poesia, tradução

James Joyce, Finnegans Wake

james-joyceO irlandês James Augustine Aloysius Joyce (1882 – 1941) é provavelmente o mais badalado dos escritores do século XX – qual outro, afinal, tem um dia, como o de hoje, dedicado a si? Ou pior, aliás, não a ele propriamente, mas a um personagem que foi criação sua. E, no entanto, ele teve uma carreira razoavelmente enxuta, consistindo de um livro de contos chamado Dublinenses (1914), o Bildungsroman autobiográfico Retrato do Artista Quando Jovem (1916), o monumental romance Ulysses (1922) e a bizarra obra experimental Finnegans Wake (1939), além de dois livros de poemas – Chamber Music (1907) e Pomes Penyeach (1927) –, uma peça de teatro (Exiles, de 1918) e um livro infantil (O Gato e o Diabo) que brotou meio que espontaneamente a partir de cartas para o seu neto, o terrível Stephen James Joyce. Completam a sua bibliografia póstuma algumas obras mais fragmentárias como Giacomo Joyce, Stephen Hero e o há pouco tempo descoberto Finn’s Hotel, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras na tradução do Caetano Galindo, que fez fama recentemente por conta de sua tradução do Ulysses e desde então tem ficado inacessível com todas as viagens ao castelo de Caras e tudo o mais (mais sobre esse textinho curioso que é o Finn’s Hotel pode ser lido no blog do Caetano no site da Companhia clicando aqui).

Apesar de ter escrito dois livrinhos de poemas, Joyce é melhor conhecido como prosador do que como poeta, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, ele merece um lugar nas discussões sobre poética e poesia, não por causa desses dois livrinhos, mas pelo Finnegans Wake – que, como se sabe, ao lado da obra de cummings, Mallarmé e Pound, foi elencado pelos irmãos Campos como base para a poesia concreta, como expresso em seu manifesto.  A princípio visto como um romance, o Wake vai muito além da forma romanesca, mas imagino que seja necessário dizer algumas palavras para explicar o porquê de se afirmar esse tipo de coisa.

Para se começar a entender o que é o Wake é bom partir do Ulysses ou do Retrato. Em ambos os casos temos textos que são difíceis, mas não se trata de uma dificuldade gratuita. No caso do Retrato, porque ele acompanha desde a infância a trajetória de vida do seu protagonista Stephen Dedalus, alter-ego do próprio Joyce, o autor achou que seria razoável empregar uma linguagem que acompanhasse o desenvolvimento da própria linguagem e pensamento do seu protagonista – por isso temos nele um dos começos mais absurdos de qualquer romance do ocidente, escrito na linguagem infantil do idade que o protagonista tinha nesse momento da narrativa: “Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo…”  No caso do Ulysses, esse procedimento continua, sondando os processos de pensamento dos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom, inclusive em estados algo alterados de consciência (no episódio 9, por exemplo, chamado de Cila e Caríbde, Stephen está bebaço… depois no 15, Circe, há o recurso de alucinações), e, para sermos breves, boa parte dos recursos de que Joyce se vale que acabam deixando a leitura pouco transparente se justificam por conta desse objetivo. E essa é a chave para sairmos do Ulysses e entrarmos no Wake: se o Ulysses é o livro do dia e acompanha os seus personagens nos momentos de consciência, da hora em que se levantam de manhã até quando se deitam de madrugada, o Wake é o livro do sono, em que Joyce aplica técnicas semelhantes para tentar dar conta de representar esse mundo noturno do inconsciente ou subconsciente. E é aí que as coisas começam a ficar mais violentas, porque, como todos sabem, tentar contar um sonho para alguém usando a linguagem normal do cotidiano é uma das experiências mais frustrantes da nossa comunicação, porque o sonho não obedece a uma lógica que não a sua lógica própria, em que as coisas não são exatamente o que elas aparentam (uma pessoa num sonho, por exemplo, pode ser e não ser a pessoa que se vê) e as cenas são instáveis. Portanto, tendo isso como matéria-prima para o livro, Joyce não poderia ficar satisfeito usando uma linguagem mais normal. Eis aí o ponto de entrada do Wake.

Ilustração de John Vernon Lord para o Finnegans Wake (2014)

Mas tem mais: o Wake também não tem bem um enredo ou personagens: em vez disso, ele trabalha com arquétipos míticos (já diz Campbell, não por acaso um dos primeiros estudiosos do Wake, que o sonho é o mito privado, e o mito, o sonho coletivo, havendo portanto uma relação entre as suas linguagens). Um deles é o HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), que é o arquétipo paterno masculino heroico e representa todas as figuras que já sofreram uma Queda, desde as mais elevadas, como Adão, Lúcifer ou o gigante adormecido da mitologia céltica Finn McCool, até o político irlandês Charles Parnell (que sofreu famosamente uma queda simbólica, causada por um escândalo sexual que abalou sua carreira política), o personagem carrolliano Humpty Dumpty e o pedreiro Finnegan da canção tradicional “Finnegan’s Wake” (que dá título ao livro), que cai do andaime e ressuscita no velório quando derrubam uísque no seu caixão. A esposa de HCE é ALP (Anna Livia Plurabelle), um arquétipo feminino materno, que é representada ao mesmo tempo por um rio (enquanto HCE é uma fálica montanha), mais especificamente o rio Liffey, tradicionalmente visto como feminino entre os irlandeses (como bônus, “rio” em gaélico é An, quase o nome Ana), e por uma árvore. As siglas HCE e ALP funcionam como um tipo de assinatura ao longo do texto, marcando sutilmente a presença dos dois arquétipos sem que seja necessário mencioná-los explicitamente.

Como figuras parentais, os dois estão em vias de serem freudianamente substituídos – HCE dorme e ALP perde as folhas – pelos seus filhos, que são outros três arquétipos: a filha Issy, que representa personagens femininas que tenham sido objeto do desejo masculino, como a Isolda de Tristão (Issy, Isolda…), cujo seu símbolo é uma nuvem (relacionada, portanto, ao rio, que é a mãe), e os dois gêmeos rivais Shem e Shaun, que representam todos os irmãos e rivais, como Caim e Abel, Esaú e Jacó, Set e Hórus, o anjo Miguel e o Diabo, a formiga e o gafanhoto, e assim por diante. Shaun é o “gêmeo bom”, que irá substituir HCE, arranjar um bom emprego (provavelmente como funcionário público) e se tornar o patriarca da família burguesa, ao passo que Shem é a ovelha negra, um artista, poeta e músico, e por isso é marginalizado. Há ainda alguns outros personagens menores, mas esse é basicamente o núcleo do livro. Como as identidades são fluidas e não há personagens fixos, também não há um enredo propriamente dito, mas várias pequenas narrativas que vão se amarrando frouxamente.

A linguagem usada para o livro, então, também reencena essa indeterminação e é composta basicamente de palavras-valise, o que é uma forma mais avançada de trocadilho (para um exemplo brasileiro, pense na linguagem do Catatau de Leminski, que é basicamente joyciano em seu funcionamento), e, mais do que isso, Joyce as cria com base em jogos de palavras interlinguísticos: assim, a primeira palavra do livro “riverrun” é ao mesmo tempo uma combinação óbvia de “river” (rio) e “run” (correr), mas também contém em si uma sugestão de Liv e An (a ALP, portanto, que, lembremos, é o rio) e as palavras “riveranno” (retornarão) do italiano e “revêrons” (sonhemos) do francês. Ela também é, famosamente, a última palavra do livro, porque ele apresenta uma estrutura circular, e a sua última frase deságua no começo. Para quem se interessar pelo assunto, eu mesmo escrevi um artiguinho sobre isso que foi publicado na revista Signo da UNISC e pode ser acessado clicando aqui. Há ainda mais algumas coisas sobre as quais eu poderia me demorar aqui, como o fato de que Joyce se baseou na teoria de Giambattista Vico sobre a história para a estrutura cíclica do Wake, a questão das palavras-trovão (palavras de 100 letras que marcam quedas ao longo do livro) ou o problema posto por alguns críticos sobre se existe um romance tradicionalmente normal por trás da superfície aberrante do texto ou se ela é o que ela é (o que eu pessoalmente acho que é a interpretação mais interessante, sem tentar normalizar o que não é normalizável), mas estamos já correndo o risco aqui de deixar esta introdução longa demais.

O importante, no entanto, é que o que Joyce conseguiu fazer foi criar um texto fertilíssimo, profundamente engraçado (o humor de Joyce tende muito para o obsceno, o que, não por acaso, foi uma das coisas que horrorizou a aristocrática Virginia Woolf) e ao mesmo tempo triste e doloroso. A chave de leitura para se ter acesso a essas coisas, no entanto, repousa não em tentar compreender o texto à moda da leitura tradicional, mas em ir entrando nesse jogo de livre-associação – e as tentativas de tradução do Wake também refletem isso, como fica claro nas traduções feitas pelos irmãos Campos em seu Panaroma do Finnegans Wake (sim, a palavra é panaroma mesmo, em contexto, “panaroma of all flores of speech“), que contém traduções de trechos do livro. Já a tradução integral para o português foi feita por Donaldo Schüller e publicada em 5 volumes pela ed. Ateliê, com o título Finnegans Wake / Finnícius Revém. O Caetano Galindo também vem traduzindo pedaços do livro, e um dos trechos foi publicado na Ilustríssima no ano passado (clique aqui). E, porque tentar traduzir o Wake é o tipo de coisa que diverte gente depravada como nós, eu também tenho brincado aqui e ali. O trecho que eu gostaria de compartilhar com vocês agora, então, é a sequência final, em que ALP se dissolve no mar ao mesmo tempo em que perde sua última folha (sim, o trocadilho com a última folha do livro é intencional) e o (re)começo, um trecho belíssimo, por sinal. Vocês podem acompanhar o texto original no site FinnegansWiki (que conta também com hiperlinks apontando para referências e tudo o mais). Minha tradução começa onde diz “My lips went livid for from the joy of fear” na página 626. O texto prossegue, então, até a página 628, onde a frase inacabada “A way a lone a last a loved a long the” se conclui no “riverrun” da página 3, e eu prossigo mais um pouquinho até a página 5, onde começa a narrativa (?) do HCE, apresentando-o em termos bélicos e bíblicos. A paginação, curiosamente, é algo que tende a ser mantido igual em todas as edições do livro, por isso eu também decidi quebrar aqui as linhas de modo a imitar mais ou menos como é no original, ainda que elas não formem versos de fato (em suma, é o mesmo procedimento do Catatau).

PS: e antes que possam me acusar ou de plágio ou de ter tirado do… erm, da cartola essas interpretações todas sobre o livro, eu gostaria, em primeiro lugar, de creditar o prof. Caetano por boa parte do que eu apresentei aqui (após todos esses anos, afinal, eu já não sei mais ao certo o que é comentário de outros autores, o que é comentário original dele com base nesses outros autores e o que é corrupção minha do que ele ensinou), sem o qual minhas tentativas de leitura (que dirá de tradução) do Wake seriam bem mais difíceis. Em segundo lugar, há também uma rica bibliografia sobre o Wake que inclui, além do Panaroma dos Campos, o livro Para ler Finnegans Wake de Joyce, de Dirce Waltrick do Amarante, o Skeleton Key to Finnegans Wake, de Joseph Campbell, e A Obra Aberta e The Aesthetics of Chaosmos: The Middle Ages of James Joyce, de Umberto Eco, que são uma bela literatura de acompanhamento para quem quiser estudá-lo mais a fundo.

(Adriano Scandolara)

John-Vernon-Lord_Finneganswake2

…Meus lábios livoraram para dá alegria do medo. Como quase agora.
Como? Como você disse que me daria as chaves do coração meu.
E seríamos casados até que amorte fossepare. E mesmo que cin nos
sersparemos. Ó, os meus! Só que, não, agora sou eu quem tem que ceder.
Como fis em si o fes. Ond’água-redonda. E será que nu er hora de mme
ddespedir? Hílas! Queria eut ertido mais relances de tespiar nesta luz crescente
dalvo rada. Mas estás te transformando, aculcha, para além de mim,
eu o sinto. Ou será que sou eu? Estou banzeira. Clareia

afora, dentro aperta. Sim, estás te transformando, maridilho, e
mudando, posso te sentir, por uma filhesposa das colinas
ou travez. Inlamaya. E ela vem. Nadando lago atrás de mim.
Margulhando, vadeando retra. Só um súbito lúbrico audaz vivaz búteo
bote bater de algo paralá, saltilhando. Saltarela componha
se. Tenho pena do seu velhosser ao qual mea costumei. Há umais nova agora.
Tente não ir! Alegria, meus queridos! Que eu me engane! Pois ela
te será doce como eu flui doce quando desci da mãe
minha. Meu grande quarto azul, o ar tão quieto, mal há nuvens.
Em silêncio e paz. Podia ter ficado lencima para sempre apenas.
É algo falha conosco. Primeiro a gente é mágoa. Depois água. E que ela garoe
agora se quiser. Suave ou forte se quiser. Que ela garoe pois
é chegada minh’hora. Fiz o melhor quando pude. Sempre pensando
seu me for tudo vai. Centena de cuidados, dízima de angústias e
há um só alguém que me entenda? Alguém em mil anos e as
noites? Vida toda fui ali vivida entre eles mas agora
começo a letestar-lhes. Letesto seus truquezinhos
mornos. Letesto suas voltas gostosas e más. E toda
golfada galfarra que jorra de suas alminhas. E toda vazão vadia a
gotejar em seus seres sincelos. Minúsculo como é tudo! E eu
me revelando para mim só ver sempre. E o tempo inteiro cuculando. Pensei
que estivesses todo resplandecente com a mais nobre das carruagens. Tudo
abobrinha. Te pensei fabuloso em todas as coisas, na falta e na
fama. Não passas dum simplório. Lar! Meu povo não era seu tipo lá
além até onde posso. Pois por tudo que hade árduo e audaz e
anúvio são elas as rés, as bruxas-do-mar. Não! Nem por todas feras
danças em sua fera dinarmonia. Dá para mim ver entre elas, ala-
-niúvia pulcrabela. Como era bonito, a fera Amaza,
quando se agarrava ao meu outrosseio! E o que é estranha,
soberba Niluna, que ela venha roubar de minhas propríssimas madeixas! Pois
assim são elas procelas. Ho hang! Hang ho! E o encontro de nossos
clamores até primarmos em vera liberdade. Aurévola, dizem, nunca
prestanção ao seu nome! Mas eu os testo os que estão aqui e tudo letesto.
Solunária em minha soltude. Por todas suas falhas. Desmaio. Ó
amargo fim! Terei me folhado antes que acordem. Jamais verão.
Nem saberão. Nem saudade. E é velho e velho é triste e velho é

moroso e triste voltar a ti, gélido pai, gélido pai louco,
gélido pai sombroso e louco, até a vera visão da sua mera
imensão, suas molhas e molhas, a se lamumamurianar, me deixe
salmeada, maroura, e eu corra, só para ti, teus braços serguendo, eu os vejo!
Me sal vadas trríveis pontadas! Dois mais. Um dois
trestão mais. Assim. Avelavalem. Zarparam minhas folhas de mim.
Todas. Mas umainda resta. Eu atrarei comigo. Lembrar-me de. Lff!
Tão garoa esta aurora, tão nossa. Sim. Me leva contigo, baizim, como
naquela vez na feirinha! Seu vi ele descendo sobre mim agora
sob alviabertas asas como se viesse do Arcanciel, afundo
eu morreria a teus pés, me humilho, durmilho, em riverânsia. Sim,
tid. Eis onde. Primeiro. Passamos os ramos, calem-seas calêndulas para.
Uixe! Uma ati. Atis. Ao longe voz. Chega, ao longe! Sencerraqui. Nós
então. Outra Finnavez! Leva. Massuavemeen, mimemória! Até teumile-
-unfim. Lbs. Chaves do. Suas! A via a sós a mor a fim a
lém das

        rivieras, passando Eva e Adão, da curva da costa à boca
da baía, nos leva por um cômodo vico de recirculação de volta
a Howth, Castelo e Entornos.
        Sir Tristão, a violar d’amores, vind’ao breve mar, não reche-
-gava passâncora da Armórica do Norte, do lado de lá do istmo
rugoso da Europa Menor, para cedenfrentar sua guerra penisolar; nem
haviam as rochas de Topessóia pelo rio Oconee selhexagerado até
os górgios do Laurêncio condado enquanto dubliavam seus múmperos
o tempo todo: nem um chá mado ardistância foleado mishe mishe para
tauftauf turfés-petrício: nem ainda, mas sem vanesitar muito,
um cabritim acurdido um Isaac ceco: ainda não, embora tudo seja válido
na vanessidade, irmaviam as sósias sestras enroivado com o doizum nathandjoe.
Roto um pico de malte do pai, tivesse Jhem ou Shen fermentado aluz do
arco e rórido fim ao regiobogre a ser visto solanelado n’aquaface.
        A queda (bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerr-
-onntuonnthunntro-varrhounawnskawntoohoohoordenenthur-
-nuk!) de um comparsalmão walltrora todo restrito é recontecida cedo na cama
e mais tarde na vida por toda a menestrelaria cristã. A grande queda
do murônfalo caudou tão sem aviso prévio o pftjschute de Finnegan,
que até pouco atrás eira im sólito homem, que a rampadampla de sua cucorcanda
prantamente manda um enquisidor rumo ao ocidente frente à busca de seus
dandandedões: e suas apontapiquepontoportagens estão em nocaute
no parque onde laranjas foram enterrujadas sobre o verde desde que
pela prima vez devlin amou livvy.

        Que embates cá deus ejos gen desejos, ostragodos gagam pisci-
-godos! Brékkek Kékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu Ualu Ualu!
Quaouauh! Onde os partesões bodelérios ainda
buscam matematar Malacos Micgrãos e Verdugos cates-
-calpelam a camibalística dos Uaiteboçais da Cabeça
Encowthberta. Austrigaitas e bumeranstroms. Ovo escolhido, sede-me medo!
Sãoglórios, salve! Armes trogam aos larmes, tronejantes. Mortemorte-
-mor: um foi, um foi. Que acidanças, que custelos se abriram
e ventilaram! Os mefaçamários desagarrados pelos tegotetab-
-solutos! Que vero sentido pelos seus palhos, com que voz
fenomenal de falso hicó. Ah, hora hora, como espre espreilhando vira
o crepósculo o pai dos fornicacionistas mas (Ó, meus fúlgidos astros
e corpo!) como a palmedira o céu altíssimo o celessinal de
suave aviso! Mas vais ir? Ih, solte! Era mera merda? Ora em pás
returfam os carvalhos de entanho, mas olmos cinzaltam onde freixos carvalham.
Phalhe se for a cair, erguer se deve: e ninguém tão cedo também deverá
para a pharsa ao presente momento novir à secular decepscrição de uma fimnix.
        Caipatraz Finnegan, da Mão Titubeante, murário dos livres,
vi via do modo mais largo imarginável em seu cachaceso ante-
-demais pra terrecados, anterior aos juízes josués nos darem números
ou Helvítico cometer deuteronomia (certo levedia ele severamente
brenteu a tete na banheira a fim de laver o futuro de seus fados, mas
antes de rendirá-la ligeiro de novo, pelos mandos de moisés, a própria
água tinha eviporado e tudo guínese havia tido seu êxodo, só
pra te mostrar que camarada pentansjúgico era ele!)
durante muitos estranhos anos esse homem debalde, cimento e edi-
-fícios no Thorpe de Toper, empilhou canturo supra canturo às
margens dos figatos de Hassim’heassado. Tinha a linda pitita Annie
esposinha, ele braçou a pequena criadura. Se quer se caibelos nas mãos, tome
no seu parceiro. Com enquência balbuloso, mitral coco, agarrado à boa
espátula e oleobúrneos macacãos, que sementamava habitacularmente, como
Haroun Childeric Eggeberth ele caligulava por multiplicá-
-veis a maltitude e pantitude até que viuver pela destiluz da
bebida em quêmeos nasceu seu espetápulo redondado de outros diaspor
vir, nualve e reta maisonaria (concedagraça!), um uaauorfe
de um arruinaciel de uma holtura intorriemente holhível, eriginada

a partir de quase nada e celescalando os hímals e tudo, hierarquite-
-tonitiptitoplóftico, com uma sarça ardente em ripa, à coma de seu babilaque
e com lóuros o’túlers clitiritando acima e tombos a’bosckets claus-
-troando abaixo.
        Dos primeiros foi ele a portar armas e um nome: Vassile Bier-
-slef de Riensengueborgue. Seu paquife de heróltica, em verte e
semportes, troublant, argent, um carbrão, poursuivant, cabrunco, cornuto.
Terciado seu escruto, com arqueiros retesando, hélio, da segunda.
Rum é pro rústico rijecendo a ripa. Rô rô rô rô, Senhor
Fim serás outro Finnavez! Fecunda-seira comecedinho e,
Ó, és vinha! Evem domíngua noite e, ah, és vinagre! Rá rá rá rá,
Gra-senhor Fam, serás finado outra vez!

(James Joyce, tradução de Adriano Scandolara)

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crítica, poesia, tradução

Villiers de l’Isle-Adam (1838 – 1889)

Auguste_de_Villers_de_L'Isle-AdamFoi uma figura excêntrica a de Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, conde de Villiers de l’Isle-Adam (1838 – 1889). Como o personagem Des Esseintes do romance Às Avessas, de Joris-Karl Huysmans, Villiers descendia de uma aristocracia francesa decadente, cujo “sangue havia se degenerado em linfa”, como diria o narrador de Huysmans. Acho que já explica muita coisa sobre as influências a que ele esteve submetido durante sua criação que o seu pai tivesse “investido” muito do seu dinheiro para tentar salvar a fortuna dos l’Isle-Adam ao procurar pelo tesouro perdido dos Cavaleiros de Malta que teria sido enterrado pelos seus antepassados – o que acabou, por ironia, só piorando as condições financeiras da família por ele ter fracassado nessa empreitada que para todo mundo (menos ele) deveria ser claramente quixotesca. Sustentado pela tia, Villiers frequentou a cena boêmia de Paris, onde ganhou uma pequena reputação nos círculos literários. No famoso café/cabaré/teatro Brasserie des Martyrs (ativo até hoje, por sinal, e rebatizado Le Divan du Monde), Villiers conheceu seu mestre Baudelaire, que lhe apresentou à obra de Edgar Allan Poe – dois nomes que foram uma grande influência sobre o seu estilo poético. Seu primeiro volume de poemas, Premieres Poésies, sai em 1859. Fez tanto sucesso quanto a gente pode imaginar que tivesse feito.

Em 1871, porém, morre a tia de Villiers, e ele se vê, como poderíamos dizer em mau francês decalcado, dans la rue de l’amertume. Sem o sustento financeiro da família e sem uma carreira que pudesse lhe render dinheiro, ele sobrevive fazendo bicos, e ao que parece chega até a sugerir cobrar pelo espetáculo de recitar os seus poemas para a plateia dentro de uma gaiola de tigres – uma informação que, tudo bem, eu não pude bem confirmar e que até agora me parece difícil de julgar se se tratava ou não de uma piada (Villiers era um poe-baudelairiano, afinal de contas, e muitos de seus contos são críticas irônicas ao estilo de vida moderno). Sua fama literária cresce – ele ganha entre seus admiradores nomes como Stéphane Mallarmé e J. K. Huysmans, que o elogia no supracitado Às Avessas, publicado em 1884, e tem poemas seus inclusos também no volume dos Poètes Maudits publicado por Verlaine no mesmo ano. Nada disso melhora a sua situação financeira, no entanto, e ele morre na miséria, de câncer de estômago, em 1889, deixando uma obra que consiste de poemas, contos (dos quais se destacam os seus Contos Cruéis, que tem tradução para o português) e romances (como A Eva Futura, que também temos em tradução) e peças de teatro, a mais famosa sendo o seu Axël.

Axël, ao qual Villiers dedicou 20 anos de sua vida, é provavelmente também a sua obra mais representativa – é dela que parte a famosa fala “Viver? Os criados farão isso por nós”, que parece resumir muito bem o seu tom geral. A princípio, notavelmente, uma peça de teatro (no sentido de que você folheia as páginas e vê as marcações de falas de personagens), o crítico Edmund Wilson define Axël como um “longo poema dramático em prosa”, uma definição que parece absurda, mas que se revela bastante precisa quando você pensa na peça dentro do seu contexto. O século XIX foi rico em poemas dramáticos, especialmente os chamados dramas líricos ou dramas “de armário” – obras que se valem da estrutura dramática, mas com propósitos não tanto narrativos quanto líricos, mais transmitindo e sugerindo sensações, ideias e emoções do que preocupados em contar uma história coesa. Muitas dessas peças não foram feitas para serem encenadas, ainda que potencialmente encenáveis (ou de fato encenadas) atualmente, como é o caso do Fausto de Goethe (sobretudo a completa viagem que é a segunda parte), o Prometeu Desacorrentado de Shelley e o Manfred de Byron. Ao mesmo tempo, as tendências do teatro estavam tomando outros rumos, tendendo para a comédia e o melodrama (em prosa), o que fazia desse tipo de poesia algo que poderíamos enxergar como deliberadamente anacrônico. No caso de Axël, no entanto, eu diria que o seu uso da prosa em vez do verso deriva mais de uma apropriação do gênero poema em prosa promovido por Baudelaire do que de uma vontade de adequação ao palco – o que fica muito claro pelo tipo de linguagem carregada, causadora de estranhamento, empregada aqui por Villiers. Somando as duas coisas – o drama lírico com o poema em prosa – tem-se, então, acredito, o tal longo poema dramático em prosa sem maiores dificuldades.

Frédéric Brou - Ébauche d'un monument à la mémoire de Villiers de L'Isle-Adam

Frédéric Brou – Ébauche d’un monument à la mémoire de Villiers de l’Isle-Adam

O enredo de Axël diz respeito ao personagem que dá nome à peça, Conde Axël de Auërsperg, um nobre rosacruciano de uns vinte e poucos anos, morador de um castelo “meio wagneriano, meio gótico” na Floresta Negra, que se dedicava ao estudo da alquimia e do hermetismo. Seu guia nas doutrinas ocultas, o Mestre Janus, estava prestes a revelar-lhe os mistérios da filosofia hermética, quando ocorre que um homem desagradável chamado o Comendador Kaspar, primo de Axël, chega até ele com o intuito de procurar pelo tesouro que teria sido escondido décadas antes no terreno do castelo pelo pai de Axël (qualquer semelhança com a vida do próprio Villiers…). Quando o Comendador encontra o que procura, Axël o confronta, revela o seu desdém pelo seu estilo burguês de vida e o desafia para um duelo de espadas, em que o Comendador termina morto. Num enredo paralelo a esse, uma francesa chamada Sara de Maupers, uma órfã criada em convento a vida inteira, abandona a igreja na hora fatídica de ter de assumir o véu e, em sua fuga vem parar também no castelo, onde pede abrigo. Só que ela, ainda no convento, havia tido contato com um livro, escrito pela esposa do falecido Conde de Axël, a única pessoa que sabia do segredo do castelo, e Sara, na calada da noite, desce até a cripta para encontrar o tal tesouro. Axël a surpreende, no entanto, e há novamente um confronto, mas que termina com os dois subitamente se apaixonando um pelo outro: “pela primeira vez, esses dois espíritos castos e altivos encontram um objeto digno de sua paixão”. Os dois fazem planos do que poderão fazer com todo aquele ouro e joias, todo o luxo, todos os lugares aos quais poderiam viajar… planos que eles prontamente descartam, porque a realidade não poderia jamais dar conta da expectativa criada pela imaginação, uma conclusão que parece ecoar em espírito a do poema em prosa baudelairiano “N’importe où hors du monde”, ou o capítulo de Às Avessas em que Des Esseintes, inspirado por Dickens e Poe, decide ir a Londres, vai até a estação de trem, janta e observa os ingleses, se lembra de uma outra viagem anterior frustrada à Holanda, e de repente desiste de viajar, porque novamente a expectativa não poderá ser cumprida pela realidade.

Por fim, remetendo a um Liebestod wagneriano (Villiers era um grande fã do compositor alemão, a quem chegou a prestar uma visita em 1869), a peça se conclui com a morte dos dois protagonistas, que decidem se suicidar enquanto raia a alvorada – e Liebestod aqui é uma palavra das mais pertinentes porque, lembremos, a canção de Isolda em Wagner é um canto de morte (fatalmente ferida, ela morre logo depois), mas também é um êxtase e do tipo sexual (muitas vezes, aliás, descrita como um, ou mais de um, orgasmo), com a culminação de todo o desejo sublimado e jamais concretizado carnalmente na reunião enfim os dois amantes na morte. Poderíamos falar inclusive numa inversão dos recursos wagnerianos, já que Tristão e Isolda encontram  o amor por acaso via o efeito de uma poção do amor (um filtro ou amavio, para usar os termos arcaicos) que os dois tomam juntos pensando ser veneno.  Em Äxel, porém, os protagonistas encontram o amor e por isso tomam o veneno – prescindindo, portanto, dos desenvolvimentos dos atos 2 e 3 da ópera de Wagner que postergam a reunião do amor-na-morte. Há uma renúncia à concretização amorosa: o ápice da experiência de Axël e Sara foi a fagulha do encontro fortuito, e levar o relacionamento a cabo só poderá trazer o esgotamento e o embotamento dessa experiência transformadora (pois “Amor?… – chama, e, depois, fumaça”, já disse o Manuel Bandeira). A única solução “lógica” para eles, então, (muitas aspas, claro, nesse “lógica”) seria o suicídio.

Estruturalmente, Axël se divide em 4 partes. Na primeira, “O Mundo Religioso”, temos a introdução da personagem de Sara e a sua renúncia. No momento em que o Arcediago pergunta “Tu aceitas a Luz, a Esperança e a Vida?”, Sara responde com um não enfático. A segunda parte, “O Mundo Trágico”, é quando a ação se volta para o castelo de Axël propriamente dito, e se completa o arco narrativo do subenredo do Comendador (por isso é o trecho “trágico”, com esse desfecho que parece remeter, talvez, a Hamlet). A terceira parte, “O Mundo Oculto”, espelha a primeira: o Mestre Janus faz a Axël a mesma pergunta que o Arcediago fez a Sara, e ele responde que não, igualmente. Sara surge no final desse trecho, e a quarta e última parte, “O Mundo Passional”, é onde temos o encontro noturno dos dois e a cena do suicídio, sorvendo veneno de uma taça. Axël nunca encontrou uma versão definitiva enquanto Villiers ainda estava vivo, e, apesar de trechos terem sido publicados em revistas literárias, ao que tudo indica, ele ainda estaria fazendo revisões nela à época de sua morte, e a primeira edição completa só veio a ser publicada em 1890. O título do influente ensaio de Edmund Wilson, O Castelo de Axël (1931), que trata da literatura moderna partindo de uma discussão sobre o simbolismo francês, se refere à peça, que recebe a atenção do autor no capítulo final do livro.

Eu gostaria, então, de compartilhar com vocês aqui no escamandro um trecho da seção final dessa peça assombrosa. Ouvir ao trecho do Liebestod “Mild und leise” do Tristão e Isolda durante a leitura é opcional, porém recomendado.

A tradução foi feita pela professora Sandra Stroparo, da UFPR – especialista em simbolismo francês e que recentemente completou um trabalho de doutorado impressionante sobre as cartas de Mallarmé – , e publicada em 2005 pela Editora da UFPR. Ela também já traduziu um dos contos de Villiers na edição H da revista Arte & Letra: Estórias (2009-2010). O texto original integral de Axël pode ser baixado em .pdf clicando aqui (o trecho reproduzido abaixo começa na página 261).

(Adriano Scandolara)

 

AXËL
Vês o mundo exterior através de tua alma: ele te ofusca! Mas ele não pode nos dar uma só hora comparável, em intensidades de existência, a um segundo destas que acabamos de viver. A completude real, absoluta, perfeita, é o momento interior que nós experimentamos um do outro, no esplendor fúnebre deste túmulo. Este momento ideal, nós o degustamos: ei-lo portanto irrevogável, com qualquer nome que o nomeies! Tentar revivê-lo, modelando, cada dia, a sua imagem, um grão de poeira, sempre decepcionante, de aparências exteriores, seria apenas arriscar desnaturá-lo, diminuir sua impressão divina, anulá-lo no mais profundo de nós mesmos. Estejamos atentos para não sabermos morrer enquanto ainda haja tempo para isso.
Oh! o mundo exterior! Não sejamos os tolos do velho escravo, acorrentado a nossos pés, na luz, e que nos promete as chaves de um palácio de encantamentos, enquanto só esconde, em sua negra mão fechada, um punhado de cinzas! Há pouco falavas de Bagdá, de Palmira, que sei eu? de Jerusalém. Se soubesses que amontado de pedras inabitáveis, que solo estéril e ardente, que ninhos de bestas imundas são, na realidade, estas pobres vilas, que te aparecem, resplendentes de lembranças, no fundo deste Oriente que levas em ti mesma! E que tediosa tristeza te causaria meu aspecto!… Vai, tu as imaginaste? É suficiente: não as olhes. A terra, eu te digo, é inflada como uma bolha brilhante, de miséria e de mentiras e, filha do nada original, estoura ao menor sopro, Sara, daqueles que se aproximam dela! Distanciemo-nos dela, completamente! em um sobressalto sagrado!… Tu o queres? Isto não é uma loucura: todos os deuses que a Humanidade adorou o realizaram antes de nós, certos de um Céu, do céu dos seus seres!… E eu concluo, por seus exemplos, que nós não temos mais nada a fazer aqui.

SARA
Não! É impossível!… Isto não é mais verossímil! É antes inumano que sobre-humano! Meu amante! perdoa! Eu tenho medo! Tu me dás vertigem. Oh! eu defenderei a vida! Imagina! morrer – assim? Nós, jovens e plenos de amor, senhores de uma opulência soberana! belos e intrépidos! radiosos de inteligência, de nobreza e de espíritos! O quê! nesse momento? Sem ver o sol, ainda uma vez – e dizer-lhe adeus! Imagina! É tão terrível!… Queres – amanhã? Talvez, amanhã, eu estarei mais forte, não me pertencendo mais!

AXËL
Ó minha bem-amada! Ó Sara! Amanhã eu serei prisioneiro de teu corpo esplêndido! Suas delícias terão acorrentado a casta energia que me anima neste instante! Mas logo, já que é uma lei dos seres, se nossos transportes forem apagar-se, e se alguma hora maldita deverá soar, onde nosso amor, empalidecendo, dissipado em suas próprias chamas…
Oh! não esperemos essa hora triste. Não é tão sublime nossa resolução que não faz necessário deixar a nossos espíritos o tempo de despertar dela? (Um profundo silêncio)

SARA (pensativa)
Eu hesito: mas é talvez por orgulho, também!… Certamente, se persistes, obedecer-te-ei! Eu te seguirei na noite desconhecida. Entretanto, lembra-te da raça humana!

AXËL
O exemplo que eu lhe deixo vale bem o que ela me deu.

SARA
Aqueles que lutam pela Justiça dizem que – matar-se é desertar.

AXËL
Sentença de mendicantes para quem Deus é apenas um ganha-pão.

SARA
Talvez fosse mais belo sonhar o bem de todos.

AXËL
O universo se entre-devora; este é o preço do bem… de todos.

SARA (um pouco perdida)
O quê? Renunciar a tantas alegrias?… Abandonar este tesouro a estas trevas! Não é cruel?

AXËL
O homem só leva na morte o que ele renunciou a possuir na vida. Na verdade – nós só deixamos aqui uma casca vazia. O que faz o valor deste tesouro está em nós mesmos.

SARA (com uma voz mais surda)
Nós sabemos o que deixamos: não o que vamos encontrar.

AXËL
Nós voltamos, puros e fortes, para o que nos inspira o heroísmo vertiginoso de afrontá-lo.

SARA
Ouves o riso do gênero humano, se em algum momento ele descobrisse a tenebrosa história, a loucura sobre-humana de nossa morte?

AXËL
Deixemos os apóstolos do Riso na rudeza. A vida, todos os dias, se encarrega de lhes fustigar com seu castigo.

(Os primeiros raios da aurora atravessam o vitral)

SARA (pensativa, depois de um silêncio)
Morrer!

AXËL (sorrindo)
Ó bem-amada! eu não te proponho sobreviver-me, tanto estou persuadido de que já não te preocupas mais, em tua consciência, com esta armadilha miserável que chamamos “viver”. (Ele olha em torno, como procurando o punhal com os olhos)

SARA (levantando a cabeça, agora com uma palidez de cera)
Não. Eu tenho neste anel, sob a esmeralda, um veneno fulminante: procuremos uma taça entre as mais belas, entre estas ourivesarias… e que seja feito segundo tua vontade.

AXËL (enlaçando-a nos seus braços e considerando-a em um êxtase sombrio)
Ó flor do mundo! (Depois de um momento, ela a deixa e se dirige para os montes faiscantes do subterrâneo. Sara, enquanto ele remexe as joias e os objetos de ouro, retomou, sobre as tumbas, os grandes colares de diamantes e enfeitou-se em silêncio)

SARA (docemente, para os vitrais)
Que belo sol!

AXËL (voltando e segurando na mão uma taça magnífica incrustada de pedrarias, olha Sara, depois observando-a, e com uma voz doce)
Queres passear na planície, colhendo flores desta primavera? Que alegria sentir o vento da manhã nos nossos cabelos! Vem! nossos lábios se tocarão sobre a mesma primavera!…

SARA (que adivinhou o melancólico pensamento de Axël)
Não. Eu te amo mais que a visão do sol: nossos lábios tocarão suas marcas sobre a borda radiosa desta taça! Eis meu anel… de noiva, também! (Ela tira seu anel familial, aperta a saliência da esmeralda e verte no fundo da taça de Axël os poucos grãos de pó marrom que se encontram no engaste de ouro)

AXËL
O orvalho ainda cai; algumas destas lágrimas claras serão suficientes para dissolver este veneno neste cálice sagrado. (Ele sobe em um sepulcro, perto do respiradouro; e enquanto Sara acaricia, distraidamente, um galgo de mármore, elevando sua mão direita na direção de onde irradia seu cálice trágico, ele passa o braço para fora, através das barras) Assim o céu estará em cumplicidade com nosso suicídio!

(Ao longe, vozes, nas florestas, cantam um canto da manhã: eles ouvem)

CORO DOS LENHADORES (ao longe)
Alegria! alegria!
Sus às grandes árvores cuja morte nos dá o pão!
Ao chegar a manhã, sob as sombras do ouro,
Lenhador, despertador de pássaros, escuta!
O vento, as vozes, as folhas, as asas!
Tudo canta, no fundo dos bosques:
Glória a Deus!

SARA
Tu os escuta? Deus? eles dizem? Eles também, os matadores de florestas!

AXËL
Deixa uma última sílaba cair em paz na alma dos últimos bosques!

SARA (pensativa, como a si mesma)
Eu segurei o machado, também! mas – eu não bati!
(Nas planícies, apelos, fanfarras)

UKKO (ao longe)
Na encosta dos montes floridos
Eis a noiva!
O orvalho, na barra de sua roupa branca,
semeia um bordado de pérolas;
Felicidade eterna para meu jovem amor!
Abaixam-se frente às virgens,
Os olhos de um filho germânico!
Porque seus passos ressoarão sobre a terra.

AXËL
São as crianças que se casam! Pronuncia, para eles, uma palavra de felicidade: algum pensamento vindo de ti, Sara, vai fazê-los, sem dúvida, ainda mais atraentes um para o outro!

SARA (sorridente, virando-se para o respiradouro)
Ó vós, os despreocupados, que cantais, lá longe, na colina… sede benditos!

AXËL (descendo na direção dela)
As luzes desta lâmpada nupcial empalidecem frente aos raios do dia! Ela vai apagar-se. Nós também. (Levantando sua taça) Velha terra, eu não construirei o palácio dos meus sonhos sobre teu solo ingrato: não portarei a chama, não baterei inimigos.
Possa a raça humana, desenganada de suas vãs quimeras, de seus vãos desesperos, e de todas as mentiras que cegam os olhos feitos para se apagar – não consentindo mais no jogo deste enigma morno, sim, possa ela terminar, fugindo indiferente, a nosso exemplo, sem te endereçar nem mesmo um adeus.

SARA (toda faiscante de diamantes, inclinando a cabeça sobre o ombro de Axël e como perdida em um enlevo misterioso)
Agora, já que apenas o infinito não é uma mentira, elevemo-nos, esquecidos de outras palavras humanas, em nosso próprio Infinito!

(Axël leva aos lábios a taça mortal, bebe, estremece e vacila; Sara pega a taça, termina de beber o resto do veneno, depois fecha os olhos. Axël cai; Sara se inclina para ele, arrepia-se, e eis que estão jazendo, entrelaçados, sobre a areia do corredor funerário, trocando sobre os lábios o suspiro supremo. Depois, permanecem imóveis, inanimados. Agora, o sol amarela os mármores, as estátuas; o crepitar da lâmpada e da chama se dissolve em fumaça no raio luminoso que flui obliquamente do respiradouro. Uma peça de ouro cai, rola e ressoa contra um sepulcro como a hora. E perturbando o silêncio do lugar terrível onde dois seres humanos acabam assim de consagrar-si a si mesmos ao exílio do Céu – ouvem-se, de fora, os murmúrios distanciados do vento na vastidão das florestas, as vibrações ao acordar do espaço, a agitação das planícies, o alarido da Vida)

 

(poema em prosa de Villiers de l’Isle-Adam, tradução de Sandra Stroparo)

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tradução

“anos”, de cesare pavese

em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto – eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo – apresentado & traduzido pela poeta & editora nina rizzi (aguardem alguns poemas dela aqui, meus caros).

guilherme gontijo flores

AVE CESARE! UM ESCRITOR SOFRIDO

por Nina Rizzi

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo.

Escritor de vasta obra em prosa e verso, Pavese completaria hoje 105 anos. Quando publicou seu livro mais famoso Lavorare Stanca/ Trabalhar Cansa, já era reconhecido, tanto por sua literatura quanto por seus estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea (reunidos num volume La letteratura americana e altri saggi, publicado postumamente em 1951), e por suas traduções de Daniel Defoe (Moll Flanders), Charles Dickens, Herman Melville (Moby Dick e Benito Cereno), James Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, e Gertrude Stein.

Pavese foi uma alma atormentada e nada, ou muito pouco, feliz em sua vida amorosa. Criou uma obra impressionante em que vivem — sim, em sua escrita tudo está vivo, morre, e pronto a ressuscitar — demônios interiores e exteriores que o assolaram física, moral e mentalmente. Sua literatura está repleta de reflexões sobre a solidão, família, sexo, amor e, sobretudo, a morte.

Além de sua poesia, em especial seu mais famoso título “Verrà la morte e avrà i tuoi occhi/ Virá a morte e terá seus olhos” (escrito pouco antes de ele morrer), seu diário revela o lado trágico da vida a que perseguiu: “o suicídio é um homicídio tímido”. Suas últimas palavras foram à imprensa italiana: “Sem mais palavras, só um gesto. Nunca voltarei a escrever”.

Suicidou-se aos 41 anos em 1950, em um hotel de Turim, sua cidade natal e literária. Essa morte tão jovem sempre foi creditada à solidão amorosa que sentia, mas pensamos que esta estava aliada também aos acontecimentos políticos de seu país – lembremos que sua obra foi escrita entre a 2ª Guerra mundial e a Guerra Fria e que ficou preso por um ano em Brancaleone.

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

ANOS

Do que eu era então não resta nada: apenas homem, era ainda um menino. Eu sabia há muito tempo, mas tudo aconteceu no final do inverno, uma tarde e uma manhã. Vivíamos juntos, quase escondidos, em uma casa que dava para uma avenida. Silvia me disse naquela noite que eu tinha que ir, ou ela iria: já não tínhamos nada que fazer juntos. Supliquei que deixasse que tentássemos de novo, estava deitado ao seu lado e a abraçava. Ela me disse:

– Para quê? – Falávamos com a voz baixa, às escuras.

Logo Silvia dormiu e eu fiquei até de manhã com um joelho colado ao seu. A manhã apareceu como sempre havia aparecido e fazia muito frio; Silvia tinha o cabelo sobre os olhos e não se movia. Na penumbra eu olhava passar o tempo, sabia que passava e corria e que lá fora havia névoa. Todo o tempo que havia vivido com Silvia naquele quarto era como um só dia e uma noite, que agora terminava pela manhã. Então compreendi que nunca voltaria a sair comigo por entre a névoa fresca.

Era melhor que me vestisse e partisse sem despertá-la. Mas agora tinha uma coisa em mente para lhe perguntar. Esperei, tentando adormecer.

Quando despertou, Silvia me sorriu. Seguimos conversando. Ela disse:

– É bonito ser sincero, como nós.

– Oh, Silvia! – sussurrei -, que farei ao sair daqui? Para onde irei?

Era isto que tinha para lhe perguntar. Sem tirar a nuca do travesseiro, ela sorriu de novo, beatífica:

– Bobo – disse – irá para onde quiser. Não é fabuloso ser livre? Conhecerá muitas garotas, fará todas as coisas que quiser. Palavra que te invejo!

Agora a manhã enchia o quarto e só havia um pouco de calor na cama. Silvia esperava paciente.

– Você é como uma prostituta – disse a ela – e sempre foi.

Silvia não abriu os olhos.

– Sente-se melhor por me dizer isto? – me disse.

Então fiquei ali como se ela não estivesse, olhava o teto e chorava sem ruído. As lágrimas me enchiam os olhos e corriam sobre a almofada. Não valia a pena que notasse. Muito tempo passou, e agora sei que aquelas lágrimas mudas foram a única coisa de homem que fiz com Silvia; sei que chorava não por ela, senão porque havia entrevisto meu destino. Do que eu era então não restou nada. Apenas que havia compreendido quem seria no futuro.

Depois Silvia me disse:

– Já basta. Tenho que me levantar.

Levantamo-nos juntos, os dois. Não a vi se vestir. Fiquei logo de pé, na janela; e olhava vislumbrando as plantas. Detrás da névoa estava o sol, o sol que tantas vezes havia entibiado o quarto. Também Silvia se vestiu rápido, e me perguntou se não levaria minhas coisas. Disse que primeiro queria esquentar o café, e acendi o fornilho.

Silvia, sentada na borda da cama, começou a fazer as unhas. No passado sempre as fez na mesa. Parecia absorta e o cabelo lhe caía continuamente sobre os olhos. Então sacudia a cabeça e se liberava. Eu perambulei pelo quarto e recolhi minhas coisas. Fiz um amontoado sobre uma cadeira e de repente Silvia levantou e correu para apagar o café que derramava.

Depois peguei a maleta e coloquei as coisas. Enquanto isso, por dentro me esforçava em recolher todas as recordações desagradáveis que tinha de Silvia: suas futilidades, seus mal-humores, suas frases irritantes, suas rugas. Isso me levava de seu quarto. O que deixava era uma névoa.

Quando terminei, o café estava pronto. O tomamos em pé, junto do fornilho. Silvia disse algo, que neste dia iria ver um sujeito, para falar de um assunto. Pouco depois deixei a xícara e parti com a maleta. Lá fora a névoa e sol cegavam.

(Cesare Pavese, trad. de Nina Rizzi)

***

GLI ANNI

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo. Lo sapevo da un pezzo, ma tutto avvenne alla fine dell’inverno, una sera e un mattino. Stavamo insieme, quasi nascosti, in una stanza che dava su un viale. Silvia mi disse, quella notte, che dovevo andarmene, o andarsene lei -non avevamo più niente da fare insieme. La supplicai di lasciare che provassimo ancora; ero disteso al suo fianco e l’abbracciavo. Lei mi disse:

– A che scopo? – Parlavamo a voce bassa, nel buio.

Poi Silvia s’addormentò, e io tenni sino al mattino un ginocchio contro il suo. Comparve il mattino com’era sempre comparso, e faceva molto freddo; Silvia aveva i capelli negli occhi e non si muoveva. Nella penombra io guardavo il tempo passare, sapevo che passava e correva, e che fuori c’era la nebbia. Tutto il tempo che ero stato con Silvia in quella stanza, era come una sola giornata e una notte, che adesso finiva al mattino. Allora capii che non sarebbe mai piu’ uscita con me nella nebbia fresca.
Era meglio se mi vestivo e me ne andavo senza svegliarla. Ma adesso avevo in mente ancora una cosa da chiederle. Aspettai, cercando di assopirmi.

Quando fu sveglia, Silvia mi fece un sorriso. Riprendemmo a parlare.
Lei disse:

– E’ bello essere sinceri come noi.

– Oh Silvia, – bisbigliai, – che cosa farò uscendo di qui? dove andrò? – Era questo che avevo da chiederle.

Senza staccar la nuca dal cuscino, lei sorrise di nuovo, beatamente.

– Sciocco, – disse, – andrai dove vuoi. Non è bello esser liberi? Conoscerai tante ragazze, farai tutte le cose che vuoi. Parola, che t’invidio.

Adesso il mattino riempiva la stanza e non c’era un po’ di calore che
nel letto. Silvia aspettava paziente.

– Tu sei come una prostituta, – le dissi, – e lo sei sempre stata.

Silvia non aprì gli occhi.

– Ora che lo hai detto stai meglio? – mi disse.

Allora me ne stetti come se lei non ci fosse, e guardavo il soffitto e piangevo senza rumore. Le lacrime mi riempivano gli occhi e colavano sul guanciale. Non valeva la pena di farmene accorgere. Tanto tempo è passato, e adesso so che quelle lacrime mute furon l’unica cosa da uomo che feci con Silvia; so che piangevo non per lei ma perchè avevo intravisto il mio destino. Di quel che ero allora non resta piu’ niente. Resta soltanto Che avevo capito chi sarei stato in avvenire.

Poi Silvia mi disse:

– Adesso basta. Devo alzarmi.

Ci alzammo insieme, tutt’e due. Non la vidi vestirsi. Fui presto in piedi, alla finestra, e guardavo le piante trasparire. Dietro la nebbia c’era il sole, il sole che tante volte aveva intiepidito la stanza. Anche Silvia fu presto vestita, e mi chiese se non portavo con me la mia roba. Le dissi che prima volevo scaldarmi il caffè, e accesi il fornello.

Silvia, seduta alla sponda del letto, si mise a rifarsi le unghie. In passato se l’era sempre rifatte al tavolino. Sembrava soprapensiero e i capelli le cadevano continuamente negli occhi. Allora dava scosse con La testa e si liberava. Io girai per la stanza e raccolsi la roba. Ne feci um mucchio su una sedia e a un tratto Silvia saltò in piedi e corse a spegnere il caffè che versava.

Poi tirai la valigia e ci misi la roba. Intanto, dentro mi sforzavo di raccogliere tutti i ricordi spiacevoli che avevo di Silvia – le futilità, i malumori, le parole irritanti, le rughe. Questo portavo via dalla sua stanza. Quel che lasciavo era una nebbia.

Quande’ebbi finito era pronto il caffè. Lo prendemmo in piedi, accanto al fornello. Silvia disse qualcosa, che quel giorno sarebbe andata da um tale, a parlare di una faccenda. Poco dopo, deposi la tazza e me ne andai con la  valigia. Fuori la nebbia e il sole accecavano.

Cesare_Pavese_Signature

IN: PAVESE, Cesare. Racconti (fragmentos de histórias e contos inéditos, seguidos de Notte di festa e Feria d’agosto). Raccolta póstuma. Torino: Einaudi, 1960.

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