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John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

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John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

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Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

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poesia, tradução

Laura Wittner (1967-), por Rafael Mantovani

laura wittner

Foto: Dino Bronfman.

Laura Wittner nasceu em Buenos Aires em 1967. É formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Hoje coordena oficinas de poesia e tradução, e trabalha como tradutora literária para diversas editoras. Publicou sete livros de poesia e três antologias entre 1996 e 2016, e sua obra reunida foi publicada recentemente: Lugares donde una no está (Buenos Aires, Gog y Magog, 2017). Também participou de várias publicações e antologias na América Latina, Espanha, França e Inglaterra. Além disso, é autora de seis livros infantis, e já traduziu autores como Leonard Cohen, David Markson, Anne Tyler, entre muitos outros. Recebeu uma série de prêmios, bolsas e menções honrosas em concursos e projetos argentinos e hispanoamericanos. Escreve no blog http://www.selodicononlofaccio.blogspot.com.ar . Apresentamos aqui quatro poemas seus traduzidos por Rafael Mantovani, os dois primeiros da antologia Noche con posibilidades (Montevidéu, Civiles iletrados, 2011), e os outros dois inéditos.

* * *

 

Outra cidade

Quando levanto os olhos vejo neve,
neve que vem brilhando da televisão.
Como sempre, cintilam no mapa
os lugares onde não se está.
Certamente sentiria falta do mercado de flores
e de acordar neste oitavo andar
que se abre desafiando o vento.
A verdade é que só houve um dia de neve
e que há uma possível segunda versão
para as coisas conhecidas.
As malas estão feitas desde sempre
e além disso estão no sofá
em posição de espera.
Esse momento dura, se mantém,
é uma maneira de estar:
estar prestes a ser abandonado.
O poço preto das malas feitas,
reverso do desembarque:
o desejo humano pelo incompleto
que se reflete, dizem,
na predileção pelo pequeno,
o breve, o fragmento.

Otra ciudad

Cuando levanto la vista veo nieve,
nieve refulgiendo desde el televisor.
Como siempre, titilan sobre el mapa
los lugares donde una no está.
Seguro extrañaría el mercado de flores
y despertar en este piso octavo
que se abre desafiando al viento.
La verdad es que hubo un solo día de nieve
y que hay una posible segunda versión
para las cosas conocidas.
Las valijas están hechas desde siempre
y además están sobre el sofá
en posición de espera.
Ese momento dura, se sostiene,
es una manera de estar:
estar a punto de ser abandonado.
El pozo negro de las valijas hechas
reverso del desembarco:
el deseo humano por lo incompleto
que se refleja, dicen,
en la predilección por lo pequeño,
lo breve, el fragmento.

§

 

Um olhar de adeus do trem em movimento

Um olhar de adeus do trem em movimento
gostaria de ser um olhar especial
e é como todos, este lugar que ocupamos
agora, vazio de nós,
inicia o movimento de retrocesso
de recolher-se na memória
para ao mesmo tempo incomodar
dando o sinal de que
continuará existindo,
outros habitantes o percorrerão
como alguém que amamos
e a paisagem irá se modificando,
a lembrança então cada vez mais inexata
não por desgaste
mas sim porque o original vai mudar.
A última coisa que você verá
será também a primeira que verá
quando voltar
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por outro lado sempre moramos nesta cidade
e quando um domingo passamos perto de barcos encalhados
e pontes cor de ferrugem,
e ao descer do carro vemos que o rio
é uma coisa preta, espessa,
destilando bolhas entre manchas claras
como massas de saliva em expansão
(“formou-se sobre a água uma capa anaeróbica
onde criaturas impensáveis
desenvolvem-se e existem sem oxigênio”)
então não existe pena pelo lugar distante
nem gestos significativos no último olhar
seria inútil se não há limites
para entrar ou sair.

Una mirada de adiós desde el tren en marcha

Una mirada de adiós desde el tren en marcha
querría ser una mirada especial
y es como todas, este lugar que ocupamos
ahora, vacío de nosotros,
inicia el movimiento de retroceso
de replegarse en la memoria
para al mismo tiempo molestar
dando la señal de que
seguirá existiendo,
otros habitantes lo recorrerán
como a alguien que quisimos
y el paisaje se irá modificando,
el recuerdo entonces cada vez más inexacto
no por desgaste
sino porque el original va a cambiar.
Lo último que veas
será también lo primero que veas
cuando regreses
(you are leaving Las Pirquitas we are already missing you).
Por otra parte siempre hemos vivido en esta ciudad
y cuando un domingo pasamos junto a barcos varados
y puentes color óxido,
y al bajar del auto vemos que el río
es algo negro, espeso,
destilando burbujas entre manchas claras
como salivazos en expansión
(“se ha formado sobre el agua una capa anaeróbica
donde criaturas impensables
se desarrollan y existen sin oxígeno”)
entonces no hay pena por el lugar lejano
ni gestos significativos en la última mirada
sería inútil si no hay límites
para entrar o salir.

§

 

Viramos na Libertador

Minha filha diz que o jacarandá
parece uma árvore de outro mundo.
Que essa bruma violeta
não pode estar no mesmo plano que a gente.
Sempre quis ter
uma conversa assim:
calhou de ser justo
com esta menina.

Doblamos por Libertador

Mi hija dice que el jacarandá
le parece un árbol de otro mundo.
Que esa bruma violeta
no puede estar en nuestro mismo plano.
Siempre quise tener
una conversación así:
se me viene a dar justo
con esta nena.

§

 

Voltei a ter um limão na mão

Voltei a ter um limão na mão.
É algo tão perfeito de agarrar.
Eu sabia disto? Lembrava?
Vejam a minha mão: vira uma concha espontânea
e nela não resta nada que não seja
limão: o fresco, o rugoso, o peso,
o perfume terrível, a acidez.
Não há distância entre a mão e o limão.
Significam a mesma coisa por um instante.

Volví a tener un limón en la mano

Volví a tener un limón en la mano.
Es algo tan perfecto de agarrar.
¿Esto yo lo sabía? ¿Me acordaba?
Miren mi mano: se ahueca espontánea
y no queda nada en ella que no sea
limón: lo fresco, lo rugoso, el peso,
el perfume terrible, la acidez.
No hay distancia entre la mano y el limón.
Significan lo mismo por un rato.

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poesia

Rafael Mantovani (1980-)

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Rafael Mantovani nasceu em 1980 em São Paulo, e mora em Berlim desde 2011. Ganha a vida como tradutor. Teve poemas publicados em revistas brasileiras como modo de usar & co., Lado 7, Rosa e Opiniães. Seu primeiro livro cão foi lançado em 2011 pela ed. Hedra, e o segundo, mas o Céu também, sairá em 2017. Apresenta-se regularmente em eventos e festivais de literatura em Berlim, como a Latinale – Lateinamerikanisches Poesiefestival (2013), Brasilien trifft Berlin (2015) e Stadtsprachen (2016).

 

sergio maciel

* * *

hoje segundo o que tem pra hoje

hoje eu vou ter que ser deus
porque você não veio
porque hoje não veio mais ninguém

faço milagres
porque a disposição dos átomos não colabora
distribuo maravilhas
faço a ingenuidade dar certo
faço trocadilhos serem engraçados
faço lágrimas correrem na temperatura certa, e em público
trago a pessoa amada em 37 anos
faço gatinhos desaparecidos lerem cartazes em papel A4, feitos no word colados em postes

reembaralho remorsos e mutilações
canto por cima de desconfianças
deflagro o choro e o ranger de dentes em festinhas
danço em cima do seu túmulo
danço there is a light that never goes out em cima do seu túmulo

dou bigodes aos que não têm boca
e vice-versa.

 

§

uma segunda-e-meia chance

pedia a deus uma segunda chance
ele me dava uma chance segunda-e-meia
era que nem uma segunda chance, só que
já usada por outra pessoa, uma chance amassada nas pontas
uma chance apanhada do chão, e batida pra tirar a sujeira

não brilhava colorida como uma chance nova
não vinha dentro do plástico pra eu mesmo poder rasgar
tinha gordura de dedos de quem tinha usado antes
não tinha a consistência firme de uma chance recém-saída da máquina do mundo
pro que você quer, ainda serve, deus me dizia

eu aceitava sem olhar no rosto dele
não agradecia nem deixava de agradecer
tentava sorrir
ia embora atravessando a longa selva, voltava
pro quarto onde deus não me via

no caminho olhava embaixo
das árvores, pensava o diabo quem sabe
estivesse por ali.

 

§

armazenamento

a cidade guarda os ossos dos seus mortos
como se não estivesse convencida
de que nunca mais vai precisar deles

“nunca se sabe”, ela exclama, ela é uma mãe de mãos sujas
não permitiria simplesmente deitá-los pros cães
“vai saber”, o tempo é grande, pode chegar quando eles sirvam

a cidade guarda nas partes de baixo
aquilo que seria desejável só nas (o inferno
ou uma câmara de magma, por exemplo) circunstâncias mais
específicas, porque existem tantos talvezes

as coisas inclusive pessoas
começa a ficar mais improvável
que alguém venha a querer encostar nelas, mas
não se sabe a partir de quando.

 

§

e não

e não, o diabo não quer fazer um pacto com você
disse que não está interessado na sua alma
disse que é um modelo de alma comum demais, que ele já tem várias parecidas
e usa todas elas como papel de rascunho

disse muitos imbecis tentam
me vender a alma depois que ela já se corrompeu sozinha

ele não agradece sua proposta
e informa que está rindo da sua cartinha junto com belzebu e os outros
e que vai contar para deus que você se ofereceu.

 

§

mirabel

deus me entregava em mãos o inventário
(definitivo até segunda ordem
mas que eu tratasse como definitivo)

nele tinha uma lista do que eu podia jogar fora
e uma lista do que eu tinha que guardar
tinha uma lista do que eu teria que jogar fora
e uma lista do que era melhor eu guardar
tinha uma lista do que era impossível jogar fora
e uma lista do que eu já tinha perdido

o que eu já tinha perdido
deus ia acomodar dentro dos nomes
que tinham sobrado quase sem usar

alvastadt
mirabel
tintagel
sanabil

eu via ele desplugar os nomes um por um
sentia arrepio.

 

§

zero zero

afetos comuns
que os cães também têm

ciúme preto
vontade de agradar
vontade de agradar a ana luiza
vontade de entrar
de ser convidado

leio ricardo domeneck
com a wikipédia do lado
leio a previsão do tempo
com uma agulha e um machado.

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