parnell (que sofreu famosamente uma queda simbólica, causada por um escândalo sexual que abalou sua carreira política), o personagem carrolliano Humpty Dumpty e o pedreiro Finnegan da canção tradicional “Finnegan’s Wake” (que dá título ao livro), que cai do andaime e ressuscita no velório quando derrubam uísque no seu caixão. A esposa de HCE é ALP (Anna Livia Plurabelle), um arquétipo feminino materno, que é representada ao mesmo tempo por um rio (enquanto HCE é uma fálica montanha), mais especificamente o rio Liffey, tradicionalmente visto como feminino entre os irlandeses (como bônus, “rio” em gaélico é An, quase o nome Ana), e por uma árvore. As siglas HCE e ALP funcionam como um tipo de assinatura ao longo do texto, marcando sutilmente a presença dos dois arquétipos sem que seja necessário mencioná-los explicitamente.

Como figuras parentais, os dois estão em vias de serem freudianamente substituídos – HCE dorme e ALP perde as folhas – pelos seus filhos, que são outros três arquétipos: a filha Issy, que representa personagens femininas que tenham sido objeto do desejo masculino, como a Isolda de Tristão (Issy, Isolda…), cujo seu símbolo é uma nuvem (relacionada, portanto, ao rio, que é a mãe), e os dois gêmeos rivais Shem e Shaun, que representam todos os irmãos e rivais, como Caim e Abel, Esaú e Jacó, Set e Hórus, o anjo Miguel e o Diabo, a formiga e o gafanhoto, e assim por diante. Shaun é o “gêmeo bom”, que irá substituir HCE, arranjar um bom emprego (provavelmente como funcionário público) e se tornar o patriarca da família burguesa, ao passo que Shem é a ovelha negra, um artista, poeta e músico, e por isso é marginalizado. Há ainda alguns outros personagens menores, mas esse é basicamente o núcleo do livro. Como as identidades são fluidas e não há personagens fixos, também não há um enredo propriamente dito, mas várias pequenas narrativas que vão se amarrando frouxamente.

A linguagem usada para o livro, então, também reencena essa indeterminação e é composta basicamente de palavras-valise, o que é uma forma mais avançada de trocadilho (para um exemplo brasileiro, pense na linguagem do Catatau de Leminski, que é basicamente joyciano em seu funcionamento), e, mais do que isso, Joyce as cria com base em jogos de palavras interlinguísticos: assim, a primeira palavra do livro “riverrun” é ao mesmo tempo uma combinação óbvia de “river” (rio) e “run” (correr), mas também contém em si uma sugestão de Liv e An (a ALP, portanto, que, lembremos, é o rio) e as palavras “riveranno” (retornarão) do italiano e “revêrons” (sonhemos) do francês. Ela também é, famosamente, a última palavra do livro, porque ele apresenta uma estrutura circular, e a sua última frase deságua no começo. Para quem se interessar pelo assunto, eu mesmo escrevi um artiguinho sobre isso que foi publicado na revista Signo da UNISC e pode ser acessado clicando aqui. Há ainda mais algumas coisas sobre as quais eu poderia me demorar aqui, como o fato de que Joyce se baseou na teoria de Giambattista Vico sobre a história para a estrutura cíclica do Wake, a questão das palavras-trovão (palavras de 100 letras que marcam quedas ao longo do livro) ou o problema posto por alguns críticos sobre se existe um romance tradicionalmente normal por trás da superfície aberrante do texto ou se ela é o que ela é (o que eu pessoalmente acho que é a interpretação mais interessante, sem tentar normalizar o que não é normalizável), mas estamos já correndo o risco aqui de deixar esta introdução longa demais.

O importante, no entanto, é que o que Joyce conseguiu fazer foi criar um texto fertilíssimo, profundamente engraçado (o humor de Joyce tende muito para o obsceno, o que, não por acaso, foi uma das coisas que horrorizou a aristocrática Virginia Woolf) e ao mesmo tempo triste e doloroso. A chave de leitura para se ter acesso a essas coisas, no entanto, repousa não em tentar compreender o texto à moda da leitura tradicional, mas em ir entrando nesse jogo de livre-associação – e as tentativas de tradução do Wake também refletem isso, como fica claro nas traduções feitas pelos irmãos Campos em seu Panaroma do Finnegans Wake (sim, a palavra é panaroma mesmo, em contexto, “panaroma of all flores of speech“), que contém traduções de trechos do livro. Já a tradução integral para o português foi feita por Donaldo Schüller e publicada em 5 volumes pela ed. Ateliê, com o título Finnegans Wake / Finnícius Revém. O Caetano Galindo também vem traduzindo pedaços do livro, e um dos trechos foi publicado na Ilustríssima no ano passado (clique aqui). E, porque tentar traduzir o Wake é o tipo de coisa que diverte gente depravada como nós, eu também tenho brincado aqui e ali. O trecho que eu gostaria de compartilhar com vocês agora, então, é a sequência final, em que ALP se dissolve no mar ao mesmo tempo em que perde sua última folha (sim, o trocadilho com a última folha do livro é intencional) e o (re)começo, um trecho belíssimo, por sinal. Vocês podem acompanhar o texto original no site FinnegansWiki (que conta também com hiperlinks apontando para referências e tudo o mais). Minha tradução começa onde diz “My lips went livid for from the joy of fear” na página 626. O texto prossegue, então, até a página 628, onde a frase inacabada “A way a lone a last a loved a long the” se conclui no “riverrun” da página 3, e eu prossigo mais um pouquinho até a página 5, onde começa a narrativa (?) do HCE, apresentando-o em termos bélicos e bíblicos. A paginação, curiosamente, é algo que tende a ser mantido igual em todas as edições do livro, por isso eu também decidi quebrar aqui as linhas de modo a imitar mais ou menos como é no original, ainda que elas não formem versos de fato (em suma, é o mesmo procedimento do Catatau).

PS: e antes que possam me acusar ou de plágio ou de ter tirado do… erm, da cartola essas interpretações todas sobre o livro, eu gostaria, em primeiro lugar, de creditar o prof. Caetano por boa parte do que eu apresentei aqui (após todos esses anos, afinal, eu já não sei mais ao certo o que é comentário de outros autores, o que é comentário original dele com base nesses outros autores e o que é corrupção minha do que ele ensinou), sem o qual minhas tentativas de leitura (que dirá de tradução) do Wake seriam bem mais difíceis. Em segundo lugar, há também uma rica bibliografia sobre o Wake que inclui, além do Panaroma dos Campos, o livro Para ler Finnegans Wake de Joyce, de Dirce Waltrick do Amarante, o Skeleton Key to Finnegans Wake, de Joseph Campbell, e A Obra Aberta e The Aesthetics of Chaosmos: The Middle Ages of James Joyce, de Umberto Eco, que são uma bela literatura de acompanhamento para quem quiser estudá-lo mais a fundo.

(Adriano Scandolara)

John-Vernon-Lord_Finneganswake2

…Meus lábios livoraram para dá alegria do medo. Como quase agora.
Como? Como você disse que me daria as chaves do coração meu.
E seríamos casados até que amorte fossepare. E mesmo que cin nos
sersparemos. Ó, os meus! Só que, não, agora sou eu quem tem que ceder.
Como fis em si o fes. Ond’água-redonda. E será que nu er hora de mme
ddespedir? Hílas! Queria eut ertido mais relances de tespiar nesta luz crescente
dalvo rada. Mas estás te transformando, aculcha, para além de mim,
eu o sinto. Ou será que sou eu? Estou banzeira. Clareia

afora, dentro aperta. Sim, estás te transformando, maridilho, e
mudando, posso te sentir, por uma filhesposa das colinas
ou travez. Inlamaya. E ela vem. Nadando lago atrás de mim.
Margulhando, vadeando retra. Só um súbito lúbrico audaz vivaz búteo
bote bater de algo paralá, saltilhando. Saltarela componha
se. Tenho pena do seu velhosser ao qual mea costumei. Há umais nova agora.
Tente não ir! Alegria, meus queridos! Que eu me engane! Pois ela
te será doce como eu flui doce quando desci da mãe
minha. Meu grande quarto azul, o ar tão quieto, mal há nuvens.
Em silêncio e paz. Podia ter ficado lencima para sempre apenas.
É algo falha conosco. Primeiro a gente é mágoa. Depois água. E que ela garoe
agora se quiser. Suave ou forte se quiser. Que ela garoe pois
é chegada minh’hora. Fiz o melhor quando pude. Sempre pensando
seu me for tudo vai. Centena de cuidados, dízima de angústias e
há um só alguém que me entenda? Alguém em mil anos e as
noites? Vida toda fui ali vivida entre eles mas agora
começo a letestar-lhes. Letesto seus truquezinhos
mornos. Letesto suas voltas gostosas e más. E toda
golfada galfarra que jorra de suas alminhas. E toda vazão vadia a
gotejar em seus seres sincelos. Minúsculo como é tudo! E eu
me revelando para mim só ver sempre. E o tempo inteiro cuculando. Pensei
que estivesses todo resplandecente com a mais nobre das carruagens. Tudo
abobrinha. Te pensei fabuloso em todas as coisas, na falta e na
fama. Não passas dum simplório. Lar! Meu povo não era seu tipo lá
além até onde posso. Pois por tudo que hade árduo e audaz e
anúvio são elas as rés, as bruxas-do-mar. Não! Nem por todas feras
danças em sua fera dinarmonia. Dá para mim ver entre elas, ala-
-niúvia pulcrabela. Como era bonito, a fera Amaza,
quando se agarrava ao meu outrosseio! E o que é estranha,
soberba Niluna, que ela venha roubar de minhas propríssimas madeixas! Pois
assim são elas procelas. Ho hang! Hang ho! E o encontro de nossos
clamores até primarmos em vera liberdade. Aurévola, dizem, nunca
prestanção ao seu nome! Mas eu os testo os que estão aqui e tudo letesto.
Solunária em minha soltude. Por todas suas falhas. Desmaio. Ó
amargo fim! Terei me folhado antes que acordem. Jamais verão.
Nem saberão. Nem saudade. E é velho e velho é triste e velho é

moroso e triste voltar a ti, gélido pai, gélido pai louco,
gélido pai sombroso e louco, até a vera visão da sua mera
imensão, suas molhas e molhas, a se lamumamurianar, me deixe
salmeada, maroura, e eu corra, só para ti, teus braços serguendo, eu os vejo!
Me sal vadas trríveis pontadas! Dois mais. Um dois
trestão mais. Assim. Avelavalem. Zarparam minhas folhas de mim.
Todas. Mas umainda resta. Eu atrarei comigo. Lembrar-me de. Lff!
Tão garoa esta aurora, tão nossa. Sim. Me leva contigo, baizim, como
naquela vez na feirinha! Seu vi ele descendo sobre mim agora
sob alviabertas asas como se viesse do Arcanciel, afundo
eu morreria a teus pés, me humilho, durmilho, em riverânsia. Sim,
tid. Eis onde. Primeiro. Passamos os ramos, calem-seas calêndulas para.
Uixe! Uma ati. Atis. Ao longe voz. Chega, ao longe! Sencerraqui. Nós
então. Outra Finnavez! Leva. Massuavemeen, mimemória! Até teumile-
-unfim. Lbs. Chaves do. Suas! A via a sós a mor a fim a
lém das

        rivieras, passando Eva e Adão, da curva da costa à boca
da baía, nos leva por um cômodo vico de recirculação de volta
a Howth, Castelo e Entornos.
        Sir Tristão, a violar d’amores, vind’ao breve mar, não reche-
-gava passâncora da Armórica do Norte, do lado de lá do istmo
rugoso da Europa Menor, para cedenfrentar sua guerra penisolar; nem
haviam as rochas de Topessóia pelo rio Oconee selhexagerado até
os górgios do Laurêncio condado enquanto dubliavam seus múmperos
o tempo todo: nem um chá mado ardistância foleado mishe mishe para
tauftauf turfés-petrício: nem ainda, mas sem vanesitar muito,
um cabritim acurdido um Isaac ceco: ainda não, embora tudo seja válido
na vanessidade, irmaviam as sósias sestras enroivado com o doizum nathandjoe.
Roto um pico de malte do pai, tivesse Jhem ou Shen fermentado aluz do
arco e rórido fim ao regiobogre a ser visto solanelado n’aquaface.
        A queda (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerr-
-onntuonnthunntro-varrhounawnskawntoohoohoordenenthur-
-nuk!) de um comparsalmão walltrora todo restrito é recontecida cedo na cama
e mais tarde na vida por toda a menestrelaria cristã. A grande queda
do murônfalo caudou tão sem aviso prévio o pftjschute de Finnegan,
que até pouco atrás eira im sólito homem, que a rampadampla de sua cucorcanda
prantamente manda um enquisidor rumo ao ocidente frente à busca de seus
dandandedões: e suas apontapiquepontoportagens estão em nocaute
no parque onde laranjas foram enterrujadas sobre o verde desde que
pela prima vez devlin amou livvy.

        Que embates cá deus ejos gen desejos, ostragodos gagam pisci-
-godos! Brékkek Kékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu Ualu Ualu!
Quaouauh! Onde os partesões bodelérios ainda
buscam matematar Malacos Micgrãos e Verdugos cates-
-calpelam a camibalística dos Uaiteboçais da Cabeça
Encowthberta. Austrigaitas e bumeranstroms. Ovo escolhido, sede-me medo!
Sãoglórios, salve! Armes trogam aos larmes, tronejantes. Mortemorte-
-mor: um foi, um foi. Que acidanças, que custelos se abriram
e ventilaram! Os mefaçamários desagarrados pelos tegotetab-
-solutos! Que vero sentido pelos seus palhos, com que voz
fenomenal de falso hicó. Ah, hora hora, como espre espreilhando vira
o crepósculo o pai dos fornicacionistas mas (Ó, meus fúlgidos astros
e corpo!) como a palmedira o céu altíssimo o celessinal de
suave aviso! Mas vais ir? Ih, solte! Era mera merda? Ora em pás
returfam os carvalhos de entanho, mas olmos cinzaltam onde freixos carvalham.
Phalhe se for a cair, erguer se deve: e ninguém tão cedo também deverá
para a pharsa ao presente momento novir à secular decepscrição de uma fimnix.
        Caipatraz Finnegan, da Mão Titubeante, murário dos livres,
vi via do modo mais largo imarginável em seu cachaceso ante-
-demais pra terrecados, anterior aos juízes josués nos darem números
ou Helvítico cometer deuteronomia (certo levedia ele severamente
brenteu a tete na banheira a fim de laver o futuro de seus fados, mas
antes de rendirá-la ligeiro de novo, pelos mandos de moisés, a própria
água tinha eviporado e tudo guínese havia tido seu êxodo, só
pra te mostrar que camarada pentansjúgico era ele!)
durante muitos estranhos anos esse homem debalde, cimento e edi-
-fícios no Thorpe de Toper, empilhou canturo supra canturo às
margens dos figatos de Hassim’heassado. Tinha a linda pitita Annie
esposinha, ele braçou a pequena criadura. Se quer se caibelos nas mãos, tome
no seu parceiro. Com enquência balbuloso, mitral coco, agarrado à boa
espátula e oleobúrneos macacãos, que sementamava habitacularmente, como
Haroun Childeric Eggeberth ele caligulava por multiplicá-
-veis a maltitude e pantitude até que viuver pela destiluz da
bebida em quêmeos nasceu seu espetápulo redondado de outros diaspor
vir, nualve e reta maisonaria (concedagraça!), um uaauorfe
de um arruinaciel de uma holtura intorriemente holhível, eriginada

a partir de quase nada e celescalando os hímals e tudo, hierarquite-
-tonitiptitoplóftico, com uma sarça ardente em ripa, à coma de seu babilaque
e com lóuros o’túlers clitiritando acima e tombos a’bosckets claus-
-troando abaixo.
        Dos primeiros foi ele a portar armas e um nome: Vassile Bier-
-slef de Riensengueborgue. Seu paquife de heróltica, em verte e
semportes, troublant, argent, um carbrão, poursuivant, cabrunco, cornuto.
Terciado seu escruto, com arqueiros retesando, hélio, da segunda.
Rum é pro rústico rijecendo a ripa. Rô rô rô rô, Senhor
Fim serás outro Finnavez! Fecunda-seira comecedinho e,
Ó, és vinha! Evem domíngua noite e, ah, és vinagre! Rá rá rá rá,
Gra-senhor Fam, serás finado outra vez!

(James Joyce, tradução de Adriano Scandolara)

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