poesia, tradução

wislawa szymborska (1923-2012)

este singelo post do ano retrasado foi tirado do semifalecido viagem de cabeceira, um projeto abortado, porque achei por bem ressuscitá-lo pelo primeiro aniversário de morte de wislawa szymborska (2012).

* * *

pintura anônima do séc. xi; são savino & são cipriano são torturados.

pintura anônima do séc. xi; são savino & são cipriano são torturados.

não costumo dar lá grandes bolas pra prêmios & premiados literários – não que tenha por princípio não lê-los, mas poucos realmente me agradam, então sempre estou desligado dos resultados gerais.

foi esse o caso com wislawa szymborska (n. 1923), que ganhou o nobel de literatura em 1996, & me era uma ilustre desconhecida (fora um ou outro poema, que já tinha me passado uma boa impressão) até semana passada… assim digo em tom de mea culpa: pegar um fim de domingo pra descobrir boa literatura que a nossa própria ignorância vinha nos roubando, taí uma coisa que alegra o dia, a semana, o mês.

fiquei abismado – & deslumbrado – com a lucidez da poesia de szymborska (“sou lúcido: nada de estéticas com coração / merda! sou lúcido.” diria álvaro de campos; porém a lucidez dessa poeta polonesa não tem nada a ver com a histeria de álvaro de campos), & mais ainda porque nada naquela lucidez a desumanizava – um risco tão grande dos lúcidos -; ao contrário, só aumentava sua humanidade, mas sem cair no demasiado humano, que tão pouco interessa…

assim pensei em postar dois poemas em 2 ou mais traduções, já que não sei patavinas de polonês; por fim, fiquei com as 2 que já conhecia em português e mais uma que pude encontrar em inglês. agora, reutilizando este post, decidi ampliar com mais uma tradução em espanhol, de uma edição colombiana.

uma coisa é certa: a julgar pelas diferenças entre as traduções a suposta singeleza do texto de szymborska não passa de ilusão de ótica.

guilherme gontijo flores

Tortura

Nada mudou.
O corpo sente dor,
tem que comer, respirar, dormir,
a pele fina, o sangue sob a pele,
um bom estoque de dentes e unhas,
os ossos frágeis,
as juntas que se distendem.
Na tortura tudo isto conta.

Nada mudou.
O corpo treme como tremia
antes da fundação de Roma e depois,
no século vinte antes e depois de Cristo.
A tortura existe como existia, apenas o mundo ficou menor
e tudo que acontece, acontece como ali ao lado.

Nada mudou.
Apenas há mais gente.
Além das velhas acusações, surgem outras,
verdadeiras, imaginárias, efêmeras, ou nenhuma,
mas o grito com que o corpo responde
foi, é e será o grito da inocência
na mesmas escala imemorial e no mesmo tom.

Nada mudou.
Talvez os costumes, as cerimônias, talvez as danças.
O gesto das mãos protegendo a cabeça ainda é o mesmo.
O corpo se contorce, estica, luta,
derrubado cai, se dobra, roxo,
incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas a linha de fronteiras
de florestas, costas, desertos e icebergues.
Nestas paisagens a alma perambula,
desaparece, volta, se aproxima e se distancia,
desconhecida de si mesma, esquiva,
às vezes certa, às vezes incerta da sua própria existência,
enquanto o corpo é e é e é,
e não tem para onde ir.

(trad. ana cristina cesar & grazyna drabik)

Torturas

Nada mudou.
O corpo sente dor,
necessita comer, respirar e dormir,
tem a pele tenra e logo abaixo o sangue,
uma boa reserva de de unhas e dentes,
ossos frágeis, juntas alongáveis.
Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.
Treme o corpo como tremia
antes de se fundar e Roma e depois de fundada,
no século XX antes e depois de Cristo.
A tortura são como eram, só a terra encolheu
e o que quer que se passe parece ser na porta ao lado.

Nada mudou.
Só chegou mais gente,
e às velhas culpas se juntaram novas,
reais, impostas, momentâneas, inexistentes,
mas o grito com que o corpo responde por elas
foi, é e será o grito da inocência
segundo escala e registro sempiternos.

Nada mudou.
Talvez os modos, as cerimônias, as danças.
O gesto das mão protegendo o rosto,
esse permanece o mesmo.
O corpo se enrosca, se debate, se contorce
cai se lhe falta o chão, encolhe as pernas,
fica roxo, incha, baba e sangra.

Nada mudou.
Apenas o curso dos rios,
do contorno das costas, matas, desertos e geleiras.
Entre essas paisagens a pequena alma passeia,
some, volta, chega perto, voa longe,
estranha a si própria, inatingível,
ora certa, ora incerta da sua existência,
enquanto o corpo é, é, é
e não tem para onde ir.

(trad. regina przybycien)

instrumentos de tortura romanos

instrumentos de tortura romanos

Tortures

Nothing has changed.
The body is a reservoir of pain;
it has to eat and breathe the air, and sleep;
it has thin skin and the blood is just beneath it;
it has a good supply of teeth and fingernails;
its bones can be broken; its joints can be stretched.
In tortures, all of this is considered.

Nothing has changed.
The body still trembles as it trembled
before Rome was founded and after,
in the twentieth century before and after Christ.
Tortures are just what they were, only the earth has shrunk
and whatever goes on sounds as if it’s just a room away.

Nothing has changed.
Except there are more people,
and new offenses have sprung up beside the old ones–
real, make-believe, short-lived, and nonexistent.
But the cry with which the body answers for them
was, is, and will be a cry of innocence
in keeping with the age-old scale and pitch.

Nothing has changed.
Except perhaps the manners, ceremonies, dances.
The gesture of the hands shielding the head
has nonetheless remained the same.
The body writhes, jerks, and tugs,
falls to the ground when shoved, pulls up its knees,
bruises, swells, drools, and bleeds.

Nothing has changed.
Except the run of rivers,
the shapes of forests, shores, deserts, and glaciers.
The little soul roams among these landscapes,
disappears, returns, draws near, moves away,
evasive and a stranger to itself,
now sure, now uncertain of its own existence,
whereas the body is and is and is
and has nowhere to go.

(trad. stanislaw baranczak & clare cavanagh)

Torturas

Nada ha cambiado.
El cuerpo adolorido,
tiene que comer, respirar y dormir,
tiene piel fina y debajo de ella sangre,
está bien dotado de dientes y uñas,
sus huesos, quebradizos; sus vértebras dilatables.
En las torturas todo esto se toma en cuenta.

Nada ha cambiado.
El cuerpo tiembla
como tembló antes y después de la fundación de Roma,
en el siglo veinte antes y después de Cristo,
las torturas son como fueron, sólo decreció la tierra
y todo lo que ocurre, pasa como detrás de una pared.

Nada ha cambiado.
Sólo que ha llegado gente,
y junto a las viejas culpas aparecieron nuevas,
reales, creíbles, momentáneas y nulas,
pero el grito con que el cuerpo contesta por ellas
fue, es y será grito de inocencia,
según la escala secular y el registro.

Nada ha cambiado.
Tal vez sólo los modales, las ceremonias, las danzas.
El movimiento de manos que cubren la cabeza
continuó siendo el mismo.
El cuerpo se retuerce, sacude y extiende,
cae cercenado de piernas, se encoge de rodillas,
se amorata, se hincha, babea y sangra.

Nada ha cambiado.
Salvo el curso de los ríos,
la línea de los bosques, las costas, los desiertos y glaciares.
Por entre estos paisajes el alma flota,
desaparece, retorna, se acerca, se aleja,
sola para sí, ajena, inatrapable,
a veces segura, otras insegura de su propria existencia,
mientras el cuerpo permanece ahí, ahí y ahí
y no tiene donde refugirarse.

(trad. ángel zuazo lópez)

PS: achei ainda uma versão em português num blogue, sem nome de tradutor (floribundo), e outra em espanhol, também sem nome de tradutor (boletin tokata) – o que me faz lembrar como esse (o nosso) trabalho ainda é desvalorizado, mesmo no caso da poesia…

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Dos paradoxos da linguagem: 3 poemas

Nós aqui do escamandro costumamos pegar leve com questões teóricas, em parte porque não temos a pretensão de fazer de nosso blog um reduto acadêmico (e, mais do que isso, ficaremos incrivelmente contentes se pudermos contribuir para, na verdade, tirar a poesia um pouco do domínio burocrático e dogmático da academia)… no entanto, dito isso, se há um teórico ao qual eu me vejo sempre retornando, esse seria George Steiner. Apesar de ter seus problemas (e qual teórico não tem?), eu gosto muito de seu livro Depois de Babel (1975), e uma de minhas passagens preferidas (pois o estilo de Steiner envolve longas digressões e erranças pelo texto que fazem com que cada capítulo aborde uma miríade de assuntos) diz respeito ao porquê do hermetismo da poesia moderna. Resumidamente, Steiner comenta como os poetas do final do século XIX/começo do século XX passam a perceber que não podem continuar escrevendo do mesmo modo – um modo claro, segundo Steiner, “confortável com a linguagem” – como se escrevia predominantemente até então, o que se dá por uma série de motivos, dentre os quais está a percepção da falta de sentido da linguagem, que faz com que ela se torne uma prisão. Não é a toa que é mais ou menos nesse período que começamos a ver surgirem as noções de Nietzsche, da língua como formada de “metáforas gastas” (como moedas que perderam a efígie) e, mais tarde, as de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.

Mas alguém poderia se perguntar “como assim falta de sentido da linguagem?”… pois bem, evidentemente não é de hoje (nem mesmo do século retrasado) que as pessoas percebem de que nem sempre a linguagem dá conta de exprimir o que se quer exprimir. Dante mesmo, lá no século XIII, apresenta em vários momentos da Comédia trechos sobre como a linguagem humana fracassa diante da tentativa de representar as torturas do inferno e as graças do paraíso. Cito abaixo um desses exemplos dantescos, tirado do Canto XXXII do Inferno, quando Dante e Virgílio adentram o último círculo (onde está Satã), e os horrores vão se tornando impronunciáveis:

Tivesse eu rimas rudes e rouquenhas
que ao fim do fosso só convir presumo,
pra o qual apontam todas as suas penhas,

espremeria de meu conceito o sumo
melhor, mas não as tendo, só com grã
temor, ao meu relato o encargo assumo;

que não é pra quem julgue-a empresa chã
a descrição do fundo do Universo,
nem pra língua que diz papá e mamã.

(vv. 1-9, tradução de Italo Eugenio Mauro)

Mas é com esse momento mais avançado da modernidade (“avançado” aqui no sentido puramente temporal mesmo) que esses problemas passam a representar uma grande preocupação poética.

Poderíamos apontar ainda para as questões dos problemas do discurso ideológico: tanto Steiner quanto o crítico/teórico Terry Eagleton concordam que a linguagem ideológica se vale dessas falhas da linguagem comum do cotidiano para legitimar uma estrutura de poder, e o exemplos que eles dão concernem à polissemia da palavra “liberdade”, que pode significar (e mais do que isso, legitimar) praticamente qualquer coisa, dependendo de quem a enuncia. Outro crítico ainda, chamado Stuart Curran, aponta para o problema do ato de dar nomes, na medida em que nomear é reduzir uma coisa real a uma abstração, e a ideologia novamente extrapola esse ato ao simplificar (muitas vezes grotescamente) o mundo.

Sendo assim, como poder falar do humano, dos problemas humanos, do amor, do sofrimento, da tirania, do espírito, etc, sendo a linguagem tão maculada de mentiras? Novos modos de expressão se fazem necessários, e, embora boa parte da crítica pareça reservar a palavra “hermetismo” para tratar de poetas como Mallarmé e Celan, acredito, com Steiner, que mesmo com poetas contemporâneos que sejam bastante claros em sua dicção, há alguma dificuldade no que ele ou ela quer dizer com aquelas palavras, que é muito diferente do que se tem com uma poesia mais clássica. Uma poesia que se põe contra uma noção de naturalidade da linguagem, justamente por essa naturalidade ser enganosa.

Poderíamos discorrer muito mais sobre isso, mas não planejo fazer deste post um ensaio sobre o tema. Esta é só uma minúscula introdução para dar um pequeno exemplo da recorrência dessa temática em alguns poetas contemporâneos muito distintos, que, espero, mostram como essa questão não é somente uma preocupação teórica.

São eles, em ordem de apresentação aqui: a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), o carioca Carlito Azevedo (1961) e o alemão Hans Magnus Enzensberger (1929).

(Adriano Scandolara)

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.

Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien. (Poemas, pela Cia das Letras)

*

Agulhas de Amianto

Órion

Órion
desabalada
deixando cair
os pingentes de
sua écharpe
sobre a água
de outra
estrela

Serpente

depois de Sebastião U Leite

O nome
como veneno
e o poema como
antídoto
extraído ao
próprio
nome

O nome

O poema como
uma serpente de bronze
que só não obedece ao próprio
nome (se entre tantos possíveis
dissermos o seu verdadeiro nome
et qui dit amour, dit pistolet
será o fim, o escuro, a
desintegração)

Pirâmide

para Luciana Whitaker

Quando
retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou

Epílogo

“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam

Carlito Azevedo (Sublunar, pela 7Letras)

*

Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger, tradução de Kurt Scharf & Armindo Trevisan. (Eu falo dos que não falam, editora Brasiliense)

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poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

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6 perspectivas do século XX sobre a morte

Aproveitando que hoje é o dia dos mortos, decidimos fazer uma pequena seleção de poemas curtos que tematizem ou de algum modo discutam a morte, a partir de seis poetas distintos do século XX (e dois deles ainda vivos no século XXI), de línguas e/ou nacionalidades distintas. Da língua portuguesa, os sempre populares Fernando Pessoa (o ortônimo no caso) e Carlos Drummond de Andrade; do inglês, Wallace Stevens, com o trecho número 5 do poema mais longo “Manhã de Domingo”, em tradução minha; do alemão, “PAISAGEM com seres de urna…” do romeno Paul Celan, em tradução do nosso próprio guilherme gontijo flores; do francês, “Esse Pedaço de Céu…” de Jacques Roubaud, traduzido por Inês Oseki-Dépré no volume Algo Preto, pela editora Perspectiva, livro dos poemas de Roubaud dedicados à sua mulher falecida (e o poema postado em questão seria, significativamente, o último do livro); e, por último, mas não menos importante, temos, do polonês, o poema “Álbum” da ganhadora do Nobel, Wislawa Szymborska, traduzido por Regina Przybycien, do volume intitulado simplesmente Poemas recentemente publicado pela Companhia das Letras.

Arnold Böecklin - A Ilha dos Mortos

Iniciação
– Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
…………………………………………….
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
…………………………………………….
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre ciprestes.
…………………………………………….

Neófito, não há morte.

Os Ombros Suportam o Mundo
– Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Manhã de Domingo
– Wallace Stevens

5

Diz ela, “Ainda que contente, sinto
Carência duma graça imperecível.”
A morte é mãe do belo; e dela vem,
Só, a realização dos nossos sonhos
E desejos. Embora espalhe as folhas
Da obliteração em nossas vias,
A via da mágoa enferma, as várias vias
Onde há o férreo clangor do triunfo, ou
O amor sussurra um pouco por ternura,
Ela faz o chorão tremer ao sol
Pra donzelas que sentam-se e observam
Por sobre a relva, entregues até os pés.
Faz rapazes num prato empilhar novas
Peras e ameixas. As donzelas provam
E apaixonadas vagam nos folhedos.

(tradução de Adriano Scandolara)

PAISAGEM com seres de urna...
Paul Celan

PAISAGEM com seres de urna.
Conversa
de boca-fumo a boca-fumo.

Comem:
a trufa-sanatório, fatia
de poesia insepulta,
achou língua e dente.

Um lágrima reflui ao seu olho.

A canhota, órfã
parte do marisco-
peregrino – elas se ofertaram
depois te enlaçaram –
reluz à espreita no espaço:

o jogo de clinques contra a morte
pode começar.

(tradução de guilherme gontijo flores)

ESSE PEDAÇO DE CÉU…
– Jacques Roubaud

Este pedaço de céu
doravante
te é consagrado

em que a face cega
da igreja
se encurva

complicada
por uma castanheira,

o sol, ali
hesita
deixa

um vermelho
ainda

antes que terra
emita

tanta ausência

que teus olhos
se exprimem

de nada

(tradução de Inês Oseki-Dépré)

Álbum
– Wislawa Szymborska

Ninguém na família nunca morreu de amor.
O que passou, passou, mas nada que alimente um mito.
Romeus tísicos? Julietas diftéricas?
Alguns até atingiram uma idade senil.
Nenhuma vítima de falta de reposta
a uma carta manchada de lágrimas!
Ao fim e ao cabo sempre aparecia algum vizinho
de pincenê carregando um buquê.
Nunca ninguém sufocou num armário estiloso
porque o marido da amante voltou de repente!
Nenhuma mantilha, babado ou fita
nunca impediu ninguém de aparecer na foto.
E nunca na alma o Bosch infernal!
E nunca com uma pistola pelo quintal!
(Faleceram de bala na cabeça, mas por outros motivos
e em macas de campanhas.)
Mesmo essa de coque extático
e olheiras fundas como depois de uma folia
se foi em meio a uma grande hemorragia
mas não para ti, dançarino, e não com pena.
Talvez alguém muito antes do daguerreótipo –
mas desses no álbum, nenhum, que eu tenha sabido.
As tristezas se desfaziam em risos, corriam os dias
e eles consolados sumiam-se de gripe.

(tradução de Regina Przybycien)

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