poesia, tradução

Um poema de Victor Hugo por Erick Monteiro Moraes

No post sobre a poesia de Victor Hugo no Brasil (ou sua espantosa escassez), o Guilherme Gontijo Flores levanta a questão dos poetas canônicos descanonizados, isto é, aqueles que todos conhecem, mas ninguém lê. Dentre os autores citados por ele, Goethe e Bilac são os nomes que mais me chamam atenção. O primeiro é o autor de “Kennst du das Land?”, que constitui a epígrafe (quase sempre omitida) da “canção do exílio”, o mais famoso e parodiado poema de nosso Romantismo e, talvez, de toda a nossa literatura. O segundo é vítima da aversão ao parnasianismo que se arraigou na sensibilidade modernista. Bilac, contudo, é autor de poemas memoráveis, dentre os quais “Profissão de fé”, parodiado por Manuel Bandeira em “Os Sapos” (haveria reconhecimento maior?). Curiosamente, esse poema de Bilac tem como epígrafe versos de “A M. Froment Meurice”, de Victor Hugo. Ou seja, as epígrafes de dois dos poemas mais representativos de nossa literatura são versos de poetas europeus que ninguém mais lê por aqui. Realizei, portanto, esta tradução porque acredito que esse poema de Hugo seja tão valioso para Bilac e nosso parnasianismo quanto “Kennst du das Land?” é para Gonçalves Dias e nosso Romantismo. O poema “A M. Froment Meurice” está em Les contemplations.

Erick Monteiro Moraes

* * *

A M. FROMENT MEURICE

Nous sommes frères: la fleur
Paur deux arts peut être faite.
Le poëte est ciseleur;
Le ciseleur est poëte.

Poëtes ou ciseleurs,
Par nous l’esprit se révèle.
Nous rendons les bons meilleurs,
Tu rends la beauté plus belle.

Sur son bras ou sur son cou,
Tu fais de tes rêveries,
Statuaire du bijou,
Des palais de pierreries!

Ne dis pas: «Mon art n’est rien…»
Sors de la route traceé,
Ouvrier magicien,
Et mêle a l’or la pensée!

Tous le penseurs, sans chercher
Qui finit ou qui commence,
Sculptent le même rocher:
Ce rocher, c’est l’art immense.

Michel-Ange, grand viellard,
En larges blocs qu’il nous jettes,
Le fait jaillir au hasard,
Benvenuto nous l’émiette.

Et, devant l’art infini,
Dont jamais la loi ne change,
La miette de Cellini
Vaut le bloc de Michel-Ange.

Tout est grand; sombre ou vermeil,
Tout feu qui brille est un âme.
L’étoile vaut le soleil;
L’étincelle vaut la flamme.

Paris, octobre 1841.

A M. FROMENT MEURICE

Nós somos irmãos: a flor
No papel como na pedra.
O poeta é escultor;
O escultor é poeta.

Poetas ou escultores,
A musa a nós se revela.
Tornamos os bons melhores,
Tu, a beleza mais bela.

Sobre o braço ou o pescoço,
Crias tuas fantasias,
Cristal preciso e precioso,
De paços de pedrarias!

Não digas “Minha arte é nada…”,
Artesão do encantamento,
Foge da rota traçada,
Funde ao ouro o pensamento.

Sem buscar nem o que brota
Nem o que finda, quem pensa
Sempre esculpe a mesma rocha.
Essa rocha é a arte imensa.

Michelangelo, arguto,
Faz jorrar em grandes blocos
A arte que Benvenuto
Talha em minúsculos flocos.

E, ante a arte infinita,
Cuja lei não vê mudança,
Vale a gema de Cellini
O bloco de Michelangelo.

Tudo é grande; rubra ou negra,
Toda alma engendra um drama.
O sol equivale à estrela;
O cintilar vale a chama.

Paris, outubro 1841.

(Victor Hugo, Les Contemplations. Paris: 1858. Tradução: Erick Monteiro Moraes)

* * *

Erick Monteiro Moraes (Rio de Janeiro, 1993) é poeta e tradutor. Formou-se em Letras pela PUC-Rio e atualmente cursa o mestrado na mesma instituição.

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David Diop (1927-1960), por Lucas Perito

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David Léon Mandessi Diop teve uma vida curta: nasceu em 1927, em Bordeaux, França e morreu em 1960, aos 32 anos, em um acidente de avião na costa do Senegal. Diop, uma promessa da poesia francesa de ascendência africana, é considerado o mais revoltado dos poetas do movimento Négritude.

Filho de pai senegalês e mãe camaronesa, Diop passou a infância em hospitais devido à sua saúde frágil. Homossexual, mantinha a sua sexualidade reprimida a ponto de ter tentado se suicidar.

Sua poesia é fortemente marcada pela raiva e o protesto contra os valores europeus. Sua obra é baseada em um único livro (lançado ainda em vida), “Coups de Pilon” em que seus poemas passam pelo sofrimento do negro desde os tempos da escravidão, pela dominação colonial e a condição do negro no século XX, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelos valores da cultura europeia, e termina com um chamado à luta do povo africano.

Sua escrita ocorre principalmente no período em que muitas das colônias africanas lutavam pela independência e os conflitos estavam no auge. Vivendo nessa dicotomia entre ser francês, mas sem perder as raízes de seus antepassados, Diop viu os dois lados desse conflito, vivendo boa parte da sua vida na França e tendo sido professor no Senegal e, posteriormente, em Guiné – atendendo ao apelo de Sékou Touré, primeiro Presidente de Guiné, se junta ao PAI (Partido Africano de Independência) e assume a função de diretor da Escola Normal.

Seus primeiros poemas saíram em uma das revistas mais importante para o movimento Négritude, “Présence Africaine” e sua obra tem grande influência de Aimé Césaire e Léopold Senghor, que foi, inclusive, seu professor na faculdade e que publicou, em 1948, alguns de seus poemas no livro “Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française”.

Abordar o trabalho de David Diop tem como intuito, não só apresentar um poeta menos conhecido do movimento em questão, como também chamar a atenção para um trabalho que se mostra ainda atual. A escolha por estes três poemas baseou-se em sua representatividade no conjunto da obra do autor, pois apresentam três pontos da condição do negro na história: o racismo que remonta ao Code Noir, no primeiro poema; a luta contra a opressão, no segundo e o passado africano na busca por conhecer suas raízes e a partir delas redefinir o mundo em que se vive.

lucas perito

* * *

Un blanc m’ a dit…

Tu n’es qu’un nègre!
Un nègre!
Un sale nègre!
Ton coeur est une éponge qui boit
Qui boit avec frénésie le liquide empoisonné du vice
Et ta couleur emprisonne ton sang
Dans l’éternité de l’esclavage.
Le fer rouge de la justice t’a marqué
Marqué dans ta chair de luxure.
Ta route a les contours sinueux de l’humiliation
Et ton avenir, monstre damné, c’est ton présent de honte.
Donne-moi ce dos qui ruisselle
Et ruisselle de la sueur fétide de tes fautes.
Donne-moi tes mains calleuses et lourdes
Ces mains de rachat sans espoir.
Le travail n’attend pas!
Et que tombe ma pitié
Devant l’horreur de ton spectacle.

Um branco me disse…

Tu não passas de um negro!
Um negro!
Um negro sujo!
Teu coração é uma esponja que bebe
Que bebe com frenesi o líquido envenenado do vício
E tua cor aprisiona teu sangue
Na eternidade da escravidão.
O ferro vermelho da justiça te marcou
Marcou sobre tua carne de luxúria.
Teu caminho tem os contornos sinuosos da humilhação
E teu futuro, monstro danado, é o teu presente vergonhoso.
Dá-me esse dorso que escorre
E escorre suor fétido de tuas faltas.
Dá-me tuas mãos calejadas e pesadas
Essas mãos adquiridas sem esperança.
O trabalho não espera!
E que caia minha piedade
Frente ao horror de teu espetáculo.

§

 

Défi à la force

Toi qui plies toi qui pleures
Toi qui meurs un jour sans savoir pourquoi
Toi qui luttes qui veilles sur le repos de l’Autre
Toi qui ne regardes plus avec le rire dans les yeux
Toi mon frère au visage de peur et d’angoisse
Relève-toi et crie: NON

Desafio à força

Tu que te curvas tu que choras
Tu que morres um dia sem saber por quê
Tu que lutas que velas sobre o repouso do Outro
Tu que não vês mais com o sorriso nos olhos
Tu meu irmão a face do medo e da agonia
Levanta-te e grites: NÃO

§

 

Afrique

À ma mère.

Afrique mon Afrique
Afrique des fiers guerriers dans les savanes ancestrales
Afrique que chante ma grand-mère
Au bord de son fleuve lointain
Je ne t`ai jamais connue
Mais mon regard est plein de ton sang
Ton beau sang noir à travers les champs répandu
Le sang de ta sueur
La sueur de ton travail
Le travail de l’esclavage
L`esclavage de tes enfants
Afrique dis-moi Afrique
Est-ce donc toi ce dos qui se courbe
Et se couche sous le poids de l’humilité
Ce dos tremblant à zébrures rouges
Qui dit oui au fouet sur les routes de midi
Alors gravement une voix me répondit
Fils impétueux cet arbre robuste et jeune
Cet arbre là-bas
Splendidement seul au milieu des fleurs blanches et fanées
C`est L’Afrique ton Afrique qui repousse
Qui repousse patiemment obstinément
Et dont les fruits ont peu à peu
L’amère saveur de la liberté.

África

À minha mãe

África minha África
África de orgulhosos guerreiros das savanas ancestrais
África que canta minha avó
À beira de seu rio distante
Eu nunca te conheci
Mas meu olhar é pleno de teu sangue
Teu belo sangue negro através dos campos difundido
O sangue de teu suor
O suor de teu trabalho
O trabalho da escravidão
Escravidão de tuas crianças
África diga-me África
É portanto teu esse dorso que se curva
E se deita sobre o peso da humilhação
Esse dorso trêmulo a listras vermelhas
Que disse sim ao chicote nos caminhos do meio dia
Então gravemente uma voz me respondeu
Filhos impetuosos esta árvore robusta e jovem
Aquela árvore lá
Esplendidamente só no meio das flores brancas e desbotadas
Esta é a África tua África que renasce
Que renasce pacientemente obstinadamente
E cujos frutos têm pouco a pouco
O amargo sabor da liberdade.

 

* * *

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

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Baudelérias, por Wladimir Saldanha

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BAUDELÉRIAS: O RISO E O PROSAÍSMO DE BAUDELAIRE

A propósito de Baudelaire, constuma-se acentuar o contraste entre a forma elevada de sua poesia, que segue o modelo clássico francês, e os temas baixos – a carniça, o satanismo, a vida das ruas. Mas, haveria algo de próprio no classicismo do autor de As flores do mal?

Para alguns leitores incomuns, como T. S. Eliot e Marcel Proust, sim. O primeiro sustenta que a fama veio para Baudelaire quando a “arte pela arte era um dogma”, doutrina que “afetou a crítica e a apreciação” do poeta francês (ELIOT, 1989). Já Proust advertia, sobre o soneto “Recolhimento”: “Falo do classicismo de Baudelaire como verdade pura, com o escrúpulo de não falsear, por engenhosidade, o que quis o poeta” (PROUST, 2017; traduzimos). E por isso discordava dos amigos que viam no primeiro verso daquele poema – “Sois sage, ô ma douleur, et tiens-toi plus tranquille” – uma repetição de Corneille, que na peça El Cid escreveu: “Pleurez, Pleurez, mes yeux et fondez-vous en eau“. Ao contrário da apóstrofe corneliana, Proust pensava o verso de Baudelaire como “a língua contida, trêmula, de alguém que tirita por ter chorado demais” (id, ib.).

A tais leitura podemos juntar a do italiano Alfonso Berardinelli, ao indagar-se dos motivos que teriam levado Baudelaire a fazer seus poemas em prosa ao tempo da finalização de As flores do mal. Não seria por acaso; haveria uma espécie de “aliança com a prosa”, termo que toma de empréstimo a Thibaudet: “a prosa é sobretudo o que sustenta a poesia, tornando a escansão do alexandrino sintaticamente mais dúctil e equilibrada” (BERARDINELLI, 2007, p. 44).

Como obter, em traduções, esse classicismo peculiar? Talvez a vantagem para alguém que se proponha a oferecer mais algumas possibilidades tradutórias de As flores do mal seja ousar um pouco. Baudelaire é dos poetas mais traduzidos no Brasil. Se Antonio Candido falava, ainda em 1973, em “apogeu de influência” seguido de “fase acadêmica de celebração tranquila”, é certo que a “contribuição monumental de Jamil Amansur Haddad”, embora não seja a “tradução completa” de As flores do mal que então apontava, fixaria o cânone tradutório baudelairiano. Este deixa para trás as errantes contribuições de Félix Pacheco, Carvalho Júnior, Teófilo Dias e outros – os “primeiros baudelairianos”, como os chama o crítico – que, por meio de paráfrases ou emulações, deram inicialmente ao Brasil um autor mais sexualizado e menos prosaico (cf. CANDIDO, 2006, p. 38).

Hoje Baudelaire conta com mais traduções integrais, como é o caso da de Ivan Junqueira, de 1985, além de traduções esparsas de poemas isolados de As flores do mal. Todas se esforçam por manter o contraste entre a forma elevada e o conteúdo baixo; a rima chamada consoante, com simetria desde a consoante de apoio – rima “para o olho e para o ouvido”, como se dizia nos manuais franceses, é norma de regra.

Mas o baudelariano de primeira hora Paul Verlaine, que frustaria os decandentistas de seu tempo na empresa de fazê-lo um precursor da retomada das toantes, reconheceria sua posição contrária como algo intrinsecamente ligado à língua francesa, um modo de dar certo colorido à monotonia acentual do idioma, no qual as oxítonas preponderam (cf. VERLAINE, 1972, 696-701).

Ora, não se pode transpor a interdição das toantes “sem mais” para uma língua como o português (de raras oxítonas); ao contrário, o que se pode transpor quase intuitivamente é o argumento do próprio Verlaine, estendendo-o a Baudelaire. Permitir-se algumas toantes em Verlaine, Baudelaire e outros poetas que ainda escreviam na pauta parnasiana nos últimos anos do século XIX, às vésperas do verso livre, não nos parece algo tão sacrílego.

Trata-se apenas de ampliar o arsenal tradutório, reconhecendo uma diferença de poética que corresponde à diferença de prosódia das duas línguas. E talvez evitando escolhas dicionarescas, em benefício de versões mais fluentes. Assim nasceram as Baudelérias, experiência de traduzir Baudelaire fora do cânone tradutório brasileiro, isto é, usando toantes. Também se procura ajustar os pronomes, preferindo o “você” ao “tu”, já que o primeiro é mais usado no português do Brasil, enquanto o segundo, no francês, não se associa necessariamente a modos elevados de linguagem. Aos poucos, parecia surgir um Baudelaire mais próximo e, talvez, mais ridente, mais irônico. Então pareceu tentação irresistível acentuar, na seleção de vocábulos, certa comicidade do original.

No mesmo estudo de Antonio Candido, há a observação de como Teófilo Dias evitou, por “falta de audácia”, a palavra “salive, que Baudelaire introduziu na poesia e enriqueceu de conotações as mais diversas”. Sabe-se como ironia e ambiguidade são gêmeas. E não se pode sonegar a Baudelaire o riso, sobre que refletiu o poeta em ensaio famoso, reconhecendo nele “algo satânico e profundamente humano (…), essencialmente contraditório, (…) ao mesmo tempo sinal de uma grandeza infinita e de uma miséria infinita” (BAUDELAIRE, 2008, p. 42).

 

REFERÊNCIAS:

BAUDELAIRE, Charles. Da essência do riso. In: ______.Escritos sobre arte. Organização e tradução de Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Hedra, 2008.
BERARDINELLI, Alfonso. Da Poesia à Prosa. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
ELIOT, T. S. Baudelaire. In :______. Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo : Art Editora, 1989.
PROUST, Marcel. À propos de Baudelaire. Disponível em : < https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_propos_de_Baudelaire&gt; Acessado em 19.04.2017.
VERLAINE, Paul. Un mot sur la rime. In : ______. Oeuvres en prose. Pleiade. Paris : Gallimard, 1972.

 

Wladimir Saldanha nasceu em 1977, em Salvador, cidade onde reside. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia, é poeta, crítico e tradutor. Em poesia, publicou As culpas do poema (Prêmio Asabeça/Scortecci, 2012), livro que seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda: Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia; e Cacau inventado (Mondrongo, 2015), livro semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa, em 2016. Pela mesma editora, em 2017, publica Natal de Herodes, poesia. Como tradutor, em 2014 participou da reedição de A cinza do Purgatório, de Otto Maria Carpeaux, pela Editora Danúbio, de Santa Catarina, tendo ficado responsável por verter autores como Rimbaud, Moréas, Georges Rodenbach entre outros. Colaborou também em algumas notas de rodapé, na identificação de fontes citadas por Carpeaux. Publicou na revista francesa Actualité Verlaine, dedicada a estudos do poeta francês Paul Verlaine, ensaio sobre a recepção desse autor no Brasil e problemas de sua tradução. Tem artigos de crítica no Jornal Rascunho (Curitiba), Jornal A Tarde (Salvador) e Jornal Opção (Goiânia).

* * *

CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

CORRESPONDÊNCIAS

A Natureza é templo e das colunas vivas
Por vezes vai minar um vozerio a címbalos;
Os homens passam lá no matagal de símbolos
Que familiarmente olham tais convivas.

Como ecos longos se confundem longe, onde
Há tenebrosa e profundíssima unidade,
Vasta como a noite é, ou como a claridade,
Perfumes, cores, sons – um fala, outro responde.

Perfumes frescos como se de carne nova,
Suaves de oboé, virentes de capim,
E outros, miasmais, riqueza a toda prova,

Com aquelas expansões do que não tem mais fim –
Do almíscar, benjoim, do âmbar ou sabeia,
Que cantam os frissons do corpo e da ideia.

§

LES CHATS

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l’horreur des ténèbres ;
L’Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S’ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s’endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d’étincelles magiques,
Et des parcelles d’or, ainsi qu’un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

OS GATOS

Os amantes fogosos e os sábios de assento
Amam de igual amor, se a idade os apraza,
Os bravos gatos bons, os orgulhos da casa,
Sedentários que são e do tipo friento.

Amigos da ciência e da concupiscência,
Eles buscam o silêncio e os horrores da treva;
O Érebo os tomara por fúnebres leva-
-e-traz se a lealdade fora subserviência.

Assumem, espichados, tão grãs posições,
Como esfinges de prol, sonhando solidões,
Que parecem dormir num devaneio só;

O dois quartos fecundos têm rajas miríficas,
E pingos d’ouro – é ver os da ardósia em pó –
Faíscam vagamente nas pupilas místicas.

§

A UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE

A rua barulhenta em meu redor zunia.
Luto fechado, esbelta, rainha na dor,
Certa mulher passou, e com mão de esplendor
Arrrepanhava a renda e gingava a bainha;

Ágil e nobre, lá vai perna de escultura.
Quanto a mim, eu bebia (era um tipinho tenso)
No olhar baço de céu (“Vem remoinho”, penso),
Do que mata – prazer – e faz não ver – doçura.

Um clarão… noite, já! – Beleza mais fujona,
Que me fez renascer com os olhos num relance,
Pois só na eternidade eu reverei a dona?

Bem longe, além daqui! Tarde demais! Sem chance!
Pois de você não sei, e nem você de mim,
Ai você, nosso amor, ai você que viu, sim!

§

L’ALBATROS

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

O ALBATROZ

Vai que, por distração, a boa marujada
Faz presa do albatroz, esse avejão dos mares,
Que vai, à toa e companheiro de jornada,
Atrás da nau vogante nos cruéis algares.

Baixados ao convés, que logo se atravanca,
Os reis do azul, malamanhados e cabreiros,
Dão dó de rir com a grande envergadura branca
Das asas como remos a arrastar remeiros.

O alado capitão, como é gauche e decrépito!
De belo, é uma comédia, com a aparência cava!
É um que o bico lhe arrelia com seu pito,
É outro a imitar, mancando, quem voava!

O Poeta assim faz crer um rei que tem de aias
As nuvens, e o trovão assombra, e ri da flecha;
No exílio sob o sol e em meio só de vaias,
Gigante, quer andar – e alado, não se deixa.

§

ÉPIGRAPHE POUR UN LIVRE CONDAMNE

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette ! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !… sinon, je te maudis!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO

Leitor de paz e amenas leiras,
Sóbrio, de bem e bom menino,
Ao lixo o livro saturnino:
Só coisas tristes e venéreas.

Não fez lição de baudelérias
No Inferno, com o Doutor Tinhoso?
Lixo! “Doente escandaloso”,
Ou nada entende – “são pilhérias”.

Mas se, sem se deixar lograr,
Seu olho curte um salto livre,
Leia meu livro, aprenda a amar;

Alma abelhuda e Deus-me-livre,
Se o paraíso quer de paga,
Pena de mim!… Ou rogo praga!

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Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), por Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo

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Foto de 1854, por Nadar.

Enquanto se festejam os últimos prêmios Nobel entregues a mulheres e as estatísticas de “quantas mulheres que…”, podemos imaginar tantas outras escritoras considerando que escrevem não “porque são mulheres” e não “apesar disso”, mas porque precisam e sabem e querem escrever. Num cenário contemporâneo, em que esses embates parecem ter perdido a importância (embora Malala ainda lute pelo direito das meninas de irem para a escola no Paquistão) não é difícil lembrar que essa é uma situação recente. Autoras tão importantes quanto Hilda Hilst e Ana Cristina César receberam muita resenha e crítica, mesmo acadêmica, em que observações sobre o “feminino” dominavam a abordagem, mesmo quando elogiosa.

E essa história toda tem ilustres precursoras.

Marceline-Desbordes Valmore

Paul Verlaine, em seu Poètes Maudits (em sua segunda edição, de 1888), disse que Marceline não era uma bas-bleu, uma “meia azul”. Assim os franceses chamavam, imitando os vizinhos ingleses que tinham suas bluestockings, às mulheres que procuravam um espaço no mundo intelectual, como críticas ou escritoras. Título preconceituoso, era um bom exemplo do absurdo que significava, para o mundo masculino, a intenção de uma mulher de participar de um mundo ao qual, eles achavam, sua intelectualidade não a teria preparado.

Mas, disse Verlaine, já precedido por Sainte-Beuve, Barbey d’Aurevilly (que assinalava sua competência, ainda que feminina”) e Baudelaire, Marceline era “digna de estar entre” seus poetas malditos: Rimbaud, Mallarmé, Corbière, Villiers e ele mesmo, sob o pseudônimo de Pauvre Lélian.

Todas as referências, aliás, que recebeu da crítica do seu tempo foram sempre marcadas pela singularidade de seu gênero, como uma qualidade adversativa a que sempre se devesse prestar mais atenção. “Marceline-Desbordes Valmore foi mulher, foi sempre mulher e foi absolutamente mulher; mas foi a um grau extraordinário a expressão poética de todas as belezas naturais da mulher”, afirmou Baudelaire, na sua melhor fórmula de elogio.

Marceline nasceu no norte da França no final do século XVIII (1786), e cresceu em uma família perturbada pela Revolução — seu pai fabricava enfeites e brasões para a Igreja e, claro, ficou sem trabalho — e com uma mãe que, embora tenha morrido cedo, a educou com um mundo de poemas e cantigas populares cujos ecos vão permanecer para sempre em seus versos. No início da adolescência vive a grande aventura de sua vida: separada de seu pai, sua mãe a leva para a ilha de Guadalupe, para tentar a vida perto de um parente. Algum tempo depois a mãe morre de febre amarela e a filha sofre para voltar sozinha para a França, para perto do pai.

Aos 16 anos a vida a empurra para o trabalho e o teatro a acolhe. Durante anos viveu como atriz e cantora, entre Douai, sua cidade natal, Rouen e Paris, mas as dificuldades por que passava a fizeram procurar outras saídas e quando descobriu que se ganhava algum dinheiro, ainda que pouco, em publicações de poemas, achou que podia fazer isso. O palco, no entanto, lhe ensinou o dodecassílabo de Racine, que ela dominou e adaptou aos seus temas e que fica especialmente evidente nas suas primeiras elegias.

Livros foram se sucedendo e o ambiente romântico a acolheu, ainda que parcialmente. O próprio Victor Hugo, maior figura literária do período, esteve entre os que a reconheceram. Verlaine lembrou que o fato de Marceline ser do norte da França e não do Midi ou do Sul, de onde vinha a tradição mais clássica da poesia francesa, deu a sua poesia uma nuance nova, mais verdadeira, a do “norte cru”, segundo ele: uma linguagem sem pedantismos.

E intrinsecamente romântica. Temas variados atravessaram sua literatura, mas a natureza bucólica e algo idealizada da infância foi sempre o referencial principal de seus tropos, fonte clara de inspiração, e mesmo metáfora para temas mais delicados de alguma sensualidade e erotismo. Quanto a isso, ela seguiu perfeitamente os ditames e o zeitgeist do primeiro Romantismo.

Embora sempre tenha se mantido religiosa — Deus está bastante presente em sua poesia —, defendia uma religiosidade humanista, menos ligada aos ditames da Igreja e mais sensível ao homem, aos pobres, às mães e seus filhos e, num viés bastante surpreendente para a época, escreveu também muitos poemas em que o engajamento político-social deixa entrever uma aspiração de liberdade anti-governista (mas não falemos de anarquismo), numa voz cansada da política a que assistiu durante sua vida, da Revolução ao Segundo Império francês. Além disso, a defesa de uma incipiente autonomia feminina, num reflexo biográfico claro, foi um dos temas que desenvolveu e que foi levianamente considerado como mais um de seus temas “femininos”…

Há críticos que defendem que sua obra fornece um belo quadro da poesia do século XIX, percorrendo várias fases e possibilidades românticas e apontando para uma poesia fin-de-siècle em que “o efeito, não a coisa” (Mallarmé) é pintado nos versos. Mallarmé também se interessou por ela. Em uma carta de 1867, Mallarmé avisa seu amigo, Eugène Lefébure: “Enviarei amanhã dois volumes divinos de novelas de Madame Valmore: Huit Femmes. Mulheres como ela!”

Mas quem apresentou Marceline a Verlaine foi Rimbaud, que muito cedo já tinha percebido perfeitamente, segundo Verlaine, na aproximação entre Marceline e Baudelaire, “a mesma alma dolorosa e como que um parentesco entre esses dois gênios tão diferentes à primeira vista”.

Acrescente-se a isso tudo, ainda, a variedade formal que sua poesia apresentou. Das quebras do verso clássico francês fez várias opções, de 8 ou 4 sílabas, mas foi especialmente com alguns versos ímpares, particularmente ousados naquele mundo tão afeito às tradições e apegado às suas 12 sílabas, que Marceline impressionou o ouvido musical de Velaine: “Antes de tudo, a Música. Preza/ Portanto o Ímpar…”, numa tradução de Augusto de Campos.

Escreveu muito, sempre. Poesia, romances, contos, novelas, cantigas infantis. Morreu em 1859, aos 73 anos. A crítica sobre sua obra ainda é algo rarefeita na França. Nunca mereceu uma edição na Pléiade

Sandra Stroparo

* * *

A sincera

Você quer comprar?
Coração à venda.
Você quer comprar,
Sem ter que brigar?

Deus o fez de aço;
E você que o renda;
Deus o fez de aço
Para um só abraço!

Eu decido o preço;
Você quer saber?
Eu decido o preço;
Não fique surpreso.

Você tem o seu?
Dê! ganhe meu ser.
Você tem o seu,
Pra pagar o meu?

Se seu não é mais,
Só tenho um desejo;
Se seu não é mais,
Pra mim não há paz.

O meu seguirá,
Cerrado sem pejo;
O meu seguirá,
E Deus o terá!

Pois para a paixão,
A vida é tão rara;
Pois para a paixão,
Não há duração.

A alma só corre
Como a água clara;
A alma só corre,
Só ama! e morre.

La sincère
in: Les Pleurs, 1833.

Veux-tu l’acheter ?

Mon cœur est à vendre.

Veux-tu l’acheter,

Sans nous disputer ?



Dieu l’a fait d’aimant ;

Tu le feras tendre ;
Dieu l’a fait d’aimant

Pour un seul amant !



Moi, j’en fais le prix ;

Veux-tu le connaître ?
Moi, j’en fais le prix ;

N’en sois pas surpris.



As-tu tout le tien ?

Donne ! et sois mon maître.

As-tu tout le tien,

Pour payer le mien ?



S’il n’est plus à toi,

Je n’ai qu’une envie ;

S’il n’est plus à toi,

Tout est dit pour moi.



Le mien glissera,

Fermé dans la vie ;

Le mien glissera,

Et Dieu seul l’aura !


Car, pour nos amours,

La vie est rapide ;

Car, pour nos amours,

Elle a peu de jours.



L’âme doit courir

Comme une eau limpide ;

L’âme doit courir,

Aimer ! et mourir.

§

Os sinos e as lágrimas

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

O órgão da triste arcada,
O pobre nas orações,
O preso com seus grilhões
E a criança acalantada;

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Chora o sino o sol se pôr
Sobre a igreja amortalhada,
E a carpideira sentada
Que tem a chorar?… O amor.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Pede aos anjos ocultados
Alívio das noites feras,
Nas celestiais esferas,
Mantém os olhos fixados.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Ao que o céu há replicado:
“Terra, espera pela hora!
Já disse a tudo que chora,
Que tudo lhe será dado.”

Soa, sino rebrilhante!
Brilha, lágrima abrasante!
Sino triste ao sol se pôr!
Olhos tristes pelo amor!

Les cloches et les larmes
in: Poésies Inédites, 1860.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

L’orgue sous le sombre arceau,
Le pauvre offrant sa neuvaine,
Le prisonnier dans sa chaîne
Et l’enfant dans son berceau;

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

La cloche pleur le jour
Qui va mourir sur l’église,
Et cette pleureuse assise
Qu’a-télle à pleurer?… L’amour.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Priant les anges cachés
D’assoupir ses nuits funestes,
Voyez, aux sphères célestes,
Ses longs regards attachés.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Et le ciel a répondu:
“Terre, ô terre, attendez l’heure!
J’ai dit à tout ce qui pleure,
Que tout lui sera rendu.”

Sonnez, cloches ruisselantes!
Ruisselez, larmes brûlantes!
Cloches qui pleurez le jour!
Beaux yeux qui pleurez l’amour!

§

Uma carta de mulher

As mulheres, eu sei, não devem escrever;
Mas ouso a arte,
Pra que em meu coração de longe possas ler
Como quem parte.

Qualquer beleza que existir em minha escrita
Mostraste antes
Mas soa nova a palavra cem vezes dita,
Quando entre amantes.

Que te traga alegria! Eu fico a esperar,
Mesmo distante;
Sinto que me vou, para ver e escutar
Teu passo errante.

Não te desvies se passar uma andorinha
Sobre esse chão,
Porque acredito que era eu, fiel, quem vinha,
Tocar-te a mão.

Tu te vais, tudo se vai! Parte em viagem,
Luzes e flores,
O verão te segue e me deixa à fria aragem,
Dos dissabores.

Se só temos esperança e alarmes, no entanto,
E a vista cansa,
Dividamos pelo melhor: mantenho o pranto,
Guarda a esperança.

Não, não queria, tanto a ti estou ligada,
Te ver penar:
Querer dor a sua metade abençoada,
É se odiar.

Une lettre de femme
in: Poésies Inédites, 1860.

Les femmes, je le sais, ne doivent pas écrire ;
J’écris pourtant,
Afin que dans mon cœur au loin tu puisses lire
Comme en partant.


Je ne tracerai rien qui ne soit dans toi-même
Beaucoup plus beau :
Mais le mot cent fois dit, venant de ce qu’on aime,
Semble nouveau.


Qu’il te porte au bonheur ! Moi, je reste à l’attendre,
Bien que, là-bas,
Je sens que je m’en vais, pour voir et pour entendre
Errer tes pas.


Ne te détourne point s’il passe une hirondelle
Par le chemin,
Car je crois que c’est moi qui passerai, fidèle,
Toucher ta main.

Tu t’en vas, tout s’en va ! Tout se met en voyage,
Lumière et fleurs,
Le bel été te suit, me laissant à l’orage,
Lourde de pleurs.


Mais si l’on ne vit plus que d’espoir et d’alarmes,
Cessant de voir,
Partageons pour le mieux : moi, je retiens les larmes,
Garde l’espoir.


Non, je ne voudrais pas, tant je te suis unie,
Te voir souffrir :
Souhaiter la douleur à sa moitié bénie,
C’est se haïr.

§

As rosas de Saadi

Eu pretendia esta manhã te trazer rosas;
Mas pus tantas em minhas vestes rigorosas
Que os nós cerrados não as puderam guardar.

Os nós se romperam. As rosas se soltaram
No vento, até chegar ao mar todas voaram.
Seguiram a água para não mais voltar.

A onda se viu de um vermelho incendiado.
À noite o vestido ainda está perfumado…
Respira em mim o aroma para recordar.

Les roses de Saadi
in: Poésies Inédites, 1860.

J’ai voulu ce matin te rapporter des roses ;

Mais j’en avais tant pris dans mes ceintures closes

Que les nœuds trop serrés n’ont pu les contenir.



Les nœuds ont éclaté. Les roses, envolées

Dans le vent, à la mer s’en sont toutes allées.

Elles ont suivi l’eau pour ne plus revenir ;



La vague en a paru rouge et comme enflammée.

Ce soir, ma robe encore en est tout embaumée…

Respires-en sur moi l’odorant souvenir.

(trad. Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo)

Referência:

DESBORDES-VALMORE, Marceline. Poésies. Préface et choix d’Yves Bonnefoy. Paris: Gallimard, 1983.

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Um poema de Michaux, por Virna Teixeira

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Henri Michaux (1899-1984). Cidadão francês, nasceu na Bélgica. Foi educado como jesuíta e chegou a estudar Medicina. Poeta, desenhista e pintor, começou a escrever em 1922 após ler Lautréamont. Mudou para Paris em 1924, descobriu a pintura e viajou extensivamente pela Europa e América do Sul e África. Seu trabalho com artista desenvolveu-se paralelamente com a poesia. Também escreveu diários de viagem e crítica de arte. Expôs pela primeira vez em 1937, em Paris, e mais tarde chegou a expôs no Guggenheim Museum em Nova Iorque. Seu estilo é único. Começou a fazer experimentos com mescalina em 1955, fez vários desenhos sob influência da substância. Em 1965 recebeu o Prêmio Nacional de Literatura, que recusou.

Virna Teixeira é poeta e tradutora. Estudou Medicina, especializou-se em Neurologia e vive em Londres, onde faz pós-gradução em Medical Humanities no King’s College.

* * *

A TRAVERS MERS ET DÉSERT

Efficace comme le coït avec une jeune fille vierge
Efficace
Efficace comme l’absence des puits dans le désert
Efficace est mon action
Efficace

Efficace comme le traîte qui se tient à l’écart entouré de ses hommes prêtes à
tuer
Efficace comme la nuit pour cacher les objets
Efficace comme la chèvre pour produire des chevreaux
Petits, petits, tous navrés dejà

Efficace comme la vipère
Efficace comme le couteau effilé pour faire la plaie
Comme la rouille et l’urine pour entretenir
Comme les chocs, les chutes et les secousses pour l’agrandir
Efficace est mon action

Efficace comme le sourire de mépris pour soulever dans la poitrine du méprisé
un océan de haine, qui jamais ne sera asséché
Efficace comme le désert pour déshydrater les corps et affermir les âmes
Efficace comme les mâchoires de l’hyène pour mastiquer les membres mal
défendus des cadavres
EFFICACE
Efficace est mon action

ATRAVÉS DE MARES E DESERTO

Eficaz como o coito com uma virgem
Eficaz
Eficaz como a ausência de poços no deserto
Eficaz é minha ação
Eficaz

Eficaz como o traidor que se mantém à espreita rodeado por seus homens prestes a matar
Eficaz como a noite para esconder os objetos
Eficaz como a cabra pra produzir os cabritos
Pequenos, pequenos, todos desolados já

Eficaz como a víbora
Eficaz como a navalha afilada para fazer o corte
Como a ferrugem e a urina para entreter
Como os choques, as quedas e os abalos para engrandecer
Eficaz é minha ação

Eficaz como o sorriso de desprezo para elevar no peito do desprezado um
oceano de ódio, que jamais irá secar
Eficaz como o deserto para desidratar os corpos e enrijecer as almas
Eficaz como as mandíbulas da hiena para mastigar os membros indefesos dos
cadáveres
EFICAZ
Eficaz é minha ação

(Henri Michaux Tradução: Virna Teixeira)

 

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Henri Michaux por Ricardo Corona

Retratos dos Meidosems: Henri Michaux

O poeta belga (naturalizado francês) Henri Michaux empenhou-se a criar realidades e a inventar seres em uma busca por um tanto do “outro lado”. Para isso, parte significativa da sua vida foi dedicada a experiências externas, anotações de um “bárbaro”, em viagens a Ásia, Europa, América, e experiências internas, com uso de haxixe e mescalina. Daí a sua radicalidade ao inventar países e povos como o País da Magia, Poddema, etc. Para Michaux, inventar seres e realidades era também um modo de elaborar distâncias e alargamentos, ética encontrada nos povos visionários, da qual o poeta aproximou sua escrita. 

Desta poética da viagem é que se potencializa o estranhamento provocado pelos Meidosems. Seres descolados da realidade, que se movem entre o sólido e o fluido, que estalam e se alargam, seres esquisitos que desestabilizam o referente e rebaixam a metáfora, que são muitos, uma população, num país Meidosem. Seres desconfigurados, elásticos, com rostos abrasados e esgotados. Seres que ferem e estão feridos. Um Meidosem jamais possui imagem definida e talvez nem pertença à imaginação.

Os vizinhos são os cronópios e famas de Cortázar, os marcianos de Ray Bradbury e o uapiti de Boris Vian. Mas vivem em realidades diferentes. Certamente os Meidosems têm algum grau de parentesco com o homem reduzido a fio de Ponge, as finas figuras de Giacometti e, claro, o Odradek de Kafka (que Michaux leu).

Já se disse que os Meidosems são “seres surreais”. Melhor não repetir isso. Apenas coincidem com a chegada do surrealismo. Michaux sempre relativizou essa associação, chegando a dizer que em seus textos (entenda-se toda sua obra) não havia sequer duas linhas de escrita automática. Por isso, quem sabe, tenha se negado a participar de importante antologia surrealista. Porém, Michaux manteve ligações com os surrealistas e isso Blanchot o disse muito bem. Mas é uma ligeireza cômoda assimilar essa poesia somente via surrealismo.

Há a relação destes fragmentos Meidosems com Marie-Louise, esposa do poeta. Chantal Maillard propôs recentemente essa leitura – sem reduzi-la a isso. O fato é que os fragmentos saíram publicados cinco anos após Marie-Louise sofrer um terrível acidente que marcou a vida do casal. Ao acender a lareira, a roupa de nylon de Marie-Louise pegou fogo e seu corpo sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus, levando-a ao óbito um mês depois, por causa de uma embolia pulmonar. Michaux: “É difícil caminhar assim”. Os Meidosems sofrem, estão feridos…

No entanto, das leituras dos Meidosems, talvez a mais interessante seja aquela que deixa os textos à sombra e no seu falar obscuro. “Um corpóreo-incorpóreo, um corpo-alma”, nas palavras de outro comentador, Raymond Bellour.

O livro Meidosems foi publicado inicialmente por uma pequena editora, Le Point Du Jour, em 1948. Em edição de luxo com 70 fragmentos e 13 litografias do autor, com tiragem de apenas 271 exemplares. Um ano depois, acrescido para 95 fragmentos, foi publicado sob o título definitivo de Retratos dos Meidosems, em edição comercial pela Editora Gallimard.

A seguir, 19 dos 95 fragmentos que compõem Retratos dos Meidosems. A  tradução tem por referência a edição La Vie dans les plis. Œuvres complètes, tomo II. Organização de Raymond Bellour em colaboração de Ysé Tran. Coleção Bibliothèque de la Pléiade (n°. 475), Paris: Gallimard, 2001.

Ricardo Corona

* * *

DesenhoHenriMichaux

C’est aujourd’hui l’après-midi du délassement des Meidosemmes. Elles montent dans les arbres. Pas les branches, mais par la sève.

Le peu de forme fixe qu’elles avaient, fatiguées à mort, elles vont la perdre dans les rameaux, dans les feuilles et les mousses et dans les pédoncules.

Ascension ivre, douce comme savon entrant dans la crasse. Vite dans l’herbette, lentement dans les vieux trembles. Suavement dans les fleurs. Sous l’infime mais forte aspiration des trompes de papillons, elles ne bougent plus.

Ensuite, elles descendent par les racines dans la terre amie, abondante en bien des choses, quand on sait la prendre.

Joie, joie qui envahit comme envahit la panique, joie comme sous une couverture.

Il faut ensuite remener à terre les petits des Meidosems qui, perdus, éperdus dans les arbres, ne peuvent s’en détacher.

Les menacer, ou encore les humilier. Ils s’en reviennent alors, on les détache sans peine et on les ramène, emplis de jus végétal et de ressentiment.

Hoje é a tarde de descanso das Meidosemeas. Elas sobem nas árvores. Não pelos galhos, mas pela seiva.

Mortas de cansaço, perderam nos galhos, nas folhas, os líquens e os pedúnculos da pouca forma estável que possuem.

Subida bêbada, suave como sabão penetrando na sujeira. Rapidamente na ervinha, lentamente nos velhos álamos. Suavemente nas flores. Sob a ínfima, porém, forte inalação das trombas de borboletas, elas deixam de se mover.

Em seguida elas descem pelas raízes para dentro da terra amiga, abundante em tantas coisas, quando se sabe colher. 

Alegria, alegria que invade como invade o pânico, alegria como ficar sob o cobertor.

Em seguida é preciso reconduzir ao chão as crias dos Meidosems que, perdidas, desvairadas nas árvores, não podem soltar-se delas.

Elas ameaçam as crias, ou, ainda, humilham-as. Ao passo que, caem em si, facilmente as soltam, trazendo-as de volta cheias de sumo vegetal e ressentimento.

§

Organes épars, courses rompues, intentions prises dans la pierre. Le solide vous a ainsi. En tessons de vous-même. Le solide tant désiré vous a enfin.

Disloqués, en morceaux, genoux de l’élan. Etrange palissade meidosemme.

Órgãos espalhados, corridas interrompidas, intenções retidas na pedra. Assim o sólido agarra você. Em cacos de você mesma. Ao final, o sólido tão desejado agarra você.

Desmembrados, em fragmentos, joelhos de elã. Estranha paliçada Meidosemea.   

Grand, grand Meidosem, mais pas si grand somme toute, à voir sa tête. Meidosem à la face calcinée.

Et qu’est-ce qui t’a brûlé ainsi, noiraud?

Est-ce hier? Non, c’est aujourd’hui. Chaque aujourd’hui.

Et elle en veut à tous.

Calcinée comme elle est, n’est-ce pas naturel?

Grande, grande Meidosem, mas não tão grande depois de tudo, a começar pela sua cabeça. Meidosem de rosto calcinado.

E o que te queimou assim, moreno?

Foi ontem? Não, hoje. Cada dia de hoje.

E está ressentido com todos.

Calcinada como ele está, não é natural?   

§

La grande lance diagonale qui, du haut en bas du Meidosem faiblissant, s’est implantée pour le retenir. Est-ce qu’elle va pour finir le retenir?

Du front au genou, grande béquille sans moelle. Traverse impérieuse, à la dureté militaire.

Tuteur féroce, tu veux tuer ou tu soutiens?

A principal lança diagonal, atravessada da cabeça aos pés do Meidosem debilitado, está ali para sustentá-lo. Será que o sustentará até o fim? 

Frente ao joelho, grande muleta sem medula. Atravessa imperioso, de rigidez militar.

Feroz tutor, você se sustenta ou quer se matar?

§

Pas seulement le Christ a été crucifié. Celui-ci aussi l’a été, Meidosem inscrit dans le polygone barbelé du Présent sans issue.

Bien au-delà d’une sentence de juge, bien au-delà d’un écroulement de villes.

La plénitude de sa plaie l’isole de l’accident.

Il pâtit comme on règne.

Cristo não foi o único crucificado. Esse Meidosem foi também, inscrito no polígono farpado do Presente sem saída.

Mais que a sentença de um juiz, que o aniquilamento de cidades.

A plenitude da sua chaga o isola de qualquer acidente.

Ele padece como se reina.

§

Très peu soutenus, toujours très peu soutenus, les voilà encore, leur colonne de vertèbres (sont-ce même des vertèbres?) transparaissant sous l’ectoplasme de leur être.

Ils ne devraient pas aller loin.

Si, ils iront loin, vissés à leur faible, en quelque sorte forts par là et même presque invincibles…

Muito pouco sustentada, sempre muito pouco sustentada, eis mais uma vez, sua coluna de vértebras (são mesmo vértebras?) transparecendo sob o ectoplasma do seu ser.

Elas não devem ir muito longe.

Sim, elas irão longe, parafusadas à sua debilidade, com alguma sorte grande e apesar de tudo, quase invencíveis.

§

DesenhoHenriMichaux2

Sur un corps mou, une tête de proie et de prise, de domination passée, comme un tracteur arrêté un après-midi sur les sillons d’un champ pas fini d’être labouré.

Macle de tessons, de cristaux, de blocs.

La lumière y arrive droite, en repart droite, n’est entrée nulle part.

La farouche noyau pétré attend, sur un corps vague, étranger, hétérogène, le clivage salutaire qui l’ouvre et le soulage enfin.

Sobre um corpo mole, uma cabeça de presa e de tomada, de dominação passada, como um trator parado uma tarde nos sulcos de um campo que não terminou de arar.

Macla de cacos, de cristais, de blocos.

A luz aí chegou reta, voltou reta, não entrou em nenhuma parte.

O esquivo caroço pétreo espera, sobre um corpo vago, estranho, heterogêneo, a clivagem salutar que o abra e por fim o alivie.

§

Bovin Bouddha de sa bête…

Le monde inférieur se médite en lui sans défaire ses courbes, et paît le Meidosem, l’herbe invisible des douleurs remises en place.

Il domine? Non; seulement il n’est pas égalé.

Bovino Buddha de seu bicho…

O mundo inferior nele medita sem desfazer suas curvas, e o Meidosem pasta-lhe a grama invisível das dores entregues no lugar.

Ele domina? Não; mas niguém é igual a ele.

§

Un nuage ici fait un nez, un large nez tout répandu, comme l’odeur autour de lui, fait un oeil aussi, qui est comme un paysage, son paysage devant lui, et maintenant en lui, dans la géante tête, qui grandit, grandit démesurément.

Uma nuvem aqui feito um nariz, um largo nariz todo alongado, como o odor em redor dele, feito um olho também, que é como uma paisagem, a paisagem em sua frente, e agora nele, dentro da cabeça gigante, que cresce, cresce desmedidamente.

§

Profils en forme de reproches, profils en forme d’espoirs déçus de jeunes filles, voilà ces profils meidosems.

Concaves par-dessus tout, concaves attristés, mais pas larmoyants.

Pas d’accord pour le dur, pas d’accord pour les larmes. Pas d’accord.

On ne les a jamais qu’entr’aperçus, les Meidosems.

Perfis em forma de censuras, perfis em forma de ilusões frustradas de jovens filhas, eis os perfis Meidosems.

Côncavos, acima de tudo, côncavos entristecidos, mas não lacrimosos.

Não aceitam birras nem lágrimas. Não concordam.

Nunca são vistos mais do que fugazmente, os Meidosems.

§

Meidosem qui s’envole par un rideau, revient par une citerne.

Meidosem qui se jette dans un ruisseau, se retrouve dans un étang. Oh étrange, étrange naturel des Meidosems.

Meidosem que levanta voo por uma cortina, voltando por uma cisterna.

Meidosem que se joga num córrego e se retorna num tanque. Oh, estranha, estranha natureza dos Meidosems. 

§

DesenhoHenriMichaux3

Et voici quelques-uns des lieux où vivent les Meidosems, étranges en vérité; étrange qu’ils acceptent d’y vivre…

E aqui alguns dos lugares onde vivem os Meidosems, realmente estranhos; estranho é que aceitem viver neles…

§

Il faut le dire, ils vivent surtout dans des camps de concentration.

Les camps de concentration où vivent ces Meidosems, ils pourraient n’y pas vivre. Mais ils sont inquiets comment ils vivraient s’ils n’y étaient plus. Ils ont peur de s’ennuyer dehors. On les bat, on les brutalise, on les supplicie. Mais ils ont peur de s’ennuyer dehors.

É preciso dizer, eles vivem, sobretudo, em campos de concentração.

Os Meidosems que vivem nos campos de concentração poderiam escolher em não viver ali. Mas se inquietam sobre como seria viver em outra situação. Eles têm medo de entediar-se fora dali. Ali são espancados, maltratados, torturados. Fora dali eles têm medo de se entediar.

§

Ici une plaine mamelonne éperdue vers le Meidosem qui s’arrête stupéfait, lâchant son travail, auquel il était pourtant fort oecupé, lâchant tout pour obéir à la fatale fascination.

Les élastiques de son être se tendent, se gonflent.

Ce n’est peut-être pas si dangereux qu’on pourrait croire.

Aqui uma planície mamilosa desvaira em direção ao Meidosem que se deteve, estupefato, largando seu trabalho, no qual estava bastante empenhado, deixando tudo para obedecer à fatal fascinação.

Os elásticos do seu ser se tensionam, se dilatam.

Talvez não seja tão perigoso quanto se poderia imaginar. 

§

Une corde dans une tour, il s’enroule dans la corde. Fait! Il se rend compte qu’il y a erreur. Il s’enroule dans la tour. Il se rend compte qu’il y a erreur. Elle fléchit, elle se tord. Il faut la redresser. Il reçoit trois singes et elur fait les honneurs de la tour. Les singes s’agitent et la réception n’est pas parfaite. Cependant la tour est là, il faut monter, il faut descendre, il faut remonter avec deux singes sur les bras et un troisième qui en veut à ses cheveux. Mais le Meidosem est bien plus distrait que le singe. Le Meidosem songe toujours à autre chose.

Ce frêle songe à plus frêle encore, quand, arrivé au bout de l’agitation de ses quelques fils, après un temps pas tellement long, il sera comme s’il n’avait jamais été.

En attendant, il faut d’autres tours. Pour voir plus loin. Pour pouvoir s’inquiéter de plus loin.

Uma corda dentro de uma torre se enrola em corda. Feito! Ela se dá conta de que há erro. Enrola-se na torre. Cai na real de que há erro. A torre dobra, inclina-se. Tem que reerguer-se. Acolhe três macacos e lhes faz as honras da torre. Os macacos estão agitados e o acolhimento não está perfeito. Entretanto a torre está lá, ele tem que subir, tem que descer, tem que voltar a subir com dois macacos nos braços e um terceiro que se apega ao seu cabelo. Mas o Meidosem é bem mais distraído que o macaco. O Meidosem sempre sonha com outra coisa.

Esse débil sonha em ser mais débil ainda, quando, por fim, domada a agitação de seus poucos fios, após um tempo não muito longo, ele será como se nunca tivesse sido.

Enquanto isso, outras torres fazem falta. Para ver mais longe. Para poder se agitar de mais longe.   

§

Ici est le vieux palais aux longs couloirs où picorent les poules, où l’âne vient passer la tête. Tel est le vieux palais. C’est à plus de mille que les Meidosems s’y tiennent, à bien plus de mille.

Tout est à l’abandon. Personne n’est servi. Personne n’a ce qu’il lui faudrait. Le toit est mauvais. Ils ont seulement, qu’ils tiennent en commum, qu’ils ne lâchent jamais, quatre mauvaises cordes.

Sans elles, même dans le palais, ils ne seraient pas à l’aise. Quant à sortir sans, pas question. Ils seraient épouvantés. Et déjà ils sont épouvantés quand ils les ont dans la main, épouvantés qu’on ne les leur coupe. Et on les leur coupe. Aussitôt tous ensemble se jettent à renouer les morceaux coupés, s’embrouillent, tombent, se font menaçants.

Il y a bien d’autres cordes. Mais avec d’autres, ils auraient peur de s’étrangler par mégarde.

Aqui está o velho palácio com longos corredores onde ciscam as galinhas, onde o asno vem mostrar a cabeça. Tal é o velho palácio. São mais de mil os Meidosems que nele estão, bem mais de mil.

Está tudo degradado. Ninguém é cuidadoso. Ninguém tem o que lhe é necessário. O telhado está péssimo. Ao menos eles têm em comum quatro cordas ruins que não afrouxam nunca.

Sem elas, mesmo dentro do palácio, não estariam à vontade. Quanto à sair sem elas, está fora de questão. Eles ficariam horrorizados. E já estão horrorizados com elas nas mãos, horrorizados com a ideia de que se partam. E se as cortam. Logo, todos juntos se jogam para reatar os pedaços cortados, embrulhando-se, caindo, fazendo-se ameaçadores.

Existem muitas outras cordas. Mas com outras, eles teriam receio de se estrangularem por descuido.      

§

DesenhoHenriMichaux4

Quel paysage meidosem est sans échelles? De toutes parts, jusqu’au bout de l’horizon, échelles, échelles… et de toutes parts têtes de Meidosems qui y sont montés.

Satisfaites, vexées, ardentes, inquiètes, avides, braves, graves, mécontentes.

Le Meidosems d’en bas qui circulent entre les échelles travaillent, entretiennent famille, paient, paient à des encaisseurs de toute tenue qui arrivent constamment. On dit d’eux qu’ils ne subissent pas l’appel de l’échelle.

Qual paisagem Meidosem está sem escadas? Por todos os lados, até a linha do horizonte, escadas, escadas… e em todo lugar, cabeças de Meidosems trepados nelas.

Satisfeitas, vexadas, ardentes, inquietas, ávidas, bravas, sérias, descontentes.

Os Meidosems embaixo, que circulam entre as escadas, trabalham, sustentam família, pagam, pagam para uns cobradores de toda ordem que chegam sem parar. Destes se ouve dizer que não suportam ao apelo da escada.

§

Il étend la surface de son corps pour se retrouver.

Il renie la présence de lui-même pour se retrouver.

Il vêt d’une chemise quelques vides pour, avant l’autre Vide, un petit semblant de plein.

Ele expande a superfície do seu corpo para se reencontrar.

Ele renega sua própria presença para se reencontrar.

Ele cobre com a camisa alguns vazios para, antes de outro Vazio, obter uma breve aparência de plenitude. 

§

Sur un toit, il y a toujours un Meidosem. Sur un promontoire, il y a toujours des Meidosems.

Ils ne peuvent rester à terre. Ils ne peuvent s’y plaire.

Dès que nourris, ils repartent vers la hauteur, vers la vaine hauteur.

Em cima de um telhado, sempre há um Meidosem. Sobre um promontório, sempre há Meidosems.

Eles não podem ficar no chão. Não se sentem à vontade.

Desde que alimentados, voltam às alturas, às vãs alturas.

* * *

Ricardo Corona é autor de vários livros e publicações de artista, dos quais, destaca-se: Mandrágora (Brasil-Paraguai, YiYi Jambo Cartonera, 2016), Cuerpo sutil (México, Calygrama, 2014), ¿Ahn? (Madri, Poetas de Cabra, 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 – Prêmio Petrobras e finalista do Jabuti/2012), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009). Traduziu, entre outros, Livro deserto (2013), de Ceciia Vicuña e, com Joca Wolff, Momento de simetria (2005) e Máscara âmbar (2008), de Arturo Carrera.

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poesia, tradução

Quatro poemas de Tristan Tzara, por Sergio Maciel e Google Tradutor

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tristan tzara, nascido samuel ou samy rosenstock (romênia 1896 – frança 1963), foi um poeta romeno, judeu, francês e dadaísta. foi, aliás, um dos membros fundadores do movimento dadaísta. algum tempo depois, após um certo declínio do movimento, junta-se ao surrealismo. junta-se, também, posteriormente, ao partido comunista e à resistência francesa. mas apesar de ser uma figura um tanto conhecida, em muito pela sua participação no movimento surrealista, tzara não goza de muita divulgação literária; ao menos não tanto quanto apollinaire, reverdy e soupault, por exemplo, pra citar alguns dos poetas franceses mais inovadores do séc. xx.

tzara, assim como seus contemporâneos supracitados, apareceram na importante revista SIC, que existiu entre 1916-19. num período problemático que foi o contexto da primeira guerra mundial, tzara, junto com outros emigrées, como hans arp e hugo ball, produziram o fino das vanguardas. para qualquer vanguardista que se prezasse, era mister que sua obra não ficasse restrita somente a uma linguagem. ou seja, disso resulta que boa parte da vanguarda européia legou uma série de poetas-pintores-escultores-músicos-performers no mesmo corpo. é disso que vem a impossibilidade de lermos nas vanguardas, sobretudo naquilo que toca a poesia, as mesmas expectativas que se leu até então, com especial enfoque no virtuosismo parnasiano e simbolista. hugo ball, para tomar alguém como exemplo, criou aquilo que veio a se chamar “poema fonético”. how in the hell alguém pode esperar de um poema como “karawane” (clique aqui) ou até mesmo “fisches nachtgesang” (clique aqui e aqui), de christian morgenstern, a mesma realização, no que se refere à questão da linguagem, de qualquer outra coisa que havia antes das vanguardas?

é a partir disso, portanto, e da ideia de um automatismo (que tanto chateava a cultura blasé da época) que era veiculada pelo dadaísmo, e depois pelo surrealismo, que resolvi escolher, meio ao acaso, e traduzi quatro poemas de tzara. os três primeiros, do livro vingt-cinq poèmes (1918); o último de juste présent (1961), um pouco menos radical e pós vanguarda.

para os três primeiros, escritos no calor da vanguarda e da porralouquice, resolvi adotar o seguinte procedimento: quando se adota um regime de escrita automática que busca romper com a lógica poética mesma da linguagem, talvez uma solução seja utilizar um processo tradutório semelhante: ou seja, para os três primeiros poemas, eu resolvi criar o embate entre a automaticidade da vanguarda com aquela de uma ferramenta de tradução automática, nosso querido google tradutor. realizei, obviamente, uma terceira tradução, minha, buscando um meio termo entre as duas. para a terceira, pós-vanguarda e menos caótica, dispensei a ajuda do nosso amigo virtual.

pra finalizar, recomendo muito a leitura do texto “DADA: implicações e inseminações” (clique aqui), do domeneck.

sergio maciel

* * *

LE GÉANT BLANC LÉPREUX DU PAYSAGE

le sel se groupe en constellation d’oiseaux sur la tumeur de ouate

dans ses poumons les astéries et les punaises se balancent
les microbes se cristallisent en palmiers de muscles balançoires bonjour sans cigarette tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera embrasser les bateaux chirurgien des bateaux cicatrice humide propre
paresse des lumières éclatantes
les bateaux nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
je lui enfonce les cierges dans les oreilles gangànfah hélicon et boxeur sur le balcon le voilon de l’hôtel en baobabs de flammes les flammes se développent en formation d’éponges

les flammes sont des éponges ngànga et frappez
les échelles montent comme le sang gangà
les fougères vers les steppes de laine mon hazard vers les cascades
les flammes éponges de verre les paillasses blessures paillasses
les paillasses tombent wancanca aha bzdouc les papillons
les ciseaux les ciseaux les ciseaux et les ombres
les ciseaux et les nuages les ciseaux les navires
le thermomètre regarde l’ultra-rouge gmbabàba
berthe mon éducation ma queue est froide et monochromatique mfoua loua la
les champignons oranges et la famille des sons au delà du tribord à l’origine à l’origine le triangle et l’arbre des voyageurs à l’origine

mes cerveaux s’en vont vers l’hyperbole
le caolin fourmille dans sa boîte crânienne
dalibouli obok et tombo et tombo son ventre set une grosse caisse ici intervient le tambour major et la cliquette
car il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrrrrrrrrr ici le lecteur commence à crier il commence à crier commence à crier puis dans ce cri il y a des flûtes qui se multiplient — des corails
le lecteur veut mourir peut-être ou danser et commence à crier
il est mince idiot sale il ne comprend pas mes vers il crie
il est borgne
il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrr
nbaze baze baze regardez la tiare sousmarine qui se dénoue en algues d’or
hozondrac trac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

O GIGANTE PAISAGEM LEPROSO BRANCO

o grupo de sal de aves sobre o tumor constelação de rebatidas

em seus pulmões estrelas do mar e erros balanço
micróbios cristalizar balanços músculos palma Olá sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc Zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera beijo barco cirurgião barcos cicatriz limpo e úmido
preguiça de luzes brilhantes
barcos nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
I empurra as velas no boxer orelhas e gangànfah Helicon na varanda do hotel voilon chamas baobá chamas desenvolver na formação esponjas

as chamas são esponjas Nganga, e fira
subir escadas como Ganga sangue
lã Ferns estepes ao meu perigo para as cachoeiras
vidro bancada esponjas chamas bancos lesão
os colchões cair wancanca aha bzdouc borboletas
A tesoura tesoura tesoura e sombras
tesouras e nuvens tesoura navios
o termômetro parece ultra-vermelho gmbabàba
bertha minha educação minha cauda é frio e mfoua monocromática elogiou o
laranjas e cogumelos família soa além do estibordo originalmente atrás do triângulo e da árvore originalmente viajantes

meu cérebro está indo para hipérbole
o caulim cheias em seu crânio
dalibouli obok e tombo tombo e definir seu estômago um bumbo aqui vem o tambor grande e chocalhos
porque não ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar que ele começa a começa a gritar gritando e depois chorar lá em flautas que se multiplicam – Corais
o leitor quer morrer ou talvez dançando e começa a gritar
é idiota sujo fina não entende meus versos ele grita
ele é cego
Há ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrr
nbaze Baze Baze assistindo tiara subaquática que ventos em algas douradas
nervosismo hozondrac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(google tradutor)

O GIGANTE BRANCO LEPROSO DA PAISAGEM

o sal se agrupa em constelação de pássaros sobre o tumor de zuarte

em seus pulmões as asterídeas e os percevejos se balançam
os micróbios se cristalizam em palmeiras de músculos balanços bomdia sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc ñfunfa mbaah mbaah ñfunfa
macrocystis pyrifera abraçar os barcos cirurgião dos barcos cicatriz úmida própria
preguiça das luzes brilhantes
os barcos ñfunfa ñfunfa ñfunfa
eu ele forço as velas nas orelhas trupànfah helicon e boxeador na varanda o violino do hotel em baobás de chamas e chamas se desenvolvem em formação de esponjas

as chamas são esponjas b^bob^bo e bateis
as escalas sobem como o sangue bbôbê
as samambaias nas estepes de lã meu acaso nas cascatas
as chamas esponjas de vidro os palhaços feridos palhaços
os palhaços tombam wancanca rá bzdouc as brabuleta
as tesoura as tesoura as tesoura e as sombras
as tesoura e as nuvens as tesoura os navios
o termômetro contempla o ultra-rubro gmbabàba
berta minha educação meu rabo é frio e monocromático mfuá luá là
os cogumelos laranja e a família de sons d’além do estibordo à origem à origem o triângulo e a árvore dos viajantes à origem

meus miolos se vão verso a hipérbole
o caulim formiga em sua caixa craniana
dalibouli obok e tombo e tombo seu ventre è um grosso caixa aqui intervém o tambor maior e o chocalho
pois há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar ele começa a gritar começa a gritar pois em seu grito tem as flautas que se multiplicam – os corais
o leitor quer morrer talvez ou dançar e começar a gritar
ele é um refino idiota porco ele não compreende meus versos e grita
ele é caolho
há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr
nbaze baze baze olhai a coroa submarinha que se desata em algas d’ouro
hozondrac temor
nfunda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(sergio maciel)

§

PÉLAMIDE

a e ou o youyouyou i e ou o youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
morceaux de durée verte voltigent dans ma chambre
a e o i ii i e a ou ii ii ventre montre le centre je veux le prendre ambran bran bran et rendre centre des quatre
beng bong beng bang où vas-tu iiiiiiiiupft
machiniste l’océan a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
les vers luisants parmi nous
parmi nos entrailles et nos directions
mais le capitaine étudie les indications de la boussole
et la concentration des couleurs devient folle
cigogne litophanie il y a ma mémoire et l’ocarina dans la pharmacie
sériciculture horizontale des bâtiments pélagoscopiques
la folle du village couve des bouffons pour la cour royale
l’hôpitale devient canal
et le canal devient violon
sur le violon il y a un navire
et sur le bâbord la reine est parmi les émigrants pour mexico

PÉLAMIDE

um E ou O ou o youyouyou om youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
pedaços de tempo de verde voam no meu quarto
um e o e i i ii ii ii ou uma barriga mostra o centro Eu quero levar farelo de farelo de ambran e tornar o centro dos quatro
beng beng bong estrondo onde está você iiiiiiiiupft
Machinist o oceano om o u
om u a o o i u o u ath tem om o u om um
os vaga-lumes entre nós
entre o nosso interior e os nossos sentidos
mas o capitão examina as direções da bússola
e concentração de cor fica louco
Stork litophanie atrás, minha memória ea ocarina na farmácia
pélagoscopiques sericicultura horizontais de edifícios
Mad fumegantes bobos da aldeia para a corte real
o canal se torna Hopital
e o canal se torna violino
no violino há um vaso
e na porta é a rainha entre os emigrantes para o México

(google tradutor)

SARRAJÃO

a e ou tututu eu e ou o tututu
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
peças de dura verde voam em meu quarto
a e o i ii i e a ou ii ii ventre mostra o centro eu quero o tomar ambran bran bran e tornar centro dos quatro
b e n g b o n g b e n g b a n g onde cê-vai iiiiiiiiiipieft
maquinista o oceano a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
os versos luzentes entre nós
entre nossas entranhas e direções
mas o capitão estuda os apontamentos da bússola
e a concentração das cores torna-se louca
cegonha litofania há minha memória e a ocarina na farmácia
sericicultura horizontal dos batimentos pélagoscópicos
a louca da vila cobre o bobo para a corte real
o hospital torna-se canal
e o canal torna-se violino
sobre o violino há um navio
e sobre o bombordo a rainha está entre os emigrantes para o méxico.

(sergio maciel)

§

LA GRAND COMPLAINTE DE MON OBSCURITÉ TROIS

chez nous les fleurs des pendules s’allument et les plumes encerclent la clarté
le matin de soufre lointain les vaches l’èchent les lys de sel
mon fils
mon fils
traînons toujours par la couleur du monde
qu’on dirait plus bleue que le métro et que l’astronomie
nous sommes trop maigres
nous n’avons pas de bouche
nos jambes sont raides et s’entrechoquent
nos visages n’ont pas de forme comme les étoiles
cristaux points sans force feu brulée la basilique
folle : les zigzags craquent
téléphone
mordre les cordages se liquéfier l’arc
grimper
astrale
la mémoire
vers le nord par son fruit double comme la chair crue
faim feu sang

O GRANDE LAMENTO DE MEUS TRÊS ESCURO

flores home relógios e penas leves cercar clareza
na manhã de enxofre distante as vacas èchent lírios sal
meu filho
meu filho
sempre sair pela cor do mundo
parece mais azul do que o metrô e astronomia
estamos muito magra
nós não temos nenhuma boca
nossas pernas são duras e colidem
nossos rostos não são em forma de estrelas
pontos de cristal sem força, fogo queimou a basílica
louco: os ziguezagues rachar
telefone
cordas mordida liquefazer o arco
subida
astral
memória
a norte pela sua dupla fruta como carne crua
fome de sangue fogo

(google tradutor)

A GRANDE QUEIXA SOBRE MINHA OBSCURIDADE TRÊS

em nós as flores dos pêndulos se alumiam e as plumas contornam a claridade
a manhã de enxofre longínqua as vacas l’ambem os lírios de sal
meu filho
meu filho
arrastamos sempre pela cor do mundo
quem dirá mais tristonho que o metro e que a astronomia
nós estamos muito magros
nós não temos boca
nossas pernas estão esticadas e se entrechocam
nossas caras não tem forma como as estrelas
cristais pontos sem força fogo queimada a basílica
louca: os ziguezagues racham
telefone
morder as cordas liquefazer o arco
galgar
astral
a memória
verso ao norte por seu duplo fruto como a carne crua
fome fogo sangue

(sergio maciel)

§

À UNE MORTE

tu avances toujours aux confins de la nuit
le feu s’est éteint où finit la patience
même les pas sur des chemins imprévus
n’éveillent plus la magie des buts

braises braises
l’amour s’en souvient

rien ne nous distrait de l’attente assise
sur les genoux enfants aux plénitudes chaudes
pourrais-je oublier le son de cette voix
qui contribue à répandre la lumière
au-delà de toute présence

fraises fraises
à l’appel des lèvres

comme la mer contenue
toute une vie enlacée
et sur les innombrables poitrines des vagues
l’incessant froissement des ours effleurés

rêves rêves
au silence de braise

pourrais-je oublier l’attente comblée
le temps ramassé sur lui-même
le jour jaillissant de chaque parole dite
le long embrasement de la durée conquise

sèves sèves
ma soif s’en souvient

A UM MORTO

tu avanças sempre aos confins da noite
o fogo se extinguiu onde findou a paciência
mesmo os passos sobre as chamas imprevistas
não despertam mais a magia das metas

brasas brasas
o amor se lembra

nada nos distrai da espera assentada
sobre os joelhos infantis às plenitudes quentes
poderia esquecer o som desta voz
que contribui para derramar a luz
além de toda presença

morangos morangos
ao apelo dos lábios

como o mar constante
toda uma vida enlaçada
e sobre os incontáveis peitos das ondas
o incessante franzimento dos ursos tocados

sonhos sonhos
em silêncio de cinzas

poderia esquecer a espera plena
o tempo recolhido em si mesmo
o dia jorrando cada palavra dita
o longo alastramento da duração conquistada

seivas seivas
minha sede se lembra

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