poesia, tradução

"A"-19 de Louis Zukofsky, um trecho por Beethoven Alvarez

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um poeta americano, filho de imigrantes russos judeus, que carregou o peso de ter vindo depois de T.S. Eliot, Ezra Pound e William Carlos Williams. E não sou eu que digo isso, foi o próprio Pound que escreveu isso numa carta pro L.Z. (numa das quase 600 que trocaram ao longo da vida, que dá pra ler nesse volume).

Entre 1927 (quando L.Z. tinha 23 e Pound, 42) e 1933, foram mais de 300 cartas, até finalmente se encontrarem pessoalmente na Itália. A história dessa amizade e filiação poética vai muito além disso (e inclui muito mais afeto e desilusão), mas, dessa época, um fato importante foi que Pound convenceu Harriet Monroe, editora da Poetry, a deixar L.Z. editar uma edição especial em 1931, que ele intitulou de Objectivists’ 1931.

Zukofsky tinha começado a escrever ainda na década de 1920, muito influenciado por Pound e William Carlos Williams, mas, foi na década de 1930, depois da publicação dessa edição da Poetry, que fica conhecido como uma espécie de líder de um grupo de poetas que intitulou de “objetivistas” (embora nunca se tenha falado de um “objetivismo” como movimento).

Para L.Z. e os objetivistas o poema deveria ser entendido como um objeto, sincero e inteligente, que permitisse ao poeta enxergar e fazer enxergar o mundo, como um espelho. Ver o poema como esse objeto exigia chamar a atenção para o próprio poema, o que podia ser feito com a fragmentação sintática deliberada e pelas quebras de linha que perturbam o ritmo normal da fala. Essas ideias L.Z. desenvolveu continuamente. 

Porém, embora tenha feito certo sucesso, sua poesia era tida como obscura, experimental e intelecual demais (era?). L.Z. acabou ficando um tanto eclipsado pela popularidade de Eliot, Yeats e outros poetas americanos de influências simbolistas. Zukofsky continuou trabalhando, produziu algumas antologias, um profundo estudo sobre Shakespeare (antes já tinha sido o primeiro a publicar uma análise sobre os Cantos, de E.P.) e uma tradução integral da poesia de Catulo num método, no mínimo, controverso. Além de se manter escrevendo poemas.

Sua obra mais marcante, com certeza, é poema épico “A”. É seu magnum opus (e bota magnum nisso), que L.Z. começou a escrever ainda em 1927 e terminou 40 anos depois, em 1968. Composto por 24 cantos, equivalentes às 24 horas do dia, o poema tem 803 páginas (sem considerar os índices; se considerarmos os índices do final, o livro tem 826 páginas e começa exatamente com a letra A e termina com a palavra Zion).

Um conhecido crítico, Hugh Kenner, chamou “A” de o “mais hermético poema em inglês, um poema que os estudiosos vão estar ainda tentando elucidar no século 22”. (Isso quem diz foi Barry Ahearn, um dos maiores conhecedores da obra de L.Z., na Introdução da edição de 2011 de “A”.)

E é um trecho do canto “A”-19 que apresento agora traduzido. E já digo: se você não entender muita coisa de início, eu juro, a culpa não é só minha. É necessário fazer um esforço hermenêutico grave pra penetrar o intricado jogo de sentidos e de falta deles, de ritmos, de melodias (a poesia de Zukofsky é altamente musical), de vozes, de alusões, citações, referências e o escambau. Mas o próprio L.Z. dá a chave de leitura, ou, melhor, de apreciação desse canto: aqui será uma espécie de tributo a Mallarmé. 

É preciso dizer que L.Z. empregou aqui e em várias passagens de “A”, como fez com Catulo, a chamada “tradução homofônica”, que acaba por criar um texo como uma imagem sonora do outro, em que a semântica está fortemente subordinada ao sistema fônico. Busquei fazer o mesmo, mas além de transpor o texto em inglês para o português homofonicamente, em várias passagens, que vão parecer ter pouca correspondência, eu fiz isso direto com o texto em francês (de poemas de Mallarmé). Dá uma olhada em algumas notas sobre isso aqui.

Do ponto de vista formal e descritivo, Kenneth Cox, exatamente num estudo chamado “Tribute to Mallarmé” (2001), explica que o “A”-19 é composto por um prelúdio de 8 quartetos + 72 estrofes de 13 versos cada (a última possui 12 linhas).

Todos os versos são formados por duas palavras, exceto o verso final de cada estrofe, que tem três (embora haja irregularidades aqui ou ali).

São então 2³ (= 8) quartetos de 2³ (= 8) palavras cada no prelúdio, e 2³ x 3² (= 72) estrofes de 3³ (= 27) palavras cada no corpo do poema. A estrofe final possui 2² x 3 (= 12) versos e 2³ x 3 (= 24) palavras.

Aqui vai a tradução do prelúdio + 9 estrofes (que é uma parte 1 do poema) + 4 estrofes da parte final (incluindo a última), ou seja, o prelúdio + 13 estrofes (achei o número alvissareiro, L.Z. acha que 13 é um número da sorte).

Ponha um Bach pra tocar e ouça um trechinho dessa canção.

Beethoven Alvarez é professor de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Traduz Plauto. O “A”-21 de L.Z. é uma tradução de Plauto.

* * *

“A”-19

Mais uma
canção – você
quer outra
encóre eu

ouço la-
tente atrás
tarde
do assistente

sua lua
sofrendo de
luzes . lúmens
cuidado pinheiros

e na
porta flocos
de neve
flutuam acima

através e
passa torna
sobre sobe
em espuma

pinhas essas
gelam melhor
qualquer sol
no amanhã

sons tocados
em dedos
luz cai
tocados corações

mais umas
palmas – fama
cobram um
outro cartãozinho.

Azar não
se colagem
inanis vacua
crina remenda
azul juba
flagelo frio
rótas rôtas
cacos a
perversa triste
em orgulho
que odeia
infortúnio Apraz
fútil e range

menos discreto
que ela
lábios raiam
na xícara
primeiro beijo
bento dia
os lábios
não beberam
inda onde
o tardar
é sopro:
arme vem
de mártir rir-se

será se
pode ser
alma posse
por tempo
ilumina-se mesmo
príncipe eleito
paixão saúde
crina seda
ou quimera
ao bálsamo
dos tempos
uma anti-matéria
à sua vista

um ave
duma vez
só ouviu
viu-o longe
nua jubilação
tua história
cinza separa
o fogo
heroi fracote
parece ofensa:
puxasse uma
infante sopa
com irmã corta

pro seu
marido sapateiro
que recriaria
sapatos (se
pés vocês
valem) reviver
amizades monótonas
sua vida
olho separa
ele de
suas roupas
e como
deus vá nu

canção de
sua floresta
a verdade
de sua
face do
seu hino
obra paciência
atlas ervas
ciência ritual
quando insensível
autoridade turva
era humilhado
sem nenhum motivo

seus impalpáveis
conscientes duplos
quando não
olhará alucinado
ar com
divisões sábio
ramo de
litígio que
provoca mas
até que
flores crescem
tão grandes
por suas razões

cruel aspereza
sem símbolos
literalmente Dom
Quixote com
formas nos
pés retornando:
(Duas vidas
desconhecidas uma
da outra
declaram com
e sem
festa um
futuro à parte

do acaso
cantou esposa
cantou filho)
Perguntei-lhe tinha
4 anos
‘por quê
violino?’ respondeu
“Porque eu
gosto muito”
Depois–“você
não sabe
você é
um sapo dorminhoco.”

[…]

De vinhas
bençãos: por
que ter
paciência pra
diferenciar números
aleatórios (meu
13 dá
sorte) e
se !
voz por
Demétrio ‘Egito
. . cantando harmonias
de sete vogais

louvando deuses’
(antes do
fonema) ‘. . sequência
ouvia-se isso
. . vozes substituindo
flauta e
lira ditongo
ditongos encontram-se
. . variedade . . elevação
. . forte . . suave
hoíên não
só diferentes
letras diferentes timbres

ocorrência de
mesmas vogais
um pouco
de canto
trinados canto
empilhado (assim
por dizer)
sobre cantos’
me lembrando
‘Die Elenden
sollen essen’
primeira canção
de Bach (Leipzig)

[…]

Mallarmé (não
o chapéu)
a face
um convertido
parece poder
fazer alguém
envergonhar-se do
canto D’onde
sofrer foi
para sempre
riscado
. nove
logo logo vinte

“A”-19

An other
song – you
want another
encóre I

hear back-
stage the
stagehand’s
late
the stage’s

moon his
sufferance of
lights footcandles
mind pines

at a
door snow
flakes drift
down up

thru and
past turn
over under
on froth

pine needles
frost tomorrow’s
sun better
than any

tune bōwed
fingered drawn
lights dimmed
bōwed heart

another
bŏwed – fame
crowds an
other valentine.

No ill-luck
if bonding
tohu bohu
horsehair mends
azure mane
flogs cold
races rut
shards the
perverse desolate
with pride
who curse
misfortune Place
it futile range

less discreet
than her
lips dawned
on china
benign day’s
first kiss
the lips
not drinking
yet where
to tarry
is breath:
arm even
the martyr’s assay

will may
may be
soul owned
by time
illumine itself
primordial elect
penchant salute
horsehair silk
play to
the balm
of time
an anti-matter
of its sigh

bird one
hears once
of all
alive comber
naked jubilation
its story
cinder sparing
the fire
fierce shying
idleness offense:
purchase woman
child broth
quarryman cut out


for his
marriage cobbler
who’d recreate
shoes (feet
if
you
will) revive
everyday’s amities
his live
eye separate
him from
his togs
so he
walk naked god


song of
his wood
the truth
of a
face of
it hymn
work patience
atlas herb
science ritual
while insensible
authority trouble
to humiliate
ore and motility


their impalpable
conscionable double
when no
eye’ll hallucinate
air with
divisions sage
sprig the
litigious who
tease but
till the
blossom grow
too large
for their reasons


fierce shyness
no symbol
literally Don
Quixote with
shoe trees
come home:
(Two lives
unknown to
each other
profess with
and without
salon a
future apart the


like hazard
sang wife
sang child)
Asked him
4-year old
‘why the
violin?’ responded
“Individually I
love it”
Finally – “you
don’t understand
you’re like
a sleeping frog.”

[…]

The wistaria’s
blessing: why
you should
have patience
ranging random
numbers (my
luck is
13) and
if !
voice thru
Demetrius ‘Egypt
. . singing harmonies
of seven vowels


hymning gods’
(before phoneme)
‘. . sequence men
listened to
. . voices replacing
flute and
lyre diphthong
clashing diphthong
. . variety . . elevation
. . rough . . smooth
hoiain not
only different
letters different breathings


concurrence of
like vowels
a bit
of song
trills song
piled (so
to say)
on songs’
reminding me
‘Die Elenden
sollen essen’
Bach’s first
music (Leipzig Cantorate)

[…]

Mallarmé (not
the hat)
the face
a covert
look might
make one
shy of
song
From
thence sorrow
be ever
raz’d nine
so soon twenty

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poesia, tradução

Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

Poetry is what gets lost in translation.
Robert Frost

Embora tenha nascido na Califórnia (São Francisco, 1874) e vivido em diferentes cidades ao longo da vida, a obra e imagística de Robert Frost ficará para sempre associada à paisagem natural e humana da Nova Inglaterra, no nordeste gelado dos Estados Unidos. Frost, ainda que tenha em seus poemas “bucólicos” a mais poderosa expressão de sua inteligência poética, lembra – no comovente registro da solidão e da melancólica fugacidade da vida – os impasses existenciais dos retratos eminentemente urbanos de Edward Hopper.

De fato, “Beto Geada” sempre me pareceu um Hopper da poesia norte-americana (Cummings, o reverso desse anverso, seria, é claro, o Jackson Pollock). Há em um poema como “Nothing Gold Can Stay” a mesma economia de recursos, a mesma e definitiva síntese presente em “Sun in an Empty Room”, de Hopper.

Ao mesmo tempo, a poesia de Frost apresenta, nas dobras do cotidiano, aquelas velhas situações-limite tão caras à psicologia individualista dos norte-americanos: suas encruzilhadas mitológicas, dos desbravadores do Far West e da filosofia de Thoreau às crossroads de bluesmen faustianosNo caso de Frost, um sujeito solitário diante de “portais” (por assim dizer) que se abrem e fecham nos amplos espaços naturais da Nova Inglaterra. Não à toa, ao lado de Walt Whitman, Robert Frost – muito mais do que Pound, Eliot, Carlos Williams ou Wallace Stevens – é o poeta mais popular e amado dos EUA.

No Brasil, no entanto, excluído do paideuma concretista e menoscabado por acadêmicos e tradutores em geral, muito provavelmente em função do tradicionalismo formal de suas formas fixas e de certa atemporalidade temática ao mesmo tempo antiexperimental e antierudita, este autor fundamental do modernismo norte-americano passou ao largo de esforços tradutórios mais sistemáticos – afora traduções esparsas, Frost ganhou versões brasileiras em uma única e longínqua seleção de poemas (“Poemas Escolhidos de Robert Frost”, Editora Lidador, tradução de Marisa Murray, nos idos de 1969).

Vai aqui, portanto, uma pequena mostra de sua obra: seis dos mais emblemáticos poemas frostianos.

Aperte o defrost. Sirva-se à vontade. Experimente na língua portuguesa.  

Rodrigo Madeira

* * *

NADA QUE É DE OURO PERMANECE

O verde mais cedinho é ouro.
Dos tons o mais fugaz tesouro.
A folha então é flor que aflora,
Apenas porém por uma hora.
Depois a folha perde a flor.
Assim é que o Éden virou dor,
Assim enfim o dia cresce.
Nada que é de ouro permanece.

NOTHING GOLD CAN STAY

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

§

FOGO E GELO

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

FIRE AND ICE

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

§

O CAMINHO NÃO TRILHADO

A estrada se partiu no bosque amarelado
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;

Então tomei a outra, possível também,
E sendo ela talvez a mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Mesmo que, em relação a isso, outros vaivéns
A tivessem gastado na mesma medida

E que, aquela manhã, naquelas duas vias
Houvesse ainda tantas folhas por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas, se um caminho sempre a outros levaria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.

Mais à frente hei de dar, saudoso, o meu relato;
Entre o passado e mim, uma distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença.

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

§

PARANDO À MARGEM DA MATA NUMA NOITE DE NEVE

Acho que sei de quem é a mata,
Fica na vila sua casa;
Não me verá, pois, circunspecto,
Olhando essa mata nevada.

Minha égua acha estranho decerto
Parar sem cocheiras por perto
Entre a mata e o lago gelado
Na noite mais negra do inverno.

Em sinos de arreio vibrados,
Minha égua pergunta – algo errado?
E se ouvem, no mais, na calada
Só neves e ventos soprados.

Escura, funda, bela é a mata,
Mas trago a palavra empenhada
E, antes que eu durma, há tanta estrada.
E, antes que eu durma, há tanta estrada.

STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

§

JUNTANDO FOLHAS

As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando dos meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disso então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.

Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita? 

GATHERING LEAVES

Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who’s to say where
The harvest shall stop?

§

BRAÇADA

Pra cada embrulho que agachando abraço,
Um outro embrulho escorre pelos braços.
E escorregando o litro, o pão francês –
Formas difíceis de abarcar de vez –
Eu nada, ainda assim, deixo pra trás.
O que fazem as mãos e a mente faz,
Ou mesmo o coração, é o meu melhor
Pra equilibrar tijolos como for.
Me agacho pra evitar que caiam todos;
Então me sento, a pilha toda em torno.
Eu tive que soltar tudo na estrada
E começar de novo, outra braçada.

THE ARMFUL

For every parcel I stoop down to seize
I lose some other off my arms and knees,
And the whole pile is slipping, bottles, buns –
Extremes too hard to comprehend at once,
Yet nothing I should care to leave behind.
With all I have to hold with hand and mind
And heart, if need be, I will do my best
To keep their building balanced at my breast.
I crouch down to prevent them as they fall;
Then sit down in the middle of them all.
I had to drop the armful in the road
And try to stack them in a better load. 

Rodrigo Madeira (Foz do Iguaçu, 1979). Poeta e aforista. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras, Pássaro ruim e Baldio.

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Maiakóvski em viagem, por Paulo Ferraz

Para quem fez versos para seu passaporte soviético, é de se supor que Vladímir Maiakóvski o tenha usado bastante. E sim, após algumas viagens por cidades soviéticas, o poeta georgiano, nascido em 19 de julho de 1893 e que desde a adolescência vivia em Moscou, vai algumas vezes para o ocidente, Riga, Praga, Varsóvia, Berlim e Paris, são algumas das cidades por ele visitadas depois de 1922. Em cada uma delas deixou registrado suas impressões, especialmente Paris, onde esteve em mais de uma ocasião. Dessas viagens, a mais inusitada há de ter sido para o novy mir, a América, saindo da Espanha, passando por Cuba, depois México e finalmente os EUA. Os poemas que escreveu entre 1925 e 1926, além de crônicas e cartas, têm a marca da circunstancialidade, mas também do olhar (e ouvido) estrangeiro ao registrar um mundo que só existia para ele como ideia e que se diferenciava tanto da sociedade russa que caíra quanto da que ajudava a construir. Para essa publicação selecionamos cinco poemas, dois sobre Paris, um sobre a Espanha, outro sobre Nova Iorque e, por último, um sobre o México.

Paulo Ferraz


Paulo Ferraz
 é poeta e tradutor, autor dos livros de poesia De novo nada (2007) e Vícios de imanência (2018), entre outros, da antologia Roteiro da poesia brasileira, anos 90 (2011)  e mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.

* * *

PARIS (ПАРИЖ)
(conversando com a Torre Eiffel)

Maltratada por milhões de pés.
Esfacelada por milhares de pneus.
Eu rasgo Paris —
terrivelmente erma,
terrivelmente desumana,
terrivelmente desalmada.
Ao meu redor —
a fantástica dança dos carros,
ao meu redor —
bestas marinhas nos chafarizes
assoviam em um só acorde
as mesmas águas dos Luíses.
Parto para a
Place de la Concorde.
Espero,
e enquanto
espio um sinal que a identifique,
espreitando atrás das casas
sai, por mim,
o bolchevique,
como um espectro
da neblina a Torre Eiffel.
— Psiu,
torre,
seja discreta! —
estão nos vigiando! —
essa lua-guilhotina assusta.
Conto o que se passa
(num sopro sibilado,
em sua
orelha-rádio
chio,
cochicho):
— Tenho agitado as coisas e os edifícios.
Nós
aguardamos apenas sua anuência.
Torre,
você quer liderar uma rebelião?
Torre —
Nós
te elegemos nossa líder!
Você —
exemplo do gênio da ciência —
não pode
apodrecer num metro de Apollinaire.
Aqui não é seu
lugar — lugar da decadência —
Paris das putas,
dos poetas,
da bolsa de valores.
O Metrô já aderiu,
os trens estão comigo —
eles
cuspirão o público
de suas entranhas revestidas —
e com sangue limparão
os anúncios de perfume e pó-de-arroz
nos muros.
Estão convictos
não vão circular o
vagão dos ricos.
Não são escravos!
Estão convictos —
para eles
acima dos retratos
está nossa propaganda,
cartazes de luta.
Torre,
a rua não é temerária!
Se o
Metrô não libertar o subterrâneo —
a terra
será nossos trilhos
Iniciarei uma revolta ferroviária.
Está com medo?
Os cafés defenderão o sistema?
Está com medo?
A Rive Gauche virá em socorro.
Não tema!
Já combinei com as pontes.
Atravessar o
rio
a nado não
é nada fácil!
As pontes,
rompendo com o tráfico enfurecido,
dividirão Paris em duas metades.
As pontes irão se rebelar.
No primeiro chamado —
os passantes serão lançados a um pilar.
As coisas estão indignadas.
É um ponto insuportável.
Depois de
quinze anos
ou vinte,
abrandará o aço,
e essas
mesmas coisas
de agora
lá fora
nas noites de Montmartre vão se vender.
Vamos, Torre!
Conosco!
Afinal,
você,
ao nosso lado,
é essencial!
Venha conosco!
Com seu aço reluzente,
na fumaça —
nós te encontraremos.
Nós te encontraremos com mais afeto
que ao primeiro entre os queridos dos queridos.
Vamos para Moscou!
Em Moscou
nos
sobra espaço.
Você
— e todos! —
estará na via pública.
Nós
cuidaremos de você:
cem vezes
ao dia
sol a sol lustraremos seu cobre e seu aço.
Deixe
essa cidade,
a Paris dos dândis e dos fariseus,
a Paris dos bulevares sufocantes
acaba sozinha, no longo cemitério do Louvre
no velho Bois de Boulogne e nos museus.
Em frente!
Mova suas quatro potentes patas,
cravadas no chão pelo croqui de Eiffel,
para que em nosso céu sua testa irradie,
para que nossas estrelas se desviem diante de ti!
Decida, Torre,
mande tudo à sua sorte,
revirando Paris pelo avesso!
Vamos, se apresse!
Conosco!
Conosco para a URSS!
Vamos conosco —
que eu
te arranjo um passaporte!

(escrito após sua viagem a Paris no outono de 1922)

DESPEDIDA (ПРОЩАНЬЕ)

No carro,
            gasto meu último franco.
— Que horas sai o trem de Marselha? —
Paris
            me escolta,
                                    vejo-a do meu banco,
em sua
            inacreditável
                                    maravilha.
A água que
                        verte
                                    dos meus olhos diz
do coração mole
                               e sentimentalista
                                                            que sou!
Queria
            viver
                        e morrer em Paris,
se não houvesse
                        outra terra —
                                                Moscou.

(1925)

ESPANHA (ИСПАНИЯ)

Pensava que fosse
            o Jardim do Éden.
Bobagem
            de bêbados bardos.
Mas não —
            ao vivo vejo
                        o armazém
“LEOPOLDO PARDO”.
Com cautela se passa
por vilas incrustadas na rocha,
e um burro de raça
tagarela em espanhol.
Despojados de tudo que é plebeu,
enfiam o seu chapéu até o nariz.
O humilde
            “telefone”
                        se converteu
no “teléfono
            de esnobe verniz.
Cabelos pretos
                        entre coloridas centelhas.
Rostos nos xales emoldurados,
Señoritas
                        às centenas
e seus leques de um a outro lado.
Medusas —
            azulam as águas
na medida
            de um exagero.
Sou para uns camaradas
                                    “señor
para outros
                        “caballero”.
Castanholas afugentando o sono.
Gritos…
            canto…
                        paixão!
Mas o que me importa isso?
É como cumprimentar — um cão!

(Escrito a bordo do navio “España” em 22 de junho de 1925)

BROADWAY (БРОДВЕЙ)

O asfalto — é vítreo.
                        E o som grave nos
passos. Bosques e folhas
                        de relva — no limite.
Do norte
            para o sul,
                        pegue as avenues,
do oeste para o leste,
                                    — as streets.
No meio —
            (onde o construtor quis tê-las) —
o tamanho
            das casas tumultua.
Umas
            são imensas como estrelas,
outras
                        — vão até a lua.
Yankees
            são preguiçosos
                        para andar não têm gana:
o elevador
            comum e o expresso.
Às 7 horas
            sobe a maré humana,
às 17 horas —
            ela se esparrama.
O mecanismo range
                        numa algaravia vã,
e não há na rua
                        quem se relacione.
Só refreiam
            a mastigação do chewing gum
para soltar um
                        “make money?
A mãe
            amamenta o nenê
                        que a seu seio o cola.
O nenê,
            com o nariz escorrendo,
suga
como se não fosse
                        uma teta, mas one dollar
entretido
                em sérios
                                    negócios.

Fim do expediente.
                        O corpo se sabe o ei-
xo contínuo
                        de um elétrico vetor.
Quer ir para o subterrâneo?
                                    — tome o subway
para o céu?
            — então, um elevator.
Os vagões
            partem e deixam
                        um rastro de fumaça sem fim,
passam
            rente aos calcanhares
                                                das casas
para pôr pra
                        fora uma cauda
                                                na ponte do Brooklyn
e se enfiar
                numa toca
                                    sob o Hudson.
Uma sonolência
                              te
                                    envolve no breu.
Mas
            como cascos num galope
no escuro
            a mente escuta:
                                    “Coffee Maxwell
good
            to the last drop
Uma lâmpada
                        se põe a
                                    cavar a treva.
Bem, contarei a vocês:
                                    — que deslumbrante!
Olhe pra esquerda:
                                    — nossa, mãe, não se atreva!
pra direita:
                        — mamãezinha, isso é um desplante!
Isso pode ser demais para os de Moscou, pode, eu sei!
Um dia só não basta,
                        o fim é um tabu.
Isso é Nova Iorque.
                                    Isso é a Broadway.
How do you do!
Estou encantado
                        por essa cidade.
Mas
            de meu quepe
                                    não me descubro.
Os soviéticos
                        temos muita autoestima
Para a burguesia
                        nós olhamos de cima.

(6 de agosto de 1925)

TRÓPICOS (ТРОПИКИ)
(Estrada entre Vera Cruz e Cidade do México)

Vejo:
           aqui estão —
                                   os trópicos.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
            trem trôpego
entre palmeiras,
                        entre bananeiras.
Suas silhuetas na vista
desenham uma torpe paisagem:
umas lembram — eremitas,
outras lembram — artistas.
Agora, você
            não creria nesse fato:
dessa balbúrdia de chocar
crescia
            uma planta — o cacto
como um cano de samovar.
Já os pássaros nesse forno
a nenhum do mundo igualo.
Espera-se —
                        um tordo
e se encontra —
                        um galo.
E antes que eu
                        entendesse a flora
ou o delírio
                        ou o calor
                                             ou o dia —
o dia
            e a flora se foram
sem noite
            e sem
                        ousadia.
Onde horizonte se esconde?
Foram as linhas
                        já guar-
dadas. Me conte,
            qual dessas estrelas
são
            olhos de jaguar?
Não devo ser o
                        melhor fiscal
de estrelas
                        da noite tropical,
é um céu
tão estrelado nas
            noites de agosto
que não se esgota
            num só gosto.
Vejo:
                       quadro utópico.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
                        trem nos trópicos
entre o aroma
            das bananeiras.

(escrito após o retorno de Maiakovski entre maio e junho de 1926)

Padrão
poesia, tradução

César Vallejo, por Fred Girauta

Em 2018, completou-se 80 anos da morte de Cesar Vallejo, poeta que fez parte do grupo vanguardista latino-americano que emergiu na década de 1920. Autor de um aobra singular, da qual se destaca Trilce, seu livro mais radical, onde Vallejo desenvolveu uma poética muito pessoal, com temas melancólicos sobre, entre outros, reminiscências da infância, experiência do cárcere, reprocessadas com uma depuração poética concisa, repleta de inversões sintáticas, morfemáticas, que dão ao conjunto de poemas uma dicção fragmentária. Tais obstáculos estéticos, que poderiam levar a uma leitura travada e difícil, são compensados por um desfrute quase musical dos poemas, fruto de sua vinculação a uma linguagem oral/coloquial. Esse amálgama entre escrita retorcida e musicalidade faz de Trilce uma obra única, onde convivem hermetismo e fruição.

No Brasil, temos duas traduções mais conhecidas, as de Thiago de Mello, que traduziu todos os 77 poemas, optando por uma tradução mais literal dos poemas, e a de Amálio Pinheiro, menos óbvia.

Na transcriação dos 77 poemas de Trilce, trabalho/obsessão de mais de uma década, procurei manter a radicalidade dos poemas, buscando, na medida do possível, encontrar soluções inventivas para as invenções trílcicas (para usar um termo de H. deCampos).

Fred Girauta é poeta, letrista e tradutor. Paulistano radicado no Rio de Janeiro. Graduado emPortuguês / Espanhol e suas respectivas Literaturas (UFF), mestre em Literatura Brasileira (UERJ). Autor de canções gravadas por Fred Martins, Beatrice Mason, Daniela Alcarpe, Dalila Couti. Publicou artesanalmente o Livro de poemas Poemas de Katmandu” (2008), a caixa de poemas visuais em caixa (2007), entre outras publicações artesanais. Mantém o site de poesia fredgirauta.blogspot.com.br. Publicou em 2013 o livro de poemas Nós pela Editora Vidráguas.

* * *

I

      Quem faz tanta balbúrdia, e nem deixa
provar as ilhas que vão restando

      Um pouco mais de consideração
que logo será tarde, cedo,
e se aquilatará melhor
a titica, a simples bodega tesudórea
que brinda sem querer,
no coração insular,
salobre alcatraz, a cada hialóideia 
            
largada.

      Um pouco mais de consideração,
e o adubo líquido, seis da tarde
DOS MAIS SOBERBOS BEMÓIS.

      E a península estanca
de costas, acabrestada, impertérrita
na linha mortal do equilíbrio.

I

      Quién hace tanta bulla y ni deja
testar las islas que van quedando.

      Un poco más de consideración
en cuanto será tarde, temprano,
y se aquilatará mejor
el guano, la simple calabrina tesórea
que brinda sin querer,
en el insular corazón,
salobre alcatraz, a cada hialóidea 
            
grupada.

      Un poco más de consideración,
y el mantillo líquido, seis de la tarde
DE LOS MÁS SOBERBIOS BEMOLES.

      Y la península párase
por la espalda, abozaleada, impertérrita
en la línea mortal del equilibrio.

§

II

            Tempo Tempo.

      Meiodia estancado entre relentos
Bomba emburrada do quartel esguicha
tempo tempo tempo tempo.

                Era Era.

      Galos cocorocam ciscando em vão.
Boca do claro dia que conjuga
era era era era.

                Amanhã Manhã

      O repouso quente que há de ser.
Pensa o presente me guarda para
amanhã manhã amanhã manhã

                Nome Nome.

      Que se chama tudo que nos feriça?
Se chama Omesmo que padece
nome nome nome nomE.

II

            Tiempo Tiempo.

      Mediodía estancado entre relentes.
Bomba aburrida del cuartel achica
tiempo tiempo tiempo tiempo.

          Era Era.

      Gallos cancionan escarbando en vano.
Boca del claro día que conjuga
era era era era.

          Mañana Mañana.

      El reposo caliente aún de ser.
Piensa el presente guárdame para
mañana mañana mañana mañana

          Nombre Nombre.

      ¿Qué se llama cuanto heriza nos?
Se llama Lomismo que padece
nombre nombre nombre nombrE.

§

III

      As pessoas mais velhas
Que horas voltarão?
Deu seis horas o cego Santiago,
e já está muito escuro

      Mamãe disse que não demorava.

      Amandinha, Marina, Miguel,
cuidado ao sair por aí, por onde
acabam de passar fanhoseando suas memórias
duplicantes penas,
ante o curral de silêncio, e onde
as galinhas que se deitando estão ainda
se espantaram tanto.
      Melhor estarmos aqui mais nada
Mamãe disse que não demorava.

      Já não tenhamos pena. Vamos olhar
os barcos !o meu é o mais bonito de todos!
com eles brincamos todo santo dia,
sem brigas, como deve ser:
ficaram na poça d’água, prontos,
lotados de doces para amanhã.

      Esperamos assim, obedientes e sem mais
remédio, a volta, o desagravo
dos adultos sempre na frente
deixando as crianças em casa,
como se nós também
                  não pudéssemos partir.

      Amandinha, Marina, Miguel?
Chamo, busco o tateio na escuridão.
Sem essa de me deixarem sozinho,
e o único recluso seja eu.

III

      Las personas mayores
¿a qué hora volverán?
Da las seis el ciego Santiago,
y ya está muy oscuro.

      Madre dijo que no demoraría.

      Aguedita, Nativa, Miguel,
cuidado con ir por ahí, por donde
acaban de pasar gangueando sus memorias
dobladoras penas,
hacia el silencioso corral, y por donde
las gallinas que se están acostando todavía,
se han espantado tanto.

      Mejor estemos aquí no más.
Madre dijo que no demoraría.

      Ya no tengamos pena. Vamos viendo
los barcos ¡el mío es más bonito de todos!
con los cuales jugamos todo el santo día,
sin pelearnos, como debe de ser:
han quedado en el pozo de agua, listos,
fletados de dulces para mañana.

      Aguardemos así, obedientes y sin más
remedio, la vuelta, el desagravio
de los mayores siempre delanteros
dejándonos en casa a los pequeños,
como si también nosotros 
                  no pudiésemos partir.

      Aguedita, Nativa, Miguel?
Llamo, busco al tanteo en la oscuridad.
No me vayan a haber dejado solo,
y el único recluso sea yo.

§

IV

      Rangem duas carretas, contra os martelos
até os trifurcos lagrimais,
quando nunca lhe fizemos nada.
Àquela outra sim, desamada,
amargurada sob túnel campeiro
por algum, e sobre duras gélidas
provas                          espiritivas.

      Estiquei-me em som de terceira parte
Mas a tarde – aquela que vamos ffazer–
se aninha em minha cabeça, furiosamente
sem querer dosificar-se em mãe. São
                                                os anéis.
      São os trópicos nupciais já mastigados.
O alhear-se, melhor que tudo,
rompe em Crisol.

      Aquele não ter descolorido
por nada. Lado a lado ao destino e chora
e chora. Toda a canção
quadrada em três silêncios.

      Calor, Ovário. Quase transparência.
Tudo se faz choro.      Inteiro se faz velado
em plena esquerda.

IV

      Rechinan dos carretas, contra los martillos
hasta los lagrimales trifurcas,
cuando nunca las hicimos nada.
A aquella otra sí, desamada,
amargurada bajo túnel campero
por lo uno, y sobre duras ájidas
pruebas                               espiritivas.

      Tendime en són de tercera parte,
mas la tarde —qué la bamos a hhazer—
se anilla en mi cabeza, furiosamente
a no querer dosificarse en madre. Son 
                                          los anillos.

      Son los nupciales trópicos ya tascados.
El alejarse, mejor que todo,
rompe a Crisol.

      Aquel no haber descolorado
por nada. Lado al lado al destino y llora
y llora. Toda la canción
cuadrada en tres silencios.

      Calor. Ovario. Casi transparencia.
Háse llorado todo.          Háse entero velado
en plena izquierda.

§

V

      Grupo dicotiledôneo, Aberturam
desdele petréis, propensões de trindade,
finais que começam, ohs de ais
achava-se abagatelados de heterogeneidade.
Grupo dos dois cotiledôneos!

      Vejamos.  Aquilo seja sem ser mais.
Vejamos. Não transcenda para fora
e pense em som de não ser escutado,
e crome e não seja visto.
E não derrape no grande colapso

      A criada voz rebela-se e não quer
ser rede, nem amor.
Os amantes sejam amantes na eternidade.
Então não deem 1, que ressoará ao infinito.
e não deem 0, que calará tanto,
até despertar e por de pé o 1.

      Ah grupo bicardíaco.

V

      Grupo dicotiledón. Oberturan
desde él petreles, propensiones de trinidad,
finales que comienzan, ohs de ayes
creyérase avaloriados de heterogeneidad.
¡Grupo de los dos cotiledones!

      A ver. Aquello sea sin ser más.
A ver. No trascienda hacia afuera,
y piense en són de no ser escuchado,
y crome y no sea visto.
Y no glise en el gran colapso.

      La creada voz rebélase y no quiere
ser malla, ni amor.
Los novios sean novios en eternidad.
Pues no deis 1, que resonará al infinito.
Y no deis 0, que callará tánto,
hasta despertar y poner de pie al 1.

      Ah grupo bicardiaco.

§

VI

      A roupa que vesti amanhã
não a lavou minha lavadeira:
lavava em suas veias otilinas
no jorro de seu coração, e hoje não
vou me perguntar se eu deixava
a roupa turva de injustiça.

      Aghora que não há mais quem vá às águas
em minhas pautas engatilha
o pano para empanar, e todas as coisas
do castiçal de tanto que será de mim,
todas não estão minhas
a meu lado.
                        Ficaram de sua propriedade,
aplainadas, estampadas com sua trigueira bondade.

      E se soubesse se há de voltar;
e se soubesse que amanhã entrará
entregando-me as roupas lavadas, aquela minha
lavadeira da alma. Que amanhã entrará
satisfeita, camapu de olaria, ditosa
de provar que sabe sim, que pode sim
                ¡COMO NÃO VAI PODER!
engomar e passar todos os caos.”

VI

      El traje que vestí mañana
no lo ha lavado mi lavandera:
lo lavaba en sus venas otilinas,
en el chorro de su corazón, y hoy no he
de preguntarme si yo dejaba
el traje turbio de injusticia.

      A hora que no hay quien vaya a las aguas,
en mis falsillas encañona
el lienzo para emplumar, y todas las cosas
del velador de tánto qué será de mí,
todas no están mías
a mi lado.
                  Quedaron de su propiedad,
fratesadas, selladas con su trigueña bondad.

      Y si supiera si ha de volver;
y si supiera qué mañana entrará
a entregarme las ropas lavadas, mi aquella
lavandera del alma. Que mañana entrará
satisfecha, capulí de obrería, dichosa
de probar que sí sabe, que sí puede
                                ¡CÓMO NO VA A PODER!
azular y planchar todos los caos.

§

VII

      Rumei sem novidade pela sulcada rua
em que me sei. Tudo sem novidade,
é vero. E fundeei para coisas assim,
e fui passado.

      Dobrei a rua pela qual raras
vezes se passa de boa, saída
heroica pela ferida daquela
esquina viva, nada mero.

      São as grandezas,
aquele grito, a claridade do cara a cara
o porrete submerso em sua função de
                                                            já!

      Quando a rua está olheirosa de portas
e propala desde descalços pedestais
transmanhecer as salvas nos duplos.

      Agora formigas minuteiras
se enfiam adocicadas, dormitadas,
quase indispostas, e se abatem,
queimadas pólvoras, dos altos de 1921.

VII

      Rumbé sin novedad por la veteada calle
que yo me sé. Todo sin novedad,
de veras. Y fondeé hacia cosas así,
y fui pasado.

      Doblé la calle por la que raras
veces se pasa con bien, salida
heroica por la herida de aquella
esquina viva, nada a medias.

      Son los grandores,
el grito aquel, la claridad de careo,
la barreta sumersa en su función de
                                                             ¡ya!

      Cuando la calle está ojerosa de puertas,
y pregona desde descalzos atriles
trasmañanar las salvas en los dobles.

      Ahora hormigas minuteras
se adentran dulzoradas, dormitadas, apenas
dispuestas, y se baldan,

quemadas pólvoras, altos de a 1921.

§

VIII

      Amanhã sendoutro dia, alguma
vez acharia pro sobressalto poder,
entrada eternal.

      Amanhã algum dia,
seria a tenda aprazível
com um par de pericárdios, casal
de carnívoros no cio.

      Bem pode fincar isso tudo.
Mas um amanhã sem manhã,
entre os aros de que viúvos seremos
margem de espelho haverá
em que traspassarei a própria fronte
até perder o eco
e ficar com a cara nas costas.

VIII

      Mañana esotro día, alguna
vez hallaría para el hifalto poder,
entrada eternal.

      Mañana algún día,
sería la tienda chapada
con un par de pericardios, pareja
de carnívoros en celo.

      Bien puede afincar todo eso.
Pero un mañana sin mañana,
entre los aros de que enviudemos,
margen de espejo habrá
donde traspasaré mi propio frente
hasta perder el eco
y quedar con el frente hacia la espalda.

§

IX

      Buzco devolvvver num golpe o golpe.
Suas duas folhas largas, sua válvula
que se abre em suculenta recepção
de multiplicando a multiplicador,
sua condição excelente para o prazer,
tudo a via verdade.

      Busco devolvver num golpe o golpe.
Ao seu afago, intrometo rugosas insurgências
os trintaedois cabos e seus múltiplos
se ajustam pelo por pelo
soberanos beiços, os dois tomos da Obra,
e não vivo então ausência,
                  nem ao tato.

      Falho volwer num golpe o golpe.
Não encilharemos jamais o taurino Babeio
de egoísmo e daquele bulir mortal
de lençóis,
desque esta mulher
                  quanto pesa geral!

E fêmea é a alma da ausente.
E fêmea é a minha alma.

IX

      Vusco volvvver de golpe el golpe.
Sus dos hojas anchas, su válvula
que se abre en suculenta recepción
de multiplicando a multiplicador,
su condición excelente para el placer,
todo avía verdad.

      Busco volvver de golpe el golpe.
A su halago, enveto bolivarianas fragosidades
a treintidós cables y sus múltiples,
se arrequintan pelo por pelo
soberanos belfos, los dos tomos de la Obra,
y no vivo entonces ausencia,
                    ni al tacto.

      Fallo bolver de golpe el golpe.
No ensillaremos jamás el toroso Vaveo
de egoísmo y de aquel ludir mortal
de sábana,
desque la mujer esta
                    ¡cuánto pesa de general!

Y hembra es el alma de la ausente.
Y hembra es el alma mía.

§

X

      Prístina e última pedra de infundada
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, outubro cafofo e prenhe.
De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino,
mitrado monodáctilo, ri.

      Como atrás desenganam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
sob a linha de todo avatar.

      Como as baleias singram as pombas.
Como estes por sua vez deixam o bico
cubicado em terceira asa.
Como descavalgamos, de cara com monótonas ancas.

      Se reboca dez meses até a dezena,
até outro mais além.
Dois ficam ainda ao menos de fraldas.
E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.

      Não há nem uma violência
O paciente incorpora-se,
e sentado empapuça tranquilas misturas.

X

      Prístina y última piedra de infundada
ventura, acaba de morir
con alma y todo, octubre habitación y encinta.
De tres meses de ausente y diez de dulce.
Cómo el destino,
mitrado monodáctilo, ríe.

      Cómo detrás desahucian juntas
de contrarios. Cómo siempre asoma el guarismo
bajo la línea de todo avatar.

      Cómo escotan las ballenas a palomas.
Cómo a su vez éstas dejan el pico
cubicado en tercera ala.
Cómo arzonamos, cara a monótonas ancas.

      Se remolca diez meses hacia la decena,
hacia otro más allá.
Dos quedan por lo menos todavía en pañales.
Y los tres meses de ausencia.
Y los nueve de gestación.

      No hay ni una violencia.
El paciente incorpórase,
y sentado empavona tranquilas misturas.

Padrão
poesia, tradução

Prufrock, Sayão, Pedrosa, por André Capilé

“O verso mais interessante já escrito em nosso idioma se obtém ou tomando uma forma muito simples, como o pentâmetro jâmbico, e constantemente se afastando dela, ou partindo da ausência de forma e constantemente se aproximando de uma forma muito simples. É esse contraste entre fixidez e fluxo, essa discreta fuga da monotonia, que constitui a própria vida do verso. […] Podemos, pois, apresentar a seguinte formulação: o fantasma de algum metro simples deve sempre esconder-se atrás do cortinado, até mesmo no verso mais ‘livre’” [T. S. Eliot em tradução do Paulo Henriques Britto].

Sendo “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” um dos poemas mais traduzidos do modernismo anglófono, haveria, ainda, motivações razoáveis em repetir, mais uma vez, a empreitada?

Empreendendo uma pesquisa sobre verso livre no Brasil, acompanhando de perto as reflexões de Paulo Henriques Britto, encontrei-me instigado a mexer com esse poema. Ao ler alguns prosodistas estadunidenses sobre o tema, e suas obsessões contabilistas — já não me lembro se Fussel ou Beyers —, apontavam que no desenvolvimento formal da “love song” era possível encontrar um pouco mais de 50% dos versos marcados pelo regime do pentâmetro — a tal “forma muito simples” que ora se aproxima, ora se afasta, dita por Eliot.

Quando me dirigi às versões que encontrei, embora tenha lido algumas prodigiosamente realizadas no âmbito do ritmo, de modo geral esse regime de medida era sumariamente negligenciado. As respostas que comumente são dadas ao pentâmetro, em língua portuguesa, são endereçadas ao decassílabo ou ao dodecassílabo. Vide, por exemplo, essa inversão com a brilhante tradução de Bishop ao poema do Vinícius no âmbito da forma, em que ela converte em pentâmetros os dodecassílabos dele — Scandolara trata disso aqui: https://escamandro.wordpress.com/2012/07/11/elizabeth-bishop-tradutora/

Tentei, o melhor possível, responder a esses pentâmetros encontrados na “love song”. Mas ainda outro incômodo comparecia: a negligência dos esquemas de rimas que Eliot disseminava ao longo de todo o poema. A tradução a que a maioria das pessoas tem acesso é a de Ivan Junqueira, justamente ela é a que mais se afasta dessas proposições.

O pentâmetro, ali, é a enzima que mobiliza o que Eliot chama de “metro fantasma”, um elemento persecutório que martela o ouvido, habituado ou não, na insistência de uma familiaridade rítmico-sonora. Pensemos, por exemplo, no “poema sujo” do Gullar. Acredito ser incontornável a audição, aqui e ali, do fantasma de arte menor das redondilhas maiores jogando com o ritmo físico da mancha gráfica. Mas esse assunto é outro.

Ainda com as rimas o caso é o mesmo. Cada turno estrófico em que Eliot emprega um esquema de rimas, ainda que irregular, joga o tempo todo com o monumento da tradição como se o traísse pela brecha do ridículo. É o “admirabilíssimo ão”, é o “mundo mundo vasto mundo” da anglofonia. Elementos, no fim das contas, que são incontornáveis, a meu ver.

Traduzi esse poema para entrar numa coleção intitulada “Herbert Richers” da Edições Macondo. É uma versão brasileira. A melhor possível. Obviamente me vali das traduções realizadas, e postadas, aqui na escamandro. Muitas vezes uma ótima idéia, rimada com geléia, já havia sido realizada. E, naturalmente, impunha outra tomada de caminho.

As opções, de modo geral, ficam bem claras e não creio que careceriam de maiores apontamentos. Mas uma questão incomoda a muita gente boa: a tradução do nome do J. Alfred Prufrock por J. Pinto Sayão. Não vou me alongar, mas pensando um bocado na figura da personagem, fantasiando uma etimologia para Prufrock, chegou-se em “prurience” e “frock”, a justa “lascívia” da “batina”. Sayão garante um certo ar de aristocracia. E aí está. Mas devo, mesmo, esse nome ao Paulo Henriques Britto. O mérito não é nada meu.

O que me pertence, no fim, é a glosa roubada da canção. Em J. Geraldo Pedrosa, um nome mais comum, fora o início, que é tentativa de dar cabo a outras possibilidades de abertura, há toda um despojo pra jogar, mais uma vez, com a quase impossível tarefa de traduzir “as moças que vem, as moças que vão, falando sem parar pelo salão”.

 

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Publicará muimbu pela Edições Macondo agora em abril. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

A CANÇÃO DE AMOR DE J. PINTO SAYÃO

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cio che giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’ odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos;
E as ostras com serragem nos botecos:
Ruas que seguem como uma discussão tediosa
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças,
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias,
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

E muito certamente haverá tempo
Para se perguntar: “Devo eu ousar?” e, “Eu devo ousar?”
Tempo de dar meia volta e descer as escadas,
Com o meu cocuruto calvo como um alvo —
(E dirão: “Como o cabelo dele está ficando ralo!”)
Meu paletó, colarinho engomado, o queixo firme,
Alfineto a gravata, mui discreta e chique,
(E dirão: “Como as pernas e braços dele estão magrinhos. ”)
E eu devo ousar
Perturbar o universo?
Em um minuto temos tempo
Pra decisões e revisões que num segundo verão seu reverso.

A todos conheci, já sei de tudo: —
Sei bem as noites, as manhãs, as tardes,
Tenho a vida medida em colheres de chá;
E sei, num fim de outono, as vozes moribundas
Que vem de um salão remoto, sob música.
Como então eu presumiria?

Conheci de todos, os olhares, os olhares todos —
Olhos te acertam numa frase lapidar,
E quando eu estiver formulado, estrebuchando em um alfinete
E eu estiver espetado e contorcido na parede,
Como então deveria eu começar
A escarrar o bagaço da vida diária?
E como eu presumiria?

E também sei de braços, todos eles —
Brancos e nus os braços portam braceletes
(Mas a lâmpada alumbra a penugem castanha!)
Vem do perfume das saias
O que me faz divagar?
Esses braços pousados numa mesa, ou envoltos em um xale.
E como eu presumiria?
E eu começaria como?

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Diria: Caminhei no crepúsculo por vielas estreitas,
Vendo a fumaça subir dos cachimbos
De homens sós, em camisetas, nas janelas? . . .

Eu deveria ter sido um par de garras molambentas
Escrutando o fundo de mares silentes.

.      .      .      .      .      .      .      .      .

E a tarde dorme, anoitecendo, tão pacífica!
Apalpada por longos dedos,
Dormente . . . fatigada . . . ou achacadiça,
Estirada no chão, aqui, ao lado de mim e você.
Eu deveria, após o chá, sorvete e quiche,
Ousar levar esse momento a uma crise?
Apesar de choro e jejum, choro e oração,
E de ter visto minha cabeça (um pouco calva) ser carregada
[ sobre uma travessa,
Não sou profeta —, isso em nada interessa;
Vi meu momento de glória piscar,
Vi o eterno lacaio vestir-me o casaco, e assobiar;
Em resumo: eu tive medo.

Valeria a pena, depois de tudo?
Depois das xícaras, geléia e chá,
Em meio à porcelana, em meio às nossas falas,
Teria valido a pena,
Cortar, com um sorriso, o falatório;
Ter premido o universo numa bola
Que rola ao crucial questionamento;
Dizer: “Sou Lázaro, venho dos mortos,
Vos direi tudo, Eu tudo Vos direi na volta” —
Se alguém, pousando a testa na almofada,
Balbuciasse: “Não disse bem isso; contudo
Falei mas não assim, em absoluto”.

Valeria a pena, depois de tudo,
Teria valido a pena,
Depois do por do sol, os fundos de quintais e as ruas polvilhadas,
Depois do chá das cinco, da novela das seis, do giro no salão
[ com a saia rendada —
É isto, e então: mais nada? —
É impossível dizer justo o que quis dizer!
Como se houvesse projetado uma lanterna mágica, na tela,
[ uma sessão de nervos:
Teria valido a pena
Se alguém, ao ajeitar uma almofada ou retirar um xale,
E voltando-se em direção à janela, dissesse:
“Não é nada disso;
Não foi nada disso que eu quis dizer.”

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Não! Não sou, nem quis ser, Príncipe Hamlet;
Sou um lorde cortesão, que servirá
De figurante com andar solene, iniciada uma ou outra cena,
Aconselhar o príncipe: uma ferramenta simples, sem dúvida;
Respeitoso, contente de ser útil,
E meticuloso, e cauto, e prudente;
Um fraseado pomposo, mas um pouco obtuso;
Às vezes parece um tanto ridículo —
Às vezes, de fato, o BUFO.

Envelheci . . . Ah, eu envelheci . . .
Dobrar as bainhas das calças eu consegui.

Partirei pelo meio o meu cabelo? Me atreverei comer um pêssego?
Vestirei calça branca de flanela, e vou andar sobre a areia.
De uma pra outra, ouvi cantar sereias.

Não devo crer que cantarão pra mim.

Nas ondas do mar, cavalgando, as vi
No recuo das vagas, penteando crinas claras
Que o vento rufla, em preto & branco, as águas.

Cingem-nos as Ondinas com grinaldas de algas pardas e rubras
Nas câmaras do oceano persistimos
Até que humanas vozes nos despertam, e sucumbimos.

§

A cantilena de J. Geraldo Pedrosa

Poderia começar tudo de novo —
como enxugar o gelo ou alisar um ovo —
dizendo simplesmente: “as moças vão e vem”.
Contudo, seguem os segundos sem demora.
E se pergunta: “o que é que vem agora?”
Agora já passou mais um segundo,
— talvez eu te visite em mais um turno,
ó mundo que me deu só um amor.
E o tempo é pra perder — não é terrível
poupar a vida temendo o ridículo?
Saber que o mel, dessa canção, é um horror?
Então, vou me montar, passar o rímel;
espera mais um pouco, e já saímos
— é hora de largarmos os relógios.
E aí? Vamos agora, só nós dois,
quando espalhado contra o céu o sol se pôs
como um paciente eterizado ali na maca;
certo, as ruas estão meio desertas,
mas não reclame muito, se o refúgio inquieta
a noite, se o pernoite é num motel barato,
ou se os botecos dão-nos ostras com borralho:
feito papo furado a via ruma
por intenções movidas com astúcia
conduzindo-o à questão excruciante. . .
“Qual é?” Ah, nem me venha com seus arremedos:
a vida é muito curta pra ter medo
e as moças vão e vêm, num toma lá dá cá
(feito uma aparição no meio do tumulto
— as pétalas no charco, e os galhos brunos).
e as falas principais são das atrizes —
quando começam, não há quem as pare:
garotas que azulejam Portinari,
não deixam por riscar mais uma prise.
a vida é pura, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
O drama inicial foi bem dinâmico —
quando começa a dança, ele vai ver:
garotas que se clicam por Monet,
deixam de ser motivo (e desce pano).
A vida é rara, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
Cansou de artista plástico um minuto —
o assunto é borrachudo, como um cheque:
talvez seja melhor samba de breque,
e o que sobra do tom é bem cascudo.
A vida é bamba, e as bossas vão durar
pelo salão… enquanto tocam sem parar.

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poesia, tradução

Um poema de Michaux, por Virna Teixeira

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Henri Michaux (1899-1984). Cidadão francês, nasceu na Bélgica. Foi educado como jesuíta e chegou a estudar Medicina. Poeta, desenhista e pintor, começou a escrever em 1922 após ler Lautréamont. Mudou para Paris em 1924, descobriu a pintura e viajou extensivamente pela Europa e América do Sul e África. Seu trabalho com artista desenvolveu-se paralelamente com a poesia. Também escreveu diários de viagem e crítica de arte. Expôs pela primeira vez em 1937, em Paris, e mais tarde chegou a expôs no Guggenheim Museum em Nova Iorque. Seu estilo é único. Começou a fazer experimentos com mescalina em 1955, fez vários desenhos sob influência da substância. Em 1965 recebeu o Prêmio Nacional de Literatura, que recusou.

Virna Teixeira é poeta e tradutora. Estudou Medicina, especializou-se em Neurologia e vive em Londres, onde faz pós-gradução em Medical Humanities no King’s College.

* * *

A TRAVERS MERS ET DÉSERT

Efficace comme le coït avec une jeune fille vierge
Efficace
Efficace comme l’absence des puits dans le désert
Efficace est mon action
Efficace

Efficace comme le traîte qui se tient à l’écart entouré de ses hommes prêtes à
tuer
Efficace comme la nuit pour cacher les objets
Efficace comme la chèvre pour produire des chevreaux
Petits, petits, tous navrés dejà

Efficace comme la vipère
Efficace comme le couteau effilé pour faire la plaie
Comme la rouille et l’urine pour entretenir
Comme les chocs, les chutes et les secousses pour l’agrandir
Efficace est mon action

Efficace comme le sourire de mépris pour soulever dans la poitrine du méprisé
un océan de haine, qui jamais ne sera asséché
Efficace comme le désert pour déshydrater les corps et affermir les âmes
Efficace comme les mâchoires de l’hyène pour mastiquer les membres mal
défendus des cadavres
EFFICACE
Efficace est mon action

ATRAVÉS DE MARES E DESERTO

Eficaz como o coito com uma virgem
Eficaz
Eficaz como a ausência de poços no deserto
Eficaz é minha ação
Eficaz

Eficaz como o traidor que se mantém à espreita rodeado por seus homens prestes a matar
Eficaz como a noite para esconder os objetos
Eficaz como a cabra pra produzir os cabritos
Pequenos, pequenos, todos desolados já

Eficaz como a víbora
Eficaz como a navalha afilada para fazer o corte
Como a ferrugem e a urina para entreter
Como os choques, as quedas e os abalos para engrandecer
Eficaz é minha ação

Eficaz como o sorriso de desprezo para elevar no peito do desprezado um
oceano de ódio, que jamais irá secar
Eficaz como o deserto para desidratar os corpos e enrijecer as almas
Eficaz como as mandíbulas da hiena para mastigar os membros indefesos dos
cadáveres
EFICAZ
Eficaz é minha ação

(Henri Michaux Tradução: Virna Teixeira)

 

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crítica, poesia, tradução

Alfredo Mario Ferreiro, por Matheus José Mineiro

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Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

Alfredo Mario Ferreiro nasceu em Montevidéu, em 1 de março de 1899. No meio da década de 1920 começou a destacar-se como um dos mais ativos agitadores de vanguarda no Uruguai. Seus dois livros de poemas, O homem que comeu um ônibus (poemas com odor de NAFTA) (1927) e Por favor não apertar as mãos (poemas profiláticas com base em imagens de chão) (1930), são exemplos de uma partícula estética latino-americana que nutriu-se do futurismo de Marinetti e Verhaeren bem como do surrealismo de Breton e Soupault.

Meu primeiro contato com a produção poética do Alfredo foi através da antologia AVIONES PLATEADOS: 15 POETAS FUTURISTAS LATINOAMERICANOS, organizada por Juan Bonilla, onde figuram excelentes manejos de poesia que traçam um panorama até então “novo” na América ao qual retrata esta relação de aproximação do poema com a novidade urbana, a tecnologia e a densidade demográfica e social.

AMF quebra regras tradicionais, exalta a máquina e a novidade. Está em contato com outros escritores dessa linhagem na América Latina como Alberto Hidalgo, Saralengui, Huidobro, José Sucre, Cardoza y Aragon como seus conterrâneos Herrera y Reissig, Delmira Augustini, Juana de Ibarbourou e Juan Parra Del Riego. A seguir, abrangendo uma característica peculiar desta safra produzida nos meados do século vinte pela America Latina, exponho em espanhol os últimos versos do poema “Perifonico ” :

mí timpano está allá arriba.
es una hamacã paraguaya
que se balancea em el aire.
velocidades espantosas
me traen las palabras.
un tísico me habla desde del Brasil.
La Tierra entra las ondas
con un estrecemecimiento de espanto.

E segue a imagem de mais um poema:

Poema sin obstáculo del trânsito ligero

Poema sin obstáculo del trânsito ligero

AMF valoriza o fonema e a espacialidade da palavra no papel, maneja a cotidianidade inédita que a metrópole propunha, como um êxodo sofisticado, fazendo uso de imagens urbanas com a proposta do concreto e do aço na arquitetura. No poema Trem em marcha, ele ressalta o uso de uma ferramenta pouco explorada, sendo o poema totalmente construído a partir onomatopeias. E carrega consigo toda destreza no manejo de diversas figuras de sintaxe que lhe propiciam fertilidade nesta produção de imagens correlacionadas ao tempo-espaço em que se encontra o autor.

11824263_1014745811898700_1839749828_nInteressante frisar e citar os títulos dos poemas que compõe  El hombre que se comió um autobus como; “Radiador”, “ Radiotelefonia”, “ El dolor de ser Ford”, “Carburador”, ilustrando bem esta sensação a qual poema foi submetido a partir da aproximação das figuras de linguagem com a automação e o ineditismo industrial que o século configurava em alta escala, conduta similar a de um Jeremias Sem Chorar na obra do Cassiano Ricardo. Este choque, esta surpresa, este novo olhar que foi instalado diante do poema mediante as novidades das metrópoles e da era industrial se estende ate nossos dias, com os avanços tecnológicos e eficientes que o século anuncia e que a produção poética, desde as vanguardas do século xx vem acompanhando e, sobretudo, segue experimentando novas expressões com mesmo semblante estupefato, irônico, contestador e contemplativo.

Como foi São Paulo para Mário e Luis Aranha, Buenos Aires para Olivero Girondo e Aldo Pellegrino, Lima para Oquendo de Amat; Alfredo foi mais um destes poetas que se deparou com a cidade, o automóvel, o concreto armado, o tráfego aéreo, a urbanização, a arquitetura, a futura metrópole, ainda em fase embrionária, num alto grau de efervescência e novidade. Nas palavras de José María Bon:

Su producción no cuida las formas, no tiene borradores, no se esconde detrás del traje y la corbata. Por el contrario, recorre las calles llenas de novedad, sube a un autobús en pijama sin importarle el “qué dirán” y se arriesga a lo diferente. La división entre lo público y privado no existe en este escritor, la diferencia entre alta y baja cultura no es de importancia porque las fronteras se difuminan y se pierden detrás del humo que emana el caño de escape de algún automóvil en marcha.

Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta - 1927

Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta – 192

Ao longo de sua vida, ele manteve contato com outros escritores nacionais e internacionais, como Gervasio Guillot Muñoz, Nicholas Olivari, Jules Supervielle, Oliver Girondo, e Raul Gonzalez Tunon. Em alguns poemas que foram escritos no Uruguai dos anos vinte usou procedimentos formais para aliar humor, ironia e contemplação diante dos avanços que a cidade oferecia  para tentar apanhar com paradigmas europeus e em alguns casos procurando a soprar a poesia modernista. O primeiro fator foi o uso do verso livre, lendo Mallarmé, Verhaeren, Whitman, Apollinaire e Marinetti.. Em suma, um desconto para a solenidade das palavras e os temas de prestígio (morte, amor, angústia) muitas vezes ao longo do humor corrosivo e juvenil.

Alfredo Mario Ferreiro foi um dos poetas esquecidos da avant-garde  do Uruguai. Sua figura começou a se destacar nos últimos anos. Em 1999 o livro O Homem que Comeu um ônibus foi reeditado. Uma vanguarda que não desiste, que reúne textos inéditos em livro do autor e artigos sobre sua poesia e jornalismo. Além disso, o Presidente da Secção Uruguaio de Literatura e o Arquivo e Documentação do Instituto de Artes da Faculdade de Humanidades e Educação, organizou seminários chamados de “Abordagens para a arte latino-americana (Alfredo Mario Ferreiro de 1899 à 1959).

Ele morreu em Montevidéu, em 24 de junho de 1959.

Arquivo do livro EL HOMBRE QUE SE COMIO UM AUTOBUS, em espanhol:

http://www.archivodeprensa.edu.uy/biblioteca/alfredo_mario_ferreiro/textos/bibliografia/elhombreque.pdf

Matheus José Mineiro

* * *

Poemas de Alfredo Mario Ferreiro

Traduções de Antonio Miranda

POEMA DO ARRANHA-CÉU DE SALVO

O arranha-céu é uma girafa de cimento armado
com a pele manchada de janelas.

Uma girafa estacionada em Andes y 18,
incapaz de atravessar a rua,
com medo de que os automóveis
se metam entre as patas e a derrubem

Que idéia de repouso daria um arranha-céu
deitado no chão!

Com quase todas as janelas
olhando para o céu.
E sangrando pelas tubulações
da água quente
e da refrigeração.
O arranha-céu de Salvo
é a girafa de cimento
que completa o zoológico edifício
de Montevidéu.

POEMA DEL RASCACIELOS DE SALVO

El rascacielos es una jirafa de cemento armado
con la piel manchada de ventanas.

Una jirafa un poco aburrida 
porque no han brotado palmeras de 100 metros.

Una jirafa empantanada en Andes y 18,
incapaz de cruzar la calle,
por miedo de que los autos
se le metan entre las patas y le hagan caer.

¡Qué idea de reposo daría un rascacielos 
acostado en el suelo!

Con casi todas las ventanas
mirando cara al cielo.

Y desangrándose por las tuberías
del agua caliente
y de la refrigeración.

El rascacielos de Salvo
es la jirafa de cemento
que completa el zoológico edifício
de Montevideo.

§

AVIADOR

Protótipo de homem.

Na aurora da Morte
Eu vi tuas quedas
Para o outro lado.

De um golpe de timão
Afugentaste os cães calados

Do Mais Além.

Protótipo de homem.

Odor de civilização
Encontrei nas válvulas
de teu motor.

Moedor de sol
Com moinho vertiginoso
Da hélice,
Para fazer pão de luz.

Ventilador do céu.
Perfurador do ar.
Assombro dos pássaros.

Inveja das árvores
Que estendem, por via das dúvidas,
Seus ramos.

Moedor do sol,
Punching-ball dos ventos,
Acoitador de nuvens,
Alisador de nuvens.

Tua cabeça, aviador,
É o ponto necessário
Para o i latino de teu avião.

AVIADOR

Prototipo del hombre.

En la aurora de la Muerte
He visto tus caídas
Hacia el otro lado.

De un golpe de timón
Ahuyentaste los perros callados
Del Más Allá.

Prototipo del hombre.

Olor a civilización
Encontré dentro de las válvulas
De tu motor.

Moledor de sol
Con el molino vertiginoso
De la hélice,
Para hacer pan de luz.

Abanicador del cíelo.
Horador del aire.
Asombro de los pájaros.

Envidia de los árboles
Que tienden, por las dudas,
Sus ramas.

Moledor de sol,
Punching-ball de los vientos,
Azotador de nubes,
Alisador de miedos.

Tu cabeza, aviador,
Es el punto necessário
Para la i latina de tu avión.

§

POEMA AVIÔNICO DO TÉRMINO DE RAID

Aterrizo com extrema força,
Os hangares em prontidão.
Cheiro de gasolina de carícia queimada.
E, em seguida, silenciador de beijos.

Ah, a áspera dinâmica
de querer-te em mecânica!

Loura maquinaria,
com tantos quilômetros de ação
dentro do território da ternura.

Viajo só.
“Águia solitária.”
sobre o mar de teus sentimentos.
Desejos de aquatizar…
mas estas rodas!

A imantação de teus desejos
torce os lemes de profundidade.

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

POEMA AVIóNICO DEL TÉRMINO DE RAID

Aterrizo con demasiada fuerza.
Hay premura en los hangares.
Olor a nafta de caricia quemada.
Y, en seguida, silenciador de besos.

¡Ah, la dinámica áspera
de quererte en mecánica!

Maquinita rubia,
con tantos kilómetros de acción
dentro del territorio de la ternura.

Viajo solo.
«Águila solitaria»
sobre el mar de tus sentimientos.
Deseos de acuatizar…
¡pero estas ruedas!

La imantación de tus deseos
vuelca los timones de profundida,

Vuelo tan bajo
que necesito más las ruedas
que las alas.

 

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