crítica, poesia

poesia e quadrinhos (2 de 2): a visualização

não faço ideia do que outros poetas visualizam na hora de compor seus textos. nunca perguntei. eu, por minha parte, tenho para cada um dos meus trabalhos uma cena muito concreta gravada na memória, um tipo de imagem que traduz toda a situação descrita no poema. por causa disso eu sempre gostei de poemas narrativos, épicos e poemas de situação (uma variação de sitcoms, sit-poems?). passou a ser, desde há muito tempo, quase um método de composição a visualização imagética do texto que vou escrever, e a cada vez que eu releio esse texto, tempos depois, a imagem suscitada na minha mente é exatamente aquela de tempos atrás. o mesmo passa quando eu leio poemas de outros. eu sempre “vejo” a mesma cena. e parando para pensar agora, talvez isso seja uma coisa óbvia que acontece com todo mundo. que seja. é, afinal, o fundamento da ilustração.

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nosso velho conhecido Gustave Doré (1832-1883) nos forneceu alguns dos mais belos exemplos de ilustrações literárias da história do ocidente. de Dantes calamitosos ao papagaio-Corvo de Poe, sua vastíssima (a ponto de ser incrível o tamanho da produção do sujeito) obra nos deu a oportunidade de enxergar alguns poemas de maneira única e especial. torna-se um privilégio ler um poema através dos olhos de Doré. e cada vez mais me encanta o trabalho da ilustração (seja em desenho, gravura ou aquarela) como parceiro da poesia no trabalho de construção de uma obra de arte maior, dialógica, interdisciplinar e, acima de tudo, visualmente e esteticamente interessante.raven17_muttered

porém, como já anunciado várias vezes, esta postagem trata de quadrinhos. Doré foi apenas o exemplo mais clássico e apaixonante do que um ilustrador pode fazer com um material literário. e antes de seguir em frente, há quem argumente a favor da livre imaginação que o poema proporciona, solto das amarras e dos limites impostos pela ilustração (assim como quem viu Harry Potter uma vez e nunca mais conseguiu se livrar das caras hollywoodianas das personagens nas leituras posteriores). acho um argumento bastante válido. no entanto, por mais que minha imaginação seja fértil e gostosinha, não é nem de longe tão bonita como a de Doré.

mas Doré ainda não é o autor dos textos. seria, pois, interessante que tivéssemos acesso à ilustração proporcionada pelo próprio autor. que enxergássemos o texto como o autor o enxerga. García Lorca nos deu um gostinho desse tipo de procedimento em alguns de seus livros (veja aqui e aqui). todos aqui conhecem o trabalho de William Blake tanto como poeta quanto como pintor. também já falei disso ao comentar os Caprichos de Goya. de qualquer modo, estamos divagando no mar das artes clássicas, lugar em que o quadrinho novecentista pouco se insere.

onde então estaria o movimento de enlace entre as duas artes? pouco se sabe. em pesquisa, descobri algumas coisas interessantes, como o trabalho do ilustrador recifense João Lin, que promove a união entre as duas áreas por meio de belas iniciativas como a que se vê no cartaz abaixo. Vale a pena conferir o site: www.joaolin.com.br7257732718_747384941f_z

outra iniciativa surpreendente é a promovida pela editora Vidráguas, com seu projeto PontuAção: Letras em Quadrinhos, que apresentou produções sistemáticas de alunos que desenvolveram simultaneamente textos poéticos e quadrinhos ilustrativos, com um resultado bastante bacana. um exemplo pode ser conferido clicando aqui.

também a argentina Laura Vasquez, formada em jornalismo pela UBA e que trabalha como roteirista e pesquisadora em quadrinhos, publicou algo nesse sentido com seu livro Poemas Ilustrados, cujo gostinho a gente pode ter clicando aqui.

vindo da direção oposta, alguns autores de quadrinhos se aproximaram bastante da mescla entre poesia e ilustração. para nomear apenas uns poucos, trago o infalível mestre Will Eisner, seja com seus próprios roteiros de alta qualidade literária, seja adaptando textos poéticos clássicos:

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cena de A Contract with God

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cena de Hamlet on rooftop

também os irmãos Gabriel Bá e Fábio Moon (http://10paezinhos.blog.uol.com.br/), além de já terem adaptado obras literárias (como O Alenista de Machado), tendem a apresentar textos que se inclinam ao poético, ao reflexivo-existencial:

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e, como último exemplo, trazendo outra adaptação de textos clássicos, um trabalho do qual eu sou fã de carteirinha e que alguns de vocês devem ter conhecido ou eventualmente comprado na livraria, que é a adaptação da Divina Comédia de Dante (é ou não é o rei das adaptações?) feita por Seymour Chwast. se chama A Divina Comédia de Dante, e lá o poeta e Virgílio são transformados em figurões da novela noir, percorrendo o outro mundo de maneira bastante original.

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isso, pra quem não conhece, eu recomendo demais. um trecho da obra em .pdf pode ser lido aqui, cortesia da Cia. das Letras. para quem porventura achar que o negócio é avacalhado demais, digo que vai se surpreender com a fidelidade de Chwast ao texto de Dante, já que mesmo nos momentos paradisíacos mais alucinados existe uma solução visual bacana e bem-humorada (porque, claro, ilustrar o Inferno de maneira bem-humorada é bem fácil).

e chegamos, afinal, ao que eu prometi na postagem anterior. dada a minha inclinação cada vez maior a procurar soluções visuais para os trabalhos poéticos, tornando-os visual e esteticamente mais interessantes, volto a um trabalho que foi apresentado aqui no Escamandro pela primeira vez em 20 de março de 2012, ou seja, há um ano quase redondo. ele pode ser lido aqui, e está contido dentro da série Invisibilidade, cujo nascimento se deu justamente por influência da leitura de obras de Will Eisner. e precisamente por este motivo, sendo a matéria poética dessa série oriunda de um material essencialmente visual do formato de quadrinhos, é que faço o caminho inverso e dou forma ao meu próprio texto, fazendo, como anunciei no primeiro parágrafo desta postagem, com que se visualize a cena que eu mesmo vivia apenas na composição e leitura desse poema. a homenagem visual do estilo, é óbvio, retorna a Eisner.

a parte v da série Invisibilidade, então, se chama A Jóia.

vinicius ferreira barth

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poesia e quadrinhos (1 de 2): poetas e poesia como temática

dois são os temas que abordarei nesta e na próxima postagem: parte 1) o poeta e a chacota: alguns exemplos selecionados do personagem-poeta sendo um divertido – e frutífero – motivo de tiração de sarro. parte 2) poesia e ilustração, cadê?: já que, coincidentemente, o último post, que trata de ‘Toda Poesia’ de Leminski, toca nesse assunto no que concerne às notáveis ausências de ‘processos dialógicos’ que tendam a correlacionar a leitura de poesia com outras artes, resultando numa tradição de leitura extremamente tradicional (e entediante, a meu ver), quero desenvolver um pouco mais essa questão.

mas primeiro o que vem primeiro. o poeta como personagem. já que todos sabemos bem o que significam as expressões ‘poeta de guardanapo’, ‘poeta de rua’, ‘poeta de boteco’, ou, para os de Curitiba, ‘poeta do largo da ordem ou da boca maldita’, fiz uma seleção de aparições de poetas e de poesia em histórias em quadrinhos. mais especificamente no formato de tiras. seja você, caro leitor, poeta ou não, considero que seja óbvio perceber a figura do poeta na sociedade atual como uma figura incômoda, deslocada, e em muitas vezes, como veremos abaixo, risível. o véu oitocentista e trágico que ainda paira sobre as cabeças dos versificadores de plantão neste século 21 se assemelha a uma maldição da qual poucos artistas puderam se livrar. o lugar na literatura reservado para a poesia – exemplo visível em qualquer visita a qualquer livraria – é ridiculamente pequeno quando comparado ao espaço de romances, best-sellers e mesmo quadrinhos, cujo mercado vive uma expansão sem precedentes. ser chamado de ‘poeta’ nos tempos de hoje é, eu acredito que exclusivamente, ser relacionado aos significados apresentados acima. a poesia imediata, a poesia do trocadilho barato, a poesia do sem-querer, a poesia ‘cometida’ e a poesia do sentimentalismo (grudento) tendem a acentuar a imagem ridicularizada do aedo contemporâneo. e pior, tendem a eclipsar os trabalhos de qualidade que eventualmente surgem.
e sob essa aura de ‘maldito’, ‘incompreendido’ ou ‘palaciano’ é que o poeta se torna um personagem cômico das construções em quadrinhos de hoje. eu não acho que sejam despropositadas ou ofensivas, mas sim bastante perspicazes em captar uma impressão que é bastante corrente e que nem sempre é tão clara aos próprios bardos imortais. sendo assim, figuras dúbias perante a percepção de uma sociedade imediatista e tecnológica que praticamente não lê poesia, vos deixo na companhia de alguns desenhistas que (nos) deram uma roupagem completamente divertida. ressaltando, claro, que esta é apenas uma seleção bastante breve de materiais aos quais eu tive acesso pela internet. dá pra ir bem longe e já foi feita muita coisa do tipo.
não hesitem em clicar nas imagens para ficar maiorzim.

começando com Laerte (http://manualdominotauro.blogspot.com) posto alguns dos melhores trabalhos que já tocaram no assunto, incluindo a história publicada em ‘Piratas do Tietê’ que traz Fernando Pessoa como personagem principal. destaco também a ‘Divina Comédia’, que é com certeza um dos melhores quadrinhos de paródia que já li:

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Piratas do Tietê

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o poeta de Angeli (http://www2.uol.com.br/angeli/), em plenos anos 1980, pasmem, namorou a Rê Bordosa por um tempo (créditos ao grande professor Álvaro Carlini pelo envio das tiras escaneadas). não sei vocês, mas eu já conheci vários desses:

angeli 1

angeli 2

Ricardo Coimbra (http://vidaeobrademimmesmo.blogspot.com) traz um poeta e uma recepção bastante contemporâneos, seja pela indumentária ou pelo resultado da performance:

ricardo coimbra

e, por fim, um exemplo trazido diretamente da Marvel, na ocasião da parceria do Homem-Aranha com o Thor na luta contra os temíveis e horrissonantes Tokkots (Super-Heróis Premium: Homem-Aranha #01, publicado no Brasil pela editora Abril em 1999. perdão pelas reproduções apenas em inglês, minha revista não está ao alcance das mãos agora…). a saber, enfim, o que interessa sobre os Tokkots no momento é que eles falavam somente com rimas, o que fazia com que qualquer conversa com o Thor parecesse um papo super descolado:

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tokkots 2

com que tipo de personagem você, caro leitor, se identifica?
eu, com o Virgílio de Laerte.

no próximo post tratarei do diálogo entre a poesia e os quadrinhos em termos de adaptação, releitura e concretização da imagem sugerida pelo texto poético. como já comentei no início do post, quero discutir um pouco a respeito da completa ausência de movimento dos autores de poesia em direção ao uso do texto impresso como material estético visual (sim, a página visível como obra), bem como para material de base para ilustrações ou adaptações. (no caso, claro, falando de Poesia, já que adaptações literárias em geral já são bastante correntes no mundo dos quadrinhos). para quem se interesse pelo assunto e queira adiantar alguma leitura, já toquei nesse assunto aqui, apresentando uma adaptação em quadrinhos da Ilíada, publicada pela Marvel.

e como cereja do bolo, apresentarei a minha primeira investida nessa nova linguagem, o que representa, para mim, um ‘sopro de ar fresco’ nesse ambiente poético que pode ser, por vezes, bastante empoeirado.

excelsior!

vinicius ferreira barth

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crítica, poesia, tradução

traduzir e retraduzir (n)o escamandro

o capítulo primeiro de tradução, reescrita e manipulação da fama literária, de andré lefevere, inicia-se com o seguinte parágrafo:

Este livro lida com os intermediários, homens e mulheres que não escrevem literatura, mas a reescrevem. Isso é importante porque eles são, no presente, co-responsáveis, em igual ou maior proporção que os escritores, pela recepção geral e pela sobrevivência de obras literárias entre leitores não-profissionais, que constituem a grande maioria dos leitores em nossa cultura globalizada. (p. 13)

assim, nos termos de lefevere não é descabido pensar no cinema como um dos domínios operantes da tradução (chamarei simplesmente de tradução o que reunirá também o conceito problemático de adaptação e reescrita), e tampouco o seria pensar o mesmo com os quadrinhos, a arte que, entre todas, mais é aparentada com o cinema.
pois bem, pensemos nos processos de transposição de uma ideia ao longo do trabalho composicional de ambas. essa ‘ideia’, ou o conteúdo que se pretende transpor desde uma obra literária até o resultado midiático final (pensando, claro, em termos de adaptações) sofre um trabalho brutal de adaptação a um roteiro estabelecido para comunicação em outra mídia. (o que causa o clássico ‘o filme é bom, mas o livro é melhor). ou seja, esse novo roteiro, que faz o meio de campo entre obra e destino, constitui o caminho intermediário que reúne todo esse conteúdo original (a poética, de acordo com alguns) com a matéria transposta. daqui, ao invés de pensarmos no ‘que se perde’ no caminho (assunto que resume a cruz de todo tradutor), já temos em mente que se tratam de mídias diferentes, e, portanto, abordagens diferentes de um mesmo tema. antes de pensarmos em todos os filmes que não alcançaram a magnitude de suas realizações literárias, não esqueçamos daqueles que fizeram o contrário, e tornaram livros medianos em clássicos da turma cinemática. um exemplo disso para mim seria o carteiro e o poeta.

do roteiro, passa-se ao storyboard, a nova transposição. traduz-se o conceito do roteiro no seu primeiro acontecimento visual. supõe-se ali o texto, vivificado, mas aponta-se para um lado em que acontecem outras coisas além do verbal.

abaixo podemos visualizar dois exemplos. o primeiro trata-se de uma página do storyboard de star wars: o império contra-ataca, com uma cena bastante conhecida por todos nós, creio. mais abaixo temos o sketch de jim lee para uma página de batman: silêncio, juntamente com a sua realização após a arte-final.

disso, supõe-se que o caminho final seja do storyboard em direção à versão definitiva, à arte-final e às cores.

tradução, adaptação, reescrita.

muito provavelmente não lemos o roteiro original de quaisquer revistas do batman ou da série star wars. certamente eu simplifiquei bastante o processo. de qualquer modo, a coisa se torna especialmente interessante quando vemos uma obra literária bastante conhecida tomar forma em uma dessas outras mídias. já falei nesses termos com relação à música aqui, em outro post. ali, a expressão verbal é praticamente zero, e capta-se algo do ‘espírito’ da obra para ser transmitido por som, e isso pode acontecer tanto no poema sinfônico oitocentista quanto na banda de metal que busca temas da épica clássica. no cinema, tanto quanto nos quadrinhos, a expressão verbal é diminuída com relação ao texto-fonte, podendo ser muito bem (re)elaborada, e divide espaço (e atenção) com a imagem.alienista_gemeos_capa

minha própria experiência alertou negativamente durante vários anos para obras literárias adaptadas para quadrinhos. simplificação do roteiro (para não dizer bestificação), aliado muitas vezes com artistas de segunda mão faziam um desserviço a um trabalho que, retomando a abertura desse post, pode ser uma ferramenta poderosa para divulgação de literatura a um público não-profissional. supondo o argumento de lefevere, um maldito quadrinho ruim poderia arruinar com a imagem de uma obra em meio a uma comunidade de leitores jovens, para pensarmos numa situação. nos últimos tempos, no entanto, algo tem mudado. um exemplo básico em termos de brasil é o trabalho dos irmãos gabriel bá e fábio moon, que adaptaram, por exemplo, o alienista, de machado de assis (capa ao lado), com grande qualidade de roteiro e de arte. trabalhos assim passaram a ser mais comuns a nível nacional e internacional, deixando de representar apenas a imbecilidade da ‘adaptação para jovens’ para constituir uma mídia de comunicação bem fundamentada e mais levada a sério, como já era o cinema.

nessa esteira, chega ao meu conhecimento a existência da série marvel illustrated, que adapta grandes obras da literatura à linguagem dos quadrinhos. alguns de vocês devem ter conhecimento dessa série, que inclui em seu acervo títulos como a ilíada, a odisseia, moby dick, o retrato de dorian gray, a ilha do tesouro, entre outros. no primeiro momento, o que me chamou mais a atenção foi o fato de esses títulos virem licenciados pela marvel comics, o que, querendo ou não, possivelmente elevaria o padrão dos trabalhos a outro nível. (infelizmente, até onde me consta a série não foi lançada no brasil).

fato é que a adaptação da ilíada é magistral, desde a concepção do roteiro e do storyboard até o formato final e a arte, e aí eu chego finalmente onde pretendia.

para quem gosta de quadrinhos de ação, é o clássico quadrinho de pancadaria entre personagens heroicas; e mais que isso, é um quadrinho que também sabe manter os momentos de pathos, as tristezas e as tragédias, os valores. para quem gosta da ilíada, é uma adaptação e tanto, com uma fidelidade assombrosa à ‘ideia’ do poema, e até mesmo com citações exatas do texto. tanto é que partes traduzidas do próprio poema compõem falas de personagens e até do narrador, de modo que quem conhece o poema sentirá ressoar na memória a grandiloquência homerica naqueles quadrinhos que pareceriam ser à primeira vista só de porrada.

por isso, como homenagem minha ao nosso escamandro, que nem um ano tem ainda, apresento finalmente o escamandro homerico em nosso blog, em toda sua magnitude, e em duas versões: a da marvel, que conta com o roteiro de roy thomas e os desenhos de miguel angel sepulveda; e a minha, que segue o padrão dodecassílabo que estou utilizando em meu projeto de tradução da argonáutica de apolônio de rodes, mantendo o mesmo número de versos, e que logo deve ter uma pontinha aparecendo aqui no blog. por meio da comparação entre essas duas versões também será possível perceber o quão próxima está a versão da marvel do texto de homero.

para uma introdução à leitura, lembramos que o rio escamandro (em seu nome humano, sendo xanto o divino) se entope com corpos de troianos durante a aristeia de um aquiles recém retornado à guerra e enfurecido pela morte de pátroclo. afrontado pelo herói, o escamandro se revolta, dá uma coça no mais poderoso dos homens e bota ele pra correr, fazendo com que o semideus aquiles sinta medo e rogue aos deuses por salvação. aquiles, em desespero, chega a se comparar, num símile, com um pequeno pastor que, ao tentar atravessar as fortes correntes durante o inverno, acaba engolido e afogado. mas no fim ele é salvo e o escamandro é acalmado pelos outros deuses.
a cena é memorável e acabou encontrando nos quadrinhos da série marvel illustrated uma realização igualmente magnífica. acabo até pensando no porquê de ser uma cena tão pouco representada nas artes visuais ou mesmo no cinema, sendo das mais divertidas no poema homerico.

e finalmente, sem mais delongas, a minha tradução dos versos 209 a 283 do canto XXI da ilíada, seguida pela reprodução das páginas referentes ao episódio do escamandro nos quadrinhos (the iliad, v. 7, pp. 15-8).
boa leitura.

vinicius ferreira barth


Il
. 21.209-83

Ali matou Medon, Tersíloco, Astopilo,
e Mneso e Trásio, e também Ofelestes e Ênio;
e muitos mais Peônios o veloz Aquiles
ceifaria, se não tivesse o fundo rio
o adereçado em forma humana entre voragens:
   “Aquiles, entre os homens és mais poderoso
e mais terrível; pois dos deuses tens a graça.
Se Tróia exterminar te concede o Cronida,
que o faças nas planícies, fora do meu leito;
pois minhas águas engasgaram-se com corpos,
meu fluxo não tem força pra seguir ao divo
ponto, e com mais e mais defuntos tu me entopes!
Ó líder nato, acalma-te, que estou danado!”
   E assim lhe respondeu o Aquiles velocípede:
“Caro Escamandro, assim será, como me ordenas.
Mas não antes que eu despedace a todos Troas
e os tranque na cidade e encare Heitor de frente,
e descubro, por fim, se venço-o ou ele a mim.”
   Assim falou e se lançou sobre os Troianos;
e o fundo rio então adereçou-se a Apolo:
“Filho de Zeus, argente-arqueiro!, não te lembras
das ordens do Cronida, que a ti comandou
amparar os Troianos, ser a eles refúgio,
até que a luz caísse e eclipsasse as planícies?”
   Falou, e ao ter saltado Aquiles de um relevo
para o centro, o furioso rio nele arrojou
diversos jatos num só jorro; os corpos todos
que em montes o entulhavam, mortos por Aquiles,
ele lançou às margens, como um touro irado;
e os vivos sob as limpas águas resguardou,
ocultando-os em vórtices fundos e vastos.
Formou-se uma onda horrível ao redor de Aquiles
que foi de encontro ao seu escudo em jato; os pés
mal se sustinham; segurou co’ as mãos num olmo
enorme e firme, posto abaixo na orla a expor
as raízes, contendo assim o brando fluxo
com seus pujantes ramos; sua própria massa
formou ali uma ponte; desse turbilhão
o herói lançou-se com velozes pés ao campo,
medroso; e sem deter-se, o grande deus jorrava
sobre ele com a crista enegrecida, a fim de
cessar de Aquiles o labor, salvando Tróia.
Veloz saltou o Pelida a distância de um dardo,
lançando-se como a águia escura quando caça,
entre as aves a mais ligeira e mais robusta.
Acometia assim, e o brônzeo arnês ao peito
rugia hediondo; oblíquo então pôs-se a fugir,
enquanto atrás o horrisonante rio caçava-lhe.
Tal como um homem que ergue a fonte da água negra
e traz por entre plantas e jardins o fluxo
tendo na mão a enxada que livra o conduto;
e sob o fluxo que se força acima os seixos
revolve, enquanto caem ali sujeira e terra
em balbucios, até que a ele, o guia, excedam;
assim a enorme enchente alcançou o tão célere
Aquiles, pois os deuses mais que os homens valem*.
E o divo Aquiles, sempre que parava e via
o algoz e se empenhava em saber se impeliam-no
à fuga os imortais, no largo céu de acordo,
de cima uma onda enorme vinha e lhe atingia,
encharcando seus ombros; pôs-se à frente aos saltos,
angustiado, forçado pelo rio em fúria,
cansando os joelhos, vendo o chão sumir dos pés.
   E lamuriava-se o Pelida ao largo céu:
“Zeus pai, dos deuses não há quem livrar-me possa
deste rio? Meu destino, pois, aqui eu encontro!
Outro não me causou tal mal entre os Celícolas
como o fez minha mãe, que insuflou-me vãs glorias.
Disse ela que ante os muros Troas eu cairia,
flechado pela flecha rápida de Apolo.
Tivesse-me matado Heitor, melhor troiano!,
pra que vencido um bravo, um bravo o despojasse!
Agora em mim recai a triste morte indigna
cercado pelo rio, como o pastor menino
que, atravessando a invernal torrente, afoga-se.”

(*) seguindo neste verso a ótima trad. de odorico mendes.

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