poesia, tradução

Maria Borio, por Davi Araújo

Maria Borio (Perugia, 1985) é poeta e crítica literária. Doutora em Literatura Italiana Contemporânea, assina os estudos Satura. Da Montale alla lirica contemporanea (Fabrizio Serra Editore, 2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio Editori, 2018). Como poeta, publicou a série Vite unite (em XII Quaderno italiano di poesia contemporanea, Marcos y Marcos, 2015), a plaquete L’altro limite (Pordenonelegge-Lieticolle, 2017), e o livro Trasparenza (Interlinea, 2019). Escreve nos sites Le parole e le cose e La letteratura e noi, e cura a seção poesia da revista Nuovi Argomenti.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor; colaborador de Mallarmargens e diretor artístico d’A Quimera Dança. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R. W. Emerson, Caminhada, de H. D. Thoreau (Dracaena, 2011), 100 poemas de André Breton (Revista Agulha, 2019), e diversos poetas reunidos em Do silêncio ao céu (inédito). Lança este ano, pela Urutau, seu próximo livro de poemas: O físsil.

* * *

O céu

Sei que ἁρμονία significa também coligação,
conexão, união. “Enquanto restarem unidos
os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”

(Odisseia, V, 361-362)

As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curtocircuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultrasons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz grisazulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.

§

Il cielo

So che ἁρμονία significa anche collegamento,
connessione, unione. «Finchè restano uniti
i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
(Odissea, V, 361-362)

Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.

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Padrão
tradução

Goliarda Sapienza (1924-1996), por Valentina Cantori

goliarda

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi poeta, prosadora e atriz italiana. Desobediente, incômoda e revolucionária, só quase um século após seu nascimento se tornou umas das maiores vozes da literatura italiana do Novecento.

Nascida na Catania dos anos 20, Goliarda passa a vida inteira imersa em arte e política. Filha de Maria Giudice, importante figura da política italiana, e de Giuseppe Sapienza, advogado socialista, é criada num ambiente intelectual refinado e comprometido, que apoia medidas progressistas e aprecia as tradições regionais de uma Sicília modesta e vibrante.

Muda-se para Roma para estudar na Academia de Arte Dramática; é no teatro e no cinema que inicia sua carreira. A morte da mãe no começo dos anos 50 marca o surgir da atividade poética de Goliarda, que reverte na poesia a própria necessidade de expressão. Nessa época é concebida a coletânea Ancestrale, revelando uma poesia escrita para resgatar a memória e investigar seus dilemas – I luoghi ancestrali della memoria é uma das primeiras propostas de título. O livro, no entanto, foi publicado sessenta anos depois.

Desejo de vida e pulsão de morte se amarram nos versos e na vida da autora, que sofre longos períodos de depressão e tenta o suicídio duas vezes, sendo também internada em manicômio. No começo dos anos 70 ocorre outro fato marcante para sua escrita: denunciada por um furto de jóias, é presa e detida na prisão de Rebibbia, experiência que dá origem a L’Università di Rebibbia, romance no qual relata juntamente a brutalidade do sistema carcerário e o desejo de vida das presidiárias.

Em 1976 termina o romance considerado sua obra-prima: L’arte della gioia, rejeitado pelas editoras durante quase vinte anos, publicado em forma parcial apenas em 1994.

Goliarda – seu nome já é senhal – possui uma escrita autêntica e vigorosa, sem enfeites ou tendências moralizantes, em que persiste o desejo de testemunhar a realidade tangível, bela e áspera conjuntamente. Numa entrevista de 1984, contando sobre a própria vivência no cárcere romano, a poeta lembra que em sua casa se costumava dizer “il proprio Paese si conosce conoscendo il carcere, l’ospedale e il manicomio”. De lucidez apaixonada e pungente, Sapienza é na vida como na arte.

 

Valentina Cantori é formada em Literatura Italiana e Linguística pela Universidade de Roma La Sapienza, possui doutorado em Filologia e Linguística românica pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pela Universidade de Macerata. Atualmente leciona língua e literatura italianas em São Paulo.

* * *

 

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.

È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.

§

 

Para minha mãe

Quando eu voltar
será noite fechada
Quando eu voltar
as coisas estarão quietas
Ninguém vai me esperar
naquele leito de terra
Ninguém vai me acolher
naquele silêncio de terra

Ninguém vai me consolar
por todas as partes já mortas
que carrego em mim
com resignada impotência
Ninguém vai me consolar
pelos instantes perdidos
pelos sons esquecidos
que há tempo
viajam ao meu lado e tornam denso
o respiro, lamacenta a língua

Quando eu chegar
apenas uma fenda
vai conseguir me segurar e mão nenhuma
vai aplanar a terra
sob as faces gélidas e mão
nenhuma vai se opor à pressa
da pá ao seu ritmo indiferente
para aquele fim estranho, repugnante

Pudesse eu naquela noite
vazia pôr a minha testa
no teu grande seio de sempre
Pudesse eu me envolver
com o teu braço e segurando
nas mãos o teu pulso delgado
por pensares agudos
por terrores cortantes
pudesse eu naquela noite
sentir de novo
o meu corpo ao lado do teu vigoroso
materno
gasto de partos tremendos
arrebentado de longas uniões

Mas tão tardia
a minha noite e já
não podes esperar mais
E ninguém vai aplanar a terra
sob o meu flanco
ninguém vai se opor à pressa
que agarra os homens
perante um caixão

A mia madre

Quando tornerò
sarà notte fonda
Quando tornerò
saranno mute le cose
Nessuno m’aspetterà
in quel letto di terra
Nessuno m’accoglierà
in quel silenzio di terra

Nessuno mi consolerà
per tutte le parti già morte
che porto in me
con rassegnata impotenza
Nessuno mi consolerà
per quegli attimi perduti
per quei suoni scordati
che da tempo
viaggiano al mio fianco e fanno denso
il respiro, melmosa la lingua

Quando verrò
solo una fessura
basterà a contenermi e nessuna mano
spianerà la terra
sotto le guance gelide e nessuna
mano si opporrà alla fretta
della vanga al suo ritmo indifferente
per quella fine estranea, ripugnante

Potessi in quella notte
vuota posare la mia fronte
sul tuo seno grande di sempre
Potessi rivestirmi
del tuo braccio e tenendo
nelle mani il tuo polso affilato
da pensieri acuminati
da terrori taglienti
potessi in quella notte
risentire
il mio corpo lungo il tuo possente
materno
spossato da parti tremendi
schiantato da lunghi congiungimenti

Ma troppo tarda
la mia notte e tu
non puoi aspettare oltre
E nessuno spianerà la terra

sotto il mio fianco
nessuno si opporrà alla fretta
che prende gli uomini
davanti a una bara

§

 

Peroração

Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

Perorazione

Non sprecare il tepore del tuo pube
non serrare il tuo passo in gonne strette
di tetra seta, ma lascia
per favore accenderti i capelli
dal sole che scantona dietro il muro.

Non vorrei che sorpresa dalla luna
ti trovassi costretta in una notte
a gridare pentita con quel viso
di donna dissecata sopra il tuo.

§

 

Separar confluir
espargir no ar
apertar no punho
reter
entre os lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
diferenciar no cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

Separare congiungere
spargere all’aria
racchiudere nel pugno
trattenere
fra le labbra il sapore
dividere
i secondi dai minuti
discernere nel cadere
della sera
questa sera da ieri
da domani

§

 

Um voo e o quarto de repente
encheu-se do aroma acre de verão.
A tua voz apagou-se com a luz
que morria no escuro da folhagem.
Um sopro quente alentava nos cingia
e deitadas ficamos a esperar.

Un volo e in un attimo la stanza
fu colma d’un sentore acre d’estate.
La tua voce si spense con la luce
che moriva nel nero del fogliame.
Un fiato caldo alitava ci cingeva
e restammo supine ad aspettare.

Padrão
tradução

Maddalena Lotter (1990-), por Francesca Cricelli

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Maddalena Lotter (1990-) nasceu e vive em Veneza. É musicista, flautista, formada em música e letras clássicas pela Universidade Ca’ Foscari de Veneza. Integra a Orquestra de Câmara de Veneza. Ganhou o prêmio Taglio de poesia na Itália e foi finalista de inúmeros outros como o prêmio Carducci.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demonio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017). Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

 

sergio maciel

* * *

Há um respeito entre os troncos
podem florir um ao lado do outro
mas devagar, com a devida distância
deixar espaço ao hálito das ramas;
queria aprender com as árvores
como se deter sem fusão mas
veio então a tempestade, a mesma
água, pensei, que molha agora
tua casa vale abaixo.

C’è un rispetto fra i tronchi
si può fiorire l’uno accanto all’altro
ma piano, a dovuta distanza
lasciare spazio al respiro dei rami;
volevo imparare dagli alberi
come si sta senza fusione ma poi
è arrivata la tempesta, la stessa
acqua, ho pensato, che ora bagna
la tua casa a valle.

§

Faz escuro em Veneza,
os telhados antigos das casas se debruçam
rubros e cor-de-rosa sobre a água enquanto fecha
o mercado do peixe
e são de ouro nossas vontades mudas.

Si fa buio a Venezia,
i tetti antichi delle case si affacciano
rossi e rosa sull’acqua mentre chiude
il mercato del pesce
e d’oro son le nostre voglie mute.

§

Os corpos nos anos, isso faz curiosas as minhas mãos
à procura de idades diferentes
quero tocá-los todos, os outros
com seus mundos de pele.
Só a pele responde à demanda do tempo.
O corpo sabe de casas não minhas
nas quais entra-se com educação
tirando os sapatos;
horas e horas numa cama acariciando
as costas, muros de vértebras
e a coluna é uma rodovia
dos teus anos de ontem
dos quais não participei.

Mas te viras no escuro e nos olhamos
tenho então um nome,
eu sou o hoje imortal.

I corpi negli anni, questo fa curiose le mie mani
alla ricerca di età diverse
voglio toccarli tutti, gli altri
con i loro mondi di pelle.
Solo la pelle risponde alla domanda sul tempo
Il corpo sa di case non mie
dove si entra con educazione
togliendosi le scarpe;
ore ed ore in un letto a carezzarsi
le schiene, muri di vertebre
e la colonna è un’autostrada
dei tuoi anni di ieri
a cui non ho partecipato.

Ma se ti volti nel buio e ci guardiamo
allora ho un nome,
io sono l’oggi immortale.

§

Saber ficar sem; nasce-se para isso
para desatar as mãos dos quadris
tornar-se distância. Ninguém permanece
mais do que um átimo, há átimos com distinta
duração mas com o mesmo procedimento.
Havia um que parecia infinito
e o amamos muito.

Uma vez compreendido exercitar-se
para unidade mínima do fôlego, manter
o ar e também isto, depois, soltar.

Saper fare a meno; si nasce per questo
per sciogliere le mani lungo i fianchi
diventare distacco. Nessuno rimane
più di un attimo, ci sono attimi con diversa
durata ma con la stessa procedura.
Ce n’era una che pareva infinita
e molto l’avevamo amata.

Ma una volta capito esercitarsi
all’unità minima del respiro, tenere
l’aria e anche quella, poi, lasciare.

§

Aconteceu
quando o dia inteiro tentei
me isolar e só respirar
vertical e não ouvi-los nunca
em seus medos e exterminadas pretensões;
finalmente esquecida
veio-me por cima o sono quieto e fundo
como a mão do mar.

Avvenne
quando per tutto il giorno cercai
di isolarmi e solo respirare
verticale e non ascoltarli mai
nelle loro paure e sterminate pretese;
finalmente dimenticata
il sonno mi fu sora zitto e fondo
come la mano del mare.

Padrão
poesia, tradução

Um soneto de Dante, por Matheus Mavericco

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Saudação de Beatriz, pintura a óleo de Dante Gabriel Rossetti.

Célebre soneto que, se há trinta e cinco anos era companheiro de vida de Dámaso Alonso (isso numa passagem belíssima logo no início de seu Poesia espanhola), sem exagero nenhum podemos dizer que há séculos é companheiro de qualquer pessoa que se encante por poemas. E olha, falo sem exagero. A humanidade objetivamente se aprimorou depois que um belo dia alguém sentou e, após apagar “Atualmente a tua mente atua ou mente?”, escreveu: “Tanto gentile e tanto onesta pare“. A forma mais límpida que encontrei de homenageá-lo, por tudo o que ele representa, é compilando todas as traduções que conheço dele, o que dá uma postagem e tanto, capaz de incluir, em seu bojo, um rol ilustríssimo de tradutores.

É só bater o olho e reverenciar nomes como Henriqueta Lisboa, Ivo Barroso, Jorge Wanderley, Décio Pignatari, Augusto de Campos. Mais do que um número gordo de versões, existe, aqui, uma verdadeira história. E não só a história de um soneto traduzido por muitos nomes: existe, também, a história de épocas que se entrecruzam e deixam seu legado umas pras outras, o que é facilmente comprovável se compararmos, por exemplo “envolta de modéstia nobre e pura” de Henriqueta Lisboa a “afável na humildade que não muda” de Décio Pignatari. Isso é tão interessante que me faz lembrar, até, de uma passagem do grande Augusto Meyer em que ele comentava esse soneto do Dante e dizia que todos os tradutores sempre caíam no falso cognato de labbia, isto é, parece que é “lábio” mas na verdade é “semblante” (a palavra também aparece no Inferno, XIX, 123, e Purgatório, XIII, 47). Burrice nacional? Comunopetismo? Illuminati? Vamos com calma. Caíram nessa armadilha, mas não incorreram no deslize de achar que piacente se refere a “pia”… Sacou? Uma verdadeira história, eu disse. Pois é.

Quanto ao soneto, aqui o que Dante está fazendo é, basicamente, descrever a impressão imortal que seu encontro com Beatriz lhe causara. E, no caso, que causava nos outros. Diz o poeta, na parte 26 de sua Vida Nova (cito a tradução de Décio Pignatari):

A mais que gentil, a que me referi nas palavras precedentes [adivinha quem é?????], granjeou tanto favor junto ao povo que, quando passava na rua, as pessoas acorriam para vê-la e disto me advinha uma grande alegria. Estivesse ela próxima de alguém, tanta honestidade instilava no coração, que a pessoa não ousava erguer os olhos ou sequer retribuir ao seu cumprimento. Muitos deles, tendo já passado pela experiência, poderiam testemunhar até junto a quem não acreditasse: caminhava coroada e vestida de humildade, sem se vangloriar do que via e ouvia. Diziam alguns, assim que ela passava: “Acho que não é mulher, mas um dos mais belos anjos do céu.” E outros: “Que maravilha! Rendamos graças ao Senhor, que tão prodigioso se mostra em suas ações!” Mostrava-se tão gentil e tão plena de todas as graças, que aqueles que a olhavam sentiam-se invadidos por uma doçura tão pura que não logravam contar o que sentiam. Não havia quem primeiro a visse que não se visse impelido a suspirar. Essas e outras coisas prodigiosas emanavam dela como virtudes. Foi pensado nisso e para retomar o estilo de sua louvação, que me propus dizer palavras nas quais conseguisse infundir quão milagrosos e superiores eram os seus fluidos, de modo que não apenas aqueles que a pudessem ver com sensibilidade, mas também os demais, conseguissem saber dela o que as palavras podem transmitir. Falei, então, neste soneto:
[Dante cita o soneto]
Este soneto é de entendimento tão simples, pelo que foi narrado antes, que não se faz necessária qualquer divisão.

Agora compare isto com aquele papinho moderno de que explicar o poema é estragá-lo. Pois é. Aqui nós notamos bem a vertente biográfica, fantasiosa (sim, fantasiosa, nutrida nas tetas provençais do amor cortês, a não ser que Beatriz fosse realmente uma Margot Robbie da época) e crítica que a Vida Nova de Dante representa (se bem que aqui o Dante tá meio que dizendo: “se depois do que eu disse tu não entendeu, rapaz, vou criar um novo círculo do inferno só pra socar gente burra que nem você”). Eu só tenho a dizer uma coisa: isso de “saber dela o que as palavras podem transmitir”… Sim, Dante. Você conseguiu. Meus parabéns, cara. Tome aqui um biscoito.

Quanto à compilação. Disse que compilei tudo o que consegui. O que consegui. Pois existem traduções às quais não consegui ter acesso. Todas traduções inclusas numa versão integral da Vida Nova. São: a do Padre Vicente Pedroso, da década de 50, publicada pela editora Atena (naquelas edições com a obra completa de Dante, em simpáticos livros em capa dura); a de Carlos Eduardo Soveral, publicada pela Guimarães Editores também na década de 50; e a de Jorge Vaz de Carvalho, publicada pela Relógio d’Água em 2010. (A Dantesca luso-brasileira de Giacinto Manuppella, na página 56, clique aqui, dá notícia de uma tradução de 1942 feita por Sidónio Miguel também.) A data de algumas traduções arroladas não está lá muito certa, de modo que minha disposição na postagem, que buscou ser cronológica, não é ideal. A versão de Vasco Graça Moura, por exemplo, eu não sei nem em que editora foi publicada (retirei-a de uma antologia online chamada Os dias do amor, aqui). A versão de Henriqueta Lisboa, publicada na reunião de sua poesia traduzida pela EdUFMG, não tem indicação de data, de modo que presumo que ela tenha sido realizado na mesma época de suas traduções de alguns Cantos do Purgatório: e por isso década de 60. A versão de Jorge de Sena eu datei como sendo da década de 70 pois foi quando sua coletânea Poesia de 26 séculos começou a ser publicada pela Editorial Inova. A versão de Ivo Barroso, pra ficarmos com um último exemplo, embora tenha sido publicada em sua reunião de traduções esparsas (um simpático livro que deveria ser reeditado!), eu presumo que tenha sido produzida antes, como, de resto, muitas das traduções contidas nesse livro (por exemplo cummings, um dos primeiros que Barroso traduziu, isso nos idos da década de 50, ainda na coluna encabeçada por Mário Faustino).

Minha tradução, espremidinha no meio de tanta gente ilustre, não teve como fito, conforme no geral acontece quando eu faço essas compilações enormes, buscar por soluções distintas, mas, antes, manter as rimas em “-uda” (correspondente perfeito para o “-uta” do original) nos quartetos, à maneira do que Ivo Barroso fizera.

 

matheus mavericco

 

§

trad. Paulo M. Oliveira e Blasio Demetrio. [1937]
em: Vida Nova, Biblioteca Clássica, Volume XX, p. 72.

Tão honesta e gentil, ao nos saudar,
Minha amada aparece em nossa vida,
Que toda bôca treme, emudecida,
E os olhos a não ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
Humildemente, de pudor vestida;
Parece que no céu foi escolhida
Para à terra um milagre revelar.

Tão amável se mostra a quem a mira
Que no peito desperta uma doçura
Que só pode entender quem a conhece;

E dos seus lábios emanar parece
Um espírito cheio de ternura
Que vai dizendo ao coração: “Suspira!”

§

trad. Arduíno Bolívar. [1950]
em: Poesias, W. M. Jackson. Não sei a página. Retirado daqui com informação complementar aqui.

É tão gentil e tão honesto o ar
Da minha Dama, sempre que aparece
E a outrem saúda, que ante ela emudece
Toda língua, e ninguém ousa falar.

Ela se vai sentindo-se louvar,
Vestida de humildade, e até parece
Coisa que lá do Céu à terra desce
A fim de a todos nos maravilhar.

Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.

Parece que do seu lábio se mova
Um suspiro suave, de amor cheio,
Que vai dizendo a toda alma: suspira.

§

trad. José Lourenço de Oliveira. [1956]
em: aqui.

Mostra-se tão gentil e tão honesta
a minha dama, no seu leve andar,
que toda língua cala e em todo olhar
logo se apaga a audácia manifesta.

Benigna e simples, ela segue, a festa
do seu louvor sentindo, ao caminhar.
Parece até milagre que mostrar
acaso o céu quisesse à terra infesta.

Agrada, tanto, vê-la, a quem a mira
e tanto aquece o coração no peito
que só quem prove é quem sabe e entende.

Dos lábios seus macio se desprende,
cheio de amor, um suave alento, um jeito
que, na alma, vai dizendo-nos: suspira!

§

trad. Henriqueta Lisboa. [década de 60?]
em: Poesia traduzida, EdUFMG, 2001, p. 38-39.

Tão discreta e gentil se me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal dulçor,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Jorge de Sena. [1972]
em: aqui.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a lí¬ngua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espí¬rito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: ― Suspira.

§

trad. Décio Pignatari. [1990]
em: Retrato do amor quando jovem, Cia das Letras, 2006, p. 60-61.

É tão gentil e de vaidade isenta
a minha dama, quando alguém saúda,
que a língua logo trava, tartamuda,
e a vista na visão não se sustenta.

Quando ela passa entre os louvores, lenta,
afável na humildade que não muda,
lembra coisa do céu vinda em ajuda
de todo aquele que um milagre alenta.

Não há graça maior pra quem a mire:
uma doçura, pelo olhar, vai fundo
― e só quem já sentiu pode dizê-lo.

Velando o seu semblante com desvelo,
um espírito de Amor se mostra ao mundo,
dizendo à alma, devagar: Suspire!

§

trad. Ivo Barroso. [1991?]
em: O torso e o gato, Record, 1991, p. 24-25.

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha Dama, quando alguém saúda,
que toda boca vai ficando muda
e os olhos não se afoitam de a fitar.

Ela assim vai sentindo-se louvar
na piedosa humildade em que se escuda,
qual fosse um anjo que dos céus se muda
para uma prova dos milagres dar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que o olhar infunde ao coração dulçores
que só não sente quem jamais olhou-a.

E quando fala, dos seus lábios voa
Uma aura suave, trescalando amores,
que dentro d’alma vai dizer: “Suspira!”

§

trad. Jorge Wanderley. [1996]
em: Lírica, Topbooks, 1996, p. 286-287.

Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha amada, no saudar contida,
que toda língua treme emudecida
e os olhares não se ousam levantar.
Ela se vai, sentindo-se louvar,
mas da própria modéstia tão vestida
que parece milagre, concebida
no céu, para na terra se mostrar.
Tão suave se mostra a quem a admira
que do olho ao peito leva uma doçura
só compreendida por quem dela prova.
E talvez no seu rosto já se mova
o espírito de amor e de brandura
que vai dizendo ao coração: Suspira.

§

trad. Vasco Graça Moura. [anos 2000?]
em: aqui.

Parece tão gentil, tão recatada,
minha senhora quando alguém saúda,
que toda a língua treme e fica muda
e olhá-la até seria ideia ousada.

Quando ela passa, ouvindo-se louvada,
benignamente a humildade a escuda,
tal uma cousa que do céu acuda
à terra, por milagre revelada.

Tal graça ao coração de quem na mira
está pelos olhos uma doçura a pôr
que não pode entender quem a não prove;

e dos lábios parece que se move
um espírito suave e só de amor
que vai dizendo à alma assim: Suspira.

§

trad. Augusto de Campos. [2003]
em: Invenção, Arx, 2003, p. 272-273.

É tão gentil, é tão honesto o olhar
de minha dama quando a alguém saúda
que toda língua treme e fica muda
e os olhos não a ousam contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
benignamente em singelez vestida,
como se fora coisa remetida
do céu para um milagre nos mostrar.

Mostra tanto prazer a quem a mira,
que dá, através dos olhos, um dulçor
que não pode entender quem não o prove,

e de seus lábios como que se move
um espírito suave, todo amor,
que vai dizendo ao coração: suspira.

§

trad. Ferreira Gullar. [2014]
em: O prazer do poema, Edições de Janeiro, 2014, p. 82.

Tão honesta e gentil, até na fala,
é minha amada, quando a alguém saúda,
que toda e qualquer língua fica muda,
e os olhos não se atrevem a contemplar.

Ela assim vai, sentindo-se louvar,
vestida de humildade: de tão linda
lembra um milagre e até parece vinda
do céu para na terra se mostrar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que olhá-la ao coração leva doçura,
mas não pode entendê-lo quem não prova:

e talvez porque em seus lábios se mova
um espírito tão cheio de candura
que vai dizendo ao coração: “Suspira”.

§

trad. Matheus Mavericco. [2016]

É tão gentil e tão honesto o ar
de minha dama, quando ela saúda,
que toda boca treme e fica muda
e nem o olhar se atreve a contemplar.

Ela se vai, sentindo-se louvar,
trajada de uma singelez que aluda
à coisa que do céu à terra muda
intentando um milagre revelar.

Tão afável se mostra a quem a admira
que pelo olhar faz doce o coração ―
só não entende aquele que não prove.

De seu semblante como que se move
suave sopro pleno de paixão
que vai dizendo à toda alma: Suspira.

 

§

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.

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poesia, tradução

perverter cummings, achar ungaretti

 

ontem o matheus mavericco fez uma bela postagem sobre o poema mais famoso de e.e.cummings por estas plagas.

bateu aquela vontade de traduzir, mas acabei pervertendo, o que é uma forma honesta de versão.

aqui vão elas, sem mais.

guilherme gontijo flores

§

a primeira é um contracummings que celebre a rosa em flor, num movimento de interioridade que pode apontar para a pluralidade relativa (reparem em os, as, o, um, em vez da série de l e a do inglês). transmutação da folha em queda para flor&força

contracummings

§

a segunda vem de uma coincidência sonora: o poema mais famoso de giuseppe ungaretti, “mattina”, tem apenas seis sílabas poéticas (m’illumino d’imenso), tal como este de cummings (loneliness, a leaf falls, se lermos as duas imagens em linha). traduzi então ungaretti para a forma de cummings, lançando uma série de desdobramentos interiores (me, o, l, um), que mais uma vez contrariam a solitude cummingsiana por um transbordamento do deslumbre.

cummings-ungaretti

(perversões de guilherme gontijo flores)

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Mariangela Gualatieri (1951-) por Francesca Cricelli

gualtieri-2

Mariangela Gualatieri (Cesena/ Itália, 1951), poeta e dramaturga, começa a escrever dentro do Teatro Valdoca fundada por ela mesma com o diretor Cesare Ronconi. Desde o início preocupa-se com a entrega oral da poesia – realizando leituras dos seus versos na Itália e em diversos países, esteve em São Paulo em 2012 durante o encontro e exposição “de uma estrela a outra” organizado na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de  Campos de Literatura e Poesia. Mariangela é sempre muito atenta, em suas performances, à amplificação da voz e ao encontro entre o verso poético e a música ao vivo. Seu trabalho com laboratórios de escrita e leitura é muito intenso.

Entre suas publicações destacamos:

Antenata (ed. Crocetti, Milano 1992), Fuoco Centrale (Giulio Einaudi ed. Torino 2003), Senza polvere senza peso (Giulio Einaudi ed., Torino 2006), Sermone ai cuccioli della mia specie (L’arboreto Editore, Mondaino 2006), Paesaggio con fratello rotto (libro e DVD, Luca Sossella Editore, Roma 2007), Bestia di gioia (Giulio Einaudi ed., Torino 2010), Caino (Giulio Einaudi ed., Torino 2011), Sermone ai cuccioli della mia specie con CD audio (Valdoca ed. Cesena 2012), A Seneghe.

Francesca Cricelli(Ribeirão Preto, 1982), poeta e tradutora, doutoranda em estudos da tradução pelo TRADUSP, estuda e traduz as cartas inéditas de amor de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco, o volume está no prelo pela Mondadori. Publicou o livro de poemas Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), organizou e traduziu a correspondência entre Giuseppe Ungaretti e Edoardo Bizzarri Lettere 1966/1967 (Scriptorium, 2013) e publicou o livreto de foto e poemas Tudo que toca o olhar (Casa Impressora Almería, 2013). Foi curadora da exposição e do ciclo de encontros “de uma estrela a outra” na Casa das Rosas – Espaço de Literatura e Poesia Haroldo de Campos em 2012. Participou de diversos festivais de poesia no Brasil, na Itália e na Índia, apresentou seu livro em Miami (EUA) e se prepara para novas viagens.

* * *

da BESTIA DI GIOIA

1.
Quando vuole pregare
lei va alla piscina comunale
mette la cuffia e gli occhialini
entra nell’acqua ma non è capace
di domandare, o forse non ci crede.
Allora fa una bracciata e dice
eccomi, poi ne fa un’altra
e ancora eccomi. Eccomi dice
ad ogni bracciata. Eccomi a te
che sei acqua e cloro
e questi corpi a mollo come spadaccini.

E nello spogliatoio, dopo, alla fine
prova sempre una gioia –
quasi l’avessero esaudita
di qualche cosa che non ha chiesto
che non sapeva. Che mai saprà
cos’era.

do livro BESTA DE JÚBILO

1.
Quando quer rezar
ela vai à piscina pública
põe touca e óculos
entra na água mas não é capaz
de pedir, ou talvez não acredita.
Então dá uma braçada e diz
aqui estou, e dá mais uma
e de novo, aqui estou. Aqui estou diz
que és água e cloro
e estes corpos de molho como espadachins.

E no vestiário, depois, no final
sente sempre um júbilo –
quase como houvessem atendido
a algo que não pediu
que não sabia. Que nunca saberá
o que era.

§

2.
Un mio me
soffre. Chi è? Chi scalcia sul fondo
di questo quieto piroscafo. Giù
nella stiva il passeggero più vivo
batte i suoi colpi.
Chi lo tiene sepolto? E che cosa vuole
questo bastardo bambino che scalcia?
Nel fondo di me, un me soffre –
la sua bandiera stropicciata
non ha nessun vento.
E’ murato. Il bambino più vivo
murato sul fondo.
Con la sua magra manina
mi stringe il cuore, al mattino
un poco stringe e duole.
Che cosa prometto quest’oggi al mio
prigioniero? Con quali false parole
lo tengo zitto per un giorno intero?

2.
Um meu eu
sofre. Quem è? Quem chuta no fundo
deste quieto navio a vapor. Lá embaixo
no porão o passageiro mais vivo
golpeia.
Quem o mantém enterrado? E o que quer
esta criança bastarda que chuta?
No fundo de mim, um eu sofre –
sua bandeira amarrotada
não tem vento algum.
Está murado. A criança mais viva
murada no fundo.
Com sua magra mãozinha
aperta-me o coração, de manhã
um pouco aperta e dói.
O que vou prometer hoje ao meu
prisioneiro? Com quais palavras falsas
vou mantê-lo calado por um dia inteiro?

§

8.
Forse si muore oggi – senza morire.
Si spegne il fuoco al centro.
Sanguinano le bandiere. Generale è la resa.
Ciò che nasce ora crescerà in prigionia.
Reggete ancora porte invisibili dell’alleanza
bastioni di sereno. Puntellate il bene
che si sfalda in briciole in cartoni.
Il popolo è disperso. In seno ad ognuno cresce
il debole recinto della paura – la bestia spaventosa.
A chi chiedere aiuto? E’ desolato deserto il panorama.
Si faccia avanti chi sa fare il pane.
Si faccia avanti chi sa crescere il grano.
Cominciamo da qui.

8.
Talvez se morra hoje – sem morrer.
Apaga-se o fogo no centro.
Sangram as bandeiras. A rendição è geral.
O que nasce agora crescerá na prisão.
Segurem ainda as portas invisíveis da aliança
baluartes do sereno. Escorem o bem
que se desfaz em migalhas no papelão.
O povo está disperso. No peito de cada um cresce
a débil cerca do medo – a besta assustadora.
A quem pedir ajuda? Está desolado deserto o panorama.
Venha adiante quem sabe fazer o pão.
Venha adiante quem sabe crescer o grão.
Começamos aqui.

(trad. Francesca Cricelli)

 

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crítica, poesia, tradução

nota crítica: “Poemas” de pier paolo pasolini, por ernesto von artixzffski

pasolini

saiu há pouquíssimo tempo, coisa de um mês só, o livro Poemas de pasolini; uma seleção poética organizada pelo trio que vem encabeçando as recentes publicações italianas da cosac: maria betânia amoroso (escrevendo o posfácio), alfonso berardinelli (na organização e introdução) e maurício santana dias (tradução e notas).

tendo a oportunidade de ter trabalhado com a editora na feira literária do sesc, que acontece todo ano aqui em curitiba, onde o livro foi posto à venda pela primeira vez, e vendo que a maior parte do público desconhecia o fato de pasolini ter escrito poesia,  fica impossível negar o louvor da publicação. o livro, me parece, surge em bom momento: pasolini poeta não existia no brasil! e somente 40 anos após seu brutal assassinato – até hoje um bocado obscuro e misterioso – é que nos chega uma primeira tradução. isso nos diz muito sobre nós mesmos: a poesia de pasolini parece-nos fundamental hoje.

nessa primeira edição brasileira, temos poemas de sete livros de poesia publicados em vida pelo autor (“a melhor juventude”, escrito em dialeto friulano, “o rouxinol da igreja católica”, “diários [1943-53]”, “as cinzas de gramsci”, “a religião do meu tempo”, “poesia em forma de rosa”, “trasumanar e organizar” e “a nova juventude”), seguido por excertos de três obras ensaísticas, “empirismo herético”, “escritos corsários” e “cartas luteranas”. ou seja, isso nos dá um panorama significativo, ainda que pequeno, claro, diante da vastíssima obra de pasolini, de pelo menos 30 anos de produção poética, e com isso é dado ao leitor acompanhar o percurso do quase puro lirismo dos primeiros poemas em friulano à perfeita indistinção entre poesia e prosa, com uma maior liberdade temática e formal, dos últimos livros e dos ensaios-poéticos

dito isso, tenho cá minhas ressalvas. ressalvas que, a meu ver, servem  de modo algum para depreciar o projeto em si, mas para pensar o modo de se conceber e apresentar antologias de poetas inéditos (ou mesmo dos não inéditos). críticas, duas, que se constituam talvez como mero desdobramento duma mesma: tradução e crítica (ou tradução-crítica).

embora haja “sempre uma violência contida no gesto de antologizar”, como bem disse davi pessoa, em sua resenha para o jornal o globo (clique aqui), essa violência se dará (ou ao menos assim deveria) sempre de modo consciente. a questão, portanto, não é pensar que esse ou aquele poema ficaram de fora, mas sim lidar com suas ausências, balizadas pelos motivos antológicos que justificam a seleção. é nesse sentido que, dado o caráter pioneiro do projeto, uma antologia – essa antologia! – não poderia deixar de justificar suas violências. essas justificativas, penso, que poderiam figurar como uma espécie de aporte crítico, seriam menos um mea culpa dos organizadores que uma abertura de leitura crítico-interpretativa a um leitor menos competente (ou menos pleno, ou monolíngue) no que diz respeito à poesia.

pasolini nasceu-nos sem maiores explicações.

penso que traduzir um poeta pela primeira vez é, sobretudo, fundar-lhe numa determinada cultura, fundando, também, através da tradução, sua primeira fortuna crítica, sua gramática poética, seu discurso (afinal, “com a tradução, não se crê em passar de um código a outro, mas, uma vez que sempre se traduzem discursos, textos particulares, e não línguas, são as relações com a língua, em cada caso diferentes, tanto do texto traduzido quanto do tradutor, que são evidenciadas e interrogadas”). mas essa ideia de tradução-fundadora deve, acredito, estar ligada a uma tradução que se proponha poética, e portanto crítica.

por certo a obra poética de pasolini não é uma obra de assimilação imediata. isso equivale a dizer que sua poesia, seu estilo, não se encerram num determinado modelo poético definido e amplamente praticado. pasolini foge a movimentos e escolas. seu experimentalismo comporta uma grande quantidade de engajamento; o emprego de recursos poéticos nitidamente modernos entra em choque com sua monstruosa máscara de “força do passado”; sua forma próxima à prosa ainda guarda recursos inerentes à poesia, como a rima, por exemplo. ou seja, a poesia de pasolini apresenta um caráter “onívoro”, “híbrido”, uma enorme variedade de procedimentos formais, compreendida por muitos como uma recusa à modernidade.

partindo disso tudo que foi dito, a tradução de maurício santana dias (nossa primeira tradução, acho importante sempre relembrar) não me parece muito preocupada em resolver muitos desses problemas. não me parece, até certo ponto, dar conta dessa multiplicidade de formas e procedimentos presentes na poesia do italiano. isso, claro, não é mesmo que dizer que se trate de uma tradução mediana, para usar um termo de haroldo de campos, ou que nivele os poemas por baixo, ou algo que o valha. considero apenas não se tratar de uma tradução poética (e portanto crítica). nada recriminável por si só, obviamente, mas que parece pesar um pouco quando esbarra num aporte crítico conciso demais.

alguns exemplos, talvez, ajudem um bocado a entendermos. em “balada do delírio” (p. 42), por exemplo, as rimas presentes no original são postas à parte na tradução, ainda que o tradutor, numa nota (p. 270), nos informe que segundo o próprio pasolini o esquema formal seria derivado de villon. vejamos:

Solo, solo, una statua di cera
indurita dal vecchio raggio
della mia vita già leggera…
E torna l’aria della sera
muta nel cuore del linguaggio.
Con sospiri d’anni è svanita
in lucidi orizzonti, aria
alitata da gole d’angeli,
l’esistenza – e torna alle nari
del mio cadavere, mare
di giorni dagli Ave agli Angelus.
[…]

Só, só, uma estátua de cera
endurecida pelo velho raio
de minha vida passageira…
E torna o ar da tarde
mudo no coração da linguagem.
Em anos de suspiros dissipou-se
em claros horizontes, ar
bafejado por gorjas de anjos,
a existência – e volta às narinas
de meu cadáver, mar
de horas da Ave-Maria ao Ângelus.
[…]

bem mais à frente, no poema “a poesia da tradição”, do livro “transumanar e organizar”, o verso ché organizzar significar per verba non si poria é traduzido por “porque organizar significar per verba não poderia”, constando apenas a seguinte nota: “Aqui Pasolini faz um jogo intertextual com a Commedia de Dante (“Transumanar significar per verba non si poria” Paraíso, 1, vv. 70-71), a que o título do volume Transumanar e organizar remete.”. esse caso específico eu vejo menos como problema formal (ou seja, a opção de manter o per verba) que propriamente de extensão crítica a um leitor menos experiente.

enfim & em suma, ao meu ver, é nisso que peca um pouco essa antologia: considerar pasolini parte de um cânone poético prescindível de maiores explicações. mas cânone pra quem? não para um não-leitor de italiano, ou para um leitor monolíngue. essa é nossa primeira tradução do pasolini poeta, e isso só já constitui um puta mérito, mas é justamente por ser a primeira que muita coisa permanece um tanto quanto vaga: os “hendecassílabos hipotéticos” permanecem obscuros, as oscilações líricas de certo modo tendem a se padronizar, a “desesperada vitalidade” e a “força do passado” são entrevistas com um certo esforço. a crítica não valida a tradução, nem a tradução se propõe crítica.

contudo, e do modo que for, teje fundado nosso pier paolo! nosso poeta pasolini. e isso temos muito que comemorar.

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