poesia, tradução

Roger Wolfe (1962—), por Luís Pedroso

Foto de Luna Miguel

Roger Wolfe nasceu em Westerham, Inglaterra, em 1962 mas vive em Espanha desde a infância, tendo residido em várias cidades – atualmente, em Madrid. É um poeta que enquadram no estilo do Realismo Sujo, embora tal designação possa ser um pouco redutora. A sua poesia utiliza uma linguagem direta, toma-nos de assalto, alternando entre descargas de revolta, a observação das falhas e fragilidades humanas e momentos de contemplação. Alternando entre a raiva e, até, momentos de ternura. Encontramos nela por vezes um humor ácido que frequentemente se volta contra o próprio poeta. Estreou-se em 1986 com Diecisiete poemas, contando já doze livros inéditos de poesia, mas também ensaio e prosa, num percurso que é dos mais importantes contemporâneos da poesia espanhola.

Luís Pedroso nasceu em Lisboa, em 1977. É arquiteto de formação e publicou três livros de poesia (Princesas Dianas & Anti-heróis, em edição de autor, Romance ou Falência, na Artefacto e Importunar o tempo à fisga, na Língua Morta). A antologia Fazer o trabalho sujo, de Roger Wolfe, é a sua primeira aventura como tradutor.

* * *

HACER EL TRABAJO SUCIO/FAZER O TRABALHO SUJO
antología/antologia


DE DÍAS PERDIDOS EN LOS TRANSPORTES PÚBLICOS (1992)
Café y cigarrillos

Salgo del trabajo. Los huesos, todo el cuerpo,
dulcemente doloridos, como -a veces-
después de un polvo de los buenos.
La luna, sajada en dos pedazos, me recuerda
el ojo ése famoso de Buñuel,
asomada un tanto tenebrosamente
por encima de los árboles.
El coche no me arranca. El parabrisas
es una enorme lámina de vidrio congelado.
Así que vuelvo a casa andando,
velado el claqueteo de mis pasos
por la luna, la cabeza
llena de café caliente y cigarrillos.
Llego al portal y me detengo,
soplándome en las manos, bajo
el arco de luz que proyecta la ventana
sobre el hielo, la hierba sucia y abrasada.
Y al otro lado de esa luz te encuentras tú.

Y es que un hombre necesita en esta vida
otras cosas que no sean
lunas surrealistas, coches, oscuras
películas de Luis Buñuel.


DE DÍAS PERDIDOS EN LOS TRANSPORTES PÚBLICOS (1992)
Café e cigarros

Saio do trabalho. Os ossos, o corpo inteiro,
docemente doridos, como – às vezes –
depois de uma boa foda.
A lua, fatiada em dois pedaços, lembra-me
o famoso olho de Buñuel,
revelada um tanto tenebrosamente
sobre a copa das árvores.
O carro não pega. O pára-brisas
é uma enorme e congelada lâmina de vidro.
De modo que volto para casa a pé,
o sapateado dos meus passos vigiado
pela lua, a cabeça
saturada de café quente e de cigarros.
Chego ao portão e detenho-me,
bafejando as mãos, debaixo
do arco de luz que a janela projecta
no gelo, na erva suja e queimada.
E do outro lado dessa luz estás tu.

E é disso que um homem precisa nesta vida,
coisas que não sejam
luas surrealistas, carros, obscuras
fitas de Luis Buñuel.

§

de HABLANDO DE PINTURA CON UN CIEGO (1993)
La música


Los trinos de ese mirlo
se derraman
sobre el fiambre más reciente
de la ciudad.
Dicen
que encontraron la jeringa
colgándole del brazo todavía.
No lo sé.
Y no me importa
demasiado.
Escucho al mirlo.
Su música
en medio del infierno.


DE HABLANDO DE PINTURA CON UN CIEGO (1993)
A música

Os assobios deste melro
derramam-se
sobre o cadáver mais recente
da cidade.
Dizem
que encontraram a seringa
ainda a pender-lhe do braço.
Não sei.
Também não é coisa
que me preocupe.
Escuto o melro.
A sua música
no meio deste inferno.

§

DE ARDE BABILONIA (1994)
Esta infinita y patética belleza

El comienzo del verano y la noche
yace como un cuerpo herido
que la aurora no consigue desvelar.
Recorro la ciudad
taconeando
en las aceras agrietadas
con mis viejas botas
de Valverde,
tan cansadas como yo
del incesante embate
de cascos rotos y batallas.
Un contenedor
arde solitario en una esquina
ante los ojos embotados
de un borracho
que ya no sabe que lo está.
No hay policía.
Y es extraño.
Dos mecánicos amantes
se palpan las partes
con gestos agotados
que ni siquiera el último
tiro de nieve emponzoñada
es capaz de revivir.
Parpadean los semáforos
tintineando en huérfana advertencia.
Y no hay sencillamente estrellas
que me valgan.


DE ARDE BABILONIA (1994)
Esta infinita e patética beleza

Já principia o verão e a noite
jaz como um corpo ferido
que a aurora não consegue revelar.
Percorro a cidade
batendo os tacões
nos passeios esburacados
com as minhas velhas botas
de caça,
tão gastas como eu
pelo incessante embate
de garrafas partidas e zaragatas.
Um contentor
arde solitário numa esquina
perante o olhar turvo
de um bêbado
que já nem sabe que o está.
Não há polícia.
E é estranho.
Dois mecânicos amantes
apalpam-se
com gestos esgotados
que nem sequer a última
linha de branca martelada
consegue recuperar.
Piscam os semáforos
tilintando um aviso órfão.
E simplesmente não há estrelas
que me valham.

§

DE MENSAGES EN BOTELLAS ROTAS (1996)
La poesia

La poesía de una madre que grita en un balcón
llamando a sus hijos a la cena.
La poesía de una rádio que suena al otro lado
de una ventana apenas entreabierta.
La poesía de un mendigo inclinado ante una gorra
en las baldosas, en espera de limosna.
La poesía de un charco agotado entre las piedras.
La poesía de una mujer que se levanta de la cama
buscando a tientas el sujetador en la penumbra.
La poesía de un perro que se estira
bostezando en una alfombra.
La poesía de un televisor con el volumen silenciado
mientras suena música y los cuerpos se enajenan.
La poesía de una calle a media tarde
en cuyo extremo hay un boquete de luz que se proyecta
sobre el mar, atravesado por los tumbos de un borracho.
La poesía de una voz en el teléfono.
La poesía de un autobús que remonta la avenida
lleno de gente ensimismada.
La poesía de un viejo vagabundo desdentado
apurando un cartón de vino en la escalinata de una iglesia.
La poesía de una mancha de aceite en una acera.
La poesía de un hombre gordo que se agacha
con un cigarrillo entre los labios
para atarse los zapatos al fondo de la barra.
La poesía de una anciana que se arregla el maquillaje
en un espejo.
La poesía de unas manos que casí no son mías
tanteando (¿tonteando?) en el teclado…

Toda esta poesía que nunca cabe en un poema.

DE MENSAGES EN BOTELLAS ROTAS (1996)
A poesia

A poesia de uma mãe que grita da varanda
chamando os filhos para a mesa.
A poesia de um rádio que toca do outro lado
de uma janela entreaberta.
A poesia de um mendigo curvado à frente de um chapéu
no passeio, à espera de esmola.
A poesia de um charco quase seco entre as pedras.
A poesia de uma mulher que se levanta da cama
e procura às apalpadelas o sutiã na penumbra.
A poesia de um cão que se espreguiça
bocejando numa esteira.
A poesia de um televisor silenciado
enquanto se ouve música e os corpos se afastam.
A poesia de uma rua a meio da tarde
em cujo extremo há uma fresta de luz que se projecta
sobre o mar, atravessada pelos tombos de um bêbado.
A poesia de uma voz ao telefone.
A poesia de um autocarro que sobe a avenida
cheio de gente ensimesmada.
A poesia de um velho e desdentado vagabundo
emborcando um pacote de vinho na escadaria de uma igreja.
A poesia de uma mancha de óleo na calçada.
A poesia de um gordo que se agacha
com um cigarro entre os lábios
para atar os sapatos ao fundo do balcão.
A poesia de uma velha que retoca a maquilhagem
ao espelho.
A poesia de umas mãos que quase não são as minhas
sondando (seduzindo?) o teclado…

Toda esta poesia que nunca cabe num poema.

§

DE CINCO AÑOS DE CAMA (1998)
El amor, supongo

He estado pensando en escribir
un poema de amor
dedicado a mi mujer
pero lo cierto es que no sé
por qué, pero me pongo
increíblemente triste y los poemas
de amor no se me han dado nunca
demasiado bien –o quizá es que nunca
lo haya intentado seriamente-;
supongo que el amor
debe de ser
como esos rarísimos instantes
de felicidad:
si por un momento
los tienes
yo diría
que no es conveniente
andar perdiendo el tiempo
con poemas.


DE CINCO AÑOS DE CAMA (1998)
O amor, suponho

Tenho pensado escrever
um poema de amor
dedicado à minha mulher
mas a verdade é que não sei
porquê, ponho-me
incrivelmente triste e os poemas
de amor nunca foram coisa que me corresse
muito bem – ou quem sabe se nunca
os tentei muito a sério -;
suponho que o amor
deve ser
como esses raríssimos instantes
de felicidade:
se por um momento
os tens
eu diria
que não convém
perderes tempo
com poemas.

§

DE EL ARTE EN LA ERA DEL CONSUMO (2001)
Fiambre


La radio acaba de informarnos
de que ha muerto Octavio Paz;
el machaca de turno sale con la vara
y los ditirambos post mortem de rigor.
Y cita –dice- al gran poeta
cuando afirma
que «los tiempos le hacen poco
sitio a la poesia»; y que ésa
es señal de lo mal que van.


No. No es eso, me gustaría responderle,
sino señal más bien de lo de siempre:
los poetas –viejos, nuevos, muertos, vivos,
da bastante igual-
nunca han solido tener ni puñetera idea
de lo que ocurre a su alrededor.


Pero no podré hacerlo.
¿Y quién me escucharía, en cualquier caso?
La fanfarria funeraria ya se ha puesto en marcha
-implacable, obscena, atronadora-
y hasta que se tope –como mínimo-
con el próximo fiambre
ni Dios la va a poder parar.


DE EL ARTE EN LA ERA DEL CONSUMO (2001)
Cadáver

A rádio acaba de informar
que morreu Octavio Paz;
o tagarela de serviço desata a debitar
os ditirambos post mortem da praxe.
E cita – diz ele – o grande poeta
quando afirma
que «estes tempos reservam pouco
espaço à poesia»; e que isso
é sinal do mal que vão as coisas.

Não. Não é, apetecia-me responder-lhe,
na verdade é sinal do mesmo de sempre:
os poetas – velhos, novos, mortos, vivos,
tanto faz –
nunca fizeram a mais pálida ideia
do que se passa à sua volta.

Mas não poderei fazê-lo.
E quem é que me ouviria, fosse como fosse?
A fanfarra funerária já se pôs em marcha
implacável, obscena, retumbante –
e enquanto não tropeçar
no próximo cadáver
nem Deus a conseguirá parar.

§

DE AFUERA CANTA UN MIRLO (2009)
The sun also rises


Afeitándome
delante del espejo:
un grano refractário
en el flanco derecho
de mi cuello.

La uña
que aquella prostituta
posó en un grano parecido
en medio de mi pecho
mientras alzaba la mirada
con cejas enarcadas
como dos interrogantes:
«¿Qué es esto de aquí?»

Fue en Oviedo.
Hace diecinueve años.

Ahora soy un hombre
que va para maduro
y que se afeita a las seis de la mañana
en una casa
de la que se han llevado hasta los muebles.

Afuera canta un mirlo.

Está empezando
muy timidamente
a salir el sol.


DE AFUERA CANTA UN MIRLO (2009)
The sun also rises

Barbeando-me
ao espelho:
um sinal refractário
no flanco direito
do meu pescoço.

A unha
que aquela prostituta
pousou num sinal parecido
no centro do meu peito
enquanto levantava o olhar
com as sobrancelhas arqueadas
como dois pontos de interrogação:
«O que é isto aqui??»


Foi em Oviedo.
Há dezanove anos.

Agora sou um homem
que já não vai para novo
e que se barbeia às seis da manhã
numa casa
onde já nada há para levar.

Lá fora canta um melro.

Começa
muito timidamente
a nascer o sol.

§

DE GRAN ESPERANZA UN TIEMPO (2013)
Poema encontrado en el fondo de la papelera

Conozco todos los argumentos.
Conozco todos los contraargumentos.
Conozco la futilidad de nuestra vida.
Conozco el hambre, la sed, el ansia.
La alegría.
¿El amor? También.
El desamor. La dicha y la desdicha.
Tropiezo cada día con la misma piedra.
Tropiezo cada día con la misma piedra.
Tropiezo cada día con la misma piedra.
Al final ya no se sabe
si es que hay piedra o es que tropezamos
por costumbre, por amor al arte,
porque no somos capaces de otra cosa.
Porque el hombre es un animal que tropieza.
Porque no somos capaces de otra cosa.


DE GRAN ESPERANZA UN TIEMPO (2013)
Poema encontrado no cesto de papéis

Conheço todos os argumentos.
Conheço todos os contra-argumentos.
Conheço a futilidade da vida.
Conheço a fome, a sede, a ânsia.
A alegria.
O amor? Também.
O desamor. A sorte e o azar.
Tropeço todos os dias na mesma pedra.
Tropeço todos os dias na mesma pedra.
Tropeço todos os dias na mesma pedra.
E no fim já nem sabemos
se havia alguma pedra ou se tropeçamos
por hábito, por amor à arte,
porque não sabemos fazer mais nada.
Porque o homem é um animal que tropeça.
Porque não sabemos fazer mais nada.

§

DE EL AMOR Y MEDIA VUELTA (2014)
Las autoridades literarias advierte: ser feliz perjudica seriamente a la salud

«Llegué a creer que la felicidad
no es un asunto de los seres humanos»
Félix Grande


Hay algunos –por incríble que parezca a estas alturas-
que todavía se convierten en borrachos
por influencia de los poetas simbolistas.
Otros –de manera igualmente increíble-
acaban chutándose heroína
porque momias como William Burroughs
contaban con pelos y señales que lo hacían.
Por motivos parecidos
tú negaste siempre la felicidad,
que como ya se sabe
es un asunto muy mal visto
entre las mentes pensantes de todo este tinglado.
Hasta que la felicidad te cayó encima
como un plato de sopa
que alguien te hubiera volcado en el regazo.
¿Qué demónios era esto?
No estaba programado.
Era un contratiempo nuevo;
era de auténtica vergüenza.
Como, de niños, mojar la cama
o hacérselo en los calzoncillos.
Menudo bochorno.
¿Quién te iba a sacar de esta?
Pero la felicidad insistió en agitarse dentro de ti;
te recorria de arriba abajo
como un flujo de savia electrizada.
Y se te ocurrieron ideas muy extrañas:
abandonarlo todo,
salir corriendo dando gritos de alegría,
tirar la casa por la ventana
y lanzarte en plancha a la vida.

La hostia fue de órdago.

Los hijoputas habían vaciado la piscina.

DE EL AMOR Y MEDIA VUELTA (2014)
As autoridades literárias avisam: ser feliz prejudica seriamente a saúde

«Cheguei a acreditar que a felicidade
não é assunto para os seres humanos»

Félix Grande

Alguns – por incrível que pareça nestes tempos –
ainda se iniciam nos copos
por influência dos poetas simbolistas.
Outros – de modo igualmente incrível –
acabam a chutar heroína
porque múmias como William Burroughs
bradavam aos quatro ventos que o faziam.
Por motivos semelhantes
negaste sempre a felicidade,
que como se sabe
é um assunto muito mal visto
entre as mentes pensantes deste curral.
Até que a felicidade te caiu em cima
como um prato de sopa
que alguém te entornasse no colo.
Que diabos era isto?
Não estava programado.
Era um novo contratempo;
uma autêntica vergonha.
Como, em menino, mijar a cama
ou fazê-lo nas cuecas.
Tremendo embaraço.
Quem poderia livrar-te desta?
Mas a felicidade insistiu em agitar-se dentro de ti;
percorria-te de alto a baixo
como um fluxo de seiva electrizante.
E ocorreram-te ideias deveras bizarras:
abandonar tudo,
desatar a correr dando gritos de alegria,
pintar a manta
e mergulhar de cabeça na vida.

Ficaste sem pinga de sangue.

Os filhos-da-puta tinham esvaziado a piscina.

Padrão
poesia

José Miguel Gómez Acosta (1975—), por Francesca Cricelli e Luciano Dutra

José Miguel Gómez Acosta (Almería, Espanha, 1975–), é poeta, arquiteto, tradutor e pintor. Vive atualmente em Granada onde dirige a revista Márgenes Arquitectura. Como escritor, começou publicando contos e poemas no jornal La Voz de Almería a partir de 1997, além de ensaios sobre arquitetura e construção. Conquistou com o seu terceiro livro Reescritura (2016) o IV Prêmio de Poesia Experimental Francisco Pino, da Fundação Jorge Guillén, na Espanha. Também recebeu o prêmio Federico García Lorca em 1997 pelo conto “El pabellón de los elefantes”. Seu segundo poemário, El Gran Norte, publicado originalmente em Granada em 2015, foi recentemente lançado em edição bilíngue castelhano-islandês em Reykjavík numa cooperação entre as duas Cidades da Literatura da Unesco, Granada e Reykjavík, em tradução islandesa de Elías Knörr e Guðrún H. Tulinius. É dessa edição que foram selecionados pelo próprio autor os poemas de tema islandês aqui traduzidos.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

4 poemas islandeses do ciclo El gran norte

ETERNIDADE ANTERIOR

A eternidade anterior se acaba.
Não há ninguém que se lembre, nem resenha nem sorte nem letras nem calor.
Eternidade anterior, prados cor de cinza.

ETERNIDAD ANTERIOR

La eternidad anterior se acaba.
Nada hay que la recuerde, ni reseña ni suerte ni letras ni calor.
Eternidad anterior, prados color ceniza.

§

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais afável dormem os assassinos olho vivo alerta.
No fundo repousa uma tumba de grama nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores mestres da palavra.
No fundo do homem, em suas costas longínquas, sonolento intranquilo o estratega
um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início descida queda voo ao centro
da terra.

VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

§

PRIMEIRA CARTA DOS APÓSTOLOS

Difundindo a palavra chegamos à costa dos gelos
Vivem nove pessoas e todas elas cantam pelas tardes
Águas negras abrigam os defuntos que agarram com suas mãos as alturas
E todos cegos mudos dançam ao redor das fogueiras
Cada dia leva o nome de um ataque mortal e as cimeiras são portas
Há uma deusa
Recordamo-nos muito de ti mas já não lembramos se vives ou não
Com imensa tristeza o favorito em sonho manda-te um abraço
Todos nossos navios reduziram-se a escombros e concreto esgarçado
Lascas que alimentam as fogueiras nevasca temporal anticiclone tormenta
Ameaça de chuva vivem nove pessoas nove casas
À noite lemos os nossos livros e eles ainda nos batizam mil vezes menos uma
E páginas escritas com teu sangue tornaram-se finos troncos vegetais
As mulheres regam-nos a cada noite com seus cabelos e sua chuva água clara dor
O riso se apodera de nós
Tu que nunca riste
Todas as tuas fotografias estão emolduradas mas a umidade erode as rugas
Voltaste a ser um garoto
Na terra do tremor trovão das entranhas lagoa da cor da tua palavra
Lhes contamos ontem a última coisa que disseste ao te despedir
Entre vapores e rugidos

PRIMERA CARTA DE LOS APÓSTOLOS

Difundiendo la palabra llegamos a la costa de los hielos
Viven nueve personas y todas ellas cantan por las tardes
Aguas de color negro cobijan los difuntos que agarran con sus manos las alturas
Y todos ciegos mudos bailan alrededor de las hogueras
Cada día lleva el nombre de un ataque mortal y las cumbres son puertas
Hay una diosa
Nos acordamos mucho de ti pero no recordamos si ya vives o no
Con inmensa tristeza el favorito en sueños te envía un abrazo
Todos nuestros navíos quedaron reducidos a escombros y hormigón deshilachado
Astillas que alimentan las hogueras ventisca temporal anticiclón borrasca
Amenaza de lluvia viven nueve personas nueve casas
Por las noches leemos nuestros libros y ellos aún nos bautizan mil veces menos una
Y páginas escritas con tu sangre se han vuelto finos troncos vegetales
Las mujeres los riegan cada noche con su pelo y su lluvia agua clara dolor
La risa se apodera de nosotros
Tú que nunca reíste
Todas tus fotografías se encuentran enmarcadas pero la humedad erosiona las arrugas
Has vuelto a ser un niño
En la tierra temblor trueno de las entrañas laguna del color de tu palabra
Les contamos ayer lo último que dijiste al despedirte
En medio de vapores y rugidos

§

AQUI ONDE ESTOU NINGUÉM NUNCA ESTEVE

Onde o mapa termina é ali onde começa.
E para chegar não há sequer um trem, apenas uma rodovia, alguns carros.
O clima é bastante frio; pelas manhãs neva sob o dossel das casas.
A luz só se vê de tarde em tarde partindo as janelas em cruzes amarelas por um instante.
Há duchas nas ruas, água quente e garotos nus que nunca te cumprimentam.
Um pequeno Yago prodigioso presenteia a cidade com centenas de aves.
No Café Paris descendo o sótão um mapa nos recorda que a Europa existe.
A catedral católica é o castelo sujo das crianças.
Neva pela manhã e a neve esgueira-se sob a terra negra das ruas levemente empinadas.
Às vezes chega um barco e todos desabotoam suas camisas sinal de alegria.
Às vezes toca a hora na torre vigia tremendamente antiga erguida há dez anos.
Às vezes as montanhas não tão altas conseguem aparecer por trás das estátuas.
São doces as estátuas, uma para cada mês, são todas pretas.
O clima é bastante frio; neva pelas manhãs e pelas tardes chove, o guarda-chuva não faz falta.
Acendem-se pela tarde as luzes das ruas, passam alguns carros.

AQUÍ DONDE YO ESTOY NO HA ESTADO NADIE NUNCA

Donde termina el mapa es allí donde empieza.
Y no hay para llegar ni un solo tren, sólo una carretera, algunos coches.
Es un clima muy frío; por las mañanas nieva bajo los alerones de las casas.
La luz sólo se ve de tarde en tarde partiendo las ventanas en cruces amarillas un instante.
Hay duchas en las calles, agua caliente y muchachos desnudos que nunca te saludan.
Un Iago pequeño y prodigioso regala a la ciudad cientos de aves.
En el café París al bajar a los sótanos un mapa nos recuerda la existencia de Europa.
La catedral católica es el castillo sucio de los niños.
Nieva por la mañana y la nieve se cuela bajo la tierra negra de las calles levemente
empinadas.
A veces llega un barco y todos desabrochan sus camisas en señal de alegría.
A veces suena el tiempo en la torre vigía inmensamente antigua construida hace
diez años.
A veces las montañas no muy altas logran aparecer detrás de las estatuas.
Son doce las estatuas, una por cada mes, todas son negras.
Es un clima muy frío; nieva por las mañanas y por la tarde llueve, no hace falta
paraguas.
Se encienden por las tardes las luces de las calles, pasan algunos coches.

Padrão
poesia, tradução

Ana Pérez Cañamares, por Marcelo Reis de Mello

Ana Pérez Cañamares nasceu em 1968 em Santa Cruz de Tenerife, mas desde um ano de idade mora em Madrid. Sua carreira na poesia começa com a publicação em 2007 do livro La alambrada de mi boca, publicado pela editora Baile del Sol. Pela mesma editora publicou seu primeiro livro de contos e seu segundo poemário, Alfabeto de cicatrices, de 2010. Em 2013 o livro Las sumas y los restos foi “V Premio de Poesía Blas de Otero”. Em 2014 publicou Economía de guerra pela Lupercalia editorial.

* * *

GENERACIONES

Antes de morir, mi madre dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.

Cuando mama murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo

o muriendo.

GERAÇÕES

Antes de morrer, minha mãe disse mamãe, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamãe, fica
abraçando seu corpo diminuto
envolvido em fraldas e cheiro de talco;
minha filha disse mamãe, não chora
e me acarinhou a cabeça consolando-me.

Quando mamãe morreu, durante alguns segundos
não tivemos muito claros os laços que nos uniam
não soubemos quem havia partido
e quem havia ficado
nem em que momento de nossas vidas
estávamos vivendo.

(La alambrada de mi boca)

§

Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“las cosas, hija, son sólo cosas“.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.

Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando vamos à limpeza
nos olham como doentes agonizantes
que não entendem o que queremos deles.

Mas são os pratos que me deu minha mãe
que nunca voltará a me dar
nada.

Se um dia nos decidíssemos a jogá-los fora
Tentarei escutar a sua voz na minha cabeça:
“as coisas, filha, são só coisas”.

Minha mãe não está em um prato.
Minha mãe está no pão que como.

(Las sumas y los restos)

§

MI PADRE SE LLAMABA DANIEL

Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa).

Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario).

Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto).

Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.

Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.

Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.

MEU PAI SE CHAMAVA DANIEL

A primeira coisa que pensei foi:
morreu sozinho
(acompanhar na morte
É o melhor bálsamo
Para a culpa).

A segunda coisa que pensei:
não retornou
minha última chamada
(nunca nos damos conta
de que o desejo de independência
também pode ser hereditário).

Em terceiro: já não tenho pais
(e ao olhar pra trás descobri
que já faz muito tempo
que nenhuma mão
segura a bicicleta que eu monto)

Já não estou chateada contigo.
Sempre que penso em você
é domingo pela manhã.
Você me leva nos ombros
e eu sei que vai me convidar
para uma batida de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois sua mão grande se abrirá
na frente dos meus olhos, e me mostrará o tesouro:
uma tampa de mirinda e outra de pepsi.

Quarenta anos para descobrir
que ali tudo já estava dito.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Si un día me oyes
-después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito-
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude
compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.

Se um dia você me escuta
-depois de uma noite
em que acabei por ser
encantadora;
uma dessas mulheres que bebem
e ficam engraçadas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e patifes
com o cabelo despenteado
para melhor
e o batom excessivo
como se viesse
de beijar de língua no banho
o patrão mais bonito
do bordel-
se um dia
depois de uma destas noites
nas quais banco
a encantadora de serpentes
ao me despedir
me ouves dizer
que sou só uma fraude
e se compadece:
os viciado em aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos a maquiagem.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Pocos saben que tengo otra hermana.
El azar nos separó al nacer.
Yo mamaba la leche de mi madre
mientras ella se secaba al sol.
Cuando perforaron mis orejas
ella recibió la ablación del clítoris.
Follé con hombres y sufrí por todos;
a manos de uno solo se quebró ella.
Me separé, lloré, abandoné mis sueños.
Ella murió unas cuantas veces
bajo piedras, ácido, sida y malaria.
Su cuerpo se deshizo y se recompuso.
En una o dos ocasiones fue feliz de morir.
Mi hija creció; mi hermana murió en el parto.
Años después parió una niña y se la quitaron.
Yo veo mi cuerpo envejecer; ella no tiene espejo.
Me pongo cremas antiarrugas
pero toda ella es un surco.
Yo hago listas de lo que le duele:

pero ella es la que administra su dolor.

Poucos sabem que tenho outra irmã.
O azar nos separou ao nascer.
Eu mamava o leite da minha mãe
enquanto ela se secava ao sol.
Quando furaram as minhas orelhas
ela recebeu a ablação do clitóris.
Trepei com homens e sofri por todos;
nas mãos de um só ela se quebrou.
Me separei, chorei, abandonei meus sonhos.
Ela morreu umas quantas vezes
Debaixo de pedras, ácido, aids e malária.
Seu corpo se desfez e se recompôs.
Em uma ou duas ocasiões foi feliz de morrer.
Minha filha cresceu; minha irmã morreu no parto.
Anos depois pariu uma menina e a tiraram dela.
Eu vejo meu corpo envelhecer; ela não tem espelho.
Passo cremes antirrugas
Mas ela toda é um sulco.
Eu faço listas do que nela dói:

mas é ela quem administra a sua dor.

(Las sumas y los restos)

§

Para todos mis gatos

A mis gatas yo les doy agua
ellas me traen rumores de selva
y belleza indómita.
Les doy comida
ellas libertad irrenunciable
pactos de respeto entre especies.
Les doy calor
ellas ponen límites a mi arrogancia
cuando intento traducirlas.
Les doy caricias
ellas enseñan astucia de samuráis.
Les doy cobijo
a las embajadoras de lo lejano y posible.
Al final un arañazo para dejar bien claro
que la ternura no es una mercancía.

Para todos os meus gatos

Às minhas gatas dou água
elas me trazem rumores da selva
e beleza indômita.
Dou-lhes comida
elas liberdade irrenunciável
pacto de respeito entre espécies.
Dou-lhes calor
elas põem limites na minha arrogância
quando tento traduzi-las.
Dou-lhes carinho
elas ensinam astúcia de samurais.
Dou abrigo
às embaixadoras do distante e possível.
Por fim um arranhão para deixar bem claro
que a ternura não é uma mercadoria.

(Las sumas y los restos)

§

Para Talo, mi primer novio

Estoy en el lugar donde fuiste a morir
aunque no conozca el cruce exacto
y no importa, yo sé que el nombre de este pueblo
está guardando tu muerte.

Nunca he visitado tu tumba ni sé dónde está.
Hablé con una de tus hermanas y me contó
que nos recordaba perfectamente
bailando una canción lenta con los ojos
cerrados, mirando hacia nuestro futuro.

Así que sé que en alguna parte estamos vivos y juntos
desafiando las leyes de la vida y la muerte
en una casa nuestra levantada en la memoria.

En un rincón de tu ataúd aún se yergue el instituto
hay un partido de baloncesto que nunca termina
nos cogemos borracheras sin resaca
y sigo teniendo tentaciones de romper aquel vaso
y rasgarme la muñeca, para parar el futuro
que un día nos separará.

Estaremos juntos siempre, me dijiste.
De alguna forma, era cierto.
Mi adolescencia fue la tuya.
Está tan muerta como tú, impresa en la piel
como un libro que no habrá que leer nunca más
porque los dos lo conocemos
palabra por palabra.

Para Talo, meu primeiro namorado

Estou no lugar aonde você foi pra morrer
Mesmo sem conhecer o ponto exato
e não importa, eu sei que o nome desta vila
está guardando a sua morte.

Nunca visitei a sua tumba nem sei onde está.
Falei com uma das suas irmãs e me contou
que lembrava perfeitamente de nós
dançando uma música lenta com os olhos
fechados, contemplando o nosso futuro.

Por isso eu sei que em algum lugar estamos vivos e juntos
desafiando as leis da vida e da morte
em uma casa nossa levantada na memória.

Em um canto do seu ataúde ainda se ergue a escola
há uma partida de basquete que nunca termina
tomamos uns porres sem ressaca
e continuo tendo tentações de quebrar aquele copo
e rasgar os pulsos, para parar o futuro
que um dia vai nos separar.

Estaremos juntos sempre, você me disse.
De algum modo, era verdade.
Minha adolescência foi a sua.
Está tão morta quanto você, impressa na pele
como um livro que não será preciso ler nunca mais
porque os dois o conhecemos
palavra por palavra.

(Las sumas y los restos)

§

para Cristina Morano

Las gatas buscan atalayas
desde las que contemplar el mundo.

Ellas dormitan sabiéndose a salvo;
yo me amurallo tras un libro.

Dice el poeta Rigo que la última
coraza es la lealtad.

Las hembras nos comprendemos:
el mundo es un peligro a nuestra disposición.

Para Cristina Morano

As gatas procuram guaritas
de onde possam contemplar o mundo.

Elas cochilam sabendo-se a salvo;
eu me amuralho atrás de um livro.

Diz o poeta Rigo que a última
Couraça é a lealdade.

As fêmeas nos entendemos:
o mundo é um perigo à nossa disposição.

(Las sumas y los restos)

§

Mi educación:
no desees nada demasiado
no te vanaglories ante nadie
-mucho menos de ser feliz-
no sueñes sueños imposibles
-tampoco sueñes la posibilidad-
no rías demasiado alto
no enfades a los dioses
      • no creas en ellos ni en sus premios
aunque estarán ahí para castigarte-
no llores delante de los otros
      • la tristeza es otra forma de ser presuntuoso-
no te aferres pero no te sueltes del todo del pasado
no te emborraches sin sufrir por la resaca
no te menosprecies
esperando compasión
no luches
todo está perdido desde siempre.

Y ahora sal al mundo, sostente, sé un ejemplo.

Minha educação:
não deseje nada demais
não se vanglorie diante de ninguém
-muito menos de ser feliz-
não sonhe sonhos impossíveis
-tampouco sonhe a possibilidade-
não ria alto demais
não entedie os deuses
• Não acredite neles e em seus prêmios
ainda estarão aí para te castigar
não core na frente dos outros
• A tristeza é uma outra forma de ser presunçoso-
não se aferre mas não se solte completamente do passado
não se embriague sem sofrer a ressaca
não se menospreze
esperando compaixão
não lute
tudo está perdido desde sempre.

E agora sai pro mundo, se aguenta, seja um exemplo.

(Las sumas y los restos)

§

Me arranco las bragas
negras de la tristeza.
Las dejo al pie de la cama
como un perro roto.
Ya se compondrá después
cuando haya que disfrazarse
para la alegría o la nada.

Arranco-me as pregas
negras da tristeza.
Deixo-as ao pé da cama
como um cachorro cansado.
Logo em seguida irá se recompor
quando tiver que se disfarçar
para a alegria ou o nada.

(Economía de guerra)

§

No soy esta que veis palidecer
bajo el fémur tibio del fluorescente.
Tampoco la mujer que oye dar las tres
como el gong del martillo absolutorio
o la bala de un fusil encasquillado.
Ni la que escribe frases sin amor
y firma igual que quien mata una mosca.

Ocupo mi silla antes de que el sol
me bendiga la frente con un beso
y salgo a la calle infiel y huérfana.
Toso el virus de la resignación
cuando el mar es un rumor clandestino
y los lirios burlas del carcelero.

Soy quien sueña llegar a la vejez
para dejarse adoptar por gallinas
y vivir en la luz de las mañanas
que ahora abandono en la casa de empeños.

Não sou esta que vês empalidecer
sob o fêmur cálido da luz fluorescente.
Tampouco a mulher que ouve dar as três
como o gongo do martelo absolutivo
ou a bala de um fuzil engatilhado.
Nem a que escreve frases sem amor
e assina como quem mata uma mosca.

Ocupo minha cadeira antes que o sol
me bendiga a testa com um beijo
e saio à rua infiel e órfã.
Tusso o vírus da resignação
quando o mar é um rumor clandestino
e os lírios mentiras do carcereiro.

Sou quem sonha chegar à velhice
para deixar-se adotar por galinhas
e viver com a luz das manhãs
que agora abandono na casa de penhores.

(Economía de guerra)

Padrão
poesia, tradução

luis de góngora, por érico nogueira

gongora

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado “siglo de oro” das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em “castelhano imperial”, uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora – ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora – chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão.

Abaixo, segue um soneto de Góngora traduzido por Érico Nogueira  para a segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente (nela, Nogueira também traduz poemas de Hugo von Hofmannsthal e Torquato Tasso). Comenta o tradutor: “Aos vinte anos, contudo, [Góngora] escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, também expressivas, e foi imitado por nosso Gregório de Matos”.

Érico Nogueira (Bragança Paulista – SP, 1979) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal de São Paulo. Autor de O Livro de Scardanelli (poesia, 2008), Dois (poesia, 2010) e Verdade, Contenda e Poesia nos Idílios de Teócrito (estudo e tradução, 2012), Poesia Bovina (poesia, 2015). Tem publicado artigos sobre versificação greco-latina e portuguesa. Nomes como Paulo Henriques Britto e João Angelo Oliva Neto já escreveram sobre sua poesia. Traduzido em inglês pelo crítico britânico Chris Miller, tem recebido destaque nas principais revistas literárias da Inglaterra, onde foi capa da The Warwick Review, editada pelo Department of English and Comparative Literary Studies da Universidade de Warwick. Vive e trabalha em São Paulo.

escamandro

 

Soneto

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

 

Soneto

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

(poema de Luis de Góngora y Argote, tradução de Érico Nogueira)

Padrão
poesia, tradução

Alaíde Foppa (1914 – ?1980), por Luciano R. Mendes

alaíde foppa

Alaíde Foppa foi poeta, crítica de arte, professora, tradutora & ativista feminista, nasceu 1914, em Barcelona, porém tinha ascendência guatemalteca por parte de mãe e argentina por parte de pai. Ela também viveu na Argentina e na Itália, antes de se radicar na Guatemala (onde teve um caso com o então presidente Juan José Arévalo, donde nasceu seu primeiro filho) e depois seguir para o México, ainda nos anos 1940. Passou boa parte de sua vida exilada no México, com sérios problemas com a política da Guatemala, no México também se casou com o guatemalteca Alfonso Solorzano,  teve mais dois filhos e escreveu a maior parte da sua obra. Foi nesse período que ela fundou a revista FEM. Publicou as poesias de: Las palabras y el tiempoLa sin ventura, Elogio de mi cuerpoLos dedos de mi manoAuque es de noche Guirnalda de primavera.

No dia 19 de dezembro de 1980, quando estava na Guatemala renovando seu visto, foi sequestrada & desapareceu sem deixar rastros. É provável que, pelas suas posições políticas, ela tenha sido assassinada a mando do governo do general Fernando Romeo Lucas Garcia, então presidente da Guatemala.

Agradecemos a Ricardo Domeneck, que nos apresentou esse ciclo impressionante de poemas & a Luciano R. Mendes, que de pronto o traduziu.

escamandro

Elogio ao meu corpo

1. Os olhos

Mínimos lagos tranquilos
onde tremula o fulgor
de minhas pupilas
e cabe todo
o esplendor do dia.
Espelhos límpidos
que acendem a alegria
das cores.
Janelas abertas
frente a lenta passagem
do tempo.
Lagos por lágrimas alimentados
e por naufrágios remotos.
Lagos noturnos adormecidos
habitados pelos sonhos
ainda brilhantes
sob as pálpebras fechadas.

2. As sobrancelhas

Asas curtas
estendidas sobre minhas pálpebras
apenas guardam
o escasso espaço
em que flutua
uma interrogação latente,
ao que assoma
assombro permanente.

3. O nariz

Quase um apéndice
na serena geometria
de meu rosto,
única reta
na gama de curvas suaves
o instrumento sutil
que me une ao ar.
Odores cândidos
aromas acres
fragrâncias densas
de flores e especiarias
– desde o anís até o jasmín-
inala trêmulo
meu nariz.

4. A boca

Entre lábio e lábio
quanta doçura guarda
minha boca aberta ao beijo
estojo em que os dentes
mordem frutos vívidos
bacia que se enche
de sucos intensos
de vinhos ágeis
de água fresca
onde a língua
leve serpente de delícias
ondula com brandura
e se aninha o milagre
da palavra.

5. As orelhas

Como duas folhas
de árvore alheia
nascem dos lados
da minha cabeça.
Pelo tronco escondido
desliza
a opulência
dos sons
me alcançam
as vozes vivas
que me chamam.

6. O cabelo

Doce serpentina de trepadeira
única vegetação
na terra terna de meu corpo
erva fina
que segue crescendo
sensível à primavera
sombria asa
contra minha têmpora
suave abrigo sobre a nuca.
Para minha nostalgia de ave
meu penacho de plumas.

7. As mãos

As mãos
débeis, incertas
parecem
objetos vãos
para o brilho dos anéis,
só as preenche
o que foi perdido,
se esticam para a árvore
que não alcançam
mas me dão a água
da manhã
e até o rosado
contorno das minhas unhas
chega o batimento.

8. Os pés

Já que não tenho asas
bastam-me
meus pés que dançam
e que não cessam
de correr pelo mundo.
Pelos campos floridos
correu meu pé ligeiro
deixou seu rastro
na areia úmida
buscou caminhos esquecidos,
trilhou as duras calçadas
das cidades
e sobe pelas escadas
que não sabe onde chegam.

9. Os seios

São duas plácidas colinas
que apenas
são dois frutos delicados
de pálidas enervações
foram duas taças cheias
providentes e nutritivas
em plena estação
e seguem alimentando
duas flores em botão.

10. A cintura

É a ponte vibrante
que reúne
duas metades diferentes,
é o caule flexível
que mantém
o torso erguido
inclina meu peito
cansado
e governa o macio
balanço dos quadris.
Agradecida
adorno minha cintura
com um laço de seda.

11. O sexo

Oculta rosa palpitante
no sulco escuro,
poço de estremecida alegria
que incendeia em um instante
o turvo curso de minha vida,
secreto, sempre inviolado,
ferida fecunda.

12. A pele

É tão frágil a trama
que um espinho a rompe,
tão vulnerável,
que o Sol a queima,
tão suscetível
que o frio a arrepia.
Mas também percebe,
minha pele fina,
a doce gama
das carícias
e meu corpo sem ela
seria nua ferida.

13. Os ossos

Louvo
a roupagem débil
a aparência
o semblante fugidio.
E quase que esqueço
a obediente armação
que me sustenta,
O engenhoso manequim,
o ágil esqueleto
que me carrega.

14. O coração

Dizem que é do tamanho
de meu punho fechado.
Pequeno, então,
mas basta
para por em movimento
tudo isso.
É um operário
que trabalha bem,
ainda que anseie descansar,
e é um prisioneiro
que espera vagamente
escapar.

15. As veias

A floração azulada
das veias
desenha labirintos
misteriosos
sob a cera de minha pele.
Suave hidrografia
apenas visível,
ágeis vias que levam
desejos e venenos
e íntimo alimento.

16. O sangue

Flui em segredo a corrente
de meu sangue veloz.
Imenso é o rio
que em subterrâneos meandros
amadurece
e alimenta o âmbito
de minha vida profunda.
A corrente cálida
que me inunda
na flor da ferida
se derrama.

17. O sonho

Em ninho tão suave
meu coração descansa,
não o assombram
os fantasmas perdidos
que assomam.
Passa por meu sonho
a calma onda
de meu hálito.
Em meio ao esquecimento
o tempo do amanhã
se prepara,
enquanto vivo
efêmera morte.

18. O fôlego

Não sei de onde vem
o vento que me leva,
o suspiro que me consola,
o ar que compassadamente
move meu peito
e alenta
meu voo invisível.
Eu sou apenas
a planta que estremece
com a brisa,
submisso instrumento
a flauta graciosa
que ressoa
com um sopro de vento.

(trad. Luciano R. Mendes)

Elogio de mi cuerpo

1. Los ojos

Mínimos lagos tranquilos 
donde tiembla la chispa 
de mis pupilas 
y cabe todo 
el esplendor del día. 
Límpidos espejos 
que enciende la alegría 
de los colores. 
Ventanas abiertas 
ante el lento paisaje 
del tiempo. 
Lagos de lágrimas nutridos 
y de remotos naufragios. 
Nocturnos lagos dormidos 
habitados por los sueños, 
aún fulgurantes 
bajo los párpados cerrados.

2. Las cejas

Las breves alas 
tendidas sobre mis párpados 
sólo abrigan 
el espacio escaso 
en el que flota 
una interrogación latente, 
al que asoma 
un permanente asombro.

3. La nariz

Casi un apéndice 
en la serena geometría 
de mi rostro, 
única recta 
en la gama de curvas suaves, 
el sutil instrumento 
que me une al aire. 
Cándidos olores 
acres aromas 
densas fragancias 
de flores y de especias 
-desde el anís hasta el jazmín- 
aspira trepidante 
mi nariz.

4. La boca

Entre labio y labio 
cuánta dulzura guarda 
mi boca abierta al beso, 
estuche en que los dientes 
muerden vívidos frutos, 
cuenca que se llena 
de jugos intensos 
de ágiles vinos 
de agua fresca, 
donde la lengua 
leve serpiente de delicias 
blandamente ondula, 
y se anida el milagro 
de la palabra.

5. Las orejas

Como dos hojas 
de un árbol ajeno 
nacen a los lados 
de mi cabeza. 
Por el tallo escondido 
se desliza 
la opulencia 
de los sonidos, 
me alcanzan 
las vivas voces 
que me llaman.

6. El pelo

Dulce enredadera serpentina, 
única vegetación 
en la tierra tierna de mi cuerpo, 
hierba fina 
que sigue creciendo 
sensible a la primavera, 
ala de sombra 
contra mi sien, 
leve abrigo sobre la nuca. 
Para mi nostalgia de ave 
mi penacho de plumas.

7. Las manos

Las manos 
débiles, inciertas, 
parecen 
vanos objetos 
para el brillo de los anillos, 
sólo las llena 
lo perdido, 
se tienden al árbol 
que no alcanzan, 
pero me dan el agua 
de la mañana, 
y hasta el rosado 
retoño de mis uñas 
llega el latido.

8. Los pies

Ya que no tengo alas, 
me bastan 
mis pies que danzan 
y que no acaban 
de recorrer el mundo. 
Por praderas en flor 
corrió mi pie ligero, 
dejó su huella 
en la húmeda arena, 
buscó perdidos senderos, 
holló las duras aceras 
de las ciudades 
y sube por escaleras 
que no sabe a donde llegan.

9. Los senos

Son dos plácidas colinas 
que apenas mece mi aliento, 
son dos frutos delicados 
de pálidas venaduras, 
fueron dos copas llenas 
próvidas y nutricias 
en la plena estación 
y siguen alimentando 
dos flores en botón.

10. La cintura

Es el puente cimbreante 
que reune 
dos mitades diferentes, 
es el tallo flexible 
que mantiene 
el torso erguido, 
inclina mi pecho 
rendido 
y gobierna el muelle 
oscilar de la cadera. 
Agradecida 
adorno mi cintura 
con un lazo de seda.

11. El sexo

Oculta rosa palpitante 
en el oscuro surco, 
pozo de estremecida alegría 
que incendia en un instante 
el turbio curso de mi vida, 
secreto siempre inviolado, 
fecunda herida.

12. La piel

Es tan frágil la trama 
que la rasga una espina, 
tan vulnerable 
que la quema el sol, 
tan susceptible 
que la eriza el frío. 
Pero también percibe 
mi piel delgada 
la dulce gama 
de las caricias, 
y mi cuerpo sin ella 
sería una llaga desnuda.

13. Los huesos

Alabo 
el tibio ropaje 
la apariencia 
el fugitivo semblante. 
Y casi olvido 
la obediente armazón 
que me sostiene, 
el maniquí ingenioso, 
el ágil esqueleto 
que me lleva.

14. El corazón

Dicen que es del tamaño 
de mi puño cerrado. 
Pequeño, entonces, 
pero basta 
para poner en marcha 
todo esto. 
Es un obrero 
que trabaja bien, 
aunque anhele el descanso, 
y es un prisionero 
que espera vagamente 
escaparse.

15. Las venas

La floración azulada 
de las venas 
dibuja laberintos 
misteriosos 
bajo la cera de mi piel. 
Tenue hidrografía 
apenas aparente, 
ágiles cauces que conducen 
deseos y venenos 
y entrañable alimento.

16. La sangre

Secreto corre el torrente 
de mi sangre rápida. 
Inmenso es el río 
que en subterráneos meandros 
madura 
y nutre el ámbito 
de mi vida profunda. 
La cálida corriente 
que me inunda 
en la flor de la herida 
se derrama.

17. El sueño

En tan blando nido 
mi corazón descansa, 
ni lo asombran 
los perdidos fantasmas 
que se asoman. 
Pasa por mi sueño 
la ola calma 
de mi respiro. 
En tanto olvido 
el tiempo de mañana 
se prepara, 
mientras estoy viviendo 
efímera muerte.

18. El aliento

No se de donde viene 
el viento que me lleva, 
el suspiro que me consuela, 
el aire que acompasadamente 
mueve mi pecho 
y alienta 
mi invisible vuelo. 
Yo soy apenas 
la planta que se estremece 
por la brisa, 
el sumiso instrumento, 
la grácil flauta 
que resuena 
por un soplo de viento.

Padrão
poesia, tradução

Antonio Gamoneda (1931-) por Thiago Ponce de Moraes

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Antonio Gamoneda é um poeta e crítico de arte espanhol nascido em 1931. A recepção crítica à sua obra é bastante positiva, especialmente a partir da publicação de Edad (1987), sendo hoje reconhecido como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea espanhola. O prestígio crescente de sua escrita trouxe, entre outras distinções, o Prêmio Cervantes, em 2006. Alguns de seus livros foram traduzidos ao português e publicados pelas editoras Assírio & Alvim e Quasi Edições.

Grande parte de sua obra poética – referente ao período de 1947 a 2004 – está reunida no volume Esta luz (2004). Alguns anos mais tarde, Extravío en la luz (2009) reúne seis poemas inéditos acompanhados de gravuras de Juan Carlos Mestre; é sua última compilação de poemas até agora. Embora seja corrente a avaliação de que a voz poética de Gamoneda ocupa um lugar único no ambiente literário – e que, portanto, não pertence a nenhuma linhagem ou escola –, alguns críticos têm proposto diálogos aproximativos entre a sua obra e as de Georg Trakl e do último Garcia Lorca.

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 PENSA a luz, me ama
sob seus cabelos.

Põe seus lábios em
minhas feridas, sorri,

sob seus cabelos.

PIENSA la luz, me ama
bajo sus cabellos.

Pone sus labios en
mis heridas, sonríe,

bajo sus cabellos.

§

TU

Cair em um rosto, existir
com sua respiração e com sua boca…

Quando tu estavas em perigo,
tu gritaste, mas foi
na garganta de outro ser humano;
se levantou teu corpo
e foi nos braços de outro ser humano.

Então compreendias.

E tua necessidade e tua dor
não foram nunca como antes. Tu
já não vês signos. Agora, tu desprezas
todas as dúvidas. E teu pensamento
não é espelho que cala; já é amor
e destino e conduta e existência.

Caer en un rostro, existir
con su respiración y con su boca…

Cuando tú estabas en peligro,
tú gritaste, mas fue
en la garganta de otro ser humano;
se levantó tu cuerpo
y fue en los brazos de otro ser humano.

Entonces comprendías.

Y tu necesidad y tu dolor
no fueron nunca como antes. Tú
ya no ves signos. Ahora, tú desprecias
todas las dudas. Y tu pensamiento
no es espejo que calla; ya es amor
y destino y conducta y existencia.

§

OUVIR o coração
em um silêncio novo,
advertir o destino
onde estava o desejo.

Ah verdadeiro amor,
que sensação de tempo
possuído, pensar
no mundo e em ti
em um só pensamento.

OÍR el corazón
en un silencio nuevo,
advertir el destino
donde estaba el deseo.

Ah verdadero amor,
qué sensación de tiempo
poseído, pensar
el mundo y en ti
en sólo un pensamiento.

§

NOSSOS corpos se compreendem cada vez mais tristemente, mas eu amo esta púrpura desolada.

Ah a flor negra dos dormitórios, ah as pastilhas do amanhecer.

NUESTROS cuerpos se comprenden cada vez más tristemente, pero yo amo esta púrpura desolada.

Ah la flor negra de los dormitorios, ah las pastillas del amanecer.

§

A SOLIDÃO se desnuda em teus olhos,
menina interminável, extensa na amargura;
talvez um morto fugitivo te habita
e te cruza o sangue e, no sangue, anoitece.

LA SOLEDAD se desnuda en tus ojos,
muchacha interminale, extensa en la amargura;
quizá un muerto fugitivo te anida
y te cruza la sangre y, en la sangre, anochece.

§

RAINHA de meu sangue, vontade de amargura,
juventude derrotada por um reino de sombra,
te balanças em meus braços como um mar; incessante
como o mar me nomeia.

Em mim acaba teu corpo. Há palavras obscuras
habitando teus olhos. Desnuda-te em minhas mãos.

Vive a noite. É
a hora de perder-me em teu cabelo e em teu pranto.

REINA de mi sangre, voluntad de amargura,
juventud derrotada por un reino de sombra,
te meces en mis brazos como un mar; incesante
como el mar me nombras.

En mí acaba tu cuerpo. Hay palabras oscuras
habitando tus ojos. Desnúdate en mis manos.

Vive la noche. Es
la hora de perderme en tu cabello y tu llanto.

(traduções de Thiago Ponce de Moraes)

Aqui vocês podem ver outras traduções de Gamoneda, feitas por Vinícius Nicastro Honesko.

* * *

Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012). Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Em lento progresso, prepara uma nova compilação de poemas sob o nome de Dobres sobre a luz; além de traduções de J.H Prynne, Basil Bunting, Emily Dickinson e R.W. Emerson.

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crítica, poesia, tradução

federico garcía lorca: libro de poemas (1921)

autorretrato de Lorca

Voltando com mais algumas traduções do mestre Lorca, hoje escolhi alguns poemas de seu primeiro livro, o Libro de Poemas, de 1921. Embora sejam de temática um pouco diversa do Romancero Gitano (leia aqui), sem fazer referências ao imaginário cigano de sua vila de criação, Lorca apresenta algumas peculiaridades recorrentes e bastante interessantes, como a animização de forças naturais (p.e.: o vento em Preciosa, assim como a lua e a morte em… A Lua e a Morte =D ) , a divisão entre os sentimentos do eu lírico que observa uma paisagem e reflete os sentimentos evocados dentro de si próprio, o repertório de descrições da natureza, etc.

A minha intenção inicial era de traduzir e publicar apenas um poema curto de cada vez, devido ao tempo apertado, mas não resisti porque o cara é foda demais. Realmente, creio que os tipos de sensações que ele evoca são únicas e cada leitor criará a sua própria identificação com o que é descrito. Portanto, leiam com carinho e atenção.

Por fim, segue a referência do livro que utilizei como original-base (não foi o citado no último post por motivos logísticos):
GARCÍA LORCA, Federico. Libro de poemas. Edición, introducción y notas de Mario Hernández. Madrid: Alianza Editorial, 1998.

o don perlimpim de García Lorca; peguei daqui http://www.filipamalva.net/2011/05/perlimpin-de-garcia-lorca.html


árvores (1919)
  árvores!
terão sido flechas
caídas do azul?
que terríveis guerreiros as lançaram?
terão sido as estrelas?

vossas músicas vêm da alma dos pássaros,
dos olhos de Deus,
da paixão perfeita.
árvores!
conhecerão vossas raízes toscas
meu coração em terra?

a lua e a morte (1919)
  a lua possui dentes de marfim.
que velha e triste assoma!
estão os canais secos,
os campos sem verdores
e as árvores sombrias
sem ninhos e sem folhas.
Dona Morte, enrugada,
passeia por salgueiros
com absurdo cortejo
de ilusões remotas.
vai revendendo cores
de cera e de tormenta
como fada de conto
malvada e ardilosa.

a lua, pois, comprou
pinturas para a Morte.
nesta noite tão turva
está a lua louca!

eu entretanto ponho
em meu peito sombrio
uma feira sem músicas
com as tendas de sombra.

ninho (1919)
  que é o que guardo nesses
momentos de tristeza?
ai!, quem poda meus bosques
dourados e floridos?
que leio no espelho
de prata comovida
que a aurora me oferece
sobre a água do rio?
que grande olmo de idéia
irrompeu por meu bosque?
que chuva de silêncio
me deixa estremecido?
se amor meu deixei morto
numa ribeira triste,
que arbustos me ocultam
algo recém nascido?

hora de estrelas (1920)
  o silêncio arredondado da noite
sobre o pentagrama
do infinito.

eu saio desnudo pela rua,
maduro de versos
perdidos.
o negro, esburacado
pelo canto do grilo,
tem esse fogo fátuo,
morto,
do ruído.
essa luz musical
que percebe
o espírito.

os esqueletos de mil mariposas
dormem em meu recinto.

há uma juventude de brisas loucas
sobre o rio.

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