poesia, tradução

Edward Lear, por Cecilia Silva Furquim Marinho

Poemas nonsense para crianças (e adultos acriançados) em tempos de quarentena

Tradução de um poema autobiográfico e de sete exemplos de poesia e ilustração nonsense do viajante Edward Lear, feitos para serem cantados. Essas ‘canções’ estão presentes em dois dos quatro livros que o autor publicou em vida, e que depois foram agrupados num mesmo volume com a inserção do poema autobiográfico na apresentação[1]. Os três primeiros exemplos foram retirados de Nonsense songs and stories (1871), e os outros quatro de Laughable Lyrics. A Fourth Book of Nonsense Poems, Songs, Botany, Music, &c. (1886). Acompanham as duas únicas partituras preservadas de sua música e um link com a gravação de uma delas em português. O trabalho se fez a partir do paradigma tradutório de Haroldo de Campos e, em alguns exemplos, foi acompanhado da orientação do letrista Carlos Rennó no programa formativo de tradutores da Casa Guilherme de Almeida. Posteriormente esse trabalho pretende ser lançado em parceria com outros músicos, agregando novas melodias e gravações originais.

Edward Lear foi um poeta, desenhista e pintor inglês que viveu de 1812 a 1888. Ele começou a escrever, ilustrar e musicar versos para divertir filhos de amigos. Acabou publicando seus trabalhos e tornando-se muito famoso pelo estilo inovador e pela capacidade de multiplicar os admiradores de sua obra dentro do continente europeu e além mar. Foi ele quem cunhou o termo ‘nonsense’ ao nomear seus livros com esse adjetivo e é referência na produção e inspiração desse gênero cômico que trabalha com associações curiosas e com grande musicalidade e jogos de palavras.

Em tempos de quarentena, esse recorte de sua produção convida as crianças a conhecer um pouco desse escritor e dar sua opinião: esquisito ou encantador? A se identificar com o escape ousado de um quebra nozes e uma pinça de açúcar que não se conformavam com a chatice de uma existência confinada sobre a mesa de cozinha. Já que é preciso estar trancado, fujamos na ficção! A partilhar os cuidados de um casal de pardais que precisam se proteger dos perigos de uma gripe. A acompanhar a história de união e separação da família real dos pelicanos e do pequenino e cabeçudo Yonguy-Bonguy-Bo. A adivinhar quem é o soberano misterioso de um dos poemas. Quem será o Akondo de Suau?  Ele será parecido com algum desses soberanos que nos rodeiam aqui no Brasil, nos EUA ou outros países?  Por fim,  os pequenos são também convidados a testemunhar a sorte do Mango Bango que acolheu, em sua solitária morada, outros seres barulhentos. Divirtam-se!

Cecilia Furquim é professora, pesquisadora, poeta e tradutora de poesia. Pesquisa mulheres escritoras no doutorado em literatura brasileira na USP: Gilka Machado, Patrícia Galvão, Ruth Guimarães. Lançou um livro de arte para crianças contendo dois poemas musicados em parceria com Beto Furquim, um de sua autoria e outro traduzido de Edward Lear, chamado A coruja, o gato e os filhotes (Melhoramentos, 2014). Esse livro recebeu o selo ‘Altamente recomendável pela FNLIJ 2015. Alguns de seus poemas autorais foram publicados nas revistas Literatura e Fechadura, Ruído Manifesto, Gueto e na antologia: Um girassol nos seus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições: Belo Horizonte, 2018). O seu primeiro livro de poesia para adultos, Mulheres Salgadas (contendo poemas, uma canção e sumiês de Lúcia Hiratsuka) foi lançado em dezembro de 2019 pela Urutau.  

[1] LEAR, Edward. Nonsense Songs and Stories. Chancelor Press, 1984 (edição fac-simile)

* * *

Observação: para manter a diagramação espelhada e os desenhos de Lear, preferimos fazer o post na forma de um PDF, que pode ser consultado ou baixado.

escamandro

8 poemas de Edward Lear por Cecilia Silva Furquim Marinho

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Magloire-Saint-Aude, por Natan Schäfer

 

Clément Magloire-Saint-Aude (1912 – 1971) foi um poeta surrealista haitiano. Sua obra se encontra reunida no livro Dialogue de mes lampes et autres textes (org. François Leperlier), publicado pela editora Jean Michel Place em 1998. Para apresentá-lo aos leitores deste escamandro, passo a palavra a André Breton:

“Em doze a quinze versos, não mais, compreendo seu desejo: a pedra filosofal ou quase, a nota inaudita que doma o tumulto, o dente único onde a roda da angústia engrena no êxtase. Desde a Esfinge, buscamos alguém que tenha sido capaz, dentro de tais limites, de parar o que passa. Na poesia francesa às vezes Scève, Nerval, Mallarmé, Apollinaire… Mas você bem sabe que tudo é desleixado hoje em dia. Há somente uma exceção: Magloire-Saint-Aude.
Quando me pergunto, para a impressão de qual obra contemporânea não haveriam caracteres suficientemente belos? — sendo a linguagem e a atitude poética para mim constantemente levadas ao seu ponto supremo, infalivelmente volto a duas finíssimas plaquetes: Diálogo das minhas velas e Tabu, publicadas no Haiti (1941) por Magloire-Saint-Aude. O fato destes quase duzentos versos não terem seduzido nenhum editor francês é testemunha de uma falha no senso de qualidade.
Aqui, enfim, mais confidências ineficazes. O soberbo desdém do poeta, no berço de quem a fada caribenha se encontrou com a “fada africana” surpreendida por Rimbaud, e do qual jamais esquecerei as cadências de uma noite — bateleiros da ilha prodigiosa —, felizmente o abriga de nossos rumores, impassível e fora de alcance ao lado de uma garrafa de rum”. (Breton, André. “Magloire-Saint-Aude”, in: La clé des champs. Jean-Jacques Pauvert: Paris, 1967).

Agradeço ao pessoal do escamandro pela publicação e ao grande amigo e mestre Sergio Lima pela leitura pioneira destas traduções e pelos sopros que avivam a chama ascendente.

Bom maravilhamento!

Natan Schäfer

* * *

DIÁLOGO DE MINHAS VELAS/DIALOGUE DE MES LAMPES (1941)

Vazio

Da comoção com as frases,
Meu lenço às minhas velas.

Agachado nos olhos apagados,
A pena o poema exceto as causas.

Limitado aos avessos sem descanso,
Édith branca minha face eu mesmo

Saciando meus olhos
Do comboio dos meus olhos ressuscitados…

Vide

De mon émoi aux phrases,
Mon mouchoir pour mes lampes.

Recroquevillé dans mes yeux effacés,
La peine le poème hormis les causes.

Limité aux revers sans repos,
Édith blanche ma face moi-même.

Rassasiant mes yeux
Du convoi de mes yeux ressuscités…

§

Lágrima

Sem deus frágil lívido o coração
Tranquilo sopro vigilante em cinco línguas.

Purificado, baixo, sobre a minha chave.

Ao adormecido de face sem rosto,
Congelado o nada pelas janelas
E sozinho no meu pescoço.

Cinzas de pele cega em eternidade.

Larme

Sans dieu livide fragile le coeur,
Tranquille souple veilleur en cinq langues.

Purifié, bas, sur ma clé.

Au dormeur de face sans visage,
Glacé néant par les fenêtres
Et seul sur ma gorge.

Cendres de peau aveugle en éternité.

§

Silêncio

O tufo calcário nos dentes nas sortes nos choques rútilos
Em nove vilarejos.

Madalenas em rendas de gonda.

Nada, o poeta, lento dolente
Para morrer em Guadalajara.

Silence

Le tuf aux dents aux chances aux chocs auburn
Sur neuf villes.

Magdeleines en dentelles de gaude.

Rien le poète, lent dolent
Pour mourir à Guadalajara.

§

Frases

Sete vezes minha garganta,
Dezessete vezes a gargantilha.

O vento corcovado do fel.

Informe, frio,
Os olhos sem águas, como a fatalidade.

Phrases

Sept fois mon col,
Dix-sept fois le collier.

Le vent bossu du fiel.

Informe, froid,
Les yeux sans eau, comme la fatalité.

§

TABU/TABOU (1941)

VI

Solene como o corcunda de pedra
No oásis das interinas pazes,
Olhos abertos
Olhos na terra,
Não lhes pertenço
O ensaio, o zelo, o rito.

VI

Solennel tel le bossu de pierre,
À l’oasis des calmes intérimaires,
Les yeux ouverts,
Les yeux à terre,
Je ne suis de vous
L’essai, le zèle, le rite.

§

X

Na minha taipa de picumã
A areia dos anos.
Vasto que do tema e da imagem
Não é partilhado se nas cidades
Quer-me o cabresto,
Me sinto, e sou, em dois estados,
Dado ao destino, à água dos meus suores.

X

À mon mur de suie,
Le sable des années.
Vaste qui du propos et de l’image
N’est partagé si aux cités
Me veut le licou,
Je me sais, me suis, à deux stades,
Au destin, à l’eau de mes sueurs.

§

TALISMÃS/TALISMANS (1968)

Talismãs
a Vincent Bounoure
e a Jorge Camacho


A onda das horas
No frontispício do fogo.
Ecos de faíscas
voltadas ao espelho do tempo.
Chocalhos guizos velos
Entoando trégua o canto do mensageiro.

Talismans
à Vincent Bounoure
et à Jorge Camacho

La houle des heures
Au frontispice du feu.
Échos des étincelles
Vers le miroir du temps.
Les grelots les hochets les toisons
Sonnent la halte le chant du messager.

 

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tradução

Luís Omar Cáceres (1904-1943)

Omar_Caceres_(1926)

Luis Omar Cáceres foi uma figura excêntrica na literatura de vanguarda chilena. “Tinha uma maneira estranha de recitar, de pronunciar as palavras, quase que as saboreando, degustando-as”, diz Miguel Serrano, “E a aura angustiosa que o rodeava era tão impenetrável e irrespirável como os espaços gélidos do cosmos. Estava envolto em uma atmosfera de morte e solidão total. Seu drama se podia adivinhar em seus poemas; porque havia alcançado ali onde a vida humana já não encontra seu oxigênio habitual e presencia outros universos, arrebatando a alma e a destruindo, congelando-a e a desabilitando de toda convivência humana.”

Nascido na comuna de Cauquenes, no dia 5 de julho de 1904, Omar Cáceres foi um poeta chileno e uma das referências do vanguardismo latino-americano no Chile. Seu modo de vida e sua morte misteriosa pincelaram sobre ele um retrato de “poeta maldito”. Filho de pais professores, estudou direito em 1922, mas não chegou a concluir o curso. De aspecto taciturno e distante, começou, já nos anos 1920, a se aproximar do ambiente artístico que lhe era contemporâneo, dedicando-se, inicialmente, à crítica literária. Na época, chegou a perder seu emprego como secretário de um juiz por ter se vinculado ao Partido Comunista, chegando a se pré-candidatar como deputado.

Em 1931, teve três poemas seus incluídos na famosa antologia “La poesía chilena moderna”, de Rubén Azócar. Publicou somente um livro em vida, Defensa del ídolo, em 1934, que causou grande rebuliço. Tem um prólogo escrito por Vicente Huidobro, o único prólogo escrito por ele. O livro continha diversos erros, e enfurecido pela extensa errata, Omar Cáceres reuniu todos que conseguiu e os queimou. Os exemplares sobreviventes foram poucos, mas serviram para as reedições posteriores da obra. Nesse mesmo ano funda, junto a Vicente Huidobro e Eduardo Anguita, a revista Vital/Ombligo.

No ano seguinte, foi incluído na “Antología de poesía chilena nueva”, na qual teve uma pequena prosa publicada, intitulada “Eu, velhas e novas palavras” (“yo, viejas e nuevas palavras”; no original), sendo este seu único texto de prosa conhecido, mesmo que ainda houvesse notícias de que havia trabalhado em um livro de contos e numa biografia do seu antigo patrão, o juiz Eliodoro Astorquiza.

Em seus últimos anos de vida, Cáceres deixou de conviver com a maioria dos escritores que havia conhecido. Uns chegaram a pensar que havia sucumbido à loucura, outros que havia ido viver em alguns lugares subdesenvolvidos e abandonados.

Seu corpo foi encontrado numa vala, na primeira semana de setembro de 1943, na comuna de Renca, com a cabeça podre e os bolsos vazios. Pensaram que se tratava de um assassinato ou suicídio, mas até hoje não se sabe de que forma ele veio a falecer.

Abaixo, 4 poemas seus presentes na plaquete “Âncoras Opostas”, publicada pela munganga edições.

Victor H. Azevedo

* * *

 

YO, VIEJAS Y NUEVAS PALABRAS
“No debiera escribir esto, desde que todo queda dicho, o no, en cada uno de los poemas, y en cada una de sus palabras.
Se trata de una selección de mis primeros trabajos, selección que el tiempo y una mayor conciencia literaria han ido restringien-do; y que, demasiado solo para oponerme a la impura diversidad del mundo, no pude publicar con la acentuada y natural distribución de su orden cronológico.
Así he vivido.
Mi actitud no es, sin embargo, la de un nihilista, la de un ególatra o la de un deshumanizante…
No.
Es la de aquel que fue demasiado lejos en el corazón de los hombres y en su propio corazón; la de aquel orgulloso de las soberbias esperanzas que, de súbito, creyendo disponer del universo en una enumeración insólita, tropieza, en cambio, con la omnipresencia lacerada de su yo, mientras un índice de revelación señala esa fijeza con su fuego individual.
He ahí mi pavoroso problema.
Aquellos que han amado mucho, y que han meditado en el PORQUE de su sufrir al perder para siempre lo que amaron, esos tendrán que comprenderme.
No he escrito, pues, como se lo dije un día a un poeta, “llevad del afán de HACER LITERATURA, achaque tan común en nuestra tierra, sino obedeciendo a irresistibles impulsos; a la necesidad, más bien, de definir por medio de la expresión de mis estados interiores la VERDADERA situación de mi yo en el espacio y en el tiempo”…
Una nueva modalidad ético-estética debe alcanzar, necesariamente, aquel que parte en línea extrema de si mismo.
No pretendo haber alcanzado ni alcanzar tan soberano éxito.
Hay, lo sé, en estos poemas, influencias que aun los condicionan a aquello que tan arbitrariamente han dado en llamar “el fondo y la forma”.
Las hay, sobre todo, de estas últimas. Dos o tres poemas.
No obstante, a través de su presencia excepcional, el espíritu se recupera en cada página.
Y eso es lo que me interesa.
Sé, por fin, que lo que digo ya está dicho; mis palabras sólo me pertenecen.
Pero, después de todo, mi grande emoción, la trágica experiencia de mi espíritu, son auténticas.
Y ése es el punto de partida desde el cual y a través de esfuerzos mejores, los jóvenes que verdaderamente odiamos, el pasado y el presente, a fuerza de amar el porvenir, lograremos, si no alcanzar, por lo menos preparar, aquel vasto equilibrio que habrá de liberar a la humanidad, haciéndola revelarse a si misma en su esencia más íntima.”

EU, VELHAS E NOVAS PALAVRAS

“Não deveria escrever isto, desde que tudo fica dito, ou não, em cada um dos poemas, e em cada uma de suas palavras.
Trata-se de uma seleção dos meus primeiros trabalhos, seleção que o tempo e uma maior consciência literária foram restringindo; e que, demasiado só para me opor à impura diversidade do mundo, não posso publicar com a acentuada e natural distribuição de sua ordem cronológica.
Assim vivi.
Minha atitude não é, entretanto, a de um niilista, a de um ególatra ou a de um desumanizante…
Não.
É daquele que foi demasiado longe no coração dos homens e em seu próprio coração; daquele orgulhoso das esperanças soberbas que, de súbito, crendo dispor do universo em uma insólita enumeração, tropeça, em troca, com a onipresença lacerada do seu eu, enquanto um índice de revelações sinaliza essa firmeza com seu fogo individual.
Aí está meu pavoroso problema.
Aqueles que amaram muito, e que meditaram sobre o PORQUÊ de sofrer ao perder para sempre o que amaram, esses terão que me compreender.
Não escrevi, então, como foi dito um dia a um poeta, “levado pelo afã de FAZER LITERATURA, moléstia tão comum na nossa terra, mas obedecendo a irresistíveis impulsos; à necessidade de definir, por meio da expressão dos meus estados interiores, a VERDADEIRA situação do meu eu no espaço e no tempo” …
Uma nova modalidade ético-estética deve alcançar, necessariamente, aquele que parte na linha extrema de si mesmo.
Não pretendo ter alcançado nem tentar tão soberano êxito.
Há, eu sei, nestes poemas, influências que ainda os condicionam àquele que tão arbitrariamente é dado a ser chamado de “o fundo e a forma”.
Existem, sobretudo, por meio destas últimas. Dois ou três poemas.
Não obstante, através da sua presença excepcional, o espírito se recupera em cada página.
E isso é o que me interessa.
Sei, por fim, o que eu disse está dito; minhas palavras só a mim pertencem.
Mas, depois de tudo, a minha grande emoção e a trágica experiência do meu espírito são autênticas.
E esse é o ponto de partida desde o qual, e por meio de esforços melhores, os jovens que verdadeiramente odiamos, o passado e o presente, a força de amar o porvir, lograremos, se não alcançar, pelo menos preparar aquele vasto equilíbrio que haverá de libertar a humanidade, fazendo-a revelar-se a si em sua essência mais íntima.”

§

ANCLAS OPUESTAS
Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
arrancando bruscamente la venda del sueño
de las súbitas, esdrújulas moradas,
hollando el helado camino de las ánimas,
enderezando el tiempo y las colinas, igualándolo todo,
con su paso acostado;
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, estrechamente solo,
oh, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
miles de kilómetros, tal vez).
El motor se aísla.
La vida pasa.
La eternidad se agacha, se prepara,
recoge el abanico que del nuevo aire le regala nuestra marcha;
en tanto que enterrado su osamenta de kilómetros y kilómetros,
los cilindros de nuestro auto depáranse a la zona de nuestros propios muertos;
he ahí los antiguos héroes dirigiéndonos sus sonrisas de altivos y próximos espejos;
mas, junto a ellos, también resiéntense,
los rostros de nuestros amigos,
los de nuestros enemigos,
y los de todos los hombres desaparecidos;
nuestro automóvil les limpia el olvido con el roce delirante de sus hálitos.

Como esas manos de mármol que se saludan a la entrada de las tumbas,
nuestro automóvil seráfico ratifica el gran pacto,
que a ambos lados de la ruta, conjuradas,
atestiguan las súbitas, esdrújulas viviendas golpeándose entre sí…

Ahora que el camino ha muerto,
y que nuestro automóvil reflejo lame su fantasma,
con su lengua atónita,
como si girásemos vertiginosamente en la espiral de nosotros mismos,
cada uno de nosotros se siente solo, indescriptiblemente solo,
oh amigos infinitos!

ÂNCORAS OPOSTAS

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
arrancando bruscamente a venda do sono
das súbitas, esdrúxulas moradas,
pisando sobre o gelado caminho dos ânimos,
endereçando o tempo e as colinas, igualando tudo,
com seu passo acamado;
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, estreitamente só,
ó, amigos infinitos.

(100, 200, 300,
milhares de quilômetros, talvez.)
O motor se isola.
A vida passa.
A eternidade se agacha, se prepara,
recolhe o leque que do novo ar dá nossa marcha;
como se estivesse enterrada sua ossada de quilômetros e quilômetros,
os cilindros do nosso carro deparam-se com a zona dos nossos próprios mortos;
aqui estão os antigos heróis nos dirigindo seus sorrisos de altivos e próximos espelhos;
mas, junto a eles, também resistem,
os rostos dos nossos amigos,
os dos nossos inimigos,
e os de todos os homens desaparecidos;
nosso automóvel os limpa do esquecimento com o roçar delirante dos seus hálitos.

Como essas mãos de mármore que se saúdam na entrada das tumbas,
nosso automóvel seráfico ratifica o grande pacto,
que ambos os lados da rota, conjurados,
testemunham as súbitas, esdrúxulas vivendas golpeando-se entre si…

Agora que o caminho está morto,
e que o reflexo do nosso automóvel lambe seu fantasma,
com sua língua atônita,
como se girássemos vertiginosamente na espiral de nós mesmos,
cada um de nós se sente só, indescritivelmente só,
ó, amigos infinitos!

§

AZUL DESHABITADO
Y, ahora, recordando mi antiguo ser, los lugares que yo he habitado,
y que aún ostentan mis sagrados pensamientos,
comprendo que el sentido, el ruego con que toda soledad extraña nos sorprende
no es más que la evidencia que de la tristeza humana queda.

O, también, la luz de aquél que rompe su seguridad, su consecutiv’atmósfera,
para sentir cómo, al retornar, todo su ser estalla dentro de un gran número,
y saber que “aún” existe, que “aún” alienta y empobrece pasos en la tierra,
Pero quién está ahí absorto, igual sin dirección,
solitario como una montaña, diciendo la palabra entonces:
de modo que ningún hombre puede consolar al que así sufre:
lo que’ él busca, aquéllos por quienes él ahora llora,
lo que ama, se ha ido también lejos, alcanzándose.

AZUL DESABITADO

E, agora, recordando meu antigo ser, os lugares que habitei,
e que ainda ostentam meus sagrados pensamentos,
compreendo que o sentido, a prece com que toda solidão estranha nos surpreende
não é mais do que a evidência de que a tristeza humana permanece.

Ou, também, a luz daquele que rompe sua segurança, sua consecutiva’ tmosfera,
para sentir como, ao retornar, todo seu ser estoura dentro de um grande número,
e saber que “ainda” existe, que “ainda” alenta e empobrece passos na terra,
mas quem está ali absorto, igual, sem direção,
solitário como uma montanha dizendo a palavra então:
de modo que nenhum homem pode consolar o que assim sofre:
o qu’ele busca, aqueles por quem ele agora chora,
o que ama, partiu também para longe, alcançando-se!

§

CANCIÓN AL PRÓFUGO
Golpeando l’aguda meta con su escudo monótono, hay,
desde que te fuiste, diez almas en tu porte;
rompe ese cielo inmediato, lineal, para que se junte tu vida
y dame, oh prófugo, el último oasis de ese viaje, tus pasos
desnudos por el camino único y el sol cerrado
que lava la pena de esa tierra sabia, tu frente ácida, dame
el solo sentido que ahí existe para hablar
y estaremos juntos SIEM-
pre!

CANÇÃO AO FUGITIVO

Golpeando a aguda meta com seu escudo monótono, há,
desde que foste, dez almas em teu porte;
rompe este céu imediato, linear, para que se junte tua vida
e dai-me, ó fugitivo, o último oásis dessa viagem, teus passos
descalços pelo caminho único e o sol fechado
que lava a pena dessa terra sábia, tua fronte ácida, dai-me
o sentido sozinho que aqui existe para falar
e estaremos juntos SEM-
pre!

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poesia, tradução

Ernesto Cardenal, por Mariana Ruggieri

Cardenal on boat (Foto by Sandra Eleta, 1974)

Fotografia: Sandra Eleta, 1974

Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense nascido em 1925, foi padre, participou da luta sandinista – para depois criticá-la face ao horror – e é devoto da teologia da libertação. Segue vivendo na sua ilha comunitária em Solentiname, reinventando cristianismos e marxismos e também a língua. Seu poema “Viaje a Nueva York” é um poema-documentário ou um poema-reportagem de fôlego e descreve uma visita sua a Nova Iorque no início dos anos 70.

O professor Amalfitano, personagem de Roberto Bolaño, diz em Los sinsabores del verdadero policía que “Viaje a Nueva York” é um dos dois maiores poemas modernos da América Latina, ao lado de “El soliloquio del individuo” de Nicanor Parra. Independentemente do que se possa pensar a respeito de tais formas de hierarquizar e categorizar a poesia, ler “Viaje a Nueva York” é dar um rolê pela cidade de mãos dadas com um padre austero nos hábitos mas gentil nos gestos, encontrar ex-monges e gente cumprindo pena por opor-se à Guerra do Vietnã, editores e escritores, além lésbicas no parque e cubanos nas lojas e amigos da Nicarágua. É também quase acreditar na possibilidade da revolução e da poesia – e na sua necessária relação.

Mariana Ruggieri

*

VIAGEM A NOVA YORK

Eu parecia estar ainda essa tarde na minha ilha de Solentiname
e não colado à uma janela sobre a baía de Nova Iorque,
Barcos lá embaixo apenas mexendo-se, o avião também lento
O aeroporto Kennedy congestionado a essa hora
era preciso por um tempo dar voltas sobre Nova Iorque
Que milagre me colocou sobre Manhattan nesse entardecer
girando ao redor de arranha-céus pintados de rubro?
No assento ao lado (vazio) peguei um New Yorker
“Washington essa semana despertou de um torpor — Watergate.”
O senador Fullbright teme que desemboquem em um sistema totalitário.
Ladies and Gentlemen: o aeroporto Kennedy segue congestionado
recostando-me contra a janela a água da baía de Nova Iorque
o avião como se ancorado a uma nuvem, não se move
Anúncio de uma ilha — piscina tennis cabanas water sports
The Island Company Ltd., 375 Park Avenue
Caricatura de homem obeso com jornal dizendo à sua esposa
“Lutei tanto e o Times me chama apenas de suposto chefe da Máfia”
Ladies and Gentlemen… agora fomos acionados pelo radar e
vamos diretamente ao aeroporto Kennedy em pouso automático
fábricas, trens, casinhas suburbanas idênticas, carros de brinquedo
e já na pista. Com mais cem aviões, como tubarões.
Gerard me esperava, de barba e jovem, me trouxe
milagrosamente a Nova Iorque, prefere que eu o chame de Tony
vamos em seu velho carro até New York, rios de carros
me chamou para a arrecadação pelos desabrigados de Manágua
sem ter quem pagasse a passagem, diz,
Já conseguiu, Deus tudo conserta. Trabalha
com os órfãos, dependentes químicos, porto-riquenhos pobres
andava por uma quebrada e lhe ocorreu uma arrecadação por Manágua
não havia local, fracassou em Columbia, olhando o céu
viu a catedral episcopal de St. John The Divine, entrou
e o bispo lhe disse “Por que não?”
Presidiários de Nova Iorque deram quadros pintados por eles
índios das grandes planícies também doaram tecidos e cerâmicas
mais rios de carros trens caminhões, as pistas se cruzam
é católico me diz e também zen
antes trabalhou na catedral de São Patrício, não pôde seguir lá
o cardeal atual pior que Spellman
pela rodovia surgem mensagens postos de gasolina drive-ins motéis
um cemitério de automóveis melancólico no crepúsculo
uns hippies estão acampados no mosteiro de Gethsemani, diz
meninos e meninas, o abade permitiu
os mosteiros nos Estados Unidos estão ficando vazios
os jovens preferem pequenas comunas. Conto a ele
que Merton me dizia que essas ordens desapareceriam
e ficariam apenas as pequenas comunas
o céu smog e anúncios
blocos retangulares entre a fumaça
e os contemplativos têm quase todos diz Tony uma mentalidade
burguesa     middle-class
Indiferentes à questão da guerra. E à Revolução.
LIQUORS —- DRUG-STORE
“Te parece muito mudada Nova Iorque?”
Eu estive aqui há 23 anos. Digo: “É a mesma”.
As filas de semáforos vermelhos e verdes
e as luzes dos taxis e dos ônibus.
“Madison Avenue” diz Tony. E rindo:
“É curioso: Ernesto Cardenal em Madison Avenue”. E olho
o cânion fundo, o profundo desfiladeiro de edifícios
onde se escondem detrás de seus vidros the hidden persuaders
     vendem automóveis de Felicidade, Consolo em lata (a 30 cts)
*** The Coca Cola Company ***
atravessamos o cânion de vidros e Bilhões de Dólares.
“Por séculos não comeram carne; agora que muitos somos vegetarianos
eles comem carne”, diz. Desde uma travessa o Empire State
(sua base apenas). Nas entranhas do Imperialismo.
“Chegam monges famosos para dar conferências sobre ascetismo e
se hospedam em hotéis luxuosos” E já no West Side
CafeteríaDelicatessenDry Cleaning
Chegamos ao apartamento de Napoleón, 50 e 10a Av.
Na calçada, teen-agers, blue-jeans e olhos azuis
ao redor de bicicletas, ou sentados nas grades.
A campainha não funciona mas Napoleón e Jacquie nos esperavam.
Napoleón Chow de ascendência chinesa e nicaraguense
E Jacquie é antropóloga especializada em Turquia.
Monástico o pequeno apartamento, mas com tapeçarias persas.
Ligo para Laughlin na sua casa de Connecticut.
Surpreso: “Que raios estou eu fazendo aqui em Nova York?”
Ri lá de Connecticut. Virá no sábado para que nos encontremos,
na sua casa no Village.
Napoleón e Jacquie fazem yoga. Muitos dias jejuam
completamente, em outros cozinham muito bem, comida
chinesa, turca, nicaraguense.
(“o alimento como alegria; sacramento”)
Eles têm uma gata Angorá que caga como gente na privada.

Terça à noite, a catedral de St. John The Divine
Rua 110, abriu suas portas de bronze para o evento
leio meu ORÁCULO SOBRE MANÁGUA (o do Terremoto)
entre quadros de presidiários, cerâmicas dos índios das grandes planícies.
Um rabino proclama, barbas compridas: “A culpabilidade nossa
nessas tragédias…” e o Decano da Catedral: “Nosso Sistema
Senhor, que agrava essas catástrofes…” (E penso: Os Somoza
um terremoto de 40 anos). Brother David
beneditino: “E é em Nova Iorque Senhor quem diria
onde nos congregamos de diversos países e religiões
para rezar por Manágua, e meditar
sobre quanto daqui deveria ser destruído”
Dorothy Day doente, não pôde vir.
María José, y Clemencia, nicaraguenses interessantes (eu conheci o pai delas)
me perguntam como ficaram aquelas ruas (o conheci uma vez
naquela noite de abril
em que íamos tomar de assalto a Casa Presidencial —
Chema, foi torturado e assassinado)
Só consigo dizer: “Eu conheci o pai de vocês”
No coro, slides (as cores radiantes) dos Escombros.
Corita (ex-sister Corita) deu 6 quadros para Manágua.
Daniel Berrigan me espera amanhã

Central Park (up town): E me digo: por ali estão os cisnes.
Me lembro de minha Liana, e dos cisnes.
Casou-se. Os cisnes ainda estarão ali.
Louis, uma vez, querendo pegar um cisne, um dia de fome.
Voltei a ver outra vez as pessoas na rua falando sozinhas.
“The Lonely Crowd”.
Com Napoleón e Jacquie em Times Square, nada a ver
e pela rua 48 entre os cinemas pornôs titilosos
Uma loja vazia, 2 policiais tomando notas
A vitrine estilhaçada, e ninguém olha (na Broadway)

Com Daniel Berrigan no Thomas Merton Center
Daniel (Dan) de blue-jeans e sandálias como eu, seu cabelo
“o de um malandro da rua depois de uma briga”
e o sorriso com que saiu nas fotos quando foi capturado
pelo FBI (jubiloso entre os policiais sombrios do FBI)
havia lido meus Salmos na prisão.
E também está Jim Forest (pacifista) com um grande bigode,
mais jovem do que eu pensava. Me escreveu uma vez
Dizia que Merton lhe deu um Cristo que eu fiz no mosteiro trapista.
Vem chegando de Washington, de uma marcha de protesto
que foi do edifício do Watergate até o Departamento de Justiça.
E Berrigan sentado em cima de uma escrivaninha, o rosto delgado
sobre o joelho e pelo ralo na cara. Está apenas se recuperando
da prisão, me dizem. E uma moça:
“As torturas que se supõe não haver nos Estados Unidos”
Esse é um grupo de contemplativos e resistentes, diz Berrigan.
Reunidos uma noite em um convento do Harlem
ocorreu a eles fundar o Merton Center.
Estudam o misticismo de diversas religiões
também dos índios das grandes planícies.
“Merton sofreu horrores no mosteiro” diz Dan
e todos sabemos. E Jim se lembra de
quando lhe proibiram de escrever contra a guerra nuclear
porque não era tema monástico.
Dan: “Me disse que não voltaria a ser monge outra vez
mas que já o sendo, continuaria sendo-o”.
“Ia chegar em Solentiname depois da Ásia, não? Diz Jim.
E Dan: “E está segurou que não chegou?”
E também Dan:
“É uma droga terrível a que aqui temos: a ‘Contemplação’
Meditam. Sem pensar nunca na guerra. Sem pensar
nunca na guerra. Não se pode estar com Deus e ser neutro.
A verdadeira contemplação é resistência. E a poesia,
olhar as nuvens é resistência, descobri na prisão”.
Digo a ele para ir a Cuba, e ele: ainda está em liberdade condicional.
Também digo a ele “Na América Latina
estamos integrando o cristianismo com o marxismo”.
E ele: “Já sei. Aqui não.
Aqui é o cristianismo com o budismo.
Jim, já somos todos budistas, não?
Não tem budismo na América Latina?”
“Não”.
Amanhã será comemorado no Merton Center
o casamento de seu irmão Philip o outro sacerdote,
e a ex-monja Elizabeth McAlister — e nos convida.
Philip jogou sangue em Maryland sobre os arquivos de recrutamento
depois Philip e Daniel queimaram os arquivos em Catonsville
com napalm de fabricação caseira (sabão em pó com gasolina)
e Jim queimou também com napalm os arquivos em Milwaukee
(e estão recém-saídos da prisão)
Diz-se que Merton certa vez também pensou ação semelhante
Tem uma moça em greve de fome pelo bombardeio do Camboja.
Na parede um poema de Berrigan sobre o Vietnam
em grandes folhas juntadas como um mural.
Quando estou de saída Dan me dá um pão enorme
um enorme pão redondo, assado ali, de trigo puro.

Com Napoleón e Jacquie ao cinema para um filme cubano
MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
não idealizam a Revolução
uma peça documental — um encontro de escritores —
E creio ver Roque Dalton no documentário
Fidel em um discurso (e parte da sala aplaude Fidel)
Um monte de gente na calçada levava trajes finos: a Ópera.
Para Tony seu avô aristocrático italiano
deixou um sítio nos arredores de Roma,
Vai presenteá-lo a alguém. Não quer propriedades.
E Tony diz: “Holy Communion…” (seus olhos incandescentes)
“A Comunhão é minha maior união com os homens cada dia
a Comunhão para mim é o mais revolucionário do mundo”

Philip Berrigan e Elizabeth McAlister
acusados pelo FBI de querer sequestrar Kissinger. —
Festa de casamento no Merton Center.
Contemplativos e radicais, pacifistas, ex-prisioneiros muitos deles
cristãos anarquistas e cristãos budistas
e nessa festa uma Eucaristia com canções de protesto
sentados no chão
detrás do Evangelho falam Jim, Dan, uma mulher jovem
que tinha acabado de jogar sangue sobre a mesa de jantar de Nixon
e de lambuzar de sangue as paredes da sala, em um tourist tour
da casa Branca (a imprensa não informou nada). Espera
julgamento, talvez anos na prisão, grávida.
Dan Berrigan consagra um pão como o que me deu
e copos de vinho. O pão repartido de mão em mão, e o vinho.
Depois uma coleta… para os acusados pobres de Watergate
“adversários irmãos nossos”.
Outra vez a festa. Dan diz: “No more religion”
Galões de ‘rosé’ y ‘blanc’ californianos em uma mesa
pudim de passas, torta de maçã, queijos em outra mesa
Um rapaz loirinho muito cabeludo me cumprimenta, Michael Cullen.
Lia meus Salmos na prisão diz,
e eu já li sobre ele.
Me dá um folheto que ele distribui: If Mike Cullen is deported
Nasceu em uma granja no sul da Irlanda, chegou com 10 anos, não
para ganhar dinheiro. Estudou em um seminário. Casou-se, vendia seguros
mas sentiu o sofrimento dos apartamentos cheios de ratos
e o sangre correndo em jorros na Indochina
queimou sua carteira de recrutamento. Queimou
com Jim os arquivos de recrutamento em Milwaukee
as licenças 1-A para queimar corpos na Ásia
agora querem deportá-lo, crê que o deportarão diz triste
alguém passando coloca dinheiro no seu bolso e lhe diz
“keep going” e ele sorri (triste)
me diz: “o sonho americano virou um Pesadelo”.
Todas as câmeras de televisão sobre Philip e sua esposa.
Phil de olhos azuis. Robusto como um jogador de rugby
‘o Gary Cooper da Igreja’
Elizabeth, doce: casaram para ajudarem um ao outro na luta diz
e vão criar uma comuna para ajudar outros a seguir na luta.
Dan com seu sorriso radiante
e sua paz zen

Na saída da Doubleday Bookstore, na 5a Avenida
uns homens e mulheres com túnicas brancas dançando na calçada
e os jovens carecas (de branco) parecem noviços trapenses.
Em uma vitrine:
Visão. Jaqueta de Couro de Cordeiro Persa. Broche
de diamantes e rubis…
Um rapaz com um botton no peito: IMPEACH NIXON
Mulheres como se de plástico.
Atravesso a rua com muito medo: WALK — DON’T WALK (em vermelho)
Os atendentes das lojas quase todos cubanos
e me parece que estou escutando a língua
de revolucionários
O céu sujo. Sirenes de polícia.
As velhas falando sozinhas
o Coronel contava daquele dominicano francês que lhe disse aqui:
“Desde que cheguei há 3 meses não pude fazer uma oração”.
Museum of Modern Art. Sem tempo de entrar. E para quê?
Frank O’Hara trabalhava aqui. Sua poesia ele fazia
na hora do lunch — sandwiches e Coca Cola.
Uma vez nos escrevemos.
Agora comprei no Bretano’s seu LUNCH POEMS ($1.50)
e os automóveis me fazem lembrar de sua morte
atropelado em Nova Iorque (na hora do lunch?)
WALK — DON’T WALK
Dorothy Day me espera no Catholic Worker diz Tony.
Lembrou no telefone que uma vez me havia escrito.

Livraria de “paperbacks” na 5ª Av.
Muitos livros sobre os índios. Pawnees. Sioux. Hopis. Os
Hopis, anarquistas e pacifistas, por 2000 anos, gandhianos
nunca declararam guerra nem firmaram tratados (sequer
com os E.U.A)
e agora vou me encontrar ao meio-dia com Kenneth Arnold
meu editor em inglês de HOMENAJE A LOS INDIOS AMERICANOS
também está aqui a autobiografia de Alce Negro
Veio uma vez a Nova Iorque com Búfalo Bill
as casas até o céu, as luzes roubadas do poder do trovão.
disse que aqui existiu como alguém que nunca tinha tido uma visão
Raposa Vermelha também com Búfalo Bill. Estimava os índios, diz
defendeu-os em Washington. Hora de me encontrar com Kenneth.
Veio de Baltimore. Combinamos de nos ver no Gotham Book Mart
I Have Spoken, já o tenho. Com o discurso de Seattle.
Seattle envolto em seu manto como em uma toga
com sua famosa voz audível a meia milha, no meio
do terreno desmatado: “Minhas palavras são como as estrelas
que não mudam. O que Seattle diz o Grande Chefe de Washington
deve levar em conta como a volta do sol ou as estações…”
Lá fora chove uma chuva sem cheiro
e está chegando a hora do lunch
NO SMOKING
“E quando o último do meu povo estiver morto
e falem de minha tribo como um conto do passado…”
sussurros de pneus sobre ruas chovidas
reflexo de neon no espelho do asfalto molhado
“e os filhos de seus filhos acreditem estar a sós
no campo, no armazém, na loja, não estarão a sós.
Quando as ruas de suas cidades estiverem caladas e vocês
a acreditarem vazias, estarão cheias dos espíritos dos mortos.
Eu disse mortos? Não há morte. Apenas uma mudança de mundo”.
Saio com livros para mais homenagens aos índios americanos
e vou ao Gotham Book Mart — 3 quadras — e ali está Kenneth.
É jovem, tem barba. Também presente Miss Steloff, o cabelo prateado
a famosa dona dessa livraria. E eu estive aqui uma vez
em uma festa para Edith Sitwell. Miss Steloff
convidou o Coronel e eu e trouxemos Mimí Hammer
e estavam presentes Auden, Tennesse Williams, Marianne Moore, Spender…
Kenneth trouxe a capa de HOMAGE TO THE AMERICAN INDIANS
e vamos a um restaurante chinês a meia quadra, e
o lunch chow mein mas antes dois copos de cerveja gelada.
Essa abundância de livros sobre índios, diz
é coisa de um ou dois anos. O índio está na moda.
Ele também tem um poema sobre índios, melhor dizendo
sobre Búfalo Bill, seu tio-avô. Sim, foi irmão de seu bisavô
o Coronel William Frederic Gody (Búfalo Bill)

Tony passa para me buscar, e me pede desculpa pelo carro.
O dele quebrou. Este, luxuoso, é do pai. (Envergonhado)
Convidados a almoçar pela mãe do Irmão David
(com Napoleón e Jacquie). Apartamento em zona elegante
pela 5ª Av. Ela é Baronesa da Áustria
mas trabalha como empregada doméstica. Distribui seu dinheiro.
Uma moça me trouxe um presente: um Pôster do Watergate
— Nixon em foto de gangster com o letreiro WANTED
Brother David me diz
“O que diria aos abades nos mosteiros dos Estados Unidos?”
Dou risada. “Sério. Se os abades reunidos pedissem seu conselho?”
“Não o seguiriam.” “Mas o que você diria?”
“Que fossem comunistas”.
Uma jovem: “Por que a sociedade primeiro
e não o coração dos homens? Primeiro vem o interior!”
Digo a ela: “Somos sociais. A mudança social não é exterior”.
O almoço: iogurte com morango
um pão preto e outro muito preto, leite
uvas azuis, maçãs vermelhas, bananas amarelas
mel, o mais saboroso que provei em minha vida.
Nenhum licor neste almoço. Só eu fumo
(“Já é bastante contaminado o ar para respirar mais fumaça”)
O irmão David fala com umas pequenas contas na mão.
Pergunto a ele: “Será possível integrar o budismo com o marxismo?”
“Através do cristianismo. Vocês integraram
cristianismo e marxismo, e nós aqui cristianismo e budismo”.
Também me diz: “Pentescostais… talvez seja melhor que não os veja.
Parecem possuídos pelo Espírito, mas seguem com a Exploração”.
Tony nos deixa para ir estar com seus órfãos.

Rua 12. Por aqui era o apartamento de Joaquín. Nesta casa,
quase tenho certeza.
O dono de um sebo no Village se apaixona por minha camisa
minha blusa camponesa nicaraguense
me pergunta quem a inventou.
Um letreiro em ouro: MONEY. (Loja de penhores).
Pergunto pela rua Charlest. Um homem garboso sentado em um banco: Não
sabe, diz. Posso te pedir um dólar? Não come há dois dias.
Parra estava em Chile.
Em todas as telas dos televisores Dean declarando contra Nixon.

Washington Square: Rock no parque
microfone com música eletrônica louca locutores frenéticos
milhares de cabeludos uivando com a orquestra negros loiros negras
com a orquestra, descalços barbudos de jóias ou em farrapos
uivando com a orquestra, dando um tapa de erva ou
deitados fumando se beijando bebendo cerveja enlatada.
Grupo de lésbicas gritando. Um pouco mais adiante GAY LIBERATION com bandeira
passivos diante do metodista entoando seus sermões Bíblia em mãos com
coro de senhoras caras-de-paisagem encamisadas até o tornozelo.
Atravessando a rua
duas bichas com suas duas línguas lambem de uma vez
um mesmo sorvete
Estúdio de Armando Morales, La Mecha: no Bowery
o bairro dos mendigos e do Catholic Worker.
É uma bodega. Sem banheiro (toma banho no lavabo com uma esponja
sobre uma edição do Times para não molhar o piso)
com vinho recordamos Manágua pré-terremoto
diante de tela de La Mecha que a Galeria vendo por 10000 dólares.
Os cinzeiros latas de sardinhas das que se abre com chave,
a tampa enrolada pela metade, e um monte desses cinzeiros.
Me explica: A Galeria põe o preço, e essas são
as “ações” de um pintor. Um comprador de “Morales”
investe nele como na General Motors. Se os preços sobem
(as ações) investirão mais nele. E se as vendas param
a Galeria não pode baixar os preços
ainda que morra de fome La Mecha — O preço em queda criaria pânico
entre os “acionistas” das cores intricadas e nus misteriosos
de Morales.
Pinta suas cores e depois cobre todo o quadro de preto.
Depois o afeita, com gillette, raspando o preto, e
sobre o raspado pinta outra vez as cores.
“Agora já sei pintar” diz “posso pintar o que eu quiser.
O difícil é — o que pintar”
Lembramos daquele bar em Manágua Las Cinco Hermanas
Lembro de umas super-musas que amamos, mais ou menos.
E de quando averiguamos que estávamos na lista de homossexuais
da polícia — ele por ser pintor, e eu por ser poeta.
E ele se lembra daquele bordel “La Hortencia” e eu digo que
não ficava ali onde ele diz, era em outro lugar, e que já não existe
construíram depois ali a igreja do Redentor (La Mecha ri)
e eu já sacerdote celebrava nela até que o superior me proibiu
por causa do meu sermão antisomozista (ri mais ainda La Mecha) e além disso
já nem o Redentor existe, caiu com o terremoto —
Não pode doar quadros para a arrecadação do terremoto
suas pinturas pertencem à Galeria.
Em todos os televisores Dean seguia declarando contra Nixon.

Laughlin é um homem da altura da porta, e
(como eu já sabia por Merton) transbordante de amor.
Quando entramos pergunta à sua esposa pelo vinho de Nicanor.
Onde está o vinho que deixou Nicanor? Tira da geladeira
o vinho português branco São-Não-Sei-Quê que Nicanor
deixou da última vez. Estamos com a taça na mão ainda sem beber
e Laughlin levanta a sua em direção ao céu como no Ofertório:
“Por Tom. Tenho certeza que regozijará com esse encontro
onde quer que esteja”. E eu: “Está aqui”. O vinho de Nicanor Parra
delicioso. “É curioso” diz Laughlin “depois da sua morte
vimos que cada um de seus amigos acreditava ser o mais íntimo de Merton”.
Depois de uma pausa e gole de vinho: “– E na realidade eram”.
Com Napoléon Chow conversa sobre a China e com Jacquie sobre a Turquia.
Nos dá alguns livros novos da “New Directions”.
Assinamos rapidamente o contrato do meu livro EN CUBA.
Mais vinho. Margaret Randall parece feliz em Cuba — Que bom.
Tem muita simpatia por ela, ainda que não a conheça.
Nos conta (o público ainda não sabe)
da paixão de Merton dois anos antes de sua morte.
1966 Na primavera. Ele e Parra estavam no mosteiro.
Moça lindíssima. O amor, como um raio. “Loucamente” diz
“mas não quis deixar de ser monge”.
Digo depois que ele é um bom poeta, já o traduzi, e diz que não
Pound lhe disse que não. Rasurava seus poemas
com o famoso lápis. Disse a ele: “Do something useful” e ele
tornou-se editor. Ninguém tinha editor até então, só o Hemingway.
Assistia no Rapallo à Universidad Ezra. Almoçava com Pound
e sua esposa no Albergo Rapales. Depois natação ou tênis
e leituras de Villon, Catulo… Pound foi seu pai espiritual.
Conta: Somoza roubou uma vez uma mina de seu tio.
– James Laughlin é neto do Laughlin o rei do aço –
“Claro que sabia”, diz Laughlin (Nixon)
O vinho de Nicanor chega ao fim e vamos a um restaurante francês
a três quadras.
“Gostava muita da solidão, e gostava muito de gente.
Amava o silêncio — e também uma boa conversa.
Merton era gregário, you know, e perfeito monge”

Meia-noite. Em uma tabacaria já o New York Times pela manhã
NIXON SABIA DIZ DEAN (compramos o jornal)
No subway anúncio do Army: meninos em sua formatura —
… depois de se formar é lindo entrar no Army…
E os subways escuros vão grafitados por fora:
nomes de meninos e meninas em muitas cores
     Alice 95                   Bob 106               Charles 195
e os vagões passam como se estivessem cobertos de flores
(seus nomes e as ruas onde vivem) “escrevem
para que alguém os conheça, para serem reais” diz Napoleón
Pintados com tinta spray de todas as cores
e até um metro de altura há nomes
ManuelJuliaJosé… (muitos porto-riquenhos)

Slums ‘sem nenhuma beleza mais que as nuvens’
36 East 1st Street, (Bowery)
com emoção vi a placa pequena na fachada: Catholic Worker
um homem gordo deitado na calçada me pede gentilmente um cigarro
com emoção entro nesse lugar sagrado
ela não estava, mas logo vem pela calçada com outras mulheres
magra, corcunda, com a cabeça branca
ainda é bonita aos 78
beijo a mão da santa e ela beija o meu rosto.
Como minha avó Agustina nos anos 50 (quando ainda
podia ler e era leitora dessa mulher)
Essa é a famosa House of Hospitality que fundaram
Peter Maurin e Dorothy Day durante a Grande Depressão
onde dão comida e pouso grátis a qualquer um que chegue
bêbados loucos drogados vagabundos moribundos
e também é um movimento pacifista e anarquista:
sua meta, uma sociedade em que seja fácil ser bom.
Logo chegariam os pobres para jantar.
Eu estudava em Columbia, e mesmo ali soubemos
que havia morrido um santo no bairro dos mendigos.
Peter Maurin, agitador e santo
dava sermões nos parques:
Mandem embora os patrões” ou
Dar e não tirar
      faz do homem humano
Com uma roupa só, amassada e do tamanho errado. Sem cama própria
nesse lugar que fundou, nenhum canto para seus livros.
Caminhava sem olhar as luzes do semáforo.
E ela consagrada desde então
às “obras de misericórdia e de rebelião”. Uma vida
de comunhão diária e de participação
em toda grave, manifestação, marcha, protesto, ou boicote.
Aqui vêm trabalhar sem salário estudantes, seminaristas
professores, marinheiros, também mendigos, e às vezes permanecem
a vida toda. Muitos foram à prisão ou seguem lá.
Hennacy fazia greves de fome na frente dos edifícios do governo
com cartazes, distribuindo folhetos e vendendo o jornal
e não pagava imposto porque 85% é para a guerra
trabalhava de peão nos campos para não pagar imposto.
Hugh magro, com calça curta sandália e poncho
também fazia penitência nas ruas.
Jack English, um brilhante jornalista de Cleveland
foi cozinheiro do Catholic Worker e depois virou monge.
Roger La Porte era lindo e loiro com 22 anos; se imolou
ateando-se fogo com gasolina na frente das Nações Unidas.
E um velho ex-marine, Smoky Jow, que lutou contra Sandino
na Nicarágua, morreu aqui convertido à não-violência.
Merton trabalhou aqui antes de ir para o mosteiro trapista.
O jornal ainda é vendido a 1 centavo
como quando Dorothy Day saiu para vendê-lo pela primeira vez
na Union Square em um 1o de Maio (1933)
Era o terceiro ano da Depressão
12 milhões de desempregados
e Peter queria com o impresso mais do que uma publicação de opiniões
uma revolução
As panelas já fumegantes
Começam a chegar os pobres, os sem-teto, os do Bowery
para fazer fila. “O outro Estados Unidos” diz Dorothy
os homens deslocados pela máquina
e abandonados pela Santa Mãe Estado.
Gritos. Alguém entrou com chutes e socos
— Dois dos Catholic Workers retiram-no com cuidado
“Nunca chamamos a polícia porque acreditamos na Não Violência”
E me diz também: “Quando visitei Cuba
vi que Sandino era o herói deles
e me alegrei. Porque jovem recolhi dinheiro para ele,
quando era comunista, antes de me converter ao catolicismo.
E vi os principais generais de Sandino (ele não)
no México: com seus grandes chapéus, comendo hot-dogs
por que hot-dogs eu não sei”
e enérgica erguendo a sua cabeça branca: “A Cuba de Castro
eu conheço, como já te escrevi. Gostei muito”
Gritos. Agora é uma anã. E ela é levada docemente
levantada no ar como uma boneca.
Conta que agora ajudam os trabalhadores de Chávez
boicotando a rede de lojas A&P. E ela reza, diz
para que os Estados Unidos tenham uma derrota purificadora. Fala
de Joan Baez que em Hanói cantava sob os bombardeios. Diz
que dizia Hennacy: ‘Contrário ao que se pensa
não somos os anarquistas os que carregam bombas mas o governo’.
E não há paz porque as ruas ficariam sem trânsito
paradas as fábricas, os pássaros cantando sobre as máquinas
como ela viu na Grande Depressão. Fala dos horrores
que viu no The Women’s House of Detention
nas vezes em que esteve presa. E vendo os pobres entrando
repete o que dizia Peter: ‘O futuro será diferente
se fizermos diferente o presente’
Um adeus reverente a essa santa anarquista
e esse santo lugar onde todos são recebidos, tudo de graça
a cada um segundo suas necessidades
de cada um segundo suas capacidades.

DOWN TOWN. UP TOWN. Bang. Bang. Os trens vão trovejando
sob a terra Up Town e Down Town
com nomes de jovens pobres pintados como flores
Tom       Jim         John      Carolina
o nome e o endereço triste onde vivem. São
reais. Para que saibamos que são REAIS. Bang Bang
os expressos sobre os cabos de alta tensão com
seus luminosos anúncios de Calvert, Pall Mall, e o Army
é lindo entrar no Army

À noite, perto de Wall Street, em um apartamento sem mobília
sacerdotes e laicos e ministros protestantes marxistas
“Mudar o sistema em que o lucro é o fim do homem”
“A ética cristã não cabe nos limites da moral privada”
“A visão do Reino de Deus é subversiva”
Um trabalha com computadores, outro com os pobres.
Domingo à noite, e os andares ainda iluminados em Wall Street.
Estão nos fodendo.
Hello Bogotá
Hello ITT”
2 arranha-céus gêmeos mais altos que o Empire
da metade para cima iluminados
o Imperialismo patente no céu além dos cristais
Hello gostaríamos de mais aridez
Quem é esse outro monstro que se levanta no meio da noite?
O Chase Manhattan Bank fodendo com meia humanidade.
Depois de Wall Street, a ponte do Brooklyn, como uma lira de luzes.
Na sombra dois meninos roubando um carro ao que parece.
Nosso satélite pálido sobre o céu do Brooklyn
achatado como uma bola de rugby.

Cedo no outro dia Tony me leva de novo ao Aeroporto Kennedy
em seu carro franciscano. 6 dias em Nova Iorque.
A Arrecadação seria para a Conscientização.
“A nenhuma instituição!” me diz Tony. No institution.
Não sentei na janela. Ao levantar voo, lá longe
(apenas de relance)
a silhueta dos arranha-céus em um céu de fumaça de carros
ácidos e monóxido de carbono.

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Clique nos slides acima para ler o texto em espanhol.

§

Mariana Ruggieri nasceu em 1988 em São Paulo. Escreve, lê e traduz. Publicou pelo selo treme~terra o Anzol (2018) e A bola é que são elas (2018). Para as Edições Jabuticaba traduziu Bernadette Mayer e Eileen Myles.

*

Padrão
poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

muriel

Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

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poesia, tradução

Rose Ausländer (1901-1988), por Luiz Abdala Jr.

A história de Rose Ausländer ecoa a de milhares. Nascida no multifronteirístico Império Austro Húngaro, mais precisamente na região de Bucovina (entre o que hoje é a Romênia e a Ucrânia), em uma família de origem judaica da comunidade de língua alemã e iídiche da região, a poeta logo parte para os Estados Unidos com o objetivo superar a crise financeira que viviam os seus pais. Retorna a Bucovina no final dos anos 20, devido a um adoecimento da mãe, e depara-se logo de cara com os primeiros movimentos do horror nazista. Impedida de deixar Bucovina, sobrevive à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial escondendo-se, com a mãe, em guetos da região. Já em 1946 parte novamente para os Estados Unidos, onde se estabelece por cerca de 20 anos e corta relações com a lírica moderna alemã, deixando não só de ler a poesia contemporânea em alemão como também de escrever no idioma, passando a compor em inglês. Vivendo em Nova York, Ausländer aproxima-se de nomes importantes do modernismo norte-americano tais como: Robert Frost, William Carlos Williams, T.S Eliot, E. E. Cummings… e também trava relações com a poeta Marianne Moore, uma forte influência para Ausländer. Apenas no final dos anos 50, bastante motivada por um encontro com o conterrâneo e companheiro de juventude, Paul Celan, Ausländer volta paulatinamente a escrever em alemão. Em 1967 retorna definitivamente à Alemanha e à lírica alemã, falecendo na cidade de Düsseldorf em 1988.

A trajetória errante da poeta é um dos motivos que atravessam o seu trabalho poético. A origem judaica, a relação conflituosa com o alemão, o exílio, a vivência nos Estados Unidos são experiências que se entreveem em uma poesia que jamais nega a língua, mas sempre a coloca em desconfiança, em uma relação de deslizar constante. Partindo da discussão adorniana sobre a possibilidade de fazer poesia após Auschwitz, Ausländer parece dizer que sim, pois “as palavras me ditam: escreva-nos[1]. Escrever não é apenas um gesto necessário, mas incontrolável na medida em que o escrever escreve-se no escritor. Porém, estendendo a discussão, qual é então a possibilidade de escrever poesia em alemão após Auschwitz?  Como escrever poesia na mesma língua de uma máquina de genocídio moderno? Como escrever em sua língua materna, mas que é também a língua que tentou te matar? Aqui as relações e vínculos se tornam mais delicados e conceitos unificadores como pátria e língua materna não parecem dar conta das relações sensíveis que a poesia estabelece com a linguagem. Nesse sentido, o trabalho poético de Rose Ausländer é também um gesto de testemunho e resistência. Testemunho das complexas relações sensíveis com as noções de território e língua, da experiência histórica-subjetiva e da memória, e resistência na medida em que as próprias noções de território e língua são colocadas em desestabilidade e diferença, em que o escrever em alemão jamais deixará de ser escrever na língua do nazismo, do horror, porém pode vir a ser também outra coisa, outras coisas. Em tempos em que estratégias de manipulação do discurso estão explícitas, apontando que modos de dizer não são somente modos diferentes de falar, mas de agir, Ausländer abre uma imprescindível reflexão sobre a palavra e as relações que com ela incessantemente construímos (e também destruímos). 

Os poemas aqui selecionados são de diferentes fases da poeta, mas mantém elos em comum. Todos eles foram retirados do livro Rose Ausländer – Gedichte (Fischer Verlag, 2012), coletânea organizada por Helmut Braun e que contempla parte considerável da produção poética da autora, que no total contabiliza mais de três mil poemas escritos.


[1]Weil Wörter mir diktieren: schreib uns”, trecho do ensaio Alles kann motiv sein da autora.

Zwischenzeilwort

Viele Gedichte gefunden
aber
Ich suche das Wort
Zwischenzeilwort
im bunten Buchstabentanz
Konsonanten Vokale
Vokabeln ich taste
die Weite und Tiefe
der Wörter
suche erfinden
das verstohlene
Wort

Palavra entre-linha

Muitos poemas encontraram
porém
Eu busco pela palavra
A palavra entre-linha
Na alegre roda da letra
Consoantes vogais
Verbetes tateio
a amplidão e o abismo
das palavras
procuro atinar
a furtiva
palavra

§

Mutterland

Mein Vaterland ist tot
sie haben es begraben
im Feuer

Ich lebe
in meinem Mutterland
Wort

Mátria

Minha pátria morreu
a enterraram
no fogo

Eu vivo
na minha mátria
Palavra

§

Ich vergesse nicht

Ich vergesse nicht

das Elternhaus
die Mutterstimme
den ersten Kuß
die Berge der Bukowina
die Flucht im ersten Weltkrieg
das Darben in Wien
die Bomben im zweiten Weltkrieg
den Einmarsch der Nazis
das Angstbeben im keller
den Arzt der unser Leben rettete
das bittersüße Amerika

Hölderlin Trakl Celan

meine Schreibqual
den Schreibzwang
noch immer

Eu não me esqueço

Eu não me esqueço

da casa dos pais
da voz da mãe
do primeiro beijo
dos montes de Bucovina
da fuga na primeira guerra
da penúria em Viena
das bombas na segunda guerra
da marcha nazista
do tremor no porão
do médico que salvou nossa vida
da agridoce América

Hölderlin Trakl Celan

minha aflição em escrever
a obsessão em escrever
de novo e de novo

§

Wer bin ich

Wenn ich verzweifelt bin
schreib ich Gedichte

Bin ich fröhlich
schreiben sich die Gedichte
in mich

Wer bin ich
wenn ich nicht
schreibe

Quem sou eu

Em desespero,
eu escrevo poemas

Quando contente,
os poemas se escrevem
em mim

Quem sou eu
Quando não
escrevo

§

Sätze

 Kristalle
unregelmäßig
kompakt und durchsichtig
hinter ihnen die Dinge
erkennbar

Diese Sucht
nach bindenden Worten
Satz an Satz
weiterzugreifen
in die bekannte
unbegreifliche
Welt

Frases

Cristais
irregulares
compactos e transparentes
detrás de si as coisas
reconhecíveis

Essa busca
pelas palavras atadas
frase na frase
apalpando apalpando
no conhecido
impalpável
mundo

§

Spiel

Treibst dein Spiel mit mir
Sprache
schon spielst du mir manchmal
mit

Spiel mit mit
ich bin alt
nicht älter als du
Traumwort

Finger
   Augen
       Worte
unendlicher Spielraum

Spiel mit mir
ich bin jung
nicht jünger als du
Traumwort

Wer spielt uns auf
wenn ich mit dir
mein Spiel treibe

du mich verspielst
an die Nacht

Jogo

Língua
conduza seu jogo comigo
às vezes você joga seu jogo
comigo

Jogue comigo
sou velha
não mais velha do que você
Verbonírico

Dedos
     Olhos
           Palavras
infinito jogo de dados

Jogue comigo
sou jovem
não mais jovem do que você
Verbonírico

Quem nos toca
quando eu jogo
meu jogo contigo

você me joga
para a noite

§

Was du nicht weißt

Als wüßtest du
woher

Als wüßten Wasser Sterne Luft

Was du nicht weißt
erschafft
dein Wort

unwissend
sicher

O que você não sabe

Como se você soubesse
da onde

Como se soubessem água estrelas ar

O que você não sabe
cria
sua palavra

desconhecida
segura

§

Mein Gedicht

Mein Gedicht
ich atme dich
ein und aus

Die Erde armet
dich und mich
aus und ein

Aus ihrem Atem geboren
mein Gedicht

Meu poema

Meu poema
te respiro
inspiro e expiro

A terra respira
eu e você
expira e inspira

Do seu respiro nasce
meu poema

§

Nicht vergessen I

Heute
hat ein Gedicht
mich wieder erschaffen

Ich freute mich
am Leben
bewunderte die Landschaft
vor meinem Fenster

Ich vergaß
das Gedicht zu schreiben
vergaß es

Es hat mich
nicht vergessen
kam zurück zu mir
und schrieb sich
in meine Worte

Não esquecer I

Hoje
um poema
novamente me criou

Me alegrei
com a vida
admirando a paisagem
da minha janela

Eu esqueci
de escrever o poema
esqueci

Ele não
esqueceu
veio logo até a mim
e se escreveu
nas minhas palavras

§

Mutter Sprache

Ich habe mich
in mich verwandelt
von Augenblick zu Augenblick

in Stücke zersplittert
auf dem Wortweg

Mutter Sprache
setzt mich zusammen

Menschmosaik

Língua mãe

De momento em momento
eu me transformei
em mim mesma

Estilhaçada em pedaços
no palavrandar

Língua mãe
me reconstrua

 Mosaico-humano

§

Miteinander

für Marie Luise Kaschnitz

Du
und der Kirschbaum
und die rasende Straße
und der Ozean
und der Blitz

Du
und deine Angst
und dein Zorn
und dein Aberglaube
und dein Glaube
             “Let My People Go”

Du
und der Stern
und das Wort Stern
und das Hauptwort
un das Nebenwort

und das Nebeneinander
und das Miteinander
und
   du

Convivência

para Marie Luise Kaschnitz

Você
e a cerejeira
e a rua rápida
e o oceano
e o relâmpago

Você
e o seu medo
e sua cólera
e sua superstição
e sua crença
     “Let My People Go”

Você
e a estrela
e a palavra estrela
e a palavra principal
e a palavra auxiliar

e a coexistência
e a convivência
e
     você

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Chuvas de Niikuni Seiichi (1925 – 1977), por Alessandro Funari

Niikuni Seiichi (1925 – 1977) foi um pintor e poeta japonês, um dos principais autores relacionados ao movimento concretista – tendo, inclusive, traduzido Haroldo de Campos para o japonês. Trabalhou com poesia ideogramática, com uma preocupação bastante visual. Para este poema, Chuva, foram feitas duas versões: uma visual e uma com foco no aspecto sonoro (soma-se o fato de que, em japonês, a onomatopeia para chuva é “shito shito”); cada uma destas possui uma variante que substitui o formato retangular da obra – como se alguém estivesse vendo a chuva através de uma janela, conforme o ideograma apresenta – por uma forma mais oblíqua, diagonal, como uma chuva mais movimentada pelo vento.

Alessandro Funari

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