poesia, tradução

Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

Anúncios
Padrão
poesia, tradução

Poesia nórdica | Edith Södergran (1892—1923), por Luciano Dutra

Edith Södergran (n. 4 de abril de 1892 em São Petersburgo na Rússia czarista, f. 24 de junho de 1923 em Raivola, na época pertencente à Finlândia e atualmente parte do território da Rússia), foi uma poeta finlandesa de expressão sueca. Publicou em vida apenas quatro poemários: Dikter (”Poemas”, 1916), Septemberlyran (”A lira de setembro”, 1918), Rosenaltaret (”O altar das rosas”, 1919) e Framtidens skugga (”A sombra do futuro”, 1920). Sua obra poética é completada pelo volume póstumo Landet som icke är (”O país que não existe”, 1925). Ceifada pela tuberculose precocemente (com apenas 31 anos), a poeta que bebeu do simbolismo francês, do expressionismo alemão e do futurismo russo, que misturava Nietzche e Rudolf Steiner, foi uma das primeiras a aplicar o modernismo à poesia de expressão sueca, mas não teve tempo de gozar do reconhecimento e do renome que sua poesia angariou mundo afora. Certamente contribuiu para a fama post mortem da poeta a escassez de informações biográficas e a mitificação da persona Edith Södergran promovida pela amiga Hagar Olsson e pelo primeiro biógrafo, Gunnar Tideström. A poesia de Edith influenciou a imagética, o ritmo e o estilo de livre associação presentes na poesia moderna e também na música popular em língua sueca de ambos os lados da fronteira (Finlândia e Suécia).

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

PRIMAVERA NÓRDICA

Todos os meus castelos de ar derreteram feito neve,
todos os meus sonhos escorreram feito água,
de tudo o que amei resta-me apenas
um céu azul e um punhado de estrelas pálidas.
O vento se move lentamente entre as árvores.
O vazio repousa. A água cala.
O velho abeto segue acordado e pensando
na nuvem alva que beijou num sonho.

NORDISK VÅR

Alla mina luftslott ha smultit som snö,
alla mina drömmar ha runnit som vatten,
av allt vad jag älskat har jag endast kvar
en blå himmel och några bleka stjärnor.
Vinden rör sig sakta mellan träden.
Tomheten vilar. Vattnet är tyst.
Den gamla granen står vaken och tänker
på det vita molnet, han i drömmen kysst.

§

TRÊS IRMÃS

A primeira irmã amava os doces morangos-silvestres,
a segunda irmã amava as rubras rosas,
a terceira irmã amava as coroas de flores dos mortos.

A primeira irmã se casou:
dizem que se tornou feliz.

A segunda irmã amou com toda a sua alma,
dizem que se tornou infeliz.

A terceira irmã se converteu em santa,
dizem que há de ganhar a coroa eterna da vida.

TRE SYSTRAR

Den ena systern älskade de söta smultronen,
den andra systern älskade de röda rosorna,
den tredje systern älskade de dödas kransar.

Den första systern blev gift:
man säger, att hon är lycklig.

Den andra systern älskade av hela sin själ,
man säger att hon blev olycklig.

Den tredje systern blev ett helgon,
man säger, att hon skall vinna det eviga livets krona.

§

BELEZA

O que é a beleza? — perguntam-se todas as almas —
a beleza é cada excesso, cada brasa, cada saturação e cada enorme infortúnio;
a beleza é ser fiel ao verão e continuar nu até o outono;
a beleza é o atavio de penas do papagaio ou o pôr do sol que prenuncia a borrasca;
a beleza é um traço forte e uma entonação própria: sou eu,
a beleza é um dano enorme e uma procissão silenciosa de tristezas,
a beleza é abano suave do leque que põe em movimento à roda do destino;
a beleza é ser sensual como a rosa ou tudo perdoar só porque o sol brilha;
a beleza é a cruz preferida do monge ou o colar de pérolas que a dama ganhou do seu amante,
a beleza não é a sopa rala de que os poetas se servem,
a beleza é travar a guerra e buscar a felicidade,
a beleza é servir a poderes maiores.

SKÖNHET

Vad är skönhet? Fråga alla själar —
skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad och varje stort armod;
skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill hösten;
skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången som bebådar storm;
skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,
skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,
skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;
skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta allting för att solen skiner;
skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen får av sin älskare,
skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera sig själva,
skönhet är att föra krig och söka lycka,
skönhet är att tjäna högre makter.

§

O INFERNO

Ah como é aprazível o inferno!
No inferno ninguém fala da morte.
O inferno está emparedado nas entranha da terra
e é adornado de flores incandescentes…
No inferno ninguém diz palavras ao léu…
No inferno ninguém bebeu nem ninguém dormiu,
ninguém descansa nem ninguém se senta quieto.
No inferno ninguém fala, mas todos gritam,
lá as lágrimas não são lágrimas e todas as tristezas são inertes.
No inferno ninguém fica doente nem ninguém fica cansado.
O inferno é imutável e eterno.

HELVETET

O vad helvetet är härligt!
I helvetet talar ingen om döden.
Helvetet är murat i jordens innandöme
och smyckat med glödande blommor…
I helvetet säger ingen ett tomt ord…
I helvetet har ingen druckit och ingen har sovit
och ingen vilar och ingen sitter stilla.
I helvetet talar ingen, men alla skrika,
där äro tårar icke tårar och alla sorger äro utan kraft.
I helvetet blir ingen sjuk och ingen tröttnar.
Helvetet är oföränderligt och evigt.

§

A ALMA QUE ESPERA

Estou só em meio às árvores à beira de um lago,
vivo em harmonia com os velhos abetos do litoral
e em secreto pacto com todas as jovens tramazeiras.
Sozinha permaneço deitada e aguardo,
não vi ninguém andar por aqui de passagem.
Flores enormes me espiam do alto de seus pedúnculos,
lianas amargas se aninham no meu colo,
só tenho um nome para isso, e esse nome é amor.

DEN VÄNTANDE SJÄLEN

Jag är allena bland träden vid sjön,
jag lever i vänskap med strandens gamla granar
och i hemligt samförstånd med alla unga rönnar.
Allena ligger jag och väntar,
ingen människa har jag sett gå förbi.
Stora blommor blicka ned på mig från höga stjälkar,
bittra slingerväxter krypa i min famn,
jag har ett enda

Padrão
poesia

Poesia nórdica| Karin Boye, por Luciano Dutra

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

• • •

Três versões de I rörelse, poema de Karin Boye (1900-1941), por Luciano Dutra 

(1)
De passagem

O melhor dia não é o que satisfaz:
o melhor dos dias é um dia voraz.

Nossa viagem quiçá até tem um fim
mas a estrada é o que vale pra mim.

Bom é descansar num fim de tarde:
o fogo se acende e o pão se reparte.

No lugar onde dormimos apenas um dia
o sono é tranquilo e o sonho, melodia.

Desperta, que o novo dia já te incita!
Tão grande, nossa aventura é infinita.

§

(2)
Em trânsito

O melhor dia é o que não se consome
pois o melhor dia é um dia de fome.

Pode até ser que haja um fim da linha
mas o que de fato importa é o caminho.

Ai, como é bom parar ao entardecer,
o pão repartir, a fogueira acender.

No lugar onde passamos uma noite única,
o sono é suave e os sonhos são música.

Acorda! Que o sol já renasce no levante.
Nossa aventura é sem fim, de tão grande.

§

(3)
Em movimento

O melhor dia não é o de saciedade
mas sim quando a sede ainda arde.

Algum destino terá a nossa jornada
mas a viagem vale mais que nada.

Parada noturna é o melhor destino:
a fogueira acesa e o pão peregrino.

Lá onde a gente dorme uma vez só
é doce o sono e os sonhos sonoros.

Acorda! Que o novo dia amanheça!
Infinita é a nossa aventura imensa.

§

I rörelse

Den mätta dagen, den är aldrig störst.
Den bästa dagen är en dag av törst.

Nog finns det mål och mening i vår färd —
men det är vägen, som är mödan värd.

Det bästa målet är en nattlång rast,
där elden tänds och brödet bryts i hast.

På ställen, där man sover blott en gång,
blir sömnen trygg och drömmen full av sång.

Bryt upp, bryt upp! Den nya dagen gryr.
Oändligt är vårt stora äventyr.

Padrão
poesia, tradução

tomas tranströmer por enaiê mairê azambuja


Tranströmer 1955

 

eu já disse nalgum post passado que um dos problema da literatura mundial é que as periferias se desconhecem mutuamente. todos olham para o centro (em geral o econômico é o literário) & para si mesmos, até que alguma mensagem do centro nos faça lembrar do resto (não se trata de geografia — nós ignoramos o que acontece na maior parte dos países latino-americanos —. nem de língua — as literaturas africanas de língua portuguesa também são arquipélagos desconhecidos.).

foi o caso recente da polonesa wislawa szymborska que, ao receber o nobel, passou a ser reconhecida no resto do mundo (enquanto zbigniew herbert, da mesma terra & época, permanece pouco conhecido), é o caso do sueco tomas tranströmer, outro vencedor do nobel (enquanto outros suecos desfrutam da sua perene mudez em termos mundiais). sua obra, no entanto, ainda permanece pouco conhecida pela falta de traduções nacionais. daí a importância do trabalho de enaiê mairê azambuja (como o de regina przybycien, tradutora de symborska), quando esses outros periféricos também chegam ao centro &, com isso, aos nossos olhos. eu diria que esse é o passo possível, enquanto não conseguimos olhar diretamente para mais longe.

guilherme gontijo flores

ps: já repararam como as fotos famosas acompanham a idade do estrelato? tranströmer – como szymborska – nasceu velho; parece nunca ter sido um poeta jovem, a caminho. é por isso que escolhi uma foto menos comum, de 1955, quando o rapazote tinha seus 24 anos.

Allegro

Jag spelar Haydn efter en svart dag
och känner en enkel värme i händerna.

Tangenterna vill. Milda hammare slår.
Klangen är grön, livlig och stilla.

Klangen säger att friheten finns
och att någon inte ger kejsaren skatt.

Jag kör ner händerna i mina haydnfickor
och härmar en som ser lugnt på världen.

Jag hissar haydnflaggan – det betyder:
»Vi ger oss inte. Men vill fred.«

Musiken är ett glashus på sluttningen
där stenarna flyger, stenarna rullar.

Och stenarna rullar tvärs igenom
men varje ruta förblir hel.

Allegro

Depois de um dia negro, eu toco Haydn,
e sinto um leve calor nas mãos.

As teclas estão prontas. Marteladas gentis.
o som é vivaz, verde e cheio de silêncio.

O som anuncia que a liberdade existe
e que alguém não paga impostos a César.

Enfio as mãos nos meus haydnbolsos
e ajo como um homem tranquilo com tudo isto.

Alço minha haydnbandeira. O aviso é:
“Não nos rendemos. Mas queremos paz.”

A música é uma casa de vidro sobre um declive;
rochas voando, rochas rolando.

As rochas rolam direto para dentro da casa
mas cada vidraça ainda está inteira.

Lamento

Han lade ifrån sig pennan.
Den vilar stilla på bordet.
Den vilar stilla i tomrummet.
han lade ifrån sig pennan.

För mycket som varken kan skrivas eller förtigas!
han är lamslagen av något som händer långt borta fast den underbara kappsäcken dunkar som ett hjärta.

Utanför är försommaren.
Från grönskan kommer visslingar – människor eller fåglar?
Och körsbärsträd i blom klappar om lastbilarna som kommit hem.

Det går veckor.
Det blir långsamt natt.
Malarna sätter sig på rutan:
små bleka telegram från världen.

Lamento

Ele largou a caneta.
Ela permanece lá parada.
Ela permanece lá parada no espaço vazio.
Ele largou a caneta.

Tanto que não pode ser escrito nem mantido aqui dentro!
Seu corpo é tensionado por algo acontecendo longe dali
embora a curiosa bolsa noturna bata como um coração.

Lá fora, o fim da primavera.
Assobio vindo da folhagem – pessoas ou pássaros?
E as cerejeiras em flor afagam os caminhões pesados na volta para casa.

Semanas passam.
A noite chega lentamente.
Mariposas pousam na vidraça:
Pequenos telegramas pálidos do mundo.

Sorgegondol nr 2

I
Två gubbar, svärfar och svärson, Liszt och Wagner, bor vid
Canal Grande
tillsammans med den rastlösa kvinnan som är gift med
kung Midas
han som förvandlar allting han rör vid till Wagner.
Havets gröna köld tränger upp genom golven i palatset.
Wagner är märkt, den kända kasperprofilen är tröttare
än förr
ansiktet en vit flagg.
Gondolen är tungt lastad med deras liv, två tur och retur
och en enkel.

II
Ett fönster i palatset flyger upp och man grimaserar i det
plötsliga draget.
Utanför på vattnet visar sig sorgondolen paddlad av två
enårade banditer.
Liszt har skrivit ner några ackord som är så tunga att de
borde skickas
till mineralogiska institutionen i Padova för analys.
Meteoriter!
För tunga för att vila, de kan bara sjunka och sjunka genom
framtiden ända ner
till brunskjortornas år.
Gondolen är tungt lastad med framtidens hopkurade stenar.

III
Gluggar mot 1990.

25 mars. Oro för Litauen.
Drömde att jag besökte ett stort sjukhus.
Ingen personal. Alla var patienter.

I samma dröm en nyfödd flicka
som talade i fullständiga meningar.

IV
Bredvid svärsonen som är tidens man är Liszt en maläten
grandseigneur.
Det är en förklädnad.
Djupet som prövar och förkastar olika masker har valt just
den här åt honom –
djupet som vill stiga in till människorna utan att visa sitt
ansikte.

V
Abbé Liszt är van att bära sin resväska själv genom snöglopp
och solsken
och när han en gång skall dö är det ingen som möter vid
stationen.
En ljum bris av mycket begåvad konjak för honom bort mitt i
ett uppdrag.
Han har alltid uppdrag.
Tvåtusen brev om året!
Skolpojken som skriver det felstavade ordet hundra gånger
innan han får gå hem.
Gondolen är tungt lastad med liv, den är enkel och svart.

VI
Åter till 1990.

Drömde att jag körde tjugo mil förgäves.
Då förstorades allt. Sparvar stora som höns
sjöng så att det slog lock för öronen.

Drömde att jag ritat upp pianotangenter
på köksbordet. Jag spelade på dem, stumt.
Grannarna kom in för att lyssna.

VII
Klaveret som har tigit genom hela Parsifal (men lyssnat)
får äntligen säga något.
Suckar… sospiri…
När Liszt spelar ikväll håller han havspedalen nertryckt
så att havets gröna kraft stiger upp genom golvet och flyter
samman med all sten i byggnaden.
Godafton vackra djup!
Gondolen är tungt lastad med liv, den är enkel och svart.

VIII
Drömde att jag skulle börja skolan men kom för sent.
Alla i rummet bar vita masker för ansiktet.
Vem som var läraren gick inte att säga.

Kommentar
Vid årsskiftet 1882/1883 besökte Liszt sin dotter Cosima och hennes man, Richard Wagner, i Venedig. Wagner dog några månader senare. Under denna tid komponerade Liszt två pianostycken som publicerades under titeln ”Sorgegondol”.

Gôndola Lúgubre nr 2

I
Dois senhores, sogro e genro, Liszt e Wagner, vivem no
Canal Grande
junto com a mulher nervosa que é esposa do
rei Midas
ela que transforma tudo o que toca em Wagner.
O verde gelado do oceano escoa através dos andares do palácio.
Wagner está marcado, seu reconhecido perfil Kaspar
decadente,
sua face é uma bandeira branca.
A gôndola pesada carrega as suas vidas, duas viagens de ida e volta
e uma de ida.

II
Uma janela do palácio está escancarada e alguém faz caretas contra
a súbita rajada de vento.
Lá fora na água, a gôndola lúgubre passa, movida por dois remadores
criminosos.
Liszt compôs alguns acordes tão pesados que deveriam
ser entregues
para análise no Instituto de Mineralogia em Pádua.
Meteoritos!
Muito pesados para ficar onde estão, eles simplesmente afundam e afundam
ao longo dos anos
até alcançar o ano dos camisas-marrons.
A gôndola pesada carrega o amontoado de pedras do futuro.

III
Pequena abertura para 1990.

25 de Março: preocupação com a Lituânia.
Sonhei que visitava um grande hospital.
Ninguém a trabalho. Todos pacientes.

No mesmo sonho, uma menina recém-nascida
falava frases inteiras.

IV
Diferente do genro, que é modernista, Liszt é um antiquado
grand seigneur.
Um disfarce.
A profundidade, que examina e rejeita diferentes máscaras, escolheu
apenas esta para ele –
profundidade que invadirá o homem sem mostrar o rosto.

V
O velho Liszt está acostumado a carregar sua própria bagagem debaixo de neve e
e sol
e quando ele visitar a morte, ninguém o encontrará na
estação.
Um sopro quente de um bom conhaque levou-o embora no meio de
um encargo.
Ele sempre tem encargos.
Duas mil cartas por ano!
O aluno deve escrever a palavra certa cem vezes
antes que ele possa ir pra casa.
A gôndola pesada carrega vida, é simples e negra.

VI
De volta à 1990.

Sonhei que dirigia por 200 quilômetros em vão.
Então, tudo se ampliou. Pardais grandes como galinhas
cantaram tão alto que meus ouvidos se fecharam.

Sonhei que havia esboçado teclas de piano
na mesa da cozinha. Toquei-as, em silêncio.
Os vizinhos vieram para ouvir.

VII
O piano, que tem estado em silêncio durante todo o Parsifal
(mas que escutava) pode finalmente dizer algo.
Suspiros… sospiri…
Esta noite, quando Liszt toca, ele mantém pressionado o pedal do mar
para que a energia verde do oceano suba pelo chão e penetre
cada pedra do edifício.
Boa noite, bela profundeza!
A gôndola pesada carrega vida, é simples e negra.

VIII
Sonhei que eu começaria a escola, mas cheguei atrasado.
Todos na sala usavam máscaras brancas nos rostos.
Impossível saber quem era o professor.

Comentário
Ao fim do ano de 1882 e no começo do ano de 1883, Liszt visitou sua filha Cosima e o marido Richard Wagner, em Veneza. Wagner faleceu alguns meses mais tarde. As duas peças para piano de Liszt, publicadas sob o título A Gôndola Lúgubre, foram compostas durante este tempo.

Svarta Vykort

I
Almanackan fullskriven, framtid okänd.
Kabeln nynnar folkvisan utan hemland.
Snöfall i det blystilla havet. Skuggor
brottas på kajen.

II
Mitt i livet händer att döden kommer
och tar mått på människan. Det besöket
glöms och livet fortsätter. Men kostymen
sys i det tysta.

Cartões-Postais Pretos

I
O diário completamente escrito, futuro incerto.
O cabo sem pátria murmura uma canção popular.
A neve cai no mar cinzento. Sombras
combatem no cais.

II
Na metade da sua vida, a morte aparece
e toma as suas medidas respectivas. Esquecemos
a visita e vivemos normalmente. Mas alguém
costura o terno em silêncio.

April och Tystnad

Våren ligger öde.
Det sammetsmörka diket
krälar vid min sida
utan spegelbilder.

Det enda som lyser
är gula blommor.

Jag bärs i min skugga
som en fiol
i sin svarta låda.

Det enda jag vill säga
glimmar utom räckhåll
som silvret
hos pantlånaren.

Abril e Silêncio

A primavera jaz abandonada
Uma valeta de cor roxa escura
move-se ao meu lado
sem restituir nenhuma imagem.

A única coisa que brilha
são algumas flores amarelas.

Carrego-me dentro de minha
própria sombra como um violino
em seu estojo.

A única coisa que quero dizer
paira bem fora do alcance
como a prataria da família
numa casa de penhores.

Romanska Bågar

Inne i den väldiga romanska kyrkan trängdes turisterna i halvmörkret.
Valv gapande bakom valv och ingen överblick.
Några ljuslågor fladdrade.
En ångel utan ansikte omfamnade mig
och viskade genom hela kroppen:
“Skäms inte för att du är människa, var stolt!
Inne i dig öppnar sig valv bakom valv oändligt.
Du blir aldrig färdig, och det är som det skall.”
Jar var blind av tårar
och fostes ut på den solsjudande piazzan
tillsammans med Mr och Mrs Jones, Herr Tanaka och Signora Sabatini
och inne i dem alla öppnade sig valv bakom valv oändligt.

Arcos Românicos

Turistas se aglomeravam em direção ao claro-escuro da enorme
igreja Românica.
Galeria surgindo atrás de galeria, e nenhuma perspectiva.
Chamas de velas bruxuleavam.
Um anjo cujo rosto não pude ver me abraçou
e seu sussurro percorreu todo o meu corpo:
“Não se envergonhe por ser humano, tenha orgulho!
Dentro de você, uma galeria se abre atrás da outra sem cessar.
Você nunca será completo, e é assim que deve ser.”
Lágrimas me cegaram
à medida que fomos sendo conduzidos para a piazza ensolarada,
juntos com o Sr. e a Sra. Jones, Herr Tanaka e a Signora
Sabatini;
dentro de cada um galerias surgiam atrás de galerias sem cessar.

* * *

Tomas Gösta Tranströmer, poeta, tradutor, psicólogo, pianista e (acredite se quiser) uma espécie de entomologista, nasceu em Estocolmo em 1931. Tem mais de 15 coletâneas de poesia publicadas, as quais foram traduzidas para mais de 60 línguas. Em 2011, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, onze anos após ter sofrido um derrame que o deixou parcialmente paralisado, mas que não o impediu de escrever e tocar piano. Seu último livro, Den Stora Gåtan, foi lançado em 2004.

 

Enaiê Mairê Della Torre Azambuja nasceu em Curitiba em 1990. Em 2012, formou-se em Letras pela Universidade Federal do Paraná e atualmente cursa o mestrado em Literatura Inglesa na Universidade de Estocolmo. Foi coeditora do blog-revista Sinuosa, onde alcançou a possibilidade de escrever sobre tudo o que lhe interessa: literatura, música, cinema, filosofia. Seu livro com poemas de Tranströmer, Pequenos telegramas pálidos do mundo,  está no prelo pela Cia. das Letras.

Padrão