Uma janela de Rilke em várias versões

Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856) A View of Naples through a Window, 1824
Franz Ludwig Catel (German, 1788–1856)
“Vista de Nápoles por uma Janela”, 1824

Eu já disse, num passado nem tão distante, que a poesia francesa de Rilke era pouco conhecida no Brasil, na língua portuguesa como um todo. Começo a ver que não era, ou que certamente já não é verdade. Como prova cabal disso, eis logo abaixo cinco (sim, eu disse 5) versões lusófonas para um mesmo poema que aparece tanto na série Vergers quanto na Fenêtres. Três delas apareceram em livros: a de Fernando Santoro em 1995, a de Maria Gabriela Llansol saiu em 1998 (na verdade, uma bitradução), e a minha em 2009. Além disso, descobri recentemente a de a de Carlos R. Monteiro de Andrade, que tinha saído numa revista de arquitetura, em 2006. Por fim, William Zeytounlian, que vem traduzindo toda a série Vergers, apresentou uma nova versão. Rilke vai bem, obrigado.

Guilherme Gontijo Flores

ps: olhem este post aqui, que vale a pena.

* * *

N’es-tu pas notre géométrie,
fenêtre, très simple forme
qui sans effort circonscris
notre vie énorme ?

Celle qu’on aime n’est jamais plus belle
que lorsqu’on la voit apparaître
encadrée de toi ; c’est, ô fenêtre,
que tu la rends presque éternelle.

Tous les hasards sont abolis. L’être
se tient au milieu de l’amour,
avec ce peu d’espace autour
dont on est maître.

(Rainer Maria Rilke)

§

2 Versões de Maria Gabriela Llansol, no livro Frutos e apontamentos.

a) Em Vergéis:

I

Janela — o teu nome lembra geometria!
Não és tu essa forma simplicíssima
que, sem forçar, circunscreve
a nossa vida desmedida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

b) Em As janelas: [é o mesmo poema, mas a tradução muda apenas na primeira estrofe]

III

É verdade, janela, que és a forma
Simplicíssima da nossa geometria,
E que, sem tensão, circunscreves
A amplidão da nossa vida?

A mulher que amamos nunca foi tão bela
como que quando no-la mostras a surgir
do teu enquadramento! Ó janela,
quase que a tornas eterna. A ela.

Todos os acasos são suspendidos. O ente
amado, centrado no amor, só
tem, em seu redor, esse quase nada de espaço
de que somos donos e senhores.

§

Versão de Fernando Santoro, no livro Jardins.

I

Não és tu a nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
Nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando entre em cena
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu quase a tornas eterna.

Todo acaso é abolido. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
onde nos cabe o poder.

§

Versão de Carlos R. Monteiro de Andrade, publicada num artigo online, na “Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo”

Não és tu nossa geometria,
janela, tão simples forma
que sem esforço delimita
nossa vida enorme?

Aquela a quem se ama nunca é tão bela
como quando a vemos surgir
enquadrada por ti; é que, ó janela,
tu a tornas quase eterna.

Todos os acasos são abolidos. O ser
permanece no meio do amor,
com este pouco espaço ao redor
do qual se é senhor.

§

Versão de Guilherme Gontijo Flores, no livro As janelas, seguida de poemas em prosa franceses

Não és a nossa geometria,
janela, tão uniforme
que fácil circunscrevia
nossa vida enorme?

Quem amamos nunca é mais bela
do que se a vemos aparecer na
tua bancada, quase eterna
em teu enquadramento, ó janela.

Todo o acaso é abolido. O ser
se insere no centro do amor,
sem muito espaço ao seu redor,
onde se pode vencer.

§

Versão de William Zeytounlian, inédita

Você não é nossa geometria,
janela, singela e uniforme
que de pronto conteria
a nossa vida enorme?

Nunca a amada é tão bela
do que quando vem aparecer
enquadrada só por você;
que a faz parecer eterna.

Todo acaso é abolido.
O ser vem ao cerne do amor,
com o pouco espaço ao redor
sobre o qual tem domínio

3 sonetos a orfeu, por william zeytounlian

RILKE_1.jpg Producción ABC.

II.1

Respirar, ah, poesia invisível!
Câmbio puro e contínuo entre o espaço
e o ser. Contrapeso castiço,
em cujo compasso me enlaço.

Única onda nos ares,
em cujo mar, progressivamente, me faço;
o menor de todos possíveis mares, –
conquista do espaço.

Quantas dessas estâncias de espaço não via
nascerem em mim? Muitos ventos
são cria minha.

Me reconheces, ar, cheio de partes da minha lavra?
Tu, que foste já casca lisa,
elipse e folha de minhas palavras.

II.1

Atmen, du unsichtbares Gedicht!
Immerfort um das eigne
Sein rein eingetauschter Weltraum. Gegengewicht,
in dem ich mich rhythmisch ereigne. 



Einzige Welle, deren
allmähliches Meer ich bin;
sparsamstes du von allen möglichen Meeren, –

Raumgewinn. 



Wieviele von diesen Stellen der Raume waren schon 

innen in mir. Manche Winde 

sind wie mein Sohn. 



Erkennst du mich, Luft, du, voll noch einst meiniger Orte? 

Du, einmal glatte Rinde, 

Rundung und Blatt meiner Worte. 

I.22.

Sempre estamos em via.
Mas do tempo a passar,
o que há de ficar
é só ninharia.

O que hoje se apura
acabará logo, em breve;
só o que perdura.
nos comove e compele.

Jovem, não gaste atitude
em ousada corrida,
ou voo tentador.

Tudo está na quietude:
breu, luz do dia,
livro e flor.

I.22.
Wir sind die Treibenden.
Aber den Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.

Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.
Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.

Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Helligkeit,
Blume und Buch.

II.29
Amigo silente de tantas distâncias,
sente como ao sopro o espaço dilata.
Que do triste campanário uma sonância
de ti ecoe. Pois isso, que hoje te traga,

será força amanhã, força redobrada.
Que a metamorfose seja o teu caminho!
Qual experiência parece a mais árdua?
Se beber for amargo, faz-te vinho.

Nesta noite fora de medida, ousa ser
a magia no cruzamento dos sentidos,
o sentido que esse estranho encontro causou.

E quando aquilo que é terreno te esquecer,
diz, pois, à terra firme e inerte: eu sigo!
E às águas corredeiras, diz: eu sou!

II.29

Stiller Freund der vielen Fernen, fühle,
wie dein Atem noch den Raum vermehrt.
Im Gebälk der finstern Glockenstühle
laß dich läuten. Das, was an dir zehrt,

wird ein Starkes über dieser Nahrung.
Geh in der Verwandlung aus und ein.
Was ist deine leidendste Erfahrung?
Ist dir Trinken bitter, werde Wein.

Sei in dieser Nacht aus Übermaß
Zauberkraft am Kreuzweg deiner Sinne,
ihrer seltsamen Begegnung Sinn.

Und wenn dich das Irdische vergaß,
zu der stillen Erde sag: Ich rinne.
Zu dem raschen Wasser sprich: Ich bin.

(rainer maria rilke, trad. william zeytoulian)

rilke, ainda

como disse no último post, também fiz traduções do rilke alemão, realizadas em parceria com maurício cardozo, que saíram na tradução em revista, & que vocês podem acessar aqui, para lerem a intro e ainda outros poemas.

aquilo que interessa, ou ao menos me interessa nesse rilke dos novos poemas é o mesmo que me cativou na poesia francesa: essa captura da alma do objeto; portanto, não se trataria simplesmente de dinggedichte, poesia de coisas, que tanto interessou a augusto de campos, mas de uma poesia pela alma das coisas. & não vejo nisso uma transcendência do objeto numa metafísica epifânica da observação, mas a alma concreta, a vida do objeto, que só pode depender do olhar, ou do pensamento.

sem mais, vão aí, então, mais 2 sonetos, e uma imagem do leonardo MAthias, pra fechar a singeleza da semana.

sorvedouro, de leonardo MAthias

Früher Apollo

Wie manches Mal durch das noch unbelaubte
Gezweig ein Morgen durchsieht, der schon ganz
im Frühling ist: so ist in seinem Haupte
nichts was verhindern könnte, daß der Glanz

aller Gedichte uns fast tödlich träfe;
denn noch kein Schatten ist in seinem Schaun,
zu kühl für Lorbeer sind noch seine Schläfe
und später erst wird aus den Augenbraun

hochstämmig sich der Rosengarten heben,
aus welchem Blätter, einzeln, ausgelöst
hintreiben werden auf des Mundes Beben,

der jetzt noch still ist, niegebraucht und blinkend
und nur mit seinem Lächeln etwas trinkend
als würde ihm sein Singen eingeflößt.

Apolo primitivo

Como por vezes dentre desfolhada
rama se vê a aurora, inteira em pura
primavera; em sua cabeça nada
é capaz de impedir que o que fulgura

na poesia nos fira um golpe cruel;
pois não existem sombras no seu rosto,
as têmporas são frias pr’ o laurel,
e mais tarde dos cílios, de alto posto,

excelso roseiral surge da toca,
e cada pétala caída, quanto
ganha vida no tremular da boca

sempre imóvel, sem uso, reluzente,
e em seu sorriso algo de absorvente
sorve, como se lhe insuflassem canto.

(trad. guilherme gontijo flores)

Gesang der Frauen an den Dichter

Sieh, wie sich alles auftut: so sind wir;
denn wir sind nichts als solche Seligkeit.
Was Blut und Dunkel war in einem Tier,
das wuchs in uns zur Seele an und schreit

als Seele weiter. Und es schreit nach dir.
Du freilich nimmst es nur in dein Gesicht
als sei es Landschaft: sanft und ohne Gier.
Und darum meinen wir, du bist es nicht,

nach dem es schreit. Und doch, bist du nicht der,
an den wir uns ganz ohne Rest verlören?
Und werden wir in irgend einem mehr?

Mit uns geht das Unendliche vorbei.
Du aber sei, du Mund, daß wir es hören,
du aber, du Uns-Sagender: du sei.

Canto das mulheres ao poeta

Como tudo que surge: somos tal
e qual, de uma alegria que não finda.
O que era sangue e sombra no animal,
cresceu em nós como alma e grita ainda

como alma. E é por ti que grita e clama.
Você de certo sente e só cogita
o olhar sem rosto: tépido e sem gana.
Não, não achamos que é por ti que grita.

Mas não seria enfim você, quiçais,
aquele um em quem nos consumimos?
E nalgum outro, havemos de ainda mais?

Conosco o infinito um fim enseja.
Você, boca, você seja, que ouvimos,
você, o que-nos-diz: você, que seja.

(trad. mauricio mendonça cardozo)

guilherme gontijo flores

französisch de rilke

rilke, num desenho, de 1925, de baladine klossowska, a quem dedicou alguns poemas.

rainer maria rilke (1875, praga – 1926, valmont) é talvez o nome mais famoso da poesia alemã na primeira metade do século xx. no brasil, a sua poesia já ganhou um bom punhado de traduções, sobretudo das obras mais famosas, como as elegias de duíno & os sonetos a orfeu, além da prosa das cartas a um jovem poeta.

pessoalmente, nunca me comovi muito com esse rilke da grandes paisagens subjetivas, das imagens deslumbrantes, esse rilke que influenciou tanto nossa geração de 45. eu descobri o meu rilke naquele pouquíssimo famoso, o rilke dos poemas franceses, sucinto, elegante, simplex munditiis (se eu puder usar as palavras de horácio), simples nos enfeites. por isso, acabei traduzindo a série janelas, a convite de bruno d’abruzzo (que trabalhou no poemas franceses em prosa): um projeto despretensioso que inesperadamente virou livro, pela editora crisálida.

esta semana, esse projeto vai ainda a outro lugar: são paulo, nas mãos de leonardo MAthias, que criou uma série de obras a partir dos poemas franceses e de suas traduções. como um gesto de graça, ele me convidou para fazer uma fala de abertura para a exposição que começa dia 11 agora e vai até o dia 8 de setembro. aí, de tradução literária, rilke ganhou tradução intersemiótica, leituras, etc.

por isso, esta semana farei duas postagens – esta, com alguns poemas franceses tirados do livro as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses; na próxima, poemas traduzidos do alemão com a parceria de maurício cardozo, dos novos poemas. 

abaixo vai um poema traduzido, com imagem feita por MAthias, & outro em prosa.

cortina, de leonardo MAthias

 

Cortinas

Tu me propões, janela estranha, um esperar;
tua cortina bege esboça algum bolero.
Devo, ó janela, a teu convite me entregar?
Ou me negar, janela? Quem é que eu espero?

Não estou intacto, com esta vida que escuta,
com este peito pleno que a perda se completará?
Com esta estrada que segue, e a dúvida bruta
que tu dás em excesso cujo sonho me pára?

(tradução, bruno silva d’abruzzo e guilherme gontijo flores)

 

Farfallettina
Toda agitada ela chega à lâmpada, e sua vertigem lhe dá um último descanso antes de ser queimada. Abateu-se sobre o tapete verde da mesa, e em cima deste fundo vantajoso estende por um pequeno instante o luxo de seu inconcebível esplendor. Dir-se-ia, em tom mesquinho, uma dama que teria um colapso indo ao Teatro. Ela nunca chegará. Aliás, onde está o Teatro para tão frágeis espectadores? Suas asas, nas quais notamos minúsculas varinhas de ouro, remexem como um leque duplo face nenhum rosto; e, entre elas, este corpo delgado, bilboquê sobre o qual recaem dois olhos de esmeralda. É em você, minha cara, que Deus se esgotou. Ele a lança à flama para recobrar um pouco de sua força. (Como uma criança que quebra o seu cofrinho.)
(tradução, bruno silva d’abruzzo e guilherme gontijo flores)
guilherme gontijo flores