poesia, tradução

Anna Świrszczyńska (1909-1984)

Anna Świrszczyńska, em 1965

Anna Świrszczyńska, em 1965

Anna Świrszczyńska nasceu em 1909, em Varsóvia, e teve uma infância de pobreza. Começou a publicar seus poemas nos anos 30, continuando a escrever durante a Segunda Guerra Mundial – quando participou da resistência polonesa e conheceu Czesław Miłosz. A experiência da guerra deixaria marcas profundas em sua obra, culminando com o volume de versos Budowałam barykadę (Eu construí a barricada)Outra de suas temáticas centrais em suas obras é o corpo feminino.
Faleceu em 1984.
Luciano R. Mendes
* * *

PADAM NA ZIEMIĘ

Padam na ziemię,

ustami do czarnej ziemi.

Mówię: Boże, którego nie ma,

nie daj, żebym zrobiła krzywdę

człowiekowi.

Niech mi wpierw odpadnie ręka,

niech mnie spali

piorun.

Padam na ziemię,

ustami do żywej ziemi.

Mówię: Boże, którego nie ma

na najdalszej gwieździe,

który jesteś we mnie,

Boże doskonały, jak ja jestem nikczemna,

Boże okrutny,

oddaję ci na krwawą ofiarę

największe szczę
ście
mojego życia.

EU CAIO NA TERRA

Eu caio no chão,
de boca na terra preta.
Falo: Deus, que não existe,
não deixeis os homens
me maltratarem.

Deixai que eu caia com as mãos primeiro,
deixai-me ser queimada
por um raio.

Eu caio no chão,
de boca na terra viva.
Falo: Deus, que não está
na estrela mais distante,
que está em mim,
Deus perfeito, tanto quanto sou ímpia
Deus cruel,
te ofereço um sacrifício de sangue
a maior alegria
da minha vida.

JESTEM NAPEŁNIONA MIŁOŚCIĄ

Jestem napełniona miłością,

jak wielkie drzewo wiatrem,

jak gąbka oceanem,

jak wielkie życie cierpieniem,

jak czas śmiercią.

ESTOU REPLETA DE AMOR

Estou repleta de amor
como uma grande árvore ao vento,
como uma esponja no mar,
como o grande sofrimento da vida,
como a hora da morte.

TANIEC MORDU
Odchodzę.

Nie dałeś mi cierpienia,

więc nie oczekuj ode mnie

nienawiści.

To zbyt okazały i ciężki podarunek.

Chyba nie jesteś wart

rzeczy tak kosztownej

jak strzęp żywego ciała.

Zabiłam cię w sobie łatwo.
Oczyszczona
tańczę radosny taniec mordu.

DANÇA DO ASSASSINATO

Vou embora.
Você não me fez sofrer,
então não espere que eu
te odeie.
Esse também é um presente grave.
Acho que você não vale a pena
coisas tão custosas
como rasgar um corpo vivo.

Foi fácil matar você em mim.
Purificada
eu danço alegre a dança do assassinato.

PIERWSZY MADRYGAŁ

Ta noc miłosna

była czysta

jak starodawny instrument muzyczny

i powietrze

wokół niego.

Była bogata

jak uroczystość koronacyjna.

Była cielesna

jak brzuch rodzącej

i uduchowiona

jak liczba.

Była tylko chwilą życia,

a chciała zostać wnioskiem z życia.

Umierając

chciała poznać zasadę świata.

Ta noc miłosna

miała ambicje.

PRIMEIRO MADRIGAL

Aquela noite de amor
foi pura
como um instrumento musical antigo
e o vento
ao seu redor.

Foi rica
como uma cerimônia de coroação.
Foi corpórea
como uma barriga grávida
e espiritual
como os números.

Foi apenas um momento da vida,
e queria ser a definição dessa vida.
Morrendo
queria conhecer o princípio do mundo.

Aquela noite de amor
tinha ambições.

TAKA SAMA W ŚRODKU

Idąc na ucztę miłosną do ciebie

zobaczyłam na rogu

starą żebraczkę.

Wzięłam ją za rękę,

pocałowałam w delikatny policzek,

rozmawiałyśmy, ona była

taka sama w środku jak ja,

z tego samego gatunku,

poczułam to od razu,

jak pies poczuje węchem 

psa drugiego.

Dałam jej pieniądze,

nie mogłam się z nią rozstać.

Człowiekowi potrzebny przecież 

ktoś bliski.

I potem już nie wiedziałam,

po co ja idę do ciebie.

A MESMA COISA POR DENTRO

Eu ia até você para um festim de amor
quando vi na esquina
uma mendiga velha.

Eu a peguei pela mão,
dei-lhe um beijo delicado na bochecha,
nós conversamos e ela era
como eu por dentro,
da mesma espécie,
percebi de uma só vez,
como um cachorro que sente o cheiro
dum outro cachorro.

Eu lhe dei dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Os seres humanos precisam de alguém
que lhes seja próximo.

E depois ainda não entendi
pra que é que fui até você.

(Anna Świrszczyńska, trad. Luciano R. Mendes)

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Irit Amiel (1931), por Luciano R. Mendes

Irit Amiel

Irit Amiel nasceu em Częstochowa, na Polônia, em 1931, sua origem judaica (a família de seu pai, Leon Librowicz, provavelmente consistia de judeus fugidos de Portugal e estabelecidos em terras alemãs cerca de 400 anos antes, de onde foram para a Polônia). Durante a Segunda Guerra Mundial ficou algum tempo no Gueto de Częstochowa, de onde escapou. Com documentos falsos e a ajuda de poloneses católicos, sobreviveu à Shoah. Depois da guerra conheceu Itzak Cukierman, uniu-se à Bricha e emigrou para Israel. Lá viveu inicialmente em um Kibutz e, depois, em Tel Aviv.

Sua carreira literária começou bastante tarde, apenas em 1994, com a coletânea de poemas de língua hebraica, ‘Exame do Holocausto’. Nos anos seguintes passaria a escrever poesia e prosa em língua polonesa, sempre a respeito dos temas da Shoah e da sua condição de sobrevivente.

Luciano R. Mendes

* * *

Starość

Z ciekawością i przerażeniem
jak w dziką knieję
wchodzę w starość

Stroma ścieżka
bezpowrotnie prowadzi
w dół

Nic nie powróci
Niczego nie da się naprawić
Co krok czyha zasadzka
W cieniu każdej paproci przepaść

Czy to już wyrok ostateczny?
Zniknę i wszystko potoczy się
jak gdyby nigdy nic

Beze mnie

Velhice

Com interesse e medo
como numa mata virgem
entro na velhice.

Um caminho íngreme
que inevitavelmente leva
para baixo.

Não tem volta.
Nada pode ser corrigido.
Em cada esquina espreita uma emboscada
Na sombra de cada samambaia – um abismo.

Já é o juízo final?
Eu desapareço e tudo continua
como se nada acontecesse

sem mim

Soir de Paris

Moja pachnąca paryskim wieczorem matka
pozostawiła na świecie szarą smugę dymu,
plik pożółkłych listów żydowskiej dziewczyny,
u progu szczęścia i nieszczęścia,
i moje stare żylaste dłonie muskające
o szarej godzinie głowy jej sześciu
izraelskich prawnuków.

Soir de Paris

Minha mãe de cheiro de anoitecer em Paris
deixou no mundo um rastro de fumaça cinza,
uma pilha de cartas amareladas de moças judias,
no limiar entre felicidade e tristeza
minhas velhas mãos musculosas acariciando,
à hora cinzenta, as cabeças de seus seis
netos israelenses.

Nie zdążyłam

Nie zdążyłam do Treblinki na czas
przyjechałam spóźniona o pięćdziesiąt lat
drzewa stały nago bo była jesień
chciałam uciec natychmiast
bo jak rekwizyt stał tam rdzewiejący pociąg
i cicho szumiał las.
Było pięknie szaro spokojnie pusto
i tylko wiatr muskał ziemię drzewa
kamienie i nas
gasząc naszą świeczkę
raz po raz.

A Dita powiedziała – widzisz dobrze że nie zdążyłaś
i teraz jesteś moją starą mamą i objęła mnie mocno
i zaśmiała się smutno

Não cheguei a tempo

Não cheguei a tempo em Treblinka
atrasei-me uns cinquenta anos
as árvores nuas pois era outono
e eu queria fugir de uma vez
pois lá estava, como uma réplica, o trem enferrujado
e os murmúrios quietos da floresta.
Era o vazio: belo, cinzento e plácido
só o vento tocava a terra e as árvores
as pedras e nós
apagando as velas
uma a uma.

E Dita disse – veja só, que coisa boa que você se atrasou
e agora é a minha velha mãezinha e me abraçou com força
e sorriu com tristeza.

Ukraińska Akwarela

Na górze jest modre niebo
Popstrzone białymi chmurkami

Na dole jest beżowy dół
wysypany różowymi cukierkami

Na krawędzi dołu stoją szare
żydowskie dzieci z żółtą łatą

Dwaj zielonkawo-szarzy Niemcy
stoją na seledynowej murawie

Popielate dzieci skaczą do dołu
po porozrzucane cukierki

Pierwszy Niemiec szkarłatnie strzela
do nich kiedy są jeszcze w powietrzu

Drugi obrzuca je różowymi cukierkami
jak na Bar-Mycwie w Synagodze

A na lśniącej klamrze pasa obaj mają
napisane Gott mit uns

Aquarela Ucraniana

Em cima, o céu cerúleo
Manchado com nuvens brancas

Em baixo o solo bege
polvilhado com doces cor-de-rosa

E na beirada de baixo estão cinzentas
crianças judias com faixas amarelas

Dois alemães cinza-esverdeados
contra um muro verde celadon

As crianças cinzentas saltam para baixo
atrás das balas espalhadas

O primeiro alemão dispara projéteis escarlates
enquanto eles ainda estão no ar

Os segundo os cobre com doces cor-de-rosa
como no Bar-Mitzva, na Sinagoga

E nas fivelas dos cintos os dois levam
a inscrição Gott mit uns.

(poemas de Irit Amiel, trad. de Luciano R. Mendes)

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wislawa szymborska (1923-2012)

este singelo post do ano retrasado foi tirado do semifalecido viagem de cabeceira, um projeto abortado, porque achei por bem ressuscitá-lo pelo primeiro aniversário de morte de wislawa szymborska (2012).

* * *

pintura anônima do séc. xi; são savino & são cipriano são torturados.

pintura anônima do séc. xi; são savino & são cipriano são torturados.

não costumo dar lá grandes bolas pra prêmios & premiados literários – não que tenha por princípio não lê-los, mas poucos realmente me agradam, então sempre estou desligado dos resultados gerais.

foi esse o caso com wislawa szymborska (n. 1923), que ganhou o nobel de literatura em 1996, & me era uma ilustre desconhecida (fora um ou outro poema, que já tinha me passado uma boa impressão) até semana passada… assim digo em tom de mea culpa: pegar um fim de domingo pra descobrir boa literatura que a nossa própria ignorância vinha nos roubando, taí uma coisa que alegra o dia, a semana, o mês.

fiquei abismado – & deslumbrado – com a lucidez da poesia de szymborska (“sou lúcido: nada de estéticas com coração / merda! sou lúcido.” diria álvaro de campos; porém a lucidez dessa poeta polonesa não tem nada a ver com a histeria de álvaro de campos), & mais ainda porque nada naquela lucidez a desumanizava – um risco tão grande dos lúcidos -; ao contrário, só aumentava sua humanidade, mas sem cair no demasiado humano, que tão pouco interessa…

assim pensei em postar dois poemas em 2 ou mais traduções, já que não sei patavinas de polonês; por fim, fiquei com as 2 que já conhecia em português e mais uma que pude encontrar em inglês. agora, reutilizando este post, decidi ampliar com mais uma tradução em espanhol, de uma edição colombiana.

uma coisa é certa: a julgar pelas diferenças entre as traduções a suposta singeleza do texto de szymborska não passa de ilusão de ótica.

guilherme gontijo flores

Tortura

Nada mudou.
O corpo sente dor,
tem que comer, respirar, dormir,
a pele fina, o sangue sob a pele,
um bom estoque de dentes e unhas,
os ossos frágeis,
as juntas que se distendem.
Na tortura tudo isto conta.

Nada mudou.
O corpo treme como tremia
antes da fundação de Roma e depois,
no século vinte antes e depois de Cristo.
A tortura existe como existia, apenas o mundo ficou menor
e tudo que acontece, acontece como ali ao lado.

Nada mudou.
Apenas há mais gente.
Além das velhas acusações, surgem outras,
verdadeiras, imaginárias, efêmeras, ou nenhuma,
mas o grito com que o corpo responde
foi, é e será o grito da inocência
na mesmas escala imemorial e no mesmo tom.

Nada mudou.
Talvez os costumes, as cerimônias, talvez as danças.
O gesto das mãos protegendo a cabeça ainda é o mesmo.
O corpo se contorce, estica, luta,
derrubado cai, se dobra, roxo,
incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas a linha de fronteiras
de florestas, costas, desertos e icebergues.
Nestas paisagens a alma perambula,
desaparece, volta, se aproxima e se distancia,
desconhecida de si mesma, esquiva,
às vezes certa, às vezes incerta da sua própria existência,
enquanto o corpo é e é e é,
e não tem para onde ir.

(trad. ana cristina cesar & grazyna drabik)

Torturas

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo o sangue,
uma boa reserva de de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar e Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo.
A tortura são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto das mão protegendo o rosto,
esse permanece o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas o curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
some, volta, chega perto, voa longe,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.

(trad. regina przybycien)

instrumentos de tortura romanos

instrumentos de tortura romanos

Tortures

Nothing has changed.
The body is a reservoir of pain;
it has to eat and breathe the air, and sleep;
it has thin skin and the blood is just beneath it;
it has a good supply of teeth and fingernails;
its bones can be broken; its joints can be stretched.
In tortures, all of this is considered.

Nothing has changed.
The body still trembles as it trembled
before Rome was founded and after,
in the twentieth century before and after Christ.
Tortures are just what they were, only the earth has shrunk
and whatever goes on sounds as if it’s just a room away.

Nothing has changed.
Except there are more people,
and new offenses have sprung up beside the old ones–
real, make-believe, short-lived, and nonexistent.
But the cry with which the body answers for them
was, is, and will be a cry of innocence
in keeping with the age-old scale and pitch.

Nothing has changed.
Except perhaps the manners, ceremonies, dances.
The gesture of the hands shielding the head
has nonetheless remained the same.
The body writhes, jerks, and tugs,
falls to the ground when shoved, pulls up its knees,
bruises, swells, drools, and bleeds.

Nothing has changed.
Except the run of rivers,
the shapes of forests, shores, deserts, and glaciers.
The little soul roams among these landscapes,
disappears, returns, draws near, moves away,
evasive and a stranger to itself,
now sure, now uncertain of its own existence,
whereas the body is and is and is
and has nowhere to go.

(trad. stanislaw baranczak & clare cavanagh)

Torturas

Nada ha cambiado.
El cuerpo adolorido,
tiene que comer, respirar y dormir,
tiene piel fina y debajo de ella sangre,
está bien dotado de dientes y uñas,
sus huesos, quebradizos; sus vértebras dilatables.
En las torturas todo esto se toma en cuenta.

Nada ha cambiado.
El cuerpo tiembla
como tembló antes y después de la fundación de Roma,
en el siglo veinte antes y después de Cristo,
las torturas son como fueron, sólo decreció la tierra
y todo lo que ocurre, pasa como detrás de una pared.

Nada ha cambiado.
Sólo que ha llegado gente,
y junto a las viejas culpas aparecieron nuevas,
reales, creíbles, momentáneas y nulas,
pero el grito con que el cuerpo contesta por ellas
fue, es y será grito de inocencia,
según la escala secular y el registro.

Nada ha cambiado.
Tal vez sólo los modales, las ceremonias, las danzas.
El movimiento de manos que cubren la cabeza
continuó siendo el mismo.
El cuerpo se retuerce, sacude y extiende,
cae cercenado de piernas, se encoge de rodillas,
se amorata, se hincha, babea y sangra.

Nada ha cambiado.
Salvo el curso de los ríos,
la línea de los bosques, las costas, los desiertos y glaciares.
Por entre estos paisajes el alma flota,
desaparece, retorna, se acerca, se aleja,
sola para sí, ajena, inatrapable,
a veces segura, otras insegura de su propria existencia,
mientras el cuerpo permanece ahí, ahí y ahí
y no tiene donde refugirarse.

(trad. ángel zuazo lópez)

PS: achei ainda uma versão em português num blogue, sem nome de tradutor (floribundo), e outra em espanhol, também sem nome de tradutor (boletin tokata) – o que me faz lembrar como esse (o nosso) trabalho ainda é desvalorizado, mesmo no caso da poesia…

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zbigniew herbert

se a arte, por seu objeto,
tiver um vaso quebrado
uma alma pequena despedaçada
com pena de si própria

o que restará depois de nós
será como o choro de amantes
num hotel vagabundo
quando as paredes amanhecem
(zbigniew herbert, trad. de sylvio fraga neto & danuta h. da nóbrega)

a poesia do polonês zbigniew herbert (1924-1998) ainda é pouco conhecida no brasil, & aqui já posso bem dizer – muito infelizmente. formado como economista e advogado, sua obra guarda parte dessa formação clássica & sóbria, enquanto politicamente se debateu em parte contra o comunismo polonês, sem  entretanto se resumir a uma poesia de combate, ou ao engajamento stricto sensu (se é que isso de fato existe, ou interessa). sua estreia em livro foi razoavelmente tardia, em 1956, com struna światła (corda de luz), quando herbert já tinha mais de 30 anos. como no caso de wallace stevens (que lançou harmonium com mais de 40 anos), essa estreita tardia foi muito positiva, por já mostrar um poeta maduro, com uma voz poética estabelecida. seguindo o que se poderia esperar dessa primeira, o resto da sua obra foi publicada em geral com espaços longos, de modo que ao todo só lançou 9 livros de poesia ao longo de 40 anos de atividade.

o resultado disso, a meu ver, é uma poesia pensada (não necessariamente cerebral) em livros centrados por eixos, com uma construção e ordenação programáticas. dentro desses livros, sua escrita se desenvolve em meio à reescrita de mitos, ao diálogo com a história ou com a literatura clássica, & com um pendor muitas vezes moralizante voltado para os dilemas contemporâneos, sobretudo de uma polônia periférica em relação à europa e dominada por constantes problemas políticos. essa moral, porém, nunca está a serviço de um projeto político determinado, & herbert parece sempre fazer uso de muita ironia para construir qualquer esboço moral. esse processo fica bem claro nos poemas de pan congito (sr. cogito), provavelmente seu livro mais famoso, lançado em 1974. os textos, de modo implícito ou explítico, nunca estão ligados diretamente à pessoa do poeta, mas à de seu personagem (já ironicamente cartesiano desde o nome, derivado do mote cogito ergo sum), que de um modo ou de outro impõe seu modo ao poema, como vocês podem ver “o sr. cogito narra a tentação de espinoza”, onde o enquadramento do poema, que cede sua voz ao sr. cogito, só é dado pelo título, convidando o leitor a preencher os espaços entre autor e personagem e entre personagem e a narrativa poética em forma de diálogo entre deus & espinoza.

de modo similar, “a mensagem do sr. cogito” estabelece um processo autoirônico de moralização, já que as atitudes afirmativas da persona são contrariadas pela sua própria fala, ou pela desconfiança com a sociedade simbolizada na impersonalização negativa de “eles” (& assim lembro thomas pynchon, nalgum dado momento  gravity’s rainbow, quando um personagem paranoico grita – “who are they?“). nesse confronto, mesmo com uma linguagem clara (dotada de “transparência semântica”, nas palavras do próprio herbert), o que temos é uma apresentação turva dos objetos & da realidade, uma recusa a explicações fáceis ou a um posicionamento firme no mundo. assim a sua “mensagem” fica entre o imperativo de se confrontar afirmativamente no mundo & o sentimento de que todo confronto será em vão. no caso de herbert – o que torna as coisas ainda mais interessantes – , esses dois polos opostos não se anulam, nem chegam a uma suspensão dialética, mas coexistem inconciliáveis. esse problema poderia ser confundido com uma melancolia profunda diante do mundo (em algum grau, drummondiana), ou com um tipo cinismo literário; mas, se lemos as palavras do próprio herbert (tiradas de “por que os clássicos”, em trad. de rubens figueiredo que saiu neste mês pela piauí), vemos como sua posição complexa:

Não é preciso ser um grande entendido em literatura contemporânea para perceber o traço característico que a marca – a eclosão do desespero e da descrença. Todos os valores fundamentais da cultura europeia foram postos em xeque. Milhares de romances, peças e poemas épicos falam de um aniquilamento inevitável, da falta de sentido da vida, do absurdo da existência humana.
Não pretendo submeter o pessimismo a um ridículo fácil – ele é uma reação perante o mal do mundo. Todavia, acho que o tom negro da literatura contemporânea tem sua fonte na atitude dos escritores em face da realidade.

diante dessa constatação que parece ainda tão aplicável ao nosso tempo contemporaníssimo, herbert não hesita em se apresentar moralmente:

Se existisse uma escola para ensinar literatura, um de seus exercícios básicos deveria ser a descrição não de sonhos, mas de objetos. Fora do alcance do artista, um mundo se desdobra – difícil, escuro, mas real. Não devemos perder a fé de que as palavras possam capturá-lo, fazer-lhe justiça.
Bem cedo, mais ou menos no início de minha vida de escritor, cheguei à conclusão de que devia me apoderar de algum objeto situado fora da literatura. Parecia-me vão escrever como um exercício estilístico. A poesia como arte da palavra me fazia bocejar. Compreendi também que os poemas dos outros não me bastavam como sustento. Eu precisava sair de mim mesmo e da literatura, olhar para o mundo à volta e tomar posse de outras esferas da realidade.
[…]
Não me volto para a história com o propósito de extrair dela uma lição fácil de esperança, mas sim para confrontar minha experiência com a de outras pessoas, adquirir algo que possa chamar de compaixão universal, além de um sentido de responsabilidade – responsabilidade pelo estado de minha consciência.

essa tomada de responsabilidade (um tema tão caro ao cinema de lars von trier, por exemplo), permeado por uma espécie de compaixão universal de quem encara o mal do mundo, me parece hoje digno de um lema, contra o beletrismo do “exercício estilístico” & a aniquilação do pessimismo contemporâneo, sem cairmos na mera literatura de divertimento, ou nos joguetes de mercado.

guilherme gontijo flores

ps: como parte de uma geração importante de poetas laureados (czeslaw milosz ganhou o nobel em 1980, e wislawa szymborska em 1996, ambos já traduzidos em livro no brasil) que acabaram apagando um pouco o seu nome. por isso, provavelmente, só temos poemas seus em antologias (como a dos quatro poetas poloneses, organizada por henry siewierski & josé santiago naud) ou em revistas (como a poesia sempre no. 30, com um dossiê sobre poesia polonesa moderna, editada por siewierski & marcelo paiva de souza, que apresenta traduções dos três já mencionados, além de nelson ascher, fernando mendes viana, grazyna drabik & ana cristina césar). por fim, ainda sei de traduções feitas por carlito azevedo, mas que não estão publicadas em nenhum veículo, que eu saiba. há uma edição da assírio alvim, mas ainda não conseguir por as minhas mãos nela (escolhido pelas estrelas) em casos como esse, para poder ler um pouco mais da sua poesia sem ter conhecimento algum de polonês, precisei partir para uma tradução inglesa (the collected poems 1956-1998) com toda a sua produção poética. deixo, no entanto, duas traduções & um agradecimento sincero a marcelo paiva de souza – que já contribuiu aqui com uma tradução de  cyprian norwid.

“the collected poems 1956-1998”, a capa é foto de anna beata bohdziewicz

Przesłanie Pana Cogito

Idź dokąd poszli tamci do ciemnego kresu
po złote runo nicości twoją ostatnią nagrodę 

idź wyprostowany wśród tych co na kolanach 
wśród odwróconych plecami i obalonych w proch 

ocalałeś nie po to aby żyć 
masz mało czasu trzeba dać świadectwo 

bądź odważny gdy rozum zawodzi bądź odważny 
w ostatecznym rachunku jedynie to się liczy 

a Gniew twój bezsilny niech będzie jak morze 
ilekroć usłyszysz głos poniżonych i bitych 

niech nie opuszcza ciebie twoja siostra Pogarda 
dla szpiclów katów tchórzy – oni wygrają 
pójdą na twój pogrzeb i z ulgą rzucą grudę 
a kornik napisze twój uładzony życiorys 

i nie przebaczaj zaiste nie w twojej mocy 
przebaczać w imieniu tych których zdradzono o świcie 

strzeź się jednak dumy niepotrzebnej 
oglądaj w lustrze swą błazeńską twarz 
powtarzaj: zostałem powołany – czyż nie było lepszych 

strzeż się oschłości serca kochaj źródło zaranne 
ptaka o nieznanym imieniu dąb zimowy 
światło na murze splendor nieba 
one nie potrzebują twego ciepłego oddechu 
są po to aby mówić: nikt cię nie pocieszy 

czuwaj – kiedy światło na górach daje znak – wstań i idź 
dopóki krew obraca w piersi twoją ciemną gwiazdę 

powtarzaj stare zaklęcia ludzkości bajki i legendy 
bo tak zdobędziesz dobro którego nie zdobędziesz 
powtarzaj wielkie słowa powtarzaj je z uporem 
jak ci co szli przez pustynię i ginęli w piasku 

a nagrodzą cię za to tym co mają pod ręką 
chłostą śmiechu zabójstwem na śmietniku 

idź bo tylko tak będziesz przyjęty do grona zimnych czaszek 
do grona twoich przodków: Gilgamesza Hektora Rolanda 
obrońców królestwa bez kresu i miasta popiołów 

Bądź wierny Idź

A mensagem do Sr. Cogito

Vai aonde os outros até o fim obscuro
atrás do tosão de ouro do nada tua última recompensa

caminha ereto entre os que ficam de joelhos
entre os que viraram as costas e foram reduzidos a pós

sobreviveste não para viver apenas
tens pouco tempo tens de dar testemunho

sê corajoso quando falhe a razão sê corajoso
no final das contas só isto importa

deixa tua ira impotente seja como o mar
sempre que ouças a voz dos oprimidos e espancados

que nunca te abandone o teu irmão Desprezo
para com os delatores os carrascos os covardes – eles vencerão
e virão ao teu funeral e com alívio jogarão um torrão de terra
e um verme escreverá a tua ordenada biografia

e não perdoes verdadeiramente não está em teu poder
perdoar em nome daqueles que foram traídos na alvorada

mas acautela-te do orgulho sem mister
olha no espelho o teu rosto cômico
e repete: eu fui o chamado – não haverá alguém melhor

previne-te contra a aridez do coração ama a fonte matinal
o pássaro ignoto o carvalho de inverno
a lu no muro o esplendor do céu –
eles não precisam do teu hálito quente
eles estão aqui para dizer: ninguém vai te consolar

vela – e quando a luz nos montes der o sinal – ergue-te e caminha
té que o sangue faça rodar no teu peito a estrela obscura

repete os velhos sortilégios do homem as fábulas e as lendas
porque assim conquistarás o bem que não conquistarás
repete as grandes palavras repete-as obstinadamente
como aqueles que transitavam o deserto e pereciam na areia

e serás recompensado por aquilo que eles têm à mão
o açoite do riso o assassinato no monte de lixo

vai porque só assim serás recebido na comunhão dos crânios frios
a comunidade dos teus antepassados: Gilgamesh Heitor Rolando
os defensores do reino sem fim e da cidade das cinzas

Sê fiel Vai

(trad. henryk siewierski & josé santiago naud)

Pan Cogito opowiada o kuszeniu Spinozy 

Baruch Spinoza z Amsterdamu
zapragnął dosięgnąć Boga
szlifując na strychu
soczewki
przebił nagle zasłonę
i stanął twarzą w twarz

mówił długo
(a gdy tak mówił
rozszerzał się umysł jego
i dusza jego)
zadawał pytania
na temat natury człowieka
–
– Bóg gładził roztargniony brodę

pytał o pierwszą przyczynę
–
– Bóg patrzył w nieskończoność

pytał o przyczynę ostateczną
–
– Bóg łamał palce
chrząkał

kiedy Spinoza zamilkł
rzecze Bóg
–
– mówisz ładnie Baruch
lubię twoją geometryczną łacinę
a także jasną składnię
symetrię wywodów

pomówmy jednak
o Rzeczach Naprawdę
Wielkich
–
popatrz na twoje ręce
pokaleczone i drżące
– 

– niszczysz oczy
w ciemnościach
–
– odżywiasz się źle
odziewasz nędznie
–
kup nowy dom
wybacz weneckim lustrom
że powtarzają powierzchnię
–
– wybacz kwiatom we włosach
– pijackiej piosence
–
– dbaj o dochody
jak twój kolega Kartezjusz
–
– bądź przebiegły
jak Erazm
–
– poświęć traktat
Ludwikowi XIV
i tak go nie przeczyta
–
– uciszaj racjonalną furię
upadną od niej trony
i sczernieją gwiazdy
–
– pomyśl o kobiecie
która da ci dziecko
–
– widzisz Baruch
mówimy o Rzeczach Wielkich
–
– chcę być kochany
przez nieuczonych i gwałtownych
są to jedyni
którzy naprawdę mnie łakną

teraz zasłona opada
Spinoza zostaje sam

nie widzi złotego obłoku
światła na wysokościach

widzi ciemność

słyszy skrzypienie schodów
kroki schodzące w dół

O senhor Cogito narra a tentação de Espinosa

Baruch Espinosa de Amsterdã
quis alcançar Deus
polindo lentes
no sótão
varou de súbito a cortina
e achou-se face a face

falou muito
(e enquanto falava
se expandiam seu espírito
e sua alma)
fez perguntas
acerca da natureza do homem

– Deus afagou distraído a barba

perguntou sobre a causa primeira

– Deus olhou para o infinito

perguntou sobre a causa última

– Deus estalou os dedos
pigarreou

quando Espinosa calou
disse Deus

– falas bonito Baruch
gosto do teu latim geométrico
e da sintaxe clara
da simetria dos argumentos

falemos porém
de Coisas Deveras
Grandes

olha tuas mãos
machucadas e trêmulas

– destróis a vista
no escuro

– te alimentas mal
andas maltrapilho

compra uma casa nova
perdoa os espelhos venezianos
por reproduzirem a superfície

– perdoa as flores nos cabelos
– a canção bêbada

– cuida dos lucros
como teu colega Cartésio

– sê astuto
como Erasmo

– dedica um tratado
a Luís XIV
jamais o lerá afinal

– aplaca a fúria da razão
ela derrubará tronos
e toldará estrelas

– pensa
na mulher
que te dará um filho

– vês Baruch
falamos de Coisas Grandes

– quero ser amado
pelos ignorantes e violentos
são os únicos
que anseiam deveras por mim

agora a cortina cai
Espinosa fica sozinho

não vê uma nuvem dourada
luz nas alturas

vê a escuridão

ouve o ranger dos degraus
passos seguindo para baixo

(trad. marcelo paiva de souza)

Padrão
crítica, poesia, tradução

Dos paradoxos da linguagem: 3 poemas

Nós aqui do escamandro costumamos pegar leve com questões teóricas, em parte porque não temos a pretensão de fazer de nosso blog um reduto acadêmico (e, mais do que isso, ficaremos incrivelmente contentes se pudermos contribuir para, na verdade, tirar a poesia um pouco do domínio burocrático e dogmático da academia)… no entanto, dito isso, se há um teórico ao qual eu me vejo sempre retornando, esse seria George Steiner. Apesar de ter seus problemas (e qual teórico não tem?), eu gosto muito de seu livro Depois de Babel (1975), e uma de minhas passagens preferidas (pois o estilo de Steiner envolve longas digressões e erranças pelo texto que fazem com que cada capítulo aborde uma miríade de assuntos) diz respeito ao porquê do hermetismo da poesia moderna. Resumidamente, Steiner comenta como os poetas do final do século XIX/começo do século XX passam a perceber que não podem continuar escrevendo do mesmo modo – um modo claro, segundo Steiner, “confortável com a linguagem” – como se escrevia predominantemente até então, o que se dá por uma série de motivos, dentre os quais está a percepção da falta de sentido da linguagem, que faz com que ela se torne uma prisão. Não é a toa que é mais ou menos nesse período que começamos a ver surgirem as noções de Nietzsche, da língua como formada de “metáforas gastas” (como moedas que perderam a efígie) e, mais tarde, as de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.

Mas alguém poderia se perguntar “como assim falta de sentido da linguagem?”… pois bem, evidentemente não é de hoje (nem mesmo do século retrasado) que as pessoas percebem de que nem sempre a linguagem dá conta de exprimir o que se quer exprimir. Dante mesmo, lá no século XIII, apresenta em vários momentos da Comédia trechos sobre como a linguagem humana fracassa diante da tentativa de representar as torturas do inferno e as graças do paraíso. Cito abaixo um desses exemplos dantescos, tirado do Canto XXXII do Inferno, quando Dante e Virgílio adentram o último círculo (onde está Satã), e os horrores vão se tornando impronunciáveis:

Tivesse eu rimas rudes e rouquenhas
que ao fim do fosso só convir presumo,
pra o qual apontam todas as suas penhas,

espremeria de meu conceito o sumo
melhor, mas não as tendo, só com grã
temor, ao meu relato o encargo assumo;

que não é pra quem julgue-a empresa chã
a descrição do fundo do Universo,
nem pra língua que diz papá e mamã.

(vv. 1-9, tradução de Italo Eugenio Mauro)

Mas é com esse momento mais avançado da modernidade (“avançado” aqui no sentido puramente temporal mesmo) que esses problemas passam a representar uma grande preocupação poética.

Poderíamos apontar ainda para as questões dos problemas do discurso ideológico: tanto Steiner quanto o crítico/teórico Terry Eagleton concordam que a linguagem ideológica se vale dessas falhas da linguagem comum do cotidiano para legitimar uma estrutura de poder, e o exemplos que eles dão concernem à polissemia da palavra “liberdade”, que pode significar (e mais do que isso, legitimar) praticamente qualquer coisa, dependendo de quem a enuncia. Outro crítico ainda, chamado Stuart Curran, aponta para o problema do ato de dar nomes, na medida em que nomear é reduzir uma coisa real a uma abstração, e a ideologia novamente extrapola esse ato ao simplificar (muitas vezes grotescamente) o mundo.

Sendo assim, como poder falar do humano, dos problemas humanos, do amor, do sofrimento, da tirania, do espírito, etc, sendo a linguagem tão maculada de mentiras? Novos modos de expressão se fazem necessários, e, embora boa parte da crítica pareça reservar a palavra “hermetismo” para tratar de poetas como Mallarmé e Celan, acredito, com Steiner, que mesmo com poetas contemporâneos que sejam bastante claros em sua dicção, há alguma dificuldade no que ele ou ela quer dizer com aquelas palavras, que é muito diferente do que se tem com uma poesia mais clássica. Uma poesia que se põe contra uma noção de naturalidade da linguagem, justamente por essa naturalidade ser enganosa.

Poderíamos discorrer muito mais sobre isso, mas não planejo fazer deste post um ensaio sobre o tema. Esta é só uma minúscula introdução para dar um pequeno exemplo da recorrência dessa temática em alguns poetas contemporâneos muito distintos, que, espero, mostram como essa questão não é somente uma preocupação teórica.

São eles, em ordem de apresentação aqui: a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), o carioca Carlito Azevedo (1961) e o alemão Hans Magnus Enzensberger (1929).

(Adriano Scandolara)

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.

Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien. (Poemas, pela Cia das Letras)

*

Agulhas de Amianto

Órion

Órion
desabalada
deixando cair
os pingentes de
sua écharpe
sobre a água
de outra
estrela

Serpente

depois de Sebastião U Leite

O nome
como veneno
e o poema como
antídoto
extraído ao
próprio
nome

O nome

O poema como
uma serpente de bronze
que só não obedece ao próprio
nome (se entre tantos possíveis
dissermos o seu verdadeiro nome
et qui dit amour, dit pistolet
será o fim, o escuro, a
desintegração)

Pirâmide

para Luciana Whitaker

Quando
retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou

Epílogo

“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam

Carlito Azevedo (Sublunar, pela 7Letras)

*

Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger, tradução de Kurt Scharf & Armindo Trevisan. (Eu falo dos que não falam, editora Brasiliense)

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poesia, tradução

cyprian norwid

toda história, e com ela a história da literatura, é uma simplificação das forças complexas que atravessam qualquer empreitada humana. algumas simplificações são mais grosseiras que outras, óbvio; por isso essa frase bombástica – tão pouco do meu feitio – para abrir o post. porque algumas são mais grosseiras, & uma das que mais me incomoda, é a reconstrução da modernidade literária, que costuma, mais do que se deve, ser simplificada num eurocentrismo ingênuo ou ignorante; num eurocentrismo não, num francesismo ingênuo ou ignorante.

cyprian norwid

aí temos algo como: no princípio havia baudelaire, que inventou a cidade de paris e o mal na literatura, depois veio rimbaud para santificar o irracional profético da poesia, por fim o espírito mallarmé que detectou a crise de verso, aprofundou as possibilidade do hermetismo & da visualidade: o resto é vanguarda. essa história simplificada, aqui toscamente ridicularizada, ganhou força n’a estrutura da lírica moderna, de hugo friedrich, & peca por deixar (quase) de lado nomes como whitman, dickinson, hopkins, de língua inglesa (dentro & fora da europa), um sousândrade brasileiro, & um cyprian norwid, de que pretendo tratar brevemente, dentre outros. coisa similar, na história da música, faz com que a obra inesperada de um charles ives fique fora da lógica historiográfica, para entrar como uma espécie de azarão artístico, ou profeta dos tempos por vir (uma mitificação vazia em busca do ideal do gênio incompreendido em seu tempo, que se diz também de norwid, de sousândrade, de hopkins &c.). é claro que não se exige aqui uma revisão completa da história literária, nem pretendo diminuir as obras francesas, ou sua importância, já que estavam de fato no centro cultural mundial do século xix & puderam ampliar sensivelmente as possibilidades literárias das gerações seguintes. o que interessa é ver como processos similares de composição e pensamento estavam presentes em outras partes do ocidente, com resultados igualmente impressionantes em sua diversidade, mas calados por uma posição geográfica, ou por uma “língua menor” (como é o nosso caso sousandradino, como é o caso norwidiano).

como se não bastasse a historiografia, a coisa piora ainda mais quando se trata de um conhecimento entre periferias, como o conhecimento da poesia polonesa no brasil, ou vice-versa; já que é simplesmente mais fácil voltar os olhos para o centro, sobretudo quando temos mais tradutores para/de línguas como francês, inglês, espanhol, alemão, italiano, e pouquíssimos para/de  árabe, criolo, quéchua, polonês, russo, &c., & muitas vezes dependemos das traduções para as línguas centrais, para que possamos ter ao menos uma ideia do que se passa em outras margens; portanto, não é à toa que nossa literatura abunda em traduções indiretas (& podem ter certeza, isso não é uma crítica da minha parte). então, ao ponto.

autorretrato

cyprian kamil norwid (1821-1883) é, junto com adam mickiewicz provavelmente o escritor polonês mais famoso do século xix nos dias de hoje, com obras que atravessam poesia, drama, ensaio, escultura & pintura (todas as imagens deste post são dele, exceto a foto). ele é geralmente enquadrado como um romântico de segunda geração, & a sua vida desandada, entre penúria & uma espécie de exílio (depois de uma tentativa fracassada de emigrar para os estados unidos) entre londres & paris, ou sua solidão & abandono, chamam quase tanta atenção quanto a sua obra, inclusive pelo fato de ter sido enterrado numa vala comum parisiense, donde seus restos mortais viriam a sair apenas neste século.

o estilo da sua escrita é complexo, com uma mistura de formulação classicista & algo parnasiana dentro de uma roupagem frequentemente obscura, abrupta, elíptica & metafórica, que poderia lembrar o romantismo e o simbolismo (daí que haja tanta discussão inócua sobre como enquadrá-lo), além de um pensamento complexo religioso & por vezes místico entremeado de ironia & autoironia, como se pode ver em vários poemas da sua principal obra (não publicada em vida, não traduzida para o português), o vade mecum. por esse motivo mesmo, norwid não desfrutou de glória literária em vida, & só passou de fato a ser lido já mais de uma década após sua morte, na virada para o séc. xx.

hamlet

um bom exemplo, & provavelmente o mais famoso, é o poema “o piano de chopin” (“fortepian szopena“), onde o poeta expressa parte do seu contato & amizade com chopin enquanto ainda trata de uma cena real, quando o piano de chopin foi lançado pela janela de sua casa. o modo do tratamento é enviesado, elíptico nas informações, deixando o leitor com uma sensação de intimidade velada, ou de uma fragmentação da memória que inclui as cenas por um viés poético que arruína a narratividade para se concentrar no efeito condensado da expressão. outro aspecto que logo chama a atenção é a diversidade da apresentação visual, com letras que por vezes se afastam, como a demonstrar um rallentando na partitura do poema, ao passo que as estruturas rítmicas e rímicas são irregulares, o que o aproxima de diversas sonoridades chopinianas.

tive a oportunidade de conhecer um pouco melhor a poesia de norwid numa tradução inglesa poeticamente infeliz, que prefiro nem nomear, mas capaz de incitar o leitor a uma busca mais aprofundada sobre a obra. felizmente, pude encontrar com o professor marcelo paiva souza, da ufpr, sua tradução em parceria com henryk siewierski (dentre outras coisas, eles organizaram em parceria também o número  30 da revista poesia sempre, com um dossiê dedicado à poesia polonesa moderna, que ainda vai aparecer por estas paragens), que conseguiu criar uma série de efeitos que eu – perfeito desconhecedor do polonês – acredito serem mais capazes de apresentar com dignidade essa poesia inquieta; coisa que se pode notar pela manutenção de uma série de rimas, dos ritmos em cadência semissolta, neologismos, &c. quem quiser conferir o original polonês, para ao menos checar as possibilidades formais mais gritantes, espie, como eu, aqui.

guilherme gontijo flores

O Piano de Chopin

A Antoni C…

La musique est une chose étrange!
Byron

L‘ art? … c’ est l’ art — et puis, Voilà tout.
Béranger

I

Estive em tua casa nos penúltimos dias
Da trama sem desfecho – –
– Cálidos,
Como o Mito, pálidos,
Como a aurora… Quando o fim da vida sibila ao começo:
“N ã o t e r o m p e r i a e u – n ã o – E u, t e r e-a l ç a r i a!…”

II

Estive nesses dias, penúltimos, em tua
Casa, e parecias – de novo e de novo então –
A lira que Orfeu chegado o instante
Rejeita, mas que forçada-forceja pela canção,
E ainda vibra relutante
As suas
Cordas: duas – mais duas –
E pulsa:
“A s s o m o
D o s o m?…
S e r á t a l M e s t r e!… q u e t o c a… m a l g r a d o a r e p u l s a?…”

III

Estive em tua casa nesses dias, Frederico!
E tua mão… assim
Tão clara – e leve – rico
Alabastro e espasmos de pluma –
Mesclava-se com as teclas numa
Névoa de marfim…
E eras a forma que ressuma
Do ventre do mármore,
Antes de esculpida,
E revida
Ao cinzel do Gênio – Pigmalião que nunca morre!

IV

E no que tocaste – quê? disse o tom – quê? dirá, mas a cor de
Um eco escoa a esmo,
Não como abençoavas, tu mesmo,
A cada acorde –
E no que tocaste: tal foi a rude
Perfeição Pericleana,
Como se antiga Virtude,
No umbral duma choupana
De lariço, a si
Mesma dissesse: “R e n a s c i
N o C é u, e a p o r t a – s e i r m a n a
À h a r p a, a v e r e d a – à f a i x a…
V e j o u m a h ó s t i a – a t r a v é s d o t r i g o s e m c o r…
E m a n u e l j á s e a c h a
N o c i m o d e T a b o r!”

V

E nisso era a Polônia, retesa
Desde o zênite da História dos
Homens, num arco-íris de êxtase – –
A Polônia – d o s f e r r e i r o s t r a n s f i g u r a d o s!
Ela mesma, adorada,
Abelhi-dourada!…
(Mesmo ao cabo do ser – eu teria certeza!…)

VI

E – eis aí – cantaste – – e não mais te alcança
O meu olhar – – mas ainda ouço:
Algo?… como rusga de crianças – –
São porém as teclas em alvoroço
Pelo anseio da canção que não se fez:
E arfando convulsas,
Oito – cinco por dez –
Murmuram: “E l e s e p ô s a t o c a r? o u n o s r e p u l s a??…”

VII

Tu! – perfil-do-Amor,
Que tens por nome P l e n i t u d e;
Isto – que na Arte atende por
Estilo, porque permeia a canção, urde
As pedras… Tu! – E r a, como a História soletra,
E onde o zênite da História não investe,
Chamas-te a um só tempo: o E s p í r i t o e a L e t r a,
E “consummatum est”…
Tu! P e r f e i t a-c o n s u m a ç ã o, seja o que
For, e onde?… Teu selo…
Em Fídias? Chopin? Davi?
Na cena de Ésquilo? Em ti
Sempre – se vingará: o ANELO!…
– A marca desse globo – carente:
A P l e n i t u d e?… o fere!
Ele – prefere
Começar e prefere lançar o sinal – mais à frente!
A espiga?… madura feito um cometa fugaz,
Mal sente
A brisa a tocá-la, chove sementes
De trigo, a própria perfeição a desfaz…

VIII

Eis aí – olha, Frederico!… é – Varsóvia:
Sob a estrela que flameja,
À luz que, insólita, envolve-a – –
– Olha, os órgãos da Igreja;
Olha! Teu ninho: ali – os sobrados
Patrícios velhos como a P u b l i c a-r e s,
O chão surdo e pardo
Das praças, e a espada de Segismundo nos ares.

IX

Olha!… nos becos os potros
Do Cáucaso irrompem
Como andorinhas defronte das tropas, ao sopro
Da tempestade; c e m – o u t r o s
C e m – –
O fogo fulge, hesita, infesta
O prédio – – e eis aí – contra a fachada
Vejo testas
De viúvas empurradas
Pelo cano
Das armas – – e vejo entre a fumaça no gradil
Da sacada um móvel como um caixão erguerem… ruiu…
Ruiu – T e u p i a n o!

X

Ele!… que exaltava a Polônia, tomada
Desde o zênite da História dos
Homens, no êxtase da toada –
A Polônia – dos ferreiros transfigurados;
Ele mesmo – ruiu – no granito da calçada!
– E eis aí: como o nobre
Pensamento é presa certa
Da fúria humana, o u c o m o – s é c u l o s o b r e
S é c u l o – t u d o, q u e d e s p e r t a!
E – eis aí – como o corpo de Orfeu,
Mil Paixões rasgam dementes;
E cada uma ruge: “E u
N ã o!… E u n ã o” – rangendo os dentes –

Mas Tu? – mas eu? – que surda
O canto do juízo:“A l e g r i a, n e t o s q u e v i r ã o!…
G e m e u – a p e d r a s u r d a:
O I d e a l – a t i n g i u o c h ã o – –”

(trad. henryk sierwierski & marcelo paiva souza).

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poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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