poesia, tradução

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991), por Natan Schäfer

André Pieyre de Mandiargues e sua esposa Bona, pintora e escultora. Foto de Cartier Bresson. Veneza, 1952.

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991) é autor de uma extensa e diversa obra que, embora agraciada com Prêmio Goncourt (em 1967, pelo romance La Marge) e o Grande Prêmio da Academie Française (em 1979, por sua poesia), ainda enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar nas histórias da literatura francesa. Nascido em Paris mas tendo passado grande parte de sua vida no sul da Europa devido à sua paixão pelo mediterrâneo, Mandiargues foi um dos “herdeiros indiretos” do surrealismo francês, apesar de nunca ter participado e militado oficialmente junto ao grupo liderado por André Breton. Excêntrico e algo insular, Mandiargues foi definido em seu obituário no jornal Le Figaro como o “mais secreto de nossos escritores” e possui uma poética geralmente apresentada como barroca e vinculada ao onírico e ao erótico, mas não que para por aí. Como muito bem observou o poeta e ensaísta Alain Jouffroy, os textos de Mandiargues nos conduzem “às profundezas da voz baixa”.

O autor foi apresentado no Brasil por Mônica Cristina Corrêa, que traduziu a prosa de “Fogo em brasa” (Feu de brase), publicado pela editora Iluminuras em 2003.

As traduções aqui reunidas referem-se a diferentes momentos do longo percurso poético de Mandiargues, que vai de 1943, ano de publicação de Dans les anées sordides, até o início dos anos 1990. Podemos assim acompanhar alguns movimentos de uma poética que não se resume à obediência a postulados ou dogmas, não se deixando reduzir a um ismo e cuja voz, ainda que sussurante, se faz ouvir e segue conversando conosco, hoje.

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR e proprietário, com Flávia Chornobai, da microeditora Contravento Editorial. Atualmente vive em Lyon.

* * *

Arroio de solidões [André Pieyre de Mandiargues, Ruisseau des solitudes, 1968, p.:? “Ruisseau de solitudes”]

Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja

E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

Ruisseau de solitudes

Nul qui seul soit
Chez soi
Et là qui
Ne veuille être en la rue,

Nul en la rue
Qui soit
Seul
Et qui ne veuille
Être chez soi
Derrière un seuil
À soi,

La rue annule
Par roulement elle annule
Jour e nuit elle annule,

La nue au ciel
Déploie
Un linceul sur la rue,

Longue rue
Plus longue elle est
Plus elle annule
Plus tôt l’homme est enclos,

Un sillon long
Une fosse fouie,

Sous le bleu-gris
De la buanderie haute
D’où les désirs découlent,

Douce douceur des seuls
Désireux oui,

Seuls chez lui quand ils sont
Ou semblablement
Chez elle
Nu et nue ils se veulent
Ils ruent Suent,

Quoique deux étant seuls
Ils suent oui donc
Ils ruent afin
D’être en deux un,

Qu’elle soit arable
Ils est charrue
Ils se voudraient le grain
D’un seul épi,

Aspirant à l’unique
Ils terrent
Font un double lapin,

Seul à seule ils s’enclouent
Couvercle et fond
Du coffre long
Qui est couple et
Qui descend en des boues,

Pour être annulé
De par loi de balai,

Tandis que loin
Devant le manche
Et en arrière aussi
Se reforme la rue,

Ruisseau des solitudes.

§

Você vai rir [André Pieyre de Mandiargues, Le Point où j’en suis / Dalila exaltée / La Nuit l’amour (p. 64), 1964 e Correspondance Paris – Buenos Aires 1961-1972, 2018 “Tu riras”]

Para Alejandra Pizarnik

Você vai rir de ter passado fome
Vai rir da necessidade
E da satisfação,

Vai rir do frio e do calor
Vai rir de ter dado risada e chorado
Vai sorrir por ter amado,

Você vai zombar por ter estado viva.

Tu riras

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

§

Heroína [André Pieyre de Mandiargues, Gris de perle, 1993, “Héroïne”, p. 64]

Quem cai não é a flor
Mas seu adorno de pétalas
Quando o macio ventre cresce
Ovário da papoula branca
De onde um dia sairás
Moça ofuscada,

Mas o que não longe de ti
Já brilha
É a tumba de mármore nova
Numa floresta vasta e velha,

A tumba da heroína
Que serás contra tua vontade
De ter uma vida de planta entre as árvores
Comumente obscuramente
Inocentemente eternamente
Aos pés do portal de giz.

(28 de outubro de 1984)

Héroïne

C’est n’est pas la fleur qui tombe
C’est sa parure de pétales
Quand son doux ventre grossit
Ovaire du pavot blanc
Dont tu sortiras un jour
Jeune éblouie,

Mais ce qui non loin de toi
Brille déjà
Est un tombeau de marbre neuf
Dans une forêt vaste et vielle,

Le tombeau de l’héroïne
Que tu seras contre ta volonté
De n’avoir qu’une vie de plante entre les arbres
Communément obscurément
Innocemment longtemps
Au pied d’une porte de craie.

(28 octobre 1984)

§

Incêndio [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.15: “L’incendie”]

Que foste buscar em meio ao incêndio
Por trás dos vapores de esplendor barroco
Através do segredo de uma escada aos trapos
Estrangulada por heras escarlates?

Que promessa te fez abrir uma porta em chamas
Santa face de fogo e cinza
Na beira de um mundo morno
Falcatrua silêncio ruína?

Diante de ti agora não mais
Que diamantes e rubis brincando na poeira
Que gesso caído sobre azulejos de mármore
Com estátuas de escudos brancos
De mãos de vidro de jarros cheios de pranto
De pretas de veludo e de rosas passadas
Embaixo de paredes caducas.

Eis que vem vindo uma dama radiante e funérea
Desaparece de repente de repente aparece reaparece de repente
Mais que de repente nua
Que é como a sombra de uma desolação.

Nua sangrenta e negra
Nos cabelos desfeitos uma fagulha
Vermelha como um cravo capaz de perfurar a fuligem.

Pisoteando com os pés as pedras
Ouro e prata o tinir do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza da hora catastrófica.

E talvez a julgues boa atriz
Gigante que se estende com tranquilidade
Na calçada como sob uma faca
Enquanto ao seu redor explode e se espalha
O louco luxo do seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

L’incendie

Qu’allais-tu donc chercher à travers l’incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d’un escalier en loques
Étranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d’un monde morne
Sournoiserie silence délabrement ?

Devant toi ce n’est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur des carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l’ombre d’une désolation.

Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L’or et l’argent le fracas du cristal
Indifférente à l’opulence ou à la ruine
Dans la beauté d’une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s’étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu’alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

§

Temporada de neve [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.: “Les temps de neige”]

Neva e elas riem

Elas riem de tudo
Da sua nudez do inverno
Da cabra preta e pinhos
Do vento e de seu mestre.

Leito frio tinto em fogo
De araras e quimeras
De gargantas brilhantes
Nos olhos se debatem
Colibris faisões gaios.

Ornamento incontestável
Os dias de sol minguam
Em clarões de alegria insana
Em plumas jorrando em sincelos
Pelo mais vão dos sacrifícios
É hora de se perderem.

Se o leito é o campo da derrota
Se os lençóis rasgados tombam
Aos pés deste homem sem idade
Sem amizades nem perdão
Bloco mineral errático
Que um glaciar deixou no quarto.

Pelo orgulho submisso a tudo
Uma se finge indiferente
Logo a outra se maravilha
Fica vermelha e segue branca
Pequena coruja-das-neves
Presa nos fios do caçador.

Sabe ele que ela é a caçula e
Que sua penugem tão fina
Um só fio de sangue arruina?

Mas a fogueira também toma parte
Rompe-se a rocha o quarto se ilumina
O áspero jogo logo vai findar
Numa onda ardente de rubi e nácar.

Le temps de neige

Il neige elles s’en rient
Elles se rient de tout

De l’hiver d’être nues
De la nuit et des hommes
Du bouc noir des sapins
Du vent et de leur maître.

Le feu peint leur lit froid
D’aras et de chimères
Aux gorges étincelantes
Et dans leurs yeux se battent
Faisans geais colibris.

La parure incontestable
De beaux jours qui s’amenuisent
En éclats d’une gaieté folle
En duvets jetés aux frimas
Pour le plus vain des sacrifices
S’il n’est temps que d’être perdues.

Si leur lit est un champ de défaite
Si les draps rompus sont à bas
Aux pieds de cet homme sans âge
Sans amitié ni pardon
Bloc de pierre erratique
Qu’un glacier laissa dans la chambre.

Soumise à tout par sa fierté
L’une se feint indifférente
Mais déjà l’autre s’émerveille
Rosit sans cesser d’être blanche
Comme un petit harfang des neiges
Pris aux filets de l’oiseleur.

Sait-il bien qu’elle est la plus jeune
Et que son plumage est si tendre
Qu’un trait de sang le ruinera ?

Mais le bûcher s’est mis de la partie
Le roc se fend la chambre s’illumine
Le jeu bourru va bientôt s’achever
En chaude ondée de rubis et de nacre.

§

País gélido [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.40: “Le pays froid”]

Fala mais alto, o inverno atordoa.
O ruído dos passos que ontem ouvimos
No lago congelado
Somente na memória agora soa
E nossa vida se faz um triste hábito
Por trás da parede de vidro níveo.

Já tem dias semanas que cai neve
E o carvão o café cada dia menos
Cada dia enfraquece
O amanhã sempre pior que a véspera.

Nossa própria memória extravia as respostas.

Fome e gelo expulsam do bosque os cervos
Paras as ruas do vilarejo
Um deitou-se perante a cruz
Boquiaberto a cabeça pra trás
Fera imagem do nosso amor.

Escutou o uivo dos lobos à noite
Quando vêm vindo rondar o curral?
Sob a chaminé o fogo enfraquece
Com tanta indulgência o cão nos encara
Com tanta pena
Que nosso peito se aperta.

Não ninguém vai varrer os degraus da entrada.

Jovem gigante, ganha força o inverno
Cai neve a geada engrossa e nós
Envelhecemos no compasso.

Fala baixo não é mais preciso que escutem
O homem de pedra já vai abrir o caminho.

Le pays froid

Parlez plus haut l’hiver nous assourdit
Les bruits des pas que l’on entendait hier
Au bord du lac gelé
Ne sonnent plus que dans le souvenir
Et notre vie devient une habitude triste
Derrière la paroi des vitres blanches.

La neige tombe depuis bien des semaines
Le charbon le café diminuent tous les jours
Chaque jour s’amoindrit
Le lendemain toujours est pire que la veille.

Notre mémoire même égare les réponses.

La faim le froid chassent les cerfs hors des bois
Jusque dans les rues du village
L’un s’est couché devant la croix
Bouche bée la tête à la renverse
Fauve image de notre amour.

Avez-vous entendu crier le loup le soir
Quand ils viennent rôder autour des étables?

Sous la haute cheminée le feu languit
Le chien nous regarde avec tant d’indulgence
Avec tant de pitié
Que notre coeur se serre.

Nul ne balayera les marches de l’entrée.

L’hiver s’accroît comme un jeune géant
La neige tombe le givre s’épaissit
Et nous vieillissons à mesure.

Parlez bas il n’est plus besoin de nous entendre
Bientôt l’homme de pierre ouvrira le chemin.

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poesia, tradução

Paul Éluard, por Natan Schäfer

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944.

Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos.

Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas:

“(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda França, vozes se respondem, cantando para encobrir os pesados murmúrios da besta, para que triunfem os vivos, para fazer desaparecer a vergonha. Cantar, lutar, gritar, batalhar e se salvar. (…)

Mas era preciso que a poesia tomasse parte na resistência. Ela não podia continuar por mais muito tempo brincando com as palavras sem correr riscos. Enfim, ela pôs tudo a perder para acabar com as brincadeiras e se fundir no seu eterno reflexo: a verdade mais nua, mais pobre, mais ardente e eternamente bela. E se digo “eternamente bela” é porque no coração dos homens ela ocupa um lugar de estima, o lugar de toda beleza, tornando-se a única virtude, o único bem. Um bem incomensurável”.

In: Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “Raisons d’écrire, entre autres, et bibliographie”, p . 78.

* * *

Depois de tantos anos [Éluard, Paul. Poèmes politiques, 1948. Oeuvres II, p. 225. “Après tant d’anées”]

Depois de tantos anos de martírio
De tantos anos-pó muito mais longos
Que anos-luz seguindo um astro perdido
De novo miséria a dar e vender
Por nada, que pra nós não é palavra

Lutando e trabalhando falimos
O desespero deita onde dormimos
Sonhamos abraçar saúde e jovens
A boca e a cabeça ainda sonham
A vida vai mudar como um infante

Não desesperamos, sobrevivemos
Tudo nunca foi tão duro tão obscuro
Mas a noite não misturou-se ao sangue
Mais um passo juntos rompe-se o beco
Dando a nós todos o bem e um rumo.

Après tant d’années

 Après tant d’années passées à souffrir
Tant d’années-poussière au souffle plus long
Qu’années-lumière vers un astre disparu
Nous retrouvons misère à vendre et à revendre
Pour rien et rien n’est pas un pour nous

 Notre combat notre travail font-ils faillite
Le désespoir s’est-il couché dans notre lit
Nous rêvions d’embrasser la santé la jeunesse
Sur la bouche et le front nous en rêvons encore
Notre vie changera comme change un enfant

 Nous n’avons pas désesperé nous survivons
Tout a été plus dur plus obscur que jamais
Mais la nuit ne s’est pas mêlée à notre sang
Un pas de plus ensemble et le sentier se rompt
Pour nous offrir à tous notre bien notre route.

§

 De um tempo futuro [Éluard, Paul. Pouvoir tout dire, 1948. Oeuvres II, p. 373. “D’un temps futur”]

As prisões foram fechadas aos prisioneiros
Elas se tornaram rochedos em meio a multidão
Falo isso assim como respiro
Se estivessem abertas eu estaria lá dentro
Todo mundo está fora.

*

O trabalho está vivo
O cansaço está feliz
Além disso eu respiro
Usando meu próprio peito.

*

As ruas as casas as campinas as florestas
Cintilam um mesmo brilho cada qual com seu sol
As nuvens se dispersaram
Uma multidão de sóis paira no ar
E o amor é mútuo
E a emoção é geral

Já nem me lembro mais
Do passado desolador.

D’un temps futur

Les prisons sont fermées aux prisonniers
Elles sont devenues des rochers dans la foule
J’en parle comme je respire
Si elles étaient ouvertes je serais dedans
Tout le monde est dehors 

*

Le travail est vivant
La fatigue est joyeuse
Je respire au-delà
De ma propre poitrine. 

*

Le rues et les maisons les prés et les forêts
Brillent d’un même éclat chacun a son soleil
Il y a une foule de soleils dans l’air
Et l’amour est mutuel
Et l’émotion est générale

 Je ne me souviens pas
Du passé désolant.

§

Não são mãos de gigantes [Éluard, Paul. Poesie initerrompue: Abolir les mystères, 1953. Oeuvres II, p. 692. “Ce ne sont pas mais de géants”]

Não são mãos de gigantes
Não são mãos de gênios
Que forjaram o crime e nossos grilhões

São mãos acostumadas a si mesmas
Vazias de amor vazias de mundo
Mãos que os mais ordinário dos mortais não apertou

Ela se tornaram cegas estranhas
A tudo aquilo que não é besta caça
Seu prazer parece o fogo nu do deserto

Seus dez dedos multiplicam zeros nas contas
Que levam somente às profundezas da falência
E sua habilidade lhes enche de nada

Essas mãos seguram a popa ao invés da proa
O crepúsculo ao invés da alvorada reluzente
E segmentando o ímpeto anulam toda esperança

Não são mãos de condenados sempiternos
Pela multidão em festa descendente do dia
Em que todo mundo poderia ser justo para sempre

E poderia rir de saber que não está só na terra
Decidindo sua conduta em virtude de seus irmãos
Em prol de uma felicidade única onde o riso seja lei

É preciso entre nossas mãos mais numerosas
Esmigalhar a morte idiota abolir os mistérios
Construir a razão de nascer e viver feliz.

Ce ne sont pas mais de géants

Ce ne sont pas mains de géants
Ce ne sont pas mains de génies
Qui ont forgé nos chaînes ni le crime

 Ce sont de mains habituées à elles-mêmes
Vides d’amour vides du monde
Le commun des mortels ne les a pas serrées

Elles sont devenues aveugles étrangères
A tout ce qui n’est pas bêtement une proie
Leur plaisir s’assimile au feu nu du désert

 Leurs dix doigt multiplient des zéros dans des comptes
Qui ne mènent à rien qu’au fin fond des faillites
Et leur habileté les comble de néant

Ces mains sont à la poupe au lieu d’être à la proue
Au crépuscule au lieu d’être à l’aube éclatante
Et divisant l’élan annulent tout espoir

Ce ne sont que des mains condamnées de tout temps
Par la foule joyeuse qui descend du jour
Où chacun pourrait être juste à tout jamais

 Et rire de savoir qu’il n’est pas seul sur terre
A vouloir se conduire en vertu de ses frères
Pour un bonheur unique où rire est une loi

 Il faut entre nos mains qui sont les plus nombreuses
Broyer la mort idiote abolir les mystères
Construire la raison de naître et vivre heureux.

§

Àquela com quem sonham [Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “À celle dont ils rêvent”, p. 36]

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Dai-lhes ainda mais força humana
Alegria de estar no mundo
Dai-lhes em meio a sombra imensa
Os lábios de um amor doce
Que faça esquecer o sofrer

Senhora do sono do povo
Moça mulher irmã e mãe
De seios inchados de beijos
Dai-lhes este nosso país
Tal qual eles sempre estimaram
Um país louco por viver

Um país onde cante o vinho
Onde a colheita é generosa
Onde a criançada é sapeca
Onde os velhinhos são mais finos
Que pomares brancos de flores

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Neve negra de noites brancas
Atravessando um fogo exangue
Santa Alva branca bengala
Fazei-lhes ver caminhos novos
Além da sua cela de tábuas

Pagos para que conhecessem
As piores forças do mal
Entretanto não se curvaram
Mesmo crivados de virtudes
Assim como de ferimentos
Porque a si sobreviveram

Senhora do descansar
Senhora do despertar
Dai a liberdade ao povo e
Deixe a vergonha de
Crer na vergonha ainda que
Para aniquilar-lhe.

À celles dont ils rêvent

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Donne-leur des force d’homme
Le bonheur d’être sur terre
Donne-leur dans l’ombre immense
Les lèvres d’un amour doux
Comme l’oubli des souffrances

Maîtresse de leurs sommeil
Fille femme soeur et mère
Aux seins gonflés de baisers
Donne-leur notre pays
Tel qu’ils l’ont toujours chéri
Un pays fou de la vie

 Un pays où le vin chante
Où les moissons ont bon coeur
Où les enfants sont malins
Où les vieillards sont plus fins
Qu’arbres à fruits blancs de fleurs
Où l’on peut parler aux femmes

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Neige noire des nuit blanches
À travers un feu exsangue
Sainte Aube à la canne blanche
Fais-leur voir un chemin neuf
Hors de leur prison de planches

Ils sont payés pour connaître
Les pires forces du mal
Pourtant ils ont tenu bon
Ils sont criblés de vertus
Tout autant que de blessures
Car il faut qu’ils se survivent

Maîtresse de leur repos
Maîtresse de leur éveil
Donne-leur la liberté
Mais garde-nous notre honte
D’avoir pu croire à la honte
Même pour l’anéantir.

§

Marielle [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Gabriel Péri”, p.41]

Morreu uma mulher que se escudava
Só com seus braços abertos à vida
Morreu uma mulher que só seguia
O caminho do ódio ao revólver
Morreu uma mulher que ainda briga
Contra o esquecimento e a morte

O que era seu desejo
Nós queremos também
E agora nos convém
Que a alegria seja um candeeiro
No fundo do olhar e do peito
E a justiça no mundo inteiro

Há palavras que nos dão vida
E são palavras inocentes
Por exemplo calor confiança
Justiça amor e também liberdade
A palavra gentileza ou criança
E alguns nomes de flores e nomes de frutos
Coragem e a palavra descobrir
E alguns nomes de países cidades
E alguns nomes de amigos e mulheres
Adicionamos Marielle
Marielle morreu pelo que nos faz viver
Nossa amiga perfuraram seu peito
Mas você fez que com nos conhecêssemos
Sejamos amigos seu sonho segue vivo

Gabriel Péri

Un homme est mort qui n’avait pour défense
Que ses bras ouverts à la vie
Un homme est mort qui n’avait d’autre route
Que celle où l’on hait le fusils
Un homme est mort qui continue la lutte
Contre la mort contre l’oubli

Car tout ce qu’il voulait
Nous le voulions aussi
Nous le voulons aujourd’hui
Que le bonheur soit la lumière
Au fond des yeux au fond du coeur
Et la justice sur la terre

Il y des mots qui font vivre
Et ce sont des mot innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certain noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays et villages
Et certains noms de femmes et d’amis
Ajoutons-y Péri
Péri est mort pour ce qui nous fait vivre
Tutoyons-le sa poitrine est trouée
Mais grâce à lui nous nous connaissons mieux
Tutoyons-nous son espoir est vivant.

§

O mesmo dia para todos [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Le même jour pour tous”, p.46]

I

A espada que evita o peito do chefe dos culpados
Se enfia no coração dos pobres e inocentes

O olhar primeiro é da inocência
E o segundo é o da pobreza
Há que se saber protegê-los

Não quero condenar o amor
Por não ter matado o ódio
E aqueles que o despertaram

II

Caminha um passarinho por imensas terras
Onde o sol tem asas

III

Ela ria a minha volta
A minha volta despida
Era como uma floresta
Uma turba de mulheres
A minha volta

Como uma armadura contra o deserto
Como uma armadura contra injustiça

A injustiça dava em todos
Estrela singular estrela inerte de um céu gordo que é a privação de luz
A injustiça golpeava os inocentes e os heróis os sem piedade
Quem sabe um dia aptos a administrarem

Pois os ouvi dar risada
No seu sangue e na beleza
Na miséria e na tortura
Rindo um riso por vir
Rindo para a vida e nascendo ao rir.

19 de novembro de 1944

Le même jour pour tous

I

L’épée qu’on enfonce pas dans le coeur des maîtres des coupables

On l’enfonce dans le coeur des pauvres et des innocents

Les premiers yeux sont d’innocence
Et les seconds de pauvreté
Il faut savoir les protéger

Je ne veux condamner l’amour
Que si je ne tue pas la haine
Et ceux qui me l’ont inspirée 

II

Un petit oiseau marche dans d’immenses régions
Où le soleil a des ailes

 III

Elle riait autour de moi
Autour de moi elle était nue

Elle était comme une forêt
Comme une foule de femmes
Autour de moi

Comme une armure contre le désert
Comme une armure contre l’injustice

L’injustice frappait partout
Étoile unique étoile inerte d’un ciel gras qui est la privation de lumière
L’injustice frappait les innocents et les héros les insensés
Qui sauront un jour régner 

Car je les entendais rire
Dans leur sang dans leur beauté
Dans la misère et les tortures
Rire d’un rire à venir
Rire à la vie et naître au rire. 

19 novembre 1944

§

Fazer viver [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Faire vivre”, p. 54]

Eram somente alguns vivendo na noite
Sonhando com um céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na lenha em chamas
Ainda que distante lhes alegrava o aroma das flores
Cobertos pela nudez de seus desejos

Reuniam no peito o fôlego em compasso
Com este nada de ambição da vida no mato
Que cresce no verão como um verão ainda mais intenso

Reuniam no peito a esperança dos tempos que vêm vindo
E que saúdam mesmo de longe um outro tempo

Um pouquinho de sono
Lhes entregava o sol do futuro
Resistiam sabiam que viver eterniza

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

*

Não passavam de uns poucos
Subitamente se tornaram multidão

Desde sempre isso acontece.

Faire vivre 

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort 

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert 

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue 

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.

§

Logo [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Biêntot”, p. 64”]

Das primaveras do mundo
Esta é a mais terrível
Do meus modos de ter sido
Confiante é meu preferido

Feito a pedra ergue a tumba
A grama ergue a neve branca
Durmo sob bruta chuva
E acordo meus olhos claros

Lento e miúdo tempo afunda
Onde passaria a rua
Por minhas íntimas fugas
Para que eu encontre alguém

Não escuto mais os monstros
Disseram tudo já os conheço
Vejo apenas rostos lindos
Rostos lindos com certeza

De logo aniquilar os chefes.

Biêntot 

De tous les printemps du monde
Celui-ci est le plus laid
Entre toutes mes façons d’être
La confiante est la meilleure

L’herbe soulève la neige
Comme la pierre d’un tombeau
Moi je dors dans la tempête
Et je m’éveille les yeux clairs

Le lent le petit temps s’achève
Où toute rue devait passer
Par me plus intimes retraites
Pour que je rencontre quelq’un

Je n’entends pas parler les monstres
Je les connais ils ont tout dit
Je ne vois que les beaux visages
Les bons visages sûrs d’eux mêmes

Sûrs de ruiner bientôt leurs maîtres.

§

De fora [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Du dehors”, p. 69]

A noite o frio a solidão
Me encerraram com cuidado
Mas na cela abriam caminho os galhos
Grama e céu se encontravam a minha volta
Encarceram o céu
Desmoronou a prisão
Segurou-me nas mãos o frio ardente e vivo.

Du dehors

La nuit le froid la solitude
On m’enferma soigneusement
Mais les branches cherchaient leur voie dans la prison
Autour de moi l’herbe trouva le ciel
On verrouilla le ciel
Ma prison s’écroula
Le froid vivant le froid brûlant m’eut bien en main.

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poesia, tradução

Christophe Tarkos, por Paulo Serber

Cristophe Tarkos nasceu em Martigues, no sul da França, em 1963. Poeta-improvisador-performer, construiu obra múltipla desde o início da década de 1990, quando passou a dedicar-se integralmente à arte. Participou da criação de importantes revistas de poesia contemporânea – como RR, com Nathalie Quintane e Stéphane Bérard, Poèzie Prolétèr, com Katalin Molnàr, Facial, com Charles Pennequin, e Quaderno, com Philippe Beck –e integrou movimentos de caráter inovador, colaborando numa rede de artistas e produtores culturais de significativa reverberação. Publicou pelas editoras Al Dante e P.O.L. Faleceu em 2004, em Paris, de um tumor cerebral.

Paulo Serber é mestre em teoria e história literária pela Unicamp. É tradutor de literatura francófona, tendo traduzido Emmanuel Bove, Henri Calet e Georges Perec.

* * *

Eu me agito

eu me agito.
eu já não posso mais me reter.
eu estou agitado. estou saindo pela tangente.
não há mais guia.
eu não sei mais onde eu estou.
isso não vira.
eu estou nervoso.
já não sei onde virar o olho.
meus olhos viram.
eu me retorço.
eu não sou mais do que agitação.
do que nervosismo.
do que nevos.
do que incontroladas agitações.
incontroláveis.
já não me controlo

eu me agito.
eu já não me quero.
eu quero que isso parta.
eu quero que se isso não pode partir que eu me sobreleve.
que eu dissipe.
que eu desloque.
que eu interrompa.
eu posso tudo parar.
eu posso me fazer morrer.
eu posso me suicidar.
eu vou me fazer parar.
se eu não posso continuar eu paro com tudo.
eu vou me fazer sumir.
eu paro.
eu corto.
eu cesso.
eu morro.
eu me mato.
eu me suicido

eu me agito.
eu passo mal.
eu não paro o mal me agitando.
isso se agita.
isso só faz aumentar a agitação.
o mal agita.
a dor continua precisa insinua insiste martela se agita.
eu me agito.
eu quero que cesse.
eu não tenho.
eu não tenho como fazer parar.
eu não terei meio de fazer cessar

do que se agita.
do que se debate.
do que ser não está afim.
do que ser não está afim do que acumulou.
que ele acumulou.
que ele tem que trajar.
que ele tem que levar.
do que ele viu tudo que se acumulou.
do que se tornou agitado.
do que se tornou insuportável de levá-lo.
de ter que levá-lo.
de o saber colado para sempre à pele

eu me agito.
eu estou nervoso.
eu quero a morte.
eu quero morrer.
eu não quero mais continuar.
é continuar nessas condições que é impossível.
quando se tornou impossível é preciso poder parar.
eu tenho o poder de fazer cessar.
eu posso parar por aqui.
eu posso acabar com tudo.
eu quero acabar aqui.
eu quero parar comigo.
eu vou me fazer morrer.
eu suicido

eu já não quero mais que me olhem.
eu já não quero altas visões.
eu já não quero portar meu olhar sobre mim.
eu já não quero mais esse olho.
eu já não quero divinas visões.
eu já não quero ver.
eu já não quero ver-te.
eu já não quero mais ver viver.
eu quero me ver morrer.
eu quero ver-me perder a vista.
em um segundo já não mais ver

do que ele quer crescer seus cabelos.
do que ele quer que seus cabelos cresçam.
do que ele sente ver ter crescer seus cabelos.
do que ele quer ver seus cabelos crescer.
sentir que eles crescem.
sentir que eles crescem todos.
ele quer que eles se alonguem.
que sejam mais e mais longos.
do que ele quer ter cabelos longos que cresceram.
que ele sentiu crescer se alongaram

eu me agito do que ele quer que quer que ele saia do saco.
que ele saca que está ensacado.
que sabe que é um saco que ele não quer.
do que ele quer se extirpar.
do que ele quer que esse saco suma.
seja dissipado.
seja deslocado.
seja esquecido.
seja morto.
que ele não quer mais desse saco que nele cola.
nessa vida cola.
nesse saco cola.
nesse viu não rola.
que ele o quer quebrado.
que ele o quer extirpado

os demônios são contos bons que fazem pesadelos.
que fazem delírios.
que fazem ilusões.
que fazem delirar.
que fazem espantos.
que fazem medo.
que fazem enormes espantos.
que fazem escorregar.
que fazem pender.
que fazem cair.
que fazem histórias estranhas estranhamente espantosas.
estranhamente espantosas de querer sair de dentro de dentro delas

eu me agito.
da decisão de já não mais ser da matéria que sou.
da matéria de que sou feito.
de essa matéria aí.
dessa cola aí.
dessa pele aí.
desse couro aí.
desse peito aí.
se eu não mais quero ser isso aí.
eu já não tenho outra solução que partir de novo.
que de me juntar a outra matéria.
que de executar uma meia-volta.
que de tudo fazer cessar.
o que não poderia continuar com essa matéria

ele se mexe.
ele se agita.
eu me mexo.
eu me agito.
ele não quer bater suas botas.
ele tem uma ideia de como sair.
de como salvar-se.
eu tenho uma ideia de como sair.
eu vou sair.
eu vou encontrar solução para sair.
eu não posso ficar assim sem nada fazer.
a não me salvar.
a não me esgueirar

ele não sabe.
eu me agito.
ele não sabe.
eu não sei em cima do que eu vou me apoiar para saber.
para dizer.
para apoiar o que sou.
ele não sabe em cima do que se apoiar para ser se dizer.
para saber que é.
para provar.
para se apoiar.
eu não sei em cima do que eu vou daqui a pouco apoiar-me para dizer.
para dizer que eu sou.
para saber

 

Je m’agite

je m’agite.
je ne me retiens plus.
je suis agité. je pars dans tous les sens.
il n’y a plus de guide.
je ne sais plus où je suis.
ça ne tourne pas.
ça s’agite.
je suis nerveux.
je ne sais plus où tourner mon regard.
mes yeux ont tourné.
je me retourne.
je ne suis plus que de l’agitation.
de la nervosité.
des nerfs.
des agitations incontrolées.
incontrôlables.
je ne me controle plus

je m’agite
je ne veux plux de moi.
je veux que cela parte.
je veux que si cela ne peut pas partir que je soulève.
que j’éloigne.
que j’enlève.
que j’arrête.
je peux tout arrêter.
je peux me faire mourir.
je peux me suicider.
je vais me faire arrêter.
si je ne peux pas continuer j’arrête tout.
je vais me faire disparaître.
j’arrête.
je coupe.
je cesse.
je meurs.
je me tue.
je me suicide

je m’agite.
j’ai mal.
je n’arrête pas le mal en m’agitant.
ça s’agite.
ça ne fait qu’accentuer l’agitation.
le mal agite.
la douler continue précise insinue insiste martèle s’agite.
je m’agite.

je n’arrête pas d’avoir mal.
le mal est là.
je m’agite.
je veux que ça cesse.
je n’ai pas.
je n’ai plus de moyens d’arrêter.
je ne vais plus pouvoir arrêter

de ce qui s’agite
de ce qui se débat.
de ce qui ne veut pas être.
de ce qui ne veut pas être ce qui s’est accumulé.
qu’il a accumulé.
qu’il doit traîner
qu’il doit accumulé..
de ce qu’il a vu tout ce qui s’est accumulé.
de ce qui est devenu insuportable de le porter.
de le devoir porter.
de le savoir collé à la peau por toujours

je m’agite.
je suis nerveux.
je veux la mort.
je veux mourir.
je ne peut plus continuer.
c’est de continuer dans ces conditions qui est impossible.
quand c’est devenu impossible il faut pouvoir arrêter.
j’ai le pouvoir de le faire cesser.
je peux m’arrêter là.
je peux en finir.
je veux en finir là.
je veux m’arrêter.
je vais me faire mourir.
je suicide

je ne veux plus que l’on me regarde.
je ne veux plus d’yeux.
je ne veux plus porter mon regar sur moi.
je ne veux plus de regards.
je ne veux plus avoir d’yeux.
je ne veux plus voir.
je ne veux plus te voir.
je ne veux plus voir vivre.
je veux me voir mourir.
je veux me voir perdre la vue.
dans une seconde ne plus rien voir

de ce qu’il veut pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut que ses cheveux poussent.
de ce qu’il sent avoir voir pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut ses cheveux pousser.
sentir qu’ils poussent.
sentir qu’ils poussent tous.
Il veut qu’ils se rallongent.
qu’ils soient encore plus longs.
de ce qu’il veut avoir des cheveux longs qui ont poussé.
qu’il les a sentis pousser se sont rallongés

je m’agite de ce que de ce qu’il veut sortir de ce sac.
qu’il est dans un sac.
qu’il ne veut plus de ce sac-là.
de ce qu’il veut s’extirper.
de ce qu’il veut que ce sac disparaisse.
soit enlevé.
soit éloigné.
soit oublié.
soit mort.
qu’il ne veut plus de ce sac qui colle à lui.
à ce colle vit.
à ce sac vit.
à ce qu’il lui vit.
qu’il le veut enlever.
qu’il le veut s’extirper

les démons sont de bons contes qui font des cauchemars.
qui font des délires.
qui font des illusions.
qui font délirer.
qui font des frayeurs.
qui font peur.
qui font de grandes frayeurs.
qui font glisser.
qui font descendre.
qui font tomber.
qui font des histoires étranges étrangement effrayantes.
étrangement effroyables à vouloir sortir à vouloir en sortir

je m’agite.
de la décision de ne plus être de la matière dont je suis.
de la matière dont je suis fait.
de cette matière-là.
de cette colle-là.
de cette glu-là.
de cette peau-là.
de ce coeur-là.
se je ne veut plus être de cette façon-là.
je n’ai pas d’autre solution que de repartir.
que de rejoindre une autre matière.
que de revenir en arrière.
que de tout faire cesser.
ce qui ne pourrait pas continuer avec cette matière-là

il bouge.
il s’agite.
je bouge.
je m’agite.
il ne veut pas crever.
il a une idée de comment s’en sortir.
de comment se sauver.
j’ai une idée de comment sortir.
je veux sortir.
je vais sortir.
je vais trouver une solution pour m’ en sortir.
je ne peux pas rester comme ça à ne rien faire.
à ne pas me sauver.
à ne pas m’évader

il ne sait pas.
je m’agite.
il ne sait pas.
je ne sait pas sur quoi je vais m’appuyer pour savoir.
pour dire.
pour appuyer ce que je suis.
il ne sait pas sur quoi s’appuyer pour dire ce qu’il est.
pour savoir qu’il est
pour prouver.
pour s’appuyer
je ne sait pas sur quoi je vais bientôt m’appuyer pour dire.
pour dire que je suis.
pour savoir

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poesia, tradução

Um poema de Victor Hugo por Erick Monteiro Moraes

No post sobre a poesia de Victor Hugo no Brasil (ou sua espantosa escassez), o Guilherme Gontijo Flores levanta a questão dos poetas canônicos descanonizados, isto é, aqueles que todos conhecem, mas ninguém lê. Dentre os autores citados por ele, Goethe e Bilac são os nomes que mais me chamam atenção. O primeiro é o autor de “Kennst du das Land?”, que constitui a epígrafe (quase sempre omitida) da “canção do exílio”, o mais famoso e parodiado poema de nosso Romantismo e, talvez, de toda a nossa literatura. O segundo é vítima da aversão ao parnasianismo que se arraigou na sensibilidade modernista. Bilac, contudo, é autor de poemas memoráveis, dentre os quais “Profissão de fé”, parodiado por Manuel Bandeira em “Os Sapos” (haveria reconhecimento maior?). Curiosamente, esse poema de Bilac tem como epígrafe versos de “A M. Froment Meurice”, de Victor Hugo. Ou seja, as epígrafes de dois dos poemas mais representativos de nossa literatura são versos de poetas europeus que ninguém mais lê por aqui. Realizei, portanto, esta tradução porque acredito que esse poema de Hugo seja tão valioso para Bilac e nosso parnasianismo quanto “Kennst du das Land?” é para Gonçalves Dias e nosso Romantismo. O poema “A M. Froment Meurice” está em Les contemplations.

Erick Monteiro Moraes

* * *

A M. FROMENT MEURICE

Nous sommes frères: la fleur
Paur deux arts peut être faite.
Le poëte est ciseleur;
Le ciseleur est poëte.

Poëtes ou ciseleurs,
Par nous l’esprit se révèle.
Nous rendons les bons meilleurs,
Tu rends la beauté plus belle.

Sur son bras ou sur son cou,
Tu fais de tes rêveries,
Statuaire du bijou,
Des palais de pierreries!

Ne dis pas: «Mon art n’est rien…»
Sors de la route traceé,
Ouvrier magicien,
Et mêle a l’or la pensée!

Tous le penseurs, sans chercher
Qui finit ou qui commence,
Sculptent le même rocher:
Ce rocher, c’est l’art immense.

Michel-Ange, grand viellard,
En larges blocs qu’il nous jettes,
Le fait jaillir au hasard,
Benvenuto nous l’émiette.

Et, devant l’art infini,
Dont jamais la loi ne change,
La miette de Cellini
Vaut le bloc de Michel-Ange.

Tout est grand; sombre ou vermeil,
Tout feu qui brille est un âme.
L’étoile vaut le soleil;
L’étincelle vaut la flamme.

Paris, octobre 1841.

A M. FROMENT MEURICE

Nós somos irmãos: a flor
No papel como na pedra.
O poeta é escultor;
O escultor é poeta.

Poetas ou escultores,
A musa a nós se revela.
Tornamos os bons melhores,
Tu, a beleza mais bela.

Sobre o braço ou o pescoço,
Crias tuas fantasias,
Cristal preciso e precioso,
De paços de pedrarias!

Não digas “Minha arte é nada…”,
Artesão do encantamento,
Foge da rota traçada,
Funde ao ouro o pensamento.

Sem buscar nem o que brota
Nem o que finda, quem pensa
Sempre esculpe a mesma rocha.
Essa rocha é a arte imensa.

Michelangelo, arguto,
Faz jorrar em grandes blocos
A arte que Benvenuto
Talha em minúsculos flocos.

E, ante a arte infinita,
Cuja lei não vê mudança,
Vale a gema de Cellini
O bloco de Michelangelo.

Tudo é grande; rubra ou negra,
Toda alma engendra um drama.
O sol equivale à estrela;
O cintilar vale a chama.

Paris, outubro 1841.

(Victor Hugo, Les Contemplations. Paris: 1858. Tradução: Erick Monteiro Moraes)

* * *

Erick Monteiro Moraes (Rio de Janeiro, 1993) é poeta e tradutor. Formou-se em Letras pela PUC-Rio e atualmente cursa o mestrado na mesma instituição.

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David Diop (1927-1960), por Lucas Perito

david2bdiop

David Léon Mandessi Diop teve uma vida curta: nasceu em 1927, em Bordeaux, França e morreu em 1960, aos 32 anos, em um acidente de avião na costa do Senegal. Diop, uma promessa da poesia francesa de ascendência africana, é considerado o mais revoltado dos poetas do movimento Négritude.

Filho de pai senegalês e mãe camaronesa, Diop passou a infância em hospitais devido à sua saúde frágil. Homossexual, mantinha a sua sexualidade reprimida a ponto de ter tentado se suicidar.

Sua poesia é fortemente marcada pela raiva e o protesto contra os valores europeus. Sua obra é baseada em um único livro (lançado ainda em vida), “Coups de Pilon” em que seus poemas passam pelo sofrimento do negro desde os tempos da escravidão, pela dominação colonial e a condição do negro no século XX, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelos valores da cultura europeia, e termina com um chamado à luta do povo africano.

Sua escrita ocorre principalmente no período em que muitas das colônias africanas lutavam pela independência e os conflitos estavam no auge. Vivendo nessa dicotomia entre ser francês, mas sem perder as raízes de seus antepassados, Diop viu os dois lados desse conflito, vivendo boa parte da sua vida na França e tendo sido professor no Senegal e, posteriormente, em Guiné – atendendo ao apelo de Sékou Touré, primeiro Presidente de Guiné, se junta ao PAI (Partido Africano de Independência) e assume a função de diretor da Escola Normal.

Seus primeiros poemas saíram em uma das revistas mais importante para o movimento Négritude, “Présence Africaine” e sua obra tem grande influência de Aimé Césaire e Léopold Senghor, que foi, inclusive, seu professor na faculdade e que publicou, em 1948, alguns de seus poemas no livro “Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française”.

Abordar o trabalho de David Diop tem como intuito, não só apresentar um poeta menos conhecido do movimento em questão, como também chamar a atenção para um trabalho que se mostra ainda atual. A escolha por estes três poemas baseou-se em sua representatividade no conjunto da obra do autor, pois apresentam três pontos da condição do negro na história: o racismo que remonta ao Code Noir, no primeiro poema; a luta contra a opressão, no segundo e o passado africano na busca por conhecer suas raízes e a partir delas redefinir o mundo em que se vive.

lucas perito

* * *

Un blanc m’ a dit…

Tu n’es qu’un nègre!
Un nègre!
Un sale nègre!
Ton coeur est une éponge qui boit
Qui boit avec frénésie le liquide empoisonné du vice
Et ta couleur emprisonne ton sang
Dans l’éternité de l’esclavage.
Le fer rouge de la justice t’a marqué
Marqué dans ta chair de luxure.
Ta route a les contours sinueux de l’humiliation
Et ton avenir, monstre damné, c’est ton présent de honte.
Donne-moi ce dos qui ruisselle
Et ruisselle de la sueur fétide de tes fautes.
Donne-moi tes mains calleuses et lourdes
Ces mains de rachat sans espoir.
Le travail n’attend pas!
Et que tombe ma pitié
Devant l’horreur de ton spectacle.

Um branco me disse…

Tu não passas de um negro!
Um negro!
Um negro sujo!
Teu coração é uma esponja que bebe
Que bebe com frenesi o líquido envenenado do vício
E tua cor aprisiona teu sangue
Na eternidade da escravidão.
O ferro vermelho da justiça te marcou
Marcou sobre tua carne de luxúria.
Teu caminho tem os contornos sinuosos da humilhação
E teu futuro, monstro danado, é o teu presente vergonhoso.
Dá-me esse dorso que escorre
E escorre suor fétido de tuas faltas.
Dá-me tuas mãos calejadas e pesadas
Essas mãos adquiridas sem esperança.
O trabalho não espera!
E que caia minha piedade
Frente ao horror de teu espetáculo.

§

 

Défi à la force

Toi qui plies toi qui pleures
Toi qui meurs un jour sans savoir pourquoi
Toi qui luttes qui veilles sur le repos de l’Autre
Toi qui ne regardes plus avec le rire dans les yeux
Toi mon frère au visage de peur et d’angoisse
Relève-toi et crie: NON

Desafio à força

Tu que te curvas tu que choras
Tu que morres um dia sem saber por quê
Tu que lutas que velas sobre o repouso do Outro
Tu que não vês mais com o sorriso nos olhos
Tu meu irmão a face do medo e da agonia
Levanta-te e grites: NÃO

§

 

Afrique

À ma mère.

Afrique mon Afrique
Afrique des fiers guerriers dans les savanes ancestrales
Afrique que chante ma grand-mère
Au bord de son fleuve lointain
Je ne t`ai jamais connue
Mais mon regard est plein de ton sang
Ton beau sang noir à travers les champs répandu
Le sang de ta sueur
La sueur de ton travail
Le travail de l’esclavage
L`esclavage de tes enfants
Afrique dis-moi Afrique
Est-ce donc toi ce dos qui se courbe
Et se couche sous le poids de l’humilité
Ce dos tremblant à zébrures rouges
Qui dit oui au fouet sur les routes de midi
Alors gravement une voix me répondit
Fils impétueux cet arbre robuste et jeune
Cet arbre là-bas
Splendidement seul au milieu des fleurs blanches et fanées
C`est L’Afrique ton Afrique qui repousse
Qui repousse patiemment obstinément
Et dont les fruits ont peu à peu
L’amère saveur de la liberté.

África

À minha mãe

África minha África
África de orgulhosos guerreiros das savanas ancestrais
África que canta minha avó
À beira de seu rio distante
Eu nunca te conheci
Mas meu olhar é pleno de teu sangue
Teu belo sangue negro através dos campos difundido
O sangue de teu suor
O suor de teu trabalho
O trabalho da escravidão
Escravidão de tuas crianças
África diga-me África
É portanto teu esse dorso que se curva
E se deita sobre o peso da humilhação
Esse dorso trêmulo a listras vermelhas
Que disse sim ao chicote nos caminhos do meio dia
Então gravemente uma voz me respondeu
Filhos impetuosos esta árvore robusta e jovem
Aquela árvore lá
Esplendidamente só no meio das flores brancas e desbotadas
Esta é a África tua África que renasce
Que renasce pacientemente obstinadamente
E cujos frutos têm pouco a pouco
O amargo sabor da liberdade.

 

* * *

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

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Baudelérias, por Wladimir Saldanha

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BAUDELÉRIAS: O RISO E O PROSAÍSMO DE BAUDELAIRE

A propósito de Baudelaire, constuma-se acentuar o contraste entre a forma elevada de sua poesia, que segue o modelo clássico francês, e os temas baixos – a carniça, o satanismo, a vida das ruas. Mas, haveria algo de próprio no classicismo do autor de As flores do mal?

Para alguns leitores incomuns, como T. S. Eliot e Marcel Proust, sim. O primeiro sustenta que a fama veio para Baudelaire quando a “arte pela arte era um dogma”, doutrina que “afetou a crítica e a apreciação” do poeta francês (ELIOT, 1989). Já Proust advertia, sobre o soneto “Recolhimento”: “Falo do classicismo de Baudelaire como verdade pura, com o escrúpulo de não falsear, por engenhosidade, o que quis o poeta” (PROUST, 2017; traduzimos). E por isso discordava dos amigos que viam no primeiro verso daquele poema – “Sois sage, ô ma douleur, et tiens-toi plus tranquille” – uma repetição de Corneille, que na peça El Cid escreveu: “Pleurez, Pleurez, mes yeux et fondez-vous en eau“. Ao contrário da apóstrofe corneliana, Proust pensava o verso de Baudelaire como “a língua contida, trêmula, de alguém que tirita por ter chorado demais” (id, ib.).

A tais leitura podemos juntar a do italiano Alfonso Berardinelli, ao indagar-se dos motivos que teriam levado Baudelaire a fazer seus poemas em prosa ao tempo da finalização de As flores do mal. Não seria por acaso; haveria uma espécie de “aliança com a prosa”, termo que toma de empréstimo a Thibaudet: “a prosa é sobretudo o que sustenta a poesia, tornando a escansão do alexandrino sintaticamente mais dúctil e equilibrada” (BERARDINELLI, 2007, p. 44).

Como obter, em traduções, esse classicismo peculiar? Talvez a vantagem para alguém que se proponha a oferecer mais algumas possibilidades tradutórias de As flores do mal seja ousar um pouco. Baudelaire é dos poetas mais traduzidos no Brasil. Se Antonio Candido falava, ainda em 1973, em “apogeu de influência” seguido de “fase acadêmica de celebração tranquila”, é certo que a “contribuição monumental de Jamil Amansur Haddad”, embora não seja a “tradução completa” de As flores do mal que então apontava, fixaria o cânone tradutório baudelairiano. Este deixa para trás as errantes contribuições de Félix Pacheco, Carvalho Júnior, Teófilo Dias e outros – os “primeiros baudelairianos”, como os chama o crítico – que, por meio de paráfrases ou emulações, deram inicialmente ao Brasil um autor mais sexualizado e menos prosaico (cf. CANDIDO, 2006, p. 38).

Hoje Baudelaire conta com mais traduções integrais, como é o caso da de Ivan Junqueira, de 1985, além de traduções esparsas de poemas isolados de As flores do mal. Todas se esforçam por manter o contraste entre a forma elevada e o conteúdo baixo; a rima chamada consoante, com simetria desde a consoante de apoio – rima “para o olho e para o ouvido”, como se dizia nos manuais franceses, é norma de regra.

Mas o baudelariano de primeira hora Paul Verlaine, que frustaria os decandentistas de seu tempo na empresa de fazê-lo um precursor da retomada das toantes, reconheceria sua posição contrária como algo intrinsecamente ligado à língua francesa, um modo de dar certo colorido à monotonia acentual do idioma, no qual as oxítonas preponderam (cf. VERLAINE, 1972, 696-701).

Ora, não se pode transpor a interdição das toantes “sem mais” para uma língua como o português (de raras oxítonas); ao contrário, o que se pode transpor quase intuitivamente é o argumento do próprio Verlaine, estendendo-o a Baudelaire. Permitir-se algumas toantes em Verlaine, Baudelaire e outros poetas que ainda escreviam na pauta parnasiana nos últimos anos do século XIX, às vésperas do verso livre, não nos parece algo tão sacrílego.

Trata-se apenas de ampliar o arsenal tradutório, reconhecendo uma diferença de poética que corresponde à diferença de prosódia das duas línguas. E talvez evitando escolhas dicionarescas, em benefício de versões mais fluentes. Assim nasceram as Baudelérias, experiência de traduzir Baudelaire fora do cânone tradutório brasileiro, isto é, usando toantes. Também se procura ajustar os pronomes, preferindo o “você” ao “tu”, já que o primeiro é mais usado no português do Brasil, enquanto o segundo, no francês, não se associa necessariamente a modos elevados de linguagem. Aos poucos, parecia surgir um Baudelaire mais próximo e, talvez, mais ridente, mais irônico. Então pareceu tentação irresistível acentuar, na seleção de vocábulos, certa comicidade do original.

No mesmo estudo de Antonio Candido, há a observação de como Teófilo Dias evitou, por “falta de audácia”, a palavra “salive, que Baudelaire introduziu na poesia e enriqueceu de conotações as mais diversas”. Sabe-se como ironia e ambiguidade são gêmeas. E não se pode sonegar a Baudelaire o riso, sobre que refletiu o poeta em ensaio famoso, reconhecendo nele “algo satânico e profundamente humano (…), essencialmente contraditório, (…) ao mesmo tempo sinal de uma grandeza infinita e de uma miséria infinita” (BAUDELAIRE, 2008, p. 42).

 

REFERÊNCIAS:

BAUDELAIRE, Charles. Da essência do riso. In: ______.Escritos sobre arte. Organização e tradução de Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Hedra, 2008.
BERARDINELLI, Alfonso. Da Poesia à Prosa. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
ELIOT, T. S. Baudelaire. In :______. Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo : Art Editora, 1989.
PROUST, Marcel. À propos de Baudelaire. Disponível em : < https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_propos_de_Baudelaire&gt; Acessado em 19.04.2017.
VERLAINE, Paul. Un mot sur la rime. In : ______. Oeuvres en prose. Pleiade. Paris : Gallimard, 1972.

 

Wladimir Saldanha nasceu em 1977, em Salvador, cidade onde reside. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia, é poeta, crítico e tradutor. Em poesia, publicou As culpas do poema (Prêmio Asabeça/Scortecci, 2012), livro que seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda: Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia; e Cacau inventado (Mondrongo, 2015), livro semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa, em 2016. Pela mesma editora, em 2017, publica Natal de Herodes, poesia. Como tradutor, em 2014 participou da reedição de A cinza do Purgatório, de Otto Maria Carpeaux, pela Editora Danúbio, de Santa Catarina, tendo ficado responsável por verter autores como Rimbaud, Moréas, Georges Rodenbach entre outros. Colaborou também em algumas notas de rodapé, na identificação de fontes citadas por Carpeaux. Publicou na revista francesa Actualité Verlaine, dedicada a estudos do poeta francês Paul Verlaine, ensaio sobre a recepção desse autor no Brasil e problemas de sua tradução. Tem artigos de crítica no Jornal Rascunho (Curitiba), Jornal A Tarde (Salvador) e Jornal Opção (Goiânia).

* * *

CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

CORRESPONDÊNCIAS

A Natureza é templo e das colunas vivas
Por vezes vai minar um vozerio a címbalos;
Os homens passam lá no matagal de símbolos
Que familiarmente olham tais convivas.

Como ecos longos se confundem longe, onde
Há tenebrosa e profundíssima unidade,
Vasta como a noite é, ou como a claridade,
Perfumes, cores, sons – um fala, outro responde.

Perfumes frescos como se de carne nova,
Suaves de oboé, virentes de capim,
E outros, miasmais, riqueza a toda prova,

Com aquelas expansões do que não tem mais fim –
Do almíscar, benjoim, do âmbar ou sabeia,
Que cantam os frissons do corpo e da ideia.

§

LES CHATS

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l’horreur des ténèbres ;
L’Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S’ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s’endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d’étincelles magiques,
Et des parcelles d’or, ainsi qu’un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

OS GATOS

Os amantes fogosos e os sábios de assento
Amam de igual amor, se a idade os apraza,
Os bravos gatos bons, os orgulhos da casa,
Sedentários que são e do tipo friento.

Amigos da ciência e da concupiscência,
Eles buscam o silêncio e os horrores da treva;
O Érebo os tomara por fúnebres leva-
-e-traz se a lealdade fora subserviência.

Assumem, espichados, tão grãs posições,
Como esfinges de prol, sonhando solidões,
Que parecem dormir num devaneio só;

O dois quartos fecundos têm rajas miríficas,
E pingos d’ouro – é ver os da ardósia em pó –
Faíscam vagamente nas pupilas místicas.

§

A UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE

A rua barulhenta em meu redor zunia.
Luto fechado, esbelta, rainha na dor,
Certa mulher passou, e com mão de esplendor
Arrrepanhava a renda e gingava a bainha;

Ágil e nobre, lá vai perna de escultura.
Quanto a mim, eu bebia (era um tipinho tenso)
No olhar baço de céu (“Vem remoinho”, penso),
Do que mata – prazer – e faz não ver – doçura.

Um clarão… noite, já! – Beleza mais fujona,
Que me fez renascer com os olhos num relance,
Pois só na eternidade eu reverei a dona?

Bem longe, além daqui! Tarde demais! Sem chance!
Pois de você não sei, e nem você de mim,
Ai você, nosso amor, ai você que viu, sim!

§

L’ALBATROS

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

O ALBATROZ

Vai que, por distração, a boa marujada
Faz presa do albatroz, esse avejão dos mares,
Que vai, à toa e companheiro de jornada,
Atrás da nau vogante nos cruéis algares.

Baixados ao convés, que logo se atravanca,
Os reis do azul, malamanhados e cabreiros,
Dão dó de rir com a grande envergadura branca
Das asas como remos a arrastar remeiros.

O alado capitão, como é gauche e decrépito!
De belo, é uma comédia, com a aparência cava!
É um que o bico lhe arrelia com seu pito,
É outro a imitar, mancando, quem voava!

O Poeta assim faz crer um rei que tem de aias
As nuvens, e o trovão assombra, e ri da flecha;
No exílio sob o sol e em meio só de vaias,
Gigante, quer andar – e alado, não se deixa.

§

ÉPIGRAPHE POUR UN LIVRE CONDAMNE

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette ! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !… sinon, je te maudis!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO

Leitor de paz e amenas leiras,
Sóbrio, de bem e bom menino,
Ao lixo o livro saturnino:
Só coisas tristes e venéreas.

Não fez lição de baudelérias
No Inferno, com o Doutor Tinhoso?
Lixo! “Doente escandaloso”,
Ou nada entende – “são pilhérias”.

Mas se, sem se deixar lograr,
Seu olho curte um salto livre,
Leia meu livro, aprenda a amar;

Alma abelhuda e Deus-me-livre,
Se o paraíso quer de paga,
Pena de mim!… Ou rogo praga!

Padrão
poesia, tradução

Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), por Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo

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Foto de 1854, por Nadar.

Enquanto se festejam os últimos prêmios Nobel entregues a mulheres e as estatísticas de “quantas mulheres que…”, podemos imaginar tantas outras escritoras considerando que escrevem não “porque são mulheres” e não “apesar disso”, mas porque precisam e sabem e querem escrever. Num cenário contemporâneo, em que esses embates parecem ter perdido a importância (embora Malala ainda lute pelo direito das meninas de irem para a escola no Paquistão) não é difícil lembrar que essa é uma situação recente. Autoras tão importantes quanto Hilda Hilst e Ana Cristina César receberam muita resenha e crítica, mesmo acadêmica, em que observações sobre o “feminino” dominavam a abordagem, mesmo quando elogiosa.

E essa história toda tem ilustres precursoras.

Marceline-Desbordes Valmore

Paul Verlaine, em seu Poètes Maudits (em sua segunda edição, de 1888), disse que Marceline não era uma bas-bleu, uma “meia azul”. Assim os franceses chamavam, imitando os vizinhos ingleses que tinham suas bluestockings, às mulheres que procuravam um espaço no mundo intelectual, como críticas ou escritoras. Título preconceituoso, era um bom exemplo do absurdo que significava, para o mundo masculino, a intenção de uma mulher de participar de um mundo ao qual, eles achavam, sua intelectualidade não a teria preparado.

Mas, disse Verlaine, já precedido por Sainte-Beuve, Barbey d’Aurevilly (que assinalava sua competência, ainda que feminina”) e Baudelaire, Marceline era “digna de estar entre” seus poetas malditos: Rimbaud, Mallarmé, Corbière, Villiers e ele mesmo, sob o pseudônimo de Pauvre Lélian.

Todas as referências, aliás, que recebeu da crítica do seu tempo foram sempre marcadas pela singularidade de seu gênero, como uma qualidade adversativa a que sempre se devesse prestar mais atenção. “Marceline-Desbordes Valmore foi mulher, foi sempre mulher e foi absolutamente mulher; mas foi a um grau extraordinário a expressão poética de todas as belezas naturais da mulher”, afirmou Baudelaire, na sua melhor fórmula de elogio.

Marceline nasceu no norte da França no final do século XVIII (1786), e cresceu em uma família perturbada pela Revolução — seu pai fabricava enfeites e brasões para a Igreja e, claro, ficou sem trabalho — e com uma mãe que, embora tenha morrido cedo, a educou com um mundo de poemas e cantigas populares cujos ecos vão permanecer para sempre em seus versos. No início da adolescência vive a grande aventura de sua vida: separada de seu pai, sua mãe a leva para a ilha de Guadalupe, para tentar a vida perto de um parente. Algum tempo depois a mãe morre de febre amarela e a filha sofre para voltar sozinha para a França, para perto do pai.

Aos 16 anos a vida a empurra para o trabalho e o teatro a acolhe. Durante anos viveu como atriz e cantora, entre Douai, sua cidade natal, Rouen e Paris, mas as dificuldades por que passava a fizeram procurar outras saídas e quando descobriu que se ganhava algum dinheiro, ainda que pouco, em publicações de poemas, achou que podia fazer isso. O palco, no entanto, lhe ensinou o dodecassílabo de Racine, que ela dominou e adaptou aos seus temas e que fica especialmente evidente nas suas primeiras elegias.

Livros foram se sucedendo e o ambiente romântico a acolheu, ainda que parcialmente. O próprio Victor Hugo, maior figura literária do período, esteve entre os que a reconheceram. Verlaine lembrou que o fato de Marceline ser do norte da França e não do Midi ou do Sul, de onde vinha a tradição mais clássica da poesia francesa, deu a sua poesia uma nuance nova, mais verdadeira, a do “norte cru”, segundo ele: uma linguagem sem pedantismos.

E intrinsecamente romântica. Temas variados atravessaram sua literatura, mas a natureza bucólica e algo idealizada da infância foi sempre o referencial principal de seus tropos, fonte clara de inspiração, e mesmo metáfora para temas mais delicados de alguma sensualidade e erotismo. Quanto a isso, ela seguiu perfeitamente os ditames e o zeitgeist do primeiro Romantismo.

Embora sempre tenha se mantido religiosa — Deus está bastante presente em sua poesia —, defendia uma religiosidade humanista, menos ligada aos ditames da Igreja e mais sensível ao homem, aos pobres, às mães e seus filhos e, num viés bastante surpreendente para a época, escreveu também muitos poemas em que o engajamento político-social deixa entrever uma aspiração de liberdade anti-governista (mas não falemos de anarquismo), numa voz cansada da política a que assistiu durante sua vida, da Revolução ao Segundo Império francês. Além disso, a defesa de uma incipiente autonomia feminina, num reflexo biográfico claro, foi um dos temas que desenvolveu e que foi levianamente considerado como mais um de seus temas “femininos”…

Há críticos que defendem que sua obra fornece um belo quadro da poesia do século XIX, percorrendo várias fases e possibilidades românticas e apontando para uma poesia fin-de-siècle em que “o efeito, não a coisa” (Mallarmé) é pintado nos versos. Mallarmé também se interessou por ela. Em uma carta de 1867, Mallarmé avisa seu amigo, Eugène Lefébure: “Enviarei amanhã dois volumes divinos de novelas de Madame Valmore: Huit Femmes. Mulheres como ela!”

Mas quem apresentou Marceline a Verlaine foi Rimbaud, que muito cedo já tinha percebido perfeitamente, segundo Verlaine, na aproximação entre Marceline e Baudelaire, “a mesma alma dolorosa e como que um parentesco entre esses dois gênios tão diferentes à primeira vista”.

Acrescente-se a isso tudo, ainda, a variedade formal que sua poesia apresentou. Das quebras do verso clássico francês fez várias opções, de 8 ou 4 sílabas, mas foi especialmente com alguns versos ímpares, particularmente ousados naquele mundo tão afeito às tradições e apegado às suas 12 sílabas, que Marceline impressionou o ouvido musical de Velaine: “Antes de tudo, a Música. Preza/ Portanto o Ímpar…”, numa tradução de Augusto de Campos.

Escreveu muito, sempre. Poesia, romances, contos, novelas, cantigas infantis. Morreu em 1859, aos 73 anos. A crítica sobre sua obra ainda é algo rarefeita na França. Nunca mereceu uma edição na Pléiade

Sandra Stroparo

* * *

A sincera

Você quer comprar?
Coração à venda.
Você quer comprar,
Sem ter que brigar?

Deus o fez de aço;
E você que o renda;
Deus o fez de aço
Para um só abraço!

Eu decido o preço;
Você quer saber?
Eu decido o preço;
Não fique surpreso.

Você tem o seu?
Dê! ganhe meu ser.
Você tem o seu,
Pra pagar o meu?

Se seu não é mais,
Só tenho um desejo;
Se seu não é mais,
Pra mim não há paz.

O meu seguirá,
Cerrado sem pejo;
O meu seguirá,
E Deus o terá!

Pois para a paixão,
A vida é tão rara;
Pois para a paixão,
Não há duração.

A alma só corre
Como a água clara;
A alma só corre,
Só ama! e morre.

La sincère
in: Les Pleurs, 1833.

Veux-tu l’acheter ?

Mon cœur est à vendre.

Veux-tu l’acheter,

Sans nous disputer ?



Dieu l’a fait d’aimant ;

Tu le feras tendre ;
Dieu l’a fait d’aimant

Pour un seul amant !



Moi, j’en fais le prix ;

Veux-tu le connaître ?
Moi, j’en fais le prix ;

N’en sois pas surpris.



As-tu tout le tien ?

Donne ! et sois mon maître.

As-tu tout le tien,

Pour payer le mien ?



S’il n’est plus à toi,

Je n’ai qu’une envie ;

S’il n’est plus à toi,

Tout est dit pour moi.



Le mien glissera,

Fermé dans la vie ;

Le mien glissera,

Et Dieu seul l’aura !


Car, pour nos amours,

La vie est rapide ;

Car, pour nos amours,

Elle a peu de jours.



L’âme doit courir

Comme une eau limpide ;

L’âme doit courir,

Aimer ! et mourir.

§

Os sinos e as lágrimas

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

O órgão da triste arcada,
O pobre nas orações,
O preso com seus grilhões
E a criança acalantada;

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Chora o sino o sol se pôr
Sobre a igreja amortalhada,
E a carpideira sentada
Que tem a chorar?… O amor.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Pede aos anjos ocultados
Alívio das noites feras,
Nas celestiais esferas,
Mantém os olhos fixados.

Na terra onde soa a hora,
Tudo, ah! meu Deus! tudo chora.

Ao que o céu há replicado:
“Terra, espera pela hora!
Já disse a tudo que chora,
Que tudo lhe será dado.”

Soa, sino rebrilhante!
Brilha, lágrima abrasante!
Sino triste ao sol se pôr!
Olhos tristes pelo amor!

Les cloches et les larmes
in: Poésies Inédites, 1860.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

L’orgue sous le sombre arceau,
Le pauvre offrant sa neuvaine,
Le prisonnier dans sa chaîne
Et l’enfant dans son berceau;

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

La cloche pleur le jour
Qui va mourir sur l’église,
Et cette pleureuse assise
Qu’a-télle à pleurer?… L’amour.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Priant les anges cachés
D’assoupir ses nuits funestes,
Voyez, aux sphères célestes,
Ses longs regards attachés.

Sur la terre où sonne l’heure,
Tout pleure, ah! mon Dieu! tout pleure.

Et le ciel a répondu:
“Terre, ô terre, attendez l’heure!
J’ai dit à tout ce qui pleure,
Que tout lui sera rendu.”

Sonnez, cloches ruisselantes!
Ruisselez, larmes brûlantes!
Cloches qui pleurez le jour!
Beaux yeux qui pleurez l’amour!

§

Uma carta de mulher

As mulheres, eu sei, não devem escrever;
Mas ouso a arte,
Pra que em meu coração de longe possas ler
Como quem parte.

Qualquer beleza que existir em minha escrita
Mostraste antes
Mas soa nova a palavra cem vezes dita,
Quando entre amantes.

Que te traga alegria! Eu fico a esperar,
Mesmo distante;
Sinto que me vou, para ver e escutar
Teu passo errante.

Não te desvies se passar uma andorinha
Sobre esse chão,
Porque acredito que era eu, fiel, quem vinha,
Tocar-te a mão.

Tu te vais, tudo se vai! Parte em viagem,
Luzes e flores,
O verão te segue e me deixa à fria aragem,
Dos dissabores.

Se só temos esperança e alarmes, no entanto,
E a vista cansa,
Dividamos pelo melhor: mantenho o pranto,
Guarda a esperança.

Não, não queria, tanto a ti estou ligada,
Te ver penar:
Querer dor a sua metade abençoada,
É se odiar.

Une lettre de femme
in: Poésies Inédites, 1860.

Les femmes, je le sais, ne doivent pas écrire ;
J’écris pourtant,
Afin que dans mon cœur au loin tu puisses lire
Comme en partant.


Je ne tracerai rien qui ne soit dans toi-même
Beaucoup plus beau :
Mais le mot cent fois dit, venant de ce qu’on aime,
Semble nouveau.


Qu’il te porte au bonheur ! Moi, je reste à l’attendre,
Bien que, là-bas,
Je sens que je m’en vais, pour voir et pour entendre
Errer tes pas.


Ne te détourne point s’il passe une hirondelle
Par le chemin,
Car je crois que c’est moi qui passerai, fidèle,
Toucher ta main.

Tu t’en vas, tout s’en va ! Tout se met en voyage,
Lumière et fleurs,
Le bel été te suit, me laissant à l’orage,
Lourde de pleurs.


Mais si l’on ne vit plus que d’espoir et d’alarmes,
Cessant de voir,
Partageons pour le mieux : moi, je retiens les larmes,
Garde l’espoir.


Non, je ne voudrais pas, tant je te suis unie,
Te voir souffrir :
Souhaiter la douleur à sa moitié bénie,
C’est se haïr.

§

As rosas de Saadi

Eu pretendia esta manhã te trazer rosas;
Mas pus tantas em minhas vestes rigorosas
Que os nós cerrados não as puderam guardar.

Os nós se romperam. As rosas se soltaram
No vento, até chegar ao mar todas voaram.
Seguiram a água para não mais voltar.

A onda se viu de um vermelho incendiado.
À noite o vestido ainda está perfumado…
Respira em mim o aroma para recordar.

Les roses de Saadi
in: Poésies Inédites, 1860.

J’ai voulu ce matin te rapporter des roses ;

Mais j’en avais tant pris dans mes ceintures closes

Que les nœuds trop serrés n’ont pu les contenir.



Les nœuds ont éclaté. Les roses, envolées

Dans le vent, à la mer s’en sont toutes allées.

Elles ont suivi l’eau pour ne plus revenir ;



La vague en a paru rouge et comme enflammée.

Ce soir, ma robe encore en est tout embaumée…

Respires-en sur moi l’odorant souvenir.

(trad. Sandra Stroparo & Caetano W. Galindo)

Referência:

DESBORDES-VALMORE, Marceline. Poésies. Préface et choix d’Yves Bonnefoy. Paris: Gallimard, 1983.

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