poesia, tradução

Abhay K., por Francesca Cricelli

Foto de Alina Medvedeva

Abhay K. é o autor de The Seduction of Delhi e editor de CAPITALS – uma antologia poética em 185 capitais do mundo, ambas obras publicadas pela Bloomsbury. Ele foi homenageado com o Prêmio Literário SAARC (Associação Sul-Asiática para a Cooperação Regional) em 2013 por sua contribuição para a poesia contemporânea do Sul da Ásia e, no mesmo ano, nomeado para o Prêmio Pushcart. Além disso, Abhay integrou a lista de autores celebridade da Forbes em 2014, recebeu um certificado em poesia do International Writing Program, da Universidade de Iowa em 2015, sendo também um escritor reconhecido pelo projeto Silk Routes dessa mesma universidade. Seus poemas apareceram em mais de vinte revistas literárias, incluindo Poetry Salzburg Review e The Asia Literary Review. Seu chamado para um Hino Oficial da Terra foi denominado pela UNESCO como uma iniciativa criativa e inspiradora que contribuiria para aproximar o mundo. O hino da terra escrito por ele é usado por muitas escolas ao redor do globo. Ele também escreveu uma canção para a SAARC estimulando também a busca por um hino oficial da Associação.

Abhay K. leu seus poemas em Kitaabnama, um programa literário no canal de TV nacional da Índia; no Festival de Literatura do Nepal na capital Katmandu; no Festival de Literatura SAARC em Agra; no Festival Internacional de Poesia Kritya em Wardha; no Festival de Poesia do Sul da Ásia, em Kathmandu; no British Council, em Nova Delhi; na Academia Nacional de Literatura da Índia (Sahitya Akademi), em Nova Delhi; no Basha Sangam nepalês, em Darjeeling; na Sikkim Academy, em Gangtok; na casa de escritores Dom Pishatelov, em São Petersburgo, na Rússia; no Goa Art and Lit Fest 2014; no Jaipur Literature Festival 2015 e 2017; Mountain Echoes Literature Festival 2015 no Butão; na Casa Peruana de Literatura em Lima 2016; na Universidade Interamericana em Buenos Aires 2016 e no Festival Internacional de Poesia, Granada, Nicarágua 2017. Seus poemas foram traduzidos para o russo, chinês, nepali, hindi, irlandês, polaco, português, esloveno, espanhol, turco, entre outras línguas. Seu poema canção Hino da Terra foi traduzido para mais de 28 idiomas.

* * *

Os Bárbaros Finalmente Chegaram

(Após “À espera dos bárbaros” de Kostantinos Kavafis)

Esperamos por muito, muito tempo.

Os bárbaros finalmente chegaram.

Por que nada acontece na montanha?
Por que ficamos sentados e não fazemos nada?

Os bárbaros já chegaram hoje.
O que devemos fazer, agora?
Os bárbaros estão aqui, cometendo atos desprezíveis

Por que nos despertamos tão cedo, hoje?
e por que ainda estamos nos despertando, subindo mais alto
com nossas próprias asas, vestidos de nada?

Porque os bárbaros já estão aqui, hoje,
e nossa consciência finalmente nos diz: faça
até lhes preparamos um rolo
cheio de notas, com abundantes humilhações

Por que nós, cônsules e diplomatas, saímos hoje
algemados, insultados, revistados, lavados
por que nossos rostos estão amarrados em lágrimas
caindo como pérolas?
Por que carregamos convenções
entalhadas claramente no gesso e na areia?

Porque os bárbaros já chegaram
e eles adoram estas coisas.

Por que nossos parceiros estratégicos e amigos não se mostram como sempre
encerando com eloquência o levantar e permanecer ao nosso lado na hora do apuro?

Porque os bárbaros já chegaram
e não ouvem ninguém.

Por que esse despertar repentino, esse zelo?
(Como nos tornamos conscientes)
Por que as salas de imprensa e o espaço cibernético se lotam tão rapidamente
e todos se lamentam a todo volume?

Porque o dia raiou e os bárbaros finalmente foram avistados
e alguns que acabaram de voltar da terra dos sonhos dizem
os bárbaros têm um novo endereço.

O que vai acontecer, agora que avistamos os bárbaros?
Eles, aquelas pessoas, querem mesmo uma solução?

Tradução: Francesca Cricelli

The Barbarians Are Finally Here

(After ‘Waiting for the Barbarians’ by C.P. Cavafy)

We have waited long, very long.

The barbarians are finally here.

Why isn’t anything happening on the hill?
Why do we sit doing nothing?

The barbarians are already here today
What should we do now?
The barbarians are already here, committing despicable acts.

Why did we rise so early today
and why are we still rising, soaring higher
on our own wings, wearing nothing?

Because the barbarians are already here today
and our conscience is finally telling us to act
we have even prepared a scroll to give them
replete with scores, with humiliations galore.

Why have we consuls and diplomats come out today
wearing handcuffs, insulted with cavity-search, swabbing
why are our faces laced with tears
dropping like pearls?
Why are we carrying conventions
carved clearly in chalk and sand?

Because the barbarians are already here
and things like that they adore.

Why don’t our strategic partners and natural friends come forward as usual
to wax eloquent that we have risen and stand by us in the hour of need?

Because the barbarians are already here
and they listen to no one.

Why this sudden awakening, this zeal?
(How conscientious we have become)
Why are the media-rooms and cyber-space crowding so fast
and everyone wailing at the top of one’s voice?

Because the day has dawned and the barbarians have been finally sighted
and some who have just returned from the dreamland say
barbarians have a new address.

And now, what’s going to happen to us we have sighted barbarians?
They, those people, do ever want a solution?

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Mirabai

Mirabai foi uma das mais interessantes personalidades do norte da Índia do séc. XVI. Devota de Krishna e poeta, escreveu suas composições no dialeto hindi do Rajastão. Existem muitas lendas ao seu respeito, mas pouco se sabe com certeza sobre sua vida. Dizem que era neta do fundador da cidade de Merta. Seu pai estava no comando de um pequeno território que compreendia doze cidades. Existe uma controvérsia a respeito de quem foi seu marido, mas sabe-se que, rapidamente, ficou viúva e, algum tempo depois, em uma guerra contra o rei mogol, seu pai também morreu.

Nesse período, parece ter entrado em conflito com a família, que chegou até mesmo a tentar envenená-la devido ao seu comportamento pouco apropriado para uma mulher segundo os costumes da época, já que não apenas recebia os devotos de Krishna em seu palácio, mas também os encontrava nos templos.

Mirabai é conhecido por seus padas, breves canções espirituais, rimadas e composta em ritmos simples, cantadas segundo uma determinada melodia (raga). Os assuntos de seus padas são diversos, mas seu grande tema é o amor por Krishna, que tem como esposo. É que seu caminho espiritual é a devoção amorosa (bhakti), que se articula na forma do amor conjugal (dampatya). Por isso, seus poemas falam de seu amor por Krishna de uma forma muito concreta e expressam a dor da separação (virah) do esposo místico, ao qual deseja se unir.

Para Mirabai, Krishna é a encarnação de Deus, que salva seus adores e os libera das correntes desse mundo. Ela o chama de natavar (grande dançarino) e mohan (atraente), mas nunca perde de vista a sua divindade, chamando-o também de avinasi (eterno).

Gostaria de apresentar aqui algumas versões de seus padas, feitas por Jorge Sousa de Braga a partir da tradução inglesa de A. J. Alston (em The Devotional Poems of Mirabai). A tradução de Braga foi publicada em 2009 pela Assírio & Alvim.

I.

Oh Mohan   deixei-me seduzir

pela beleza do teu corpo

dos teus olhos semelhantes

a pétalas de lótus dos teus

olhares furtivos  Nas margens

do rio apascentas gado e

tocas flauta  Mira sacrifica

tudo àquele que levanta

montanhas e absorve-se

na contemplação dos seus pés

II.

Só sei dançar

para o meu Mestre

Despi-me de toda

a vergonha   trago

vestida apenas

a minha fidelidade

e umas argolas de oiro

nos tornozelos   Quando

se deita com Ele

Mira veste só

a cor do seu Deus

III.

Não sei amiga o que irá

acontecer entre o meu Amado

e eu  Veio até mim  mas

foi-se embora enquanto

dormia  Vou rasgar em duas

as minhas vestes   comprar

um sari amarelo   deitar

os braceletes fora   deixar

o cabelo cair-me sobre

os ombros  O desejo

assola-me noite e dia

Mira diz   Uma vez juntos

os amantes não se devem

separar

IV.

Mira dança com campainhas

nos tornozelos   Mira está

louca   dizem   é a ruína

da família   O príncipe deu-lhe

veneno a beber   Ela sorveu-o

de um trago enquanto

sorria   Prostrada a teus pés

sou toda tua   Basta ver-te

para apagar a minha sede

de ti   O refúgio de Mira é

aquele que levanta montanhas.

bernardo lins brandão

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