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Wladyslaw Szlengel (1912-1943), por Piotr Kilanowski

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Wladyslaw Szlengel foi um poeta judeu-polonês nascido em Łódź. Suas canções escritas em polonês eram muito populares no Gueto, expressavam seus pensamento e estados de espírito. Eram recitados em diferentes apresentações de serões de diversões, circulavam em cópias de máquina de escrever ou hectográficas. Apesar de sua pouca qualidade artística, gozavam de popularidade, comoviam até às lágrimas, pois expressavam aqueles tempos, falavam de coisas com as quais o Gueto vivia e que apaixonadamente comentava.

O poema intitulado Coisas, coisas descreve o processo que afetou as posses judias nos tempos da ocupação alemã. O poeta enumera a longa lista de coisas, menciona até utensílios levados pelos judeus na mudança da parte sul de Varsóvia para o bairro norte, saindo das zonas mistas para a zona puramente judaica, o gueto. Do Gueto pequeno ao Gueto grande já levaram poucas coisas. E quando passavam do Gueto para os “szopy” particulares, sobrava muito pouca coisa da riqueza ou das posses: somente um embornal e um cantil com água. Nos apartamentos abandonados pelos judeus, resta apenas um comprimido como corpus delicti:

Ante o tribunal, contudo,
(se acaso veritas victi (!)…)
restará um comprimido
expondo o corpus delicti.

O poema A despedida dos três quepes conta a despedida do jovem poeta com três quepes: de estudante, de militar e de policial judaico. O autor relata sua participação na defesa de Varsóvia e a despedida com o quepe de militar. Mais para o fim do poema, descreve a ação de deportação dos judeus de Varsóvia, da qual teria que participar como policial. O poeta, não querendo ajudar aos alemães na ação do extermínio, despede-se do quepe policial. Poucos foram os judeus policiais que fizeram escolha semelhante. Cito aqui duas estrofes do poema:

Você é o quepe em que te vê a humanidade,
que a avó ariana, ele é mais importante.
Não checam o que tens nas calças ou na identidade,
o quepe teu valor declara antes…

Despedida com o quepe policial:

O mundo é todo fechado para mim,
cada portão é uma cilada sem fim,
se me darei melhor ou pior não sei
meu quepe – chegou a hora do adeus…

Seria difícil superestimar a especificidade de tal perspectiva, considerados o alcance, a minúcia e a nitidez da visão que ela proporciona. Em grande medida, no entanto, o legado criativo de Szlengel continua desconhecido: na Polônia inclusive, sob certos aspectos , e que dizer então fora dela!

* * *

O MONUMENTO

Aos heróis – epopeias e rapsódias!!!
Aos heróis honrará a prole,
os seus nomes em pedestais gravados,
e os seus monumentos em mármore.

Aos soldados valentes – as medalhas!
Uma cruz – à morte do soldado!
As glórias e os sofrimentos em aço,
bronze e granito encantados.

Ficarão dos Grandes as Lendas,
de que eram Enormes, o testamento,
o mito consolidará e restará
o Monumento.

Quem pra vós vai contar, ó Futuros,
a história – nem de mito que resiste,
nem de bronze – que a levaram, mataram…
e que ELA não existe…

Se ela era boa? Nem isso –
brigava e as portas batia,
resmungava, vociferava…
mas – existia.

Bela? Nem antes dos cabelos prateados,
ninguém de uma beldade a chamaria
Sábia? Eh, comum, simplesmente não foi
burra…
E no entanto…existia.

Entendes: Ela estava e agora não está,
em cada canto algo ruim, coisa má,
e dá para ver logo que Ela não está.

Nada de grande palavra: O Lar,
Deus meu, que casa era essa?!
………….(não eram de Varsóvia)
O marido o dia todo na oficina,
o filho – sempre correndo com pressa,
o quarto raramente arrumado,
………….(pois de baixo água trazia),
os móveis de algum jeito ordenados,
o relógio parecia sorrir animado,
pois – Ela existia.
Existia.

E daí? Ser humano? Não importa –
em estatística não vai constar,
para o mundo, a Europa – é um nada,
grandes coisas esta Sua labuta suada,
mas quando se chegava à porta do lar,
mesmo antes de tocar na maçaneta, abrir,
no ar algum cheiro bom havia,
ou sopa quente, ou toalha macia,
um calor familiar te envolvia,
pois…
………….Ela existia.

E a levaram,
Foi do jeito que estava.
Do fogão.
Da sopa não provaram…
carregaram, foi-se, não está,
mataram.

O marido voltará da oficina,
sentará na banqueta chocado,
as mãos fracas cairão pros lados,
olhará com a cabeça meneando.

No fogão não há fogo –
no chão, pano caído,
prato na mesa – sujeira demais.
Não levanta, curva-se, pensa.
Nada a fazer.
………….………….Não está mais.

A sopa rala e estranha da oficina
da fábrica, e o pão – vai pôr na goela,
Come e olha:
………….………….na prateleira em silêncio
fria e morta a Sua panela.

Não retornará à oficina,
o filho vai voltar faminto,
na desfeita cama amarela,
sem tirar o sapato barrento,
deitado, não dormirá.
Vai olhar, não esquecerá um só momento…
………….Ali, da Mãe, a esfriada p a n e l a –
………….O SEU MONUMENTO.

P O M N I K

Bohaterom – poematy, rapsody!!!
Bohaterów uczczą potomni
na cokołach nazwiska ryte
i marmurowy pomnik.

Walecznym żołnierzom – medal!
Śmierci żołnierskiej krzyż!
Zakląć chwałę i mękę
w stal, granit i spiż.

Zostaną po Wielkich Legendy
że tacy byli ogromni.
Mit zakrzepnie i – będzie
POMNIK.

A kto wam opowie, Przyszli,
nie spiż i nie mitu temat –
że Ją zabrali – zabili,
i że jej nie ma…

Czy była dobra? Nawet nie –
często się przecież kłóciła,
stuknęła drzwiami, burknęła…
ale była.

Ładna? nie była nigdy ładna,
nawet nim głowa się posrebrzyła.
Mądra? Ot, zwyczajnie nie głupia…
No, ale… była.
Rozumiesz – była a gdy jej nie ma,
to każdy kąt tu oczy złe ma
i zaraz widać że jej nie ma.

Nie żeby wielkie słowo – DOM –
mój Boże, cóż to za gospodarstwo!
(nie byli z Warszawy)
mąż cały dzień w warsztacie
syn także miał gdzieś swoje sprawy,
pokoik często nie sprzątnięty
(bo wodę z dołu przynosiła)
tak jakoś stały wszystkie sprzęty
tak jakoś zegar uśmiechnięty
no – była.
Była.

I cóż? Człowiek? – Nie – Nieważne –
statystyka żadna jej nie wymieni –
dla świata, Europy, mniej niż pyłek –
ważna to rzecz ten jej wysiłek!
ale gdyś zbliżył się do sieni,
nim klamkę wziąłeś, – nim drzwi pchnąłeś,
jakoś w powietrzu zapachniały
ni ciepła zupa, ni ręcznik biały,
tak jakoś ciepłość cię owiła
no…
była.

I wzięli.
Poszła jak stała.
Od ognia.
Zupy nie zdążyła…
Zabrakli, poszła – nie ma –
zabili.

Wróci z warsztatu mąż,
usiądzie ciężko na stołku –
ręce opadną na podołku,
głową wodzi i patrzy.

Ognia nie ma pod blachą –
ścierka spadła i leży
talerz na stole – brudno.
Nie wstaje. Pochyla się. Myśli.
Trudno.
Nie ma.

Zje chleba i zupy z warsztatu
fabrycznej – obcej i marnej.
Je i patrzy: –
na półce… milczący
zimny i martwy jej garnek.

Nie pójdzie już do warsztatu –
Syn wróci z miasta zgłodzony
w łóżko niezaścielane
rzuci się w butach zbłoconych –
Nie uśnie.
Będzie patrzył (i nie zapomni…)
Tam – Matki wystygły g a r n ek
J E J P O M N I K..

§

 

A JANELA PARA O OUTRO LADO

Minha janela é para o outro lado,
uma janela judia descarada
para o belo parque dos Krasiński
e as folhas outonais molhadas…
No anoitecer cinza-arroxeado
as frondes se curvam, inclinadas
e as árvores arianas espreitam
a janela judia fechada…
Não posso ficar na janela
(resolução mui correta),
aos vermes judeus…toupeiras…
a cegueira melhor se adequa.
Que fiquem nas tocas e covas,
absorto no trabalho o olhar
e pelas janelas judias
sejam proibidos de mirar…
E eu… quando vem a noite…
para tudo apagar e igualar,
no escuro pra janela corro
com a sede enorme de olhar…
e roubo Varsóvia apagada,
os silvos, chiados distantes,
as formas das casas e ruas,
os tocos das torres cortantes…
Eu roubo a silhueta do Teatro,
aos pés tenho o Paço Municipal,
O luar – wachmeister
– permite
o contrabando sentimental…
Os olhos famintos se cravam
no peito da noite – dois gumes,
na noite de Varsóvia calada,
cidade querida em negrume…
E quando já estou suprido
para um dia, talvez mais…
me despeço da cidade calada,
com as mãos faço gestos rituais,
cicio e os olhos cerro:
– Varsóvia…diz algo!…espero

E pianos pela cidade
levantam os tampos calados
levantam sozinhos, ao comando,
pesados, tristonhos, cansados…
e flui da centena de pianos
na noite… a polonaise de Chopin…
Me chamam os clavicordes,
no silêncio sofrido vêm
pela cidade os acordes
das teclas de branco mortal…
Baixo as mãos…é o final…
volta a polonaise pros pianos…
Volto e penso calado
que na verdade é ruim
ter a janela pro outro lado…

Okno na tamtą stronę

Mam okno na tamtą stronę,
bezczelne żydowskie okno
na piękny park Krasińskiego,
gdzie liście jesienne mokną…
Pod wieczór szaroliliowy
składają gałęzie pokłon
i patrzą się drzewa aryjskie
w to moje żydowskie okno…
A mnie w oknie stanąć nie wolno
(bardzo to słuszny przepis),
żydowskie robaki… krety…
powinni i muszą być ślepi.
Niech siedzą w barłogach, norach
w robotę z utkwionym okiem
i wara im od patrzenia
i od żydowskich okien…
A ja… kiedy noc zapada…
by wszystko wyrównać i zatrzeć,
dopadam do okna w ciemności
i patrzę… żarłocznie patrzę…
i kradnę zgaszoną Warszawę,
szumy i gwizdy dalekie,
zarysy domów i ulic,
kikuty wieżyc kalekie…
Kradnę sylwetkę Ratusza,
u stóp mam plac Teatralny,
pozwala księżyc Wachmeister
na szmugiel sentymentalny…
Wbijają się oczy żarłocznie,
jak ostrza w pierś nocy utkwione,
w warszawski wieczór milczący,
w miasto me zaciemnione…
A kiedy mam dosyć zapasu
na jutro, a może i więcej…
żegnam milczące miasto,
magicznie podnoszę ręce…
zamykam oczy i szepcę:
– Warszawo… odezwij się… czekam…

Wnet fortepiany w mieście
podnoszą milczące wieka…
podnoszą się same na rozkaz
ciężkie, smutne, zmęczone…
i płynie ze stu fortepianów
w noc… Szopenowski polonez…
Wzywają mnie klawikordy,
w męką nabrzmiałej ciszy
płyną nad miastem akordy
spod trupio białych klawiszy…
Koniec… opuszczam ręce…
wraca do pudeł polonez…
Wracam i myślę, że źle jest
mieć okno na tamtą stronę…

§

 

As duas mortes

A sua morte e a nossa morte
são duas mortes bem diferentes.
A sua morte é a morte forte
rasga as almas, faz ranger os dentes.
A sua morte é morte por balas,
atirando, entre campos gris
fertilizados com suor e sangue
por algo – …pelo pátrio País.
A nossa morte – é morte estúpida
no sótão ou no porão,
a nossa morte de trás da esquina
chega – uma morte de cão.
A sua morte, a medalha condecora,
menciona-a o comunicado,
a nossa morte – pra terra e adeus –
um depósito de atacado.
A sua morte – é cara a cara,
no meio do caminho saudada.
A nossa morte – é em segredo
na máscara do medo cavada.
A sua morte – é costumeira,
humana e fácil se apresenta,
a nossa morte – é a morte lixeira,
judia e nojenta.
A nossa morte da sua morte
é pobre, longínqua parente.
Quando a sua encontra a nossa
não a cumprimenta, certamente.
Na noite negra entre névoas,
se maldizem as duas mortes,
sobre a cidade – um mar de trevas,
se insultam com verbos fortes.
Sobre a mureta, vendo os dois lados,
espia as brigas escondida,
a mesma esperta, má, gananciosa
e igualzinha Vida.

Dwie Śmierci

Wasza śmierć i nasza śmierć
to dwie inne śmierci.
Wasza śmierć – to mocna śmierć,
szarpiąca na ćwierci.
Wasza śmierć śród szarych pól
od krwi i potu żyznych.
Wasza śmierć – to śmierć od kul
dla czegoś – …dla Ojczyzny.
Nasza śmierć – to głupia śmierć,
na strychu lub w piwnicy,
nasza śmierć przychodzi psia
zza węgła ulicy.
Waszą śmierć odznaczy krzyż,
komunikat ja wymienia,
naszą śmierć – hurtowy skład,
zakopią – do widzenia.
Wasza śmierć – wy twarzą w twarz
witacie się w pół drogi,
nasza śmierć – to skryta śmierć
kopana w masce trwogi.
Wasza śmierć – zwyczajna śmierć,
człowiecza i nietrudna,
nasza śmierć – śmietnicza śmierć,
żydowska i – paskudna.
Nasza śmierć jest waszej śmierci
daleką biedną krewną.
Gdy spotka wasza – naszą śmierć,
nie wita jej na pewno.
I w czarną noc przez smugi mgieł
nad miastem – w mroków piekle,
dwie śmierci przeklinają się,
złorzecząc sobie wściekle.
Na murku – patrząc w strony dwie,
podgląda kłótnię skrycie
to samo chciwe, sprytne, złe
i jednakowe Życie.

 

* * *

Uma coletânea dos poema de Wladyslaw Szlengel foi publicada pela editora Dybbuk (clique aqui) este ano. Os poemas publicados aqui, bem como o texto introdutório, foram retirados de lá.

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Padrão
poesia, tradução

Tomasz Różycki, por Rob Packer e Piotr Kilanowski

Tomasz Różycki, (Opole, Polônia, 1970–) é um dos nomes mais importantes da poesia polonesa atual, pertencendo à geração que segue a poetas internacionalmente reconhecidos, como Czesław Miłosz, Wisława Szymborska e Zbigniew Herbert. Ele publicou mais de uma dezena de livros, dentro os quais se destacam Dwanaściestacji (Doze estações, 2004) e Kolonie (Colônias, 2006). Além de poeta, é tradutor do francês e atualmente participa da residência artística da DAAD em Berlim. A sua poesia se destaca pela virtuosidade formal e pelas camadas da história e atualidade da região da Silésia, onde ele nasceu e vive até hoje. Essa é a primeira vez que seus poemas vêm a ser publicado no Brasil. A tradução da entrevista foi feita por Rob Packer, a dos poemas por Piotr Kilanowski.

* * *

Entrevista com Rob Packer (feita em Berlim em inglês em 2018)

Rob Packer: Tomasz, queria começar perguntando sobre o contexto da sua obra, já que ainda não foi traduzida para o português. Para mim, sua obra — e em especial a sequência de sonetos, Kolonie (em livre tradução, Colônias), e a epopeia, Dwanaście stacji (Doze estações)— é particularmente densa quanto às referências e aos momentos específicos da história polonesa e da cidade de Opole, onde você nasceu. Ainda que, ao mesmo tempo, pareça tão universal. Você pode falar mais sobre esse contexto?

Tomasz Różycki: O contexto é muito importante: cria uma atmosfera e é a base de toda a minha escrita. Nesse contexto, há níveis diferentes. Um deles é a história: naturalmente, trata-se da história mais ampla da Polônia e desta região da Europa, mas também é, ao mesmo tempo, a história da minha família. Acontece que sou de Opole, na Polônia; uma cidade que antes da Segunda Guerra Mundial era alemã e que agora é polonesa, depois das mudanças das fronteiras da Polônia e Alemanha, impostas por Stalin. A população polonesa do leste da Polônia — por exemplo, de Lwów [hoje Lviv] que agora fica na Ucrânia — foi expulsa daquela região para o oeste. Em Opole, penso que a metade da população possui raízes na Ucrânia de alguma forma. É sempre muito misturado: você tem origens polonesas, ucranianas, por vezes armênias ou judias. Às vezes é muito complicado.

Cresci em uma família em certa situação especial: a família inteira tinha uma narrativa sobre o passado, sobre o quão maravilhoso e terrível era o passado. Era a história de algo perdido, como um paraíso perdido: meus familiares perderam a identidade, infância e juventude no Leste, em Lwów. E sempre falam da maravilha que era: a maravilha que era a natureza, tudo… as estações do ano: o que há de mais verdadeira estava lá em Lwów, de um jeito que não está agora, em Opole. Em Opole, não é a mesma coisa, não é real: o verão lá era muito quente e o verão aqui não é como o de lá, é sempre uma espécie de simulacro. Para mim, quando criança, essas histórias eram engraçadas porque era como se vivessem com as malas prontas para voltar. Eles sonhavam com o dia em que alguma coisa aconteceria e mudaria a história, permitindo-lhes voltar para as suas casas perdidas. Eu me lembro das histórias — que são um pouco caricatas em Doze estações —, de como as coisas eram baratas antes da Guerra em Lwów. Por exemplo: até um quilo de cenoura custava menos de 11 groszy, ou alguma coisa assim. Para mim, esse lugar era surreal, um pouco fantástico, um país perdido, como a Atlântida. Perdido, não real, engraçado… um pouco grotesco, mas ao mesmo tempo, com todo mundo desaparecido.

Esse é o primeiro nível. O segundo nível é a guerra, que foi terrível. Havia histórias de homicídios e de vizinhos que se tornavam inimigos. Era um trauma tão grande para aquelas pessoas: a mesma história sempre tinha um lado leve e um lado muito obscuro. É uma coisa simbólica: eu não conseguia entender como você podia, ao mesmo tempo, odiar e amar o passado. Eu me lembro, por exemplo, da minha avó ou do meu avô: eles realmente sonhavam em voltar para Lwów, mas tiveram a oportunidade de fazer isso, não quiserem ir porque tinham medo de se ferir com a decepção diante daquilo que a cidade se tornou. O passado foi destruído e nada é maior do que antes. Cresci com histórias desse tipo que eram muito fantásticas e nunca reais, porque eu sabia que não eram verdadeiras, essas histórias do paraíso. Nunca é verdade: era a versão deles do que aconteceu. Você pode perguntar para os vizinhos, por exemplo, e eles terão histórias completamente diferentes para contar, com inimigos e situações completamente diferentes. Para mim, ao mesmo tempo, aquilo era uma fonte para a imaginação, como uma ilha que voava, uma terra da fantasia, e jamais é possível saber se essas histórias são verdade ou não. Pode-se acrescentar histórias a essa nuvem de histórias, pode-se acrescentar as próprias histórias. Pode-se dizer o que quiser e tudo é quase verdade sobre essa terra. E este é a razão do contexto para começar a pensar Colônias e Doze estações.

Doze estações é um texto sobre a família, sobre essa situação especial que é viver em uma cidade estranha onde tudo desde o início não era realmente seu. Eles começaram a colonizar o espaço quando chegaram.

RP: Um momento que achei muito surpreendente em Doze estações é o momento, na casa, em que o Neto [um dos personagens] fica pensando sobre os livros que os Peters, a família alemã, havia deixado lá.

TR: Sim, os objetos: os móveis, os livros, e assim por diante. Era o que sobrou de Lwów e o que acharam em Opole. Cada objeto tem sua própria história. E, ao mesmo tempo, eles se tornaram a história da família de uma forma nova e muito diferente. Os objetos têm vida dupla: a vida de antes e a de depois. Isso me fascinava. Sabia, por exemplo, que os livros faziam parte da vida dos Peters, da família alemã, mas que, ao mesmo tempo, eu tinha uma conexão forte com aqueles livros que não entendia. Eram exóticos, e parte da minha vida ao mesmo tempo. Isso de viver em um espaço exótico, em uma situação exótica que vem sendo colonizada a cada passo e cada dia mais e mais. Pan Tadeusz, a epopeia nacional polonesa [de Adam Mickiewicz], era uma inspiração, porque foi na época que Andrzej Wajda tinha feito uma adaptação cinematográfica e vi milhares de crianças indo ao cinema em grupos escolares e o primeiro verso é: “Lituânia! Minha pátria!” É a epopeia polonesa principal, mas tem um começo estranho para os poloneses hoje em dia, porque fala da Lituânia e do Leste.

RP: Sim, fala de um lugar que fazia parte do Reino da Polônia e que agora é um país independente.

TR: Eu me perguntava o que eles achavam disso. Penso que na Polônia há um pensamento esquizofrênico quando se olha a história e a identidade polonesa. Onde fica essa identidade? E eu senti essa identidade esquizofrênica em Opole, onde as pessoas vivem com malas prontas, sonhando em voltar para outro lugar, embora esse país dos sonhos não exista, nunca existiu. Era muito estranho e achei um bom ponto de partida para o poema.

RP: Então, isso me faz pensar na irrealidade na sua obra. Em Colônias, que parece real e irreal ao mesmo tempo, já na introdução de um dos seus livros na tradução inglesa, tem uma referência a uma frase de Bruno Schulz [contista polonês, 1892-1942] sobre a “mitologização da realidade”… Algo que eu realmente sinto na sua escrita. Você mencionou Mickiewicz, eu acabei de mencionar Schulz, mas há muitas influências, não só da Polônia, mas de outros lugares da Europa Central em Colônias. Tem referências a Rainer Maria Rilke e a Georg Trakl, mas também de países mais distantes. Tem uma referência a Fernando Pessoa… Queria saber quais escritores foram uma grande influência para você.

TR: É uma pergunta difícil, porque naturalmente muda a cada mês, a cada ano. Tenho os meus escritores e poetas prediletos e alguns deles se mantêm no mesmo status: Bruno Schulz, claro. Essa mitologização do espaço foi muito importante quando descobri Schulz na escola. Podia me sentir na mesma situação, porque é um país imaginário — um universo imaginário inteiro — isso de ter nascido em uma cidade muito pequena e muito chata, sem nada para ver e sem muitos lugares para ir. Era uma situação claustrofóbica para Schulz, sempre foi assim para ele. Ele sonhava em ir a Paris, a Viena, a Lwów, em ir a Varsóvia etc., e nunca conseguiu. Para mim, em Opole, eu me sentia confortável com Schulz, porque ele era um apoio para sobreviver. É maravilhoso que haja uma imaginação assim que crie um universo. Em Colônias — e não quero fazer um paralelo entre Colônias e Schulz, porque Schulz é um dos grandes — queria fazer a mesma coisa. Pensei que seria bom misturar essa série de poemas — com títulos de livros de aventuras sobre piratas, sobre a descoberta de novas terras marítimas, sobre Magalhães e Vasco da Gama e outros — com a realidade da vida no interior da Polônia, e, ao mesmo tempo, conectá-la à imaginação infantil, ao que uma criança pensa do mundo. Onde está a imaginação dessa criança e o que ele pensa do mundo? Então, é isso, os poemas são conectados ao mesmo tempo à definição de colônias em polonês. Uma kolonia é uma terra novamente descoberta com a colonização dos territórios que é, quase sempre, uma história muito triste. Mas ao mesmo tempo, kolonia em polonês é um acampamento de verão onde os adolescentes vão passar férias com os seus professores sem a companhia de seus pais; estão sozinhos, longe de casa e em contato com a natureza. É uma iniciação para eles: a descoberta do amor, da natureza, da adolescência e de parte da vida adulta.

[Fernando] Pessoa é outra influência — como os outros autores da Europa Central — que criava universos, através de seus heterônimos e suas vidas múltiplas. Acho que era alguém que vivia uma vida de sonhos, e às vezes era completamente estranho. Era bom para ele psicologicamente? Acho que não, mas ao mesmo tempo, é fascinante. Eu me lembro quando fui a Portugal pela primeira vez e vi os lugares conectados a Pessoa e me dei conta de que, como Kaváfis, ele trabalhava em alguma agência, com livros de contabilidade, inclusive. Ao mesmo tempo, tinha a sua imaginação que era enorme. Eu me lembro do guia para Lisboa que Pessoa escreveu e percebi que ele inventou histórias para deixar o guia mais interessante para os visitantes e turistas ingleses. Ele acrescentou algumas histórias no livro que não são reais… [isso] também está conectado com essa mitologização do espaço.

RP: Só li obras suas, como Colônias e Doze estações, na tradução inglesa, e o que me chamou atenção, no início, foram questões formais: há uma sequência de sonetos e uma epopeia picaresca. Tantos poetas na tradição ocidental hoje em dia, inclusive na Polônia, escrevem em verso livre. O que a forma lhe dá que o verso livre não oferece?

TR: É uma pergunta interessante, porque cada vez que os meus colegas me perguntam — “por que você escreve desse jeito tão complicado?” — acho que enxergam a forma como uma prisão, como uma limitação e que você não está livre quando escreve os seus pensamentos formalmente. Eles têm no poema em verso livre uma sensação de liberdade, e podem fazer o que querem. Para mim, é uma situação diferente. Prefiro ter uma forma e não consigo começar sem ela. A forma é o ponto de partida. Às vezes, estou trabalhando dois anos, até cinco anos, sem poema algum na minha cabeça ou no horizonte, e aí acho o primeiro verso e esse primeiro verso sempre tem o seu ritmo. É como um modelo, um modelo rítmico e musical para o resto do poema. Eu tenho tudo aí: os acentos, e assim por diante. Começo a partir desse primeiro verso e preciso do primeiro verso para ter o segundo e terceiro verso. Quando uso uma forma, todas as palavras entram na minha mente (eu sei que é uma banalização do processo) e posso escolher o que preciso para preencher a forma: posso escolher isto ou aquilo e posso escolher a melhor opção. Tento muitas vezes e, finalmente, chego na melhor opção. Espero a palavra que é exata, mas que, ao mesmo tempo, me surpreenda. É estrito, porque precisa seguir a forma, mas ao mesmo tempo, quando as palavras que você usa são banais ou clichê, você corta e isso pode ser refrescante, surpreendente, novo ou engraçado, e pode caber muito bem. É assim que trabalho e quase sempre trabalho enquanto caminho. É um processo que começa e continua na minha mente e, depois de um tempo, estou sentado em algum lugar e escrevo o que compus como uma estrofe. Um ano atrás, li as memórias de Nadezhda Mandelshtam, que falou que essa era a forma de escrever — bom, não exatamente escrever, porque era ela que colocava no papel — para Óssip Mandelshtam, que sempre andava e dizia as palavras em voz alta, repetindo-as e criando estrofes inteiras ou um poema inteiro. Às vezes trabalho assim. Quando acho uma forma, às vezes está tão forte e irresistível que não consigo parar com um poema só e preciso continuar, porque ainda está comigo. É um tipo de obsessão.

RP: Isso foi fascinante e já abrangemos muitos aspectos sobre a sua obra. Queria fazer uma última pergunta: o que você espera de um poema, seja como escritor, seja como leitor?

TR: É uma ótima pergunta! A resposta é muito difícil! Tive que reler os meus próprias poemas para uma seleção na Polônia e fui forçado a ler os meus poemas antigos. Não sei como chamar isso, mas às vezes tenho um momento de espanto que me faz feliz — e não porque tenha sido eu a tê-lo feito — mas porque aquele verso foi uma espécie de trampolim para a mente ou para o espírito de ir a algum lugar e se entusiasmar. É muito estranho, é como um entusiasmo pela vida. Talvez eu esteja doente, ou doente mental, mas, para mim, é esse o momento da criação: quando fico assombrado com a forma que as palavras operam em conjunto nesse trampolim. É o momento em que posso saborear a vida e também sentir algo que nunca estará perdido. Penso que os seres humanos são sujeitos a criar a arte, a pintura, a poesia etc. porque temem que tudo seja mortal e que nada fique depois de morrerem. No poema, às vezes sinto que não há imortalidade, mas ele me transporta e cria felicidade. É uma pergunta difícil!

RP: Eu sei, mas sinto que é uma boa pergunta para um poeta, porque a resposta é sempre diferente. Claro que o que você busca em um poema a cada momento pode mudar.

TR: Quando leio um poema de outro poeta, naturalmente, posso reconhecer alguma coisa sobre mim, mas ao mesmo tempo, posso sentir esse mesmo espanto. Eu não sou muito místico, isso não está ligado a nenhuma religião, mas há essa sensação de uma comunicação que sobrevive aos séculos. Não importa qual a língua, qual o país, qual a nação, o mais importante é o tempo. Todos temos medo do tempo porque é ele que nos mata. Leio alguns poetas e posso senti-lo do meu lado: está morto, claro. O poema é como uma forma vazia, um copo, por exemplo, e cada leitor enche o copo com as suas próprias sensações e emoções e com a própria vida, depois pode bebê-lo. Acho que o poema é uma taça de vinho que pode estar cheia do próprio vinho, mas o sabor é das duas coisas juntas. Claro, posso pensar em alguma coisa muito pessoal quando escrevo um poema. O leitor não tem nenhum contato ou nenhum acesso às minhas emoções pessoais, mas ele tem as próprias emoções, a própria vida. Quando um poema é bom, funciona a cada leitura. Eu acho que o poema fica morto quando o livro está fechado e quando o leitor começa a lê-lo, ele se reanima. É como um pequeno fantasma que está dormindo ou sonhando e quando você abre o livro, ele está aí para morder quem o lê.

* * *

§

Cynamon i gożdizki

A teraz leżę z dziurą w głowie, przez nią wiosna
lekko zagląda mi do środka, kwitną ściany,
kwitną tapety, fotel, zakwita plusz kanap
i egzotyczne ptaki mogą się wydostać

wreszcie na zewnątrz, tato. Więc tak to wygląda,
że manekiny mają dziś władzę nad nami
i dekorują sobie kuchnię obrazkami

z naszych książek dziecięcych. Winna jest tu poczta.

Od początku wiedziałem, że to się tak skończy,

od dnia, w którym dostałem pierwszy raz z kolonii
tamten list z przyprawami. Potem przychodziły
już bez ostrzeżenia, we dnie oraz w nocy,

tak jaskrawe, pachnące, musiałem się z nimi
jakoś ukryć, w ciemności, sam, zamykać oczy.

Canela e cravo

E agora jazo com um furo na cabeça, por ele a primavera
dentro de mim espreita, florescem as paredes,
floresce o papel de parede, a poltrona, a pelúcia
dos sofás e os pássaros exóticos podem lá para fora

fugir por fim, papai. Então, ao que parece,
hoje têm poder sobre nós os manequins,
e decoram cozinhas com as imagens
de nossos livros infantis. A culpa é do correio.

Desde o início sabia que esse seria o fim,
desde o dia em que das colônias recebi
a carta com as especiarias. Depois elas vinham
já sem aviso, de dia e de noite,

tão cheirosas, vibrantes, precisei me esconder
com elas, no escuro, só, cerrar os olhos.

§

Misjonarze i dzicy

Ci, co nas okradają, ci, co ustalają
opłaty i podatki, ci wszyscy w urzędzie
rozdzielający obowiązki, wszyscy biegli
w planach i sprawozdaniach, ci tak doskonali

w tropieniu naszych błędów; ci, którzy nas wcale
nie słuchają i nigdy nie słuchali przecież,
ci, co nie patrzą w oczy, ci, których koniecznie
trzeba prosić o radę, pomoc, trzeba im się stale

i od nowa przedstawiać – wszyscy urażeni,
pominięci, dotknięci – ich figurki z ziemi
i śliny ulepiłem, to są moi święci
leżący na gazecie. W specjalnym obrządku

odprawiam nabożeństwo, wolno, od początku
będę powtarzać sceny ich cudownej męki.

Missionários e selvagens

Aqueles que nos roubam, que estabelecem
as cauções e os impostos, os da repartição,
que dividem as tarefas, todos competentes
em planos e relatórios, aqueles perfeitos

em perseguir nossos erros, os que não
nos ouvem e nunca nos ouviram,
que não olham nos olhos, a quem obrigatoriamente
é preciso pedir conselho, ajuda, a quem sempre

é preciso apresentar-se – todos ofendidos
excluídos, chateados – moldei suas figurinhas
com terra e saliva em cima do jornal,
são meus santos. Num rito especial

celebro o culto, devagar, desde o início
vou repetir as cenas de seu maravilhoso suplício.

§

Rysy

A jeśli jednak jesteś – powiedz – czy nie żyjesz
czasem gdzieś we mnie? Jak grzyb, jak guz się rozwijasz,
gwiezdny pył, ciało obce, kosmiczny nowotwór,
z dnia na dzień, z roku na rok. Całe terytorium

opanujesz, przechwycisz, dokonasz przewrotu
pewnego świtu w zimie. I będziesz królował
w ciele już niepodzielnie za sprawą postępów
w operacji przemiany w swoje podobieństwo

to znaczy w nicość, prawda? Jeżeli tam jesteś,
jesteś wrogiem wewnętrznym, samym przeciwieństwem,
agentem, dywersantem i co noc mnie zjadasz
kęsek po kęsku, prawda? Czy to nie przypadek,

że co rano w lustrze widzę kolejne ślady
postępującej fikcji, rozpoznaję w twarzy
cudze rysy i kreski, zmarszczki dopisane
nie moim charakterem pisma obce zdanie.

Traços

E se, contudo, existes – dize – se não vives
por acaso dentro de mim? Como um fungo, um tumor te desenvolves,
pó estelar, corpo estranho, neoplasia cósmica,
um dia após o outro, ano após ano. Todo o território

dominarás, subjugarás, darás o golpe
numa certa madrugada de inverno. E reinarás
no corpo totalmente, por conta dos progressos
na operação de transformação à tua semelhança,

isto é, em nada, não é? Se estás lá
és um inimigo interno, a própria contradição,
um agente, um subversivo, e toda noite me devoras
um bocado após o outro, não é? Será por acaso

que toda manhã vejo no espelho novos rastros
da ficção progressiva, reconheço no rosto
traços e riscas de outrem, as rugas inscritas
com uma letra que não é minha – frases alheias?

§

Przeciwne wiatry

Kiedy zacząłem pisać, nie wiedziałem jeszcze,
że każde moje słowo będzie zabierało
po kawałku ze świata, w zamian zostawiając
jedynie miejsca puste. Że powoli wiersze

zastąpią mi ojczyznę, matkę, ojca, pierwszą
miłość i drugą młodość, a co zapisałem,
ubędzie z tego świata, zamieni swe stałe
istnienie na byt lotny, stanie się powietrzem,

wiatrem, dreszczem i ogniem, i to, co poruszę
w wierszu, znieruchomieje w życiu, i pokruszy
się na tak drobne cząstki, że się stanie prawie
antymaterią, pyłem całkiem niewidzialnym,

wirującym w powietrzu, tak długo, aż wpadnie
w końcu tobie do oka, a ono załzawi.

Ventos contrários

Ao começar a escrever ainda não sabia
que cada palavra minha do mundo tomaria
um pedaço, em troca deixando apenas
o espaço vazio. E que meus poemas

substituiriam para mim a pátria, a mãe, o pai,
o primeiro amor, a segunda juventude e vai
sumir tudo o que escrevi desse mundo,
sua existência sólida em ar se transformando,

em vento, chuva e fogo e o que eu tocar
no poema vai na vida se imobilizar
e se esmigalhar em átomos tão reduzidos,
que virarão quase antimatéria, a invisível

poeira que gira por tanto tempo no ar
até cair por fim no seu olho e ele lacrimejar.

§

Kawa i tytoń

Kiedy zacząłem pisać, nie wiedziałem jeszcze,
co ze mnie zrobią wiersze, że się przez nie stanę
jakimś dziwnym upiorem, wiecznie niewyspanym,
o przezroczystej skórze, chodzącym po mieście

jakby lekko naćpany, kładącym najwcześniej
się razem z wściekłym brzaskiem, i jeszcze nad ranem
łażącym po znajomych, zupełnie spłukany,
jak jakaś menda, insekt, przywołany we śnie

kawałkiem gołej skóry, czy może westchnieniem.
I nawet nie wiedziałem, w co mnie wreszcie zmienią
te durne wiersze, skarbie, i że to ty właśnie
przywołasz mnie do życia i że dzięki tobie

tylko będę widzialny, z tobą się położę
i odczekam tę chwilę, dopóki nie zaśniesz.

Café e tabaco

Ao começar a escrever ainda não sabia
o que fariam de mim os poemas, que eu me tornaria
um estranho espectro, sempre mal dormido,
de pele transparente, na urbe perdido,

vagando, como um cara um pouco drogado,
indo dormir apenas na ira da alvorada,
de madrugada os amigos visitando, medonho,
duro, como um piolho, inseto do sonho,

por um naco de pele atraído ou por um suspiro.
Em que me converteriam, ainda não sabia,
esses poemas bobos, meu bem, e nem que
quem vai me trazer pra vida é justo você,

que graças a você serei visível, contigo vou deitar
e o instante em que teu sono vem vou esperar.

§

Nie ma końca

Nie ma końca świata – sprawdziłem i wiem:
za oceanem nowy ląd i ludzie
patrzący w perspektywę horyzontu,
który ugina się i wznosi. Inne
marzenia w sobotnim mieście, kawiarnie
i kina płoną tysiącem głów. Nie ma
końca płaczu w ciemnej poczekalni
i podróż nie kończy się nawet we śnie.

Jest koniec świata – sprawdziłem to i wiem:
za łóżkiem, w którym przewracasz się jeszcze
o wpół do piątej rano – już przez okno
wchodzi nieprzytomne światło – wyciągasz
mokra rękę i nie spotykasz tam nic.
Ani ciepłego ciała, ani ściany.
Chciałem powiedzieć ci wtedy, że jestem.
W ten niewytłumaczalny sposób, jestem.

Não há fim

Não há o fim do mundo – chequei isso e sei:
depois do oceano, nova terra e gente,
que olha na perspectiva do horizonte
que se dobra e se eleva. Outros
sonhos na cidade no sábado, cafés
e cinemas se inflamam com mil cabeças. Não há
o fim do choro na sala de espera escura
e a viagem não termina nem no sonho.

Há o fim do mundo – chequei isso e sei:
atrás da cama na qual rolas ainda
às quatro e meia da manhã – pela janela já
entra a luz inconsciente – estendes
a mão molhada e não encontras nada lá.
Nem o corpo cálido, nem a parede.
Queria te dizer naquele momento que existo.
Daquela maneira inexplicável, existo.

§

Mrówki i rekiny

Dla A. B.

Mrówka pożera larwę, według praw natury
a dziecko zjada mrówkę – trochę szczypie w język,
ciekawość zawsze szczypie. Dziecko połknie rekin
na rajskiej plaży Goa, lecz widzi to z góry

Bóg i złapie rekina, tak jak łapie szczura,
tygrysicę i słonia. Boga zaś poeta
pożre w swoim pokoju, on będzie niestety
żywić się wszystkim. Potwór, podobny do knura,

pęcznieje i wydala. Żywi się papierem,
lecz wpuśćcie go do domu, a znajdzie w pościeli
ukryte ślady po snach, po miłości – skradnie
to, co macie świętego, przeżuje, obrośnie

od tego białym mięsem i trującym włosiem,
wystarczy tylko dotknąć, otrzeć się przypadkiem.

Formigas e tubarões

Para A.B.

A formiga devora a larva pelas leis da natura
e a criança come a formiga – na língua pica um pouco,
curiosidade sempre pica. E o tubarão engole a criança
na praia linda em Goa, mas vê isso das alturas

Deus e pega o tubarão, como pega um ratão
uma aliá ou um tigre. E, Deus, a seu tempo
é devorado pelo poeta que, em seu aposento,
um monstro onívoro como um varrão,

incha-se e excreta. Ele come o papel,
mas deixem-no entrar e na cama encontrará
ocultos vestígios de sonhos, de amores – roubará
o que há de sagrado, roerá e criará

disso a carne branca e o pelo peçonhento,
basta apenas roçá-lo, tocar por acaso.


Padrão
poesia, tradução

Anna Świrszczyńska (1909-1984)

Anna Świrszczyńska, em 1965

Anna Świrszczyńska, em 1965

Anna Świrszczyńska nasceu em 1909, em Varsóvia, e teve uma infância de pobreza. Começou a publicar seus poemas nos anos 30, continuando a escrever durante a Segunda Guerra Mundial – quando participou da resistência polonesa e conheceu Czesław Miłosz. A experiência da guerra deixaria marcas profundas em sua obra, culminando com o volume de versos Budowałam barykadę (Eu construí a barricada)Outra de suas temáticas centrais em suas obras é o corpo feminino.
Faleceu em 1984.
Luciano R. Mendes
* * *

PADAM NA ZIEMIĘ

Padam na ziemię,

ustami do czarnej ziemi.

Mówię: Boże, którego nie ma,

nie daj, żebym zrobiła krzywdę

człowiekowi.

Niech mi wpierw odpadnie ręka,

niech mnie spali

piorun.

Padam na ziemię,

ustami do żywej ziemi.

Mówię: Boże, którego nie ma

na najdalszej gwieździe,

który jesteś we mnie,

Boże doskonały, jak ja jestem nikczemna,

Boże okrutny,

oddaję ci na krwawą ofiarę

największe szczę
ście
mojego życia.

EU CAIO NA TERRA

Eu caio no chão,
de boca na terra preta.
Falo: Deus, que não existe,
não deixeis os homens
me maltratarem.

Deixai que eu caia com as mãos primeiro,
deixai-me ser queimada
por um raio.

Eu caio no chão,
de boca na terra viva.
Falo: Deus, que não está
na estrela mais distante,
que está em mim,
Deus perfeito, tanto quanto sou ímpia
Deus cruel,
te ofereço um sacrifício de sangue
a maior alegria
da minha vida.

JESTEM NAPEŁNIONA MIŁOŚCIĄ

Jestem napełniona miłością,

jak wielkie drzewo wiatrem,

jak gąbka oceanem,

jak wielkie życie cierpieniem,

jak czas śmiercią.

ESTOU REPLETA DE AMOR

Estou repleta de amor
como uma grande árvore ao vento,
como uma esponja no mar,
como o grande sofrimento da vida,
como a hora da morte.

TANIEC MORDU
Odchodzę.

Nie dałeś mi cierpienia,

więc nie oczekuj ode mnie

nienawiści.

To zbyt okazały i ciężki podarunek.

Chyba nie jesteś wart

rzeczy tak kosztownej

jak strzęp żywego ciała.

Zabiłam cię w sobie łatwo.
Oczyszczona
tańczę radosny taniec mordu.

DANÇA DO ASSASSINATO

Vou embora.
Você não me fez sofrer,
então não espere que eu
te odeie.
Esse também é um presente grave.
Acho que você não vale a pena
coisas tão custosas
como rasgar um corpo vivo.

Foi fácil matar você em mim.
Purificada
eu danço alegre a dança do assassinato.

PIERWSZY MADRYGAŁ

Ta noc miłosna

była czysta

jak starodawny instrument muzyczny

i powietrze

wokół niego.

Była bogata

jak uroczystość koronacyjna.

Była cielesna

jak brzuch rodzącej

i uduchowiona

jak liczba.

Była tylko chwilą życia,

a chciała zostać wnioskiem z życia.

Umierając

chciała poznać zasadę świata.

Ta noc miłosna

miała ambicje.

PRIMEIRO MADRIGAL

Aquela noite de amor
foi pura
como um instrumento musical antigo
e o vento
ao seu redor.

Foi rica
como uma cerimônia de coroação.
Foi corpórea
como uma barriga grávida
e espiritual
como os números.

Foi apenas um momento da vida,
e queria ser a definição dessa vida.
Morrendo
queria conhecer o princípio do mundo.

Aquela noite de amor
tinha ambições.

TAKA SAMA W ŚRODKU

Idąc na ucztę miłosną do ciebie

zobaczyłam na rogu

starą żebraczkę.

Wzięłam ją za rękę,

pocałowałam w delikatny policzek,

rozmawiałyśmy, ona była

taka sama w środku jak ja,

z tego samego gatunku,

poczułam to od razu,

jak pies poczuje węchem 

psa drugiego.

Dałam jej pieniądze,

nie mogłam się z nią rozstać.

Człowiekowi potrzebny przecież 

ktoś bliski.

I potem już nie wiedziałam,

po co ja idę do ciebie.

A MESMA COISA POR DENTRO

Eu ia até você para um festim de amor
quando vi na esquina
uma mendiga velha.

Eu a peguei pela mão,
dei-lhe um beijo delicado na bochecha,
nós conversamos e ela era
como eu por dentro,
da mesma espécie,
percebi de uma só vez,
como um cachorro que sente o cheiro
dum outro cachorro.

Eu lhe dei dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Os seres humanos precisam de alguém
que lhes seja próximo.

E depois ainda não entendi
pra que é que fui até você.

(Anna Świrszczyńska, trad. Luciano R. Mendes)

Padrão
poesia, tradução

Irit Amiel (1931), por Luciano R. Mendes

Irit Amiel

Irit Amiel nasceu em Częstochowa, na Polônia, em 1931, sua origem judaica (a família de seu pai, Leon Librowicz, provavelmente consistia de judeus fugidos de Portugal e estabelecidos em terras alemãs cerca de 400 anos antes, de onde foram para a Polônia). Durante a Segunda Guerra Mundial ficou algum tempo no Gueto de Częstochowa, de onde escapou. Com documentos falsos e a ajuda de poloneses católicos, sobreviveu à Shoah. Depois da guerra conheceu Itzak Cukierman, uniu-se à Bricha e emigrou para Israel. Lá viveu inicialmente em um Kibutz e, depois, em Tel Aviv.

Sua carreira literária começou bastante tarde, apenas em 1994, com a coletânea de poemas de língua hebraica, ‘Exame do Holocausto’. Nos anos seguintes passaria a escrever poesia e prosa em língua polonesa, sempre a respeito dos temas da Shoah e da sua condição de sobrevivente.

Luciano R. Mendes

* * *

Starość

Z ciekawością i przerażeniem
jak w dziką knieję
wchodzę w starość

Stroma ścieżka
bezpowrotnie prowadzi
w dół

Nic nie powróci
Niczego nie da się naprawić
Co krok czyha zasadzka
W cieniu każdej paproci przepaść

Czy to już wyrok ostateczny?
Zniknę i wszystko potoczy się
jak gdyby nigdy nic

Beze mnie

Velhice

Com interesse e medo
como numa mata virgem
entro na velhice.

Um caminho íngreme
que inevitavelmente leva
para baixo.

Não tem volta.
Nada pode ser corrigido.
Em cada esquina espreita uma emboscada
Na sombra de cada samambaia – um abismo.

Já é o juízo final?
Eu desapareço e tudo continua
como se nada acontecesse

sem mim

Soir de Paris

Moja pachnąca paryskim wieczorem matka
pozostawiła na świecie szarą smugę dymu,
plik pożółkłych listów żydowskiej dziewczyny,
u progu szczęścia i nieszczęścia,
i moje stare żylaste dłonie muskające
o szarej godzinie głowy jej sześciu
izraelskich prawnuków.

Soir de Paris

Minha mãe de cheiro de anoitecer em Paris
deixou no mundo um rastro de fumaça cinza,
uma pilha de cartas amareladas de moças judias,
no limiar entre felicidade e tristeza
minhas velhas mãos musculosas acariciando,
à hora cinzenta, as cabeças de seus seis
netos israelenses.

Nie zdążyłam

Nie zdążyłam do Treblinki na czas
przyjechałam spóźniona o pięćdziesiąt lat
drzewa stały nago bo była jesień
chciałam uciec natychmiast
bo jak rekwizyt stał tam rdzewiejący pociąg
i cicho szumiał las.
Było pięknie szaro spokojnie pusto
i tylko wiatr muskał ziemię drzewa
kamienie i nas
gasząc naszą świeczkę
raz po raz.

A Dita powiedziała – widzisz dobrze że nie zdążyłaś
i teraz jesteś moją starą mamą i objęła mnie mocno
i zaśmiała się smutno

Não cheguei a tempo

Não cheguei a tempo em Treblinka
atrasei-me uns cinquenta anos
as árvores nuas pois era outono
e eu queria fugir de uma vez
pois lá estava, como uma réplica, o trem enferrujado
e os murmúrios quietos da floresta.
Era o vazio: belo, cinzento e plácido
só o vento tocava a terra e as árvores
as pedras e nós
apagando as velas
uma a uma.

E Dita disse – veja só, que coisa boa que você se atrasou
e agora é a minha velha mãezinha e me abraçou com força
e sorriu com tristeza.

Ukraińska Akwarela

Na górze jest modre niebo
Popstrzone białymi chmurkami

Na dole jest beżowy dół
wysypany różowymi cukierkami

Na krawędzi dołu stoją szare
żydowskie dzieci z żółtą łatą

Dwaj zielonkawo-szarzy Niemcy
stoją na seledynowej murawie

Popielate dzieci skaczą do dołu
po porozrzucane cukierki

Pierwszy Niemiec szkarłatnie strzela
do nich kiedy są jeszcze w powietrzu

Drugi obrzuca je różowymi cukierkami
jak na Bar-Mycwie w Synagodze

A na lśniącej klamrze pasa obaj mają
napisane Gott mit uns

Aquarela Ucraniana

Em cima, o céu cerúleo
Manchado com nuvens brancas

Em baixo o solo bege
polvilhado com doces cor-de-rosa

E na beirada de baixo estão cinzentas
crianças judias com faixas amarelas

Dois alemães cinza-esverdeados
contra um muro verde celadon

As crianças cinzentas saltam para baixo
atrás das balas espalhadas

O primeiro alemão dispara projéteis escarlates
enquanto eles ainda estão no ar

Os segundo os cobre com doces cor-de-rosa
como no Bar-Mitzva, na Sinagoga

E nas fivelas dos cintos os dois levam
a inscrição Gott mit uns.

(poemas de Irit Amiel, trad. de Luciano R. Mendes)

Padrão
poesia, tradução

Bohdan Zadura (1945-), por Luciano R. Mendes

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Bohdan Zadura (Puławy, 1945) debutou, como muitos outros importantes poetas poloneses, no ano de 1968 – o início da chamada Nowa Fala (Nova Onda) da literatura polonesa. Sua poesia, a princípio, utilizava-se de formas clássicas, em especial o soneto mas, a partir dos anos 1980, abandonou essas tendências e deixou-se influenciar por poetas mais contemporâneos, notadamente os norte-americanos da assim chamada Escola de Nova Iorque. Suas temáticas, porém, mantiveram-se mais ou menos constantes, incidindo sobre a vida dos indivíduos e sua relação com a vida social, cultural e política, refletindo especialmente sobre os termos linguísticos dessa relação.

Selecionei alguns poemas retirados de dois de suas antologias mais recentes (Kaszel w lipcu, de 2000; e Ptasia Grypa, de 2002).

Luciano R. Mendes

* * *

ANTYGONA Z PRIŠTINY

Sarajewo było raz (w ogniu) i drugi
I wystarczy
Minęło jak wszystko

Chciałbym żyć raz
a długo
żeby zdążyć

zapomnieć
raz
a dobrze

Twoje ciało
jak ciało Polinejka
Tylko choć myli mi się

Kreon Charon i Chronos
chyba nic już nie jest
możliwe

Antígona de Pristina

Sarajevo esteve uma vez (em chamas) e uma segunda
e basta
Passou, como tudo

Eu queria viver só uma vez
mas o bastante
para conseguir

esquecer
de uma vez
por todas

Teu corpo
como o corpo de Polinices
Só que apesar de eu confundir

Creonte, Caronte e Cronos
pode ser que nada seja
possível

Fashion TV

Czy gimnastyka szwedzka jest zdrowa Nie mówię że nie jest
choć przysłowiowy polot Szwedów daje do myślenia

a fizyczna tężyzna? łzy napływają do oczu na wspomnienie
masowych pokazów gimnastycznych na powiatowych spartakiadach

dziś gdy w Fashion Television oglądam karnawał w Rio
znów przed oczami mi stają nasze białe zapadnięte klatki

i na trybunach w kretonowych sukienkach w kolorowe kwiatki
nasze matki do wtóru sekretarzom bijące nam brawo

i ciastowate uda dziewczyn, spodenek sprany granat
w których coś się rozpycha nie zawsze kiedy trzeba

i wstyd że się jest punkcikiem w jakiejś figurze na trawie a z nieba
żadna kurtyna deszczu na wstyd ten nie opada

i choć jesteś ofermą nikt cię zwolnić nie chce
od przysiadów przewrotów wymachów ramion i przebieżek

no bo gdyby zwalniano ofermy to powiedzmy szczerze
wuefista by tutaj tylko ćwiczył z wuefistką

Fashion TV

Será que ginástica sueca é saudável Eu não disse que não
apesar de que a proverbial inventividade sueca dá o que pensar

mas e a boa forma? lágrimas escorrem dos olhos de lembrar
as massivas demonstrações de ginástica dos jogos estudantis municipais

hoje quando assisto ao carnaval do Rio na Fashion Television
mais uma vez pairam diante de meus olhos nossos peitos magros e brancos

e nas arquibancadas com vestidos de bramante com flores coloridas
nossas mães acompanhadas dos secretários nos aplaudindo

as celulites nas coxas das moças, shorts azul marinho
nos quais algo nem sempre estica na hora certa

e se envergonha de ser um pontinho na grama e no céu
nenhuma cortina de chuva cai sobre essa vergonha

e apesar de você ser um inútil ninguém quer te liberar
dos agachamentos, saltos mortais, swings, flexões e corridas

não, pois se os que foram afastados por inaptidão falarem francamente
só os professores e professoras de educação física treinariam

Za pięć dwunasta

śmierć daje większe możliwości wyboru
dlatego pytamy na co umarł a nie
na co się urodził

Cinco para meia-noite

a morte dá mais possibilidades de escolha
por isso perguntamos do que foi que morreu e não
do que foi que nasceu

Myślałem o samobójstwie

Wczoraj że jestem za młody
Dzisiaj że jestem za stary

Eu pensava em suicídio

Ontem, que era muito jovem
Hoje, que sou velho demais

(poemas de Bohdan Zadura, trad. de Luciano R. Mendes)

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