poesia

Jacinta Passos (1914-1973)

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A baiana Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas, na região do Recôncavo da Bahia, em 1914, filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencentes a famílias tradicionais da região, muito católicas. Seu avô paterno, Themístocles da Rocha Passos, duas vezes Senador na Província (depois Estado) da Bahia, é hoje nome da principal praça da cidade. Seu pai, também político, foi eleito deputado estadual quatro vezes, as duas últimas pela UDN.

Jacinta passou a infância entre o núcleo urbano de Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, onde nascera e morava com a família, mergulhada na cultura do fumo, das tradições africanas e das canções infantis que marcariam sua poesia. Após a transferência da família para Salvador, cursou a Escola Normal, onde se formou com láurea. Trabalhou como professora de matemática, dando aulas particulares e, depois, na prestigiosa Escola Normal onde se formara. Nessa época, era muito religiosa. Praticava a religião com uma entrega total, dedicando-se com fervor e buscando uma união profunda e direta com Deus.

Desde o final da década de 1920 escrevia poemas, em geral de conteúdo religioso. Nos anos 30, ao lado do irmão, o estudante de medicina e também poeta Manoel Caetano Filho, participou de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA), chefiada pelo crítico Carlos Chiacchio. Seus poemas começaram a circular entre os intelectuais da cidade. Continuava religiosa, mas, à medida que o tempo passava, sua religiosidade ia adquirindo conteúdo social e militante.

A partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, envolveu-se fortemente com política. Ao lado do irmão, assumiu posições públicas e participou de movimentos a favor da paz mundial e do final da ditadura do Estado Novo. Denunciou as opressões que pesavam sobre as mulheres, defendendo mudanças imediatas na condição feminina. Continuava católica, porém cada vez mais afastada das posições ortodoxas da Igreja.

Após a entrada do Brasil na guerra, em 1942, participou intensamente da luta antinazista e antifascista, envolvendo-se com grupos de esquerda. Tornou-se também uma ativa jornalista, escrevendo sobre temáticas sobretudo sociais. Foi uma das poucas mulheres da Bahia, à época, a assumir posições políticas públicas e a desenvolver uma intensa e regular atividade jornalística, publicando artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva. Publicou semanalmente em O Imparcial uma “Página Feminina”, que ampliava muito os assuntos habitualmente reservados às mulheres, introduzindo discussões políticas e literárias.

Jacinta alargou seus contatos literários, dedicando-se com afinco à poesia. Em 1942, publicou o livro Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana), cuja primeira parte, “Momentos de Poesia”, contém poemas seus, enquanto a segunda, “Mundo em Agonia”, reúne poemas do irmão, Manoel Caetano Filho. O volume mereceu boas críticas na imprensa, firmando os nomes dos dois poetas no meio intelectual baiano.

Jacinta Passos tornou-se amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que no final de 1942 retornara à Bahia, aprofundando a participação em movimentos sociais e feministas. Nessa época, abandonou o catolicismo.

Mudou-se em 1944 para São Paulo, onde se casou com o jornalista e escritor James Amado. No ano seguinte, publicou seu segundo livro, Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), contendo dezoito poemas, três transcritos do livro anterior. A edição, extremamente bem cuidada, foi de apenas duzentos exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall. Canção da Partida recebeu críticas muito elogiosas de intelectuais expressivos como Aníbal Machado, Antonio Candido, Gabriela Mistral, José Geraldo Vieira, Mário de Andrade, Roger Bastide e Sérgio Milliet, firmando o nome da poeta no cenário nacional.

Jacinta Passos continuou fortemente envolvida com política. Lutou pelo final da guerra, pela redemocratização do Brasil, pela liberdade de expressão, pela anistia aos presos políticos e pela ampliação dos direitos das mulheres. Em 1945, ano em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi legalizado e lançou uma grande campanha de filiação de novos membros, ingressou oficialmente nesse partido, nele permanecendo até morrer.

De volta a Salvador, foi candidata a deputada federal e a deputada estadual pelo PCB, não se elegendo. Contribuiu para o jornal comunista O Momento e continuou participando ativamente da política. Em 1947, após uma gravidez muito difícil, deu à luz sua filha única. Com o marido e a filha, viveu alguns anos em uma fazenda no sul da Bahia, onde se dedicou à família e à escrita.

Mudou-se em 1951, com a família, para o Rio de Janeiro, onde lançou seu terceiro livro, Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Contendo dez poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores, Poemas políticos ampliou o prestígio da escritora, tornando-a mais conhecida nos círculos literários do Rio de Janeiro, a capital do país.

No final desse ano sofreu grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Ficou vários meses internada em sanatórios do Rio, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, considerada então uma doença progressiva e irrecuperável. Durante essa internação e nas seguintes, foi tratada à base de choques elétricos, injeções de insulina e barbitúricos. Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, teve o diagnóstico confirmado.

Em 1955, separada do marido e da filha, regressou a Salvador, voltando a residir com os pais. Continuou militando no PCB, um partido em crise, ensinou em comunidades pobres de Salvador e publicou artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, onde, durante alguns meses, foi também responsável por uma página literária. Continuou escrevendo poesias. Recebeu a visita da filha durante duas férias escolares e a visitou, no Rio de Janeiro.

Publicou em 1957 seu quarto livro, A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes, marcha de cerca de vinte e cinco mil quilômetros, empreendida na década de 1920, e liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que buscava mudanças políticas profundas para o Brasil. O livro foi bem recebido por críticos como Paulo Dantas. Vários de seus trechos foram transcritos em publicações de esquerda do país, até 1964.

Após permanecer cerca de dois anos na cidade pernambucana de Petrolina, onde vivia sozinha e em extrema pobreza, transferiu-se em 1962 para Aracaju, em Sergipe. Ali morou, também sozinha, em Barra dos Coqueiros, povoação de pescadores situada em frente à cidade. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio. Possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolveu, sozinha e ao lado de integrantes do PCB local, intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores, inclusive após o golpe militar de 1964.

Foi detida em 1965, quando pichava nos muros da cidade palavras de ordem contrárias à ditadura. Recolhida ao 28º BC de Aracaju, graças à interferência da família Passos foi transferida para um sanatório particular da mesma cidade, a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até sua morte, em 28 de fevereiro de 1973, aos cinqüenta e sete anos de idade.

Janaína Amado (disponível aqui).

* * *

 

Canção da alegria

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!

Eh! sai espantalho
da ponta do galho!

Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Farinha fininha
peneiradinha!

Ai! vida, que vida
nuinha! nuinha!

§

 

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.

Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

§

 

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

§

Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:
Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.
Nada eu tenho neste mundo,
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

§

 

O inimigo

A Coluna descansou
da marcha, na noite fria.

Ficaram olhos acesos
e a fogueira, de vigia.

Su su su

menino mandu
dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
Debaixo deste telheiro

em cima pia a coruja
com seu piado agoureiro.

Su su su
menino mandu

Soldados dormem quietos
no bivaque de improviso

até as armas descansam
que este descanso é preciso.

Dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
na barraca e na varanda,

eis de repente o inimigo
– Depressa, levanta e anda!

Depressa, são feras,
depressa ou quiseras
nas mãos do inimigo
cair, que o perigo
de perto ameaça
de morte ou mordaça
cadeia ou degredo.

Galopa sem medo!

Legalista do Inferno! .
donde o Governo –
tais feras tirou?

Ah! raiva que eu sou.

Depressa e a trote
esporas, chicote,
as crinas revoltas,
de rédeas bem soltas
e bridas também
(Que medo não tem!)
depressa e a trote
mão no cabeçote
o pé na estribeira
encilha e carreira!
esquipa montado
depressa, soldado
que medo não tem.

Legalista do inferno
não vale um vintém!

A Coluna descansou
da marcha na noite fria.

Picaram olhos acesos.
E de repente partia.

§

 

Diálogo na Sombra

— Que dissestes, meu bem?

Esse gosto,
Donde será que ele vem?

Corpo mortal.
Águas marinhas.

Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

— De quem falas amor, do mar ou de mim?

§

 

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.

Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

§

 

Cantigas das mães

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

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poesia, tradução

Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), por Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo

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Foto de 1854, por Nadar.

Enquanto se festejam os últimos prêmios Nobel entregues a mulheres e as estatísticas de “quantas mulheres que…”, podemos imaginar tantas outras escritoras considerando que escrevem não “porque são mulheres” e não “apesar disso”, mas porque precisam e sabem e querem escrever. Num cenário contemporâneo, em que esses embates parecem ter perdido a importância (embora Malala ainda lute pelo direito das meninas de irem para a escola no Paquistão) não é difícil lembrar que essa é uma situação recente. Autoras tão importantes quanto Hilda Hilst e Ana Cristina César receberam muita resenha e crítica, mesmo acadêmica, em que observações sobre o “feminino” dominavam a abordagem, mesmo quando elogiosa.

E essa história toda tem ilustres precursoras.

Marceline-Desbordes Valmore

Paul Verlaine, em seu Poètes Maudits (em sua segunda edição, de 1888), disse que Marceline não era uma bas-bleu, uma “meia azul”. Assim os franceses chamavam, imitando os vizinhos ingleses que tinham suas bluestockings, às mulheres que procuravam um espaço no mundo intelectual, como críticas ou escritoras. Título preconceituoso, era um bom exemplo do absurdo que significava, para o mundo masculino, a intenção de uma mulher de participar de um mundo ao qual, eles achavam, sua intelectualidade não a teria preparado.

Mas, disse Verlaine, já precedido por Sainte-Beuve, Barbey d’Aurevilly (que assinalava sua competência, ainda que feminina”) e Baudelaire, Marceline era “digna de estar entre” seus poetas malditos: Rimbaud, Mallarmé, Corbière, Villiers e ele mesmo, sob o pseudônimo de Pauvre Lélian.

Todas as referências, aliás, que recebeu da crítica do seu tempo foram sempre marcadas pela singularidade de seu gênero, como uma qualidade adversativa a que sempre se devesse prestar mais atenção. “Marceline-Desbordes Valmore foi mulher, foi sempre mulher e foi absolutamente mulher; mas foi a um grau extraordinário a expressão poética de todas as belezas naturais da mulher”, afirmou Baudelaire, na sua melhor fórmula de elogio.

Marceline nasceu no norte da França no final do século XVIII (1786), e cresceu em uma família perturbada pela Revolução — seu pai fabricava enfeites e brasões para a Igreja e, claro, ficou sem trabalho — e com uma mãe que, embora tenha morrido cedo, a educou com um mundo de poemas e cantigas populares cujos ecos vão permanecer para sempre em seus versos. No início da adolescência vive a grande aventura de sua vida: separada de seu pai, sua mãe a leva para a ilha de Guadalupe, para tentar a vida perto de um parente. Algum tempo depois a mãe morre de febre amarela e a filha sofre para voltar sozinha para a França, para perto do pai.

Aos 16 anos a vida a empurra para o trabalho e o teatro a acolhe. Durante anos viveu como atriz e cantora, entre Douai, sua cidade natal, Rouen e Paris, mas as dificuldades por que passava a fizeram procurar outras saídas e quando descobriu que se ganhava algum dinheiro, ainda que pouco, em publicações de poemas, achou que podia fazer isso. O palco, no entanto, lhe ensinou o dodecassílabo de Racine, que ela dominou e adaptou aos seus temas e que fica especialmente evidente nas suas primeiras elegias.

Livros foram se sucedendo e o ambiente romântico a acolheu, ainda que parcialmente. O próprio Victor Hugo, maior figura literária do período, esteve entre os que a reconheceram. Verlaine lembrou que o fato de Marceline ser do norte da França e não do Midi ou do Sul, de onde vinha a tradição mais clássica da poesia francesa, deu a sua poesia uma nuance nova, mais verdadeira, a do “norte cru”, segundo ele: uma linguagem sem pedantismos.

E intrinsecamente romântica. Temas variados atravessaram sua literatura, mas a natureza bucólica e algo idealizada da infância foi sempre o referencial principal de seus tropos, fonte clara de inspiração, e mesmo metáfora para temas mais delicados de alguma sensualidade e erotismo. Quanto a isso, ela seguiu perfeitamente os ditames e o zeitgeist do primeiro Romantismo.

Embora sempre tenha se mantido religiosa — Deus está bastante presente em sua poesia —, defendia uma religiosidade humanista, menos ligada aos ditames da Igreja e mais sensível ao homem, aos pobres, às mães e seus filhos e, num viés bastante surpreendente para a época, escreveu também muitos poemas em que o engajamento político-social deixa entrever uma aspiração de liberdade anti-governista (mas não falemos de anarquismo), numa voz cansada da política a que assistiu durante sua vida, da Revolução ao Segundo Império francês. Além disso, a defesa de uma incipiente autonomia feminina, num reflexo biográfico claro, foi um dos temas que desenvolveu e que foi levianamente considerado como mais um de seus temas “femininos”…

Há críticos que defendem que sua obra fornece um belo quadro da poesia do século XIX, percorrendo várias fases e possibilidades românticas e apontando para uma poesia fin-de-siècle em que “o efeito, não a coisa” (Mallarmé) é pintado nos versos. Mallarmé também se interessou por ela. Em uma carta de 1867, Mallarmé avisa seu amigo, Eugène Lefébure: “Enviarei amanhã dois volumes divinos de novelas de Madame Valmore: Huit Femmes. Mulheres como ela!”

Mas quem apresentou Marceline a Verlaine foi Rimbaud, que muito cedo já tinha percebido perfeitamente, segundo Verlaine, na aproximação entre Marceline e Baudelaire, “a mesma alma dolorosa e como que um parentesco entre esses dois gênios tão diferentes à primeira vista”.

Acrescente-se a isso tudo, ainda, a variedade formal que sua poesia apresentou. Das quebras do verso clássico francês fez várias opções, de 8 ou 4 sílabas, mas foi especialmente com alguns versos ímpares, particularmente ousados naquele mundo tão afeito às tradições e apegado às suas 12 sílabas, que Marceline impressionou o ouvido musical de Velaine: “Antes de tudo, a Música. Preza/ Portanto o Ímpar…”, numa tradução de Augusto de Campos.

Escreveu muito, sempre. Poesia, romances, contos, novelas, cantigas infantis. Morreu em 1859, aos 73 anos. A crítica sobre sua obra ainda é algo rarefeita na França. Nunca mereceu uma edição na Pléiade

Sandra Stroparo

* * *

A sincera

Você quer comprar?
Coração à venda.
Você quer comprar,
Sem ter que brigar?

Deus o fez de aço;
E você que o renda;
Deus o fez de aço
Para um só abraço!

Eu decido o preço;
Você quer saber?
Eu decido o preço;
Não fique surpreso.

Você tem o seu?
Dê! ganhe meu ser.
Você tem o seu,
Pra pagar o meu?

Se seu não é mais,
Só tenho um desejo;
Se seu não é mais,
Pra mim não há paz.

O meu seguirá,
Cerrado sem pejo;
O meu seguirá,
E Deus o terá!

Pois para a paixão,
A vida é tão rara;
Pois para a paixão,
Não há duração.

A alma só corre
Como a água clara;
A alma só corre,
Só ama! e morre.

La sincère
in: Les Pleurs, 1833.

Veux-tu l’acheter ?

Mon cœur est à vendre.

Veux-tu l’acheter,

Sans nous disputer ?



Dieu l’a fait d’aimant ;

Tu le feras tendre ;
Dieu l’a fait d’aimant

Pour un seul amant !



Moi, j’en fais le prix ;

Veux-tu le connaître ?
Moi, j’en fais le prix ;

N’en sois pas surpris.



As-tu tout le tien ?

Donne ! et sois mon maître.

As-tu tout le tien,

Pour payer le mien ?



S’il n’est plus à toi,

Je n’ai qu’une envie ;

S’il n’est plus à toi,

Tout est dit pour moi.



Le mien glissera,

Fermé dans la vie ;

Le mien glissera,

Et Dieu seul l’aura !


Car, pour nos amours,

La vie est rapide ;

Car, pour nos amours,

Elle a peu de jours.



L’âme doit courir

Comme une eau limpide ;

L’âme doit courir,

Aimer ! et mourir.

§

Os sinos e as lágrimas

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

O órgão da triste arcada,
O pobre nas orações,
O preso com seus grilhões
E a criança acalantada;

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Chora o sino o sol se pôr
Sobre a igreja amortalhada,
E a carpideira sentada
Que tem a chorar?… O amor.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Pede aos anjos ocultados
Alívio das noites feras,
Nas celestiais esferas,
Mantém os olhos fixados.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Ao que o céu há replicado:
“Terra, espera pela hora!
Já disse a tudo que chora,
Que tudo lhe será dado.”

Soa, sino rebrilhante!
Brilha, lágrima abrasante!
Sino triste ao sol se pôr!
Olhos tristes pelo amor!

Les cloches et les larmes
in: Poésies Inédites, 1860.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

L’orgue sous le sombre arceau,
Le pauvre offrant sa neuvaine,
Le prisonnier dans sa chaîne
Et l’enfant dans son berceau;

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

La cloche pleur le jour
Qui va mourir sur l’église,
Et cette pleureuse assise
Qu’a-télle à pleurer?… L’amour.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Priant les anges cachés
D’assoupir ses nuits funestes,
Voyez, aux sphères célestes,
Ses longs regards attachés.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Et le ciel a répondu:
“Terre, ô terre, attendez l’heure!
J’ai dit à tout ce qui pleure,
Que tout lui sera rendu.”

Sonnez, cloches ruisselantes!
Ruisselez, larmes brûlantes!
Cloches qui pleurez le jour!
Beaux yeux qui pleurez l’amour!

§

Uma carta de mulher

As mulheres, eu sei, não devem escrever;
Mas ouso a arte,
Pra que em meu coração de longe possas ler
Como quem parte.

Qualquer beleza que existir em minha escrita
Mostraste antes
Mas soa nova a palavra cem vezes dita,
Quando entre amantes.

Que te traga alegria! Eu fico a esperar,
Mesmo distante;
Sinto que me vou, para ver e escutar
Teu passo errante.

Não te desvies se passar uma andorinha
Sobre esse chão,
Porque acredito que era eu, fiel, quem vinha,
Tocar-te a mão.

Tu te vais, tudo se vai! Parte em viagem,
Luzes e flores,
O verão te segue e me deixa à fria aragem,
Dos dissabores.

Se só temos esperança e alarmes, no entanto,
E a vista cansa,
Dividamos pelo melhor: mantenho o pranto,
Guarda a esperança.

Não, não queria, tanto a ti estou ligada,
Te ver penar:
Querer dor a sua metade abençoada,
É se odiar.

Une lettre de femme
in: Poésies Inédites, 1860.

Les femmes, je le sais, ne doivent pas écrire ;
J’écris pourtant,
Afin que dans mon cœur au loin tu puisses lire
Comme en partant.


Je ne tracerai rien qui ne soit dans toi-même
Beaucoup plus beau :
Mais le mot cent fois dit, venant de ce qu’on aime,
Semble nouveau.


Qu’il te porte au bonheur ! Moi, je reste à l’attendre,
Bien que, là-bas,
Je sens que je m’en vais, pour voir et pour entendre
Errer tes pas.


Ne te détourne point s’il passe une hirondelle
Par le chemin,
Car je crois que c’est moi qui passerai, fidèle,
Toucher ta main.

Tu t’en vas, tout s’en va ! Tout se met en voyage,
Lumière et fleurs,
Le bel été te suit, me laissant à l’orage,
Lourde de pleurs.


Mais si l’on ne vit plus que d’espoir et d’alarmes,
Cessant de voir,
Partageons pour le mieux : moi, je retiens les larmes,
Garde l’espoir.


Non, je ne voudrais pas, tant je te suis unie,
Te voir souffrir :
Souhaiter la douleur à sa moitié bénie,
C’est se haïr.

§

As rosas de Saadi

Eu pretendia esta manhã te trazer rosas;
Mas pus tantas em minhas vestes rigorosas
Que os nós cerrados não as puderam guardar.

Os nós se romperam. As rosas se soltaram
No vento, até chegar ao mar todas voaram.
Seguiram a água para não mais voltar.

A onda se viu de um vermelho incendiado.
À noite o vestido ainda está perfumado…
Respira em mim o aroma para recordar.

Les roses de Saadi
in: Poésies Inédites, 1860.

J’ai voulu ce matin te rapporter des roses ;

Mais j’en avais tant pris dans mes ceintures closes

Que les nœuds trop serrés n’ont pu les contenir.



Les nœuds ont éclaté. Les roses, envolées

Dans le vent, à la mer s’en sont toutes allées.

Elles ont suivi l’eau pour ne plus revenir ;



La vague en a paru rouge et comme enflammée.

Ce soir, ma robe encore en est tout embaumée…

Respires-en sur moi l’odorant souvenir.

(trad. Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo)

Referência:

DESBORDES-VALMORE, Marceline. Poésies. Préface et choix d’Yves Bonnefoy. Paris: Gallimard, 1983.

Padrão
poesia, tradução

I am vertical, de Sylvia Plath, em multitradução de Rafael Zacca

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Apresentação de “9 traduções de I am vertical, de Sylvia Plath”

A tradução coloca, no limite que ela é, em questão a questão do outro. O autor do texto traduzido é também outro autor, o tradutor, mesmo que, antes de o texto ser traduzido, o autor dele já fosse outro de si mesmo, ao menos durante o texto. Se não há, para os textos, o que não seja tradução, o que Rafael Zacca realiza na série de traduções para um mesmo poema de Sylvia Plath, “I am vertical”, é escrever versos como quem desenha linhas de fronteira num território conflagrado, fazendo da tradução, enquanto ela houver, o luto do original, enquanto ele houver. Uma poética da tradução, como essa, risca o texto, o território de autoria, enquanto ele resistir, até o fim, é um fim para o poema.

Assim é que na tradução as autorias e as línguas distintas não são experimentadas e formalizadas nos poemas como diferenças uma em relação à outra (o inglês e o português, Sylvia Plath e Rafael Zacca), mas cada uma como diferenças em si. Por isso a tradução para o português se coloca ao lado da tradução para o português-inglês, ou seja, para uma língua menor, de vocabulário e estrutura em português que, no entanto, mimetizam irônica e ludicamente o inglês: “Then the sky and I are in open conversation” transforma-se, em português, em “Assim, o céu e eu conversamos sem segredos” que se transforma, em português-inglês, em “Então o céu e eu estamos em aberta conversação”. E por isso se traduz o poema de Plath para, entre outras línguas menores ou mínimas, línguas como: a lei antiterrorismo brasileira, a carta de suicídio de Torquato Neto, o português-vogais, ou mesmo novamente o inglês, devolvendo à língua de origem um poema retraduzido.

E não é à toa que o poema traduzido em série seja um para o qual estar na posição horizontal – a do verso ou a do morto – se torna um modo de conversar sem segredos ou de estar em aberta conversação com o céu. Para traduzir o céu, suas constelações e galáxias, seria preciso deitar-se, e se, ao se deitar, não se compreende mais a diferença, no poema de Sylvia Plath, entre a horizontalidade do verso ou a horizontalidade do corpo morto que cai, então traduzir (o céu ou o poema) são um modo de demorar na língua. O texto se torna a dúvida entre morrer em versos ou matar o poema. Para o tradutor, morrer nos versos traduzidos ou matar o poema original. Como demorar nessa dúvida?

Quem, entre outros, pensou a questão foi Haroldo de Campos. No ensaio que como que inaugura a sua teoria, “Da tradução como criação e como crítica” (1962), Haroldo propõe, à guisa de conclusão e utopia, e naqueles tempos brasileiros de mobilização social pela cultura, o projeto de um Laboratório de Textos no qual alunos e professores de línguas e literaturas se reunissem para, através da confrontação tradutória coletiva com os textos literários, assim realizassem um projeto de crítica literária e de ensino da literatura que fizesse justiça ao texto. A lida com a materialidade do texto, e com essa materialidade experimentada como diferença (de uma língua a outra) e não como um monumento autorreferente, sugere à proposta de Haroldo as suas dimensões ética (a do texto como “concreção”) e política (a dos materialismos do texto, do laboratório, do ensino). Nem preciso lembrar que Rafael Zacca promove, como poeta, oficinas de poesia, a partir do seu trabalho no coletivo Oficina Experimental de Poesia, e estuda a obra de Walter Benjamin, para quem “a tradução é uma forma”. Ou seja.

Para mim, há alguma implicação entre essas traduções que agora se publicam –  a poética da tradução desenhada nelas –, o jogo entre o verso e a morte no poema de Sylvia Plath, e a lida coletiva nas oficinas de poesia. Traduzir, morrer, reunir sejam, talvez, verbos para que o poema seja, hoje, conjugado sob a força da invenção de ritos sacrificiais da cultura, sob a força daquilo que, tamanha a urgência por convivermos, só podíamos ter feito até ontem, antes de morrer.

Luiz Guilherme Barbosa

* * *

9 TRADUÇÕES DE I AM VERTICAL, DE SYLVIA PLATH

por Rafael Zacca

Uma coisa que me pega de jeito no Hölderlin tradutor,
no Francis Bacon pintor, e, da mesma forma,
na Joana D’Arc soldada de Deus
é o alto nível de consciência-de-si
presente em suas respectivas manipulações
da catástrofe.
Anne Carson, Nay Rather

A tradução não se vê como a obra literária, mergulhada, por assim dizer, no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da língua estrangeira. (…) Pois é o grande tema da integração das várias línguas.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor (trad. Susana Kampff Lages)

* * *

I am vertical traduzido para o inglês por Sylvia Plath

1.
I am vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them —
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

§

I am vertical traduzido para o português

2.
Eu estou de pé

Mas preferia estar deitada.
Não sou uma árvore de raízes fincadas
Sugando minerais e amor maternal
Para que a cada março eu resplandeça em folhas,
Nem sou a flor mais bela dos canteiros
Delicados, atraindo meu quinhão de “Ais”
Antes do iminente despetalar.
Comparadas a mim, uma árvore é imortal
E uma flor, conquanto pequena, é mais espantosa –
Invejo a longevidade de uma e a ousadia da outra.

Hoje, à luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e as flores espalharam seus odores na noite fresca.
Caminho entre elas, mas não me notam.
Às vezes imagino que, dormindo,
Sou sua semelhante –
Penso obscura.
É mais natural se estou deitada;
Assim, o céu e eu conversamos sem segredos.
Serei útil quando estiver enfim deitada:
Aí as árvores serão mãos para mim, e, as flores, demora.

§

I am vertical traduzido para o português-inglês

3.
Eu estossou vertical

Mas eu preferia muito estassar horizontal.
Eu não sou uma árvore com minhas raízes em o solo
Chupando cima minerais e maternal amor
Então que cada Março eu talvez brilhe dentro folha,
Nem sou eu a belezura de um jardim cama
Atraindo minha divisa de “Ais” e espetacularmente pintado,
Dessabido eu devo logo despetalar.
Comparadas com mim, uma árvore é imortal
E a flor-cabeça não maior, mas mais surpreendente,
E eu quero o da uma longevidade e o da outra ousadia.

Nhoitje, em a infinitesimal luz de as estrelas,
As árvores e as flores tem estado espalhando seus frescos odores
Eu ando entre elas, mas nenhuma de elas estão notando.
Algezes eu penso que quando eu estou dormindo
Eu devo mais perfeitamente assemelhá-las
Pensamentos vão turvos.
Isso é mais natural pra mim, deitada baixo.
Então o céu e eu estamos em aberta conversação,
E eu devo ser útil quando eu fimenticar finalmente:
Então as árvores talvez toquem-me depra vez, e as flores terão tempo pra mim.

§

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§

Eu estou de pé traduzido para a
Lei Nº 13.620, de 16 de março de 2016, a lei antiterrorismo brasileira

5.
Eu é um ou mais prejuízo da tipificação penal

Consiste em hipótese em eu investigar ameaçar usar gases tóxicos.
Eu não é agente de reclusão cinco a oito anos
A receber ou fornecer treinamento contra a vida ou a integridade física de pessoa,
Para que cada eventual crime seja previsto fora ou dentro de instalações militares,
Não é também o mais único dos parágrafos
Com a finalidade de provocar terror social
Antes das instituições bancárias.
Distinto de eu, um agente de reclusão de cinco a oito anos é total
E o parágrafo, ainda que vetado, promove mais destruição em massa.
Hipótese de paz armada em um, de razões de discriminação no outro.

16 de março de 2016, contra qualquer constituição da liberdade
Os agentes de reclusão cinco a oito anos e os parágrafos são conceito de organização
[terrorista.
Eu ameaça municiar indivíduos, não investigam.
De modo temporário eu decreta explosivos nucleares
Eu é Estado.
Eu é Subchefia para Assuntos Jurídicos.
É mais natureza se eu ameaça usar gases tóxicos;
Regulamenta sem investigações
Será mecanismo quando ameaçar usar gases tóxicos.
Então os agentes de reclusão de cinco a oito anos serão levados ao conhecimento do
[Ministério Público, e os parágrafos, à Polícia Federal.

§

Eu estou de pé traduzido para a carta de suicídio de Torquato Neto

6.
De modo Q FICO

Ou não consigo acompanhar a marcha do progresso
Não sou uma múmia de saudades
Louca disparada com véu e grinalda
Para acordar e me contorcer em dores
Não peço amor de palhaços mesmo
Vivos, com o cacho de banana
Os cariocas do tempo de começar a ver
A múmia é SANTA
E os palhaços o favor de acordar
Chega de contorcer, chega de banana

FICO, ao sacudirem demais o Thiago,
As múmias e os palhaços feito a minha mulher
Guia de cegos
Vou ficando sossegado
O amor pode acordar
Pra mim chega!
De modo Q FICO
Não acredito em guia de palhaços
Empacotado enquanto dure
Ana e Thiago começaram a ver as dores do progresso.

§

Eu estou de pé traduzido para os itens “Cuidados gerais” e “Instruções de Uso”
do Guia do Usuário do fogão Esmaltec elétrico, 4 bocas, branco

7.
A criança dentro do fogão quebra por choque térmico

Mas deveria queimar a casa.
Não é metal pesado de cabos tensionados
Alimentando-se de mundo e solvente
Para a cada queimadura chamuscar a tampa de vidro
E também não é gás incolor
Fósforo branco, detalhando a espuma sobre a mangueira
A poucos passos da explosão.
Atrás da criança, o metal é todo acidente
E o gás, ainda que vazado, é mais manipulado –
A criança precisa ser uma mangueira metálica.

Cuidados gerais, instruções de uso,
O metal e o gás se instalaram à mesa.
A criança segue sem advertências.
Se a criança enfia a boca no alumínio, autorizada,
Encontrará a abertura –
A criança é um pano úmido.
É mais seguro se ela tem perigo
E os interruptores e os fósforos se comprometem.
A criança pressiona o botão do acendimento automático:
O metal prepara um choque, e o gás, a chama.

§

Eu estou de pé traduzido para verbete “Joanad’Arc”
de Homens e Mulheres da Idade Média
organizado por Jacques Le Goff, (trad. Nícia Adan Bonatti)

8.
Iletrada linguagem é tristeza

Mas ilumina estar sobressalto.
Não é um vilarejo inocente bom cristão
Mergulhado em Deus e armas sobrenaturais
Para que a cada guerra iletrada linguagem vença em Chinon
Não é o mais aflorado profeta
Desencorajado, aconselhado por maus espíritos
Antes da cura mitômana.
Contraste com iletrada linguagem, o vilarejo são vozes
E um profeta, mesmo desesperado, é mais cético,
Iletrada linguagem quer conselhos de um e desespero de outro.

1431, no cerco das nações,
Vilarejo e profetas espalharam seus arcanjos por todo o tribunal.
Não notam que julgam iletrada linguagem que fala.
Distúrbio papel mental natura a inação:
um naufrágio do desigual –
marionete do demônio.
É mais natural se iletrada linguagem está sobressalto;
Assim a iletrada e a miraculosa linguagem encontram mensageiro.
Iletrada linguagem será urgência se estiver sobressalto:
O vilarejo será arcanjo Miguel e o profeta catedral de Reims.

§

I am vertical traduzido para português-vogais

9.
Ae__eiau

â…aiuou…a.e…i…oiõau
ai.eóaee…ui.ai.uu.ieoiu
âiu…aieaue…óeiâ
oéiea.ai.eiiea…iuiea
pieai.eieâi.óaaeé
aáiaiée…óaeéauai.eie
ã…oui.ai.â.uãéau
oeeuií…aíiioau
ea.aueéa.oau.â.o…ai
eaiuaeuõ…oeií.â.e.óe.ai

uai.i.e.iiieiau.ai.o.e.a
eíieeaue.éeii.eui.ei.uuoo
aiuauaoe…âoeoéaôii
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ai.â.ô.eéi.iéeé
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Padrão
poesia, tradução

Três poemas de Emily Dickinson, por Adalberto Müller

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3 POEMAS DE EMILY DICKINSON

É sempre difícil escolher textos de Emily Dickinson, dentro de um universo de cerca de 1800 poemas. Os três aqui escolhidos apontam para três caminhos de leitura: o primeiro é quase uma carta a Sue Gilbert, amiga de juventude, com quem Emily teve uma relação afetiva intensa, e que acabou se tornando sua cunhada. O segundo, uma pequena joia, apresenta o embate tenso de Emily com a fé: para ela, acreditar em Deus significa poder dialogar com ele em língua de poesia. O terceiro mostra aquele equilíbrio perfeito entre imagem, ritmo e pensamento, que torna a sua poesia tão difícil de ser traduzida. Estas traduções (parte de um projeto em andamento, de traduzir da poesia completa e as cartas) seguem a edição crítica de R.W. Franklin e os manuscritos do Emily Dickinson Archive. O primeiro poema tem 4 versões diferentes. Escolhi a primeira, por ser o que estava na carta enviada a Sue. Respeitei a grafia estranha de algumas palavras tal como usada por Emily (esp. “Buenos Ayre”).

Adalberto Müller

* * *

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Manuscrito com o poema “Your Riches – taught me – poverty!”

Your – Riches – taught me – poverty!
[F418A; J299]

Your – Riches – taught me – poverty!
Myself – a “Millionaire”
In little – wealths – as Girls – can boast
Till broad as Buenos Ayre –
You drifted your Dominions –
A Different – Peru –
And I esteemed – all Poverty –
For Life’s Estate – with you –

Of “Mines” – I little know, myself –
But just the names, of Gems
The Colors – of the Commonest
And scarce of Diadems –
So much – that did I meet the Queen
Her glory – I should know –
But this, must be a different wealth –
To miss it – beggars – so!

I’m sure ‘tis “India” – all day –
To those who look on you –
Without a stint – without a blame –
Might I – but be the Jew!
I’m sure it is “Golconda”
Beyond my power to dream –
To have a smile – for Mine – each day –
How better – than a Gem!

At least – it solaces – to know –
That there exists – a Gold
Altho’ I prove it – just in time –
Its distance – to behold –
Its far – far – Treasure – to surmise –
And estimate – the Pearl –
That slipped – my simple fingers – thro’
While yet – a Girl – at school!

Dear Sue –
You see I remember.
……….Emily
[1862]

Rica – me ensinastes – pobreza!
Eu mesma – com “Donaires”
De dama – que toda Menina –
Ostenta – uma “Buenos Ayres” –
Estendestes teus Domínios –
Ao Peru – Antigo –
Estimei – toda pobreza –
Imóvel de Viver – contigo!

De “Minas” – pouco sei –
Apenas os nomes – das Gemas
As Cores – das mais Comuns
Uns poucos Diademas –
Tanto – que encontrei A Rainha
Devia saber – sua glória –
Mas esta – é uma outra riqueza
Mendigos sabem – a história!

Certo – é uma “Índia” – todo dia –
A quem vê o rosto teu –
Sem parcelas – sem queixas –
Só posso ser – o teu Judeu!
Sei que é uma “Golconda” –
Pra tal sonho – sou pequena –
Ter um sorriso – teu – e sempre –
Muito melhor – que uma Gema!

Ao menos – consola – saber –
Que lá existe – um Ouro
Embora eu saiba, a tempo –
A distância – do Tesouro!
Longe – longe – não agarro –
Esta pérola – não se estima –
Que escorreu-me entre os dedos –
Ainda – na escola – de Menina!

Querida Sue –
Como vês
Eu me lembro.
……….Emily

[1862]

§

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Manuscrito de “Bind me – I still can sing”

Bind me I still can sing
[F1005A; J1005]

Bind me – I still can sing –
Banish – my mandolin
Strikes true, within –

Slay – and my Soul shall rise
Chanting to Paradise –
Still thine –

[1865]

Me ata – canto mesmo assim
Proíbe – meu bandolim –
Toca dentro, de mim –

Me mata – e a Alma flutua
Cantando ao Paraíso –
Sou Tua –

[1865]

§

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Manuscrito de “Time’s wily Chargers will not wait”

Time’s wily Chargers will not wait
[F1498A; J1458]

Time’s wily

Chargers will

not wait

At any Gate

but Woe’s –

But there – so

gloat to hesitate

They will not

stir for blows –

[1879]

Astutos Corcéis do Tempo
Param – e não vão embora –
Na Porta do Tormento –
Nem que lhes metam espora –

[1879]

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poesia, tradução

“parturition”, de mina loy

nós já tivemos um post da mina loy, na tradução de felipe paradizzo.

mas eu não paro de voltar a ela.

dessa vez, porque eu amo muito uma mulher que é a mãe da minha filha,

agora grávida de um menino.

é nesse amor por uma, por duas & por três que traduzi “parturition”.

um poema sobre parto, mas mais que isso — um poema-parto.

quem já viu uma mulher no processo sabe o transe & a transa toda.

no mais, a mina.

guilherme gontijo flores

* * *

Parto

Sou o centro
De um círculo de dor
Que excede seus limites em toda direção
O negócio do sol brando
Não tem nada comigo
Em meu congestionado cosmo de agonia
Que não tem saída
Em vibrações nervosas infinitamente prolongadas
Ou na contração
Até o ponto milimétrico do ser
Está uma irritação …….estranha
Ela é ……………………entranha
………………………….Entranha
Ela é estranha.
A área sensível
É idêntica à ……………extensidade
Da intensão

Sou a falsa quantidade
Na harmonia da fisiológica potencialidade
Com a qual
Por ganhar autocontrole
Eu deveria concordar
Em tempo

A dor não é mais forte do que a contraforça
A dor convoca em mim
A luta se iguala

A janela aberta está plena duma voz
Um pintor retratista da moda
Correndo escada acima do ap de uma mulher
Canta
……“As garotas ‘tão no ponto
……As garotas boazinhas
……Podem usar cachinhos
……Ou —”
Atrás dos pensamentos aos quais permito cristalização
A concepção …………………..Bruta
Por quê?
A irresponsabilidade do macho
Deixa à mulher sua Inferioridade superior
Ele corre escada acima

Escalo um monte distorcido de agonia
Incidentalmente na exaustão do controle
Alcanço o pico
E aos poucos amaino na antecipação do
Repouso
Que nunca chega.
Pois cresce um outro monte
Que instigada pelo inevitável
Eu devo atravessar
Me atravessando

Algo no delírio das horas noturnas
Confunde enquanto intensifica a sensibilidade
E borra os contornos espaciais
Pra acrescentar o ardil do circunscrito
Que o murmúrio de uma fera crucifixa
Vem de tão longe
E a espuma nos músculos tesos da boca
E nenhures de mim
Há um clímax na sensibilidade
Quando a dor que se supera
Se torna Exótica
E o ego pode unificar os polos positivo e negativo da sensação
Unindo forças opositoras, resistentes
Numa revelação lasciva

Relaxamento
Negação de mim como unidade
Interlúdio vácuo
Eu devia estar vazia de vida
Dando vida
Pois a consciência em crise ………….corre
Por depósitos subliminares de processos evolutivos
Será que eu não
Escrutinizei
Nalgum lugar
Uma mariposa morta de asa branca
Botando ovos?
Um momento
Sendo realização
Pode
Vitalizado pela iniciação cósmica
Ceder uma desculpa adequada
Pra aglomeração
Objetiva das atividades
Duma vida.
VIDA
Um salto com a natureza
Até a essência
Da imprevista Maternidade
Contra minha coxa
Toque de moção infinitesimal
Ondulação
Quase imperceptível
Calor …………….umidade
Mexida de vida incipiente
Que precipita em mim
O conteúdo do universo
Mãe sou
Idêntica
À Maternidade infinita
……Indivisível
……Agudamente
……Absorvida
……No
Era—é—sempre—será
Da reprodutividade cósmica

Surge do inconsciente
A impressão duma gata
Com filhotes cegos
Entre as patas
A mesma mexida ondulante na vida
Eu sou a gata

Surge do in-consciente
A impressão de pequenas carcaças
Cobertas por garrafas azuis
— Epicurista —
E por entre insetos
Ondeia a mesma ondulação da viva
Morte
Vida
Eu sei
Tudo sobre
……………Desdobrar-se

Na manhã seguinte
Cada mulher-do-povo
pé ante pé na pilha rubra do tapete
No seu serviço silencioso
Cada mulher-do-povo
Usando uma auréola
Uma absurda aureolinha
Que ela sublimemente ………nem nota

Um dia ouvi na igreja
— O homem e a mulher Deus os fez —
…………………………Graças a Deus.

(trad. guilherme gontijo flores)

* * *

Parturition

I am the centre
Of a circle of pain
Exceeding its boundaries in every direction
The business of the bland sun
Has no affair with me
In my congested cosmos of agony
From which there is no escape
On infinitely prolonged nerve-vibrations
Or in contraction
To the pinpoint nucleus of being
Locate an irritation ……..without
It is ………………………within
……………………….. …Within
It is without.
The sensitized area
Is identical with the ……..extensity
Of intension

I am the false quantity
In the harmony of physiological potentiality
To which
Gaining self-control
I should be consonant
In time

Pain is no stronger than the resisting force
Pain calls up in me
The struggle is equal

The open window is full of a voice
A fashionable portrait painter
Running upstairs to a woman’s apartment
Sings
…..“All the girls are tid’ly did’ly
…..All the girls are nice
…..Whether they wear their hair in curls
…..Or —”
At the back of the thoughts to which I permit crystallization
The conception              Brute
Why?
The irresponsibility of the male
Leaves woman her superior Inferiority.
He is running upstairs

I am climbing a distorted mountain of agony
Incidentally with the exhaustion of control
I reach the summit
And gradually subside into anticipation of
Repose
Which never comes.
For another mountain is growing up
Which goaded by the unavoidable
I must traverse
Traversing myself

Something in the delirium of night hours
Confuses while intensifying sensibility
Blurring spatial contours
So aiding elusion of the circumscribed
That the gurgling of a crucified wild beast
Comes from so far away
And the foam on the stretched muscles of a mouth
Is no part of myself
There is a climax in sensibility
When pain surpassing itself
Becomes Exotic
And the ego succeeds in unifying the positive and negative poles of sensation
Uniting the opposing and resisting forces
In lascivious revelation

Relaxation
Negation of myself as a unit
Vacuum interlude
I should have been emptied of life
Giving life
For consciousness in crises …………….races
Through the subliminal deposits of evolutionary processes
Have I not
Somewhere
Scrutinized
A dead white feathered moth
Laying eggs?
A moment
Being realization
Can
Vitalized by cosmic initiation
Furnish an adequate apology
For the objective
Agglomeration of activities
Of a life
LIFE
A leap with nature
Into the essence
Of unpredicted Maternity
Against my thigh
Touch of infinitesimal motion
Scarcely perceptible
Undulation
Warmth ………moisture
Stir of incipient life
Precipitating into me
The contents of the universe
Mother I am
Identical
With infinite Maternity
…..Indivisible
…..Acutely
…..I am absorbed
…..Into
The was—is—ever—shall—be
Of cosmic reproductivity

Rises from the subconscious
Impression of a cat
With blind kittens
Among her legs
Same undulating life-stir
I am that cat

Rises from the subconscious
Impression of small animal carcass
Covered with blue bottles
— Epicurean –
And through the insects
Waves that same undulation of living
Death
Life
I am knowing
All about
…………….Unfolding

The next morning
Each woman-of-the-people
Tiptoeing the red pile of the carpet
Doing hushed service
Each woman-of-the-people
Wearing a halo
A ludicrous little halo
Of which she is sublimely ……..unaware

I once heard in a church
— Man and woman God made them —
…………………………Thank God.

Mina Loy

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