poesia, tradução

Vincent Bounoure, por Natan Schäfer

Roberto Matta, Micheline e Vincent Bounoure, 1969 (arquivos Bounoure)

Depois de estudar na Escola de Minas de Nancy, Vincent Bounoure (Strasbourg, 1928 – Paris, 1996) recusou empregos em pesquisas industriais e militares e juntou-se ao grupo surrealista de Paris na primeira metade dos anos 1950 — grupo do qual ele faria parte até o fim de sua vida. Bounoure notabilizou-se tanto por sua atuação em âmbito internacional — contribuindo, inclusive, para a realização da XIII Exposição Internacional Surrealista organizada por Sergio Lima em São Paulo, em 1967 — assim como por ter sido um dos principais membros do grupo surrealista de Paris a posicionar-se contra sua autodissolução em 1969. Teve também uma intensa atividade militante e teórica — esta última parcela de sua produção pode ser encontrada nos volumes La Civilisation Surréaliste (et. al., Payot, 1976) e Moments du Surréalisme (L’Harmattan, 1999), este último publicado postumamente. Além disso, embora menos conhecida, deixou uma relevante obra poética, cuja edições são atualmente bastante raras e que encontra-se totalmente inédita em português.

Como podemos observar nesta breve seleta, os poemas de Bounoure são irrigados pelas mesmas veias e artérias que irrigaram sua vida: o maravilhoso, a alquimia, o coração selvagem, tudo associado ao viver para além do que é dado — sem concessões e submissões.

Os poemas aqui apresentados fazem parte dos volumes Talismans (Éditions Surréalistes, 1969), realizado em colaboração com o cubano Jorge Camacho; e Envers l’ombre (Éditions Surréalistes, 1965), o qual conta com ilustrações do canadense Jean Benoît e cuja tradução para o português será publicada no verão de 2021 pela Contravento Editorial.

Bom maravilhamento!

Natan Schäfer

* * *

Desenho que acompanha “A mão majestosa”

A mão majestosa

Pálida com a alva
Nos círculos das noites pesadas
A masmorra da sua luva de toupeira parda
Como a aparição da ladra de lágrimas.

(in: Talismãs, 1969; desenho por Jorge Camacho)

La main majestueuse

Pâle comme l’aube
Dans les cercles de la nuit lourde
Le donjon sort de son gant de taupe
Comme l’apparition de la voleuse de larmes.

(in: Talismans, 1969; dessins de Jorge Camacho)

§

Caos

Depois de massacrada nossa complacência
E enfiadas as garras na memória dos anjos,
Ela desceu portando pedras santas nas mãos.

A liberdade de rolar cabeças
Exatamente
Como a aurora desenrola uma cabeleira sobre as tumbas.

A hora de nácar,
Os bichos deslumbrados
Nos levam pela coleira,
Ela mais nua por ser longa e sob o ouro
A testa negra afogada,
Eu sem voz,
Abençoamos nossa despossessão.

Dobrem as apostas
Com belos soluços.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Chaos

Une fois notre complaisance massacré,
Les griffes plantées dans la mémoire des anges,
Elle est descendue portant les pierres saintes dans ses mains.

La liberté fait rouler des têtes
Parfaitement
Comme l’aurore déroule une chevelure sur les tombeaux.

L’heure de nacre,
Les bêtes éblouies
Nous tirent à la chaîne,
Elles plus nue d’être longue et sous l’or
Le front noir noyé,
Mais sans voix,
Nous bénissons notre dépossession.

Doublez vos mises
De beaux sanglots.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)

§

Sem fôlego

A boca que ela traz na testa come uma pedra lunar.

A brasa ali selada.
O marfim é opaco aos disparos,
Os broches inalienáveis nas bainhas
Estão afivelados numa luminária inclinada.

A faísca pálida no gorjal
Jorra a cada esforço da vaga.

O ovo da galinha d’água despencado em seu peito
Eclode sob o buquê de pistache e o estrondo dos lustres
Rumo aos recifes.

(in: Envers l’ombre, 1965; ilustrações de Jean Benoît)

Hors d’haleine

La bouche qu’elle porte au front mange une pierre de lune.

La braise scellée là.
L’ivoire est opaque aux coups de feu,
Les broches inaliénables dans les ourlés
Sont bouclées sur une lampe inclinée.

L’étincelle pâle au gorgerin
Jaillit à chaque effort du flot.

L’oeuf de râle chu dans sa poitrine
Eclôt sous les gerbes de pistache et le fracas des lustres
Vers les brisants.

(in: Envers l’ombre, 1965; illustrations de Jean Benoît)

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3 Odelettes de Gérard de Nerval, por Victor Queiroz

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Gérard de Nerval (ou Gérard Labrunie, como fora batizado) é um dos mais importantes escritores românticos de França. Nascido em 1808, na cidade de Paris, perdeu ainda na primeira infância a sua mãe. Estudou no colégio Charlemagne, onde se aproximou de Théophile Gautier, outro grande poeta, com o qual manteve grande e duradoura amizade, tendo frequentado também a boêmia literária do século XIX. Apreciador da literatura alemã, Nerval tornou-se conhecido primeiro como tradutor, ao verter para o francês nada menos que o Fausto de Goethe. Dessa tradução, persistiu em sua poesia autoral a ideia de Eterno Feminino, capaz de articular um contínuo entre as figuras da mãe ausente, da amada Jenny Colon (cujo casamento com Nerval foi desastroso), reais, e ainda outras, míticas, como as de Virgem Maria, de Ártemis, de Ísis, de Cibele… Outra característica marcante da poesia de Nerval é a dissolução da linha divisória entre o real e o onírico: os sonhos invadem a realidade, a fim de revelar o sobrenatural inscrito no cotidiano, transformando o outrora dado objetivo em signo / símbolo a ser interpretado. Trata-se, assim, de um precursor tanto do Simbolismo quanto do Surrealismo. Afligido por transtornos psiquiátricos graves, Nerval compunha seus poemas / textos nos períodos lúcidos entre suas diversas crises nervosas, as quais o levaram mais de uma vez à internação. Foi encontrado enforcado em uma via pública de Paris em 1855, provavelmente vítima de suicídio. Suas obras mais consideradas são Sylvie (1853, prosa) e os sonetos de Chimères (1854, poesia).

Os poemas que apresento aqui traduzidos não pertencem às Chimères, mas às Odelettes rythmiques et lyriques, obra de juventude do escritor (1832-1839), compostas em diálogo com Ronsard e a Plêiade, com ênfase na regularidade e na musicalidade das composições. A primeira das Odelettes, Abril, na superfície não parece mais do que a ansiedade ingênua pela primavera e pela renovação por ela simbolizada. Porém, ao lê-lo atentamente, logo se percebe ser essa ânsia mais profunda, porque carregada de hesitação quanto a chegada da nova estação. A transição entre as estações se concretiza na figura de uma mulher futura (e mitológica), e a angústia do eu-lírico tem por objeto sobretudo o processo a separar seu momento atual de seu futuro: “ainda há de chover por dias”.

Avril

Déjà les beaux jours, – la poussière,
Un ciel d’azur et de lumière,
Les murs enflammés, les longs soirs; –
Et rien de vert: – à peine encore
Un reflet rougeâtre décore
Les grands arbres aux rameaux noirs!

Ce beau temps me pèse et m’ennuie.
– Ce n’est qu’après des jours de pluie
Que doit surgir, en un tableau,
Le printemps verdissant et rose,
Comme une nymphe fraîche éclose
Qui, souriante, sort de l’eau.

Abril

 Dias já belos – pulverinho,
Os céus azuis e luzidios,
Noites longas, muros flamantes –
Mas nada é verde: mesmo agora
É bronze a sombra que decora
O arvoredo e seus negros ramos!

Bom tempo que pesa e enfastia
– Ainda há de chover por dias
Antes que surja, em um só quadro,
A primavera em verde-e-rosa;
Como uma ninfa, quando aflora
E, sorridente, emerge d’água.

§

A segunda Odelette, A Prima, por sua vez, nos oferece um quadro um tanto mais realista e quase ingênuo, exceto por uma nota de sensualidade estranha que ressoa por todo o poema (e que me faz pensar na Palinódia, de Bandeira): de todas as traduções aqui apresentadas, esta é a única a apresentar uma figura feminina relativamente concreta e presente, embora, como se pode ver ao fim do poema, essa figura não se possa sustentar, manter-se, muito tempo ao lado do eu-lírico. Ela precisa partir. Eles precisam separar-se.

La Cousine

L’hiver a ses plaisirs; et souvent, le dimanche,

Quand un peu de soleil jaunit la terre blanche,
Avec une cousine on sort se promener…
– Et ne vous faites pas attendre pour dîner,

Dit la mère. Et quand on a bien, aux Tuileries,
Vu sous les arbres noirs les toilettes fleuries,
La jeune fille a froid… et vous fait observer
Que le brouillard du soir commence à se lever.

Et l’on revient, parlant du beau jour qu’on regrette,
Qui s’est passé si vite… et de flamme discrète:
Et l’on sent en rentrant, avec grand appétit,
Du bas de l’escalier, – le dindon qui rôtit.

A Prima

O inverno tem seu charme: é frequente, aos domingos,
Quando um fio de sol aloura o solo níveo,
Sairmos junto de uma prima, a passear…
– “E não fazei-vos esperar para o jantar”,

Diz a mãe. E após ter visto, lá nas Tulherias,
Sob as árvores negras toalhas floridas,
O broto sente frio… E faz-nos perceber:
Logo a bruma noturna começa a se erguer.

E, então, voltamos, a falar do dia belo,
Já saudade, tão breve foi-se… e ardeu singelo:
E sentimos, com grande apetite, ao chegar
(Ainda ao pé da escada), – um peru a assar.

§

A terceira Odelette, e talvez a mais conhecida de todas, Fantasia, narra o transporte do eu-lírico ao terreno dos sonhos por meio de uma melodia, que opera de maneira muito semelhante à Madeleine de Proust, principalmente porque, como atesta o eu-lírico, essa melodia não carrega em si esse poder, antes ele se encontra na relação estabelecida entre ela e o eu-lírico. Contudo, as reminiscências que afloram do contato com tal música não têm respaldo em memórias pessoais, mas, sim, no imaginário histórico; nem se assemelham a lembranças de fato, embora dêem-nos a impressão clara de que foram vividas / experimentadas, de alguma forma. Esse é um dos mais nítidos exemplos do imbricamento entre sonho e realidade na poesia de Nerval: o sonho não é rememorado, ele é vivido, e pode ser (re)vivido fora do sono. E ainda uma última observação: o ponto culminante do sonho-poema se dá na anunciação de uma outra figura feminina evanescente, agora no passado.

Fantaisie

Il est un air pour qui je donnerais
Tout Rossini, tout Mozart et tout Weber,
Un air très vieux, languissant et funèbre,
Qui pour moi seul a des charmes secrets.

Or, chaque fois que je viens à l’entendre,
De deux cents ans mon âme rajeunit:
C’est sous Louis treize; et je crois voir s’étendre
Un coteau vert, que le couchant jaunit,

Puis un château de brique à coins de pierre,
Aux vitraux teints de rougeâtres couleurs,
Ceint de grands parcs, avec une rivière
Baignant ses pieds, qui coule entre des fleurs;

Puis une dame, à sa haute fenêtre,
Blonde aux yeux noirs, en ses habits anciens,
Que, dans une autre existence peut-être,
J’ai déjà vue… – et dont je me souviens!

Fantasia

Existe uma ária por que eu trocaria
Qualquer Weber ou Mozart ou Rossini;
Ária funérea e langorosa e antiga,
Cujo secreto encanto é só pra mim.

Ora: sempre que chega-me aos ouvidos,
Transporta-me a alma a séculos atrás:
O rei é Luís XIII… uma colina
Verde – o ocaso a dourava – se desfaz;

E, a seguir, todo um castelo imbricado,
Com seus vitrais tingidos de rubores,
Vastos jardins a cercá-lo, e um riacho
Aos seus pés, a correr por entre as flores;

E, por fim, à janela, uma donzela
Loura, olhos negros, em vestes d’outrora…
Que, doutra vida, pode ser aquela –
Déjà vue! – que inda mora na memória!

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou em 2019 Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema e traduções de Hopkins, Ronsard e Yeats.

*

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Hans Arp (1886 – 1966), por Natan Schäfer

Hans Arp (1886 – 1966) nasceu em Strasbourg, na Alsacia. Autor de uma obra múltipla de verdade, Arp e suas realizações não conhecem fronteiras. Justamente por isso, poderíamos paradoxalmente afirmar que o lugar por excelência ocupado por Arp, equilibrista à margem da margem em permanente posição de clandestinidade, é exatamente a fronteira, ou melhor ainda, afronteira.

Textualmente, expressou-se em francês e em alemão, ambas suas línguas-mãe, que em Arp conviveram numa dialética harmonia, apesar das grandes guerras e suas bandeiras bestas. Porém, tanto suas esculturas quanto collages, pinturas e escritos constituem e partem de uma só visão de mundo, marcada por uma constante oscilação entre o Grande Dia e a Grande Noite, um senso de humor singular — que lhe valeu uma posição de destaque na legendária Antologia do humor negro, organizada por André Breton — e uma relação intensa e franca com seu sonho, sua fantasia e seus desejos, constituintes elementares do mais-que-real arpádico, ou seja, de sua vida.

Trago aqui dois breves poemas pinçados da extensa obra de Arp que me parecem bastante representativos, além de possibilitarem diálogos e aberturas importantes com relação ao que cada um de nós vive hoje, agora. Os textos foram tirados deARP, Hans Jean. ich bin in einer wolke geboren/ je suis né dans un nuage. Hrsg. von Christian Luckscheiter. Mitteldeutscher Verlag: Karlsruhe, 2018.

Agradeço muito ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pela publicação.

Boaventura!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

Veias negras

morre a quimera das rosas
no meu peito de névoa
na beira do leito espreito
um astro velho e rachado

aranhas cinzas vão em fila
às veias negras do horizonte
vão como que para o enterro de uma fada
o vazio suspira

meus pobres sonhos perderam as asas
meus pobres sonhos perderam os fogos
de mãos dadas em volta
do caixão do meu coração
sonhando com cinzas migalhas

o dia ressurge
mas não tenho mais forças
caindo o céu me cobre
abro os olhos para sempre

Veines noires
dans mon cœur de brouillard
meurt la chimère des roses
un astre s’assied au bord de mon lit
il est vieux et lézardé

des araignées grises s’en vont à la file
vers l’horizon aux veines noires
elles s’en vont comme pour l’enterrement d’une fée
le vide soupire

mes pauvres rêves ont perdu leurs ailes
mes pauvres rêves ont perdu leurs flammes
ils se serrent les coudes
sur le cercueil de mon cœur
et rêvent de miettes grises

le jour réapparaît
mais je n’ai plus de forces
le ciel descend et me couvre
j’ouvre pour toujours les yeux

§

Sophie

os corações são estrelas
que florescem nas pessoas.
Toda flor é céu.
Todo céu é flor.
Toda flor fosforesce.
Todo céu floresce.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim.
Para me encorajar,
para me confundir,
para esquecer da dor maior,
do desamparo em que vivemos,
digo bobas frasinhas.

Os mares são flores.
As nuvens são flores.
As estrelas são flores,
que florescem no céu.
A lua é uma flor.
A lua também é uma lágrima grande.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim,
sempre só para mim.
Digo corriqueiras, mínimas frasinhas.
Digo como os mínimos sinos,
que se repetem e se repetem.

Sophie está no céu.
Sophie é uma estrela.
Sophie é uma flor.

Todas flores florescem,
florescem para ti.
Todos corações fosforescem,
fosforescem para ti.

Agora você se foi.
E eu aqui, que fico, que faço.
Tenho só um desejo.
Quero ter dar um abraço.

Como a vida passa rápido
na clara escuridão divina.
Mal se disse hoje,
já se foi amanhã.
E assim vão os anos
com jogos, sonhos e bordos.
E assim vai o tempo
onde as flores flutuam.

Desde que você morreu,
agradeço cada dia que se vai.
Cada dia que se foi
me aproxima de ti.

Você desenhava o contorno da vida iluminada.
As marés azuis perfumadas
correndo dos tapetes floridos do verão,
o marulho do molho de nuvens,
iluminava suas linhas sobre a infamiliar base.
Você cercava as estrelas floridas com seus feixes de estrela.
Os divertidos canteiros tagarelas fazem um minuto de silêncio,
quando os seus olhos ali brilham.
Você detestava o brilho oco do maravilhoso teatral
destroçado, informe,
os ajoelhares presunçosos desertos.

Sophie

Die Herzen sind Sterne,
die im Menschen blühen.
Alle Blumen sind Himmel.
Alle Himmel sind Blumen.
Alle Blumen glühen.
Alle Himmel blühen.

Ich spreche kleine, alltägliche Sätze
leise für mich hin.
Um mir Mut zu machen,
um mich zu verwirren,
um das große Leid, die Hilflosigkeit,
in der wir leben, zu vergessen,
spreche ich kleine, einfältige Sätze.

Die Meere sind Blumen.
Die Wolken sind Blumen.
Die Sterne sind Blumen,
die im Himmel blühen.
der Mond ist eine Blume.
Der Mond ist aber auch eine große Träne.

Ich spreche kleine, einfältige Sätze
leise für mich hin,
immerfort für mich hin.
Ich spreche kleine, alltägliche, geringe Sätze.
Ich spreche wie die geringen Glocken,
die sich wiederholen und wiederholen.

Sophie ist ein Himmel.
Sophie ist ein Stern.
Sophie ist eine Blume.

Alle Blumen blühen,
blühen für dich.
Alle Herzen glühen,
glühen für dich.

Nun bist du fortgegangen.
Was soll ich hier gehen und stehen.
Ich habe nur ein Verlangen.
Ich will dich wiedersehen.

Wie schnell vergeht ein Leben
in Gottes lichtem Dunkel.
Kaum ist heute gesagt,
ist morgen schon vergangen.
Und so vergehen die Jahre
mit Spielen, Träumen, Säumen.

Seitdem du gestorben bist,
danke ich jedem vergehenden Tag.
Jeder vergangene Tag
bringt mich dir näher.

Du zeichnetest die Umrisse des lichten Lebens.
Die blauen duftenden Fluten,
die aus den Blumenteppichen des Sommers strömen,
das Rauschen der Wolkergarben
verklärten deine Linien über dem unheimlichen Grund.
Die Blumensterne umgabst du mit Sternenstrahlen.
Die spaßhaft plaudernden Blumenbeete schwiegen andächtig,
wenn deine Augen über sie Leuchteten.
Du verabscheutest das Zertrümmerte, das Formlose,
das leer Glänzende der Theaterwunder,
die Kniefälle anmaßender Wüsten.


Basel 1943-1945

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Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

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As Folhas Mortas em diálogos e ecos, por Lilian Escorel

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“O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços”

Os textos a seguir formam um círculo de vozes em diálogo, cujo epicentro, “Les Feuilles Mortes”, esconde-se no título “La Chanson de Prévert” e se insinua no primeiro verso “Oh, je voudrais tant que tu te souviennes”.

Quem conhece Jacques Prévert identifica de imediato o diálogo. Quem não conhece, descobre-o no corpo desta canção de Serge Gainsbourg, que incorpora o título “Les Feuilles Mortes” à letra da música.

As folhas mortas são, de fato, o leitmotiv dos textos, duas canções francesas, por mim traduzidas, e um poema, releitura das canções, que se embalam, e se embaralham, na melodia preferida da amada. Com seu poder encantatório, a música enleva e evoca os dias felizes do idílio. As folhas do outono recordam a separação, a tristeza e a frieza do esquecimento, contra o qual o amante combate com o verso: “Ah! eu queria tanto que você se lembrasse.”

A canção é composta primeiro, sem letra, por Joseph Kosma para “Le Rendez-vous”, balé do coreógrafo francês Roland Petit, em 1945, que contou também com a participação de importantes artistas modernos, como Picasso na cortina, o fotógrafo George Brassaï no cenário e Prévert no argumento. A letra da música veio depois. Foi Jacques Prévert quem a escreveu por encomenda de Marcel Carné para que figurasse como a canção-tema da trilha sonora de Les Portes de la Nuit, filme desse cineasta francês em 1946 e para o qual o poeta também escrevera os diálogos. A parceria Carné-Prévert estendeu-se a uma série de filmes, que contribuiu para a estética do realismo poético, em que ganhou lugar de destaque Les Enfants du Paradis.

Mas “Les Feuilles Mortes” não teve uma carreira de sucesso na França. A canção só repercutiu quatro anos depois de seu lançamento no filme, cuja história transcorria na Paris pós-ocupação, num quadro noturno e sombrio, interpretado, em trechos, pela dupla romântica Yves Montand e Nathalie Nattier, protagonistas que substituíram os atores chamados inicialmente: Marlene Dietrich e Jean Gabin. A atriz alemã declinara do papel por questões políticas.

A primeira gravação de “Les Feuilles Mortes” data de 1947, em registro de voz da francesa Cora Vaucaire. Yves Montand só a gravou em 1949. O sucesso da canção francesa, porém, não viria da voz dos intérpretes franceses. Chegou em nova roupagem: “Autumn Leaves”.

Conta-se que a carreira norte-americana de “Les Feuilles Mortes” deve-se a Janine e Jacques Enoch, editores de Kosma, que a negociaram com Joseph Goldstein, então em busca de uma canção de amor para a ruptura de Sinatra e Ava Gardner. Jonhy Mercer, letrista do intérprete de My way, foi quem escreveu em 1949 o texto em inglês, uma adaptação do original.

Apesar de gravada por destacados músicos do jazz como Stan Kenton e Artie Shaw, foi só em 1955 que “Autumn Leaves” ganhou projeção internacional. A versão inglesa alcançou a primeira posição na Billboard Top 100, durante quatro semanas, com um arranjo feito para piano por Roger Williams – conforme se lê em C’est une chanson – biographie de Joseph Kosma, de Françoise Miran.

Perto de 700 interpretações dessa música foram gravadas. Muitas delas ganharam fama e multiplicaram-se em filmes. “Autumn Leaves”, dirigido por Robert Aldrich e estrelado por Joan Crawford em 1956, foi o primeiro de uma série a assimilar a canção.

“Les Feuilles Mortes”, conforme a história mostra, eternizou-se em diferentes arranjos musicais e línguas. No inglês, ficaram célebres as versões na voz de Nat King Cole e Frank Sinatra. Mas depois deles, seguiu-se uma fila: Eric Clapton, o dueto Chick Corea/Bob MacFerrin, Joan Baez e Bob Dylan, que a apresentou recentemente em recepção do prêmio Nobel de literatura em Estocolmo. Na língua francesa, destacaram-se as gravações de Yves Montand, da musa do existencialismo Juliette Greco, de Edith Piaf, que incluiu também a versão em inglês na sua interpretação, e do tenor italiano Andrea Bocelli. Marlene Dietrich tentou vocalizar sua versão, mas Prévert não a autorizou. Não pôde perdoá-la pela recusa do papel no filme que desencadeara sua canção.

Em português, guardamos raridades desta música, que parece ter chegado ao Brasil pela versão do italiano Teddy Reno, registrada em 1950. Ao que se reporta, o primeiro brasileiro a gravá-la, no original francês e em um vozeirão clássico à época, 1952, foi o cantor, compositor e ator brasileiro Ivon Cury. Depois dele, sucederam-se mais de uma dezena de versões, variando entre a canção francesa e a adaptação inglesa e incluindo também a elaboração de duas versões, nelas baseadas, para a língua portuguesa do Brasil. “Folhas Mortas”, redigida por Clímaco César e gravada por Zezé Gonzaga em 1955, deriva de “Les Feuilles Mortes”. “Folhas de Outono”, escrita por Juvenal Fernandes, e interpretada por Carlos Galhardo em 1956, revela “Autumn Leaves” na sua base (possível conferir clicando aqui).

Contamos, por fim, com uma pérola inédita e duas preciosas gravações instrumentais: Hector Costita no sax em 1962 e Dick Farney ao piano em 1975. A pérola é a voz de Maysa que deixa sua marca registrada dessa canção no álbum Maysa sings songs before dawn, gravado nos Estados Unidos em 1961 e depois, registrado na Espanha, na língua desse país, para difusão na América Latina. Maysa sings songs before dawn não foi publicado aqui. Tornou-se um mito no Brasil.

No mesmo ano de 1961, o músico francês Serge Gainsbourg lança seu terceiro álbum L’étonnant Serge Gainsbourg, que expõe seu amor à poesia francesa. Nele, ao lado de “La Chanson de Maglia”, a evocar e citar o poeta romântico Victor Hugo, está “La Chanson de Prévert”.

Serge Gainsbourg, intérprete e músico, multiartista inconformado e inquieto, que inicia a carreira na pintura e depois a renega, é herdeiro das propostas das vanguardas artísticas. Gainsbourg não gravou mais uma versão de “Les Feuilles Mortes” em tributo à sua admiração por Joseph Kosma, músico caído no limbo, e pelo poeta que se popularizou na França. Usou de procedimento moderno, fazendo uma releitura da criação de Prévert. Bebeu, assimilou e recriou a canção do poeta popular francês que se valera de igual procedimento em sua obra poética, indo mesmo além, como bem ilustra o poema “Bibliofolie”, em Imaginaires (1970). “Bibliofolie” expressa a ideia de um livro feito de todos os livros, aberto e sem ponto final, sempre a se recriar. No lugar de bibliophilie, culto ou idolatria pelos livros, Prévert prefere o neologismo bibliofolie, em que se destaca a palavra folie. É, de fato, na ordem da loucura, aliada à liberdade, que Prévert propõe sua construção poética. A remissão a obras de escritores ou artistas com os quais sua poesia dialoga e a referência à própria obra constituem seu processo criativo.

Uma das maiores contribuições das vanguardas modernas foi promover o diálogo e a colaboração entre as artes e trazer para o primeiro plano a reflexão e o debate sobre o fazer artístico. Rompem-se as fronteiras entre os gêneros literários e as diversas artes, que passam a se intercomunicar. Na literatura, na música, nas artes plásticas, os artistas tornam-se críticos de si mesmos e expõem os bastidores da criação, publicando seus manuscritos, suas cartas e outros documentos de ordem privada, ligados ao processo criativo.

A noção de originalidade é posta em xeque: quem terá sido o autor da ideia plasmada naquela forma? Os artistas passam, assim, a revelar suas fontes, leituras e apropriações. Um poeta, um músico ou um pintor não se fazem sozinhos. O conceito de obra única e definitiva, tão caro ao período romântico, é desestabilizado. As diferentes versões de um original quebram a hierarquia do valor estético do primeiro. A obra original não é necessariamente a melhor. A citação, a paródia, a imitação, o pastiche, a colagem são procedimentos naturalizados, e mesmo valorizados, no fazer artístico.

Jacques Prévert, poeta no rol dos autores seletos de Gainsbourg, foi um artista de talento igualmente múltiplo: iniciou-se na dramaturgia, passou à redação de roteiros de cinema, enveredou para a poesia e a letra de canções, foi autor infantil, pintou colagens e retratos. Escreveu livros em parceria com diversos artistas. Picasso, de quem era amigo, brincava que Prévert era um grande pintor, mesmo sem saber pintar.

O surrealismo orientou suas ideias estéticas. Foi, segundo ele, a escola onde fez seu curso de humanidades (“Ce fut au surrèalisme où j’ai fait mes humanités“) . O primeiro contato com o movimento aconteceu no fim de 1924, quando conhece a revista La Révolution Surréaliste e se impacta com uma literatura surrealista avant la lettre. No início de 1925, encontra André Breton, passando então a frequentar o grupo surrealista e a participar de suas atividades, como a escrita automática, o sono hipnótico, a narrativa de sonhos e jogos que envolviam a linguagem. O célebre jogo surrealista Cadavre exquis teve no título a coautoria de Prévert. Durante esse período, porém, que vai até 1930, quando rompe com o líder do movimento, o poeta em formação publicou seus textos poéticos apenas em periódicos. Foi só em 1945 que saiu Paroles, livro de estreia marcado pela experiência e pelas matrizes surrealistas. Depois dele, suas experimentações poéticas e com outras linguagens artísticas ampliaram-se em Histoires (1946), Grand bal du printemps (1951), La pluie et le beau temps (1955), Fatras (1966), livro marcado pela presença de graffiti e colagens, Imaginaires (1970), Choses et autres (1972).

Um Vinícius de Moraes francês, como já se disse por aqui, Prévert é, porém, pouco conhecido no Brasil. Sua poesia, vertida para o português, saiu apenas, salvo engano, em Poemas, seleção e tradução de Silviano Santiago, em edição bilíngue pela Editora Nova Fronteira (2000) e Dia de folga, dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hoffman e traduzidos por Carlito Azevedo, em edição da Cosac Naify (2004).

Entrelaçados, então, nessa rede de leituras e no diálogo entre as artes, as traduções e o poema abaixo decorrem de canções que se correspondem e se repetem numa relação amorosa de tributo e de reinvenção. De mãos dadas com a poesia e a música, apresentam-se feito amantes. No espelho destes, a imagem que se reflete é o reverso de Narciso: Eco. Eco de amor, eco de dor, eco de vida, eco de morte. Eco da memória do idílio numa roda de canções que tange a corda do coração ad infinitum, movida por uma tensão própria à linguagem dos amantes.

Aquela que Gainsbourg plasmou também em outra canção, esta, sim, famosa em francês e que provocou forte abalo à época de seu lançamento. Eram então tempos de revolução no amor, na política e na vida social. “Je t’aime, moi non plus” (1967). Minha canção.

Ou aquela outra, por fim, que Jacques Prévert fixou nas areias movediças do belo poema de amor Sables Mouvants, em tradução de Adriano Scandolara:

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do
vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

Imagem, entre tantas outras, desencadeada por esse assunto que teve um papel fundamental na filosofia dos surrealistas. A de resgatar no adulto a imaginação criadora, livre e desimpedida, da infância. Porque, conforme apontou um crítico francês, para os poetas desse movimento as palavras devem “fazer amor”:

E rolando como bola de fogo os lençóis ao pé da cama
Sorrindo pro mundo todo descobre
O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços
Por Picasso escolhidos escolhidos todos os pedaços
Um amante e a amada e umas pernas em um pescoço
E os olhos nas bundas as mãos por todo lado
Pés levantados pro céu e os seios de cabeça pra baixo
Dois corpos enlaçados trocados acariciados
O amor decapitado liberto na cama extasiado

(tradução minha)

* * *

 

AS FOLHAS MORTAS
Jacques Prévert
Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
dos dias felizes em que éramos amigos
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
E o vento do norte os leva ainda além
na noite fria do esquecimento
Ah! você está vendo, eu não esqueci
a canção que você cantava pra mim

É uma canção que se parece com a gente
Você me amava e eu te amava
e nós vivíamos juntos os dois
você que me amava e eu que te amava
mas a vida separa aqueles que se amam
assim bem de mansinho, sem fazer ruído
e o mar apaga na areia
os passos dos amantes desunidos

As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
Mas meu amor silencioso e fiel
à vida agradece e sempre sorri
Eu te amava tanto e você era tão linda
Como pode querer que eu te esqueça?
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
você era a minha doce amiga
mas nada posso fazer senão lamentar
e a canção que você cantava
eu sempre sempre vou escutar

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l’oubli.
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C’est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t’aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t’oublie?
En ce temps-la, la vie était plus belle
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n’ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l’entendrai!

§

 

A CANÇÃO DE PRÉVERT
Serge Gainsbourg

Ah ! eu queria tanto que você se lembrasse
esta era a sua canção
era a sua preferida
a do Prévert e Kosma

E toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer
Eu também fico com outras
a elas me entrego sim
mas é monótona a canção delas
e pouco a pouco eu vou ficando indiferente
contra isso não tem o que fazer

Porque toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer

Será que um dia saberemos onde começa
e quando termina a indiferença?
Ah! que o outono passe e o inverno chegue
e a canção de Prévert “As Folhas Mortas”
esta canção se apague de vez da minha lembrança
Nesse dia, nesse dia enfim, meus amores mortos
terão morrido em mim

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C’était ta préférée, je crois
Qu’elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Avec d’autres bien sûr je m’abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m’indiffère
À cela il n’est rien à faire

Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l’indifférence
Passe l’automne, vienne l’hiver
Et que la chanson de Prévert

Cette chanson, les feuilles mortes
S’efface de mon souvenir
Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

§

 

TE AMO, EU TAMBÉM NÃO
Lilian Escorel

Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
essa era a nossa canção
não a do Prévert
a nossa era a do Gainsbourg

Naqueles dias nós éramos tão felizes
brincávamos naquela praia
nas noites quentes de verão
você era a minha onda
eu era a sua ilha nua
você ia e vinha no meu ventre
e eu te acolhia
você ia e vinha
e a onda crescia
você ia e vinha
e eu me retinha
você ia e vinha

até que exaustos
quebrávamos
na areia
fazendo muita espuma

os corpos
estendidos
juntos
bem unidos

Mas pouco a pouco
o tempo da dor chegou
e assim bem de mansinho
sem fazer ruído
o mar levou
nossos passos

Foi numa tarde fria de outono
que o nosso amor acabou

As folhas mortas recolhem-se com a pá
as lembranças e os lamentos também
foi assim que Jacques Prévert cantou

Sim, é certo,
as folhas mortas recolhem-se com a pá
mas nossa canção não
“Je t’aime, moi non plus”
sussurro dos amantes delirantes
irresolutos
essa canção de Gainsbourg
vai sempre ecoar
tocar a corda do meu coração

Padrão
poesia, tradução

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991), por Natan Schäfer

André Pieyre de Mandiargues e sua esposa Bona, pintora e escultora. Foto de Cartier Bresson. Veneza, 1952.

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991) é autor de uma extensa e diversa obra que, embora agraciada com Prêmio Goncourt (em 1967, pelo romance La Marge) e o Grande Prêmio da Academie Française (em 1979, por sua poesia), ainda enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar nas histórias da literatura francesa. Nascido em Paris mas tendo passado grande parte de sua vida no sul da Europa devido à sua paixão pelo mediterrâneo, Mandiargues foi um dos “herdeiros indiretos” do surrealismo francês, apesar de nunca ter participado e militado oficialmente junto ao grupo liderado por André Breton. Excêntrico e algo insular, Mandiargues foi definido em seu obituário no jornal Le Figaro como o “mais secreto de nossos escritores” e possui uma poética geralmente apresentada como barroca e vinculada ao onírico e ao erótico, mas não que para por aí. Como muito bem observou o poeta e ensaísta Alain Jouffroy, os textos de Mandiargues nos conduzem “às profundezas da voz baixa”.

O autor foi apresentado no Brasil por Mônica Cristina Corrêa, que traduziu a prosa de “Fogo em brasa” (Feu de brase), publicado pela editora Iluminuras em 2003.

As traduções aqui reunidas referem-se a diferentes momentos do longo percurso poético de Mandiargues, que vai de 1943, ano de publicação de Dans les anées sordides, até o início dos anos 1990. Podemos assim acompanhar alguns movimentos de uma poética que não se resume à obediência a postulados ou dogmas, não se deixando reduzir a um ismo e cuja voz, ainda que sussurante, se faz ouvir e segue conversando conosco, hoje.

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR e proprietário, com Flávia Chornobai, da microeditora Contravento Editorial. Atualmente vive em Lyon.

* * *

Arroio de solidões [André Pieyre de Mandiargues, Ruisseau des solitudes, 1968, p.:? “Ruisseau de solitudes”]

Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja

E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

Ruisseau de solitudes

Nul qui seul soit
Chez soi
Et là qui
Ne veuille être en la rue,

Nul en la rue
Qui soit
Seul
Et qui ne veuille
Être chez soi
Derrière un seuil
À soi,

La rue annule
Par roulement elle annule
Jour e nuit elle annule,

La nue au ciel
Déploie
Un linceul sur la rue,

Longue rue
Plus longue elle est
Plus elle annule
Plus tôt l’homme est enclos,

Un sillon long
Une fosse fouie,

Sous le bleu-gris
De la buanderie haute
D’où les désirs découlent,

Douce douceur des seuls
Désireux oui,

Seuls chez lui quand ils sont
Ou semblablement
Chez elle
Nu et nue ils se veulent
Ils ruent Suent,

Quoique deux étant seuls
Ils suent oui donc
Ils ruent afin
D’être en deux un,

Qu’elle soit arable
Ils est charrue
Ils se voudraient le grain
D’un seul épi,

Aspirant à l’unique
Ils terrent
Font un double lapin,

Seul à seule ils s’enclouent
Couvercle et fond
Du coffre long
Qui est couple et
Qui descend en des boues,

Pour être annulé
De par loi de balai,

Tandis que loin
Devant le manche
Et en arrière aussi
Se reforme la rue,

Ruisseau des solitudes.

§

Você vai rir [André Pieyre de Mandiargues, Le Point où j’en suis / Dalila exaltée / La Nuit l’amour (p. 64), 1964 e Correspondance Paris – Buenos Aires 1961-1972, 2018 “Tu riras”]

Para Alejandra Pizarnik

Você vai rir de ter passado fome
Vai rir da necessidade
E da satisfação,

Vai rir do frio e do calor
Vai rir de ter dado risada e chorado
Vai sorrir por ter amado,

Você vai zombar por ter estado viva.

Tu riras

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

§

Heroína [André Pieyre de Mandiargues, Gris de perle, 1993, “Héroïne”, p. 64]

Quem cai não é a flor
Mas seu adorno de pétalas
Quando o macio ventre cresce
Ovário da papoula branca
De onde um dia sairás
Moça ofuscada,

Mas o que não longe de ti
Já brilha
É a tumba de mármore nova
Numa floresta vasta e velha,

A tumba da heroína
Que serás contra tua vontade
De ter uma vida de planta entre as árvores
Comumente obscuramente
Inocentemente eternamente
Aos pés do portal de giz.

(28 de outubro de 1984)

Héroïne

C’est n’est pas la fleur qui tombe
C’est sa parure de pétales
Quand son doux ventre grossit
Ovaire du pavot blanc
Dont tu sortiras un jour
Jeune éblouie,

Mais ce qui non loin de toi
Brille déjà
Est un tombeau de marbre neuf
Dans une forêt vaste et vielle,

Le tombeau de l’héroïne
Que tu seras contre ta volonté
De n’avoir qu’une vie de plante entre les arbres
Communément obscurément
Innocemment longtemps
Au pied d’une porte de craie.

(28 octobre 1984)

§

Incêndio [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.15: “L’incendie”]

Que foste buscar em meio ao incêndio
Por trás dos vapores de esplendor barroco
Através do segredo de uma escada aos trapos
Estrangulada por heras escarlates?

Que promessa te fez abrir uma porta em chamas
Santa face de fogo e cinza
Na beira de um mundo morno
Falcatrua silêncio ruína?

Diante de ti agora não mais
Que diamantes e rubis brincando na poeira
Que gesso caído sobre azulejos de mármore
Com estátuas de escudos brancos
De mãos de vidro de jarros cheios de pranto
De pretas de veludo e de rosas passadas
Embaixo de paredes caducas.

Eis que vem vindo uma dama radiante e funérea
Desaparece de repente de repente aparece reaparece de repente
Mais que de repente nua
Que é como a sombra de uma desolação.

Nua sangrenta e negra
Nos cabelos desfeitos uma fagulha
Vermelha como um cravo capaz de perfurar a fuligem.

Pisoteando com os pés as pedras
Ouro e prata o tinir do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza da hora catastrófica.

E talvez a julgues boa atriz
Gigante que se estende com tranquilidade
Na calçada como sob uma faca
Enquanto ao seu redor explode e se espalha
O louco luxo do seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

L’incendie

Qu’allais-tu donc chercher à travers l’incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d’un escalier en loques
Étranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d’un monde morne
Sournoiserie silence délabrement ?

Devant toi ce n’est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur des carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l’ombre d’une désolation.

Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L’or et l’argent le fracas du cristal
Indifférente à l’opulence ou à la ruine
Dans la beauté d’une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s’étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu’alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

§

Temporada de neve [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.: “Les temps de neige”]

Neva e elas riem

Elas riem de tudo
Da sua nudez do inverno
Da cabra preta e pinhos
Do vento e de seu mestre.

Leito frio tinto em fogo
De araras e quimeras
De gargantas brilhantes
Nos olhos se debatem
Colibris faisões gaios.

Ornamento incontestável
Os dias de sol minguam
Em clarões de alegria insana
Em plumas jorrando em sincelos
Pelo mais vão dos sacrifícios
É hora de se perderem.

Se o leito é o campo da derrota
Se os lençóis rasgados tombam
Aos pés deste homem sem idade
Sem amizades nem perdão
Bloco mineral errático
Que um glaciar deixou no quarto.

Pelo orgulho submisso a tudo
Uma se finge indiferente
Logo a outra se maravilha
Fica vermelha e segue branca
Pequena coruja-das-neves
Presa nos fios do caçador.

Sabe ele que ela é a caçula e
Que sua penugem tão fina
Um só fio de sangue arruina?

Mas a fogueira também toma parte
Rompe-se a rocha o quarto se ilumina
O áspero jogo logo vai findar
Numa onda ardente de rubi e nácar.

Le temps de neige

Il neige elles s’en rient
Elles se rient de tout

De l’hiver d’être nues
De la nuit et des hommes
Du bouc noir des sapins
Du vent et de leur maître.

Le feu peint leur lit froid
D’aras et de chimères
Aux gorges étincelantes
Et dans leurs yeux se battent
Faisans geais colibris.

La parure incontestable
De beaux jours qui s’amenuisent
En éclats d’une gaieté folle
En duvets jetés aux frimas
Pour le plus vain des sacrifices
S’il n’est temps que d’être perdues.

Si leur lit est un champ de défaite
Si les draps rompus sont à bas
Aux pieds de cet homme sans âge
Sans amitié ni pardon
Bloc de pierre erratique
Qu’un glacier laissa dans la chambre.

Soumise à tout par sa fierté
L’une se feint indifférente
Mais déjà l’autre s’émerveille
Rosit sans cesser d’être blanche
Comme un petit harfang des neiges
Pris aux filets de l’oiseleur.

Sait-il bien qu’elle est la plus jeune
Et que son plumage est si tendre
Qu’un trait de sang le ruinera ?

Mais le bûcher s’est mis de la partie
Le roc se fend la chambre s’illumine
Le jeu bourru va bientôt s’achever
En chaude ondée de rubis et de nacre.

§

País gélido [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.40: “Le pays froid”]

Fala mais alto, o inverno atordoa.
O ruído dos passos que ontem ouvimos
No lago congelado
Somente na memória agora soa
E nossa vida se faz um triste hábito
Por trás da parede de vidro níveo.

Já tem dias semanas que cai neve
E o carvão o café cada dia menos
Cada dia enfraquece
O amanhã sempre pior que a véspera.

Nossa própria memória extravia as respostas.

Fome e gelo expulsam do bosque os cervos
Paras as ruas do vilarejo
Um deitou-se perante a cruz
Boquiaberto a cabeça pra trás
Fera imagem do nosso amor.

Escutou o uivo dos lobos à noite
Quando vêm vindo rondar o curral?
Sob a chaminé o fogo enfraquece
Com tanta indulgência o cão nos encara
Com tanta pena
Que nosso peito se aperta.

Não ninguém vai varrer os degraus da entrada.

Jovem gigante, ganha força o inverno
Cai neve a geada engrossa e nós
Envelhecemos no compasso.

Fala baixo não é mais preciso que escutem
O homem de pedra já vai abrir o caminho.

Le pays froid

Parlez plus haut l’hiver nous assourdit
Les bruits des pas que l’on entendait hier
Au bord du lac gelé
Ne sonnent plus que dans le souvenir
Et notre vie devient une habitude triste
Derrière la paroi des vitres blanches.

La neige tombe depuis bien des semaines
Le charbon le café diminuent tous les jours
Chaque jour s’amoindrit
Le lendemain toujours est pire que la veille.

Notre mémoire même égare les réponses.

La faim le froid chassent les cerfs hors des bois
Jusque dans les rues du village
L’un s’est couché devant la croix
Bouche bée la tête à la renverse
Fauve image de notre amour.

Avez-vous entendu crier le loup le soir
Quand ils viennent rôder autour des étables?

Sous la haute cheminée le feu languit
Le chien nous regarde avec tant d’indulgence
Avec tant de pitié
Que notre coeur se serre.

Nul ne balayera les marches de l’entrée.

L’hiver s’accroît comme un jeune géant
La neige tombe le givre s’épaissit
Et nous vieillissons à mesure.

Parlez bas il n’est plus besoin de nous entendre
Bientôt l’homme de pierre ouvrira le chemin.

Padrão
poesia, tradução

Paul Éluard, por Natan Schäfer

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944.

Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos.

Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas:

“(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda França, vozes se respondem, cantando para encobrir os pesados murmúrios da besta, para que triunfem os vivos, para fazer desaparecer a vergonha. Cantar, lutar, gritar, batalhar e se salvar. (…)

Mas era preciso que a poesia tomasse parte na resistência. Ela não podia continuar por mais muito tempo brincando com as palavras sem correr riscos. Enfim, ela pôs tudo a perder para acabar com as brincadeiras e se fundir no seu eterno reflexo: a verdade mais nua, mais pobre, mais ardente e eternamente bela. E se digo “eternamente bela” é porque no coração dos homens ela ocupa um lugar de estima, o lugar de toda beleza, tornando-se a única virtude, o único bem. Um bem incomensurável”.

In: Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “Raisons d’écrire, entre autres, et bibliographie”, p . 78.

* * *

Depois de tantos anos [Éluard, Paul. Poèmes politiques, 1948. Oeuvres II, p. 225. “Après tant d’anées”]

Depois de tantos anos de martírio
De tantos anos-pó muito mais longos
Que anos-luz seguindo um astro perdido
De novo miséria a dar e vender
Por nada, que pra nós não é palavra

Lutando e trabalhando falimos
O desespero deita onde dormimos
Sonhamos abraçar saúde e jovens
A boca e a cabeça ainda sonham
A vida vai mudar como um infante

Não desesperamos, sobrevivemos
Tudo nunca foi tão duro tão obscuro
Mas a noite não misturou-se ao sangue
Mais um passo juntos rompe-se o beco
Dando a nós todos o bem e um rumo.

Après tant d’années

 Après tant d’années passées à souffrir
Tant d’années-poussière au souffle plus long
Qu’années-lumière vers un astre disparu
Nous retrouvons misère à vendre et à revendre
Pour rien et rien n’est pas un pour nous

 Notre combat notre travail font-ils faillite
Le désespoir s’est-il couché dans notre lit
Nous rêvions d’embrasser la santé la jeunesse
Sur la bouche et le front nous en rêvons encore
Notre vie changera comme change un enfant

 Nous n’avons pas désesperé nous survivons
Tout a été plus dur plus obscur que jamais
Mais la nuit ne s’est pas mêlée à notre sang
Un pas de plus ensemble et le sentier se rompt
Pour nous offrir à tous notre bien notre route.

§

 De um tempo futuro [Éluard, Paul. Pouvoir tout dire, 1948. Oeuvres II, p. 373. “D’un temps futur”]

As prisões foram fechadas aos prisioneiros
Elas se tornaram rochedos em meio a multidão
Falo isso assim como respiro
Se estivessem abertas eu estaria lá dentro
Todo mundo está fora.

*

O trabalho está vivo
O cansaço está feliz
Além disso eu respiro
Usando meu próprio peito.

*

As ruas as casas as campinas as florestas
Cintilam um mesmo brilho cada qual com seu sol
As nuvens se dispersaram
Uma multidão de sóis paira no ar
E o amor é mútuo
E a emoção é geral

Já nem me lembro mais
Do passado desolador.

D’un temps futur

Les prisons sont fermées aux prisonniers
Elles sont devenues des rochers dans la foule
J’en parle comme je respire
Si elles étaient ouvertes je serais dedans
Tout le monde est dehors 

*

Le travail est vivant
La fatigue est joyeuse
Je respire au-delà
De ma propre poitrine. 

*

Le rues et les maisons les prés et les forêts
Brillent d’un même éclat chacun a son soleil
Il y a une foule de soleils dans l’air
Et l’amour est mutuel
Et l’émotion est générale

 Je ne me souviens pas
Du passé désolant.

§

Não são mãos de gigantes [Éluard, Paul. Poesie initerrompue: Abolir les mystères, 1953. Oeuvres II, p. 692. “Ce ne sont pas mais de géants”]

Não são mãos de gigantes
Não são mãos de gênios
Que forjaram o crime e nossos grilhões

São mãos acostumadas a si mesmas
Vazias de amor vazias de mundo
Mãos que os mais ordinário dos mortais não apertou

Ela se tornaram cegas estranhas
A tudo aquilo que não é besta caça
Seu prazer parece o fogo nu do deserto

Seus dez dedos multiplicam zeros nas contas
Que levam somente às profundezas da falência
E sua habilidade lhes enche de nada

Essas mãos seguram a popa ao invés da proa
O crepúsculo ao invés da alvorada reluzente
E segmentando o ímpeto anulam toda esperança

Não são mãos de condenados sempiternos
Pela multidão em festa descendente do dia
Em que todo mundo poderia ser justo para sempre

E poderia rir de saber que não está só na terra
Decidindo sua conduta em virtude de seus irmãos
Em prol de uma felicidade única onde o riso seja lei

É preciso entre nossas mãos mais numerosas
Esmigalhar a morte idiota abolir os mistérios
Construir a razão de nascer e viver feliz.

Ce ne sont pas mais de géants

Ce ne sont pas mains de géants
Ce ne sont pas mains de génies
Qui ont forgé nos chaînes ni le crime

 Ce sont de mains habituées à elles-mêmes
Vides d’amour vides du monde
Le commun des mortels ne les a pas serrées

Elles sont devenues aveugles étrangères
A tout ce qui n’est pas bêtement une proie
Leur plaisir s’assimile au feu nu du désert

 Leurs dix doigt multiplient des zéros dans des comptes
Qui ne mènent à rien qu’au fin fond des faillites
Et leur habileté les comble de néant

Ces mains sont à la poupe au lieu d’être à la proue
Au crépuscule au lieu d’être à l’aube éclatante
Et divisant l’élan annulent tout espoir

Ce ne sont que des mains condamnées de tout temps
Par la foule joyeuse qui descend du jour
Où chacun pourrait être juste à tout jamais

 Et rire de savoir qu’il n’est pas seul sur terre
A vouloir se conduire en vertu de ses frères
Pour un bonheur unique où rire est une loi

 Il faut entre nos mains qui sont les plus nombreuses
Broyer la mort idiote abolir les mystères
Construire la raison de naître et vivre heureux.

§

Àquela com quem sonham [Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “À celle dont ils rêvent”, p. 36]

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Dai-lhes ainda mais força humana
Alegria de estar no mundo
Dai-lhes em meio a sombra imensa
Os lábios de um amor doce
Que faça esquecer o sofrer

Senhora do sono do povo
Moça mulher irmã e mãe
De seios inchados de beijos
Dai-lhes este nosso país
Tal qual eles sempre estimaram
Um país louco por viver

Um país onde cante o vinho
Onde a colheita é generosa
Onde a criançada é sapeca
Onde os velhinhos são mais finos
Que pomares brancos de flores

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Neve negra de noites brancas
Atravessando um fogo exangue
Santa Alva branca bengala
Fazei-lhes ver caminhos novos
Além da sua cela de tábuas

Pagos para que conhecessem
As piores forças do mal
Entretanto não se curvaram
Mesmo crivados de virtudes
Assim como de ferimentos
Porque a si sobreviveram

Senhora do descansar
Senhora do despertar
Dai a liberdade ao povo e
Deixe a vergonha de
Crer na vergonha ainda que
Para aniquilar-lhe.

À celles dont ils rêvent

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Donne-leur des force d’homme
Le bonheur d’être sur terre
Donne-leur dans l’ombre immense
Les lèvres d’un amour doux
Comme l’oubli des souffrances

Maîtresse de leurs sommeil
Fille femme soeur et mère
Aux seins gonflés de baisers
Donne-leur notre pays
Tel qu’ils l’ont toujours chéri
Un pays fou de la vie

 Un pays où le vin chante
Où les moissons ont bon coeur
Où les enfants sont malins
Où les vieillards sont plus fins
Qu’arbres à fruits blancs de fleurs
Où l’on peut parler aux femmes

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Neige noire des nuit blanches
À travers un feu exsangue
Sainte Aube à la canne blanche
Fais-leur voir un chemin neuf
Hors de leur prison de planches

Ils sont payés pour connaître
Les pires forces du mal
Pourtant ils ont tenu bon
Ils sont criblés de vertus
Tout autant que de blessures
Car il faut qu’ils se survivent

Maîtresse de leur repos
Maîtresse de leur éveil
Donne-leur la liberté
Mais garde-nous notre honte
D’avoir pu croire à la honte
Même pour l’anéantir.

§

Marielle [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Gabriel Péri”, p.41]

Morreu uma mulher que se escudava
Só com seus braços abertos à vida
Morreu uma mulher que só seguia
O caminho do ódio ao revólver
Morreu uma mulher que ainda briga
Contra o esquecimento e a morte

O que era seu desejo
Nós queremos também
E agora nos convém
Que a alegria seja um candeeiro
No fundo do olhar e do peito
E a justiça no mundo inteiro

Há palavras que nos dão vida
E são palavras inocentes
Por exemplo calor confiança
Justiça amor e também liberdade
A palavra gentileza ou criança
E alguns nomes de flores e nomes de frutos
Coragem e a palavra descobrir
E alguns nomes de países cidades
E alguns nomes de amigos e mulheres
Adicionamos Marielle
Marielle morreu pelo que nos faz viver
Nossa amiga perfuraram seu peito
Mas você fez que com nos conhecêssemos
Sejamos amigos seu sonho segue vivo

Gabriel Péri

Un homme est mort qui n’avait pour défense
Que ses bras ouverts à la vie
Un homme est mort qui n’avait d’autre route
Que celle où l’on hait le fusils
Un homme est mort qui continue la lutte
Contre la mort contre l’oubli

Car tout ce qu’il voulait
Nous le voulions aussi
Nous le voulons aujourd’hui
Que le bonheur soit la lumière
Au fond des yeux au fond du coeur
Et la justice sur la terre

Il y des mots qui font vivre
Et ce sont des mot innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certain noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays et villages
Et certains noms de femmes et d’amis
Ajoutons-y Péri
Péri est mort pour ce qui nous fait vivre
Tutoyons-le sa poitrine est trouée
Mais grâce à lui nous nous connaissons mieux
Tutoyons-nous son espoir est vivant.

§

O mesmo dia para todos [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Le même jour pour tous”, p.46]

I

A espada que evita o peito do chefe dos culpados
Se enfia no coração dos pobres e inocentes

O olhar primeiro é da inocência
E o segundo é o da pobreza
Há que se saber protegê-los

Não quero condenar o amor
Por não ter matado o ódio
E aqueles que o despertaram

II

Caminha um passarinho por imensas terras
Onde o sol tem asas

III

Ela ria a minha volta
A minha volta despida
Era como uma floresta
Uma turba de mulheres
A minha volta

Como uma armadura contra o deserto
Como uma armadura contra injustiça

A injustiça dava em todos
Estrela singular estrela inerte de um céu gordo que é a privação de luz
A injustiça golpeava os inocentes e os heróis os sem piedade
Quem sabe um dia aptos a administrarem

Pois os ouvi dar risada
No seu sangue e na beleza
Na miséria e na tortura
Rindo um riso por vir
Rindo para a vida e nascendo ao rir.

19 de novembro de 1944

Le même jour pour tous

I

L’épée qu’on enfonce pas dans le coeur des maîtres des coupables

On l’enfonce dans le coeur des pauvres et des innocents

Les premiers yeux sont d’innocence
Et les seconds de pauvreté
Il faut savoir les protéger

Je ne veux condamner l’amour
Que si je ne tue pas la haine
Et ceux qui me l’ont inspirée 

II

Un petit oiseau marche dans d’immenses régions
Où le soleil a des ailes

 III

Elle riait autour de moi
Autour de moi elle était nue

Elle était comme une forêt
Comme une foule de femmes
Autour de moi

Comme une armure contre le désert
Comme une armure contre l’injustice

L’injustice frappait partout
Étoile unique étoile inerte d’un ciel gras qui est la privation de lumière
L’injustice frappait les innocents et les héros les insensés
Qui sauront un jour régner 

Car je les entendais rire
Dans leur sang dans leur beauté
Dans la misère et les tortures
Rire d’un rire à venir
Rire à la vie et naître au rire. 

19 novembre 1944

§

Fazer viver [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Faire vivre”, p. 54]

Eram somente alguns vivendo na noite
Sonhando com um céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na lenha em chamas
Ainda que distante lhes alegrava o aroma das flores
Cobertos pela nudez de seus desejos

Reuniam no peito o fôlego em compasso
Com este nada de ambição da vida no mato
Que cresce no verão como um verão ainda mais intenso

Reuniam no peito a esperança dos tempos que vêm vindo
E que saúdam mesmo de longe um outro tempo

Um pouquinho de sono
Lhes entregava o sol do futuro
Resistiam sabiam que viver eterniza

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

*

Não passavam de uns poucos
Subitamente se tornaram multidão

Desde sempre isso acontece.

Faire vivre 

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort 

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert 

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue 

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.

§

Logo [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Biêntot”, p. 64”]

Das primaveras do mundo
Esta é a mais terrível
Do meus modos de ter sido
Confiante é meu preferido

Feito a pedra ergue a tumba
A grama ergue a neve branca
Durmo sob bruta chuva
E acordo meus olhos claros

Lento e miúdo tempo afunda
Onde passaria a rua
Por minhas íntimas fugas
Para que eu encontre alguém

Não escuto mais os monstros
Disseram tudo já os conheço
Vejo apenas rostos lindos
Rostos lindos com certeza

De logo aniquilar os chefes.

Biêntot 

De tous les printemps du monde
Celui-ci est le plus laid
Entre toutes mes façons d’être
La confiante est la meilleure

L’herbe soulève la neige
Comme la pierre d’un tombeau
Moi je dors dans la tempête
Et je m’éveille les yeux clairs

Le lent le petit temps s’achève
Où toute rue devait passer
Par me plus intimes retraites
Pour que je rencontre quelq’un

Je n’entends pas parler les monstres
Je les connais ils ont tout dit
Je ne vois que les beaux visages
Les bons visages sûrs d’eux mêmes

Sûrs de ruiner bientôt leurs maîtres.

§

De fora [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Du dehors”, p. 69]

A noite o frio a solidão
Me encerraram com cuidado
Mas na cela abriam caminho os galhos
Grama e céu se encontravam a minha volta
Encarceram o céu
Desmoronou a prisão
Segurou-me nas mãos o frio ardente e vivo.

Du dehors

La nuit le froid la solitude
On m’enferma soigneusement
Mais les branches cherchaient leur voie dans la prison
Autour de moi l’herbe trouva le ciel
On verrouilla le ciel
Ma prison s’écroula
Le froid vivant le froid brûlant m’eut bien en main.

Padrão
poesia, tradução

Christophe Tarkos, por Paulo Serber

Cristophe Tarkos nasceu em Martigues, no sul da França, em 1963. Poeta-improvisador-performer, construiu obra múltipla desde o início da década de 1990, quando passou a dedicar-se integralmente à arte. Participou da criação de importantes revistas de poesia contemporânea – como RR, com Nathalie Quintane e Stéphane Bérard, Poèzie Prolétèr, com Katalin Molnàr, Facial, com Charles Pennequin, e Quaderno, com Philippe Beck –e integrou movimentos de caráter inovador, colaborando numa rede de artistas e produtores culturais de significativa reverberação. Publicou pelas editoras Al Dante e P.O.L. Faleceu em 2004, em Paris, de um tumor cerebral.

Paulo Serber é mestre em teoria e história literária pela Unicamp. É tradutor de literatura francófona, tendo traduzido Emmanuel Bove, Henri Calet e Georges Perec.

* * *

Eu me agito

eu me agito.
eu já não posso mais me reter.
eu estou agitado. estou saindo pela tangente.
não há mais guia.
eu não sei mais onde eu estou.
isso não vira.
eu estou nervoso.
já não sei onde virar o olho.
meus olhos viram.
eu me retorço.
eu não sou mais do que agitação.
do que nervosismo.
do que nevos.
do que incontroladas agitações.
incontroláveis.
já não me controlo

eu me agito.
eu já não me quero.
eu quero que isso parta.
eu quero que se isso não pode partir que eu me sobreleve.
que eu dissipe.
que eu desloque.
que eu interrompa.
eu posso tudo parar.
eu posso me fazer morrer.
eu posso me suicidar.
eu vou me fazer parar.
se eu não posso continuar eu paro com tudo.
eu vou me fazer sumir.
eu paro.
eu corto.
eu cesso.
eu morro.
eu me mato.
eu me suicido

eu me agito.
eu passo mal.
eu não paro o mal me agitando.
isso se agita.
isso só faz aumentar a agitação.
o mal agita.
a dor continua precisa insinua insiste martela se agita.
eu me agito.
eu quero que cesse.
eu não tenho.
eu não tenho como fazer parar.
eu não terei meio de fazer cessar

do que se agita.
do que se debate.
do que ser não está afim.
do que ser não está afim do que acumulou.
que ele acumulou.
que ele tem que trajar.
que ele tem que levar.
do que ele viu tudo que se acumulou.
do que se tornou agitado.
do que se tornou insuportável de levá-lo.
de ter que levá-lo.
de o saber colado para sempre à pele

eu me agito.
eu estou nervoso.
eu quero a morte.
eu quero morrer.
eu não quero mais continuar.
é continuar nessas condições que é impossível.
quando se tornou impossível é preciso poder parar.
eu tenho o poder de fazer cessar.
eu posso parar por aqui.
eu posso acabar com tudo.
eu quero acabar aqui.
eu quero parar comigo.
eu vou me fazer morrer.
eu suicido

eu já não quero mais que me olhem.
eu já não quero altas visões.
eu já não quero portar meu olhar sobre mim.
eu já não quero mais esse olho.
eu já não quero divinas visões.
eu já não quero ver.
eu já não quero ver-te.
eu já não quero mais ver viver.
eu quero me ver morrer.
eu quero ver-me perder a vista.
em um segundo já não mais ver

do que ele quer crescer seus cabelos.
do que ele quer que seus cabelos cresçam.
do que ele sente ver ter crescer seus cabelos.
do que ele quer ver seus cabelos crescer.
sentir que eles crescem.
sentir que eles crescem todos.
ele quer que eles se alonguem.
que sejam mais e mais longos.
do que ele quer ter cabelos longos que cresceram.
que ele sentiu crescer se alongaram

eu me agito do que ele quer que quer que ele saia do saco.
que ele saca que está ensacado.
que sabe que é um saco que ele não quer.
do que ele quer se extirpar.
do que ele quer que esse saco suma.
seja dissipado.
seja deslocado.
seja esquecido.
seja morto.
que ele não quer mais desse saco que nele cola.
nessa vida cola.
nesse saco cola.
nesse viu não rola.
que ele o quer quebrado.
que ele o quer extirpado

os demônios são contos bons que fazem pesadelos.
que fazem delírios.
que fazem ilusões.
que fazem delirar.
que fazem espantos.
que fazem medo.
que fazem enormes espantos.
que fazem escorregar.
que fazem pender.
que fazem cair.
que fazem histórias estranhas estranhamente espantosas.
estranhamente espantosas de querer sair de dentro de dentro delas

eu me agito.
da decisão de já não mais ser da matéria que sou.
da matéria de que sou feito.
de essa matéria aí.
dessa cola aí.
dessa pele aí.
desse couro aí.
desse peito aí.
se eu não mais quero ser isso aí.
eu já não tenho outra solução que partir de novo.
que de me juntar a outra matéria.
que de executar uma meia-volta.
que de tudo fazer cessar.
o que não poderia continuar com essa matéria

ele se mexe.
ele se agita.
eu me mexo.
eu me agito.
ele não quer bater suas botas.
ele tem uma ideia de como sair.
de como salvar-se.
eu tenho uma ideia de como sair.
eu vou sair.
eu vou encontrar solução para sair.
eu não posso ficar assim sem nada fazer.
a não me salvar.
a não me esgueirar

ele não sabe.
eu me agito.
ele não sabe.
eu não sei em cima do que eu vou me apoiar para saber.
para dizer.
para apoiar o que sou.
ele não sabe em cima do que se apoiar para ser se dizer.
para saber que é.
para provar.
para se apoiar.
eu não sei em cima do que eu vou daqui a pouco apoiar-me para dizer.
para dizer que eu sou.
para saber

 

Je m’agite

je m’agite.
je ne me retiens plus.
je suis agité. je pars dans tous les sens.
il n’y a plus de guide.
je ne sais plus où je suis.
ça ne tourne pas.
ça s’agite.
je suis nerveux.
je ne sais plus où tourner mon regard.
mes yeux ont tourné.
je me retourne.
je ne suis plus que de l’agitation.
de la nervosité.
des nerfs.
des agitations incontrolées.
incontrôlables.
je ne me controle plus

je m’agite
je ne veux plux de moi.
je veux que cela parte.
je veux que si cela ne peut pas partir que je soulève.
que j’éloigne.
que j’enlève.
que j’arrête.
je peux tout arrêter.
je peux me faire mourir.
je peux me suicider.
je vais me faire arrêter.
si je ne peux pas continuer j’arrête tout.
je vais me faire disparaître.
j’arrête.
je coupe.
je cesse.
je meurs.
je me tue.
je me suicide

je m’agite.
j’ai mal.
je n’arrête pas le mal en m’agitant.
ça s’agite.
ça ne fait qu’accentuer l’agitation.
le mal agite.
la douler continue précise insinue insiste martèle s’agite.
je m’agite.

je n’arrête pas d’avoir mal.
le mal est là.
je m’agite.
je veux que ça cesse.
je n’ai pas.
je n’ai plus de moyens d’arrêter.
je ne vais plus pouvoir arrêter

de ce qui s’agite
de ce qui se débat.
de ce qui ne veut pas être.
de ce qui ne veut pas être ce qui s’est accumulé.
qu’il a accumulé.
qu’il doit traîner
qu’il doit accumulé..
de ce qu’il a vu tout ce qui s’est accumulé.
de ce qui est devenu insuportable de le porter.
de le devoir porter.
de le savoir collé à la peau por toujours

je m’agite.
je suis nerveux.
je veux la mort.
je veux mourir.
je ne peut plus continuer.
c’est de continuer dans ces conditions qui est impossible.
quand c’est devenu impossible il faut pouvoir arrêter.
j’ai le pouvoir de le faire cesser.
je peux m’arrêter là.
je peux en finir.
je veux en finir là.
je veux m’arrêter.
je vais me faire mourir.
je suicide

je ne veux plus que l’on me regarde.
je ne veux plus d’yeux.
je ne veux plus porter mon regar sur moi.
je ne veux plus de regards.
je ne veux plus avoir d’yeux.
je ne veux plus voir.
je ne veux plus te voir.
je ne veux plus voir vivre.
je veux me voir mourir.
je veux me voir perdre la vue.
dans une seconde ne plus rien voir

de ce qu’il veut pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut que ses cheveux poussent.
de ce qu’il sent avoir voir pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut ses cheveux pousser.
sentir qu’ils poussent.
sentir qu’ils poussent tous.
Il veut qu’ils se rallongent.
qu’ils soient encore plus longs.
de ce qu’il veut avoir des cheveux longs qui ont poussé.
qu’il les a sentis pousser se sont rallongés

je m’agite de ce que de ce qu’il veut sortir de ce sac.
qu’il est dans un sac.
qu’il ne veut plus de ce sac-là.
de ce qu’il veut s’extirper.
de ce qu’il veut que ce sac disparaisse.
soit enlevé.
soit éloigné.
soit oublié.
soit mort.
qu’il ne veut plus de ce sac qui colle à lui.
à ce colle vit.
à ce sac vit.
à ce qu’il lui vit.
qu’il le veut enlever.
qu’il le veut s’extirper

les démons sont de bons contes qui font des cauchemars.
qui font des délires.
qui font des illusions.
qui font délirer.
qui font des frayeurs.
qui font peur.
qui font de grandes frayeurs.
qui font glisser.
qui font descendre.
qui font tomber.
qui font des histoires étranges étrangement effrayantes.
étrangement effroyables à vouloir sortir à vouloir en sortir

je m’agite.
de la décision de ne plus être de la matière dont je suis.
de la matière dont je suis fait.
de cette matière-là.
de cette colle-là.
de cette glu-là.
de cette peau-là.
de ce coeur-là.
se je ne veut plus être de cette façon-là.
je n’ai pas d’autre solution que de repartir.
que de rejoindre une autre matière.
que de revenir en arrière.
que de tout faire cesser.
ce qui ne pourrait pas continuer avec cette matière-là

il bouge.
il s’agite.
je bouge.
je m’agite.
il ne veut pas crever.
il a une idée de comment s’en sortir.
de comment se sauver.
j’ai une idée de comment sortir.
je veux sortir.
je vais sortir.
je vais trouver une solution pour m’ en sortir.
je ne peux pas rester comme ça à ne rien faire.
à ne pas me sauver.
à ne pas m’évader

il ne sait pas.
je m’agite.
il ne sait pas.
je ne sait pas sur quoi je vais m’appuyer pour savoir.
pour dire.
pour appuyer ce que je suis.
il ne sait pas sur quoi s’appuyer pour dire ce qu’il est.
pour savoir qu’il est
pour prouver.
pour s’appuyer
je ne sait pas sur quoi je vais bientôt m’appuyer pour dire.
pour dire que je suis.
pour savoir

Padrão
poesia, tradução

Um poema de Victor Hugo por Erick Monteiro Moraes

No post sobre a poesia de Victor Hugo no Brasil (ou sua espantosa escassez), o Guilherme Gontijo Flores levanta a questão dos poetas canônicos descanonizados, isto é, aqueles que todos conhecem, mas ninguém lê. Dentre os autores citados por ele, Goethe e Bilac são os nomes que mais me chamam atenção. O primeiro é o autor de “Kennst du das Land?”, que constitui a epígrafe (quase sempre omitida) da “canção do exílio”, o mais famoso e parodiado poema de nosso Romantismo e, talvez, de toda a nossa literatura. O segundo é vítima da aversão ao parnasianismo que se arraigou na sensibilidade modernista. Bilac, contudo, é autor de poemas memoráveis, dentre os quais “Profissão de fé”, parodiado por Manuel Bandeira em “Os Sapos” (haveria reconhecimento maior?). Curiosamente, esse poema de Bilac tem como epígrafe versos de “A M. Froment Meurice”, de Victor Hugo. Ou seja, as epígrafes de dois dos poemas mais representativos de nossa literatura são versos de poetas europeus que ninguém mais lê por aqui. Realizei, portanto, esta tradução porque acredito que esse poema de Hugo seja tão valioso para Bilac e nosso parnasianismo quanto “Kennst du das Land?” é para Gonçalves Dias e nosso Romantismo. O poema “A M. Froment Meurice” está em Les contemplations.

Erick Monteiro Moraes

* * *

A M. FROMENT MEURICE

Nous sommes frères: la fleur
Paur deux arts peut être faite.
Le poëte est ciseleur;
Le ciseleur est poëte.

Poëtes ou ciseleurs,
Par nous l’esprit se révèle.
Nous rendons les bons meilleurs,
Tu rends la beauté plus belle.

Sur son bras ou sur son cou,
Tu fais de tes rêveries,
Statuaire du bijou,
Des palais de pierreries!

Ne dis pas: «Mon art n’est rien…»
Sors de la route traceé,
Ouvrier magicien,
Et mêle a l’or la pensée!

Tous le penseurs, sans chercher
Qui finit ou qui commence,
Sculptent le même rocher:
Ce rocher, c’est l’art immense.

Michel-Ange, grand viellard,
En larges blocs qu’il nous jettes,
Le fait jaillir au hasard,
Benvenuto nous l’émiette.

Et, devant l’art infini,
Dont jamais la loi ne change,
La miette de Cellini
Vaut le bloc de Michel-Ange.

Tout est grand; sombre ou vermeil,
Tout feu qui brille est un âme.
L’étoile vaut le soleil;
L’étincelle vaut la flamme.

Paris, octobre 1841.

A M. FROMENT MEURICE

Nós somos irmãos: a flor
No papel como na pedra.
O poeta é escultor;
O escultor é poeta.

Poetas ou escultores,
A musa a nós se revela.
Tornamos os bons melhores,
Tu, a beleza mais bela.

Sobre o braço ou o pescoço,
Crias tuas fantasias,
Cristal preciso e precioso,
De paços de pedrarias!

Não digas “Minha arte é nada…”,
Artesão do encantamento,
Foge da rota traçada,
Funde ao ouro o pensamento.

Sem buscar nem o que brota
Nem o que finda, quem pensa
Sempre esculpe a mesma rocha.
Essa rocha é a arte imensa.

Michelangelo, arguto,
Faz jorrar em grandes blocos
A arte que Benvenuto
Talha em minúsculos flocos.

E, ante a arte infinita,
Cuja lei não vê mudança,
Vale a gema de Cellini
O bloco de Michelangelo.

Tudo é grande; rubra ou negra,
Toda alma engendra um drama.
O sol equivale à estrela;
O cintilar vale a chama.

Paris, outubro 1841.

(Victor Hugo, Les Contemplations. Paris: 1858. Tradução: Erick Monteiro Moraes)

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Erick Monteiro Moraes (Rio de Janeiro, 1993) é poeta e tradutor. Formou-se em Letras pela PUC-Rio e atualmente cursa o mestrado na mesma instituição.

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David Diop (1927-1960), por Lucas Perito

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David Léon Mandessi Diop teve uma vida curta: nasceu em 1927, em Bordeaux, França e morreu em 1960, aos 32 anos, em um acidente de avião na costa do Senegal. Diop, uma promessa da poesia francesa de ascendência africana, é considerado o mais revoltado dos poetas do movimento Négritude.

Filho de pai senegalês e mãe camaronesa, Diop passou a infância em hospitais devido à sua saúde frágil. Homossexual, mantinha a sua sexualidade reprimida a ponto de ter tentado se suicidar.

Sua poesia é fortemente marcada pela raiva e o protesto contra os valores europeus. Sua obra é baseada em um único livro (lançado ainda em vida), “Coups de Pilon” em que seus poemas passam pelo sofrimento do negro desde os tempos da escravidão, pela dominação colonial e a condição do negro no século XX, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelos valores da cultura europeia, e termina com um chamado à luta do povo africano.

Sua escrita ocorre principalmente no período em que muitas das colônias africanas lutavam pela independência e os conflitos estavam no auge. Vivendo nessa dicotomia entre ser francês, mas sem perder as raízes de seus antepassados, Diop viu os dois lados desse conflito, vivendo boa parte da sua vida na França e tendo sido professor no Senegal e, posteriormente, em Guiné – atendendo ao apelo de Sékou Touré, primeiro Presidente de Guiné, se junta ao PAI (Partido Africano de Independência) e assume a função de diretor da Escola Normal.

Seus primeiros poemas saíram em uma das revistas mais importante para o movimento Négritude, “Présence Africaine” e sua obra tem grande influência de Aimé Césaire e Léopold Senghor, que foi, inclusive, seu professor na faculdade e que publicou, em 1948, alguns de seus poemas no livro “Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française”.

Abordar o trabalho de David Diop tem como intuito, não só apresentar um poeta menos conhecido do movimento em questão, como também chamar a atenção para um trabalho que se mostra ainda atual. A escolha por estes três poemas baseou-se em sua representatividade no conjunto da obra do autor, pois apresentam três pontos da condição do negro na história: o racismo que remonta ao Code Noir, no primeiro poema; a luta contra a opressão, no segundo e o passado africano na busca por conhecer suas raízes e a partir delas redefinir o mundo em que se vive.

lucas perito

* * *

Un blanc m’ a dit…

Tu n’es qu’un nègre!
Un nègre!
Un sale nègre!
Ton coeur est une éponge qui boit
Qui boit avec frénésie le liquide empoisonné du vice
Et ta couleur emprisonne ton sang
Dans l’éternité de l’esclavage.
Le fer rouge de la justice t’a marqué
Marqué dans ta chair de luxure.
Ta route a les contours sinueux de l’humiliation
Et ton avenir, monstre damné, c’est ton présent de honte.
Donne-moi ce dos qui ruisselle
Et ruisselle de la sueur fétide de tes fautes.
Donne-moi tes mains calleuses et lourdes
Ces mains de rachat sans espoir.
Le travail n’attend pas!
Et que tombe ma pitié
Devant l’horreur de ton spectacle.

Um branco me disse…

Tu não passas de um negro!
Um negro!
Um negro sujo!
Teu coração é uma esponja que bebe
Que bebe com frenesi o líquido envenenado do vício
E tua cor aprisiona teu sangue
Na eternidade da escravidão.
O ferro vermelho da justiça te marcou
Marcou sobre tua carne de luxúria.
Teu caminho tem os contornos sinuosos da humilhação
E teu futuro, monstro danado, é o teu presente vergonhoso.
Dá-me esse dorso que escorre
E escorre suor fétido de tuas faltas.
Dá-me tuas mãos calejadas e pesadas
Essas mãos adquiridas sem esperança.
O trabalho não espera!
E que caia minha piedade
Frente ao horror de teu espetáculo.

§

 

Défi à la force

Toi qui plies toi qui pleures
Toi qui meurs un jour sans savoir pourquoi
Toi qui luttes qui veilles sur le repos de l’Autre
Toi qui ne regardes plus avec le rire dans les yeux
Toi mon frère au visage de peur et d’angoisse
Relève-toi et crie: NON

Desafio à força

Tu que te curvas tu que choras
Tu que morres um dia sem saber por quê
Tu que lutas que velas sobre o repouso do Outro
Tu que não vês mais com o sorriso nos olhos
Tu meu irmão a face do medo e da agonia
Levanta-te e grites: NÃO

§

 

Afrique

À ma mère.

Afrique mon Afrique
Afrique des fiers guerriers dans les savanes ancestrales
Afrique que chante ma grand-mère
Au bord de son fleuve lointain
Je ne t`ai jamais connue
Mais mon regard est plein de ton sang
Ton beau sang noir à travers les champs répandu
Le sang de ta sueur
La sueur de ton travail
Le travail de l’esclavage
L`esclavage de tes enfants
Afrique dis-moi Afrique
Est-ce donc toi ce dos qui se courbe
Et se couche sous le poids de l’humilité
Ce dos tremblant à zébrures rouges
Qui dit oui au fouet sur les routes de midi
Alors gravement une voix me répondit
Fils impétueux cet arbre robuste et jeune
Cet arbre là-bas
Splendidement seul au milieu des fleurs blanches et fanées
C`est L’Afrique ton Afrique qui repousse
Qui repousse patiemment obstinément
Et dont les fruits ont peu à peu
L’amère saveur de la liberté.

África

À minha mãe

África minha África
África de orgulhosos guerreiros das savanas ancestrais
África que canta minha avó
À beira de seu rio distante
Eu nunca te conheci
Mas meu olhar é pleno de teu sangue
Teu belo sangue negro através dos campos difundido
O sangue de teu suor
O suor de teu trabalho
O trabalho da escravidão
Escravidão de tuas crianças
África diga-me África
É portanto teu esse dorso que se curva
E se deita sobre o peso da humilhação
Esse dorso trêmulo a listras vermelhas
Que disse sim ao chicote nos caminhos do meio dia
Então gravemente uma voz me respondeu
Filhos impetuosos esta árvore robusta e jovem
Aquela árvore lá
Esplendidamente só no meio das flores brancas e desbotadas
Esta é a África tua África que renasce
Que renasce pacientemente obstinadamente
E cujos frutos têm pouco a pouco
O amargo sabor da liberdade.

 

* * *

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

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