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XANTO| Adília estreia, por Guilherme Gontijo Flores

É sempre o caso de celebrar quando uma poetisa (assim ela prefere) relevante de língua portuguesa recebe atenção no Brasil, mais ainda quando temos a chance de ler um livro inteiro como foi originalmente publicado, de modo que revele sua poética sincrônica, seu modo de organizar um volume, pensar os poemas com conjunto, etc. Um jogo bastante perigoso, o primeiro livro de Adília Lopes (pseudônimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira), lançado em 1985 em edição da própria autora, é agora também o primeiro livro integral da poetisa a ser publicado no Brasil. Antes dele, tínhamos apenas a Antologia, publicado em 2002, pelo fundamental selo Ás de Colete, numa parceria da editora 7 Letras com a finada Cosac & Naify. Hoje é a Moinhos, editora independente sediada em Belo Horizonte e tocada por Nathan Matos e Camila Araujo, quem assume essa empreitada num belo voluminho de 64 páginas. O livro tem ainda um prefácio afetivo da poetisa e fotógrafa Adelaide Ivánova, que revela a influência de Adília em sua poesia, mas também acaba por indicar a importância de seu nome em muitas obras da poesia brasileira contemporânea, em nomes que vão de Ismar Tirelli Neto a Angélica Freitas, para ficarmos apenas em dois dos muitos que poderiam entrar na lista. Na quarta capa, um texto curtíssimo de valter hugo mãe resume pontos essenciais dessa poesia: “adília lopes é pura desmistificação. tudo que você sabia sobre poesia precisa de ser repensado. […] adília é nua.” E talvez haja mesmo uma nudez mais notável numa estreia, mesmo que ela nos chegue apenas 33 anos depois.

Apesar de não ser propriamente o melhor livro da autora, que então tinha 25 anos, nem o mais experimental, os poemas de Um jogo bastante perigoso já revelam uma escrita muito madura, como vemos nos versos de “Arte poética”:

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
[…]
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer.

Nestes versos, o deconcerto da escrita de poesia torna-se também o desconcerto da leitura da metáfora: poema peixe que escapa e que precisa ser pego, para que assim melhor escape. (Em atenção a este poema, o volume brasileiro é marcado por peixes na capa e nas folhas iniciais e finais). Noutra peça metapoética, lemos:

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são águas passadas

Neste livro vemos também como Adília passa com leveza pelas citações eruditas (referências a Sylvia Plath, Proust, Sá-Carneiro, Ingres, Verlaine, Camões etc.) entremeadas por um clima de conversa que provoca o gosto coloquial, por vezes íntimo, que desarma o leitor. O riso abre espaço em muitas cenas que beiram o absurdo, como em “Um quadro de Rubens”:

Vi-me comoprimida
num ajuntagente
ora eu só suporto pessoas à distância
de preferência com uma mesa de permeio
acontece que uma mulher foi projectada
para cima de mim com um cigarro aceso
há pessoas que vão para ajuntagentes
fumar cigarros!
ora eu temo as queimaduras
muito por sua vez caí por cima de uma mulher
que era um sex symbol depois
de sofrer uma homotetia de razão
superior a 1
há pessoas que vão para ajuntagentes
com dez alcinhas!
era o caso do sex symbol
o vestido tinha três alcinhas
de cada lado
e o soutien alças em duplicado
se caio para baixo passam-me por cima
a única saída é sair por cima
disse de mim para mim
as pessoas do ajuntagente
reparei então
eram feitas aos degraus
comecei a subir pela que
estava mais perto
era uma mulher
dei por isso quando começou
a gritar
a menos que fosse
um contratenor
mas alguém teve a mesma ideia
que eu
e começou a subir por mim acima
ora eu sou intocável
agora já nem consigo
dizer nada de mim para mim
o de mim para mim acabou
não há lugar para mim
num quadro de Rubens

A sensação é que, em sua poética de uma lucidez tremenda e assustadora, apesar da recorrência certa dicção narrativa e doméstica, por vezes assumidamente autobiográfica, Adília percebe que o real não tem fundura, mas é pura superfície, e que, diante disso, a falta sentido deve vir como um constitutivo da experiência humana, que não pode ser escamoteado pela poesia.

Dado o impacto de seu trabalho em tanta gente, dada a potência de riso e desconcerto que ela é capaz de criar como ninguém, é de fato uma felicidade termos finalmente um livro integral; porém a distância de três décadas entre a primeira edição portuguesa e a brasileira é indício de como os diálogos literários entre Portugal e Brasil ainda precisam superar uma tendência conservadora do mercado editorial, sobretudo no quesito poesia. Precisamos mesmo de moinhos que andem ao contrário.

guilherme gontijo flores

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XANTO | Ana Hatherly: a dificuldade essencial de uma botânica, por Bárbara Costa Ribeiro

 

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 Olho para a estante e dali me olha de volta uma antologia azul, A idade da escrita e outros poemas (2005), de Ana Hatherly. A ideia de uma antologia me agrada: justamente, colher flores, a imagem que me toca e me conclama.

Essa imagem que brota de Ana em mim é a paisagem do jardim, com todos os seus mínimos mistérios. Colho o livro da estante e rapidamente o cenário está pronto: a geografia incontornável de um botânica misteriosa, silenciosa, sensual. Pueril, também. Porque o jardim é sempre a primeira aventura da criança, a terra a desbravar, o insólito vegetal, onde fazem o amor lagartas e plantas. Toda criança está votada ao mistério da linguagem e da natureza. E mesmo para a criança de apartamento, o cacto no parapeito da janela é a aventura completa de um mundo insondável.

Planta, bicho, silêncio, lago, rio, o vórtice de Ana Harthely convoca a arquitetura de uma linguagem que se imanta de magia. Já dissera Octavio Paz, para as crianças e para os poetas, a língua é este brinquedo imantado, uma fala amorosa, estrépito, muitas perguntas, lacunar.

Se estivesse viva a portuguesa Ana Hatherly, poeta, ensaísta, artista plástica, professora, nascida em 1929, completaria então 89 anos em maio, no dia 8. A poeta faleceu em 2015, deixando atrás de si um rastro enigmático entre a escrita e a pintura, a caligrafia e o desenho, a possibilidade mais que barroca de ir a todos os lugares claros e escuros da poesia, suplantando o código dos anos 60 e 70 da poesia portuguesa mais experimental.

Desenho, pintura, colagem, palavra, letra, traço, rabisco – tudo compôs a poética de Ana Hatherly. Em sua poesia gráfica, a escrita e o tracejado não se separam, a linha e a dobra. Quebra a forma e o sentido pelo esgotamento da experiência, fazendo circular então pela caligrafia e pela mancha tipográfica o incomunicável: dádiva do silêncio é o que nos entrega sua poesia.

Aí mesmo então a poeta que neste ano completaria 89 anos encontra a criança que de modo algum morre: porque o desenho é a primeira forma de escrita infantil, e volta-se então para o jardim, onde a criança brinca como se manuseasse segredos, vivendo o insólito de uma aventura que pode tantas vezes caber num retângulo de quintal exíguo – aprende a densidade primitiva da poesia. Há ainda, no jardim, a sensualidade dos segredos de todos os seus seres vivos, a primeira erótica de um corpo. Na fenda entre desenho e escrita – e o que haveria de mais amoroso e lúbrico do que a imagem da fenda? –, o rio da memória, margeado de palavras, compõe esta poética toda mágica:

“[…] Lembrança dos jardins entrevistos através das grades altas, quando os olhos são pequenos demais para a imensidade de uma paisagem através de um buraco de fechadura, através da fenda de uma grade, através de uns muros sempre cobertos de vidros partidos brilhando ao sol como dentes de um crocodilo que é o símbolo do silêncio.

Quando o perfume dos jardins ao pôr-do-sol embriaga, fere, fica gravado na memória como a cicatriz de uma queimadura, indelével, constantemente odorífero até fazer as glândulas salivares doerem, odor de fazer subir as lágrimas aos olhos, por ser tanto, tão grande, sufocante no seu excesso” (“do crocodilo”, Sigma, 1965).

Dádiva do silêncio, que é preciso uma vida inteira para ser compreendida, a trajetória de um poeta como o sonho infantil, a dificuldade misteriosa de uma botânica. Me atravessa por entre mim e Ana Hatherly o que dela em mim não posso explicar, ou mesmo compreender, mas sinto ainda assim, como quando o seu gesto de escrita dissolve a palavra e me entrega o desenho, incompreensível mas de todo modo espantoso. Nesse espanto, há também calma e muito silêncio, numa dicção amorosa que esconde o eros frenético na mansidão do jardim que aguarda como se sem suspeitar a chegada do amor:

“Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão
quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venha peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
Eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava
sentia as veias ligeiramente ativas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavas-te como um simulacro
Intui peço-te,
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pelo alma recorrente silva”

(“Esta obscuridade salubre”, Eros frenético, 1968).

ah_o-mar-que-se-quebra_1998

Ana Hatherly: “Ah, o mar que se quebra”, 1998

Quieto, quieto – como sempre antes de qualquer surpresa. Nesta obscuridade salubre, o poema, este amante que me chega como um particípio, a ideia do particípio compondo o verso tão inusitado me quebra ao meio, me deixa sem continuidade, rompe um passado e inaugura o meu instante presente, transforma o langor da tarde que finda em sensualidade noturna. O amor como um animal selvagem que dorme e depois me espreita.

“Penso em ti
tranquilamente
como quem está sentado ao sol no Outono
deixando o pensamento fluir.
É o rio de sempre
um rio que corre lentamente
como decorre a noite.
Chega inadvertidamente
tendo estado sempre ali
a correr muito calado
de modo a não darmos por ele
se não quisermos.
É como um grande amigo
junto de quem podemos estar silenciosos
sem estarmos longe.
É como uma noite muito quieta
que está ali
mas só damos por ela quando de repente
saímos de casa e ela surge enorme
ante os nossos olhos.

Penso em ti
tranquilamente como numa tarde
em que resolvemos não fazer nada e os livros
arrumados verticalmente
são apenas o dorso ondulado
de um animal que dorme
enquanto por dentro
todo o trabalho se processa.

Penso em ti
tranquilamente
como deitamo-nos no chão
debaixo de uma árvore e olhamos
a sua copa em leque
a sua ramagem ondulando lenta
como o ventre de um animal adormecido.
Até que a luz da lua
entra e percorre tudo
sem refletir coisa alguma

(“Tranquilamente como numa tarde”, A idade da escrita, 1998).

ana hatherly, in a reinvenção da leitura (pormenor)

Ana Hatherly: “Pormenor”, in: “A reinvenção da Leitura”

Que outras imagens tão poderosas podem se esconder neste jardim de plumas, a ocultar um rio que geme muitas frases indiscerníveis mas poderosas? Bem, há ainda os jardins proibidos da infância, aqueles nos quais não se pode brincar, e que mais tarde se transformam em memória, se esgotam na ferida que abriram, para então se tornarem matéria de poesia, e mesmo transformar, na adulteza, todo jardim e toda botânica na dificuldade essencial de uma escrita, no mistério da poesia, trazendo a palavra sitiante, que me circunda por toda parte, não me deixando quase respirar e mal viver sossegadamente.

É possível, de fato, crescer e deixar para trás as coisas de menino. Mas há, ainda, e sempre, o jardim, de uma alegria distante, o jardim fechado, que se torna, na idade madura, esta tristeza como um rio.

“Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão”

(“Os jardins imaginários”, Rilkeana, 1999).

st, 2003 spray sobre papel

Ana Hatherly: Spray sobre papel, obra sem título

     To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale

Pensar é encher-se de tristeza
e quando pensonão em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço o seu imenso clamor”

(“Pensar é encher-se de tristeza”, O pavão negro, 2003).

Ei-la. Ana Hatherly, em sua poesia, publicou mais de dez livros, como Eros frenético, O pavão negro, A idade da escrita, tantos outros; e ainda está aqui, pulsando como a vida misteriosa de um jardim noturno.

[HATHERLY, ANA. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.]

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XANTO| A falha que te torna em ti mesmo: “Tresmalhado”, de Jorge Roque, por Pádua Fernandes

O último livro de Jorge Roque, Tresmalhado (Lisboa: Averno, 2016), mantém a forma do poema em prosa que caracteriza o autor, com o mesmo tipo de sujeito que observa a si mesmo ou aos outros com um tom amargo, na poética descrita em “Som rouco”, de Broto sofro (Lisboa: Averno, 2008, com pinturas de Guilherme Faria): “Ouviu um som rouco que lhe saiu da garganta, espécie de ronco de animal ferido. […] Desligou a música, abriu o caderno, e segurando o lápis, começou a escrever o som medonho que ouviu.”

Tresmalhado confirma também o intercâmbio de imagens entre vidas animais humanas e não humanas. Um animal capturado pode, com empenho e sorte, tresmalhar-se; o homem, se se reconhecer animal, pode fazer o mesmo e escapar? Não neste livro, onde os seres vivos estão cativos:

Não, por este andar não vou lá. E não vejo que outras pernas possa ter, nem que outro chão possa pisar. A cerca está erguida, o animal encurralado. Um quadrado perfeito, traçado a régua e esquadro, as estacas cravadas a intervalos regulares, a rede de malha estreita, devidamente presa e esticada, rigoroso ministério de quem sabe o que faz, sabe o que quer, não admite a falha.

O trecho vem do poema “Ida e volta”, um dos mais irônicos do livro, que trata dos escritores e do sistema literário, ou seja, de bestas que amam o cativeiro. Jorge Roque não dispensa esse tipo de imagem apenas a essa categoria, no entanto, ela é mais abrangente: “rendo-me à evidência, o estado português é um negócio de trocar porcos por chouriços. E como os porcos são escassos, esgotada a ruinosa criação, somos nós que tomamos o seu lugar, trocando vida, trabalho, justiça, por um chouriço.” (“Certificados de aforro”).

Não podemos deixar de lembrar, nesse passo, do livro escrito todo a partir de imagens da mesma espécie animal, Senhor porco (Lisboa: &etc, 2004), com textos de Roque e pinturas de Guilherme Faria, sobre que escrevi uma resenha para o extinto K Jornal de Crítica (disponível aqui). Algo similar à “condição de animal de criação na empresa desses quantos, cujo negócio é precisamente a classe privilegiada de que fazem parte” (“Um exemplar falhado da espécie”, poema de Nu contra nu, publicado pela Averno em 2014).

Entregam-se a destino semelhante os ratos do poema “Tresmalhado” do livro novo: “subterrâneos, diligentes, os despudorados servidores da oportunidade e do medo, comandados, claro está, pelos inescrutáveis senhores”. Tais seres que gozam da ou na servidão não possuem real companhia no cativeiro: a identidade do destino não associa os cativos. O poema “Coelho no tacho”, que alude ao apelido de um político e a um prato da culinária portuguesa, acaba numa fuga discreta, como se o locutor descrito, depois do instantâneo sucesso de sua piada no meio de um café, não fosse digno nem mesmo de pisar o chão depois disso. Nesse sentido, o tresmalhado é aquele que está separado dos outros e, por isso, não tem uma ação política, nem mesmo contra o político que é ironizado.

Hugo Pinto Santos bem escreveu que “Em Tresmalhado, sem se intentar fazer poesia política, a escrita está imersa no mundo. E, se não há um desígnio político, em sentido estrito — é sobretudo de ética que se deveria falar —, os dados da realidade são tematizados por um prisma que é também político.” (“Corpo político”, O Público, 23 jan. 2017, acesso aqui).

De fato, o livro não é bem-sucedido no poema que se apresenta como abertamente político, “Salmo dos novos velhos liberais”, com estas lamentações: “Meu Deus, meu Deus, porque me tiraste emprego, reforma, sistema de saúde e segurança social? São os novos velhos liberais, descobriram uma solução: riqueza para uns poucos, pobreza para quase todos, exclusão para os que estão a mais […]”.

Note-se que esses liberais se apoderaram do poder também no Brasil. Brasileiros, por sinal, poderão rir ou reconhecer-se em outro poema, que satiriza a “filha de pai português e mãe espanhola” que afirma “sou toda Europa, somente nasci no Brasil” (“Queen Margarete”). “Leis da humana física” realiza algo parecido, parodiando o discurso que defende o liberalismo como lei natural. Outro momento que deixa um sorriso encontra-se na primeira parte de “Inferno”, na fala imaginária ao sargento, não na imagem banal do “lasso e venal cu”, mas no fim, na lembrança de que ambos morrerão: “se vivesse a sua vida, como eu tento, como sem dúvida falho, mas falhando, encontro-me, retomo-me”.

Temos nesse ponto algo de mais geral. Na poesia portuguesa, ocorre há tempos o cruzamento entre o fracasso pessoal e o plano coletivo da história de Portugal, fazendo com que imagens do declínio da nação sejam transportadas para outros tipos, particulares ou privados, de malogro. A terceira parte de “Inferno” começa desta forma: “Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.” Se pensarmos no muro como a fronteira espanhola, está aí outra descrição, agora infeliz, do “Jardim da Europa à beira-mar plantado”, segundo o célebre poema de Tomás Ribeiro “A Portugal”.

Quando esse poema oitocentista foi escrito, o declínio de Portugal já era secular, e o Brasil estava independente há décadas. Tomás Ribeiro sabia disso, por isso exortou à “pátria”: “recorda ao mundo ingrato as priscas eras/ em que tu lhe ensinaste a erguer altares./ Mostra-lhe os esqueletos das galeras/ que foram descobrir mundos e mares…” É típico dessa época que o autor, a respeito do antigo colonialismo, lembrasse dos ossos metafóricos dos navios, mas não dos concretos restos mortais das vítimas nas terras invadidas, conquistadas e exploradas a custo de extermínio e escravismo.

Se lermos Roque em paralelo com Ribeiro, não podemos deixar de ver um gesto irônico no poema que segue a “Inferno” e conclui Tresmalhado: “Flash”. O poema recebe o título do nome de um peixe de aquário, “Pequeno e pouco combativo”, cuja comida era roubada pela carpa, e que “teve um AVC ou algo parecido”. Por causa disso, foi escolhido: “inepto, absurdo, votado ao fracasso”, somos “iguais a ele”, pois “O Flash, repito, tenta ainda.”

Do esqueleto das caravelas ao peixinho doente no aquário, quase um século e meio se passaram na história do imaginário poético português. Termino, de forma apropriada, voltando a “Inferno”:

A história perfeita de um falhado. O retrato concreto e exacto de um falhado. Sem o conforto da ironia ou a evasão da gargalhada. Sem tão pouco a consciência tranquila do esforçado trabalho e da pequena conquista, curso honesto de uma vida que, valer-te-ia isso, se valer pudesse, foste. Sem ao menos isso. Sem sequer. Com os olhos postos nesse erro, nessa falta, as órbitas vazias do rosto que falhaste tornado teu.

Pádua Fernandes

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Um fato no limite da nudez: entrevista com Manuel de Freitas, por Fabio Weintraub

Foto de Pádua Fernandes, 2007.

Por ocasião do lançamento de Suite de pièces que l’on peut jouer seul (São Paulo: Corsário-Satã, 2017, 168 p., R$ 50,00), sua terceira antologia de poemas publicada no Brasil, o poeta português Manuel de Freitas concedeu ao Escamandro a entrevista que você lerá a seguir. Nascido no Vale de Santarém em 1972, Freitas publicou seu primeiro livro em 2000 e de lá para cá lançou mais de quarenta títulos, situando-se entre os mais destacados autores da lírica portuguesa contemporânea. Tradutor de Cioran e Lautréamont, Freitas é também, ao lado da poeta Inês Dias, editor de revistas como a Cão Celeste e a Telhados de Vidro, diretor da editora Averno e um dos sócios da livraria Paralelo W, em Lisboa. Na conversa com o Escamandro, o poeta falou um pouco das relações entre poesia e peste, afirmou detestar em certo sentido “a literatura e quem lá anda”, falou de sua relação com a música e os gatos, entre outras coisas.

Fabio Weintraub

§

escamandro: Na coletânea de poemas seus que o crítico e poeta Luís Maffei organizou para a coleção “Ciranda da poesia”, da Eduerj, ele lê o prefácio que você escreveu para a antologia Poetas sem Qualidades (“A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades”), de 2002, como um protocolo de intenções útil para entender a sua própria poesia, marcada pela recusa do “aliteratado”, do decorativo, e pelo compromisso ético com o nosso tempo. Quinze anos decorridos da redação do referido prefácio, nós imersos em um tempo casa vez mais reificante, você acrescentaria algo àquela exigência de “desqualificação”?

Manuel de Freitas: Sempre entendi esse prefácio como um mero desabafo, que visava menos a minha poesia do que a de outros autores que me pareciam, então, muito estimulantes. A recusa do “aliteratado” estava neles como estará, creio, no que escrevo, embora com modos e timbres diversos. Quanto aos puetas com qualidades que eu atacava nesse mesmo prefácio, nada se alterou. Manuel Alegre recebeu entretanto o Prémio Camões, Nuno Júdice talvez ainda venha a receber o Nobel. E não será por acaso que o actual Ministro da Cultura português é um poeta completamente irrelevante. A reificação continua, mas não concebo uma poesia digna e actuante (e digo-o sem quaisquer ilusões políticas) se ela não se mantiver à margem das instituições. Para que conste, alguns dos autores incluídos em Poetas sem Qualidades são hoje deputados ou pavoneiam-se alegremente em jardins presidenciais. E estão no seu direito, claro, mas o que era “verdade” em 2002 é-o talvez um pouco menos em 2017. Pela minha parte, não retiro nem acrescento uma linha ao prefácio que escrevi.

Nas “Coordenadas líricas” do número 4 da revista Cão Celeste, você recorda as críticas feitas por Vitor Silva Tavares, editor da & etc., ao projeto do seu primeiro livro de poemas: “Apeteceria pedir ao poeta que se despisse da literatura. Porque das duas, uma: ou se usa fato próprio (que leva muito tempo a fazer ao feitio) ou é preferível a nudez – aquela condição em que o silêncio e porventura o nada ganham sentido”. Anos mais tarde, ao publicar seu terceiro livro de poemas, Game over, incorporando críticas e sugestões do Vitor e do Rui Caeiro, você declara ter reescrito muita coisa a fim de encontrar “um fato próprio, no limite da nudez”. Uma roupa própria, sob medida, no limite da nudez, não seria outro modo de formular, pela via do despojamento, aquele “compromisso ético” com o nosso tempo?

Tudo o que disse nesse texto, e pensando sobretudo nas sugestões e observações de Vitor Silva Tavares, ia no sentido limpo e depurado de assegurar um “estilo” próprio. O Vitor, exímio leitor, depressa percebeu que eu ganhava – ou o livro, melhor dizendo – se lhe tirássemos umas dezenas de adjectivos inúteis. Como diz muitas vezes o meu amigo António Barahona, “no tirar é que está o ganho”. Quanto a compromissos, tenho-os apenas a título afectivo – e enquanto duram. Se falo deste tempo, é porque me coube vivê-lo.

“Lembra apenas o perdido corpo/ de quem te chama”; “um poema, mesmo que seja insuflável,/nunca salvou ninguém do seu corpo”; “Até que a solidão se torne/ uma soberania obscena e impessoal, e o corpo se confunda, num demorado réquiem,/ com as esquinas e becos imundos/ desta cidade viva, a agonizar”; “Um corpo serve para muito pouco,/ desde os caprichos da libido/ às infecções urinárias”; “O corpo./ Uma duração precisa,/ que se despede informalmente/ no beijos que já não dá.” De que maneira essa presença obsedante do corpo – em relação metonímica com a cidade, com o envelhecimento e a morte – se liga (se é que o faz) àquela ideia de literatura como veste “no limite da nudez”?

A última nudez é, necessariamente, a da morte. Resignadamente ou não, vamos todos morrer. E envelhecer, entretanto. Passa tudo pelo corpo. Recuso-me, aliás, a ter uma “ideia de literatura”. Se escrevo, ainda, é porque também ainda respiro, defeco, vomito, amo. Em certo sentido, detesto a literatura e quem lá anda.

No posfácio a Suite de pièces  que l’on peut jouer seul, sua terceira antologia poética publicada no Brasil, pela editora Corsário-Satã, Rosa Maria Martelo destaca o caráter intimista, autográfico, que teria servido de critério para a seleção de poemas. Você concorda com essa visão? Conte-nos um pouco sobre como foi organizada essa antologia.

Acho que toda a poesia que até hoje publiquei é “intimista” e “autográfica”. Limitei-me, portanto, a escolher os poemas que pudessem dar uma imagem não muito desfavorável do poeta. Foi um esforço enorme. Porque não gosto nada de me reler; muito menos de me antologiar. Mas senti, de algum modo, que tinha chegado o momento de o fazer.

“Somos sempre contemporâneos da merda”; “este paiol de esterco chamado humanidade”; “Do lixo, porém, temos um vasto/ e inútil conhecimento. Possa/ ele servir de rosa triste aos/ que não cantam sequer, por delicadeza”. A merda, o esterco e o lixo, contudo, parecem empestear os ares de diferentes maneiras de uns tempos para cá. Com que nariz os poetas hão de enfrentar a nova classe de miasmas?

Os poetas, feliz ou infelizmente, não funcionam, não interessam, raramente são consultados (e convém desconfiar um bocadinho dos que são ministros ou assessores culturais). É melhor deixar a peste grassar, livre e bruta. Os poetas, quando íntegros, serão apenas o contraponto possível do esterco em que vivemos. E já não é pouco.

Muito se tem destacado a importância das referências musicais na sua obra. No entanto, sinto maior presença da música como tema, assunto, motivo que como estrutura, procedimento operacional. Tal observação procede? Em caso negativo, em que momentos e de que maneira a música comparece em seus versos enquanto modo compositivo?

A música interessa-me muito mais do que a literatura. E isso acaba, fatalmente, por se reflectir no que escrevo, Mas nunca, creio, num plano que se possa considerar estrutural ou estruturante. A verdade é que me sinto mais próximo de Dolores Duran, Adoniran Barbosa ou Jacques Brel do que de Eliot, Drummond ou Mallarmé. Devo à música, e não à poesia, os mais intensos risos e lágrimas da minha vida.

Assim como a camaradagem e o amor, também o repúdio e a inimizade ocupam nos seus poemas lugar de relevo, sobretudo no campo literário: “É por esses e outros motivos/ que não gosto assim tanto/ dos poetas meus contemporâneos”; “um galgo aproxima-se devagar/ da mão que nunca lerá José Saramago”. Concorda com a afirmação de Cioran de que a juventude acaba quando deixamos de escolher nossos inimigos para nos contentarmos com os que temos à mão?

Eu concordo sempre com Cioran. Mas a juventude já passou, definitivamente; e tenho inúmeros inimigos, embora eu já não seja inimigo de ninguém. Acho isso uma perda de tempo. Sempre gostei mais de gatos e de cães do que de pessoas; e isso é que não vai mesmo mudar.

Como tradutor, você tem se dedicado a autores como Lautréamont (Os cantos de Maldoror), Cioran (Do inconveniente de ter nascido), Anatole France (Thaïs) e Simone Weil (Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos). Conte-nos um pouco desse trabalho tradutório e do espaço dedicado a textos traduzidos nas revistas Telhados de vidro e na Cão celeste.

Nas revistas Telhados de Vidro e Cão Celeste, temos procurado (eu e a Inês Dias, além de outros tradutores assíduos) partilhar textos de autores pouco conhecidos ou valorizados em Portugal. Quanto aos livros que traduzi para outras chancelas, o convite veio sempre do editor. Tenho a sorte de haver alguns editores portugueses que conhecem os meus gostos e afinidades, e considero um privilégio ter traduzido dois livros de Cioran para a Letra Livre. Mas nunca me lembraria, por exemplo, de traduzir Lautréamont por iniciativa própria. Foi um desafio enorme, que me ocupou durante cerca de três anos. Houve dias em que traduzi apenas uma frase, sendo que essa frase podia ocupar uma página inteira. Sem uma certa dose de masoquismo, é impossível traduzir Os Cantos de Maldoror. Gosto de traduzir, mas preciso de o fazer com uma ardente lentidão, pois sou mesmo muito preguiçoso.

Chamam a atenção, no conjunto de poemas reunidos em Suite de pièces que l’on peut jouer seul, alguns fechos de valor interjetivo como “Por hoje estamos conversados” (p. 16); “Pois é” (p. 25); “Era só para te dizer isto” (p. 30); “Qualquer coisa assim” (p. 57), “Era isso” (p. 68). Convocar afetivamente o leitor, modular o enlevo lírico, infiltrar prosa nos versos, o que está exatamente em jogo nesses fechos? Aproveitando a deixa, a finalização do poema constitui para você algum tipo de desafio ou problema a mobilizar de modo especial sua atenção?

Nada disso é premeditado. Eu não penso no leitor enquanto escrevo. Escrevo sempre de jacto, muito de repente, por impulso. E não demoro a decidir se o poema merece ser trabalhado ou se vai direitinho para o caixote do lixo (que é o mais habitual). Caso o “salve”, tento dar-lhe a melhor afinação possível. É a minha “obrigação” poética, mas sinto-a como um dever puramente linguístico. O leitor, enquanto entidade abstracta, não me interessa rigorosamente nada. Interessam-me, porém, muitíssimo as opiniões dos amigos que realmente prezo enquanto leitores exigentes e sinceros.

Seja nas revistas que editam seja no catálogo da Averno, você e a Inês Dias têm publicado regularmente autores brasileiros como Luca Argel, Pádua Fernandes, Ana Martins Marques, Fabiano Calixto, Heitor Ferraz Mello, para citar alguns nomes. Outras editoras portuguesas (Cotovia, Douda Correria,Tinta da China, Mariposa Azual) têm aberto recentemente um espaço maior em seus catálogos para autores brasileiros contemporâneos. E também no Brasil verifica-se um interesse crescente pela literatura portuguesa produzida por autores portugueses mais jovens, nascidos a partir dos anos 1970, como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Matilde Campilho. Você julga que que o trânsito literário entre Portugal e Brasil se intensificou nos últimos anos? Em caso afirmativo, por que, de que maneira, enfrentando que tipo de problemas?

Continua a haver um grande fosso entre Portugal e o Brasil. Os livros não circulam – e os políticos (e outra gentinha bastante pateta na sua lusofonia oca e demagógica) parecem mais interessados em pseudo-acordos ortográficos do que em aligeirar as barreiras postais e burocráticas que nos separam. Acabamos por ter um conhecimento bastante esporádico ou aleatório daquilo que, em matéria de poesia, se faz actualmente no Brasil. E devemo-lo (falo por mim) a contactos efectivos e afectivos entre poetas de ambos os países, bem mais do que a antologias desastrosas (refiro-me, claro, à de Adriana Calcanhotto).

Os autores portugueses mais jovens que refere são, quanto a mim, perfeitas nulidades, com a eventual excepção de Gonçalo M. Tavares. Mas até este, tendo escrito alguns livros interessantes, pouco traz de novo a quem conheça bem as obras de Walter Benjamin, María Zambrano, Hermann Broch ou Robert Musil. Ficaria mais feliz se soubesse que no Brasil se estava a verificar “um interesse crescente” por autores portugueses como Ana Teresa Pereira, António Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge ou Rui Nunes. Estes sim, são criadores de um mundo próprio, e não meros funcionários das letras. Mas cabe-lhes o azar de já não serem “jovens” e de não terem agentes literários.

 

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XANTO | Consciência do cadafalso (sobre ‘Últimos poemas’, de José Miguel Silva), por Pádua Fernandes

Últimos poemas (Lisboa: Averno, 2017) parece fechar um ciclo na obra de José Miguel Silva. Em seu primeiro livro, O sino de areia (Porto: Gilgamesh, 1999), incluiu alguns poemas a partir de filmes, indicando-os nos títulos. Da filmografia japonesa selecionada, interessava ao poeta “O último dos homens” (“Viver – A. Kurosawa”), um “abrigo” “Antes que da noite o lobo venha/ devorar o que nos resta.” (“O intendente Sanshô – K. Mizoguchi”), a volta impossível à pátria daquele “que na guerra/ ergueu uma pá/ para juntar/ a cinza dos vivos/ ao lume dos mortos.” (“A harpa birmanesa – R. Ichikawa”).

Esses poemas foram retomados, com pouca alteração, em Movimentos no escuro (Lisboa: Relógio D’Água, 2005), todo dedicado a esse diálogo com o cinema.

Naqueles poemas do século passado, a questão do tema do fim da sociedade ou do mundo se articulava a uma reflexão sobre a arte. Algo de semelhante ocorre no livro mais recente, Últimos poemas, por tratar de uma consciência do último, do fim: da literatura (a primeira metade) e da civilização industrial e da espécie humana (a segunda).

O título da primeira metade, “Pastéis que sobraram da festa e seria uma pena deitar fora”, indica de pronto que tratará dos restos monumentais da literatura. Autores como Gore Vidal e Proust são tratados com ironia algo condescendente, tom comum em José Miguel Silva; Gide (“o pujante pioneiro”) recebe uma interessantíssima homenagem, Ernst Jünger (“Era um homem para pegar/ num grão de areia e dividi-lo por dez mãos/ exigentes”) e Pound também (“muitas vezes nos deu guarida/ em sua casa”). No entanto, essa literatura não teria mais condições sociais de interessar ao grande público. Lemos em “Musa, sinceramente” este divertido passa-fora para a pobre inspiradora:

 

Pensas que estás no século XIX? Mais,
julgas-te capaz de competir com traficantes
de desejos, decibéis e abraços? […]

 

O autor declara a poesia derrotada de antemão pelos meios de entretenimento de massa.

A segunda parte, “Corredor da morte”, pressupõe a ideia de que a humanidade já está condenada por si mesma, e que “só podíamos seguir/ o planograma do genoma e perecer.” (“Fim”). O interesse de José Miguel Silva por assuntos da genética já passou por esferas mais privadas (“Um deslize do genoma/ soterrou-lhe o coração.”, escreveu em “Na feira do livro II”, de Ulisses já não mora aqui, livro editado originalmente em 2002). Desta vez, trata-se de uma catástrofe coletiva, da espécie. A condenação parece, nesta seção, abranger tanto a ordem biológica quanto a política, o que é reiterado em “Teatro político”, em que o teatro serve de excessivamente convencional metáfora para a mentira. O poema apresenta um rol de decomposições:

 

a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.

 

O brilhante “Homem do lixo” imagina um faxineiro, o último a chegar à festa, e que tem o dever de varrer “o subproduto da embriaguez/ organizada”. Os foliões dormem, ele dança com a vassoura, tentando enganar-se que não está desiludido. Imaginamos que seja este o nosso tempo: chegamos para recolher o lixo da festa. No entanto,

 

Findo o trabalho, tem ainda tempo
para se apiedar dos vindouros,
que da festa não terão sequer notícia,
que nunca poderão participar
sequer remotamente em algo
tão aparentado com a felicidade.

 

As próximas gerações estarão ainda mais longe da felicidade, que hoje só pode existir como resíduo, que estamos a jogar fora. Nem os restos persistirão. Um tempo mais desesperançado, pois, do que o concebido por Carlos Drummond de Andrade em “Resíduo”, poema de A rosa do povo: “fica sempre um pouco de tudo./ Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

As duas partes não são estanques: na segunda, “Misantropia à parte” é uma denúncia do público que não digere a poesia, público descrito nestes termos pouco lisonjeiros:

 

O aparelho cognitivo do porco não consegue digerir
a pérola. O porco, porque é porco e omnívoro,
come o que lhe dão: abocanha a pérola, engole
a pérola, fá-la viajar nos intestinos, devolvendo-a
depois à luz do dia. Com esse trânsito de merda,
o porco nada ganhou, e a pérola ainda menos.

 

A literatura está morta, este livro vem apenas “alegrar o velório” (“Lamento e exortação”), talvez não passe de “Mais um dia de estrume para roseira nenhuma” (“Parte poética”); o mundo está caminhando para estado semelhante (“não cabe/ mais ninguém na ratoeira do progresso industrial.”, diz em “Fala o director-geral”).

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A catástrofe está próxima, como em poema de Ulisses não mora mais aqui (Lisboa: & etc, 2002), “Estela funerária”, que termina com esta constatação: “caiu para o desastre,/ chegou à nossa frente.”

A dissertação de mestrado de Vitor Bruno Dantas Ramalhosa, Não sei se a culpa é minha ou de ninguém: a poesia política de José Miguel Silva (defendida em 2016 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto [clique aqui]), lembra que José Miguel Silva “prefere, ironicamente, ser um ‘desmancha-prazeres’ (título de um blog seu) que ‘não contribui para aligeirar o déficit na balança cultural’, mas que, ao invés, e tal como Alberto Pimenta, contribui com o que pode ‘para a lixeira cultural’.” Trata-se de uma alta comparação, eis que provavelmente nenhum outro autor português logrou desafinar tanto o coro nacional quanto o autor d’O discurso sobre o filho-da-puta.

Este livro, embora não seja tão dissonante assim, persiste na honrosa vocação de todos descontentes e eu também. Seu desencanto e nostálgico elitismo podem incomodar tanto setores das esquerdas quanto das direitas (veja-se esta gozação: “Como a formiga,/ o diamante, a bactéria, a água é cem por cento/ de direita, não acredita em nada, nem sequer/ no ciclo da água.”, trecho de “Põe os olhos na água”), e é certo que esses dois lados opostos do espectro ideológico podem ter muito em comum na defesa da sociedade da produção industrial, que Últimos poemas critica.

No entanto, o discurso racional e irônico, típico deste autor, tem tudo para agradar os leitores do descontentamento, que esperam, sem culpa, os próximos poemas. Afinal, neste verso de Últimos poemas encontramos uma característica da poesia: “O álibi do mal é fazer-se desejar.”

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crítica, poesia

O resto é rosto: rastros Do ínfimo, de Maria João Cantinho; por Danielle Magalhães

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Começo a ler Do ínfimo e algo retém minha atenção desde antes do começo: o índice. Demoro meu olhar nos títulos dos poemas. Ainda que não estejam explicitamente lá, três momentos me chegam a partir da indicação de leitura sugerida: 1) assombrar, 2) nomear, 3) velar. Poderia dizer isso de outro modo:  primeiro, o assombro; depois, o reconhecimento: dar nome à sombra; e então, o trabalho de luto: velar. Três momentos. Ou melhor, três movimentos. Este livro parece fazer estes três movimentos. É por isso que prefiro o verbo (assombrar, nomear, velar), porque indicam o movimento, a ação, soando também como um imperativo, uma lei. Uma lei que não é a do poder, mas a de quem sobreviveu e sobrevive a ele. Não a lei do poder, mas por causa do poder e de suas consequências nefastas. É como se estes movimentos dissessem: é preciso assombrar, é preciso nomear, é preciso velar. Mas aqui não há apenas ativo: há ativo enquanto passivo. Não há apenas sujeito: há sujeitado, sujeito enquanto objeto, assujeitado. É nesta lei que Do ínfimo se sustenta, na lei de quem se move no sofrimento, de quem se move no (e com o) gesto de ser afetado, em cuja ação sofrida não indica paralisia, mas movimento. Assombrar é sofrer o assombro, é ir com o assombro, sendo afetado por ele. Nomear é padecer do nome e desaparecer no nome, é ver quão insuficiente e frágil um nome é, e, por isso mesmo, nomear a insuficiência, nomear porque é insuficiente, nomear porque é preciso velar. Velar é também ser afetado pelo velamento, sofrer a perda ao mesmo tempo em que a afirma. Assombrar, nomear, velar: eis a lei do sobrevivente. Daquele que se move enquanto sofre.

Vendo como movimento e não como momento, deslocamos o “quando” para o “como”. Saímos de uma temporalidade pontual, que se abre a uma atemporalidade que se inscreve em cada gesto. O tempo deixa de ser o cronológico e passa a ser o do corpo. O que seria a História senão a atemporalidade do corpo? O tempo marcado pelo corpo, pelos corpos moventes, pelos corpos que se movem. Preferindo o verbo e o duplo movimento implicado na ação (ativo e passivo, ao mesmo tempo), saímos também do substantivo (assombro, nome/sombra, velamento). Em algum lugar desta escolha, é a substância que é tirada. Porque o livro não se reduz a uma substância ou a estes substantivos. Não se reduz a estes nomes. Sua insubstancialidade está em abrigar todos os nomes, e se abrir a todos os nomes, na impossibilidade de ser reduzido a uma essência, a um instante e a um nome. Do ínfimo, do ínfimo de um nome, abre-se todos. E todos os instantes. Todo nome deixa de ser próprio e passa a ser comum, como assombro, sombra, velamento. A propriedade é tirada em nome de um comum. E por isso torna-se insubstancial, porque se abre a uma comunidade, a todos os sobreviventes, a todos que sofrem e se movem no e com o sofrimento. Não são sobreviventes aqueles que não sofrem. São, esses, os detentores do poder. Fora os poderosos e os sobreviventes, há apenas os mortos. E sobre-viver significa, talvez paradoxalmente, velar. Sobrevivente, esse modo de viver, de estar no mundo, não existe se não for intrinsecamente junto a fitar os mortos, se não for entendido como estar junto aos mortos, a todo momento, cara a cara com eles, fitando seus rostos, velando seus corpos, de cara com a morte.

Começar é começar do ínfimo. E começar Do ínfimo é se deparar com um rosto. Ou melhor, com a “Arqueologia de um rosto”. Mais precisamente, com uma decisão:

 

“Não vou mandar limpá-lo”, decidiu.

Decidiu o homem da mercearia
que deixara amarrotar o rosto pelas vielas
enquanto descia a calçada
e os olhos, manchados de sonhos antigos,
resvalavam para dentro.

Começar Do ínfimo é encontrar um rosto. Ou seja, encontrar uma decisão. Talvez porque um rosto já contenha todas as cisões, talvez porque um rosto já seja cindido, riscado, traçado, expondo tão somente os traços, os riscos. Expondo tão somente aquilo que se mostra como abertura: vias, vielas. O homem da mercearia, um homem comum, um homem qualquer, é preciso ressaltar, decidiu deixar-se amarrotar o rosto pelas vielas, como se portasse as vielas no rosto, como se as vielas lhe fossem o rosto. E o que seriam os olhos resvalando para dentro senão a exposição do vazio dos olhos? Esse vazio exposto que não se apreende (“olhos presos ao vazio”), apenas aparece, exposto, ou seja, que se coloca no fora. Curiosamente, usamos a mesma expressão para dizer olhos fundos e olhos vazios, como os olhos resvalados ou voltados para dentro, no poema. Estes olhos fundos, para dentro, expõem o vazio que se abre ao fora. Porque estão expostos. É por isso que encontrar um rosto é encontrar um fora.

Em “O Rosto”, de Meios sem fim, Giorgio Agamben diz que “todo rosto afunda-se e desmorona-se em si mesmo”, deixando “emergir o fundo informe que os ameaça”. “Arqueologia de um rosto”, o primeiro poema do livro de Maria João Cantinho, é esse movimento de tocar o fundo, o fundo dos olhos, o rosto fundo, o rosto desmoronado, o resto. Não como se o resto fosse as sobras do rosto, mas como se o resto fosse o rosto, como se o rosto, em sua superfície, em seus riscos, fosse o resto, o que resta. O rosto como esse irredutível. As fendas por onde nos expomos, por onde ficamos expostos. Os caminhos abertos, veias, vias, os caminhos viáveis por onde a viabilidade acontece. Na decisão de escolher, reiteradamente, a impureza (“Não vou mandar limpá-lo”; “nunca mais vou sequer mudá-lo!”), “como uma bomba/ a rebentar-lhe o coração”, “os olhos sujos de vida” atravessam a inviabilidade, cortam-na, rasgam-na, contra a inviabilidade da indiferença, os rostos que desfilam espetacularmente “indiferentes” à morte. “Arqueologia de um rosto” é a vida que se abre do ínfimo, a vida que pulsa em um rosto cujo olhar se direciona para a morte do mais ínfimo que o ínfimo como um pássaro morto. Nesta arqueologia chega-se ao resto via o rosto. E do rosto chega-se ao fora do rosto. “Arqueologia de um rosto” não é a escavação do que está por trás, como se revelasse uma verdade escondida: é o mostrar o que aparece, a impureza que reside na superfície, um traçado de vida que pulsa neste sítio comum de vias porque ele está tão somente voltado para a morte. Começar do ínfimo é decidir começar do rosto: decidir começar do resto, do rastro do rosto.

“Por mais que te olhe o rosto/ […], o enigma não se aclara”. Depois do começo arqueológico, subvertendo o lugar da identidade e abrindo esse ínfimo, esse resto, como um sítio frágil, como ruelas ou um campo de batalha, abrindo esse rosto como lugar por onde se abre toda a História, deixando de ser próprio e passando a ser comum, o segundo poema, “Monólogo Improvável”, começa com o rosto e desde o rosto, levando a crer que, depois do começo (da História, dos corpos, do tempo?), tudo, ainda, é rosto. A contraposição dos versos indica que rosto é impasse, enigma – palco de decisão, tribunal, praça pública, rua, campo de batalha –, longe de ser o lugar que revela uma verdade, uma pureza, uma essência. O poema poderia ser dito por qualquer um que está na condição de ser aquele ou aquela que espera: “Poderia ser Joseph K/ ou qualquer outro que espera”. Poderia ser dito por qualquer um ou qualquer uma de nós que se depara todo dia com o triunfo do poder. E aí o poema deixa de ser um monólogo: o enigma reside em o poema tornar-se este lugar polifônico que abriga vozes perdidas: “o que não chega nem se revela/ o que pergunta e nunca ouve/ o que sonha e guarda fantasmas/ o que ouve vozes perdidas no nevoeiro. ”. Um lugar, sobretudo, de chamado, de apelo, e por isso também de escuta, porque de perguntas sem respostas. Como um labirinto kafkiano, o poema é este lugar sem saída que abriga a impotência diante da lei, diante do tempo, diante da salvação que não vai chegar, diante da espera. Mas na medida em que ele lida com o campo da potencialidade, do que poderia ter sido, de quem poderia ter dito, uma voz se abre a muitas, e a possibilidade de ser Joseph K se abre para a possibilidade de ser qualquer outro que se encontra na condição de Joseph K, e só isso já indica uma potência, a potência de o poema dizer aquilo que Joseph K não disse, mas poderia ter dito, e a potência disso ser estendido a cada um que se vê impotente. Movendo-se com a impotência e dando lugar a ela, o monólogo torna-se cada vez mais improvável porque 1) estar nesta condição é estar mesmo “sem provas”, desprotegido, desamparado, 2) porque o improvável já está no campo da possibilidade e não do fato, não do que provavelmente aconteceu, mas do que poderia ter acontecido, 3) porque o que começa a se abrir de uma voz é o reconhecimento de outras vozes, ou seja, o poema, em seu monólogo, passa a abrigar um diálogo.

Guy Debord diria que n’ A Sociedade do Espetáculo há a morte do diálogo. O espetáculo acaba com o diálogo. Nesta sociedade em que o que prevalece soberanamente é a morte do diálogo como a morte da diferença, talvez “Monólogo Improvável” seja a sobrevivência do diálogo enquanto poema – e no enigma do poema. A morte do diálogo é o triunfo de apenas uma via de comunicação: a comunicação que comunica o poder. A improbabilidade deste monólogo talvez esteja em ele não ser um monólogo na medida em que ele não comunica, mas expõe uma ausência, um vazio: “Por mais que te olhe o rosto/ em busca de sinais/ é essa ausência que me faz cair/ para fora da língua,/ um vazio que nos espreita”. E expor esta ausência e este vazio é traçar uma abertura para o diálogo. Não preencher o vazio, não suplantar a ausência, não se comunicar para erradicar a ausência, mas comunicar a ausência, indicar o vazio e fazer do vazio uma via de comunicabilidade, falando como quem cai na língua com a ausência, e não como quem domina a língua escapando da ausência. Porque esta ausência que nos faz cair para fora da língua nos faz mover, não como quem aprende a dominar a língua, mas como quem cai na língua, tropeçando nela à medida que se está caindo para fora de seu domínio. Um poema é a queda da língua e na língua. E nestes buracos abertos encontramos, em uma voz, todas as vozes perdidas. E isso é uma forma de contato.

Assim como rosto é impasse, entrar em contato com tudo que é ínfimo talvez seja encontrar-se sem caminhos, aquilo que os gregos chamariam de aporia. “Mas aquele que se espanta e se encontra em impasse [em aporia] reconhece sua ignorância. ”, disse Aristóteles em Metafísica, neste trecho traduzido por Alberto Pucheu no ensaio “Poesia, filosofia, política”. Encontrar-se em aporia se relaciona diretamente então com o não saber. Deparar-se com o não saber: “Não sei senão do ínfimo” – começa o terceiro poema, de título homônimo ao livro. Nele, escutamos três vezes: “nada sei”, “nada sei”, “nada sei”. O “nada” ecoa ainda três vezes na última repetição: “nada sei, nada de nada”, dando fim à última estrofe com os versos “escondido que ele é/ no ínfimo e na sombra. Oculto. ”. Não saber senão do ínfimo é não saber senão do que está escondido, oculto, na sombra, daquilo que não se revela, daquilo que é velado. Não saber senão disso é, portanto, abandonar o saber, renunciar a “grandiloquência” e não escutar senão o “murmúrio”. É assim que Maria João Cantinho dá toda dignidade e grandeza ao ínfimo. Não saber senão do ínfimo é desconhecer todo o conhecimento prévio e reconhecer a ignorância tal como nos deparamos espantados ou assombrados, porque o espanto ou o assombro nos desloca para um lugar em que nos vemos suspensos de todo conhecimento ou saber.

Para Aristóteles, assim como para Platão (que também comparece no livro), o espanto estaria na origem da filosofia, como podemos ver na passagem que dá início ao trecho citado acima: “Através do espanto, pois, tanto agora como desde a primeira vez, os homens começaram a filosofar”. Mas espantar-se não moveria apenas a filosofia, pois ele acrescenta: “Por conseguinte, o filômito é, de certo modo, filósofo”. O que une filômito – que para nós poderia ser o poeta – e filósofo é o espanto. Espantar-se: não seria essa a condição de todo poeta? Fazer a experiência de tudo que é ínfimo não seria entrar em contato com a aporia, com o não saber, com a ignorância, com as coisas, as “pequenas coisas” – isso que é difícil de nomear – “que não chegam à palavra”? Se começar é começar do ínfimo, do resto, o começo deste poema, intitulado “Do ínfimo”, mostra que começar do ínfimo é começar com o não saber, é começar à medida que não se sabe, porque começar do ínfimo é fazer a experiência do espanto, do assombro, e resguardar o assombro: assombrar-se e assombrar, assombrar-se e velar, assombrar-se e resguardar a/na sombra.

O espanto não reside apenas na alegria, no amor, mas também na dor, no terror. Eis duas vias, em uma, do espanto: assombrar-se diante do assombro do terror, assombrar-se diante da sombra dos mortos. “[T]oda literatura é, ao mesmo tempo, júbilo e terror”, disse Silvina Lopes em Literatura: defesa do atrito. Como ela, poderíamos dizer que poesia é, ao mesmo tempo, alegria e dor, amor e terror, estas duas modalidades do espanto. Talvez seja preciso dizer que assombrar-se é também o que possibilita o amor, porque é com a capacidade de ter um gesto de espanto que mostramos não ser indiferentes. Às vezes, assombrar-se é todo um gesto de amor que resta diante da impotência. Quando não é o gesto que resta, é uma passagem a um gesto, uma passagem para que seja possível um gesto de amor e de justiça. Paradoxalmente, uma passagem cuja condição é a aporia: “o assombro/ o desvario de palavras,/ essa lâmina que rasga o real/ uma garra de nada, uma pedra/ no teu caminho.” (“Assombro”). Acontecendo no e como impasse, como uma pedra no caminho, o assombro é tanto o que abriga o impasse, mantendo-se como o único gesto que resta, quanto o que permite o passo, o impasse necessário ao passo, expandindo-se na potencialidade de “um abismo em forma de rosa”, dando passagem a outro gesto, sendo, enquanto impasse, o que permite o passo. Ele acolhe tanto a potência quanto a impotência, e, como o que resta, impotente, é uma impotência potente, porque rasga, abre, desloca. Há sempre um movimento implicado nesta impotência. Por isso, ele sempre é potente, porque sempre é um gesto, mesmo quando ele acolhe e denuncia o impasse, a pedra no caminho, ele já é passagem, abertura a outro gesto.

O poema “Gestos” finaliza com “uma definitiva mão/ que tudo anoitece. ”.  O que resta é pó, como vemos na última estrofe: “A única coisa que fica é o pó/ uma definitiva mão/ que tudo anoitece. ”. Nas variações dos modos de ir e vir, dos caminhos, dos desvios, esbarramos irremediavelmente com este impasse, este gesto: a mão da finitude. Isso que aponta para o que finda, como o dia na noite, a luz na escuridão. Isso que também não precisa ser entendido como começo ou fim, mas apenas como passagem. Passagem que, porém, só existe na tensão entre vida e morte, que não existe se tomarmos apenas uma ou apenas outra. Passagem que sempre se depara com o impasse definitivo: a morte. Lembro-me então de um verso da poeta carioca Bruna Mitrano, que diz: “em toda alteridade resta um pouco de fim”. É como penso este duplo gesto em um mesmo gesto: em toda alteridade resta um pouco de sim, pois a mão dá passagem, e a mesma mão que dá passagem, que diz sim, acena para o fim, porque tudo que é outro aponta para o fim.

Do ínfimo é um livro de passagens, caminhos, jornadas. É um lugar de abertura – a um chamado, a uma escuta, ao desejo, sobretudo. A isso que existe enquanto chama (na duplicidade desta palavra: verbo e substantivo), que não pode ser capturado nem fixado, que não obedece ao tempo cronológico, mas a um tempo outro, “entre a promessa e o exílio” (“O eco”), habitando o “limiar”, esse entrelugar, isso que não se reduz a um ou a outro, que não chega a ser, que só existe “no limiar da sombra ao ser”, que deve permanecer como possibilidade para continuar sendo desejo, que deve permanecer como potência para continuar chamando, ecoando como um chamado tal como nos sonhos ressoa a manifestação de nossos desejos mais ocultos. “Pode um homem sonhar, ainda,/ enquanto as asas do mal o assaltam?” (“O ar que as mulheres respiravam”). Talvez o sonho seja também o que resta, este reduto possível do desejo.

Caminhar com o ínfimo é poder retomar o começo e é poder começar de novo. Mas isso não significa retornar a um passado, a não ser que este passado abra caminhos ao que já é e ao que ainda vem a ser, ao que ainda não é, a não ser que ele emita “essa luz irrepetível/ abrindo caminhos da manhã/ inteira/ no som do que já é passado/ e ainda não aberto/ ao que virá. O que é.” (“Rachmaninov”). Retomar um começo que se localiza entre o que já foi e o que ainda não é, um começo que opera como um atalho, uma passagem que se abre a todos os tempos e resguarda como potencialidade o “ainda não”, o que ainda não está aberto ao que virá. Abrigando todos os tempos, estes versos entoam um “ritmo milenar”, ecoando tudo o que já aconteceu e, ao mesmo tempo, uma “voz sem memória”, uma voz que ecoa “de todos os famintos” que já existiram e de todos que ainda não chegaram a existir (“O lento passo dos nómadas”).

O começo retomado é evocado com um silvo que anuncia um modo diferente de seguir, como acontece por exemplo em “O eco”, com a repetição do verso “E nada nos era vedado”. Um ritmo que o ouvido reconhece como um bumbo cuja batida traz a atenção da escuta para uma diferença que virá. A repetição de um mesmo verso que dá início a algumas estrofes em alguns poemas mostra a força do efeito desta cadência ritual. A retomada pela repetição traz a força afirmativa, “[e]ssa força que reclama o alto/ e o nome de cada ser” (“Rachmaninov”), essa força que clama e reclama, essa força afirmativa da evocação como abertura a novos abismos e caminhos, novos impasses e passos como lemos em “O lento passo dos nómadas”: “convocando sombras/ nesse lugar que é caminho/ e muro, pergaminho/ fosso e ponte”. Neste compasso, que também se compõe de saltos (teria aqui um compasso, uma cadência?) ao começo (como na ursprung benjaminiana), há poemas cujos versos iniciais de cada estrofe retomam o primeiro verso do poema, mas retomam com um detalhe diferente, um deslocamento, apontando um outro começo, inscrevendo um novo começo, como se o poema se construísse neste poder começar de novo, como se cada estrofe fosse, “na dobra da língua”, uma volta diferente ao começo. Podemos ver isso em maior ou menor grau nos poemas, como por exemplo em “Os Peregrinos”, em “Um rio, um nome”, mas destaco aqui o exemplo de “Irmãos”, ressaltando os versos iniciais de cada estrofe: “Somos irmãos da luz”, “Somos irmãos da terra”, “Somos da sombra os nomes”, “Somos irmãos da escuridão”. Ir a este poema também é se demorar nesta repetição: “Somos”. Este poema evoca e afirma uma fraternidade: “Somos irmãos”. Ele fala de um “nós”, como o “nos” em “E nada nos era vedado”, no poema “O eco”. Do ínfimo evoca, e por isso convoca, um coletivo, um coletivo infimamente selvagem, no mínimo, um bando.

Juan de la Cruz, Rumi e Eckart povoam “O lento passo dos nómadas”. Eu arrisco a dizer que todos os passos Do ínfimo são nômades, são todos outros e todos abertos à alteridade, todos passagens, fazendo dos passos, dos impasses, dos saltos e dos abismos começos possíveis de transitar. Do ínfimo é dedicado a todos “que caminham descalços”, aos “que caminham de olhos cerrados”, aos “que caminham de rosto coberto”, aos que “caminham e nunca chegam/ peregrinos de um clarão sem nome” – versos iniciais do poema “Os Peregrinos”. Impossível não nos remeter aqui aos imigrantes neste tempo e à condição precária, frágil e inumana dos milhares e milhares de imigrantes em que toda travessia já é ruína, habitando, sem lugar, este lapso de tempo “entre a promessa e o exílio”: “Mediterrâneo, antes um nome que nos lembrava/ a glória dos deuses e a grandeza dos homens/ hoje um túmulo sem nome nem porquê. ”. São os nomes que não sabemos que escutamos neste livro, nomes que não podem ser lidos nem lembrados como os nomes das cidades das civilizações antigas, porque nem sequer restaram os nomes, como restaram Nimrud, Hatra, Palmira (“Choremos Nimrud, a jóia da Mesopotâmia”; “choremos Hatra, a bela”; “choremos Palmira, em meio de oásis,/ com as suas ruínas adormecidas no tempo”), cidades que podemos chorar as ruínas e velar a morte, ao contrário dos corpos dos quais nem nos chegam os restos. “Das cidades, das vozes” é este poema que dá corpo ao que tem menos corpo do que uma civilização inteira em ruínas. “Das cidades, das vozes” dá rosto à ausência que resta sem corpo. “Das cidades, das vozes” é a boca aberta assombrada quando vemos que as ruínas antigas encontram o amontoado de ruínas destas cidades que, hoje, são um dos maiores palcos de guerra. Se neste palco, outrora, as línguas já se confundiram, hoje sabemos que “[j]á não é a língua, este estranhamento/ que nos revira o estômago, são as imagens/ dos que tudo deixam para trás, rostos alucinados pelo medo. ”.

Em cada nômade solitário podemos ouvir uma multidão, como escutamos mais acima com Joseph K em Diante da Lei de Kafka, como escutamos em “A arqueologia de um rosto” em diálogo com a inscrição, a epígrafe, que dá início ao livro, As anotações de Malte Laurids Brigge de Rilke (que no Brasil se intitula Os cadernos de Malte Laurids Brigge), um rosto que se abre a tantos outros, como podemos escutar o eco de Celan, poeta que fazia dos salmos um apelo, como podemos escutar ainda o eco implícito de Walter Benjamin em todo o livro e, explicitamente, em “Retorno ao silêncio das nuvens”, poema dedicado a “WB”: “sinto-te entranhado no coração, no pensamento/ e sei que jamais me abandonará a tua sombra.”. Podemos ver a sombra de Benjamin, filósofo tão caro à poeta (sobre quem escreveu o livro O Anjo Melancólico), mais viva do que nunca nestes dois versos; dois versos que concentram a grandeza de uma declaração de amor. Nestes tempos, encontramos escritoras e escritores que vão aos mortos como quem vai ao amor. Maria João Cantinho é uma das que segue acompanhada das sombras, como da sombra deste filósofo que nos dizia que é preciso ver a força na fragilidade, que nos dizia que a História que deve ser contada não é a história dos vencedores, mas a história dos vencidos, a história que não cabe nas bandeiras. Essas, não servem mais. O poema “Dobrar o corpo” diz:

andamos descalços, mas continuamos a olhar
para esse céu de plástico e com estrelas mortiças
desenhadas só para alguns, que por detrás delas
se escondem, com suas siglas formidáveis
a tresandar a poder, a feder
hoje é o sapato, irmão, só te serve um
mas amanhã nem as calças te servirão
e o Inverno está à porta. E perguntas? Sonhas?

Poderíamos dizer que “esse céu de plástico e com estrelas mortiças” é uma metáfora para a bandeira da União Europeia, que também não serve mais, como as roupas são nenhuma garantia para aqueles que nada têm. “Dobrar o corpo” é ficar rente ao chão, nu, com pés descalços, da altura do que há de menor, da altura, ou da baixeza, dos vencidos. É por isso que, aqui, um nome se abre a todos, Heiner Müller (“Eu era Hamlet. Estava à beira-mar e falava, com a ressaca, na língua do blábláblá. Atrás de mim, as ruínas da Europa. ”) abre “Os nomes de deus”, em que se lê “Atrás de ti não há deuses nem poemas/ escrevem-se apenas os caminhos da morte,/ sim, já não há vencedores/ apenas vencidos// mas tu não vês,/ estás de costas voltadas/ e falas dos nomes de deus.” Neste livro, um nome se abre a todos, não porque ele fala a língua dos vencidos, mas talvez porque falar a língua dos vencidos é atestar a mudez da língua ao mesmo tempo em que se assombra com ela. Em “Abate diário” lemos: “porque só se pode sonhar/ no lugar de um outro, escrevo/ e ainda assim sucumbo/ numa mudez sem saída/ porque a língua não salva o olhar/ nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te. ”. É diante desta impossibilidade de tocar, desta interdição ao toque, ao contato, que devemos incansavelmente tentar dar corpo aonde o corpo falta, ainda que isso seja impossível. Mas o gesto reside aí: na tentativa de dar corpo aonde ele falta, na tentativa de dar corpo com a falta. “Balada de Czernowitz” é a inscrição nas costas dos mortos. Se um filósofo, Adorno, disse que não é possível escrever um poema após Auschwitz, se um poeta, Drummond, antes disso, falara que o último poeta morrera em 1914 e que todos nós não seríamos senão sobreviventes, e que o poema também termina como sobrevivente, se os primeiros versos desta Balada são “Ter-lhe-á dito que não era legítimo/ escrever poesia nas costas dos mortos de Auschwitz”, o que vemos neste poema é um anjo e, portanto, uma sombra, que “escreve poemas nas costas dos mortos”. O anjo, que segue também amputado, “de asas tolhidas”, “sabe menos do que um filósofo” (“mas tudo sabe do humano e da linguagem/ desse humano que vive para lá da morte”), é ainda mais ignorante, mas escreve ainda assim, para “dar nomes aos mortos”.

Neste livro, um nome se abre a todos porque “o tempo dos nomes” deve ser visto como um começo, um “tempo de um silêncio cheio/ e sem medo. ” (“O ar que as mulheres respiravam”). Do ínfimo é a escuta e o murmúrio de vozes, vozes em diálogo, evocando e convocando as sombras, colocando os mortos na condição de mortos-vivos, de fantasmas, e levando a crer que a nós, vivos, sobreviventes, tão próximos dos mortos, resta o assombro como uma tarefa ética, como um gesto ínfimo e mínimo de ir às sombras do nosso tempo, desdobrando-nos em gestos precários de sobrevivência (“Desdobra-se o nojo, o sangue, a vida”, como lemos em “Da visão em filigrana”) para nos dobrar por sobre os escombros: “Dobrar o corpo ou a língua, tanto faz/ para que a sombra nos salve/ destes dias” (“Dobrar o corpo”).

Mas, se andamos com as sombras, é porque sabemos que não há redenção, como diz o “Retorno ao silêncio das nuvens”: “procuramos, com o olhar em assombro/ […] e tudo o que descobrimos são as nossas mãos nuas”, porque a lei abate diariamente, porque ainda nos encontramos nos labirintos kafkianos, sem saída, buscando rotas de fuga, saídas possíveis diante dos impasses. Diante da barbárie que se repete, nos encontramos na pergunta aporética: “De que tempo somos, agora/ que a tempestade sopra de novo” (“A Besta”)?

Talvez não saibamos falar de tempos, mas apenas de “sombras de tempos”, como lemos no último poema que dá fim à terceira parte e última de poemas, “O baile final”. Se no começo encontramos uma decisão (“‘Não vou mandar limpá-lo’, decidiu”), no fim encontramos as perguntas: “cairá o palco ou tombarão as sombras? E o pintor, o que fará?”. Poderíamos acrescentar: e o poeta, o que fará?; e o fotógrafo?; e o cineasta? E todos os artistas que entram “a pique no optimismo da técnica”? Perguntas que apontam para uma aporia, um não saber, e, ao mesmo tempo, uma decisão: “importa antes permanecer/ e continuar neste palco”. Permanecer e continuar, como todo sobrevivente. Talvez não saibamos mais falar de tempos, mas daquilo que retorna para nos assombrar, como a presença de Baudelaire, Whitman, Pessoa, Eliot, “ou ainda a miragem de Orfeu”, atemporal como “uma irredutível/ e metafórica despedida” de tempos e de séculos e, talvez, ainda, deste tempo que, porém, não acabará, não chegará ao final como cantaram no fim do século XIX anunciando o XX, como cantaram no início do XX, durante o XX, no fim do XX, no início do XXI, como ainda cantam no XXI. Não à toa o espectro de Kafka paira ainda hoje, e com ele sabemos que o dia do Juízo Final é todo dia. Logo, este final que ainda cantamos, não vai chegar. E talvez precisemos nos perguntar não o que faremos ou “[o] que virá depois da música”, mas o que faremos se a música não acabar. E ela nunca acaba. Só na alteridade resta um pouco de fim. E de sim.

Antes do fim Do ínfimo, encontramos a “Caligrafia da Solidão”. Localizando-se fora do índice, colocada fora (dos poemas, do verso, do limite do livro de poemas) e por isso exposta (aos poemas, ao verso, ao limite do livro de poemas), a Parte II deste livro poderia ser lida como uma parte fora. E é enquanto parte-fora que ela encontra a outra parte, fazendo do livro este limiar em que a primeira parte pode ser vista como uma parte-fora em relação à segunda e vice-versa, só havendo partes-fora ou uma permuta de lugar que só existe se as partes estiverem em relação, só existindo o dentro se estiver em relação com o fora, só existindo, pois, se estiver em relação com. Esta parte poderia ser lida como uma passagem à prosa. Os versos dando passo à prosa. Mas poderia ser lida também como um poema, havendo uma potência de verso na prosa. Mas poderia ser lida também como um diálogo com Rumi, que comparece como epígrafe. Mas poderia ser lida também como uma dedicatória a Vicente Franz Cecim, ou como uma carta de amor ao poeta, tal como o poema a Benjamin. Mas poderia ser lida também como uma narrativa. Mas a outra parte, em versos, poderia ser lida também como uma narrativa. Desconfio, inclusive, que eu tenha lido os poemas em verso como uma narrativa. Enfim, Do ínfimo permite este encontro. Sem me demorar mais, após o meu lento passo pelos poemas, deixo aqui apenas um mínimo caminho de abertura para o mundo de uma escrita que se traça de mãos dadas com Vicente Franz Cecim. Esta prosa acontece deste encontro com o outro, com outros versos, a poesia do poeta paraense. Em entrevista, a poeta portuguesa disse: “Tenho uma forte relação com o Brasil, por exemplo, mas repara, é uma parte ínfima do Brasil, mais ligada ao Rio de Janeiro e à Amazónia (e não é toda, mas Belém do Pará). ”. Declara-se aí a forte relação da poeta portuguesa com esta parte grandiosa e ínfima do Brasil, a parte da Amazónia em Belém do Pará, e com esta parte ínfima e grandiosa que é o Rio de Janeiro. Declara-se que é uma poeta em diálogo, em relação com, em encontro com o ínfimo grandioso e com a grandeza no ínfimo. “Caligrafia da Solidão” se traça enquanto rastro de um encontro. Neste gesto, só há passagem. O resto é rosto, para além do começo e do fim, e antes do começo e do fim.

***

Danielle Magalhães nasceu em 1990 e vive no Rio de Janeiro. É graduada em História (UFF), mestra em Teoria Literária (UFRJ) e atualmente cursa o doutorado também em Teoria Literária (UFRJ), dedicando-se ao estudo sobre poesia brasileira contemporânea. Colabora com a Revista Caliban (Portugal) e já publicou ensaios, resenhas e poemas em revistas como Cult, Mallarmargens, Polichinello, Plástico Bolha, Pittacos e Germina. Edita, com Maíra Ferreira, a revista Oceânica (http://revistaoceanica.blogspot.com.br/ ). Lançou o megamíni “Quando o céu cair” (7Letras) em 2016.

 

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poesia

João Bosco da Silva (1985-)

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João Bosco da Silva nasceu em Bragança (1985). Passou a maior parte da sua infância e adolescência em Torre de Dona Chama. Estudou no Porto. Vive na Finlândia.

Livros de poesia: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (não edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Roncos (Enfermaria 6 , 2017) ed.digital, Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017).

Algumas participações em antologias e revistas: Revista “Inútil” n.2, “Meditações Sobre O Fim”, HARIEMUJ, “Voo Rasante”, Mariposa Azual, “Caderno 3”, Enfermaria 6, “Flanzine 8 – Lol&Pop”, Flan de Tal, “Bukakke”, Copus Dei, “Persona”, do lado esquerdo, “102ª Leva”, Diversos Afins (Brasil), “Submarino 1”, IPSAR, 2016 (Itália), “Flanzine 13 – EUROPA”, Flan de Tal.

 

sergio maciel

* * *

Ronco
– the poem oughta be worth some beer
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

Turku

§

Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a recepcionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquitecta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

Turku

§

Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

§

Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ó pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ó pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

Turku

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