poesia

João Bosco da Silva (1985-)

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João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia.

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Roncos (Enfermaria 6 , 2017) ed.digital, Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas: Revista “Inútil” n.2, “Meditações Sobre O Fim”, HARIEMUJ, “Voo Rasante”, Mariposa Azual, “Caderno 3”, Enfermaria 6, “Flanzine 8 – Lol&Pop”, Flan de Tal, “Bukakke”, Copus Dei, “Persona”, do lado esquerdo, “102ª Leva”, Diversos Afins (Brasil), “Submarino 1”, IPSAR, 2016 (Itália), “Flanzine 13 – EUROPA”, Flan de Tal.

 

sergio maciel

* * *

Ronco
– the poem oughta be worth some beer
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

Turku

§

Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a recepcionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquitecta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

Turku

§

Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

§

Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ó pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ó pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

Turku

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poesia

Um poema inédito de Tatiana Faia (1986-)

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Tatiana Faia (Portugal, 1986) vive e trabalha em Oxford. É doutorada em Literatura Grega Antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero (Back Across the Barrier of the Teeth. Studies on Homeric Characters: The Iliad). Com José Pedro Moreira e André Simões editou a revista Ítaca: Cadernos de Ideias, Textos & Imagens (2009-2011). Actualmente é editora, com José Pedro Moreira,  Paulo Rodrigues Ferreira e Victor Gonçalves, da Enfermaria 6. É autora de dois livros de poemas: Lugano (2011) e teatro de rua (2013) e de um livro de contos, São Luís dos Portugueses em Chamas (2016). Os seus contos, ensaios, poemas e traduções podem ser lidos, entre outros lugares, em A Sul de Nenhum Norte, Ítaca, Caderno: Enfermaria 6, Modo de Usar & Co., Colóquio/Letras e Relâmpago.  

três visões do paraíso terrestre

1.

entretenho os hábitos dos culpados
como acordar a meio da noite
distrair-me com a chuva contra as janelas
a despontar das árvores
toda a minha atenção no escuro prepara
a inundação de uma visita inesperada

e ninguém em nenhuma destas casas quer saber de espanha
ou vai ser surpreendido por uma morte de sede
ou aceitará um convite para jogar
xadrez às quatro das manhã
nenhum dos habitantes deste bairro
se há-de levantar das suas camas
a meio da noite surpreendido
por coisas que os sonhos sugerem

os meus vizinhos são este tipo de pessoas
cantam na igreja ao domingo
contam as horas de sono que lhes restam a cada noite
acordam alguns minutos antes do despertador tocar
dormem muito e quando sonham
escapa-lhes que se tornaram alheios
a todo um tipo de complicações noturnas

como mulheres solitárias
em estações de comboios desertas
homens que viajam com malas vazias
que chegam a um destino qualquer que não era o seu
e se sentem estranhamente alegres
com a companhia de estranhos
gente que chega a meio
da noite a cidades desconhecidas
e se hospeda numa pensão barata

ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar
muitas serão sempre entre duas coisas erradas
e não é provável que o resultado final seja feliz
dormem tranquilamente nas casas ao longo da estrada
são jovens e bonitos vestem-se com cuidado
gravatas cor de vinho camisas brancas casacos castanhos
as calças um pouco curtas para deixar cintilar
a possibilidade daquela escolha de peúgas ser uma provocação
a mais perigosa provocação de que seriam capazes
nas suas afirmações mais categóricas
dão o dito pelo não dito

e a mim o que me trouxe até aqui
examino as possibilidades deixadas
em aberto por alguns fragmentos
pelo lixo da memória com um cuidado
inútil arquivado em caixas
isto não é nem o melhor nem o pior
de tudo o que podia ter acontecido
é apenas o suportável

e espero pelo poeta que procure
a estátua que se afogou na sua juventude

que amor prendeu estes homens às coisas às casas
tanto que fazem o seu trabalho
e preparam com cuidado
a banalidade de regressos quotidianos
caminhando para dentro e fora de si
como setas procuram os seus alvos

que outro eco ainda podiam
as suas sombras ter prolongado
estendem as mãos para fontes distantes
desconhecem a força da água que delas
corre e de onde emana e não querem saber
desejam beber mas se trazidos até junto delas
se confrontados com o rumor da água
na pedra as suas mãos afrouxam
afinal preferem não beber

como toleraste isto tu?
rodeou-te um cuidado e outro cuidado
seguiste preso à mão que agarrou a tua no escuro
estiveste em jardins que outros
antes de ti ensaiaram
uma maçã e outra e outra
corta o escuro até já não teres
mentira nenhuma a dizer
limpas o suor das mãos à saia
a tua cabeça repousa perto do tronco
raios de luz cortam pela obscuridade das copas
suspendem as aranhas no seu trabalho

o mundo das coisas amadas
não é complicado
mãos construíram muros
e plantaram jardins dentro dos muros e deram-te
as chaves para que pudesses ir e voltar
sem horas certas como e quando quisesses
isto era então o teu poder
e quando te rodearam
em subúrbios fora do limite das cidades
disseste
nas vossas casas
vocês podem dizer-me o que quiserem

os amigos que restam
os que sobrevivem à peste
juntam-se em jardins
pedem que se fechem os portões
as vozes começam por ordem
uma a seguir à outra a seguir à outra
o que se extingue dá lugar
ao que se segue

se levamos uma vida segundo
o que não pode ser dispensado
podia então ser
este jardim fechado no meio do nada
o embalo de vozes familiares
histórias laboriosamente transportadas
de sopro em sopro até se entranharem no sangue

2.

um homem não perde uma cabeça
por esta poder ser cortada
pelo cálice de uma flor

um homem perde a cabeça mesmo se
o seu nome continua a ser o seu nome
e não um rio gelado
a apagar-se dos percursos da infância
onde os barcos se colam às pontes
se perdem na letargia azulada dos caminhos
e assomam em noites que podem durar uma estação inteira
e eu não tenha falhado o encontro
para assistir à ausência daqueles que tenho amado

partidas definitivas todos os dias interrompem
os amigos mais próximos entram pela sua fala
e ela deixa ver a profundidade que se abre a partir de dentro
e inunda os timbres das vozes até elas
se afundarem numa linha que cai em más ligações
e o regresso que daí virá é ainda uma flor desconhecida
de uma estação demasiado tarde, demasiado longe
um pedido que não pode ser feito porque ninguém
existe apenas para te salvar de estar vivo
e o medo da solidão precisa de ser alimentado
todos os dias um pouco para que como um medíocre
não julgues que ganhaste o amor cego dos outros

e este regresso pode bem ser a tatuagem
que não receberás mais tarde
a cara que ainda não mereceste
onde o teu amor falhou era preciso
mais peso mais força uma coragem cega
ou alguém que soubesse como é
falar mais alto
ocupar cada palavra inteiramente

3.

não te demores em livrarias
especialmente nas secções de livros de viagens
não reserves um pouco dos dias para esse silêncio
nessa água rasa nenhuma frase que leias ficará contigo
nenhuma fotografia de lugar nenhum
voltará mais tarde como se fosse uma memória tua
e mesmo aqui não és tu é outra mulher
que suspira impacientemente entre ti
e os países que ocupam a secção entre o d e o i

e não te ponhas a explicar-te que te demoras
por sentimentalidade
que na mais utilitária das secções desta livraria
pessoas procuraram mapas
para caminhos onde esperaram perder-se
desertos onde se morre de calor
latitudes polares onde ninguém imaginaria viver
ilhas imaginárias onde crescem folhas
que se mastigadas te deixariam esqueceres-te de ti

não interrompas os outros na utilidade das suas rotinas
ao empregado de escritório perdoa-se que deixe o emprego
mais cedo para levar a mulher a jantar
a um restaurante suburbano qualquer
ou para frequentar centros comerciais
mas nunca o escapulir-se para ler kafka na biblioteca

aceita que tudo
pode ser perdido realmente
que o que perdeste agora não é um adiamento
algo a que poderás voltar mais tarde
alguma coisa morre em cada pausa
e essa é a única aprendizagem

e não regresses não venhas aqui demorar-te
não imagines que as caras vão ser familiares
que o cheiro a humidade e madeira velha
não foi aquilo que esqueceste
tu não te lembras de nada
nem o que ficou à superfície dos cadernos
é testemunha disto
é outro cheiro são outros rostos
os que agora levantam para ti o olhar
e nunca te vão ver como outros te viram
nos lugares que foram os teus

aprende que o que perdes é a única força
com que o futuro te visita
e quando chegar não sejas hipócrita
não o confundas com esperança nenhuma
convence-te de que não é a ti
que vais encontrar do outro lado
que os teus amantes não te esperaram
que os teus amigos te esquecem um pouco a cada dia
que quando regressas não és tu que regressas
não é de ti que eles estão à espera

convence-te de que nada vai voltar a ser o que foi
nem que voltes mil vezes aos mesmos lugares
nem que te sentes nas mesmas cadeiras
nas mesmas posições às mesmas horas
nem que implores os mesmos pensamentos
os que partem não perdoam
os que partem não são perdoados

e continuam a avançar sempre e não se perturbam
comboios continuam a percorrer em círculos
linhas que mudam a cada estação
é outra cidade a mesma que te devora a cada dia
e nem que implores com o medo estampado
no olhar inoportuno lançado ao homem do relógio
come o relógio e não te procures nos mesmos lugares
aprende que ao partires o que se parte não será renovado
o que te foi dado uma vez e desperdiçaste
não voltará a ser-te confiado

e ao subires as escadas
encaminhando-te para a saída reconhece
que é insuportável a fome subserviente
que sustenta os anjos nos vitrais
a obediência febril que leva gente
a impor sobre gente a vantagem da sua autoridade
mesmo se um deles te estende a mão
e um dedo gelado pousa sobre os teus lábios
tu não estás vivo no que eles tocam
e não vai haver em mim gabriel
silêncio que chegue
nunca houve
e mesmo o sopro
é uma antecipação do toque da trombeta
todos os dias
de sonhos que não cabem dentro de um corpo
e se acalmam só por um pouco
porque a intervalos algumas coisas nos permitem
deixar de existir
permitem a ocupação temporária de outros corpos
permitem que a consciência se anule
e volte como certos elos numa sequência de música
que uma mão deixou para trás há séculos
e só isto explica
que possamos pertencer a tempos onde nunca existimos
e eu sei que a minha vida nesta cidade
ocupou todo o tempo e todo o espaço
e tudo nela foi mesmo meu

e não regresso procuro o teu nome em cidades
que não foram construídas para o meu assalto
delas talvez um pouco se perca a cada regresso
e sei que é impertinente o meu cerco
os meus anjos não se preocupam gabriel
eles não te procuram não apertam as mãos
daqueles que não amam
eles são tão literais que se vestem de vermelho
procuram as sombras dos jardins ao entardecer
e murmuram com os mortais mexericos incoerentes

nunca adormecem com as cabeças entre flores
só porque estão certos de que delas será
sempre esse florescimento inesperado

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crítica, poesia

o canto pop de campilho

campilho

os poemas dos outros são tão direitinhos, tão justamente metidos no interior das linhas de separação, canções tão perfeitas, que em nada remetem para o nível real do acontecimento.
(MC)

não se define pop, fácil. então, claro, vou deixar isso de lado. entrego pra vocês, certo? direto ao ponto. a poesia de matilde campilho veio como uma pancada inesperada nos ares discretos da poesia portuguesa & brasileira. a edição de jóquei, pela ed. tinta-da-china, já se esgotou & reimprimiu sei lá quantas vezes, enquanto a edição nacional, pela ed. 34, foi o livro mais vendido na última flip & parece já estar na beira de esgotar sua primeira tiragem. é coisa rara & merece reflexão. porque há algo pop — já digo, aqui não haverá pejorativo na expressão — como houve muito pop na poesia de um leminski nos anos 80 e na sua reedição há pouco tempo.

assim num tempo em que a prática de leitura está muitas vezes associada ao deslizar incessante da internet — de uma notícia a outra, um site a outro, com possibilidades de baixar nesse caminho pdfs, ebooks, músicas, vídeos, topar com frases  atribuídas a (verdadeiramente ou não) c. lispector, f. pessoa, saramago, shakespeare &c. — seria ingênuo não achar que a mídia muda a escrita. não precisa mudar drasticamente no seu modo midiático (ou seja, não precisamos sonhar com poetas online apenas, mas vemos também guinadas para práticas do corpo, performance, dança, etc.: as coisas são simultâneas & muitas vezes contraditórias, felizmente), mas muda o modo como a escrita se dá & como ela se entrega ao possível leitor. quando nossas práticas de leitura deslizam é possível esperar escritas cada vez mais deslizantes, & talvez esse seja o grande trunfo da poética de matilde campilho. certamente não estamos diante de uma poeta que busca a perfeição, ou a descrição objetiva de qualquer coisa (adiós pound, mano velho). certamente não estamos diante de uma virtuose da melopeia ou da fanopeia ou da logopeia (adiós, adiós). certamente longe da síntese concisa. longe da paronomásia generalizada de jakobson. mas não se trata disso num caso avaliativo, porque uma poética pode passar muito longe dessas formas mais consagradas de poesia para dialogar com o mundo do pop contemporâneo.

assim, há na poesia de campilho um quê de leminski, pelo recurso ao pop. um quê todo diverso, já que o pop da época do leminski era a canção da mpb que tocava na globo, o renascimento do cinema americano com influências do cinema de vanguarda europeu & latino americano. o pop agora é mediado pela internet, pelo deslizar constante, o pop no mundo do indie, que muitas vezes mistura música de elevador com glamour & platitude, embora recuse o velho estatuto de popularidade generalizada.

no fundo, ela escreve de um modo que não precisamos muito prestar atenção (por vezes como zapear na tv ou clicar clicar clicar), em que vamos como que divagando junto com o poema — não tanto por causa do poema, muito menos contra o poema num ágon difícil. é bem o que vemos neste vídeo-poema “31 de Outubro”:

mas o efeito se dá porque, para além de fluxos mais ou menos longos de perda referencial, por excesso ou vagueza, de vez em quando campilho lança uma ilha de sentido, até mesmo um senso comum exposto em forma poética (reflexões sobre amor, desejo, amizade, dor, ou seja os temas da literatura ocidental), e isso traz como efeito um conforto, em que o poema passa a fazer sentido em plena divagação. as ilhas de sentido são como aportes em sites que nos tocaram mais imediatamente enquanto pulamos sem prestar tanta atenção. nos poemas de campilho, como na internet, o excesso de atenção derivado de uma poética pound-jakobsoniana, levará, em última instância, à não leitura, à quebra da atenção & talvez ao tédio: os projetos deixam de comunicar. aqui tudo se mistura e o poema parece tornar-se parte da paisagem, algo como música de elevador, mas muito diferentemente que pode captar nossa atenção algumas vezes e noutras nos liberar de volta aos nossos devaneios próprios. vejamos dois trechos. “fur”, o primeiro poema de jóquei:

Fur

                                           com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer,
sempre usando o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
(pp. 9-11)

o poema abre como uma conversa entre duas pessoas íntimas, quase in medias res, e ficamos ao mesmo tempo dentro e fora da conversa: situações curiosas em florestas, postes elétricos, no brooklyn (como correr atrás de bombeiros, citar poetas húngaros, inventar língua que não existe), tudo isso tem o gosto arbitrário do inverossimilhante que, sabemos, só pode acontecer na vida real. então algo também está dentro e fora da vida real, seja o texto ficção total ou criação a partir da biografia, e é esse efeito de multiplicação do estranho que vai se cumulando com a presença de doug (que doug?) de miss elsie da mercearia (qual?). tudo soa como uma carta que encontramos, talvez numa garrafa, entremeadas de cartolas, lâmpadas, pistolas, &c. mas é também um poema de amor, embora não saibamos bem quem se ama. e tudo se encerra numa espécie de chave de ouro pós-moderna, num tom quase menor, porém com gosto de adágio: “você dedicava as noites / à contagem. Deus não dorme / e você também não”. a atenção amorosa do interlocutor contando flores na cabeça da poeta reamarra a série poética & finda por dar um gosto de diálogo de filme amoroso (lembra as loucuras que a gente fez? lembra aqueles amigos aquelas conversas? lembra tudo que a gente prometeu? eu lembro de você olhando pra mim) ou com tom de canção amorosa do ivan lins (“Lembra de mim / Dos beijos que escrevi nos muros a giz / Os mais bonitos continuam por lá / Documentando que alguém foi feliz /Lembra de mim / Nós dois nas ruas provocando os casais / Amando mais do que o amor é capaz.”). entre filme & canção de amor, mas num deslize contínuo, com referências que se mostram indecifráveis para o leitor, embora permitam sua entrada. tudo é dentro & fora.

vejamos agora “A volta no Cadillac de Billy J.” (também um vídeo, porque sua poesia é de uma oralidade realmente rara nestes tempos & porque matilde sabe produzir muito com uma leitura):

[…] Desta janela eu vejo a esposa do mouro indeciso e vejo como ela fica bordando os nomes dos profetas no manto encardido — tudo para esquecer o caminho das possibilidades na cabeça de seu amor. Vejo as notas crípticas deixadas à sorte nas margens do Corão, recados de paixão há muito tempo abandonados. Vejo grafias escritas a vapor no muro que um dia dividiu Berlim, e nalgumas horas me pergunto sobre o cachorro que foi deixado do lado de lá. Penso na canção que diz que a saudade é o revés de um parto, ó metade amputada de mim. Haverá tempo, haverá tempo.  O fumo amarelo de janeiro fica esfregando suas costas nas janelas desta casa. Haverá tempo para cometer um crime, haverá tempo para a procriação. Tempo para lembrar a rede onde descansou o índio apaixonado, aquele que ficava arrancando o pó das entranhas das unhas do leopardo. Tempo para encher a taça do filho de Deus e tempo para discernir o amor do que já é costume. Da janela eu vejo as ondas rebentando no olho do Vesúvio. Peço a meus filhos que se preparem para a estalada na cara, para o fechar brutíssimo da porta do automóvel, para o vômito que vem do fígado, para o rosto escancarado na decepção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração — seja o que vier, venha o que vier. Meus queridos filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar. […] (pp. 84-5)

na série, uma visão da janela dá para o mundo inteiro: esposas de mouros saudosas com mensagens no corão, grafites no muro de berlim, um cão abandonado, uma canção de chico buarque, reflexões sobre o tempo, citações de t.s. eliot (que ja aparece desde o início do poema), a morte, a vida, índios apaixonados em atividades, o vesúvio; disso passamos para relações com os filhos, para o movimento de náusea de decepção. ao fim dessa série, uma quase-platitude “o que importa é ouvir a voz do coração”, que parece coroar o eixo de reflexões amorosas da janela que dá para o mundo, para em seguida vermos uma construção poderosa sobre o crescimento dos jovens, a paixão e o pensar que os toma “filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar.”

então não é só canção & filme de amor, mas um diálogo com tradições poéticas mais antigas, como a poesia de john ashbery ou de parte da produção de frank o’hara (eles já deslizavam muito com a difusão do rádio & da tv, que noticiavam tudo numa velocidade sem precedentes que hoje nos parece lerdíssima), ou como parte da produção mais recente de carlito azevedo, de marília garcia ou de ricardo domeneck; por isso, soa exagero pensar que ela seja “vento de pura selvageria”, como escreveu gustavo rubim. talvez até seja o caso em portugal, onde vemos uma tradição forte com pés no surrealismo ou escritas por vezes muito palacianas — lá a obra de matilde campilho deve ter um impacto muito diferente & soar verdadeiramente renovados. em nossas plagas, como já disse, esse gosto pop literário enrolado num diálogo constante pode soar mais como uma brisa marinha — & penso que, sobretudo pra quem mora na beira da praia, isso possa fazer todo o sentido. a questão passa a ser o que faremos com o que essa poesia faz conosco. o melhor caminho parece ser o de entregar-se, ainda que por pouco tempo, ao devaneio.

guilherme gontijo flores

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poesia

helder é morto — 23.03.2015

herberto helder, 1961

herberto helder morreu & não sentiremos sua falta, não faremos elogios, não soaremos solenes em necrológios. poeta que foi de vida & morte, de peso das ausências, de canto & rasgo, por certo, morto, não faz falta; falta foi, felizmente, o que nos deu enquanto vivo, falta firme & incômoda & incontornável cristalizada em linguagem. nada de canção do eterno, nada de imortalidades: a vida crua, nua, a carne, tudo que finda.

por ele vão dois trechos arrancados ao léu de ofício cantante, onde teimou de abrir.: 1. pp. 267-8, parte de “os brancos arquipélagos”‘2. pp. 196-8 “a menstruação quando na cidade passava”. o que fica do que falta.

escamandro

ps: foi também um tradutor enorme, não se esqueçam.

* * *

massas implacáveis, tensas florações químicas, fortemente
maduras, na alvorada que aparece
atrás, mortas, e no lençol de gelo
manchas bloqueadas, cortes, negras estrias,
o som, sangue, tubos de sangue, sangue
tubular, som tubular, gemem,
rudimentares, assoberbados,
os pulmões, folhagem quente,
perfura o som no ar a traquéia eruptiva,
respiração, cacho a arder nas redes finas,
jorro de lâminas,
e a morosa manhã renascente, compreendida,
rarefeita
de folhas, tumulto branco,
cancro, precipitação em brasa,
uma abertura interior latente,
barcos levam todo o álcool
lívido
sobre águas fotografadas explodindo,
a lentidão consome a carne, formigas incrustadas,
uma gota de veneno na cabeça
transparente, antenas de ouro, o doce povoamento
carnívoro, bruscamente o sono
exalta
as apuradas linhas do esquecimento, ao fundo,
batem, pulsam paisagens de uma canção
irregular, clara, onde
se treme, levemente alto, crivado
de imagens implacáveis, os pés tocando a folhagem
negra, a cabeça degolada por um esplendor obsessivo

§

A menstruação quando na cidade passava

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos -e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam -e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado -alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam -e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos -era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos -e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio
-na noite, na neve-
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam -e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação -falava alguém. O ar passava
-e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.

 

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Vozes, de Ana Luísa Amaral

Ana-Luisa-Amaral

Ana Luísa Amaral é uma autora lisboeta nascida em 1956. Licenciou-se em Letras Germânicas na Faculdade de Letras do Porto, onde leciona até hoje. Completou uma tese de doutorado sobre Emily Dickinson (que pode ser baixada e lida clicando aqui), cujos poemas ela também já traduziu e publicou no volume Cem Poemas (ed. Relógio d’Água, 2010), uma edição que infelizmente me parece bastante difícil de se encontrar no Brasil. Suas áreas de investigação são Poéticas Comparadas, Estudos Feministas e Estudos Queer, e é coautora de um Dicionário da Crítica Feminista (ed. Afrontamento, 2005).

Como poeta, publicou Minha senhora de quê (1990), Coisas de partir (1993), Epopeias (1994), E muitos os caminhos (1995), Às vezes o paraíso, (1998), Imagens (2000), Imagias (2002), A Arte de Ser Tigre (2003), A Génese do Amor (2005), Entre Dois Rios e Outras Noites (2008), Se fosse um intervalo (2009), Vozes (2011), Próspero morreu: Poemas em acto (2011) e Escuro (2014), além de dois volumes de poesia reunida – um deles com o título muito adequado de Poesia Reunida (1990 – 2005), e Inversos (Poesia 1990 – 2010) –, um volume de prosa (Ara, de 2013) e alguns livros de literatura infantil. É ganhadora de diversos prêmios e já teve poemas traduzidos para o espanhol, o italiano, o francês, o sueco, o alemão e o holandês.

Seu livro Vozes, originalmente publicado pela editora lisboeta Dom Quixote em 2011, foi publicado ano passado em terras brasileiras pela Iluminuras e, ao lado de Observação de Verão seguido de Fogo, do também português Gastão Cruz, e dos brasileiros Ximerix, de Zuca Sardan (de que já tratamos aqui no escamandro anteriormente, como se pode ver clicando aqui) e brasa enganosa, de nosso coeditor Guilherme Gontijo Flores, é um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom deste ano. É desse volume que eu selecionei alguns poemas abaixo para compartilhar com nossos leitores, visto que imagino que muitos (por diversos motivos, incluindo problemas de natureza editorial) possam não ter ainda muito contato com a produção portuguesa contemporânea.

Vozes é estruturado como um longo intervalo entre dois poemas, um que carrega o título do livro, que encerra o volume, e outro chamado “silêncios”, i.e. um espaço, portanto, entre o silêncio e a sua quebra pela voz, o que acaba me lembrando daquela citação do Debussy de que a “música é o espaço entre as notas”. Ambos os poemas são marcados pela temática da perda e por uma metalinguagem que acaba permeando o livro inteiro, uma preocupação manifesta com a palavra, a linguagem, a escrita, o eterno problema da comunicação sob a ótica moderna. Entre este começo e este fim há 6 seções, intituladas “A impossível sarça”, “Breve exercício em três vozes”, “Trovas de memória”, “Escrito à régua”, “Outras rotações” e “Outras vozes”.

“A impossível sarça”, da qual retirei abaixo o poema homônimo, é uma referência clara ao episódio bíblico da sarça ardente no Êxodo, quando Deus fala com Moisés pelas chamas – explicitando aí também essa questão da linguagem (“Que mais fazer/ se as palavras queimam”,  “palavras// que não chegam/— mas cegam”). “Breve exercício em três vozes” consiste de 3 poemas, com variações sobre Rilke, Camões e Bocage (vozes que não a dela própria, portanto, ainda que tenham vindo inevitavelmente a fazer parte dela, pela leitura e influência), e “Trovas de Memória” retoma uma certa tradição medieval trovadoresca portuguesa, com poemas como “Inês e Pedro: Quarenta Anos Depois”, que lança um viés irônico sobre a história trágica de Inês de Castro, e alguns poemas com “memória” no título (“Mais um sal de memórias”, “Outro sal de memórias”, “E a memória em sextina”, “Em trovas de memória”), cujo mote é um diálogo entre uma dama e um cavaleiro, onde predomina o uso de formas mais fixas, como a quadra metrificada e rimada e a sextina, ainda que o uso dessas formas seja bastante liberal. “Escrito à régua” (da qual selecionei o poema “Vitória de Samotrácia” abaixo) retoma a discussão metalinguística e do problema da escrita, ao passo que “Outras rotações: cinco andamentos” consiste em um único poema intitulado “Galileu, a sua torre e outras rotações” não em 5, como se era de esperar, mas em 4 partes, ou”andamentos”, ficando sugerido, nos versos finais, esse último andamento por vir. Por fim, a seção que vem antes do último e solitário poema que encerra o livro, “Outras vozes”, é mais um excurso pelo passado, especificamente o passado português, dos emblemas míticos de Mensagem, de Pessoa, explorados agora pelo viés feminino – as outras vozes, então, as que foram abandonadas,  caladas e apagadas pelo registro oficial da história. Como diz Vinícius Dantas, no ensaio final que acompanha o livro, “Palavras sobre Vozes“:

É um olhar enviesado, e às vezes turvo, para o que é decisivo no processo de criação das imagens de magníficos personagens do passado, como o Infante D. Henrique, Dona Filipa de Lencastre ou D. Pedro, o Cru – um olhar mais interessado na figuração mítica e na sua transformação em símbolo do que que propriamente nas figuras histórias ou na interpretação histórica do período. Os pressupostos da aventura marítima e da expansão comercial aqui estão no escuro da alma – combinação de cobiça, terror, crenças e superstições. Ana Luísa apresenta no poema ‘Outras vozes’, do ciclo de mesmo nome, uma espécie de fábula alternativa sobre o deslumbramento dos viajantes com os corpos e a natureza, à maneira de uma visão realizada da utopia do diverso e do desconhecido, em contraste gritante com a visão cinza dos poderosos e dos ‘mais pequenos’, que juntaram as mesquinharias e os acabrunhamentos para as grandes viagens, abandonando mulheres e crianças.

É a parte mais ambiciosa do livro, na minha opinião, e é onde se encontram alguns dos seus poemas mais interessantes, como o longo “A Cerimônia”, que também selecionei abaixo. E o encerramento deste poema – “Por que outra noite trocaram/ o meu escuro?” – nos aponta já, ao que tudo indica, para a direção que Ana Luísa seguiu logo após Vozes, com o livro de 2014, Escuro, onde dá continuidade a esta releitura crítica da história.

Mais de e sobre Ana Luísa Amaral pode ser visto clicando-se aqui e aqui.

(Adriano Scandolara)

silêncios

         a meu amigo Paulo Eduardo Carvalho,
         a saudade, sempre

«não queres fazer o silêncio
comigo?»,
perguntei-te uma vez

agora, sei:

irradiando em sol
de mil palavras,
sempre o fizeste

a ele e à alegria

assim, alegria e silêncio
hão de ficar

os dois somados juntos,
lado a lado

e agora,
o sol está bem,
o azul igual a azul,
porque te tem

e as contas
todas
que tu corrigiste
hão de dar sempre certas

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita   abençoada
mas de mais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
 mas cegam

SALOMÉ REVISITADA

Deixa-a lá dentro, cortada, na cozinha,
e traz-me só café. Pousa a bandeja
ali, e depois vai. Não quero o seu olhar:

recorda-me a prisão que ele habitou
(sem ser por mim) e a outra
em que eu morei, e onde fiquei,

lembrando o seu olhar. Bolo de figos
e de mel, conchas de som – mas não é
Salomão que eu sinto em sonhos

nesse corredor, mas Salomé, a outra
a mesma que aqui está. E o seu olhar:
amputado de mim não pela espada,

mas por gume maior: o tempo
a insistir que eu nunca fui: multiplicada
pela sua íris. Agora, saí: é largo o corredor,

está certo o quarto, e eu decerto fiz bem.
Tão brilhante e tão quente. Como
sabe a vermelho este café

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA

Se eu deixasse de escrever poemas em
tom condicional, e o tom de conclusão
passasse a solução mais que perfeita,
seria quase igual à Samotrácia.

Cabeça ausente, mas curva bem lançada
do corpo da prosódia em direção ao sul,
mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo
musical e geometria contaminada
por algum navio. A linha de horizonte:

qualquer linha, por onde os astros morressem
e nascessem, outra feita e fio de fino aço,
e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse
ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.

Ter várias formas as linhas do amor: não viver
só de mar ou de planície, nem embalada
em fogo. Que diriam então ou que dirias?

O corpo da prosódia transformado em
corpo de verdade, as pregas do poema,
agora pregas de um vestido longo, tapando
levemente o joelho e tornozelo. E não de pedra,
nunca já de pedra. Mas de carne e com
asas

A CERIMÔNIA

Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.

Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um ceptro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último contei-lhe o caminho de
água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.

Antes lhe tivesse dito vezes sem conta como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.

Uma prenda, porém, me é boa na memória:
a do papel e das palavras. Dispensaria o ceptro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?

Onde ficaram as minhas tardes molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?

Por que outra noite trocaram
o meu escuro?

vozes

Eterno é este instante, o dia claro,
as cores das casas desenhadas em aguada rasa,
castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, de vidros muito honestos.
Este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta
no papel: eterno

Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil,
mas tudo: tão confuso como são os sonhos

Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distinguo os contornos do meu sonho, não sei
se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo, e trouxe azul e sol a esta praça
onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas

E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplica-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruegel te visse,
pintava-te, exatíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno

(Eu, que nada mais sei, só o fulgor do breve,
eu dava-te palavras —

(poemas de Ana Luísa Amaral)

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poesia

ruy belo (1933-1978)

Ruy Belo

papo reto: ruy belo é um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX, apesar de ainda pouco conhecido nestas plagas (fora uma delícia de dossiê que saiu na inimigo rumor n. 15) — & fim de papo.

dito isso, a boa nova é que a editora 7letras tem editado seus nove livros de poesia organizados pelo poeta & crítico manoel ricardo de lima, com prefácios de alguns bacaníssimos poetas de aquém-mar.

já saíram ano passado os três primeiros livros, na ordem de publicação original,
….aquele grande rio eufrates (1961), prefácio do próprio manoel ricardo de lima.
….o problema da habitação — alguns aspectos (1962), prefácio de júlia studart.
….boca bilíngue (1966), prefácio de tarso de melo.

saem agora em março mais três:
….homem de palavra[s] (1969), prefácio de annita costa malufe.
….transporte no tempo 
(1973), prefácio de eduardo sterzi
….país possível (1973), prefácio de carlos augusto lima

em julho sairão os últimos três:
….a margem da alegria (1974), que tenho a sorte de prefaciar
….toda a terra (1976)
….despeço-me da terra da alegria (1978)

com isso, deixo com vocês 7 poemas. & um pouco de silêncio.

guilherme gontijo flores

* * *

Quasi flos

A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição

de muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida

* * *

Glauco e Diomedes

Assim como na noite o dia se contém
e o sol ao fim da trajectória em lua se resolve
assim emerge o homem dessa mesma terra mãe
que o há-de receber com mãos de quem absolve

Assim de dia em dia assim de longe em longe vem,
como mar que onda a onda se dissolve
na praia do início, a dúvida que alguém
sobre si mesmo tem e todo se revolve

Assim a noite, assim o mar também
e se alguém nasce doutrem e se um filho
começa pela mãe, assim do filho a mãe
renasce, assim redondo sai o trilho

E por maior cadáver que na carne leve
a ave retransmite à ave tudo quanto vive

* * *

Turismo

Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ninguém

* * *

O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

* * *

A medida de espanha

Tenho mudado de cidades algumas vezes
e o meu passado é todo esquecimento
A noite chega precedida pela sombra
e é sempre em vão que repudio a noite
Eu morro qualquer dia e pouco sei da vida
É perigosa a vida a simples vida
a vida a simples vida é violenta
Mas quando a primavera em cabelo chega
sinto-me invulnerável e começo
É formidável março quando se aproxima
a prometer no passo um integral verão
Sou todo deste tempo e são meus estes dias
Eu nada sou mas o verão existe
Canta meu coração
Esta é a medida de espanha
ó vida minha vida estranha 

* * *

Da poesia que posso

Há uma certa maré nas coisas humanas
Espero pelo verão como por outra vida
no inverno é que o verão existe verdadeiramente
É o dia em que segundo alguns jornais
john hoare e david johnstone iniciam
a travessia do atlântico num barco a remos
É o dia das grandes travessias
o mar a vida isso que importa?
dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
aqui na orla da praia mudo e contente do mar
Ao chegar aos cinquenta sessenta anos
Quando os fizer talvez pense nisso
e não agora a tanto tempo de distância
Agora sou do cúmulo da tarde
desta tarde no início do outono
ou do início desta tarde de outono
Só depois é que pergunto que fazer de tudo isto
que torna o cid meu contemporâneo
dios qué bueno es el gozo por aquesta mañana
de um dia em que me achei mais pachorrento
Manhã ou tarde? primavera ou outono?
não sei pouco me importa
Pouco me importa o quê? não sei
(o resto vem no pessoa
Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais)
Basta a cada dia a sua própria alegria
e é grande a alegria quando iguala o dia

* * *

O urogalo

O urogalo vive solitário e livre
entoa um canto triste de que vive
e morre se não canta mas se canta
atrai o caçador que lhe dá morte
É ave vive sobre a morte e cai quando o seu canto
lhe aviva a vida que lhe causa a morte
não sei que ave é o urogalo
e se o vi só o vi numa fotografia vista
na contracapa de uma certa revista
Só sei que vive solitário e livre
e sei que a solidão e a liberdade
são condição de vida para quem
quer erguer a cabeça sobre a morte viva ou morte morta
O urogalo canta solitário e triste
resiste à morte apenas porque canta
o canto é perigoso pode ouvi-lo o caçador
mas porque canta leva a cabeça erguida
e apenas o perigo dá sentido à vida
Virá o caçador acabará o canto
mas sente-se viver e não importa a morte
a quem ameaçado ameaça no entanto
porque o canto mortífero dá vida
O urogalo vive solitário e livre e
a solidão e a liberdade condição de vida
podem custar a vida àquele que vive
mas isso não importa importa só
precisamente isso e nada mais que isso
que seja solitário e seja livre e assim viva
a vida de quem vive não de quem vegeta
e que o seu coração seja capaz da solidão
e que levante o canto em liberdade
e que ao cantar a solidão seja cidade

(poemas de ruy belo)

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crítica, poesia

O palavreado de Jorge Melícias

jorge-meliciasJorge Melícias é um poeta português nascido em 1970, em Coimbra. Apesar de que aqui no Brasil seja difícil o acesso aos seus livros de poesia (nada consta na Estante Virtual ou na Livraria Cultura, por exemplo), não se trata de um poeta iniciante. Formado em História (sem nunca, porém, ter exercido atividade na área), ele trabalha na editora Cosmorama/Universidade Católica e ministrando cursos extracurriculares (cinema e poesia/escrita criativa) em universidades. Como tradutor, verteu para o português Saint-John Perse, Lautréamont, Baudelaire, Leopoldo María Panero (deste último, o Rodrigo Madeira postou em seu blog uma tradução feita por Melícias), entre outros, e é autor de 7 livros de poesia própria: Aqueles que incendeiam os telhados (1996/1998, inédito), Iniciação ao remorso (1998, 2ª ed. pela Cosmorama em 2004), A luz nos pulmões (2000, Quasi), O dom circunscrito (2003, Quasi), Incubus (2004, Quasi), A longa blasfémia (2006, Objecto Cardíaco) e Felonia/Agma (2013, Cosmorama/UC), além da coletânea de poesia reunida, Disrupção – 1998/2008 (2009, Cosmorama). Teve poemas traduzidos para o espanhol, o inglês, o finlandês e até o servo-croata e o letão, e publicados em várias antologias e revistas, como a Inimigo Rumor, Confraria do Vento, Coyote e Zunái, isso só no Brasil. Quanto à crítica, tenho conhecimento de um ensaio na Zunái sobre ele, de autoria do crítico e poeta português Luís Costa, e de um livro, escrito por Daniel de Oliveira Gomes, intitulado A Poesia do Excesso: Rumo às Vísceras de Jorge Melícias.

Creio que, ao ser confrontado com os poemas, por exemplo, do seu penúltimo e duplo livro, Agma, (duplo porque saiu como Felonia/Agma, mas o Agma entrou, sozinho, na coletânea Disrupção) a primeira reação seja de estranhamento. A única palavra que compõe o próprio título já pede uma visita ao dicionário (no caso, recorro ao Houaiss):

                                                 

agma
substantivo masculino (1938)
1 fon representação da nasalidade velar no grego e, freq., no latim
1.1 p.ext. a consoante oclusiva nasal velar (como se pode perceber em português sangue, cinco, ou no inglês sing, song)
2 odont ort p.us. m.q. fratura
Etimologia
gr. ágma,atos ‘fragmento’; ver agma(to)-

                                                 

E o mesmo pode ser dito do primeiro poema do livro:

                                                 

Trabalho a crueldade
pelo lado da exuberância.

Como instigando a carne
à vernação das goivas.

*

…sendo que “goiva” é um instrumento usado por artesãos para contornos de peças de madeira, metal ou pedra, e “vernação”, do latim, vernatio, pode se referir à folheatura (formação de folhas, na botânica) ou, etimologicamente, à “mudança de pele nas serpentes pela primavera”. Essa técnica tem continuidade nos poemas seguintes do livro (como Luís Costa comenta, listando algumas dessas palavras raras usadas pelo poeta: ignívaga, insanes, gárrulos, esquírolas, múrias, vurmo, coaxial, etc.). É fácil ver como essa obscuridade vocabular (complicada pelo fato de que o poema mantém algo do seu hermetismo mesmo após a visita ao dicionário) pode levar à rejeição direta do poeta, seja por acharmos, como brasileiros, que há diferenças demais entre o português daqui e o de lá (o que não é necessariamente o caso), seja por condenarmos esse tipo de uso vocabular como uma técnica pueril, o tipo de pirotecnia a que quem não escreve bem recorre para disfarçar sua imaturidade (qualquer um que já viu uma redação de vestibular em que o candidato afeta falar difícil sabe do que estou falando).

Mas essa hipótese não se sustenta ao retornarmos para os primeiros livros de Melícias, como Iniciação ao remorso, que, quando contrastado com Agma, revela que essa é uma técnica deliberada do poeta e desenvolvida gradualmente. Em contrapartida, nesse quesito do uso vocabular, sua poesia anterior era mais clara, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, parecia fazer menos sentido:

                                                 

Partiste no bafo do grande touro de alabastro,

as têmporas abertas à luz dos chicotes,

os lábios atravessados pela violência dos cânticos.

Durante mil anos os homens amaram-se às escuras,
cosendo o clarão do teu nome ao claustro das unhas.

As noites eram prodigiosas e terríficas,
velozes como as pedras dos aquedutos,

e a loucura gritava-se inteira pelo sangue acima.

*

Neste caso, confesso uma preferência pelos seus poemas mais recentes, visto que tenho dificuldade em defender uma expressão tão novecentista quanto “grande touro de alabastro” (“alabastro”, com seu tom preciosista, sendo uma palavra bem complicada de se usar no século XX). Não há dificuldades vocabulares, mas ainda assim o poema é desconexo, as imagens se sobrepõem sem um eixo condutor que facilite a interpretação, o que dá uma impressão de gratuidade. Há algo que eu devo comentar que é que, ao contrário de boa parte da produção de poesia, em que os livros são apanhados de poemas isolados, os livros de Melícias todos formam uma unidade cada um, em que cada poema, apesar de poder ser lido isoladamente, ilumina e é iluminado por todos os outros poemas, na medida em que eles partilham de um foco específico determinado pelo livro – fazendo com que cada livro aja, de certa forma, como um poema só, o que ressignifica o sentido do título Agma, simultaneamente som e fragmento. O dom circunscrito, por exemplo, se concentra sobre a imagística da ferraria (sobretudo o martelo, a bigorna, a forja, o fole) como metáfora da criação poética, como no curto e ilustrativo poema abaixo:

                                                 

Uma tangente voltaica.

Porque o martelo
é uma entoação
sobre o fogo.

*

Dali-Maldoror-1934Sendo assim, esse foco é fácil de ser encontrado em O dom circunscrito, como o é também em Íncubus, dedicado ao crime, em especial ao ato de cravar uma navalha na carne, uma obsessão partilhada por Agma, onde refulge também o vocabulário da chacina, do sangue, dos ossos, da carniça, e por Felonia, cujo próprio título se refere a esse campo semântico, e que repete constantemente a palavra “horror” – exemplos que apontam para sua descendência de Lautréamont, autor traduzido já pelo poeta, como apontado no primeiro parágrafo, pelo menos em temática (Luís Costa aponta sua linhagem poética propriamente como descendente de Herberto Helder e dos expressionistas alemães como Gottfried Benn). Em A luz nos pulmões me parece mais difícil de se encontrar esse eixo estruturador (que eu arriscaria localizar na imagem que dá título ao livro, na articulação metapoética do corpo, como atesta a epígrafe de Maiakóvski retirada d’A Flauta Vertebral), mas Iniciação ao remorso é especialmente nebuloso nesse quesito. Por isso eu diria que as qualidades que Luís Costa atribui à produção de Melícias (“um certo rasgo horaciano”, a “exactidão rítmica, a clareza da dicção, o fluir, enfim, o rigor da construção”) são adquiridas com a maturidade, conforme o poeta vai substituindo o fluxo caudaloso e algo intercambiável de imagens (recomendo, como teste, o exercício de trocar os versos de lugar no poema do touro de alabastro e atestar o quanto isso pouco afeta o sentido do poema) por uma maior precisão, da qual o seu gosto por palavras raras seria uma manifestação, junto da sintaxe mais amarrada, com versos menos independentes. E isso não é nenhuma vergonha, visto que os temas sobre os quais Melícias se propõe a meditar – a saber, Deus, o Mal, o pecado, a crueldade, a blasfêmia, todas as coisas que tiravam o sono de Baudelaire – são melhor resolvidos quando visitados por um olhar mais maduro.

Otto-Dix_Sex-murderEsse detalhe da escolha de palavras pode parecer uma pecuinha, algo pequeno demais para se discutir longamente, mas é um problema que requer reflexão, especialmente quando nos propomos a discutir o que é o hermetismo (o que, confesso, é uma obsessão minha). A princípio, não há necessariamente um hermetismo nas dificuldades vocabulares em si (que muitas vezes emergem por questões de distância cultural-temporal ou pela recorrência a terminologias de campos semânticos específicos), e um poeta como Paul Celan é um exemplo clássico do hermético sem dificuldade vocabular (vide um verso enigmático, mas sublime, como “Tu podes, sem medo, servir-me de neve”). Melícias, que já era um poeta obscuro em seu início de carreira, aprendeu a dosar essa obscuridade com o recurso dos eixos temáticos que norteiam cada livro e com o seu uso vocabular, que, mesmo após a consulta ao dicionário, se mostra enigmática: instigar a carne à vernação das goivas, no primeiro poema que citei, remete a imagens surreais (o que se contrapõe à clareza da primeira estrofe). Além disso, de quebra, qualquer ambiguidade que as palavras tenham (como o sentido estritamente lusitano de “Passo estreito e profundo de corrente de água” para “goiva”) se torna difícil de ser resolvido pelo contexto. É um recurso perigoso, que pode minar a viabilidade da leitura em voz alta (exceto, talvez, entre dicionaristas) e também da antologização (na medida em que os poemas de cada livro dialogam entre si), o que afirma o aspecto solitário, introspectivo e escrito, mais do que oral e coletivo, das meditações de Melícias. Mas dá alguns resultados interessantes, pelo menos no que concerne à experimentação com a linguagem.

Por isso, para essa tentativa de seleção aqui (que reconheço como necessariamente baldada pelos motivos supracitados, mas que pode servir de alguma introdução), optei por favorecer poemas de sua fase mais recente, sobretudo os livros Íncubus, Agma e Felonia. Alguns poemas dele foram publicados recentemente também no Jornal RelevO (link aqui).

E, por fim, seria interessante avisar, para quem se interessou pelo poeta, que Melícias se encontra no momento em Curitiba (radicou-se aqui, pelo indicado no RelevO) e estará ministrando, todas as segundas, de 8 de abril a 1 de junho, uma oficina de poesia no espaço Mímesis (link clicando aqui), o que pode ser uma boa ocasião para debater essas questões todas com o próprio poeta.

Adriano Scandolara

                                                 

                                                  De Incubus (2004):

Por vezes estou sobre as facas como quem intenta.

Outras é o metal que reverbera onde enlouqueço.

Sei que o crime encerra a sua própria geometria:
o golpe incide onde o erro é uma refracção.

Abro na lâmina uma veia para correr.

*

Não há lugar para a repulsa:
a lâmina corre no
interior dos espasmos,

afia-se a cada contracção.

O gume
é agora a partir de dentro.

*

Os instrumentos que podam
esplendecem de loucura.

Abrem as virilhas à
soberba das facas.

Irrompem do horror como um

girassol cravado de esquírolas.

*

Sob a oxidação das córneas
trabalham meticulosas ferramentas,

os obsessivos alicates do remorso.

Estou sobre as escoras da cegueira
e alteio o propósito:
matarei pelo cheiro.

                                                 
                                                  De Agma (2008):

A chacina é uma indução
à espera do seu tempo.

Sobre esse propósito
estabeleço-me unívoco.

E onde cães e homens
disputam a carniça
à lisura dos ossos

inscrevo a consolação.

*

1.

Sobre a imposição dos abismos
encimarei os gárrulos.

Erguer-me-ei das jugulares
como a pura dicção do medo.

2.

Descerei das canas
para a rasura da redenção.

No dorso o relâmpago
como uma carena blasfémica.

E um amor profundo pela impiedade.

3.
Caminharei entre os homens
com um punção virado ao medo.

As meninges
recrudescendo nas navalhas
como um apostema.

Todo o metal sitiado
pela injunção das ínguas.

*

As refinarias do medo trabalham o alvidrio.
Até que todo o movimento seja sem aporias.

O sangue por baixo galgando
andaimes,

fazendo da sufusão a sua única eclusa.

*

Adestramos na carne
os estrepes do horror.

E pela elocução do medo
inferimos da consolação:

só o ferro
remirá em si a ferida.

                                                 

                                                  De Felonia (2008):

Ergo-me da refrega

e tomo posse sobre o excídio.

Eu vi a minha mão em tudo o
que se demarca da piedade. E comovi-me.

*

As pás do remorso não porfiam
quando todo o gesto
rasura a compaixão.

É essa a minha arte: fixar sobre a paisagem
o despojamento
que o horror persegue.

E que nenhum indulto ofusque o meu triunfo:
eu a encimar o luto
ponho grinaldas.

*

A deus a constância do medo,

o modo como a temperança
se divide pelo jugo.

Eu exerço o flagelo.
Calibro os dedos no horror.

*

O horror era então a sua própria liturgia.
E a carne levedava
com convicção nas lanças.

Tempo de uma piedade sem reservas,
anterior a qualquer axiologia.

E sobre a paisagem
ver
não prodigava ainda
a ritualização do remorso.

                                                 

(poemas de Jorge Melícias)

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