Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

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Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

Finn’s Hotel

Finns-Hotel-capaFinn’s Hotel, o dito “livro perdido de James Joyce”, foi publicado pela primeira vez como um volume à parte só em 2013, em junho (só podia), pela editora Ithys Press, numa edição acompanhada de ilustrações do cartunista Casey Sorrow. Ao que parece, pelo menos em sua maior parte, não se trata exatamente de um texto “novo”, nem perdido no sentido arqueológico da palavra, mas de pedaços que já eram algo conhecidos dos estudiosos da obra de Joyce há algumas décadas, com alguns desses textos tendo sido incluídos em A First-Draft Version of Finnegans Wake (1963), de David Hayman – e aí alguns outros, pelo que eu entendi, foram descobertos mais tarde, enquanto o fio condutor que amarra esses textos foi encontrado nas cartas de Joyce. O que causou muita confusão foi a declaração do pesquisador Danis Rose de que esses textinhos, escritos depois de Ulysses, em 1923, e apelidados pelo próprio Joyce de “epiclets” (epiquetos), seriam não um primeiro esboço do Wake, mas uma obra separada que não foi concluída intitulada Finn’s Hotel, cujas partes acabaram posteriormente recicladas – e um exemplo pontual dessa reciclagem pode ser observado no texto 5, “O grande beijo”, em que lemos um parágrafo que começa com “Três quarks para Muster Mark”, que depois aparece assim também na página 383 (livro II, início do capítulo 4) do Wake.

Acadêmicos joycianos do mundo todo, incluindo Hayman, porém, em vez de rejoyciarem, ficaram é muitíssimo contrariados com a alegação de Rose, que qualificaram como “infundada”, “um mal entendido” e “um hoax”. E não é a primeira vez que reagem assim: ele já havia tentado publicar uma versão anterior do Finn’s Hotel em 1992, mas não deu certo, porque, mesmo após ter conseguido a (extremamente difícil) aprovação da família, o bruaá todo assustou os editores (fazendo com que esse seja um dos raros momentos na atualidade em que um incômodo na academia afeta o mundo real, curiosamente). Enfim, se eles têm razão ou não é algo para discutirem futuramente até uma hora chegarem (ou não) a uma conclusão. Em todo caso, o volume que chega a nós – aqui no Brasil na tradução de Caetano Galindo para a Companhia das Letras, que prescinde de apresentações  –, seja ele uma obra distinta ou um esboço do Wake, é uma preciosidade.

falamos anteriormente aqui no escamandro sobre o Finnegans Wake, com um post em que eu apresento e traduzo o finalzinho e começo do livro (quem quiser pode ler um pouco mais sobre o livro num post detalhado do blogue do Mavericco, clicando aqui), e é importante retomar o Wake, porque muitos dos arquétipos e situações que surgem nele aparecem já no Hotel: HCE e ALP, os pais, os filhos (bem, um deles), Tristão e Isolda, os 4 evangelistas, a constituição da Irlanda, a carta, etc. Mesmo o tom, situado entre o cômico (de tendência sexual-escatológica, para variar), o mítico e o lírico amoroso, e a linguagem já são muito próximos do que Joyce viria a fazer, com as distorções e palavras-valise, porém ainda não plenamente inserida e desvairada até a enésima potência no estilo wakiano, de modo que talvez pudéssemos descrevê-la como uma versão light deste. Como tudo nesta fase de Joyce, o título Finn’s Hotel também é uma referência que aponta para diversas direções: a mais óbvia é a semelhança dos nomes Finn’s Hotel e Finnegans Wake, e, de fato, Finn é um nome recorrente no Wake, presente não só dentro do nome Finnegan, o pedreiro da canção, mas também na referência a Finn MacCool (Fionn mac Cumhaill), um gigante da mitologia irlandesa. A outra referência é menos óbvia, porque é biográfica: Finn’s Hotel foi o hotel real na Irlanda onde Joyce conheceu Nora Barnacle, futura Nora Joyce, que lá trabalhava como camareira, e, que, como conta a história, teria pensado que o Jim fosse um marinheiro norueguês. Diferente da edição norte-americana, a edição brasileira parece reforçar esse aspecto temático e emocional da obra joyciana ao apresentar os textos do Finn’s Hotel propriamente com um bônus, que é a tradução de Galindo para o poema em prosa “Giacomo Joyce”, um texto bastante esquisito escrito em 1914 sobre a paixão irrealizada de Joyce (sempre autobiográfico, ao que parece) por uma jovem judia que foi sua aluna em Trieste. Assim como Finn’s Hotel pode ser visto, ainda que algo polemicamente pelo menos por ora, como o “elo perdido” entre Ulysses e o Finnegans Wake, “Giacomo Joyce” já é reconhecido há tempos pela crítica joyciana como um estágio experimental entre o Retrato do Artista Quando Jovem e Ulysses – assim, reunidos, eles dão esse toque duplamente emocional e crepuscular ao volume, que, se não foi intencional, poderia muito bem ter sido.

Finns-Hotel-real

Mais sobre esses ecos e recorrências do Wake no Hotel: nos epiquetos 2 e 3 (“Bondade com peixinhos” e “Uma história de um tonel”) temos a figura de Kevin (nome real de um dos dois irmãos em FW… ao passo que o outro se chama Jerry, mas não aparece no Hotel), que aqui é o eremita irlandês Kevin de Glendalough; o mito de Tristão e Isolda é o foco principal de dois textos (5, “O grande beijo”, e 7, “Firmamente ao estrelato”), sendo mencionado também em 6, “Bordões da memória”, que conta ainda com a participação dos 4 evangelistas (na forma de 4 ondas do mar da Irlanda que são também velhos hermafroditas que observam e reescrevem a história da ilha), os que marcam sua presença no Wake enchendo as frases de palavras terminadas em -ation (que é a piada por trás do nome do livro Our Examination Round His Factifiation for Incamination of Work in Progress lançado à época do desenvolvimento do livro), mas que ainda não ganharam o cacoete que viria a distingui-los; o texto 8, “A casa dos cem cascos”, é uma despedida do “último preelétrico rei de toda Irlanda”, Roderick O’Connor, que, ao dar sua última ceia e ir catando os restos dos copos, ecoa uma cena parecida no Wake em que HCE faz o mesmo até desmaiar do porre tomado; o texto 9, “Homem Comum Enfim”, apresenta a narrativa, no registro de lenda de romance de cavalaria, de como ele ganhou seu nome Earwicker, e o texto 10, “Eis que te carto”, é a famosa carta de ALP defendendo/denunciando ao mesmo tempo o marido. No mais, porém, há uma coisa notável aqui que é o fato de este livro ser muito menos edipianizado do que o Wake: enquanto no FW há uma preocupação constante com a temática dos filhos virem a substituir os pais (HCE por Shaun, ALP por Issy, com o casamento entre os dois estruturando a sociedade como um tipo de recalque do incesto), no Hotel essa temática não havia ainda sido desenvolvida absolutamente e tampouco se encontra qualquer coisa sobre qualquer tipo de Queda, outro tema principal do Wake.

Em todo caso, as vantagens da leitura do Finn’s Hotel para qualquer um que queira começar a se arriscar pela parte mais complicada da obra de Joyce (do Ulysses em diante) são evidentes: os textos são poucos (só 10), independentes (na forma de vinhetas distintas, não contínuas) e curtos, e a edição, ainda que enxuta (só 153 páginas em formato de livro de bolso e com as ilustrações de Casey Sorrow ainda, como na edição americana), conta também com notas introdutórias de Danis Rose e Seamus Deane, além do comentário do tradutor e do anexo com o “Giacomo Joyce”. Minha única reclamação é que, como não se trata de prosa “normal”, nem de um texto facilmente disponível online de forma lícita (como é o caso do restante da obra em domínio público), teria sido melhor se a editora tivesse incluído também o texto original de Finn’s Hotel. É claro que, no caso de um livro longo como o Wake, esse tipo de empreitada beira o inviável, já que dobrar o tamanho do livro obriga uma divisão custosa em diversos volumes, mas aqui acredito que daria para inserir o texto em inglês tranquilamente sem comprometer o formato.

Dito isso, compartilho com vocês abaixo o texto de número 6, “Bordões da Memória”, que eu talvez tenha escolhido pelo fato de hoje, data do aniversário de Joyce, ser o dia de Iemanjá. Joyce, que tanto gostava do mar como tema, provavelmente acharia graça da coincidência.

Adriano Scandolara

Ilustração de Casey Sorrow
Ilustração de Casey Sorrow

Bordões da memória

As quatro ondas da Irlanda ouviram também, apoiadas em bordões da memória. Quatro eminentes respeitáveis velhos damaradas pareciam, trajadas em desamassadas vestes demissas para a ocasião, barrete cinza meialtura, casaco alfaiatado a combinar, óculos salares e assim por diante, sabe como, entudo e portudo, fora a salobridade, o quarto visconde de Powerscourt ou North, leiloeiro na anual feira equina da sociedade dublinense.

Tinham visto o que lhes bastasse: a captura de sir Arthur Casement no ano de 1132, a coroação de Brian pelos dinamarqueses em Clonmacnois, o afogamento do Pharaó Phitsharris no mar (prolepticamente) vermelho, o afogamento do pobre Matt Kane de Dunleary, a dispersão da armada Flamenga nas costas de Galway e Longford, o pousio de S. Patrício em Tara no ano de 1798, a separação da frota franca do General Boche no ano de 2002. E era tal sua memória que tinham sido nomeados professores nas quatro principais sés do saber de Erin, as Universidades de Matoucura, Matentodos, Sentrematem, Matimorte-Sôbolo-Chão, donde telegrafavam quatro vezes por semana nos quatro modos da história: passado, presente, ausente e futuro.

Viúvas do mardelargo todos, tinham sofrido muitas eras divórcios sumários de parte das respectivos maridas (com quem se mantinham em termos amicabílimos) por um decreto absoluto exarado pelo Meritíssimo Juiz Piante no tribunal de crimonosos machos matrimoniados de Bohernasondas, um por ineficiência no coçar de dorsos, dois por terem soltado seus gases sem primeiro protocolar solicitação por escrito em papel-ofício timbrado, três por terem tentado toscas familiaridades depois de uma refeição decomposta de siris, quatro em função de suas feições em geral. Apesar de ter isso sido tudo há tanto tempo, podiam ainda puxando pela memória e contando acuradamente os quatro botões liláceos das bragilhas lá das cuelcas recordar o nome das quatro lindas irmãs Salmoroivas que estavam no momento percorrendo os Estados Unidos da África.

Mas de pronto fizeram-se urgicantes, atraídos pela rosa imortal da beleza do Uteromem. Viviam tentacularmente a pender das cinturas náuticas dos botes de Northwall e Holyhead e dos vapores de turistas da Ilha de Man, espiando com glaucomatosos olhos pelas escotilhas cataráticas de cabines de luas de mel ou de apartamentos toaléticos das senhoras dos salões. Mas quando ditos vetustas, as Quatro Ondas de Irlanda, ouviram a detonação da osculação (cataclísmico cataglotismo) que com ostentação (osculum cum basio necnon suavioque) deu Tristão em Isolda, então soltaram alto à roda das praias de Irlanda o uivo do prantocantado dos velhos.

Altissonaram as idosas ondas de Erin em Palestrina melodia a quatro vozes, quatro contra todos, todos em só gáudios de nênias de só solidão dessa idade mas com bárdica licença, havendo em volta de aves e estrelas e ruído o que aprouvesse em quantidade.

Espraiamaram seu poemarola:

Um céu sem aves, tardemar, estrela;
Baixa no Oeste
Amas a imagem, mas mal podes vê-la;
Não esqueceste
Olhos marfrios e as ondas no cabelo
Perfumado
Caindo, que o silêncio há de vertê-lo
Em sol levado:

Um ai por quê,
Um ai por que te hás de lembrar
Um ai,
Rechora, peito meu,
Se num suspiro o amor dela se esvai

Nunca foi teu!

(texto de James Joyce, tradução de Caetano W. Galindo)

7 vezes “Aedh wishes for the cloths of Heaven”, de William Butler Yeats

Jackie Mackenna "He wishes for the cloths of Heaven", memorial com base no poema
Jackie Mackenna “He wishes for the cloths of Heaven”, memorial com base no poema

originalmente publicado no volume The wind among the reeds (1899), “Aedh wishes for the cloths of Heaven” é um dos poemas mais famosos de william butler yeats (1865-1939). tanto, que já apareceu até num filme como Nunca te vi, sempre te amei (84 Charing Cross Road) , na voz de antony hopkins. ele incorpora o que é visto muitas vezes como uma primeira fase da poesia de yeats, em que predominam as influências do romantismo, da poesia vitoriana e do simbolismo, ao lado de temas muitas vezes retirados da mitologia céltica e folclore irlandês – é anterior, portanto, a outros poemas famosos, como “The second coming” (1919-20) ou “Sailing to Byzantium” (1928). como já fizemos aqui outras vezes, acho que a maior homenagem que podemos fazer a um poema é reunir seus tradutores. por uma coincidência dessas que não sabemos como, bruno d’abruzzo me enviou sua tradução inédita na mesma semana em que eu havia visto a de andré vallias no facebook. além disso, eu já sabia da existência de pelo menos mais uma ou duas. aqui estão reunidas todas que pude encontrar.

guilherme gontijo flores

AEDH WISHES FOR THE CLOTHS OF HEAVEN

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

(William Butler Yeats)

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OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
ornados de ouro e prata em luz,
panos azuis foscos breus
da noite, luz, e da meia-luz,
estenderia os tecidos sob teus pés.
Mas, pobre, tenho apenas sonhos;
são eles que estendo sob teus pés.
Pise devagar, você está pisando nos meus sonhos.

(trad. inédita de Bruno D’Abruzzo)

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AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Se eu tivesse, do céu, os tecidos
Drapejados, bordados com luz
De ouro e prata, e os escuros tecidos
Azuis da noite e a meia-luz
E a luz, deitava-os sob os teus pés:
Mas, pobre, tenho apenas meus sonhos;
Deitei meus sonhos sob os teus pés;
Pisa de mansinho, pois são meus sonhos.

(trad. quase inédita de André Vallias)

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Ele deseja os tecidos bordados do paraíso

Tivesse eu os tecidos bordados do paraíso,
Adornados com luz dourada e prateada,
Os azuis, sombrios e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os estenderia sob seus pés:
Porém, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Eu estendi meus sonhos sob seus pés;
Pise suavemente porque você está pisando em meus sonhos.

(Trad. de Ricardo Cabús)

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AEDH DESEJA OS TECIDOS DO CÉU

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)

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AS SEDAS BORDADAS DO CÉU

Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com bainhas de luz de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras,
da noite e da luz e da meia-luz,

deitava-as todas aos teus pés.

Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,
é nos meus sonhos que estás a pisar.

(Trad. de Miguel Esteves Cardoso)

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ELE DESEJA OS MANTOS DO CÉU

Se eu tivesse os mantos bordados do céu,
Envoltos com luz de ouro e prata,
Os azuis e os cerúleos e os escuros mantos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu estenderia os mantos sob teus pés;
Mas eu, por ser pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu estendi os meus sonhos sob teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas nos meus sonhos.

(trad. de Rachel Gutiérrez)

 

 

James Joyce, Finnegans Wake

james-joyceO irlandês James Augustine Aloysius Joyce (1882 – 1941) é provavelmente o mais badalado dos escritores do século XX – qual outro, afinal, tem um dia, como o de hoje, dedicado a si? Ou pior, aliás, não a ele propriamente, mas a um personagem que foi criação sua. E, no entanto, ele teve uma carreira razoavelmente enxuta, consistindo de um livro de contos chamado Dublinenses (1914), o Bildungsroman autobiográfico Retrato do Artista Quando Jovem (1916), o monumental romance Ulysses (1922) e a bizarra obra experimental Finnegans Wake (1939), além de dois livros de poemas – Chamber Music (1907) e Pomes Penyeach (1927) –, uma peça de teatro (Exiles, de 1918) e um livro infantil (O Gato e o Diabo) que brotou meio que espontaneamente a partir de cartas para o seu neto, o terrível Stephen James Joyce. Completam a sua bibliografia póstuma algumas obras mais fragmentárias como Giacomo Joyce, Stephen Hero e o há pouco tempo descoberto Finn’s Hotel, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras na tradução do Caetano Galindo, que fez fama recentemente por conta de sua tradução do Ulysses e desde então tem ficado inacessível com todas as viagens ao castelo de Caras e tudo o mais (mais sobre esse textinho curioso que é o Finn’s Hotel pode ser lido no blog do Caetano no site da Companhia clicando aqui).

Apesar de ter escrito dois livrinhos de poemas, Joyce é melhor conhecido como prosador do que como poeta, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, ele merece um lugar nas discussões sobre poética e poesia, não por causa desses dois livrinhos, mas pelo Finnegans Wake – que, como se sabe, ao lado da obra de cummings, Mallarmé e Pound, foi elencado pelos irmãos Campos como base para a poesia concreta, como expresso em seu manifesto.  A princípio visto como um romance, o Wake vai muito além da forma romanesca, mas imagino que seja necessário dizer algumas palavras para explicar o porquê de se afirmar esse tipo de coisa.

Para se começar a entender o que é o Wake é bom partir do Ulysses ou do Retrato. Em ambos os casos temos textos que são difíceis, mas não se trata de uma dificuldade gratuita. No caso do Retrato, porque ele acompanha desde a infância a trajetória de vida do seu protagonista Stephen Dedalus, alter-ego do próprio Joyce, o autor achou que seria razoável empregar uma linguagem que acompanhasse o desenvolvimento da própria linguagem e pensamento do seu protagonista – por isso temos nele um dos começos mais absurdos de qualquer romance do ocidente, escrito na linguagem infantil do idade que o protagonista tinha nesse momento da narrativa: “Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo…”  No caso do Ulysses, esse procedimento continua, sondando os processos de pensamento dos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom, inclusive em estados algo alterados de consciência (no episódio 9, por exemplo, chamado de Cila e Caríbde, Stephen está bebaço… depois no 15, Circe, há o recurso de alucinações), e, para sermos breves, boa parte dos recursos de que Joyce se vale que acabam deixando a leitura pouco transparente se justificam por conta desse objetivo. E essa é a chave para sairmos do Ulysses e entrarmos no Wake: se o Ulysses é o livro do dia e acompanha os seus personagens nos momentos de consciência, da hora em que se levantam de manhã até quando se deitam de madrugada, o Wake é o livro do sono, em que Joyce aplica técnicas semelhantes para tentar dar conta de representar esse mundo noturno do inconsciente ou subconsciente. E é aí que as coisas começam a ficar mais violentas, porque, como todos sabem, tentar contar um sonho para alguém usando a linguagem normal do cotidiano é uma das experiências mais frustrantes da nossa comunicação, porque o sonho não obedece a uma lógica que não a sua lógica própria, em que as coisas não são exatamente o que elas aparentam (uma pessoa num sonho, por exemplo, pode ser e não ser a pessoa que se vê) e as cenas são instáveis. Portanto, tendo isso como matéria-prima para o livro, Joyce não poderia ficar satisfeito usando uma linguagem mais normal. Eis aí o ponto de entrada do Wake.

Ilustração de John Vernon Lord para o Finnegans Wake (2014)

Mas tem mais: o Wake também não tem bem um enredo ou personagens: em vez disso, ele trabalha com arquétipos míticos (já diz Campbell, não por acaso um dos primeiros estudiosos do Wake, que o sonho é o mito privado, e o mito, o sonho coletivo, havendo portanto uma relação entre as suas linguagens). Um deles é o HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), que é o arquétipo paterno masculino heroico e representa todas as figuras que já sofreram uma Queda, desde as mais elevadas, como Adão, Lúcifer ou o gigante adormecido da mitologia céltica Finn McCool, até o político irlandês Charles Parnell (que sofreu famosamente uma queda simbólica, causada por um escândalo sexual que abalou sua carreira política), o personagem carrolliano Humpty Dumpty e o pedreiro Finnegan da canção tradicional “Finnegan’s Wake” (que dá título ao livro), que cai do andaime e ressuscita no velório quando derrubam uísque no seu caixão. A esposa de HCE é ALP (Anna Livia Plurabelle), um arquétipo feminino materno, que é representada ao mesmo tempo por um rio (enquanto HCE é uma fálica montanha), mais especificamente o rio Liffey, tradicionalmente visto como feminino entre os irlandeses (como bônus, “rio” em gaélico é An, quase o nome Ana), e por uma árvore. As siglas HCE e ALP funcionam como um tipo de assinatura ao longo do texto, marcando sutilmente a presença dos dois arquétipos sem que seja necessário mencioná-los explicitamente.

Como figuras parentais, os dois estão em vias de serem freudianamente substituídos – HCE dorme e ALP perde as folhas – pelos seus filhos, que são outros três arquétipos: a filha Issy, que representa personagens femininas que tenham sido objeto do desejo masculino, como a Isolda de Tristão (Issy, Isolda…), cujo seu símbolo é uma nuvem (relacionada, portanto, ao rio, que é a mãe), e os dois gêmeos rivais Shem e Shaun, que representam todos os irmãos e rivais, como Caim e Abel, Esaú e Jacó, Set e Hórus, o anjo Miguel e o Diabo, a formiga e o gafanhoto, e assim por diante. Shaun é o “gêmeo bom”, que irá substituir HCE, arranjar um bom emprego (provavelmente como funcionário público) e se tornar o patriarca da família burguesa, ao passo que Shem é a ovelha negra, um artista, poeta e músico, e por isso é marginalizado. Há ainda alguns outros personagens menores, mas esse é basicamente o núcleo do livro. Como as identidades são fluidas e não há personagens fixos, também não há um enredo propriamente dito, mas várias pequenas narrativas que vão se amarrando frouxamente.

A linguagem usada para o livro, então, também reencena essa indeterminação e é composta basicamente de palavras-valise, o que é uma forma mais avançada de trocadilho (para um exemplo brasileiro, pense na linguagem do Catatau de Leminski, que é basicamente joyciano em seu funcionamento), e, mais do que isso, Joyce as cria com base em jogos de palavras interlinguísticos: assim, a primeira palavra do livro “riverrun” é ao mesmo tempo uma combinação óbvia de “river” (rio) e “run” (correr), mas também contém em si uma sugestão de Liv e An (a ALP, portanto, que, lembremos, é o rio) e as palavras “riveranno” (retornarão) do italiano e “revêrons” (sonhemos) do francês. Ela também é, famosamente, a última palavra do livro, porque ele apresenta uma estrutura circular, e a sua última frase deságua no começo. Para quem se interessar pelo assunto, eu mesmo escrevi um artiguinho sobre isso que foi publicado na revista Signo da UNISC e pode ser acessado clicando aqui. Há ainda mais algumas coisas sobre as quais eu poderia me demorar aqui, como o fato de que Joyce se baseou na teoria de Giambattista Vico sobre a história para a estrutura cíclica do Wake, a questão das palavras-trovão (palavras de 100 letras que marcam quedas ao longo do livro) ou o problema posto por alguns críticos sobre se existe um romance tradicionalmente normal por trás da superfície aberrante do texto ou se ela é o que ela é (o que eu pessoalmente acho que é a interpretação mais interessante, sem tentar normalizar o que não é normalizável), mas estamos já correndo o risco aqui de deixar esta introdução longa demais.

O importante, no entanto, é que o que Joyce conseguiu fazer foi criar um texto fertilíssimo, profundamente engraçado (o humor de Joyce tende muito para o obsceno, o que, não por acaso, foi uma das coisas que horrorizou a aristocrática Virginia Woolf) e ao mesmo tempo triste e doloroso. A chave de leitura para se ter acesso a essas coisas, no entanto, repousa não em tentar compreender o texto à moda da leitura tradicional, mas em ir entrando nesse jogo de livre-associação – e as tentativas de tradução do Wake também refletem isso, como fica claro nas traduções feitas pelos irmãos Campos em seu Panaroma do Finnegans Wake (sim, a palavra é panaroma mesmo, em contexto, “panaroma of all flores of speech“), que contém traduções de trechos do livro. Já a tradução integral para o português foi feita por Donaldo Schüller e publicada em 5 volumes pela ed. Ateliê, com o título Finnegans Wake / Finnícius Revém. O Caetano Galindo também vem traduzindo pedaços do livro, e um dos trechos foi publicado na Ilustríssima no ano passado (clique aqui). E, porque tentar traduzir o Wake é o tipo de coisa que diverte gente depravada como nós, eu também tenho brincado aqui e ali. O trecho que eu gostaria de compartilhar com vocês agora, então, é a sequência final, em que ALP se dissolve no mar ao mesmo tempo em que perde sua última folha (sim, o trocadilho com a última folha do livro é intencional) e o (re)começo, um trecho belíssimo, por sinal. Vocês podem acompanhar o texto original no site FinnegansWiki (que conta também com hiperlinks apontando para referências e tudo o mais). Minha tradução começa onde diz “My lips went livid for from the joy of fear” na página 626. O texto prossegue, então, até a página 628, onde a frase inacabada “A way a lone a last a loved a long the” se conclui no “riverrun” da página 3, e eu prossigo mais um pouquinho até a página 5, onde começa a narrativa (?) do HCE, apresentando-o em termos bélicos e bíblicos. A paginação, curiosamente, é algo que tende a ser mantido igual em todas as edições do livro, por isso eu também decidi quebrar aqui as linhas de modo a imitar mais ou menos como é no original, ainda que elas não formem versos de fato (em suma, é o mesmo procedimento do Catatau).

PS: e antes que possam me acusar ou de plágio ou de ter tirado do… erm, da cartola essas interpretações todas sobre o livro, eu gostaria, em primeiro lugar, de creditar o prof. Caetano por boa parte do que eu apresentei aqui (após todos esses anos, afinal, eu já não sei mais ao certo o que é comentário de outros autores, o que é comentário original dele com base nesses outros autores e o que é corrupção minha do que ele ensinou), sem o qual minhas tentativas de leitura (que dirá de tradução) do Wake seriam bem mais difíceis. Em segundo lugar, há também uma rica bibliografia sobre o Wake que inclui, além do Panaroma dos Campos, o livro Para ler Finnegans Wake de Joyce, de Dirce Waltrick do Amarante, o Skeleton Key to Finnegans Wake, de Joseph Campbell, e A Obra Aberta e The Aesthetics of Chaosmos: The Middle Ages of James Joyce, de Umberto Eco, que são uma bela literatura de acompanhamento para quem quiser estudá-lo mais a fundo.

(Adriano Scandolara)

John-Vernon-Lord_Finneganswake2

…Meus lábios livoraram para dá alegria do medo. Como quase agora.
Como? Como você disse que me daria as chaves do coração meu.
E seríamos casados até que amorte fossepare. E mesmo que cin nos
sersparemos. Ó, os meus! Só que, não, agora sou eu quem tem que ceder.
Como fis em si o fes. Ond’água-redonda. E será que nu er hora de mme
ddespedir? Hílas! Queria eut ertido mais relances de tespiar nesta luz crescente
dalvo rada. Mas estás te transformando, aculcha, para além de mim,
eu o sinto. Ou será que sou eu? Estou banzeira. Clareia

afora, dentro aperta. Sim, estás te transformando, maridilho, e
mudando, posso te sentir, por uma filhesposa das colinas
ou travez. Inlamaya. E ela vem. Nadando lago atrás de mim.
Margulhando, vadeando retra. Só um súbito lúbrico audaz vivaz búteo
bote bater de algo paralá, saltilhando. Saltarela componha
se. Tenho pena do seu velhosser ao qual mea costumei. Há umais nova agora.
Tente não ir! Alegria, meus queridos! Que eu me engane! Pois ela
te será doce como eu flui doce quando desci da mãe
minha. Meu grande quarto azul, o ar tão quieto, mal há nuvens.
Em silêncio e paz. Podia ter ficado lencima para sempre apenas.
É algo falha conosco. Primeiro a gente é mágoa. Depois água. E que ela garoe
agora se quiser. Suave ou forte se quiser. Que ela garoe pois
é chegada minh’hora. Fiz o melhor quando pude. Sempre pensando
seu me for tudo vai. Centena de cuidados, dízima de angústias e
há um só alguém que me entenda? Alguém em mil anos e as
noites? Vida toda fui ali vivida entre eles mas agora
começo a letestar-lhes. Letesto seus truquezinhos
mornos. Letesto suas voltas gostosas e más. E toda
golfada galfarra que jorra de suas alminhas. E toda vazão vadia a
gotejar em seus seres sincelos. Minúsculo como é tudo! E eu
me revelando para mim só ver sempre. E o tempo inteiro cuculando. Pensei
que estivesses todo resplandecente com a mais nobre das carruagens. Tudo
abobrinha. Te pensei fabuloso em todas as coisas, na falta e na
fama. Não passas dum simplório. Lar! Meu povo não era seu tipo lá
além até onde posso. Pois por tudo que hade árduo e audaz e
anúvio são elas as rés, as bruxas-do-mar. Não! Nem por todas feras
danças em sua fera dinarmonia. Dá para mim ver entre elas, ala-
-niúvia pulcrabela. Como era bonito, a fera Amaza,
quando se agarrava ao meu outrosseio! E o que é estranha,
soberba Niluna, que ela venha roubar de minhas propríssimas madeixas! Pois
assim são elas procelas. Ho hang! Hang ho! E o encontro de nossos
clamores até primarmos em vera liberdade. Aurévola, dizem, nunca
prestanção ao seu nome! Mas eu os testo os que estão aqui e tudo letesto.
Solunária em minha soltude. Por todas suas falhas. Desmaio. Ó
amargo fim! Terei me folhado antes que acordem. Jamais verão.
Nem saberão. Nem saudade. E é velho e velho é triste e velho é

moroso e triste voltar a ti, gélido pai, gélido pai louco,
gélido pai sombroso e louco, até a vera visão da sua mera
imensão, suas molhas e molhas, a se lamumamurianar, me deixe
salmeada, maroura, e eu corra, só para ti, teus braços serguendo, eu os vejo!
Me sal vadas trríveis pontadas! Dois mais. Um dois
trestão mais. Assim. Avelavalem. Zarparam minhas folhas de mim.
Todas. Mas umainda resta. Eu atrarei comigo. Lembrar-me de. Lff!
Tão garoa esta aurora, tão nossa. Sim. Me leva contigo, baizim, como
naquela vez na feirinha! Seu vi ele descendo sobre mim agora
sob alviabertas asas como se viesse do Arcanciel, afundo
eu morreria a teus pés, me humilho, durmilho, em riverânsia. Sim,
tid. Eis onde. Primeiro. Passamos os ramos, calem-seas calêndulas para.
Uixe! Uma ati. Atis. Ao longe voz. Chega, ao longe! Sencerraqui. Nós
então. Outra Finnavez! Leva. Massuavemeen, mimemória! Até teumile-
-unfim. Lbs. Chaves do. Suas! A via a sós a mor a fim a
lém das

        rivieras, passando Eva e Adão, da curva da costa à boca
da baía, nos leva por um cômodo vico de recirculação de volta
a Howth, Castelo e Entornos.
        Sir Tristão, a violar d’amores, vind’ao breve mar, não reche-
-gava passâncora da Armórica do Norte, do lado de lá do istmo
rugoso da Europa Menor, para cedenfrentar sua guerra penisolar; nem
haviam as rochas de Topessóia pelo rio Oconee selhexagerado até
os górgios do Laurêncio condado enquanto dubliavam seus múmperos
o tempo todo: nem um chá mado ardistância foleado mishe mishe para
tauftauf turfés-petrício: nem ainda, mas sem vanesitar muito,
um cabritim acurdido um Isaac ceco: ainda não, embora tudo seja válido
na vanessidade, irmaviam as sósias sestras enroivado com o doizum nathandjoe.
Roto um pico de malte do pai, tivesse Jhem ou Shen fermentado aluz do
arco e rórido fim ao regiobogre a ser visto solanelado n’aquaface.
        A queda (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerr-
-onntuonnthunntro-varrhounawnskawntoohoohoordenenthur-
-nuk!) de um comparsalmão walltrora todo restrito é recontecida cedo na cama
e mais tarde na vida por toda a menestrelaria cristã. A grande queda
do murônfalo caudou tão sem aviso prévio o pftjschute de Finnegan,
que até pouco atrás eira im sólito homem, que a rampadampla de sua cucorcanda
prantamente manda um enquisidor rumo ao ocidente frente à busca de seus
dandandedões: e suas apontapiquepontoportagens estão em nocaute
no parque onde laranjas foram enterrujadas sobre o verde desde que
pela prima vez devlin amou livvy.

        Que embates cá deus ejos gen desejos, ostragodos gagam pisci-
-godos! Brékkek Kékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu Ualu Ualu!
Quaouauh! Onde os partesões bodelérios ainda
buscam matematar Malacos Micgrãos e Verdugos cates-
-calpelam a camibalística dos Uaiteboçais da Cabeça
Encowthberta. Austrigaitas e bumeranstroms. Ovo escolhido, sede-me medo!
Sãoglórios, salve! Armes trogam aos larmes, tronejantes. Mortemorte-
-mor: um foi, um foi. Que acidanças, que custelos se abriram
e ventilaram! Os mefaçamários desagarrados pelos tegotetab-
-solutos! Que vero sentido pelos seus palhos, com que voz
fenomenal de falso hicó. Ah, hora hora, como espre espreilhando vira
o crepósculo o pai dos fornicacionistas mas (Ó, meus fúlgidos astros
e corpo!) como a palmedira o céu altíssimo o celessinal de
suave aviso! Mas vais ir? Ih, solte! Era mera merda? Ora em pás
returfam os carvalhos de entanho, mas olmos cinzaltam onde freixos carvalham.
Phalhe se for a cair, erguer se deve: e ninguém tão cedo também deverá
para a pharsa ao presente momento novir à secular decepscrição de uma fimnix.
        Caipatraz Finnegan, da Mão Titubeante, murário dos livres,
vi via do modo mais largo imarginável em seu cachaceso ante-
-demais pra terrecados, anterior aos juízes josués nos darem números
ou Helvítico cometer deuteronomia (certo levedia ele severamente
brenteu a tete na banheira a fim de laver o futuro de seus fados, mas
antes de rendirá-la ligeiro de novo, pelos mandos de moisés, a própria
água tinha eviporado e tudo guínese havia tido seu êxodo, só
pra te mostrar que camarada pentansjúgico era ele!)
durante muitos estranhos anos esse homem debalde, cimento e edi-
-fícios no Thorpe de Toper, empilhou canturo supra canturo às
margens dos figatos de Hassim’heassado. Tinha a linda pitita Annie
esposinha, ele braçou a pequena criadura. Se quer se caibelos nas mãos, tome
no seu parceiro. Com enquência balbuloso, mitral coco, agarrado à boa
espátula e oleobúrneos macacãos, que sementamava habitacularmente, como
Haroun Childeric Eggeberth ele caligulava por multiplicá-
-veis a maltitude e pantitude até que viuver pela destiluz da
bebida em quêmeos nasceu seu espetápulo redondado de outros diaspor
vir, nualve e reta maisonaria (concedagraça!), um uaauorfe
de um arruinaciel de uma holtura intorriemente holhível, eriginada

a partir de quase nada e celescalando os hímals e tudo, hierarquite-
-tonitiptitoplóftico, com uma sarça ardente em ripa, à coma de seu babilaque
e com lóuros o’túlers clitiritando acima e tombos a’bosckets claus-
-troando abaixo.
        Dos primeiros foi ele a portar armas e um nome: Vassile Bier-
-slef de Riensengueborgue. Seu paquife de heróltica, em verte e
semportes, troublant, argent, um carbrão, poursuivant, cabrunco, cornuto.
Terciado seu escruto, com arqueiros retesando, hélio, da segunda.
Rum é pro rústico rijecendo a ripa. Rô rô rô rô, Senhor
Fim serás outro Finnavez! Fecunda-seira comecedinho e,
Ó, és vinha! Evem domíngua noite e, ah, és vinagre! Rá rá rá rá,
Gra-senhor Fam, serás finado outra vez!

(James Joyce, tradução de Adriano Scandolara)

“A Segunda Vinda” de Yeats na Eutomia

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Saiu esta semana o vol. 1, n. 11 (jan/jun. 2013) da revista Eutomia. Pode-se acessar a tabela de conteúdos dela clicando aqui.

De minha parte, eu contribuí com a tradução de um dos poemas mais famosos do irlandês William Butler Yeats (1865 – 1939), “The Second Coming”, que reproduzo abaixo, junto com o original. Mas é óbvio que tem bem mais coisas legais por lá, incluindo um artigo interessantíssimo de autoria do poeta e tradutor Claudio Willer sobre poetas malditos, de Nerval a Baudelaire a Piva (aqui).

E aproveitando que estamos falando da Eutomia, numa edição anterior (edição 10, ano V, dez/2012), três de nós do escamandro (eu, o Guilherme e o Vinicius) contribuímos com um artigo sobre a nossa tradução do Paraíso Reconquistado de John Milton (clique aqui).

Bem, para não deixar este post muito sem nexo, só digo que de Milton a Yeats, há, segundo o crítico Harold Bloom, uma linhagem direta na ordem de influência, que passa por Shelley no meio do caminho. E, para efeitos de contraste, compartilho também a tradução de Paulo Vizioli, do (raro) volume W. B. Yeats (Cia. das Letras, 1992), à qual, digo desde já, acabei não tendo acesso quando fiz a minha, ainda que os resultados tenham sido bastante parecidos em alguns versos.

Adriano Scandolara

           

A Segunda Vinda

Gira e gira no vórtice crescente
Não escuta o falcão ao falcoeiro;
As coisas vão abaixo; o centro cede;
Mera anarquia é solta sobre o mundo,
Solta a maré de sangue turva, afoga-se
Por toda parte o rito da inocência;
Falta fé aos melhores, já os piores
Se enchem de intensidade apaixonada.

Por certo, há revelações a vir;
Por certo, há a Segunda Vinda a vir.
Segunda Vinda! Mal saem tais palavras,
E a vasta imagem do Spiritus Mundi
Perturba-me a visão: lá no deserto
Um vulto de leão com rosto de homem,
O olhar vago, impiedoso como o sol,
As lentas coxas move, tendo em torno
Sombras de iradas aves do deserto.
Cai a treva outra vez, mas ora sei
Que o pétreo sono de seus vinte séculos
Vexou-se ao pesadelo por um berço.
Que besta bruta, de hora enfim chegada,
Rasteja até Belém para nascer?

(tradução de Adriano Scandolara)

           

A Segunda Vinda

Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.

É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?

(tradução de Paulo Vizioli)

           

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

(poema de Yeats, traduções de Adriano Scandolara e Paulo Vizioli)