entrevista

Um fato no limite da nudez: entrevista com Manuel de Freitas, por Fabio Weintraub

Foto de Pádua Fernandes, 2007.

Por ocasião do lançamento de Suite de pièces que l’on peut jouer seul (São Paulo: Corsário-Satã, 2017, 168 p., R$ 50,00), sua terceira antologia de poemas publicada no Brasil, o poeta português Manuel de Freitas concedeu ao Escamandro a entrevista que você lerá a seguir. Nascido no Vale de Santarém em 1972, Freitas publicou seu primeiro livro em 2000 e de lá para cá lançou mais de quarenta títulos, situando-se entre os mais destacados autores da lírica portuguesa contemporânea. Tradutor de Cioran e Lautréamont, Freitas é também, ao lado da poeta Inês Dias, editor de revistas como a Cão Celeste e a Telhados de Vidro, diretor da editora Averno e um dos sócios da livraria Paralelo W, em Lisboa. Na conversa com o Escamandro, o poeta falou um pouco das relações entre poesia e peste, afirmou detestar em certo sentido “a literatura e quem lá anda”, falou de sua relação com a música e os gatos, entre outras coisas.

Fabio Weintraub

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escamandro: Na coletânea de poemas seus que o crítico e poeta Luís Maffei organizou para a coleção “Ciranda da poesia”, da Eduerj, ele lê o prefácio que você escreveu para a antologia Poetas sem Qualidades (“A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades”), de 2002, como um protocolo de intenções útil para entender a sua própria poesia, marcada pela recusa do “aliteratado”, do decorativo, e pelo compromisso ético com o nosso tempo. Quinze anos decorridos da redação do referido prefácio, nós imersos em um tempo casa vez mais reificante, você acrescentaria algo àquela exigência de “desqualificação”?

Manuel de Freitas: Sempre entendi esse prefácio como um mero desabafo, que visava menos a minha poesia do que a de outros autores que me pareciam, então, muito estimulantes. A recusa do “aliteratado” estava neles como estará, creio, no que escrevo, embora com modos e timbres diversos. Quanto aos puetas com qualidades que eu atacava nesse mesmo prefácio, nada se alterou. Manuel Alegre recebeu entretanto o Prémio Camões, Nuno Júdice talvez ainda venha a receber o Nobel. E não será por acaso que o actual Ministro da Cultura português é um poeta completamente irrelevante. A reificação continua, mas não concebo uma poesia digna e actuante (e digo-o sem quaisquer ilusões políticas) se ela não se mantiver à margem das instituições. Para que conste, alguns dos autores incluídos em Poetas sem Qualidades são hoje deputados ou pavoneiam-se alegremente em jardins presidenciais. E estão no seu direito, claro, mas o que era “verdade” em 2002 é-o talvez um pouco menos em 2017. Pela minha parte, não retiro nem acrescento uma linha ao prefácio que escrevi.

Nas “Coordenadas líricas” do número 4 da revista Cão Celeste, você recorda as críticas feitas por Vitor Silva Tavares, editor da & etc., ao projeto do seu primeiro livro de poemas: “Apeteceria pedir ao poeta que se despisse da literatura. Porque das duas, uma: ou se usa fato próprio (que leva muito tempo a fazer ao feitio) ou é preferível a nudez – aquela condição em que o silêncio e porventura o nada ganham sentido”. Anos mais tarde, ao publicar seu terceiro livro de poemas, Game over, incorporando críticas e sugestões do Vitor e do Rui Caeiro, você declara ter reescrito muita coisa a fim de encontrar “um fato próprio, no limite da nudez”. Uma roupa própria, sob medida, no limite da nudez, não seria outro modo de formular, pela via do despojamento, aquele “compromisso ético” com o nosso tempo?

Tudo o que disse nesse texto, e pensando sobretudo nas sugestões e observações de Vitor Silva Tavares, ia no sentido limpo e depurado de assegurar um “estilo” próprio. O Vitor, exímio leitor, depressa percebeu que eu ganhava – ou o livro, melhor dizendo – se lhe tirássemos umas dezenas de adjectivos inúteis. Como diz muitas vezes o meu amigo António Barahona, “no tirar é que está o ganho”. Quanto a compromissos, tenho-os apenas a título afectivo – e enquanto duram. Se falo deste tempo, é porque me coube vivê-lo.

“Lembra apenas o perdido corpo/ de quem te chama”; “um poema, mesmo que seja insuflável,/nunca salvou ninguém do seu corpo”; “Até que a solidão se torne/ uma soberania obscena e impessoal, e o corpo se confunda, num demorado réquiem,/ com as esquinas e becos imundos/ desta cidade viva, a agonizar”; “Um corpo serve para muito pouco,/ desde os caprichos da libido/ às infecções urinárias”; “O corpo./ Uma duração precisa,/ que se despede informalmente/ no beijos que já não dá.” De que maneira essa presença obsedante do corpo – em relação metonímica com a cidade, com o envelhecimento e a morte – se liga (se é que o faz) àquela ideia de literatura como veste “no limite da nudez”?

A última nudez é, necessariamente, a da morte. Resignadamente ou não, vamos todos morrer. E envelhecer, entretanto. Passa tudo pelo corpo. Recuso-me, aliás, a ter uma “ideia de literatura”. Se escrevo, ainda, é porque também ainda respiro, defeco, vomito, amo. Em certo sentido, detesto a literatura e quem lá anda.

No posfácio a Suite de pièces  que l’on peut jouer seul, sua terceira antologia poética publicada no Brasil, pela editora Corsário-Satã, Rosa Maria Martelo destaca o caráter intimista, autográfico, que teria servido de critério para a seleção de poemas. Você concorda com essa visão? Conte-nos um pouco sobre como foi organizada essa antologia.

Acho que toda a poesia que até hoje publiquei é “intimista” e “autográfica”. Limitei-me, portanto, a escolher os poemas que pudessem dar uma imagem não muito desfavorável do poeta. Foi um esforço enorme. Porque não gosto nada de me reler; muito menos de me antologiar. Mas senti, de algum modo, que tinha chegado o momento de o fazer.

“Somos sempre contemporâneos da merda”; “este paiol de esterco chamado humanidade”; “Do lixo, porém, temos um vasto/ e inútil conhecimento. Possa/ ele servir de rosa triste aos/ que não cantam sequer, por delicadeza”. A merda, o esterco e o lixo, contudo, parecem empestear os ares de diferentes maneiras de uns tempos para cá. Com que nariz os poetas hão de enfrentar a nova classe de miasmas?

Os poetas, feliz ou infelizmente, não funcionam, não interessam, raramente são consultados (e convém desconfiar um bocadinho dos que são ministros ou assessores culturais). É melhor deixar a peste grassar, livre e bruta. Os poetas, quando íntegros, serão apenas o contraponto possível do esterco em que vivemos. E já não é pouco.

Muito se tem destacado a importância das referências musicais na sua obra. No entanto, sinto maior presença da música como tema, assunto, motivo que como estrutura, procedimento operacional. Tal observação procede? Em caso negativo, em que momentos e de que maneira a música comparece em seus versos enquanto modo compositivo?

A música interessa-me muito mais do que a literatura. E isso acaba, fatalmente, por se reflectir no que escrevo, Mas nunca, creio, num plano que se possa considerar estrutural ou estruturante. A verdade é que me sinto mais próximo de Dolores Duran, Adoniran Barbosa ou Jacques Brel do que de Eliot, Drummond ou Mallarmé. Devo à música, e não à poesia, os mais intensos risos e lágrimas da minha vida.

Assim como a camaradagem e o amor, também o repúdio e a inimizade ocupam nos seus poemas lugar de relevo, sobretudo no campo literário: “É por esses e outros motivos/ que não gosto assim tanto/ dos poetas meus contemporâneos”; “um galgo aproxima-se devagar/ da mão que nunca lerá José Saramago”. Concorda com a afirmação de Cioran de que a juventude acaba quando deixamos de escolher nossos inimigos para nos contentarmos com os que temos à mão?

Eu concordo sempre com Cioran. Mas a juventude já passou, definitivamente; e tenho inúmeros inimigos, embora eu já não seja inimigo de ninguém. Acho isso uma perda de tempo. Sempre gostei mais de gatos e de cães do que de pessoas; e isso é que não vai mesmo mudar.

Como tradutor, você tem se dedicado a autores como Lautréamont (Os cantos de Maldoror), Cioran (Do inconveniente de ter nascido), Anatole France (Thaïs) e Simone Weil (Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos). Conte-nos um pouco desse trabalho tradutório e do espaço dedicado a textos traduzidos nas revistas Telhados de vidro e na Cão celeste.

Nas revistas Telhados de Vidro e Cão Celeste, temos procurado (eu e a Inês Dias, além de outros tradutores assíduos) partilhar textos de autores pouco conhecidos ou valorizados em Portugal. Quanto aos livros que traduzi para outras chancelas, o convite veio sempre do editor. Tenho a sorte de haver alguns editores portugueses que conhecem os meus gostos e afinidades, e considero um privilégio ter traduzido dois livros de Cioran para a Letra Livre. Mas nunca me lembraria, por exemplo, de traduzir Lautréamont por iniciativa própria. Foi um desafio enorme, que me ocupou durante cerca de três anos. Houve dias em que traduzi apenas uma frase, sendo que essa frase podia ocupar uma página inteira. Sem uma certa dose de masoquismo, é impossível traduzir Os Cantos de Maldoror. Gosto de traduzir, mas preciso de o fazer com uma ardente lentidão, pois sou mesmo muito preguiçoso.

Chamam a atenção, no conjunto de poemas reunidos em Suite de pièces que l’on peut jouer seul, alguns fechos de valor interjetivo como “Por hoje estamos conversados” (p. 16); “Pois é” (p. 25); “Era só para te dizer isto” (p. 30); “Qualquer coisa assim” (p. 57), “Era isso” (p. 68). Convocar afetivamente o leitor, modular o enlevo lírico, infiltrar prosa nos versos, o que está exatamente em jogo nesses fechos? Aproveitando a deixa, a finalização do poema constitui para você algum tipo de desafio ou problema a mobilizar de modo especial sua atenção?

Nada disso é premeditado. Eu não penso no leitor enquanto escrevo. Escrevo sempre de jacto, muito de repente, por impulso. E não demoro a decidir se o poema merece ser trabalhado ou se vai direitinho para o caixote do lixo (que é o mais habitual). Caso o “salve”, tento dar-lhe a melhor afinação possível. É a minha “obrigação” poética, mas sinto-a como um dever puramente linguístico. O leitor, enquanto entidade abstracta, não me interessa rigorosamente nada. Interessam-me, porém, muitíssimo as opiniões dos amigos que realmente prezo enquanto leitores exigentes e sinceros.

Seja nas revistas que editam seja no catálogo da Averno, você e a Inês Dias têm publicado regularmente autores brasileiros como Luca Argel, Pádua Fernandes, Ana Martins Marques, Fabiano Calixto, Heitor Ferraz Mello, para citar alguns nomes. Outras editoras portuguesas (Cotovia, Douda Correria,Tinta da China, Mariposa Azual) têm aberto recentemente um espaço maior em seus catálogos para autores brasileiros contemporâneos. E também no Brasil verifica-se um interesse crescente pela literatura portuguesa produzida por autores portugueses mais jovens, nascidos a partir dos anos 1970, como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Matilde Campilho. Você julga que que o trânsito literário entre Portugal e Brasil se intensificou nos últimos anos? Em caso afirmativo, por que, de que maneira, enfrentando que tipo de problemas?

Continua a haver um grande fosso entre Portugal e o Brasil. Os livros não circulam – e os políticos (e outra gentinha bastante pateta na sua lusofonia oca e demagógica) parecem mais interessados em pseudo-acordos ortográficos do que em aligeirar as barreiras postais e burocráticas que nos separam. Acabamos por ter um conhecimento bastante esporádico ou aleatório daquilo que, em matéria de poesia, se faz actualmente no Brasil. E devemo-lo (falo por mim) a contactos efectivos e afectivos entre poetas de ambos os países, bem mais do que a antologias desastrosas (refiro-me, claro, à de Adriana Calcanhotto).

Os autores portugueses mais jovens que refere são, quanto a mim, perfeitas nulidades, com a eventual excepção de Gonçalo M. Tavares. Mas até este, tendo escrito alguns livros interessantes, pouco traz de novo a quem conheça bem as obras de Walter Benjamin, María Zambrano, Hermann Broch ou Robert Musil. Ficaria mais feliz se soubesse que no Brasil se estava a verificar “um interesse crescente” por autores portugueses como Ana Teresa Pereira, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge ou Rui Nunes. Estes sim, são criadores de um mundo próprio, e não meros funcionários das letras. Mas cabe-lhes o azar de já não serem “jovens” e de não terem agentes literários.

 

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XANTO | Consciência do cadafalso (sobre ‘Últimos poemas’, de José Miguel Silva), por Pádua Fernandes

Últimos poemas (Lisboa: Averno, 2017) parece fechar um ciclo na obra de José Miguel Silva. Em seu primeiro livro, O sino de areia (Porto: Gilgamesh, 1999), incluiu alguns poemas a partir de filmes, indicando-os nos títulos. Da filmografia japonesa selecionada, interessava ao poeta “O último dos homens” (“Viver – A. Kurosawa”), um “abrigo” “Antes que da noite o lobo venha/ devorar o que nos resta.” (“O intendente Sanshô – K. Mizoguchi”), a volta impossível à pátria daquele “que na guerra/ ergueu uma pá/ para juntar/ a cinza dos vivos/ ao lume dos mortos.” (“A harpa birmanesa – R. Ichikawa”).

Esses poemas foram retomados, com pouca alteração, em Movimentos no escuro (Lisboa: Relógio D’Água, 2005), todo dedicado a esse diálogo com o cinema.

Naqueles poemas do século passado, a questão do tema do fim da sociedade ou do mundo se articulava a uma reflexão sobre a arte. Algo de semelhante ocorre no livro mais recente, Últimos poemas, por tratar de uma consciência do último, do fim: da literatura (a primeira metade) e da civilização industrial e da espécie humana (a segunda).

O título da primeira metade, “Pastéis que sobraram da festa e seria uma pena deitar fora”, indica de pronto que tratará dos restos monumentais da literatura. Autores como Gore Vidal e Proust são tratados com ironia algo condescendente, tom comum em José Miguel Silva; Gide (“o pujante pioneiro”) recebe uma interessantíssima homenagem, Ernst Jünger (“Era um homem para pegar/ num grão de areia e dividi-lo por dez mãos/ exigentes”) e Pound também (“muitas vezes nos deu guarida/ em sua casa”). No entanto, essa literatura não teria mais condições sociais de interessar ao grande público. Lemos em “Musa, sinceramente” este divertido passa-fora para a pobre inspiradora:

 

Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? […]

 

O autor declara a poesia derrotada de antemão pelos meios de entretenimento de massa.

A segunda parte, “Corredor da morte”, pressupõe a ideia de que a humanidade já está condenada por si mesma, e que “só podíamos seguir/ o planograma do genoma e perecer.” (“Fim”). O interesse de José Miguel Silva por assuntos da genética já passou por esferas mais privadas (“Um deslize do genoma/ soterrou-lhe o coração.”, escreveu em “Na feira do livro II”, de Ulisses já não mora aqui, livro editado originalmente em 2002). Desta vez, trata-se de uma catástrofe coletiva, da espécie. A condenação parece, nesta seção, abranger tanto a ordem biológica quanto a política, o que é reiterado em “Teatro político”, em que o teatro serve de excessivamente convencional metáfora para a mentira. O poema apresenta um rol de decomposições:

 

a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

 

O brilhante “Homem do lixo” imagina um faxineiro, o último a chegar à festa, e que tem o dever de varrer “o subproduto da embriaguez/ organizada”. Os foliões dormem, ele dança com a vassoura, tentando enganar-se que não está desiludido. Imaginamos que seja este o nosso tempo: chegamos para recolher o lixo da festa. No entanto,

 

Findo o trabalho, tem ainda tempo
para se apiedar dos vindouros,
que da festa não terão sequer notícia,
que nunca poderão participar
sequer remotamente em algo
tão aparentado com a felicidade.

 

As próximas gerações estarão ainda mais longe da felicidade, que hoje só pode existir como resíduo, que estamos a jogar fora. Nem os restos persistirão. Um tempo mais desesperançado, pois, do que o concebido por Carlos Drummond de Andrade em “Resíduo”, poema de A rosa do povo: “fica sempre um pouco de tudo./ Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

As duas partes não são estanques: na segunda, “Misantropia à parte” é uma denúncia do público que não digere a poesia, público descrito nestes termos pouco lisonjeiros:

 

O aparelho cognitivo do porco não consegue digerir
a pérola. O porco, porque é porco e omnívoro,
come o que lhe dão: abocanha a pérola, engole
a pérola, fá-la viajar nos intestinos, devolvendo-a
depois à luz do dia. Com esse trânsito de merda,
o porco nada ganhou, e a pérola ainda menos.

 

A literatura está morta, este livro vem apenas “alegrar o velório” (“Lamento e exortação”), talvez não passe de “Mais um dia de estrume para roseira nenhuma” (“Parte poética”); o mundo está caminhando para estado semelhante (“não cabe/ mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.”, diz em “Fala o director-geral”).

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A catástrofe está próxima, como em poema de Ulisses não mora mais aqui (Lisboa: & etc, 2002), “Estela funerária”, que termina com esta constatação: “caiu para o desastre,/ chegou à nossa frente.”

A dissertação de mestrado de Vitor Bruno Dantas Ramalhosa, Não sei se a culpa é minha ou de ninguém: a poesia política de José Miguel Silva (defendida em 2016 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto [clique aqui]), lembra que José Miguel Silva “prefere, ironicamente, ser um ‘desmancha-prazeres’ (título de um blog seu) que ‘não contribui para aligeirar o déficit na balança cultural’, mas que, ao invés, e tal como Alberto Pimenta, contribui com o que pode ‘para a lixeira cultural’.” Trata-se de uma alta comparação, eis que provavelmente nenhum outro autor português logrou desafinar tanto o coro nacional quanto o autor d’O discurso sobre o filho-da-puta.

Este livro, embora não seja tão dissonante assim, persiste na honrosa vocação de todos descontentes e eu também. Seu desencanto e nostálgico elitismo podem incomodar tanto setores das esquerdas quanto das direitas (veja-se esta gozação: “Como a formiga,/ o diamante, a bactéria, a água é cem por cento/ de direita, não acredita em nada, nem sequer/ no ciclo da água.”, trecho de “Põe os olhos na água”), e é certo que esses dois lados opostos do espectro ideológico podem ter muito em comum na defesa da sociedade da produção industrial, que Últimos poemas critica.

No entanto, o discurso racional e irônico, típico deste autor, tem tudo para agradar os leitores do descontentamento, que esperam, sem culpa, os próximos poemas. Afinal, neste verso de Últimos poemas encontramos uma característica da poesia: “O álibi do mal é fazer-se desejar.”

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crítica, poesia

O resto é rosto: rastros Do ínfimo, de Maria João Cantinho; por Danielle Magalhães

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Começo a ler Do ínfimo e algo retém minha atenção desde antes do começo: o índice. Demoro meu olhar nos títulos dos poemas. Ainda que não estejam explicitamente lá, três momentos me chegam a partir da indicação de leitura sugerida: 1) assombrar, 2) nomear, 3) velar. Poderia dizer isso de outro modo:  primeiro, o assombro; depois, o reconhecimento: dar nome à sombra; e então, o trabalho de luto: velar. Três momentos. Ou melhor, três movimentos. Este livro parece fazer estes três movimentos. É por isso que prefiro o verbo (assombrar, nomear, velar), porque indicam o movimento, a ação, soando também como um imperativo, uma lei. Uma lei que não é a do poder, mas a de quem sobreviveu e sobrevive a ele. Não a lei do poder, mas por causa do poder e de suas consequências nefastas. É como se estes movimentos dissessem: é preciso assombrar, é preciso nomear, é preciso velar. Mas aqui não há apenas ativo: há ativo enquanto passivo. Não há apenas sujeito: há sujeitado, sujeito enquanto objeto, assujeitado. É nesta lei que Do ínfimo se sustenta, na lei de quem se move no sofrimento, de quem se move no (e com o) gesto de ser afetado, em cuja ação sofrida não indica paralisia, mas movimento. Assombrar é sofrer o assombro, é ir com o assombro, sendo afetado por ele. Nomear é padecer do nome e desaparecer no nome, é ver quão insuficiente e frágil um nome é, e, por isso mesmo, nomear a insuficiência, nomear porque é insuficiente, nomear porque é preciso velar. Velar é também ser afetado pelo velamento, sofrer a perda ao mesmo tempo em que a afirma. Assombrar, nomear, velar: eis a lei do sobrevivente. Daquele que se move enquanto sofre.

Vendo como movimento e não como momento, deslocamos o “quando” para o “como”. Saímos de uma temporalidade pontual, que se abre a uma atemporalidade que se inscreve em cada gesto. O tempo deixa de ser o cronológico e passa a ser o do corpo. O que seria a História senão a atemporalidade do corpo? O tempo marcado pelo corpo, pelos corpos moventes, pelos corpos que se movem. Preferindo o verbo e o duplo movimento implicado na ação (ativo e passivo, ao mesmo tempo), saímos também do substantivo (assombro, nome/sombra, velamento). Em algum lugar desta escolha, é a substância que é tirada. Porque o livro não se reduz a uma substância ou a estes substantivos. Não se reduz a estes nomes. Sua insubstancialidade está em abrigar todos os nomes, e se abrir a todos os nomes, na impossibilidade de ser reduzido a uma essência, a um instante e a um nome. Do ínfimo, do ínfimo de um nome, abre-se todos. E todos os instantes. Todo nome deixa de ser próprio e passa a ser comum, como assombro, sombra, velamento. A propriedade é tirada em nome de um comum. E por isso torna-se insubstancial, porque se abre a uma comunidade, a todos os sobreviventes, a todos que sofrem e se movem no e com o sofrimento. Não são sobreviventes aqueles que não sofrem. São, esses, os detentores do poder. Fora os poderosos e os sobreviventes, há apenas os mortos. E sobre-viver significa, talvez paradoxalmente, velar. Sobrevivente, esse modo de viver, de estar no mundo, não existe se não for intrinsecamente junto a fitar os mortos, se não for entendido como estar junto aos mortos, a todo momento, cara a cara com eles, fitando seus rostos, velando seus corpos, de cara com a morte.

Começar é começar do ínfimo. E começar Do ínfimo é se deparar com um rosto. Ou melhor, com a “Arqueologia de um rosto”. Mais precisamente, com uma decisão:

 

“Não vou mandar limpá-lo”, decidiu.

Decidiu o homem da mercearia
que deixara amarrotar o rosto pelas vielas
enquanto descia a calçada
e os olhos, manchados de sonhos antigos,
resvalavam para dentro.

Começar Do ínfimo é encontrar um rosto. Ou seja, encontrar uma decisão. Talvez porque um rosto já contenha todas as cisões, talvez porque um rosto já seja cindido, riscado, traçado, expondo tão somente os traços, os riscos. Expondo tão somente aquilo que se mostra como abertura: vias, vielas. O homem da mercearia, um homem comum, um homem qualquer, é preciso ressaltar, decidiu deixar-se amarrotar o rosto pelas vielas, como se portasse as vielas no rosto, como se as vielas lhe fossem o rosto. E o que seriam os olhos resvalando para dentro senão a exposição do vazio dos olhos? Esse vazio exposto que não se apreende (“olhos presos ao vazio”), apenas aparece, exposto, ou seja, que se coloca no fora. Curiosamente, usamos a mesma expressão para dizer olhos fundos e olhos vazios, como os olhos resvalados ou voltados para dentro, no poema. Estes olhos fundos, para dentro, expõem o vazio que se abre ao fora. Porque estão expostos. É por isso que encontrar um rosto é encontrar um fora.

Em “O Rosto”, de Meios sem fim, Giorgio Agamben diz que “todo rosto afunda-se e desmorona-se em si mesmo”, deixando “emergir o fundo informe que os ameaça”. “Arqueologia de um rosto”, o primeiro poema do livro de Maria João Cantinho, é esse movimento de tocar o fundo, o fundo dos olhos, o rosto fundo, o rosto desmoronado, o resto. Não como se o resto fosse as sobras do rosto, mas como se o resto fosse o rosto, como se o rosto, em sua superfície, em seus riscos, fosse o resto, o que resta. O rosto como esse irredutível. As fendas por onde nos expomos, por onde ficamos expostos. Os caminhos abertos, veias, vias, os caminhos viáveis por onde a viabilidade acontece. Na decisão de escolher, reiteradamente, a impureza (“Não vou mandar limpá-lo”; “nunca mais vou sequer mudá-lo!”), “como uma bomba/ a rebentar-lhe o coração”, “os olhos sujos de vida” atravessam a inviabilidade, cortam-na, rasgam-na, contra a inviabilidade da indiferença, os rostos que desfilam espetacularmente “indiferentes” à morte. “Arqueologia de um rosto” é a vida que se abre do ínfimo, a vida que pulsa em um rosto cujo olhar se direciona para a morte do mais ínfimo que o ínfimo como um pássaro morto. Nesta arqueologia chega-se ao resto via o rosto. E do rosto chega-se ao fora do rosto. “Arqueologia de um rosto” não é a escavação do que está por trás, como se revelasse uma verdade escondida: é o mostrar o que aparece, a impureza que reside na superfície, um traçado de vida que pulsa neste sítio comum de vias porque ele está tão somente voltado para a morte. Começar do ínfimo é decidir começar do rosto: decidir começar do resto, do rastro do rosto.

“Por mais que te olhe o rosto/ […], o enigma não se aclara”. Depois do começo arqueológico, subvertendo o lugar da identidade e abrindo esse ínfimo, esse resto, como um sítio frágil, como ruelas ou um campo de batalha, abrindo esse rosto como lugar por onde se abre toda a História, deixando de ser próprio e passando a ser comum, o segundo poema, “Monólogo Improvável”, começa com o rosto e desde o rosto, levando a crer que, depois do começo (da História, dos corpos, do tempo?), tudo, ainda, é rosto. A contraposição dos versos indica que rosto é impasse, enigma – palco de decisão, tribunal, praça pública, rua, campo de batalha –, longe de ser o lugar que revela uma verdade, uma pureza, uma essência. O poema poderia ser dito por qualquer um que está na condição de ser aquele ou aquela que espera: “Poderia ser Joseph K/ ou qualquer outro que espera”. Poderia ser dito por qualquer um ou qualquer uma de nós que se depara todo dia com o triunfo do poder. E aí o poema deixa de ser um monólogo: o enigma reside em o poema tornar-se este lugar polifônico que abriga vozes perdidas: “o que não chega nem se revela/ o que pergunta e nunca ouve/ o que sonha e guarda fantasmas/ o que ouve vozes perdidas no nevoeiro. ”. Um lugar, sobretudo, de chamado, de apelo, e por isso também de escuta, porque de perguntas sem respostas. Como um labirinto kafkiano, o poema é este lugar sem saída que abriga a impotência diante da lei, diante do tempo, diante da salvação que não vai chegar, diante da espera. Mas na medida em que ele lida com o campo da potencialidade, do que poderia ter sido, de quem poderia ter dito, uma voz se abre a muitas, e a possibilidade de ser Joseph K se abre para a possibilidade de ser qualquer outro que se encontra na condição de Joseph K, e só isso já indica uma potência, a potência de o poema dizer aquilo que Joseph K não disse, mas poderia ter dito, e a potência disso ser estendido a cada um que se vê impotente. Movendo-se com a impotência e dando lugar a ela, o monólogo torna-se cada vez mais improvável porque 1) estar nesta condição é estar mesmo “sem provas”, desprotegido, desamparado, 2) porque o improvável já está no campo da possibilidade e não do fato, não do que provavelmente aconteceu, mas do que poderia ter acontecido, 3) porque o que começa a se abrir de uma voz é o reconhecimento de outras vozes, ou seja, o poema, em seu monólogo, passa a abrigar um diálogo.

Guy Debord diria que n’ A Sociedade do Espetáculo há a morte do diálogo. O espetáculo acaba com o diálogo. Nesta sociedade em que o que prevalece soberanamente é a morte do diálogo como a morte da diferença, talvez “Monólogo Improvável” seja a sobrevivência do diálogo enquanto poema – e no enigma do poema. A morte do diálogo é o triunfo de apenas uma via de comunicação: a comunicação que comunica o poder. A improbabilidade deste monólogo talvez esteja em ele não ser um monólogo na medida em que ele não comunica, mas expõe uma ausência, um vazio: “Por mais que te olhe o rosto/ em busca de sinais/ é essa ausência que me faz cair/ para fora da língua,/ um vazio que nos espreita”. E expor esta ausência e este vazio é traçar uma abertura para o diálogo. Não preencher o vazio, não suplantar a ausência, não se comunicar para erradicar a ausência, mas comunicar a ausência, indicar o vazio e fazer do vazio uma via de comunicabilidade, falando como quem cai na língua com a ausência, e não como quem domina a língua escapando da ausência. Porque esta ausência que nos faz cair para fora da língua nos faz mover, não como quem aprende a dominar a língua, mas como quem cai na língua, tropeçando nela à medida que se está caindo para fora de seu domínio. Um poema é a queda da língua e na língua. E nestes buracos abertos encontramos, em uma voz, todas as vozes perdidas. E isso é uma forma de contato.

Assim como rosto é impasse, entrar em contato com tudo que é ínfimo talvez seja encontrar-se sem caminhos, aquilo que os gregos chamariam de aporia. “Mas aquele que se espanta e se encontra em impasse [em aporia] reconhece sua ignorância. ”, disse Aristóteles em Metafísica, neste trecho traduzido por Alberto Pucheu no ensaio “Poesia, filosofia, política”. Encontrar-se em aporia se relaciona diretamente então com o não saber. Deparar-se com o não saber: “Não sei senão do ínfimo” – começa o terceiro poema, de título homônimo ao livro. Nele, escutamos três vezes: “nada sei”, “nada sei”, “nada sei”. O “nada” ecoa ainda três vezes na última repetição: “nada sei, nada de nada”, dando fim à última estrofe com os versos “escondido que ele é/ no ínfimo e na sombra. Oculto. ”. Não saber senão do ínfimo é não saber senão do que está escondido, oculto, na sombra, daquilo que não se revela, daquilo que é velado. Não saber senão disso é, portanto, abandonar o saber, renunciar a “grandiloquência” e não escutar senão o “murmúrio”. É assim que Maria João Cantinho dá toda dignidade e grandeza ao ínfimo. Não saber senão do ínfimo é desconhecer todo o conhecimento prévio e reconhecer a ignorância tal como nos deparamos espantados ou assombrados, porque o espanto ou o assombro nos desloca para um lugar em que nos vemos suspensos de todo conhecimento ou saber.

Para Aristóteles, assim como para Platão (que também comparece no livro), o espanto estaria na origem da filosofia, como podemos ver na passagem que dá início ao trecho citado acima: “Através do espanto, pois, tanto agora como desde a primeira vez, os homens começaram a filosofar”. Mas espantar-se não moveria apenas a filosofia, pois ele acrescenta: “Por conseguinte, o filômito é, de certo modo, filósofo”. O que une filômito – que para nós poderia ser o poeta – e filósofo é o espanto. Espantar-se: não seria essa a condição de todo poeta? Fazer a experiência de tudo que é ínfimo não seria entrar em contato com a aporia, com o não saber, com a ignorância, com as coisas, as “pequenas coisas” – isso que é difícil de nomear – “que não chegam à palavra”? Se começar é começar do ínfimo, do resto, o começo deste poema, intitulado “Do ínfimo”, mostra que começar do ínfimo é começar com o não saber, é começar à medida que não se sabe, porque começar do ínfimo é fazer a experiência do espanto, do assombro, e resguardar o assombro: assombrar-se e assombrar, assombrar-se e velar, assombrar-se e resguardar a/na sombra.

O espanto não reside apenas na alegria, no amor, mas também na dor, no terror. Eis duas vias, em uma, do espanto: assombrar-se diante do assombro do terror, assombrar-se diante da sombra dos mortos. “[T]oda literatura é, ao mesmo tempo, júbilo e terror”, disse Silvina Lopes em Literatura: defesa do atrito. Como ela, poderíamos dizer que poesia é, ao mesmo tempo, alegria e dor, amor e terror, estas duas modalidades do espanto. Talvez seja preciso dizer que assombrar-se é também o que possibilita o amor, porque é com a capacidade de ter um gesto de espanto que mostramos não ser indiferentes. Às vezes, assombrar-se é todo um gesto de amor que resta diante da impotência. Quando não é o gesto que resta, é uma passagem a um gesto, uma passagem para que seja possível um gesto de amor e de justiça. Paradoxalmente, uma passagem cuja condição é a aporia: “o assombro/ o desvario de palavras,/ essa lâmina que rasga o real/ uma garra de nada, uma pedra/ no teu caminho.” (“Assombro”). Acontecendo no e como impasse, como uma pedra no caminho, o assombro é tanto o que abriga o impasse, mantendo-se como o único gesto que resta, quanto o que permite o passo, o impasse necessário ao passo, expandindo-se na potencialidade de “um abismo em forma de rosa”, dando passagem a outro gesto, sendo, enquanto impasse, o que permite o passo. Ele acolhe tanto a potência quanto a impotência, e, como o que resta, impotente, é uma impotência potente, porque rasga, abre, desloca. Há sempre um movimento implicado nesta impotência. Por isso, ele sempre é potente, porque sempre é um gesto, mesmo quando ele acolhe e denuncia o impasse, a pedra no caminho, ele já é passagem, abertura a outro gesto.

O poema “Gestos” finaliza com “uma definitiva mão/ que tudo anoitece. ”.  O que resta é pó, como vemos na última estrofe: “A única coisa que fica é o pó/ uma definitiva mão/ que tudo anoitece. ”. Nas variações dos modos de ir e vir, dos caminhos, dos desvios, esbarramos irremediavelmente com este impasse, este gesto: a mão da finitude. Isso que aponta para o que finda, como o dia na noite, a luz na escuridão. Isso que também não precisa ser entendido como começo ou fim, mas apenas como passagem. Passagem que, porém, só existe na tensão entre vida e morte, que não existe se tomarmos apenas uma ou apenas outra. Passagem que sempre se depara com o impasse definitivo: a morte. Lembro-me então de um verso da poeta carioca Bruna Mitrano, que diz: “em toda alteridade resta um pouco de fim”. É como penso este duplo gesto em um mesmo gesto: em toda alteridade resta um pouco de sim, pois a mão dá passagem, e a mesma mão que dá passagem, que diz sim, acena para o fim, porque tudo que é outro aponta para o fim.

Do ínfimo é um livro de passagens, caminhos, jornadas. É um lugar de abertura – a um chamado, a uma escuta, ao desejo, sobretudo. A isso que existe enquanto chama (na duplicidade desta palavra: verbo e substantivo), que não pode ser capturado nem fixado, que não obedece ao tempo cronológico, mas a um tempo outro, “entre a promessa e o exílio” (“O eco”), habitando o “limiar”, esse entrelugar, isso que não se reduz a um ou a outro, que não chega a ser, que só existe “no limiar da sombra ao ser”, que deve permanecer como possibilidade para continuar sendo desejo, que deve permanecer como potência para continuar chamando, ecoando como um chamado tal como nos sonhos ressoa a manifestação de nossos desejos mais ocultos. “Pode um homem sonhar, ainda,/ enquanto as asas do mal o assaltam?” (“O ar que as mulheres respiravam”). Talvez o sonho seja também o que resta, este reduto possível do desejo.

Caminhar com o ínfimo é poder retomar o começo e é poder começar de novo. Mas isso não significa retornar a um passado, a não ser que este passado abra caminhos ao que já é e ao que ainda vem a ser, ao que ainda não é, a não ser que ele emita “essa luz irrepetível/ abrindo caminhos da manhã/ inteira/ no som do que já é passado/ e ainda não aberto/ ao que virá. O que é.” (“Rachmaninov”). Retomar um começo que se localiza entre o que já foi e o que ainda não é, um começo que opera como um atalho, uma passagem que se abre a todos os tempos e resguarda como potencialidade o “ainda não”, o que ainda não está aberto ao que virá. Abrigando todos os tempos, estes versos entoam um “ritmo milenar”, ecoando tudo o que já aconteceu e, ao mesmo tempo, uma “voz sem memória”, uma voz que ecoa “de todos os famintos” que já existiram e de todos que ainda não chegaram a existir (“O lento passo dos nómadas”).

O começo retomado é evocado com um silvo que anuncia um modo diferente de seguir, como acontece por exemplo em “O eco”, com a repetição do verso “E nada nos era vedado”. Um ritmo que o ouvido reconhece como um bumbo cuja batida traz a atenção da escuta para uma diferença que virá. A repetição de um mesmo verso que dá início a algumas estrofes em alguns poemas mostra a força do efeito desta cadência ritual. A retomada pela repetição traz a força afirmativa, “[e]ssa força que reclama o alto/ e o nome de cada ser” (“Rachmaninov”), essa força que clama e reclama, essa força afirmativa da evocação como abertura a novos abismos e caminhos, novos impasses e passos como lemos em “O lento passo dos nómadas”: “convocando sombras/ nesse lugar que é caminho/ e muro, pergaminho/ fosso e ponte”. Neste compasso, que também se compõe de saltos (teria aqui um compasso, uma cadência?) ao começo (como na ursprung benjaminiana), há poemas cujos versos iniciais de cada estrofe retomam o primeiro verso do poema, mas retomam com um detalhe diferente, um deslocamento, apontando um outro começo, inscrevendo um novo começo, como se o poema se construísse neste poder começar de novo, como se cada estrofe fosse, “na dobra da língua”, uma volta diferente ao começo. Podemos ver isso em maior ou menor grau nos poemas, como por exemplo em “Os Peregrinos”, em “Um rio, um nome”, mas destaco aqui o exemplo de “Irmãos”, ressaltando os versos iniciais de cada estrofe: “Somos irmãos da luz”, “Somos irmãos da terra”, “Somos da sombra os nomes”, “Somos irmãos da escuridão”. Ir a este poema também é se demorar nesta repetição: “Somos”. Este poema evoca e afirma uma fraternidade: “Somos irmãos”. Ele fala de um “nós”, como o “nos” em “E nada nos era vedado”, no poema “O eco”. Do ínfimo evoca, e por isso convoca, um coletivo, um coletivo infimamente selvagem, no mínimo, um bando.

Juan de la Cruz, Rumi e Eckart povoam “O lento passo dos nómadas”. Eu arrisco a dizer que todos os passos Do ínfimo são nômades, são todos outros e todos abertos à alteridade, todos passagens, fazendo dos passos, dos impasses, dos saltos e dos abismos começos possíveis de transitar. Do ínfimo é dedicado a todos “que caminham descalços”, aos “que caminham de olhos cerrados”, aos “que caminham de rosto coberto”, aos que “caminham e nunca chegam/ peregrinos de um clarão sem nome” – versos iniciais do poema “Os Peregrinos”. Impossível não nos remeter aqui aos imigrantes neste tempo e à condição precária, frágil e inumana dos milhares e milhares de imigrantes em que toda travessia já é ruína, habitando, sem lugar, este lapso de tempo “entre a promessa e o exílio”: “Mediterrâneo, antes um nome que nos lembrava/ a glória dos deuses e a grandeza dos homens/ hoje um túmulo sem nome nem porquê. ”. São os nomes que não sabemos que escutamos neste livro, nomes que não podem ser lidos nem lembrados como os nomes das cidades das civilizações antigas, porque nem sequer restaram os nomes, como restaram Nimrud, Hatra, Palmira (“Choremos Nimrud, a jóia da Mesopotâmia”; “choremos Hatra, a bela”; “choremos Palmira, em meio de oásis,/ com as suas ruínas adormecidas no tempo”), cidades que podemos chorar as ruínas e velar a morte, ao contrário dos corpos dos quais nem nos chegam os restos. “Das cidades, das vozes” é este poema que dá corpo ao que tem menos corpo do que uma civilização inteira em ruínas. “Das cidades, das vozes” dá rosto à ausência que resta sem corpo. “Das cidades, das vozes” é a boca aberta assombrada quando vemos que as ruínas antigas encontram o amontoado de ruínas destas cidades que, hoje, são um dos maiores palcos de guerra. Se neste palco, outrora, as línguas já se confundiram, hoje sabemos que “[j]á não é a língua, este estranhamento/ que nos revira o estômago, são as imagens/ dos que tudo deixam para trás, rostos alucinados pelo medo. ”.

Em cada nômade solitário podemos ouvir uma multidão, como escutamos mais acima com Joseph K em Diante da Lei de Kafka, como escutamos em “A arqueologia de um rosto” em diálogo com a inscrição, a epígrafe, que dá início ao livro, As anotações de Malte Laurids Brigge de Rilke (que no Brasil se intitula Os cadernos de Malte Laurids Brigge), um rosto que se abre a tantos outros, como podemos escutar o eco de Celan, poeta que fazia dos salmos um apelo, como podemos escutar ainda o eco implícito de Walter Benjamin em todo o livro e, explicitamente, em “Retorno ao silêncio das nuvens”, poema dedicado a “WB”: “sinto-te entranhado no coração, no pensamento/ e sei que jamais me abandonará a tua sombra.”. Podemos ver a sombra de Benjamin, filósofo tão caro à poeta (sobre quem escreveu o livro O Anjo Melancólico), mais viva do que nunca nestes dois versos; dois versos que concentram a grandeza de uma declaração de amor. Nestes tempos, encontramos escritoras e escritores que vão aos mortos como quem vai ao amor. Maria João Cantinho é uma das que segue acompanhada das sombras, como da sombra deste filósofo que nos dizia que é preciso ver a força na fragilidade, que nos dizia que a História que deve ser contada não é a história dos vencedores, mas a história dos vencidos, a história que não cabe nas bandeiras. Essas, não servem mais. O poema “Dobrar o corpo” diz:

andamos descalços, mas continuamos a olhar
para esse céu de plástico e com estrelas mortiças
desenhadas só para alguns, que por detrás delas
se escondem, com suas siglas formidáveis
a tresandar a poder, a feder
hoje é o sapato, irmão, só te serve um
mas amanhã nem as calças te servirão
e o Inverno está à porta. E perguntas? Sonhas?

Poderíamos dizer que “esse céu de plástico e com estrelas mortiças” é uma metáfora para a bandeira da União Europeia, que também não serve mais, como as roupas são nenhuma garantia para aqueles que nada têm. “Dobrar o corpo” é ficar rente ao chão, nu, com pés descalços, da altura do que há de menor, da altura, ou da baixeza, dos vencidos. É por isso que, aqui, um nome se abre a todos, Heiner Müller (“Eu era Hamlet. Estava à beira-mar e falava, com a ressaca, na língua do blábláblá. Atrás de mim, as ruínas da Europa. ”) abre “Os nomes de deus”, em que se lê “Atrás de ti não há deuses nem poemas/ escrevem-se apenas os caminhos da morte,/ sim, já não há vencedores/ apenas vencidos// mas tu não vês,/ estás de costas voltadas/ e falas dos nomes de deus.” Neste livro, um nome se abre a todos, não porque ele fala a língua dos vencidos, mas talvez porque falar a língua dos vencidos é atestar a mudez da língua ao mesmo tempo em que se assombra com ela. Em “Abate diário” lemos: “porque só se pode sonhar/ no lugar de um outro, escrevo/ e ainda assim sucumbo/ numa mudez sem saída/ porque a língua não salva o olhar/ nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te. ”. É diante desta impossibilidade de tocar, desta interdição ao toque, ao contato, que devemos incansavelmente tentar dar corpo aonde o corpo falta, ainda que isso seja impossível. Mas o gesto reside aí: na tentativa de dar corpo aonde ele falta, na tentativa de dar corpo com a falta. “Balada de Czernowitz” é a inscrição nas costas dos mortos. Se um filósofo, Adorno, disse que não é possível escrever um poema após Auschwitz, se um poeta, Drummond, antes disso, falara que o último poeta morrera em 1914 e que todos nós não seríamos senão sobreviventes, e que o poema também termina como sobrevivente, se os primeiros versos desta Balada são “Ter-lhe-á dito que não era legítimo/ escrever poesia nas costas dos mortos de Auschwitz”, o que vemos neste poema é um anjo e, portanto, uma sombra, que “escreve poemas nas costas dos mortos”. O anjo, que segue também amputado, “de asas tolhidas”, “sabe menos do que um filósofo” (“mas tudo sabe do humano e da linguagem/ desse humano que vive para lá da morte”), é ainda mais ignorante, mas escreve ainda assim, para “dar nomes aos mortos”.

Neste livro, um nome se abre a todos porque “o tempo dos nomes” deve ser visto como um começo, um “tempo de um silêncio cheio/ e sem medo. ” (“O ar que as mulheres respiravam”). Do ínfimo é a escuta e o murmúrio de vozes, vozes em diálogo, evocando e convocando as sombras, colocando os mortos na condição de mortos-vivos, de fantasmas, e levando a crer que a nós, vivos, sobreviventes, tão próximos dos mortos, resta o assombro como uma tarefa ética, como um gesto ínfimo e mínimo de ir às sombras do nosso tempo, desdobrando-nos em gestos precários de sobrevivência (“Desdobra-se o nojo, o sangue, a vida”, como lemos em “Da visão em filigrana”) para nos dobrar por sobre os escombros: “Dobrar o corpo ou a língua, tanto faz/ para que a sombra nos salve/ destes dias” (“Dobrar o corpo”).

Mas, se andamos com as sombras, é porque sabemos que não há redenção, como diz o “Retorno ao silêncio das nuvens”: “procuramos, com o olhar em assombro/ […] e tudo o que descobrimos são as nossas mãos nuas”, porque a lei abate diariamente, porque ainda nos encontramos nos labirintos kafkianos, sem saída, buscando rotas de fuga, saídas possíveis diante dos impasses. Diante da barbárie que se repete, nos encontramos na pergunta aporética: “De que tempo somos, agora/ que a tempestade sopra de novo” (“A Besta”)?

Talvez não saibamos falar de tempos, mas apenas de “sombras de tempos”, como lemos no último poema que dá fim à terceira parte e última de poemas, “O baile final”. Se no começo encontramos uma decisão (“‘Não vou mandar limpá-lo’, decidiu”), no fim encontramos as perguntas: “cairá o palco ou tombarão as sombras? E o pintor, o que fará?”. Poderíamos acrescentar: e o poeta, o que fará?; e o fotógrafo?; e o cineasta? E todos os artistas que entram “a pique no optimismo da técnica”? Perguntas que apontam para uma aporia, um não saber, e, ao mesmo tempo, uma decisão: “importa antes permanecer/ e continuar neste palco”. Permanecer e continuar, como todo sobrevivente. Talvez não saibamos mais falar de tempos, mas daquilo que retorna para nos assombrar, como a presença de Baudelaire, Whitman, Pessoa, Eliot, “ou ainda a miragem de Orfeu”, atemporal como “uma irredutível/ e metafórica despedida” de tempos e de séculos e, talvez, ainda, deste tempo que, porém, não acabará, não chegará ao final como cantaram no fim do século XIX anunciando o XX, como cantaram no início do XX, durante o XX, no fim do XX, no início do XXI, como ainda cantam no XXI. Não à toa o espectro de Kafka paira ainda hoje, e com ele sabemos que o dia do Juízo Final é todo dia. Logo, este final que ainda cantamos, não vai chegar. E talvez precisemos nos perguntar não o que faremos ou “[o] que virá depois da música”, mas o que faremos se a música não acabar. E ela nunca acaba. Só na alteridade resta um pouco de fim. E de sim.

Antes do fim Do ínfimo, encontramos a “Caligrafia da Solidão”. Localizando-se fora do índice, colocada fora (dos poemas, do verso, do limite do livro de poemas) e por isso exposta (aos poemas, ao verso, ao limite do livro de poemas), a Parte II deste livro poderia ser lida como uma parte fora. E é enquanto parte-fora que ela encontra a outra parte, fazendo do livro este limiar em que a primeira parte pode ser vista como uma parte-fora em relação à segunda e vice-versa, só havendo partes-fora ou uma permuta de lugar que só existe se as partes estiverem em relação, só existindo o dentro se estiver em relação com o fora, só existindo, pois, se estiver em relação com. Esta parte poderia ser lida como uma passagem à prosa. Os versos dando passo à prosa. Mas poderia ser lida também como um poema, havendo uma potência de verso na prosa. Mas poderia ser lida também como um diálogo com Rumi, que comparece como epígrafe. Mas poderia ser lida também como uma dedicatória a Vicente Franz Cecim, ou como uma carta de amor ao poeta, tal como o poema a Benjamin. Mas poderia ser lida também como uma narrativa. Mas a outra parte, em versos, poderia ser lida também como uma narrativa. Desconfio, inclusive, que eu tenha lido os poemas em verso como uma narrativa. Enfim, Do ínfimo permite este encontro. Sem me demorar mais, após o meu lento passo pelos poemas, deixo aqui apenas um mínimo caminho de abertura para o mundo de uma escrita que se traça de mãos dadas com Vicente Franz Cecim. Esta prosa acontece deste encontro com o outro, com outros versos, a poesia do poeta paraense. Em entrevista, a poeta portuguesa disse: “Tenho uma forte relação com o Brasil, por exemplo, mas repara, é uma parte ínfima do Brasil, mais ligada ao Rio de Janeiro e à Amazónia (e não é toda, mas Belém do Pará). ”. Declara-se aí a forte relação da poeta portuguesa com esta parte grandiosa e ínfima do Brasil, a parte da Amazónia em Belém do Pará, e com esta parte ínfima e grandiosa que é o Rio de Janeiro. Declara-se que é uma poeta em diálogo, em relação com, em encontro com o ínfimo grandioso e com a grandeza no ínfimo. “Caligrafia da Solidão” se traça enquanto rastro de um encontro. Neste gesto, só há passagem. O resto é rosto, para além do começo e do fim, e antes do começo e do fim.

***

Danielle Magalhães nasceu em 1990 e vive no Rio de Janeiro. É graduada em História (UFF), mestra em Teoria Literária (UFRJ) e atualmente cursa o doutorado também em Teoria Literária (UFRJ), dedicando-se ao estudo sobre poesia brasileira contemporânea. Colabora com a Revista Caliban (Portugal) e já publicou ensaios, resenhas e poemas em revistas como Cult, Mallarmargens, Polichinello, Plástico Bolha, Pittacos e Germina. Edita, com Maíra Ferreira, a revista Oceânica (http://revistaoceanica.blogspot.com.br/ ). Lançou o megamíni “Quando o céu cair” (7Letras) em 2016.

 

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poesia

João Bosco da Silva (1985-)

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João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia.

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Roncos (Enfermaria 6 , 2017) ed.digital, Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas: Revista “Inútil” n.2, “Meditações Sobre O Fim”, HARIEMUJ, “Voo Rasante”, Mariposa Azual, “Caderno 3”, Enfermaria 6, “Flanzine 8 – Lol&Pop”, Flan de Tal, “Bukakke”, Copus Dei, “Persona”, do lado esquerdo, “102ª Leva”, Diversos Afins (Brasil), “Submarino 1”, IPSAR, 2016 (Itália), “Flanzine 13 – EUROPA”, Flan de Tal.

 

sergio maciel

* * *

Ronco
– the poem oughta be worth some beer
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

Turku

§

Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a recepcionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquitecta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

Turku

§

Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

§

Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ó pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ó pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

Turku

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Um poema inédito de Tatiana Faia (1986-)

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Tatiana Faia (Portugal, 1986) vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). Com José Pedro Moreira e André Simões editou a revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens (2009-2011). Actualmente é editora, com José Pedro Moreira,  Paulo Rodrigues Ferreira e Victor Gonçalves, da Enfermaria 6. É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013) e de um livro de contos, São Luís dos Portugueses em Chamas (2016). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.  

três visões do paraíso terrestre

1.

entretenho os hábitos dos culpados
como acordar a meio da noite
distrair-me com a chuva contra as janelas
a despontar das árvores
toda a minha atenção no escuro prepara
a inundação de uma visita inesperada

e ninguém em nenhuma destas casas quer saber de espanha
ou vai ser surpreendido por uma morte de sede
ou aceitará um convite para jogar
xadrez às quatro das manhã
nenhum dos habitantes deste bairro
se há-de levantar das suas camas
a meio da noite surpreendido
por coisas que os sonhos sugerem

os meus vizinhos são este tipo de pessoas
cantam na igreja ao domingo
contam as horas de sono que lhes restam a cada noite
acordam alguns minutos antes do despertador tocar
dormem muito e quando sonham
escapa-lhes que se tornaram alheios
a todo um tipo de complicações noturnas

como mulheres solitárias
em estações de comboios desertas
homens que viajam com malas vazias
que chegam a um destino qualquer que não era o seu
e se sentem estranhamente alegres
com a companhia de estranhos
gente que chega a meio
da noite a cidades desconhecidas
e se hospeda numa pensão barata

ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar
muitas serão sempre entre duas coisas erradas
e não é provável que o resultado final seja feliz
dormem tranquilamente nas casas ao longo da estrada
são jovens e bonitos vestem-se com cuidado
gravatas cor de vinho camisas brancas casacos castanhos
as calças um pouco curtas para deixar cintilar
a possibilidade daquela escolha de peúgas ser uma provocação
a mais perigosa provocação de que seriam capazes
nas suas afirmações mais categóricas
dão o dito pelo não dito

e a mim o que me trouxe até aqui
examino as possibilidades deixadas
em aberto por alguns fragmentos
pelo lixo da memória com um cuidado
inútil arquivado em caixas
isto não é nem o melhor nem o pior
de tudo o que podia ter acontecido
é apenas o suportável

e espero pelo poeta que procure
a estátua que se afogou na sua juventude

que amor prendeu estes homens às coisas às casas
tanto que fazem o seu trabalho
e preparam com cuidado
a banalidade de regressos quotidianos
caminhando para dentro e fora de si
como setas procuram os seus alvos

que outro eco ainda podiam
as suas sombras ter prolongado
estendem as mãos para fontes distantes
desconhecem a força da água que delas
corre e de onde emana e não querem saber
desejam beber mas se trazidos até junto delas
se confrontados com o rumor da água
na pedra as suas mãos afrouxam
afinal preferem não beber

como toleraste isto tu?
rodeou-te um cuidado e outro cuidado
seguiste preso à mão que agarrou a tua no escuro
estiveste em jardins que outros
antes de ti ensaiaram
uma maçã e outra e outra
corta o escuro até já não teres
mentira nenhuma a dizer
limpas o suor das mãos à saia
a tua cabeça repousa perto do tronco
raios de luz cortam pela obscuridade das copas
suspendem as aranhas no seu trabalho

o mundo das coisas amadas
não é complicado
mãos construíram muros
e plantaram jardins dentro dos muros e deram-te
as chaves para que pudesses ir e voltar
sem horas certas como e quando quisesses
isto era então o teu poder
e quando te rodearam
em subúrbios fora do limite das cidades
disseste
nas vossas casas
vocês podem dizer-me o que quiserem

os amigos que restam
os que sobrevivem à peste
juntam-se em jardins
pedem que se fechem os portões
as vozes começam por ordem
uma a seguir à outra a seguir à outra
o que se extingue dá lugar
ao que se segue

se levamos uma vida segundo
o que não pode ser dispensado
podia então ser
este jardim fechado no meio do nada
o embalo de vozes familiares
histórias laboriosamente transportadas
de sopro em sopro até se entranharem no sangue

2.

um homem não perde uma cabeça
por esta poder ser cortada
pelo cálice de uma flor

um homem perde a cabeça mesmo se
o seu nome continua a ser o seu nome
e não um rio gelado
a apagar-se dos percursos da infância
onde os barcos se colam às pontes
se perdem na letargia azulada dos caminhos
e assomam em noites que podem durar uma estação inteira
e eu não tenha falhado o encontro
para assistir à ausência daqueles que tenho amado

partidas definitivas todos os dias interrompem
os amigos mais próximos entram pela sua fala
e ela deixa ver a profundidade que se abre a partir de dentro
e inunda os timbres das vozes até elas
se afundarem numa linha que cai em más ligações
e o regresso que daí virá é ainda uma flor desconhecida
de uma estação demasiado tarde, demasiado longe
um pedido que não pode ser feito porque ninguém
existe apenas para te salvar de estar vivo
e o medo da solidão precisa de ser alimentado
todos os dias um pouco para que como um medíocre
não julgues que ganhaste o amor cego dos outros

e este regresso pode bem ser a tatuagem
que não receberás mais tarde
a cara que ainda não mereceste
onde o teu amor falhou era preciso
mais peso mais força uma coragem cega
ou alguém que soubesse como é
falar mais alto
ocupar cada palavra inteiramente

3.

não te demores em livrarias
especialmente nas secções de livros de viagens
não reserves um pouco dos dias para esse silêncio
nessa água rasa nenhuma frase que leias ficará contigo
nenhuma fotografia de lugar nenhum
voltará mais tarde como se fosse uma memória tua
e mesmo aqui não és tu é outra mulher
que suspira impacientemente entre ti
e os países que ocupam a secção entre o d e o i

e não te ponhas a explicar-te que te demoras
por sentimentalidade
que na mais utilitária das secções desta livraria
pessoas procuraram mapas
para caminhos onde esperaram perder-se
desertos onde se morre de calor
latitudes polares onde ninguém imaginaria viver
ilhas imaginárias onde crescem folhas
que se mastigadas te deixariam esqueceres-te de ti

não interrompas os outros na utilidade das suas rotinas
ao empregado de escritório perdoa-se que deixe o emprego
mais cedo para levar a mulher a jantar
a um restaurante suburbano qualquer
ou para frequentar centros comerciais
mas nunca o escapulir-se para ler kafka na biblioteca

aceita que tudo
pode ser perdido realmente
que o que perdeste agora não é um adiamento
algo a que poderás voltar mais tarde
alguma coisa morre em cada pausa
e essa é a única aprendizagem

e não regresses não venhas aqui demorar-te
não imagines que as caras vão ser familiares
que o cheiro a humidade e madeira velha
não foi aquilo que esqueceste
tu não te lembras de nada
nem o que ficou à superfície dos cadernos
é testemunha disto
é outro cheiro são outros rostos
os que agora levantam para ti o olhar
e nunca te vão ver como outros te viram
nos lugares que foram os teus

aprende que o que perdes é a única força
com que o futuro te visita
e quando chegar não sejas hipócrita
não o confundas com esperança nenhuma
convence-te de que não é a ti
que vais encontrar do outro lado
que os teus amantes não te esperaram
que os teus amigos te esquecem um pouco a cada dia
que quando regressas não és tu que regressas
não é de ti que eles estão à espera

convence-te de que nada vai voltar a ser o que foi
nem que voltes mil vezes aos mesmos lugares
nem que te sentes nas mesmas cadeiras
nas mesmas posições às mesmas horas
nem que implores os mesmos pensamentos
os que partem não perdoam
os que partem não são perdoados

e continuam a avançar sempre e não se perturbam
comboios continuam a percorrer em círculos
linhas que mudam a cada estação
é outra cidade a mesma que te devora a cada dia
e nem que implores com o medo estampado
no olhar inoportuno lançado ao homem do relógio
come o relógio e não te procures nos mesmos lugares
aprende que ao partires o que se parte não será renovado
o que te foi dado uma vez e desperdiçaste
não voltará a ser-te confiado

e ao subires as escadas
encaminhando-te para a saída reconhece
que é insuportável a fome subserviente
que sustenta os anjos nos vitrais
a obediência febril que leva gente
a impor sobre gente a vantagem da sua autoridade
mesmo se um deles te estende a mão
e um dedo gelado pousa sobre os teus lábios
tu não estás vivo no que eles tocam
e não vai haver em mim gabriel
silêncio que chegue
nunca houve
e mesmo o sopro
é uma antecipação do toque da trombeta
todos os dias
de sonhos que não cabem dentro de um corpo
e se acalmam só por um pouco
porque a intervalos algumas coisas nos permitem
deixar de existir
permitem a ocupação temporária de outros corpos
permitem que a consciência se anule
e volte como certos elos numa sequência de música
que uma mão deixou para trás há séculos
e só isto explica
que possamos pertencer a tempos onde nunca existimos
e eu sei que a minha vida nesta cidade
ocupou todo o tempo e todo o espaço
e tudo nela foi mesmo meu

e não regresso procuro o teu nome em cidades
que não foram construídas para o meu assalto
delas talvez um pouco se perca a cada regresso
e sei que é impertinente o meu cerco
os meus anjos não se preocupam gabriel
eles não te procuram não apertam as mãos
daqueles que não amam
eles são tão literais que se vestem de vermelho
procuram as sombras dos jardins ao entardecer
e murmuram com os mortais mexericos incoerentes

nunca adormecem com as cabeças entre flores
só porque estão certos de que delas será
sempre esse florescimento inesperado

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crítica, poesia

o canto pop de campilho

campilho

os poemas dos outros são tão direitinhos, tão justamente metidos no interior das linhas de separação, canções tão perfeitas, que em nada remetem para o nível real do acontecimento.
(MC)

não se define pop, fácil. então, claro, vou deixar isso de lado. entrego pra vocês, certo? direto ao ponto. a poesia de matilde campilho veio como uma pancada inesperada nos ares discretos da poesia portuguesa & brasileira. a edição de jóquei, pela ed. tinta-da-china, já se esgotou & reimprimiu sei lá quantas vezes, enquanto a edição nacional, pela ed. 34, foi o livro mais vendido na última flip & parece já estar na beira de esgotar sua primeira tiragem. é coisa rara & merece reflexão. porque há algo pop — já digo, aqui não haverá pejorativo na expressão — como houve muito pop na poesia de um leminski nos anos 80 e na sua reedição há pouco tempo.

assim num tempo em que a prática de leitura está muitas vezes associada ao deslizar incessante da internet — de uma notícia a outra, um site a outro, com possibilidades de baixar nesse caminho pdfs, ebooks, músicas, vídeos, topar com frases  atribuídas a (verdadeiramente ou não) c. lispector, f. pessoa, saramago, shakespeare &c. — seria ingênuo não achar que a mídia muda a escrita. não precisa mudar drasticamente no seu modo midiático (ou seja, não precisamos sonhar com poetas online apenas, mas vemos também guinadas para práticas do corpo, performance, dança, etc.: as coisas são simultâneas & muitas vezes contraditórias, felizmente), mas muda o modo como a escrita se dá & como ela se entrega ao possível leitor. quando nossas práticas de leitura deslizam é possível esperar escritas cada vez mais deslizantes, & talvez esse seja o grande trunfo da poética de matilde campilho. certamente não estamos diante de uma poeta que busca a perfeição, ou a descrição objetiva de qualquer coisa (adiós pound, mano velho). certamente não estamos diante de uma virtuose da melopeia ou da fanopeia ou da logopeia (adiós, adiós). certamente longe da síntese concisa. longe da paronomásia generalizada de jakobson. mas não se trata disso num caso avaliativo, porque uma poética pode passar muito longe dessas formas mais consagradas de poesia para dialogar com o mundo do pop contemporâneo.

assim, há na poesia de campilho um quê de leminski, pelo recurso ao pop. um quê todo diverso, já que o pop da época do leminski era a canção da mpb que tocava na globo, o renascimento do cinema americano com influências do cinema de vanguarda europeu & latino americano. o pop agora é mediado pela internet, pelo deslizar constante, o pop no mundo do indie, que muitas vezes mistura música de elevador com glamour & platitude, embora recuse o velho estatuto de popularidade generalizada.

no fundo, ela escreve de um modo que não precisamos muito prestar atenção (por vezes como zapear na tv ou clicar clicar clicar), em que vamos como que divagando junto com o poema — não tanto por causa do poema, muito menos contra o poema num ágon difícil. é bem o que vemos neste vídeo-poema “31 de Outubro”:

mas o efeito se dá porque, para além de fluxos mais ou menos longos de perda referencial, por excesso ou vagueza, de vez em quando campilho lança uma ilha de sentido, até mesmo um senso comum exposto em forma poética (reflexões sobre amor, desejo, amizade, dor, ou seja os temas da literatura ocidental), e isso traz como efeito um conforto, em que o poema passa a fazer sentido em plena divagação. as ilhas de sentido são como aportes em sites que nos tocaram mais imediatamente enquanto pulamos sem prestar tanta atenção. nos poemas de campilho, como na internet, o excesso de atenção derivado de uma poética pound-jakobsoniana, levará, em última instância, à não leitura, à quebra da atenção & talvez ao tédio: os projetos deixam de comunicar. aqui tudo se mistura e o poema parece tornar-se parte da paisagem, algo como música de elevador, mas muito diferentemente que pode captar nossa atenção algumas vezes e noutras nos liberar de volta aos nossos devaneios próprios. vejamos dois trechos. “fur”, o primeiro poema de jóquei:

Fur

                                           com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer,
sempre usando o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
(pp. 9-11)

o poema abre como uma conversa entre duas pessoas íntimas, quase in medias res, e ficamos ao mesmo tempo dentro e fora da conversa: situações curiosas em florestas, postes elétricos, no brooklyn (como correr atrás de bombeiros, citar poetas húngaros, inventar língua que não existe), tudo isso tem o gosto arbitrário do inverossimilhante que, sabemos, só pode acontecer na vida real. então algo também está dentro e fora da vida real, seja o texto ficção total ou criação a partir da biografia, e é esse efeito de multiplicação do estranho que vai se cumulando com a presença de doug (que doug?) de miss elsie da mercearia (qual?). tudo soa como uma carta que encontramos, talvez numa garrafa, entremeadas de cartolas, lâmpadas, pistolas, &c. mas é também um poema de amor, embora não saibamos bem quem se ama. e tudo se encerra numa espécie de chave de ouro pós-moderna, num tom quase menor, porém com gosto de adágio: “você dedicava as noites / à contagem. Deus não dorme / e você também não”. a atenção amorosa do interlocutor contando flores na cabeça da poeta reamarra a série poética & finda por dar um gosto de diálogo de filme amoroso (lembra as loucuras que a gente fez? lembra aqueles amigos aquelas conversas? lembra tudo que a gente prometeu? eu lembro de você olhando pra mim) ou com tom de canção amorosa do ivan lins (“Lembra de mim / Dos beijos que escrevi nos muros a giz / Os mais bonitos continuam por lá / Documentando que alguém foi feliz /Lembra de mim / Nós dois nas ruas provocando os casais / Amando mais do que o amor é capaz.”). entre filme & canção de amor, mas num deslize contínuo, com referências que se mostram indecifráveis para o leitor, embora permitam sua entrada. tudo é dentro & fora.

vejamos agora “A volta no Cadillac de Billy J.” (também um vídeo, porque sua poesia é de uma oralidade realmente rara nestes tempos & porque matilde sabe produzir muito com uma leitura):

[…] Desta janela eu vejo a esposa do mouro indeciso e vejo como ela fica bordando os nomes dos profetas no manto encardido — tudo para esquecer o caminho das possibilidades na cabeça de seu amor. Vejo as notas crípticas deixadas à sorte nas margens do Corão, recados de paixão há muito tempo abandonados. Vejo grafias escritas a vapor no muro que um dia dividiu Berlim, e nalgumas horas me pergunto sobre o cachorro que foi deixado do lado de lá. Penso na canção que diz que a saudade é o revés de um parto, ó metade amputada de mim. Haverá tempo, haverá tempo.  O fumo amarelo de janeiro fica esfregando suas costas nas janelas desta casa. Haverá tempo para cometer um crime, haverá tempo para a procriação. Tempo para lembrar a rede onde descansou o índio apaixonado, aquele que ficava arrancando o pó das entranhas das unhas do leopardo. Tempo para encher a taça do filho de Deus e tempo para discernir o amor do que já é costume. Da janela eu vejo as ondas rebentando no olho do Vesúvio. Peço a meus filhos que se preparem para a estalada na cara, para o fechar brutíssimo da porta do automóvel, para o vômito que vem do fígado, para o rosto escancarado na decepção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração — seja o que vier, venha o que vier. Meus queridos filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar. […] (pp. 84-5)

na série, uma visão da janela dá para o mundo inteiro: esposas de mouros saudosas com mensagens no corão, grafites no muro de berlim, um cão abandonado, uma canção de chico buarque, reflexões sobre o tempo, citações de t.s. eliot (que ja aparece desde o início do poema), a morte, a vida, índios apaixonados em atividades, o vesúvio; disso passamos para relações com os filhos, para o movimento de náusea de decepção. ao fim dessa série, uma quase-platitude “o que importa é ouvir a voz do coração”, que parece coroar o eixo de reflexões amorosas da janela que dá para o mundo, para em seguida vermos uma construção poderosa sobre o crescimento dos jovens, a paixão e o pensar que os toma “filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar.”

então não é só canção & filme de amor, mas um diálogo com tradições poéticas mais antigas, como a poesia de john ashbery ou de parte da produção de frank o’hara (eles já deslizavam muito com a difusão do rádio & da tv, que noticiavam tudo numa velocidade sem precedentes que hoje nos parece lerdíssima), ou como parte da produção mais recente de carlito azevedo, de marília garcia ou de ricardo domeneck; por isso, soa exagero pensar que ela seja “vento de pura selvageria”, como escreveu gustavo rubim. talvez até seja o caso em portugal, onde vemos uma tradição forte com pés no surrealismo ou escritas por vezes muito palacianas — lá a obra de matilde campilho deve ter um impacto muito diferente & soar verdadeiramente renovados. em nossas plagas, como já disse, esse gosto pop literário enrolado num diálogo constante pode soar mais como uma brisa marinha — & penso que, sobretudo pra quem mora na beira da praia, isso possa fazer todo o sentido. a questão passa a ser o que faremos com o que essa poesia faz conosco. o melhor caminho parece ser o de entregar-se, ainda que por pouco tempo, ao devaneio.

guilherme gontijo flores

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poesia

helder é morto — 23.03.2015

herberto helder, 1961

herberto helder morreu & não sentiremos sua falta, não faremos elogios, não soaremos solenes em necrológios. poeta que foi de vida & morte, de peso das ausências, de canto & rasgo, por certo, morto, não faz falta; falta foi, felizmente, o que nos deu enquanto vivo, falta firme & incômoda & incontornável cristalizada em linguagem. nada de canção do eterno, nada de imortalidades: a vida crua, nua, a carne, tudo que finda.

por ele vão dois trechos arrancados ao léu de ofício cantante, onde teimou de abrir.: 1. pp. 267-8, parte de “os brancos arquipélagos”‘2. pp. 196-8 “a menstruação quando na cidade passava”. o que fica do que falta.

escamandro

ps: foi também um tradutor enorme, não se esqueçam.

* * *

massas implacáveis, tensas florações químicas, fortemente
maduras, na alvorada que aparece
atrás, mortas, e no lençol de gelo
manchas bloqueadas, cortes, negras estrias,
o som, sangue, tubos de sangue, sangue
tubular, som tubular, gemem,
rudimentares, assoberbados,
os pulmões, folhagem quente,
perfura o som no ar a traquéia eruptiva,
respiração, cacho a arder nas redes finas,
jorro de lâminas,
e a morosa manhã renascente, compreendida,
rarefeita
de folhas, tumulto branco,
cancro, precipitação em brasa,
uma abertura interior latente,
barcos levam todo o álcool
lívido
sobre águas fotografadas explodindo,
a lentidão consome a carne, formigas incrustadas,
uma gota de veneno na cabeça
transparente, antenas de ouro, o doce povoamento
carnívoro, bruscamente o sono
exalta
as apuradas linhas do esquecimento, ao fundo,
batem, pulsam paisagens de uma canção
irregular, clara, onde
se treme, levemente alto, crivado
de imagens implacáveis, os pés tocando a folhagem
negra, a cabeça degolada por um esplendor obsessivo

§

A menstruação quando na cidade passava

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos -e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam -e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado -alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam -e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos -era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos -e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio
-na noite, na neve-
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam -e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação -falava alguém. O ar passava
-e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.

 

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