poesia, sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Stefano Modeo, por Prisca Agustoni

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Stefano Modeo (Taranto, 1990) vive e trabalha em Ferrara. La terra del rimorso (ItalicPequod, 2018) é seu livro de estreia. Publicou poemas dessa mesma coletânea nas principais revistas literárias italianas. Integra a antologia Abitare la parola – poeti nati negli anni ’90 (Ladolfi Editore, 2019). Integra a redação da revista de poesia Atelier e colabora com o blog de literatura Nazione indiana.

Os poemas aqui traduzidos foram extraídos da coletânea La terra del rimorso.

* * *

IV.

La piazza semivuota del tuo cuore.
Hai percorso la piazza.
Hai smesso di guardare il passo tuo nella piazza:
tra la gente cercavi la tua gente.
Scarpe e volti nella piazza mattutina.
Le parole sono tante le idee sono poche.
Sei tornato a casa e hai scritto una poesia:
la leggeremo in piazza, risuonerà alta:
nella piazza semivuota del tuo cuore.

IV.

A praça semideserta do teu coração.
Você percorreu a praça.
Parou de olhar teu passo na praça:
entre as pessoas você procurava tuas pessoas.
Sapatos e rostos na praça matutina.
As palavras são tantas as ideias são poucas.
Voltou pra casa e escreveu um poema:
o leremos na praça, soará alto:
na praça semideserta do teu coração.

§

V.

Nella pancia della balena gorgoglia la mattanza
siamo tanti stipati come legni nella stiva
la balena ogni tanto soffia in alto il mare e
qualcuno. Siamo tanti niente mescolati di lutto e di
nessuno porta avanti Capitano la mia sorte, porta
avanti.
Brucia, il mare, la tua pelle senza acqua – è buio –
sbatte la balena, uno schiaffo nell’impatto – mi sveglio –
rallenta rallenta anche il calore del motore – è finita –
la morte, i bianchi sono venuti a prenderci – Dio mio

V.

Na barriga da baleia borbulha a matança
somos muitos enfiados como lenha no porão
às vezes a baleia sopra para o alto o mar e
alguém. Somos muitos nada misturados de luto e de
ninguém leva em frente Capitão minha sorte, leva
em frente.
Queima, o mar, tua pele sem água – está escuro –
choca a baleia, um estalo no impacto – eu acordo –
reduz reduz até o calor do motor – acabou –
a morte, os brancos vieram nos pegar – meu Deus

§

IX

nel terrore delle sere le città militarizzate sembrano cespugli
se per di qui te ne vai, passante, non capisci qual è il gioco
eppure la paura ti abbraccia le caviglie e incespicando sbrighi
il tuo passo per il quais.
Batte
botte
questo cuore sorvegliato.
Quest’impero è una vetrina lungo i viali solitari,
ecco solo i militari.
Lampeggiando una sirena sale, un elicottero guarda indifferente
e silenziosamente una sigaretta fuma lenta alle finestre rabbuiate.
Splende un occhio
incandescente
sul tuo viso preoccupato.
Ovunque corrono i pensieri, ovunque le notizie in tempo reale
avanzi il passo verso casa, tutto il mondo è virtuale, la paura sale

IX

no terror das noites as cidades militarizadas parecem matagais
se você for por aqui, passante, não vai entender qual é o jogo
mas o medo te abraça nos tornozelos e tropeçando você apressa
o passo ao longo da calçada.
Bate
barril
este coração vigiado.
Este império é uma vitrine ao longo das avenidas solitárias,
eis apenas os militares.
Uma sirene sobe piscando, um helicóptero olha indiferente
e silenciosamente um cigarro fuma lento às janelas escuras.
Brilha um olho
incandescente
em teu rosto preocupado.
Correm por todo lado os pensamentos, como as notícias em tempo real
você alonga o passo rumo à casa, o mundo todo é virtual, o medo sobe

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poesia, tradução

Maria Borio, por Cláudia Tavares Alves

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Maria Borio (1985) é poeta e também editora de poesia da revista italiana Nuovi Argomenti. Seus poemas estão publicados em L’altro limite (Pordenonelegge-Lietocolle, PordenoneFaloppio, 2017) e Trasparenza(Interlinea, 2019), além de terem aparecido em diversas revistas e jornais italianos e internacionais. Publicou também o estudo Poetiche e individui: la poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio, 2017).

O poema Aquatic Centre apareceu pela primeira vez na revista online The  Los Angeles Review -, na versão original, em italiano, e na tradução para inglês, de Julia Anastasia Pelosi-Thorpe. Em nota, a tradutora explica que o título se refere ao Centro Aquático de Londres, projetado pelo Zaha Hadid Arquitetos para abrigar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos ocorridos em 2012. O título permanece, então, também em português, em referência ao lugar que parece ser desenhado pelos versos de Maria Borio. As linhas e curvas desse edifício, em que a luz incide por todos os lados, projetam uma imagem, um encontro possível entre o céu e a água. Pelo “fenômeno do olhar”, a poesia parece também incidir: nas estruturas de ferro, no concreto, nos vidros.

Cláudia Tavares Alves

 

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London Aquatics Centre – ©DomePhotography 2018


Aquatic Centre 
 

Stesa sul letto a volte vedi forme,
curve che entrano e spirali che evadono.
Gli organi trasparenti in alto si aprono
e diventano una linea morbida che insegue se stessa,
pulisce il respiro dai colori scuri – il colore del sangue,
o quello denso della carne dove nascono le api.

Nulla si rigenera, ma è prolungato, infinito
nella linea che pulisce gli oggetti e fa cose
per pensare, per abitare: un grande uovo, ad esempio,
si spacca senza perdere liquido e bianchissimo invade
gli angoli del soffitto, apre un arco, una porta
tra i continenti.

Tra il cielo e l’acqua questo edificio
splende in una luce illimitata:
puoi aprirlo, aprirti
a una lingua di toni aspri,
tornare nel suono rotondo di un’altra
riprendendo quei toni come finestre sul mare
o il ponte sospeso per il parco
dove le persone stese sull’erba sono api
e il calore al sole sembra impedire la morte
anche se tra anni, milioni, un giorno
esplodendo.

Segui poi altre linee, quelle della specie,
forse come sapere che nascere
non sarà più violenza, ma fenomeno di sguardo,
e dal letto lasci il sesso arrampicarsi
attorno ai contorni di questo edificio
nel suo bianco sotto raggi tempesta,
la stella nell’attimo prima
di esplodere.

La vita è ovunque, in una linea curva
ognuno abita come pensare.
Le api ora lasciano la mia bocca perché le penso.

Aquatic Centre

Deitada na cama, às vezes vê formas,
curvas que entram e espirais que escapam.
Órgãos transparentes no alto se abrem
e se transformam em uma linha suave que persegue a si mesma,
limpa o respiro das cores escuras – a cor do sangue,
ou a densa cor da carne onde nascem as abelhas.

Nada se regenera, mas é prolongado, infinito
na linha que limpa os objetos e faz coisas
para pensar, para morar: um grande ovo, por exemplo,
se rompe sem perder o líquido e branquíssimo invade
os ângulos do teto, abre um arco, uma porta
entre continentes.

Entre o céu e a água este edifício
brilha numa luz ilimitada:
pode abri-lo, abrir-te
a uma língua de tons ásperos,
retornar ao som redondo de uma outra
retomando aqueles tons como janelas sobre o mar
ou a ponte suspensa para o parque
onde as pessoas deitadas sobre a grama são abelhas
e o calor ao sol parece impedir a morte
mesmo que em anos, milhões, algum dia
explodindo.

Segue então outras linhas, aquelas da espécie,
talvez como saber que nascer
não será mais violência, mas fenômeno do olhar,
e da cama deixa o sexo escalar
em torno dos contornos deste edifício
em seu branco sob raios tempestade,
a estrela no instante antes
de explodir.

A vida está em todo lugar, em uma linha curva
alguém mora como pensar.
As abelhas enfim deixam a minha boca porque as penso.

§

Cláudia Tavares Alves (1988) é professora de literatura. Também pesquisa e traduz literatura italiana, além de contribuir com os blogs Marca Páginas, Ponto Virgulina e Literatura Italiana Traduzida no Brasil. Atualmente, trabalha na tradução de Le mie poesie non cambieranno il mondo, da poeta Patrizia Cavalli, para as Edições Jabuticaba.

*

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Sessão Vagalume|Maria Borio, por Prisca Agustoni & Francesca Cricelli

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Maria Borio nasceu em 1985, formou-se em Letras e é Doutora em Literatura italiana. Publicou as coletâneas Vite unite ( 2015), L’altro limite (2017) e Trasparenza (2018).Escreveu os livros de ensaios Satura. Da Montale alla lírica contemporanea (2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (2018). É curadora da sessão de poesia da revista “Nuovi Argomenti”.

Seleção e tradução por Francesca Cricelli e Prisca Agustoni, extraídos da coletânea Trasparenza que, já em processo de produção, aporta em breve no Brasil.

* * *

Creature

I.

Nulla più fragile, nulla più facile:
il tempo si perde se credo che avremo tempo
per contare tutte le forme di felicità.

Sullo schermo seguo l’immagine dell’oceano: ci separa
È freddo, ad ogni virata degli uccelli
Il tuo corpo e il mio possono trasformarsi.

L’oceano stanotte ti ha toccato la pancia perché l’hai sognato,
una strana Europa mi ha accerezzato la schiena.

Premo la faccia, la figura della tua faccia
due emisferi.

II.

Creature, tracce del fuoco.
Sul muro segnavi le prime lettere.

Ti ho pensato una treccia nella fiamma
si apre viola, cade strato dopo strato.

Attraverseremo il tempo come le icone sopra il fondo
senza tempo del quadro: creature

che non si possono dire
che ti vincono.

Criaturas

I

Nada mais frágil, nada mais fácil:
o tempo se perde se creio termos tempo
para contar todas as formas de felicidade.

Na tela sigo a imagem do oceano: nos separa
faz frio, a cada revoada dos pássaros
teu corpo e o meu podem se transformar.

O oceano essa noite tocou-te o ventre porque o sonhaste,
uma estranha Europa roçou-me as costas.

Espremo o rosto, a figura do teu rosto
dois hemisférios.

II

Criaturas, vestígios de fogo.
No muro assinalavas as primeiras letras.

Pensei em ti uma trança na chama
abre-se violeta, cai camada sob camada.

Atravessaremos o tempo como ícones sobre o fundo
sem tempo do quadro: criaturas

que não podem se dizer
que te vencem.

 

§

Accoglienza

I.
Si raccontano, una faccia nell’altra.
C’è il pane fresco sul banco, asciutto,

il suono di cose toccate. Dispone
pezzi in fila – le mani sembrano terra,

le unghie sono tagliate fin dentro la carne.
Le storie scomposte in sagome

fanno corto circuito. Attraverso
il vetro appare reale solo la forma

delle magliette made in china.
Come dire posto per accoglienza?

Il cielo preme su tutti, scivolano fuori
dalle magliette i corpi.
II.
Parlare, sentire: entriamo, compriamo
due chili di pane – parlare, sentire

le mani calde, gli occhi geologici. Sembra
di attraversarsi, noi nella mattina soli

dal banco al vetro alla strada…
Le aste traslucide attraverso i vetri

sono rami – e il vento
le apre, li chiude.
III.
Il nome inizia con la a e finisce con la h
suona una cosa calda, di lievito

ed è vero – la distanza esiste meno
di prodotti che di etnia. La cosa esplode.

Il vento comprime tutti,
finisce con la h, come si soffia.

IV.
Sembriamo serpenti, curve, lingue mescolate.
Passiamo attraverso un posto immaginario.

È una sfida, come il ragazzo della favola
nascondeva la volpe tra ascella e fianco.

Il cielo preme su tutti, le solitudini esplodono.
Il posto intorno è vero – i serpenti solo suono.

 

Acolhimento

I

Contam-se, um rosto no outro.
Tem pão fresco no balcão, seco,

o som das coisas tocadas. Dispõe
pedaços enfileirados – as mãos como terra,

as unhas cortadas rente à carne.
As histórias decompostas em contornos

dão curto-circuito. Pelo
vidro só parecem reais as formas

das camisetas made in china.
Como dizer local de acolhimento?

O céu pesa sobre todos, escorregam
das camisetas os corpos.

II

Falar, ouvir: entramos, compramos
dois quilos de pão – falar, sentir

as mãos quentes, os olhos geológicos. Parece
um atravessamento, nós pela manhã sozinhos

do balcão ao vidro à rua…
As hastes translúcidas pelo vidro

são galhos – e o vento
as abre, os fecha.

III

O nome começa com a e termina com h
soa feito coisa quente, de fermento

e é verdade – a distância existe menos
entre produtos do que etnia. A coisa explode.

O vento comprime todos,
termina-se com h, como um sopro.

IV

Parecemos cobras, curvas, línguas misturadas.
Passamos por um lugar imaginário.

É um desafio, como o garoto da fábula
escondia a raposa entre a axila e o flanco.

O céu pesa sobre todos, as solidões explodem.
O lugar ao redor é real – as cobras só o som.

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poesia, tradução

Giorgio Manganelli, por Armando Martinelli

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Giorgio Manganelli foi um escritor, tradutor, jornalista e crítico literário, nascido em Milão, em 15 de novembro de 1922; e faleceu em Roma, em 28 de maio de 1990. Ativista da resistência italiana (Partigiano) durante a segunda guerra mundial, integrante do partido Comunista, presidente do Comitê de Libertação, ele também foi um dos líderes do movimento literário de vanguarda na Itália na década de 1960, chamado Grupo 63
(caracterizado pela forte experimentação). Nesse período publicou um trabalho
“Hilarotragoedia” (1964), traduzido pela editora Imago (1993), em tradução de Nilson Moulin. Seu livro mais conhecido “Centuria – cem pequenos grandes romances”, lançado em 1979, ganhou o Prêmio Viareggio, e chegou ao Brasil em 1995 pela editora Iluminuras, em tradução de Roberta Barni. Manganelli também é lembrado por sua atividade tradutora: traduziu histórias completas de Edgar Allan Poe e autores como T. S. Eliot, Henry James, Ezra Pound, Robert Louis Stevenson, Byron Manfred entre outros. Dos mais de cinquenta livros de Manganelli, no Brasil, além dos dois citados acima, há também “Pinóquio: um livro paralelo”, publicado em 1982 na Itália, e por aqui em 2002, pela Companhia das letras, em tradução de Eduardo Brandão. Ítalo Calvino diz a seu respeito, ao comentar “Hilarotragoedia”: “um escritor diferente de qualquer outro, um inventor inesgotável e irresistível no jogo da linguagem e das ideias”.

Após ter lido o livro de contos Centúrias – cem pequenos grandes romances (Edições 70), indicado pelo amigo e poeta Diego Pansani, parti em pesquisa virtual por outras obras do  italiano Giorgio Manganelli. Entre as buscas, deparei-me com alguns de seus poemas e, desde então, tenho unido duas paixões: a língua italiana (herança de meu pai e avós), com a poesia. Nos poemas de Manganelli fui atingido fortemente pela combinação crua de elementos fantásticos e sentimentos pulsantes. E sigo instigado a desvendar, cada vez mais, esse universo denominado por muitos críticos como o real manganelliano. Para homenagear os trinta anos de falecimento do autor, fiz a tradução de três dos seus poemas.

Armando Martinelli

*

I
Scrivi, scrivi;
se soffri, adopera il tuo dolore:
prendilo in mano, toccalo,
maneggialo come un mattone,
un martello, un chiodo,
una corda, una lama;
un utensile, insomma.
Se sei pazzo, come certamente sei,
usa la tua pazzia: i fantasmi
che affollano la tua strada
usali come piume per farne materassi;
o come lenzuoli pregiati
per notti d’amore;
o come bandiere di sterminati
reggimenti di bersaglieri.

II
Usa le allucinazioni: un
ectoplasma serve ad illuminare
un cerchio del tavolo di legno
quanto basta per scrivere una cosa egregia –
usa le elettriche fulgurazioni
di una mente malata
cuoci il tuo cibo sul fuoco del tuo cuore
insaporiscilo della tua anima piagata
l’insalata, il tuo vino
rosso come sangue, o bianco
come la linfa d’una pianta tagliata e moribonda.

III
Usa la tua morte: la gentilezza
grafica gotica dei tuoi vermi,
le pause elette del nulla
che scandiscono le tue parole
rantolanti e cerimoniose;
usa il sudario, usa i candelabri,
e delle litanie puoi fare
un bordone alla melodia – improbabile –
delle sfere.

IV
Usa il tuo inferno totale:
scalda i moncherini del tuo nulla;
gela i tuoi ardori genitali;
con l’unghia scrivi sul tuo nulla:
a capo.

I
Escreva, escreva
se você sofre, use sua dor
pegue-a pela mão, toque-a
como se manuseia um tijolo,
martelo, um prego,
uma corda, uma lâmina;
uma ferramenta, enfim.
Se você é louco, como certamente é
use a sua loucura: os fantasmas
que preenchem sua existência
use-os como plumas dos travesseiros;
ou como lençóis finos
para uma noite amor;
ou como bandeiras de extermínio
dos regimentos de atiradores.

II
Use suas alucinações: um
ectoplasma serve para iluminar
um círculo na mesa de madeira
quanto precisa para escrever uma coisa amável –
use as claridades elétricas
de um mente doentia
cozinhe sua comida com o fogo do coração
tempere sua alma ferida
a salada, o vinho tino
vermelho como sangue, ou  branco
como a seiva de uma planta cortada e moribunda.

III
Use a sua morte: a gentileza
dos gráficos góticos dos seus vermes
as pausas eleitas do nada
que acentuam suas palavras
ofegantes e cerimoniosas;
use sua mortalha, seus candelabros,
as ladainhas que pode compor
– um zumbido a uma melodia – improvável
das esferas.

IV
Use seu inferno total:
esquente os tocos de sua alma;
congele as ardências genitais;
com a unha, escreva no seu vazio:
Um Parágrafo.

§

da Poesie

Io mi divido
in giacca e calzoni e cintura
e ancora mi disgiungo
in cravatta e camicia
e mi scindo in cranio, in polmoni,
in visceri e pube,
e mi distinguo
in ogni cellula
che senz’amore s’accosta
ad altra cellula.
Così, casualmente, sussisto:
poi chiedo in prestito
la forza che congiunge
l’uno all’altro i miei volti possibili
all’improvviso sacramento
d’una chitarra,
al riso dell’amico,
allo squillo consueto del telefono,
nell’attesa distratta
d’una voce che perdoni la mia spalla,
la mia gamba, la mia dolce cravatta:
nell’oziosa attesa
del sacramento della nascita. 

Conosco la pace del pensoso dinosauro,
la coerenza delle zanne della tigre:
dove non c’erano parole
dove non ci sono parole,
nel centro del centro del centro
delle cose sorde, vitali, sanguinose,
dove si enumerano stomaco,
unghie, genitali,
intestini lunghissimi, zampe,
e le lacrime sono lacrime
per sangue che esce da carne lacerata,
per l’orrore forte della morte,
dove si redigono cataloghi
di urli, di minacce, di carne,
del male carnale solamente
dove non c’è amore né lussuria,
ma la voglia gagliarda della vita,
il centro dell’inguine
che matura insensato nelle cose. 

Abbiamo tutta una vita
da NON vivere insieme.
Sugli scaffali di Dio
s’impolverano i gesti possibili:
le mosche cherubiche insozzano
le nostre carezze;
stanno appollaiati come gufi
i sentimenti impagliati.
“Merce inesitata” – griderà l’angelo d’ottone –
dieci casse di vite, di possibili.
E avremo anche una morte da morire:
una morte casuale, innecessaria,
distratta, senza te. 

Io non ho prova della mia esistenza
se non per questo
dolore continuo dell’orecchio,
una lettera d’amico,
il gusto denso della birra
contro le gengive.
Fuori dal sigillo
della paura ininterrotta
non ho altro indizio
della mia continuità.

De poemas

Eu me divido
em jaqueta, calças e cintos
então me desfaço
em gravata e camisa
e me separo em crânio, em pulmões,
em vísceras e virilha
e me distingo
em cada célula
que sem amor se encosta
a outra célula
assim, casualmente, subsisto:
depois peço em empréstimo
a força que une
um ao outro os meus rostos possíveis
a um inesperado sacramento
de um violão,
ao riso do amigo
ao toque habitual do telefone,
na espera distraída,
uma vez que perdoe as minhas costas
a minha perna, a minha doce gravata:
na ociosa espera
do sacramento do nascimento.

Conheço a paz do pensativo dinossauro,
a coerência das presas do tigre:
onde não haviam palavras,
onde não existem palavras
no centro do centro do centro
das coisas surdas, vitais, sanguinolentas,
onde se enumeram estômago,
unhas, genitais
intestinos longuíssimos, patas
as lágrimas são lágrimas
por sangue que sai da carne dilacerada
para o grande horror da morte
onde se redigem catálogos
de gritos, de ameaça, de carne
do mal carnal somente
onde não tem amor e nem luxúria
mas a vontade corajosa da vida
o centro das pernas
que amadurece as coisas insensatas.

Temos toda uma vida
para não viver juntos.
Sobre as prateleiras de Deus
se empoeiram os gestos possíveis
as moscas querubins mancham
as nossas carícias – estão empoleiradas como corujas
os sentimentos empalhados.
“Mercadoria encestada” – gritará o anjo de bronze –
dez caixas de vida, de possíveis.
E teremos também uma morte a morrer:
uma morte casual, desnecessária,
distraída, sem você.

Eu não tenho da minha existência
se não por isso
dores contínuas de ouvido
uma carta de amigo
o gosto forte da cerveja
contra as gengivas
fora do sigilo
do medo ininterrupto
não tenho outro indício
da minha continuidade.

§

Desideravo vederti:

desidero la fantasia dei tuoi capelli
a inaugurare grida
di libertà in ore troppo lente; la rivolta
dei tuoi polsi terrestri
che muovono inizi di bandiere,
e accusano l’indugio, la disperazione
cauta, il tempo.
Mi occorre l’urlo d’uno sguardo
ed oltre la violenza del tuo esistere
io esigo il gesto d’un tuo riso.

Queria te ver:

Desejo a fantasia do seu cabelo
a inaugurar em gritos
de liberdade em horas muito lentas; a revolta
dos seus pulsos terrestres
início sinuoso de bandeiras,
e acusar o atraso, o desespero
cauteloso, o tempo.
Preciso do grito de um olhar
e além da violência da sua existência
Exijo o gesto do seu riso.

§

Armando Martinelli é jornalista e escritor. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro livro – Recital das Reticências saiu em 2018 pela editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp, entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia, previsto para ser lançado até o final de 2020.

*

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Sessão Vagalume|Fabrizio Bajec, por Prisca Agustoni

Fabrizio Bajec (1975), ítalo-francês, vive em Paris e escreve nas duas línguas. Publicou inúmeras coletâneas de poemas: corpo nemico, 2004; gli ultimi, 2008, entrare nel vuoto; 2011, la cura 2015; La collaborazione, 2018; como também em francês:  Entrer dans le vide, 2012; Loin de Dieu, près de toi, 2013; e la collaboration, 2018. Escreveu peças de teatro encenadas na Itália e na Bélgica e tem poemas traduzidos em espanhol e sueco. É tradutor da poesia do belga Wiliam Cliff. Se autotraduz em italiano e francês, tendo escrito ensaios nos quais discorre teoricamente sobre esse processo. Os poemas aqui traduzidos foram retirados da coletânea La collaborazione.

Com essa coletânea de 2018, Bajec aborda a atualíssima temática da uberização do trabalhador dentro do complexo sistema capitalista contemporâneo, que desenha para o indivíduo um destino de sujeição e de colaboração com o sistema. Uma poesia política e corajosa por enfrentar temas e queixas muito urgentes, tanto na Itália quanto na França em tempos de Gilets Jaunes.

Prisca Agustoni

* * *

Gianluca dorme nei palazzi vuoti
col suo diploma in costruzione edile
più tardi su un vagone reclama
un impiego non soldi per fumare
o bere a vent’anni la sua voce
deve recitare tutto il dolore
del mondo


Gianluca dorme nos prédios vazios
com seu diploma em construção civil
depois num vagão pede
um emprego não dinheiro para fumar
ou beber aos vinte anos sua voz
deve recitar toda a dor
do mundo

§

Vi abbiamo mostrato come ci si batte
adesso per voi non possiamo più nulla
salvo mandarvi un po’ del nostro caffè
che vi darà coraggio e vi terrà svegli
nei giorni delle lotte anche di notte
siete robusti ma il nemico è lo stesso
ammazzate il profitto colpite al cuore
il suffragio questo governo che arranca
ostinato nell’errore e troppo libero
di ignorarvi in tutta impunità


Mostramos para vocês como lutar
agora não podemos fazer mais nada
exceto enviar um pouco do nosso café
que lhes dará coragem mantendo-os acordados
nos dias das lutas inclusive de noite
vocês são fortes mas o inimigo é o mesmo
matem o lucro golpeiem no coração
o sufrágio esse governo que arranca
obstinado no erro e livre demais
para ignorá-los em total impunidade

§

Quale effetto può produrre sapere
che noi non entreremo nella Storia?
È che lo
status quo ha la pelle dura
si riparano vetrine e facciate
L’essenza dell’azione è la presenza
per questo ci fa bene riconoscerci
Io sono dei vostri come te e lei
puntiamo i cannoni contro i maestri
se in quei palazzi ci fanno più male
che nei cieli i loro oscuri cecchini
Eccoci nudi piccoli e rabbiosi


Qual efeito pode produzir saber
que não entraremos para a História ?
É que o status quo tem a casca grossa
consertam-se vitrines e fachadas
A essência da ação é a presença
por isso nos faz bem nos reconhecermos
Eu sou da turma de vocês e como você e ela
apontamos os canhões contra os mestres
se naqueles prédios nos machucam mais
do que nos céus seus obscuros franco atiradores,
Aqui estamos nus pequenos e raivosos

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Sessão Vagalume|Andrea de Alberti, por Prisca Agustoni

Andrea de Alberti nasceu em Pavia em 1974. Trabalha num restaurante da cidade, onde realiza também recitais de poesia : a Osteria alle Carceri. Publicou Solo buone notizie (2007), Basta che io non ci sia (2010), Litalía (2011), Dall’interno della specie (2017) e La cospirazione dei tarli (2019).
Os poemas aqui traduzidos foram extraídos do livro Dall’interno della specie, Torino, Einaudi, 2017.

Prisca Agustoni

* * *

SOTTO IL REGNO DELLA FINZIONE

Sotto il regno della finzione i segnali
avevano un flusso ordinato dal talamo alla corteccia,
aurore celesti, azzurre virate in un cielo invernale,
pensieri, ricordi, ciò che distingue una specie,
ciò che ci ha consentito di sopravvivere per anni.
Sarebbero state le prove del tempo che avanza con niente.
Dentro a ogni uomo rimane un futuro da riciclare,
paesaggi intravisti a un passo dal nulla,
traguardi pensati la notte, scintille d’infinito,
il corpo sconnesso dell’animale.
Bisogna pensare all’evoluzione della specie
come a una ramificazione cerebrale
che lotta sottoterra per difendersi dal tempo.


SOB O REINO DA FICÇÃO

Sob o reino da ficção os sinais
tinham um fluxo ordenado do tálamo até a casca,
auroras celestes, viragens azuis num céu de inverno,
pensamentos, lembranças, o que diferencia uma espécie,
o que nos permitiu que sobrevivêssemos por anos.
Seriam as provas do tempo que avança com nada.
Dentro de cada homem há um futuro reciclável,
paisagens vislumbradas a um passo do nada,
metas pensadas de noite, faíscas do infinito,
o corpo desconectado do animal.
É preciso pensar na evolução da espécie
como numa ramificação cerebral
que luta sob a terra para se defender do tempo.

§

NON LASCIATE I FIGLI A CASA

Non lasciate i figli a casa a smussare l’ironia degli spigoli,
a relazionarsi con la tranquillità degli angoli,
a impossessarsi del buio,
a scegliere sul divano le pietre di paragone,
a fare la guardia alle frontiere del giardino,
a terrorizzare le facce dentro gli specchi dei bagni,
a lavarsi le mani per ogni giorno che passa,
non lasciate i figli a casa a ordinare i cassetti
dove sistemare i cattivi maestri,
a chiamarti papà quando sono stanchi,
a muoversi in equilibrio sopra un filo di vento,
quando le foglie si staccano
e pesano sulla loro immaginazione.
Non lasciate i figli a casa a capire da soli
il perché di questo cadere naturale,
senza una spiegazione.


NÃO DEIXEM OS FILHOS EM CASA

Não deixem os filhos em casa lixando a ironia das bordas,
relacionando-se com a quietude dos cantos,
apropriando-se do breu,
escolhendo no sofá as pedras de toque,
vigiando as fronteiras do jardim,
aterrorizando os rostos dentro dos espelhos dos banheiros,
lavando-se as mãos por cada dia que passa,
não deixem os filhos em casa ordenando gavetas
onde guardar maus professores,
chamando-te pai quando estão cansados,
movendo-se em equilíbrio sobre um fio de vento,
quando soltam-se as folhas
e pesam sobre sua imaginação.
Não deixem os filhos em casa descobrindo sozinhos
o porquê desse cair natural,
sem uma explicação.

§

TANA

La volontà di immaginare il pericolo
questa sconfinata quantità di persone
indirizzate a una tana.
Sarà stato come nel primo conflitto mondiale
un’illusione indiretta
un’organizzata sensazione di morire
che non può trovare esito in nessun cuore.


COVIL

A vontade de imaginar o perigo
essa infinita quantidade de pessoas
dirigidas rumo ao covil.
Terá sido como no primeiro conflito mundial
uma ilusão indireta
uma organizada sensação de morte
que não pode encontrar desfecho em coração nenhum.

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Sessão Vagalume|Antonella Anedda, por Prisca Agustoni

Antonella Anedda nasceu em Roma, em 1955. Formou-se em História. É doutora em Filosofia pela Universidade de Oxford. Foi professora na Universidade de Siena, na Itália, atualmente leciona literatura italiana contemporânea na Universidade da Suíça italiana, em Lugano. É tradutora e ensaísta.

Uma das vozes mais importantes e reconhecidas da poesia italiana contemporânea, publicou inúmeros livros de ensaios críticos e de tradução, além das coletâneas de poesia Residenze invernali (1992), Notti di pace occidentale (1999), Il catalogo della gioia (2003), Dal balcone del corpo (2007),Salva con nome (2012) e o mais recente Historiae (2018). Com sua poesia recebeu os mais importantes prêmios literários italianos.

Sua obra foi traduzida por prestigiosos tradutores como Jean-Baptiste Para na França e Jamie McKendrick na Inglaterra, entre outros.

Os poemas que escolhi revelam o mergulho do olhar da poeta dentro da história de um ocidente estarrecido diante da sequência dos conflitos dos anos noventa, isto é, a guerra do Golfo e o conflito no Kosovo.

* * *

1.

Vedo dal buio
come dal piú radioso dei balconi.
Il corpo è la scure: si abbatte sulla luce
scostandola in silenzio
fino al varco più nudo – al nero
di un tempo che compone
nello spazio battuto dai miei piedi
una terra lentissima
-promessa.


1.

Vejo desde o escuro
como desde o mais radiante dos balcões.
O corpo é o machado: abate-se sobre a luz
afastando-a em silêncio
até a fenda mais nua – ao breu
de um tempo que compõe
no espaço batido por meus pés
uma terra lentíssima
prometida.

§

2.
Non volevo nomi per morti sconosciuti
eppure volevo che esistessero
volevo che una lingua anonima
-la mia –
parlasse di molte morti anonime.
Ciò che chiamiamo pace
ha solo il breve sollievo della tregua.
Se nome è anche raggiungere se stessi
nessuno di questi morti ha raggiunto il suo destino.


Non ci sono che luoghi, quelli di un’isola
da cui scrutare il Continente
-l’oriente- le sue guerre
la polvere che gettano a confondere
il verdetto: noi non siamo salvi
noi non salviamo
se non con un coraggio obliquo
con un gesto
di minima luce.


2.

Não queria nomes para mortos desconhecidos
porém queria que existissem
queria que uma língua anônima
a minha-
falasse de muitas mortes anônimas.
O que chamamos de paz
tem apenas o breve alívio da trégua.
Se nome também é alcançar a si mesmos
nenhum desses mortos alcançou seu destino.

Existem somente lugares, os de uma ilha
de onde olhar o Continente
o oriente – suas guerras
a poeira que lançam confundindo
o veredito: nós não estamos a salvo
nós não salvamos
a não ser com uma coragem oblíqua
com um gesto
de mínima luz.

§

3.

Luglio, notte

Perché il male si scomponga come il criceto sepolto in una scatola
di scarpe nella terra dell’orto

Perché arrivi a me stanotte lo spavento destinato ad altri

La vedo, questa donna che per ore ha fissato il televisore
acceso e ora grida contro un altro corpo in penombra
immobile sulla poltrona senza colore.


3.

Julho, noite

Para que o mal se decomponha como o hamster sepultado numa caixa
de sapatos na terra da horta

Para que chegue até mim essa noite o susto destinado a outros

Vejo-a, essa mulher que durante horas fixou a televisão
ligada e agora grita contra outro corpo na penumbra
imóvel na poltrona sem cor.

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Sessão Vagalume|Cristiano Poletti, por Prisca Agustoni

Cristiano Poletti (Treviglio, 1976) é autor de Porta a ognuno (poesia, L’arcolaio, 2012); do ensaio Trovandomi in inviti superflui, em L’attesa e l’ignoto – l’opera multiforme di Dino Buzzati (L’arcolaio, 2012); das prosas críticas recolhidas em Dei poeti (Carteggi letterari, 2019); do livro Libellula gentile, com o documentário de Francesco Ferri dedicado à figura e ao trabalho de Fabio Pusterla (Marcos y Marcos, 2019) e de Temporali (Marcos y Marcos, 2019). De 2007 a 2017 dirigiu Trevigliopoesia, festival de poesia e de videopoesia. Desde 2013 é redator do blog literário Poetarum Silva (poetarumsilva.com). Trabalha na Universidade de Bérgamo.

Prisca Agustoni

* * *

LA TORRE DEI NOSTRI OCCHI

Soltanto all’alba cedere, dormire.
In sogno eravamo
non lontano dagli spari.
Buchi sui muri, buchi di paesi.
Passavamo da Bihać
ai morti inchiodati a Srebrenica, a Vukovar.

Avete
sostanza di Babele, siete
la torre nei nostri occhi.
Né storia o intelligenza,
il sogno è solo un’ombra tra le dita.
Si ripete così la vita
e il tempo intanto regola
la sua barba di re. Così
mentre aspettiamo nuovi crolli
immaginate
voi quello che resta.

A TORRE DOS NOSSOS OLHOS

Ceder apenas ao amanhecer, dormir.
No sonho não estávamos
longe dos disparos.
Buracos nos muros, buracos de vilarejos.
Passávamos de Bihać
Para os mortos cravados em Srebrenica, em Vukovar.

Vocês têm
substância de Babel, são
a torre em nossos olhos.
Nem história ou inteligência,
o sonho é somente uma sombra entre os dedos.
Repete-se a vida
enquanto o tempo regula
sua barba de rei. Assim
enquanto esperamos por novas quedas
imaginem
vocês o que resta.

§

NEGLI ANNI UN NERVO

È stata una città e tutto un ritorno
verso casa, verso sera.
Era una strada, nel bianco del caldo
nell’impermanenza di due ore
diverse.
Dentro, l’immagine di un ragazzo.
Ed era
stringere negli anni un nervo, fissando
il fuori in fiamme col tremore
dei temporali negli occhi.


NOS ANOS UM NERVO

Foi uma cidade e uma grande volta
rumo à casa, rumo à noite.
Era uma estrada, no branco do calor
na impermanência de duas horas
distintas.
Dentro, a imagem de um rapaz.
E era
apertar nos anos um nervo, fixando
o fora em chamas com o tremor
dos temporais nos olhos.

§

QUADRO, LAGO

Sai dove
tra nuove altitudini e voci
si stacca carne dalle ossa.
Così e in dialetto si diceva
quando improvvisamente
ci si riconosceva in un limpido
tornato grigio, cenere.
In una lontananza
di ognuno e tutti in un confine. Il lago
adesso
supplica ogni voce
di tornare.
Nei fosfori di fuori,
pronto alla carne, alle ossa,
c’è il lupo delle parole.
Presto. Torna. Parla.
Parliamo, sono qui.


QUADRO, LAGO

Sabes onde
entre novas alturas e vozes
desprende-se a carne dos ossos.
Desse jeito e em dialeto dizia-se
quando subitamente
nos reconhecíamos num límpido
feito cinza, fuligem.
Numa distância
de todos num limite. O lago
agora
suplica para que cada voz
retorne.
Nos fósforos de fora,
pronto para a carne, os ossos,
está o lobo das palavras.
Cedo. Volta. Fala.
Falemos, estou aqui.

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Sessão Vagalume|Eleonora Rimolo, por Prisca Agustoni

Eleonora Rimolo (Salerno, 1991) é doutora em Estudos Literários na Universidade de Salerno. Entre suas publicações: La resa dei giorni (Alter Ego, 2015 – Prêmio Giovani Europa in Versi), Temeraria gioia (Ladolfi 2017 – Prêmio Pascoli, Prêmio Civetta di Minerva, Finalista Prêmio Fogazzaro e Prêmio Fiumicino) e La terra originale (Pordenonelegge-Lietocolle, 2018- Prêmio Achille Marazza, Prêmio Pordenonelegge Poesia, Prêmio Minturnae). Seus inéditos foram publicados em diversas revistas italianas e traduzidos em diversas línguas (espanhol, árabo, russo, francês, inglês, romeno). É diretora da Sessão online da revista literária Atelier.

Prisca Agustoni

* * *

Poemas de La terra originale, Pordenonelegge-lietocolle, 2018.

1.

Ci hanno detto di uscire il meno possibile,
solamente se urgente: polveri sottili,
smog, troppe sirene moleste. Mi difendo
così dai batteri, dalle spore, dai sorrisi
che non avrei incontrato. Trascorro i giorni
della malattia respirando la stessa aria
di sempre, osservo la sua caparbietà
la comparo alla mia penso a chi andrà via
per prima. Intanto la plastica fonde
cerca asilo nei polmoni dei superstiti,
con la pioggia non si può deglutire, brucia
l’ipotesi della resistenza, acre carità.


1.

Nos disseram para sair o menos possível,
só se fosse urgente: pó fino,
poluição, muitas sirenes irritantes. Desse modo
defendo-me das bactérias, dos esporos, dos sorrisos
que não teria encontrado. Passo os dias
da doença respirando o mesmo ar
de sempre, observo sua teimosia
comparo-a com a minha penso em quem irá
embora primeiro. Enquanto isso, o plástico derrete
procura asilo nos pulmões dos sobreviventes,
com a chuva não dá para engolir, queima
a hipótese da resistência, áspera caridade.

§

2.

A mani nude gli studiosi scavano le fondamenta
piegati sul fossato: dicono vi siano tracce
di una civiltà antichissima, credono a quanto c’è
dietro la superficie, pure se la pioggia impasta la pietra,
li sporca di melma, complica l’esercizio della ricostruzione.
È triste questo nostro bisogno di ordine,
lo strappare la radice e non trovare il seme:
è un franare senza poter bloccare la discesa,
precipitare a brandelli privi del termine di caduta.


2.

De mãos vazias os estudiosos cavam os alicerces
dobrados sobre o fosso: dizem que há rastros
de uma civilização antiquíssima, acreditam no que há
atrás da superfície, mesmo que a chuva amasse a pedra,
sujando-os de lama, complicando o exercício da reconstrução.
É triste nossa necessidade de ordem,
o rasgar a raiz e não achar a semente:
é um ruir sem poder impedir a descida,
precipitar em pedaços sem o prazo da queda.

§

3.

Con i muscoli rotti dall’umido passo
trasciniamo le settimane, pronunciamo
distintamente tre parole sole. Essere
stanco significa soffocare dentro a un letto,
spendere meno sangue possibile per non
replicare il dolore: in questo modo
non ricrescono le voglie, si eradicano
tutti i contagi e in me non resta
che il deserto asettico dove ci siamo
contaminati, in cui siamo stati lasciati.


3.

Com os músculos rompidos pelo passo úmido
arrastamos as semanas, pronunciamos
distintamente três palavras solitárias. Estar
cansado significa sufocar dentro de uma cama,
gastar menos sangue possível para não
replicar a dor: dessa forma
as vontades não voltam a crescer, erradicam-se
todos os contágios e em mim resta apenas
o deserto asséptico onde
nos contaminamos, onde fomos largados.

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Sessão Vagalume|Laura Accerboni, por Prisca Agustoni

Laura Accerboni nasceu em Gênova em 1985. Formada em Letras Modernas, viveu em Lugano (Suíça) onde conseguiu o Master em Literatura Italiana (USI). Atualmente vive em Genebra. Tem poemas publicados em inúmeras revistas italianas e internacionais (Nuova Corrente, Italian Poetry Rewiew, Gradiva, Poesia, Lo Specchio, Steve, Capoverso, Loch Raven Rewiew). Em 2010 publicou seu primeiro livro, Attorno a ciò che non è stato (Edizioni del Leone, Prêmio Marazza Opera Prima, 2012). Em 2015 publicou La parte dell’annegato, uma versão e-book pela editora Nottetempo. Está no prelo com a editora Einaudi de Turim sua próxima coletânea de poemas, Acqua acqua fuoco.
Seus poemas foram traduzidos para o alemão, o francês, o inglês, o armênio o e romeno. Accerboni realizou leituras em numerosos festivais literários internacionais.

Prisca Agustoni

* * *

De La parte dell’annegato, Ed. Nottetempo

1.
L’ospedale
è popolato da pesci.
E non si respira.
Pare che l’ossigeno
qualcuno lo paghi
per morire più sereno
e non pensare.
Non pensare
alle enormi vasche
dove ti gettano.
E che non c’è acqua
non lo capisci subito.
Solo quando
le braccia tirano
e la trasformazione in branchie
è già avvenuta.
Rivoglio i miei polmoni
qualcuno urla
altri più tranquilli
smettono di tremare.


1.
O hospital
é povoado por peixes.
E não se respira.
Parece que alguém
paga o oxigênio
para morrer mais sereno
e para não pensar.
Não pensar nas banheiras enormes
onde te jogam.
Você não entende logo
que não tem água.
Somente quando
os braços puxam
e a transformação em guelras
já aconteceu.
Quero meus pulmões de volta
grita alguém
outros mais tranquilos
param de tremer.

§

2.
Ho pensato
non fosse giusto
per i pesci
abitare corpi
per smaltirli
più in fretta
quando l’uomo
li rilascia sul fondo
per non farsi trovare
magari uniti al cemento
i piedi
e corde
e un sacchetto
sulla testa.
Questo a un pesce
non si dovrebbe fare:
costringerlo
a nuotare tra le vene
e obbligarlo a imparare
la geografia polmonare
di altre specie.


2.
Pensei
não está certo
que os peixes
habitem corpos
para escoá-los
mais rápido
quando o homem
os solta no fundo
para não serem descobertos
talvez colados ao concreto
os pés
e cordas
e uma sacola
na cabeça.
Não se deveria fazer
isso com um peixe:
forçá-lo
a nadar entre as veias
e obrigá-lo a aprender
a geografia pulmonar
de outras espécies.

§

3.
Mi sono riempita
una guancia sola
per assomigliare di più
al cadavere che sarò.
E mi farò tirare la pelle
e sarò tossica.
Ingiustamente
guardata come viva
non sanno
che già mi ritiro dentro:
tra gli organi interni
un’intera casa delle bambole
e qualche sigaretta di troppo.


3.
Preenchi
somente uma bochecha
para ser mais semelhante
ao cadáver que serei.
Farei com que puxem minha pele
e serei tóxica.
Injustamente
observada como viva
não sabem
que dentro já estou me encolhendo:
entre os órgãos internos
uma inteira casa de bonecas
e algum cigarro a mais.

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