crítica, poesia, tradução

“To his coy mistress”, de Andrew Marvell (pt. 2), por Matheus Mavericco

NPG D29829; Andrew Marvell after Unknown artist

Andrew Marvell já foi apresentado pelos colegas do escamandro (clique aqui). Essa postagem é mais ou menos uma parte dois, com uma tradução minha e outras que consegui pescar internet afora.

Pois note como o poema de Marvell é estranho. Não, é sério. Ele é comumente posto dentro da caixa de acrílico do carpe diem, e claro que não está errado. Dividido em três partes, se quiséssemos incorrer na heresia da paráfrase seria o caso de dizermos que o eu lírico pede pra amada parar com esse recato bobo e, vocês sabem. Um dia eles vão bater as botas e aí, se ela quiser, não vai ter mais como. Então é melhor se apressarem, pois o tempo tá aí e pá.

O grosso é esse. Mas notem a inventividade das metáforas de Marvell. T. S. Eliot dizia, sobre os metafísicos, pensando em especial em Marvell, que existe nesse pessoal uma diferença muito pequena entre imaginação e luxúria. Em tempos barrocos, desabridos, o homem começando a entender o que era ter a Máquina do Mundo de repente arreganhada (você consegue imaginar como é ter descoberto literalmente um novo mundo?), o homem frente ao Infinito da revolução copernicana ― que reduziu a importância da Terra e da humanidade ―, o Absolutismo começando a ruir ― a Inglaterra vivia na época sua primeira Guerra Civil, e Marvell foi um poeta atento a tais acontecimentos, tanto que sua ode a Oliver Cromwell é considerada um dos poemas políticos mais perfeitos de todos os tempos ―, tudo isso era mais do que o bastante pra propelir os poetas minimamente interessados e descontentes a buscarem novas formas de expressão.

Digamos que isso explica o porquê da alcunha de “poetas metafísicos” aos poetas barrocos ingleses ser tão atacada, ainda mais considerando que se costuma pensar, a partir do termo “metafísico”, numa poesia distante de contingências corpóreas, físicas, sociais etc. José Lino Grünewald, num texto para o Correio da Manhã de 19/11/67, nota como, por exemplo, os metafísicos compunham metáforas que além de serem concisas (Augusto de Campos, aliás, faz um paralelo entre os metafísicos e João Cabral), valiam-se de instrumentos compositivos das mais diversas áreas: no caso de Marvell seriam termos que vão da religiosidade ao exotismo do lado indígena do Ganges e ao impacto do casalzinho de abutres, ou então um termo como “amor vegetal”. Marvell possui outros poemas que abordam a relação entre ser humano e natureza, destacando a perturbação que o fator antropológico causa no meio-ambiente. No poema The Mower against Gardens, por exemplo, abre dizendo: “Luxurious man, to bring his vice in use, / Did after him the world seduce, / And from the fields the flowers and plants allure, / Where nature was most plain and pure.” (“Homem luxurioso, por própria impureza, / Eis que seduz a natureza / E as flores e os cultivos fascina, / De graça até então genuína.”, trad. minha.)

Mas calma aí que existe mais. Disse pra vocês que Marvell vai argumentando e tentando convencer a amada a, digamos assim, liberar o anel. Mas notem que, nos versos 27 e 28, ele escarnece de forma meio brutal o recato da amada, dizendo que, se ela possui tanto zelo por essa virgindade, é bom que se lembre que, depois de morta, os vermes vão corroer isso daí. Na primeira estrofe ele já ridicularizara esse recato da amada dizendo que seriam precisos trinta mil anos pra louvar o corpo inteiro. Ou seja: é um poema que vai de um extremo a outro com uma potência muito grande. O terror de quando ele abre a segunda parte do poema falando da carruagem alada do Tempo em suas costas, por exemplo, foi aproveitado por Eliot na terceira parte de The Waste Land. Mas pule pro final da estrofe e observe o sarcasmo do final, em especial esse “I think”. Ora: é claro que dentro de uma sepultura ninguém se abraça. Ele está tirando sarro da cara da amada.

Num poema como The Definition of Love, o gosto pelos movimentos de transição, que George L. Craik em 1844 já apontava como admiráveis na poesia de Marvell, é revelador. Logo na primeira estrofe diz que seu amor nasceu do Desespero sobre a Impossibilidade, e, na penúltima, diz que ele e sua amada são como retas que, embora infinitas, jamais se encontrarão. Só que ele transcende o gosto de contrários antitéticos que o petrarquismo apontava ― em língua inglesa muito bem visto pelas falas de Romeu antes de conhecer Julieta na peça de Shakespeare. É como se operasse uma espécie de união de contrários, algo que Donne fez com uma radicalidade ainda maior ao tornar a carnalidade de sua poesia indissociável da sacralidade e vice-e-versa.

Enxergando assim, me parece que muito do que o To his Coy Mistress tem a oferecer se elucida, permitindo entender como ele consegue alimentar a si próprio, meio que retroativamente, de negativas que vão conduzindo a uma retórica de exageros e, o que me parece ainda mais interessante, no fato de que todo o poema caminha num solo hipotético ― e ainda assim consegue toda essa concretude esplêndida, certamente advinda eu não digo nem tanto das referências propriamente carnais, mas sim daquele movimento pendular nervoso que me referi antes, visto, pra citarmos um exemplo, no contraponto da amada achando rubis no lado indígena do Ganges ― ou seja, uma imagem claramente exótica ― enquanto o amado chora suas pitangas lá pro Humber ― isto é, um rio indiano contraposto a um estuário inglês ― e mais ― pois logo após essa metáfora, num liame tênue, Marvell nos levando ao exagero de dizer que jurará seu amor décadas antes do Dilúvio e, logo após, dizendo que, caso a amada queira, ela pode negar o amor até a conversão dos judeus, também conhecido como Juízo Final. Daí a dizer que seu amor vegetal cresce mais vasto que os Impérios é uma coisa esperada, pois o poema faz saltos que abarcam totalidades inteiras.

Quem quiser uma boa pedida acerca do poema de Marvell, recomendo A Handbook of Critical Approaches to Literature, de Wilfred L. Guerin, Earle Labor, Lee Morgan, Jeanne C. Reesman e John R. Willingham. Você pode pensar por quê o indico, se ele não parece ter nada haver com poesia barroca inglesa, e tudo bem, eu explico: é que, pra ilustrar as várias formas de abordagem crítica, os autores pegam o poema de Marvell como exemplo (na verdade eles pegam mais cinco outras obras), de maneira que você tem, aí, um não-sei-quantos-em-um. Por exemplo, exemplificando abordagens histórico-biográficas, os autores observam que a imagem do Tempo como voraz remete a Cronos devorando Zeus e seus filhos, e que a imagem do último dístico do poema, esse lance aí de parar o sol, pode ser posta ao lado do episódio em que Zeus ordena que o sol demore um pouco mais pra que ele estenda sua noite de amor com Alcmena ou ao lado do episódio bíblico em que o sol também demora um pouco mais pra que a batalha contra os amoritas seja vencida ― ou seja, tanto em um caso quanto em outro temos a intervenção divina que maneja o tempo a seu bel prazer, coisa inexistente no poema de Marvell pois, afinal, estamos falando de seres mortais.

Acerca das traduções compiladas, não creio que exista muito o que comentar. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos, indo da manutenção do verso octossilábico, por Alípio Correia Neto, à tradução de Nelson Ascher que, segundo ele mesmo conta, necessitou por parte do tradutor uma dedicação grandemente exaustiva. De minha parte, digo que traduzi por traduzir, sem estalo de lâmpada ou coisa do tipo. Pois veja que, quando você tem diante de si um poema que já foi muito traduzido, uma das estratégias mais saudáveis pra que se crie uma outra tradução é ou nutrindo uma insatisfação, um ainda-não-tem-o-que-eu-quero ― coisa que, pra falar a verdade, não aconteceu comigo, pois acho que o que tem tá bom ― ou oferecendo um projeto alternativo ― o que mais uma vez eu não vi como necessário, ainda mais depois da tacada do colega Scandolara de traduzir 10+6. Espero, contudo, que minha tradução pelo menos honre seu espaço e não fique, sei lá, tão ridícula perto das outras.

Matheus Mavericco

§§§

PARA SUA DAMA RECATADA.
trad. Matheus “Mavericco”.

Houvesse tempo e espaço e então de fato
Não seria um delito este recato.
Sentados, nós iríamos pensar
Em só pensar no outro, e assim passar.
Você, do lado indígena do Ganges,
Achando rubis, e eu, pois me confrange
A dor, junto ao Humber. Décadas antes
Do Dilúvio eu te juro amor, e, instantes
Depois, se quiser, negue os votos meus
Até que se convertam os judeus.
Meu amor vegetal cresce mais vasto,
Embora mais lento, que impérios; gasto
Séculos em louvor de tua face
E mais dois longos séculos em face
De teus seios e trinta mil se quero
O corpo inteiro. Uma era de esmero
Pra cada parte, até que a derradeira
Sirva pra revelar tua alma inteira.
Pois você, ó Senhora, é digna disto ―
E eu não sei amar por menos que isto.

Contudo, escuto sempre atrás de mim
O Tempo alado a toda pressa: e, assim,
Nós só podemos ver, mais adiante,
A vastidão deserta do incessante
E a graça que você tem hoje, extinta.
No teu fosso marmóreo é indistinta
Minha canção que ecoa; o verme tenta
Romper teu corpo virgem e fragmenta
Em pó a tua honra imensa, enquanto
Meu ardor queima em cinzas. Se o recanto
Da sepultura é íntimo, então, acho,
Ninguém lá deve dar algum abraço.

Mas agora, o vigor juvenil posto
Tal como o orvalho fresco no teu rosto,
Tua alma desejosa de que sue
Em cada poro o fogo que a imiscui,
Devoremos nós dois juntos, e agora,
Como um casal de abutres que se adora,
O tempo antes que o tempo venha a ser
O nosso algoz, voraz o seu poder.
Enovelemos rapidez e força
Num globo, para que depois se torça
E abata o nosso anseio em árdua lida
Diante dos portões de aço da vida:
Assim, se o sol não puder ser parado,
Ele será ao menos apressado.

§

À SUA AMIGA ESQUIVA.
trad. Nelson Ascher.

Sobrassem mundo e tempo, não seria
tanta esquivez, senhora, uma heresia.
Sentar-nos-íamos pensando, a cada
longo dia de amor, uma jornada.
Enquanto junto ao Ganges encontrasses
rubis, eu molharia minhas faces
chorando ao Humber. Fosse minha parte
dez anos antes do Dilúvio amar-te,
seria a tua opor desinteresse
até que o povo hebreu se convertesse.
Meu amor vegetal, mais devagar
que impérios, cresceria sem parar.
Dedicaria cem anos, perante
teus olhos, a louvar o teu semblante;
A te adorar os seios, pelo menos
O dobro; ao resto, mais trinta milênios;
E, a tudo em ti, mil eras, de maneira
A abrir teu coração na derradeira.
Porque, senhora, vales tal quantia
E, para amar-te, eu não regatearia.

Mas ouço atrás de mim, correndo insanos
num carro alado, os dias, meses, anos.
E, frente a nós, se estende sem mais nada
A vasta eternidade desolada.
Tua beleza há de perder-se ao léu;
tampouco, em teu marmóreo mausoléu,
hão de ecoar meus versos quando, inerme,
entregues o hímen obstinado ao verme,
que em pó transformará tua honra vã
E em cinzas todo o ardor do meu afã.
O túmulo é discreto e acolhedor
mas lá ninguém que eu saiba faz amor.

Agora, então, que em tua pele pousa,
feito orvalho na folha, a cor viçosa,
E em cada poro de tua alma aflora
um fogo urgente ― amemos sem demora:
mais vale devorarmos, com o brio
das aves de rapina em pleno cio,
O tempo de uma vez do que, em poder
das lentas presas dele, enlanguescer.
Unindo numa esfera dois extremos
― nossa ternura e força ― arrebatemos
prazeres com porfia desabrida
através dos portões férreos da vida.
Não há como parar o sol, mas nós
podemos ― sim ― torná-lo mais veloz.

§

PARA SUA AMADA ESQUIVA.
trad. Alípio Correia Neto. 

Com um mundo nosso, dama, e vez,
Não fora um crime tua esquivez.
Íamos sentar, pra ver qual via
Trilhar, e amar por longo dia.
Acharias, com o Ganges aos pés,
Rubis; eu, o pranto, ante as marés
Do Humber. Te daria dez anos
De amor antediluvianos!
Dirias não, por caprichos teus,
Até à conversão dos judeus;
Meu amor vegetal, mais lento
Que impérios, vasto em crescimento,
Um século pra louvações
Aos olhos, pra admirar feições,
Teria; o dobro pra adorar-te
Os seios; trinta mil às mais partes;
A cada qual, uma era, e então
Uma última, a teu coração.
Pois, dama, vales os meus reinos;
E eu não iria te amar por menos.

Mas ouço, sempre, atrás de nós,
O Carro do Tempo, veloz,
E adiante jazem vastos ermos
Da eternidade. Não havemos
De achar tua beleza afora.
Nem, na tua cripta marmórea,
Soará meu canto. E um verme há de
Testar-te a longa virgindade,
Mudando em pó tua honra altiva
E em cinzas a minha lascívia.
A cova é bom e íntimo espaço,
Mas não, penso eu, para um abraço.

Enquanto há em ti cor juvenil
Na tez, como na flor, rocio,
E a alma que anseia deita fora um
Fogo urgente em cada poro,
Vamos folgar, e semelhantes
A amáveis aves rapinantes,
Tragar o nosso tempo, isentos
De enlanguescer num bico lento,
Então enrolar nosso desvelo
E forças em um só novelo,
Rasgar prazeres na investida
Contra os portões férreos da vida.
Assim, sem termos o que impeça
O sol, o instamos a ir depressa.

§

PARA SUA TÍMIDA SENHORA.
trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,
Senhora, essa tua timidez não seria crime.
Sentados, pensaríamos no modo melhor
De gozar nosso longo dia de amor.
Tu pelas margens do Ganges
Acharia rubis, eu, no estuário langue
Do Humber, reclamaria de tudo.
Te amaria dez anos antes do Dilúvio,
E tu, se quisesses, recusarias meu eu
Até a conversão dos Judeus.
Meu amor vegetal iria assim crescendo
Mais vasto que impérios, e mais lento;
Cem anos gastos para elogiar
Teus olhos, e tua testa contemplar;
Duzentos para adorar cada seio,
Mas trinta mil para seu recheio;
Uma era ao menos para cada seção,
E a última exibiria enfim seu coração.
Senhora, bem mereces tal status.
Recusaria te amar por mais barato.

Mas ouço às nossas costas de repente
O carro alado do tempo, rente;
E além de nós ardem na tarde
Desertos de vasta eternidade.
Tua beleza, hoje, amanhã não será,
Nem na lápide marmórea há de soar
O eco dessa canção; só vermes sem piedade
A devorar tão protegida virgindade,
E tua honra antiquada virando pó,
E cinzas todo meu desejo, a sós:
A cova é discreta e confortável alcova,
Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs
Pousa em tua pele como rocio da manhã,
E enquanto tua alma transpire de desejo
E em seus poros fogos sutis revejo,
Vamos nos acabar enquanto é de matina,
E já, como amorosas aves de rapina,
De uma vez devorar o nosso tempo
Em vez de enlanguescer em seu relento.
Enrolemos nossa força, sem espera,
Nossa ternura toda numa só esfera,
E rasguemos prazeres com luta ríspida,
Ao passar pelos portões de ferro da vida;
Pois, se não podemos o sol deter
Podemos ao menos fazê-lo correr.

§

À SUA TÍMIDA AMANTE.
trad. Renato Suttana. 

Houvesse, dama, tempo e mundo à farta,
E tal reserva não seria crime.
Sentados, a escolher nosso caminho,
Do amor o longo dia passaríamos.
Buscarias rubis junto das margens
Do indiano Ganges: e eu entoaria
Junto às ondas do Humber que te amara
Por mais dez anos, até a inundação.
Eis que o recusarias, caprichosa,
Do judeu a esperar a conversão.
Meu amor, como planta, medraria
Mais vasto que os impérios e mais lento:
E cem anos passara eu a louvar
Os teus olhos, mirando a tua fronte,
E a adorar cada seio mais duzentos,
Mais trinta mil para o restante – uma era
Enfim inteira para cada parte:
E o coração revelarias na última.
Pois que és digna, senhora, de tal corte –
E a menor preço eu não quisera amar.

Mas ouço às minhas costas, sempre, a alada
Carruagem do tempo se apressando;
E à minha frente em tudo vejo abrir-se
Só desertos de vasta eternidade.
Tua graça não mais existirá,
Nem meu canto soará sob a marmórea
Abóbada; só os vermes provarão
Essa há tanto guardada virgindade:
E a tua inútil honra será pó,
E todo o meu desejo apenas cinza:
Que a sepultura é cômodo e privado
Lugar, mas às carícias – creio – impróprio.

Por isso, enquanto a cor da juventude
Como o orvalho da aurora em tua pele
Repousa e cada poro da anelante
Alma um fogo incessante ainda transpira:
Vamos gozar, enquanto nos é dado,
E devorar como aves de rapina
De uma só vez nosso tempo, sem sermos
Em suas lentas garras abatidos.
Rolemos nossa força e toda a nossa
Doçura para dentro de um só globo –
E o gozo em luta rude laceremos
Contra os portões de ferro da existência:
Pois, se este sol não podemos parar,
Que o façamos então acelerar.

§

TO HIS COY MISTRESS.

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(apresentação, organização e tradução de Matheus Mavericco)

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Tigres e cordeiros de Blake – parte II

Semana passada eu fiz a primeira parte desta postagem sobre o poeta William Blake, com uma brevíssima introdução e algumas traduções do célebre poema do cordeiro. Agora é a vez do tigre.

Primeiramente, acredito que seja importante apontar como os dois poemas dialogam entre si. Como dito já, “O cordeiro” é um poema das Canções de inocência, e “O tigre” é a sua contraparte das Canções de experiência. Ao contrário de, por exemplo, “O limpador de chaminés”, que é o título de dois poemas que também aparecem nos dois livros, onde o diálogo estabelecido é bastante claro (por conta da temática, das imagens e, óbvio, pelo próprio título), a relação entre “O tigre” e “O cordeiro” é um pouco mais sutil. A começar pela métrica: como eu disse anteriormente, “O cordeiro” é composto de tetrâmetros trocaicos, pelo menos em sua maior parte (a exceção é os refrões que se repetem, abrindo e encerrando as suas duas estrofes). Note como a escansão é clara:

GAVE / thee / LIFE / and / BID / thee / FEED
BY / the / STREAM / and / O’ER / the / MEAD
…etc.

Curiosamente, podemos observar como “O tigre” é composto em sua maior parte (pois há algumas variações) na mesma métrica:

TY / ger! / TY / ger! / BURN / ing / BRIGHT
IN / the / FOR / ests / OF / the / NIGHT,
…etc

No entanto, apesar de compartilharem seus tetrâmetros trocaicos, o efeito que os dois poemas obtêm é completamente distinto. “O cordeiro” é suave, lento e melódico, beirando a canção de ninar, enquanto “O tigre” é rápido e violento, e seu começo, repetindo duas vezes a palavra “tigre” e encerrando as palavras e as orações no final dos pés métricos, marca uma cesura, definindo um hemistíquio,  que divide o verso em duas metades e marca com maior força as batidas dos troqueus. Essas interjeições funcionam como um aviso, então, como se fosse o grito de um camponês no mato que avista um tigre e grita para avisar os outros camponeses. É um efeito de urgência, que a aliteração de oclusivas em “burning bright” reforça. E, observando o poema inteiro, vê-se que tudo contribui para manter essa agilidade da versificação: os versos de menor discursividade organizados de 4 em 4 em estrofes curtas, com frases (estruturas sintáticas) que não se estendem por mais de 2 versos. A única exceção é a 5ª estrofe, que é justamente o clímax do poema.

É também no clímax que fica evidente a relação entre o cordeiro e o tigre. As estrofes 2, 3 e 4 funcionam como uma glosa do dístico que encerra a primeira estrofe, com perguntas sobre a criação do tigre e imagens derivadas da ferraria, com fogo, forjas, bigornas, martelos, etc – uma deturpação, em tons brutais e beirando o grotesco, dos fofos trajes e da voz terna que o criador deu ao cordeiro, que surge, então, nomeado, na 5ª estrofe. A imagem é grandiloquente: as estrelas arremessando suas lanças e molhando o céu de lágrimas, e um criador, não mais benevolente, mas perverso, sorrindo ao ver a ferocidade de sua obra. A consequência é sinistra: a mesma entidade que fez a mansidão e a bondade é igualmente responsável pela criação do mal, que o tigre acabar por representar neste poema. É, no final, a questão do problema teológico milenar de conciliar a existência de um Deus infinitamente bom com a existência do mal no mundo. Em Blake, a constatação desse problema não leva, pelo menos a princípio, a nenhuma conclusão. Muito pelo contrário: todos os versos aqui culminam em perguntas, e, no momento em que chegamos à mais dramática das questões, o poema fecha seu ciclo e retoma a estrofe inicial, com uma pequena alteração. Se tínhamos, então, na inocência, uma resposta pronta aos questionamentos (“Little Lamb, who made thee? // Little Lamb, I’ll tell thee“), na experiência reina a dúvida.

O resultado é um poema muito forte e expressivo, e sua popularidade, acredito, é plenamente justificada. Não é à toa, também, que ele tenha sido traduzido muitas e muitas vezes em português, por diversos tradutores diferentes. No meu post anterior, vimos as traduções de Leo Gonçalves & Mário Coutinho, Renato Suttana e Sidnei Schneider (além de uma tradução minha e do Guilherme Gontijo Flores, daqui do escamandro)… agora, além desses nomes, temos ainda Augusto de Campos, José Paulo Paes, Alberto Marsicano & John Milton, e o português Vasco Graça Moura. Certamente há muitos outros tradutores que omito aqui por ignorância. Se alguém dentre vós, leitores do escamandro, sentir falta de algum nome em particular, não hesite em postá-lo nos comentários. Fica aberta a proposta também para quem sentir vontade (a pulsão tradutória, como se diz) de contribuir para essa verdadeira alcateia de tigres com uma tradução inédita.

E por fim, como sugestão do poeta e tradutor Gabriel Resende Santos, deixo também aqui esse pequeno e impressionante curta, dirigido por Guilherme Marcondes, intitulado “Tyger”:

Adriano Scandolara

O Tigre

Tigre! Tigre! Claro cresta
Chama em noturnal floresta,
Que olho eterno ou mão podia
Forjar-te a torva simetria?

Em que extremo vão ou céu
Do teu olho o fogo ardeu?
Sobre que asa audaz se alçou?
Mão audaz que o ardor tomou?

E qual braço & com quais artes
Torceu do teu peito as partes?
E ao bater teu coração,
Que pés sombrios, sombria mão?

Qual marrão & qual a malha?
Teu cérebro em qual fornalha?
Qual bigorna, o punho audaz
Cinge os terrores mortais?

Quando os astros dardejaram
E em seu pranto o céu molharam,
A obra dele o fez sorrir?
Ele o cordeiro fez & a ti?

Tigre! Tigre! Claro cresta
Chama em noturnal floresta
Que olho eterno ou mão ousaria
Forjar-te a torva simetria?

Tradução de Adriano Scandolara

O Tigre

Tigre tigre, luz ardida
Na floresta anoitecida,
Que olho, ou que mão forjaria
Tua terrível simetria?

Na distância, ou entre escolhos
Brilha o fogo dos teus olhos?
Com que asas faz seu jogo?
Com que mão apalpa o fogo?

Com que ombro & com que arte,
Teu coração se comparte?
E se teu peito bater,
Com que mão e com que pé?

Que martelo & que corrente?
Em que forno arde tua mente?
Que bigorna? Qual criador
Ousa encerrar teu terror?

Quando os astros lançam lança,
E o céu líquido se cansa,
Ri de orgulho o teu ferreiro?
Quem te fez, fez o cordeiro?

Tigre tigre, luz ardida
Na floresta anoitecida;
Que olho, ou que mão ousaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Guilherme Gontijo Flores

Tygre

Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua temível simetria?

Que profundezas, que céus
Acendem os olhos teus?
Aspirar quais asas ousa?
Qual mão em tua chama pousa?

Por que braço & que arte é feito
Cada nervo de teu peito?
E teu peito ao palpitar,
Que horríveis mãos? & pés sem par?

Que martelo? Que elo? Tua mente
Vem de qual fornalha ardente?
Qual bigorna? Que mão forte
Prende o teu terror de morte?

Quando as lanças das estrelas
Molharam o céu, ao vê-las:
Ele sorriu da obra que fez?
Quem fez o cordeiro te fez?

Tygre Tygre fogo ativo,
Nas florestas da noite, vivo,
Que olho ou mão tramaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Leonardo Gonçalves & Mário Alves Coutinho

O Tigre

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

Em que funduras, em que céus
o fogo ardeu dos olhos teus?
Em que asa ousou ele aspirar?
Que mão ousou o fogo atear?

Que ombro, que arte deu tal torção
às fibras do teu coração?
E, o teu coração já batendo,
que horrenda mão? que pé horrendo?

E qual martelo? E qual corrente?
Em que forja esteve tua mente?
Qual bigorna? Que ousado ater
seus terrores ousou conter?

Quando os astros se desarmaram
e o céu de lágrimas rociaram,
riu-se ao ver sua obra talvez?
Fez o Cordeiro quem te fez?

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

Tradução de Renato Suttana

O Tigre

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Modulou-te simetria tal?

Em abismos ou céus quais
Forjou teus olhos fatais?
A qual asa ousou imitar?
Que mão pôde o fogo apanhar?

Diga-me, qual braço, e qual arte,
O cárdio-tendão veio trançar-te?
Quando ele começou a bater,
Que terrível mão, e que ser?

Que martelo? Qual corrente?
Que fornalha forjou-te a mente?
Que bigorna e que tenaz
Tuas unhas tornou capaz?

Quando as estrelas com suas lanças
Cobriram de lágrimas as crianças,
Sorriu ao ver o seu trabalho?
Quem fez o Cordeiro, deu-te talho?

Tigre! Tigre, ardendo grave
Pelas florestas do entrave,
Que mão ou olho imortal
Ousou dar-te simetria tal?

Tradução de Sidnei Schneider

O Tygre

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Tradução de Augusto de Campos

O Tygre

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

Tradução de José Paulo Paes

O Tigre

Tigre! Tigre! Luz brilhante
Nas florestas da noite,
Que olho ou mão imortal ousaria
Criar tua terrível simetria?

Em que céus ou abismos
Flamejou o fogo de teus olhos?
Sobre que asas ousou se alçar?
Que mão ousou esse fogo tomar?

E que ombro & que saber
Foram as fibras do teu coração torcer?
E o primeiro pulso de teu coração
Que pé ou terrível mão?

Que martelo, que corrente?
Que forno forjou tua mente?
Que bigorna? Que punho magistral
Captou teu terror mortal?

Quando os astros arrojam seus raios,
cobrindo de lágrimas os céus,
Sorriu ao sua obra contemplar?
Quem te criou o cordeiro foi criar?

Tigre! Tigre! Luz brilhante
Nas florestas da noite,
Que olho ou mão imortal ousaria
Criar tua rerrível simetria?

Tradução de Alberto Marsicano e John Milton

O Tigre

Tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

De que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
Que asas ousa nesse jogo?
e que mão se atreve ao fogo?

Que ombro & arte te armarão
fibra a fibra o coração?
E ao bater ele no que és,
que mão terrível? que pés?

E que martelo? que torno?
E o teu cérebro em que forno?
Que bigorna? que tenaz
Pro terror mortal que traz?

Quando os astros lançam dardos
E seu choro os céus põem pardos,
vendo a obra ele sorri?
Fez o anho e fez-te a ti?

Tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

Tradução de Vasco Graça Moura

Atualização de 17/10/12: acrescento abaixo ainda a tradução deixada no comentário de autoria de Danilo Augusto, que, apesar de tê-la feito por “espírito de aventura e iniciação”, não deixou a desejar:

O Tygre

Tygre Tygre, ardente luz,
A floresta noturna conduz;
Que mão imortal poderia
Forjar tua terrível simetria?

Nos abismos e céus longe,
Acenderam teus olhos onde?
Em quais asas da aspiração
Tocaram-te a chama com as mãos?

Por qual arte, & quais dedos
Trançaram-te as fibras do peito?
Iniciando teu coração o tambor,
Que temíveis pés? Que mãos de temor?

Qual martelo? qual corrente,
Em qual fornalha a tua mente?
Qual bigorna? que tenaz
Cinge teus terrores mortais?

Quando as estrelas o alvejaram
E com lagrimas o céu banharam
Ele sorriu ao ver seu trabalho?
Ele fez o Cordeiro & a ti ao lado?

Tygre Tygre, ardente luz,
A floresta noturna conduz;
Que mão imortal ousaria
Tua terrível simetria?

Tradução de Danilo Augusto

 

The Tyger

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

William Blake

Padrão
poesia, tradução

Tigres e cordeiros de Blake – parte I

Assim como Horácio e John Milton, de que já tratamos aqui no escamandro, William Blake tem um lado pop que faz com que seja difícil não ter ouvido algo sobre ele, mesmo sem jamais ter tido em mãos um único livro do autor. “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo pareceria ao homem como é, infinito”, diz ele no Matrimônio do Céu e o Inferno, declaração que foi recebida lisergicamente por Aldous Huxley (conhecido principalmente por ter sido o autor do romance Admirável Mundo Novo), que escreveu um livro sobre suas experiências com mescalina intitulado As Portas da Percepção. Na voz de Jim Morrison, se tornou simplesmente The Doors.

Blake é um poeta complexo. Oficialmente ligado ao Romantismo, ele é uma figura um pouco à parte dos grupos românticos ingleses (onde praticamente todos se conheciam, em algum grau), e parte de sua obra antecede as Lyrical Ballads de Wordsworth e Coleridge, que inauguram “oficialmente” ao Romantismo inglês. Aliás, um dos primeiros livros da carreira de Harold Bloom como crítico, que, como se sabe, se iniciou como comentador (e defensor) dos românticos, é sobre Blake (Blake’s Apocalypse: A Study in Poetic Argument). Alguns consideram Blake um místico (como é o caso de Luis Dohlnikoff, num comentário na revista Sibila sobre a tradução de Augusto de Campos de “The Tyger”), e, de fato, é fácil ver como se pode chegar a essa conclusão a princípio, mas Bloom nega esse argumento primeiro pelo fato de os poetas românticos não serem cristãos, e, segundo, pela estranheza da divindade blakeana e pela relação intrínseca entre poética e mistério, subordinando a religião à poesia, no que diz respeito à capacidade imaginativa do homem (vide seu texto breve, “Todas as religiões são uma”). Não quero entrar nesse debate, mas por ora me contento em apontar como essa é uma questão controversa, e, por mais que ele possa não ser um místico propriamente dito, há muitas coisas místicas e principalmente míticas em torno de sua obra. Assim como Shelley, Blake foi um criador de mitos, e um criador de mitos ainda mais impressionante, na medida em que foi capaz de conceber e articular toda uma mitologia própria e singular.

Além disso, eu diria ainda que essa sua mitologia é quase impenetrável se você for cair de paraquedas direto nos seus grandes poemas longos e menos conhecidos, como Jerusalém, Milton, Os Quatro Zoas, etc. Meu conselho é que o melhor a fazer, para quem tem interesse em Blake, é ir lendo-o aos poucos: primeiro com as Canções de Inocência e Experiência, depois o Livro de Thel, que é um poema só de cerca de 200 versos, mas bem estranho já. Depois O Matrimônio do Céu e o Inferno, e daí partir para os seus poemas mais longos, que acredito que não tenham sido todos traduzidos ainda para o português. Quem se interessar, a tese de doutorado feita pela tradutora e acadêmica Juliana Steil, intitulada Tradução Comentada de Milton de William Blake tem uma lista de traduções que, ao que tudo indica, está bem completa (meus agradecimentos à Denise Bottman do blog não gosto de plágio por essa referência).

As Canções de Inocência e Experiência são um bom ponto de partida não somente porque são poemas mais curtos e compreensíveis, mas porque a noção de inocência e experiência permeia toda a obra de Blake e tem análogos míticos muito poderosos. Pensemos, por exemplo, no Éden: Adão e Eva antes da Queda, em Milton, por exemplo, não são plenamente pessoas, praticamente proto-humanos, porque falta-lhes algo que possamos identificar como humano. É apenas após caírem e conhecerem a situação da experiência, que se completam desse modo. E para isso acontecer é necessário um sacrifício (bem como outro ainda para restaurar a eles e sua estirpe, e aliás, mais do que restaurá-los: permitir-lhes a transcendência), que é a vinda da Morte e Pecado: a dor, o derramamento de sangue que vem já na segunda geração humana, com Caim e Abel. E seria surpreende olhar como essas noções de sacrifícios e povos proto-humanos inocentes são recorrentes em mitologias não-europeias (para quem se interessar, sugiro o livro O Poder do Mito, de Joseph Campbell, uma belíssima introdução ao estudo mítico).

Aqui, no caso, nos focaremos em uma dupla de poemas de Blake, “The Lamb” e “The Tyger”, que ilustram bem esta relação. O primeiro dos poemas tem como interlocutor, evidentemente, um cordeiro (importante manter a terminologia bíblica) e é escrito majoritariamente em versos de tetrâmetros trocaicos catalépticos (TÁ tum | TÁ tum | TÁ tum | TÁ), que é o jeito chique de dizer que, em sua maior parte, é o metro da batatinha quando nasce (LAN ça as | RA mas | PE lo | CHÃO ). Obviamente se trata de um efeito calculado: todo o poema se constrói como um poema infantil, na voz de uma criança que indaga, a seu modo, sobre os mistérios da criação.

Agora, sobre o poema do Tigre… bem, vai ficar para a segunda parte deste post.

Na tradição de tantos outros posts do escamandro, seguem algumas traduções diferentes deste poema. Uma foi feita por mim, as outras pelos poetas e tradutores, Renato Sutanna (pela editora Sol Negro), Sidnei Schneider (que publicou suas traduções do “Cordeiro” e do “Tigre” neste post, com comentário, na revista Sibila) e Leo Gonçalves (em parceira com Mário Coutinho, pela editora Crisálida), que faz agora sua 3ª aparição aqui no escamandro. Em tempo, ele estará lançando oficialmente agora dia 21/8 o seu livro de poemas Use o Assento para Flutuar, pela editora Patuá (e quem acompanha o escamandro já teve um gostinho da poética do Leo com os desastres e as destrezas do amor). Há mais uma edição, feita pelos tradutores Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho para a editora Disal, mas não tive acesso a ela ainda.

Dito isso, seguem os cordeiros!

O Cordeiro

Cordeiro, quem te fez?
Tu sabes quem te fez?
Deu-te vida & deu repasto
Pelo riacho & sobre o pasto
Deu-te traje em puro agrado
Fofo traje, iluminado;
Deu-te a terna voz que bale,
Alegrando todo o vale?
Cordeiro, quem te fez?
Tu sabes quem te fez?

Cordeirinho, eu te digo,
Cordeirinho, eu te digo:
Pelo teu nome ele atende,
Como Cordeiro se entende.
Ele é de alma calma & mansa;
Ele se tornou criança.
Tu um cordeiro, criança eu,
A atender ao nome seu.
Benza Deus, Cordeirinho!
Benza Deus, Cordeirinho!

Tradução de Adriano Scandolara

Cordeiro

Cordeirinho, quem te fez?
Pois tu sabes quem te fez?
Deu-te a vida e deu-te pasto
Ribeirinho e largo prado
Deu-te roupa de delícia
Lã macia sem malícia
& deu-te esta voz tão terna
Alegrando toda a terra:
Cordeirinho, quem te fez?
Pois tu sabes quem te fez?

Cordeirinho, vou dizer-te,
Cordeirinho, vou dizer-te!
É chamado por teu nome
Pra si mesmo dá teu nome
Ele é meigo e moderado
De menino ele é chamado:
Eu menino e tu cordeiro
Temos hoje o nome dele.
Cordeirinho, Deus te crie.
Cordeirinho, Deus te crie.

Tradução de Mário Alves Coutinho & Leonardo Gonçalves

O Cordeiro

Cordeiro, quem te fez?
Sabes tu quem te fez?
Deu-te vida e alimentou-te
sobre o prado e junto à fonte;
cobriu-te com veste pura,
veste branca que fulgura;
deu-te a voz meiga e tão fina
para alegrar a campina!
Cordeiro, quem te fez?
Sabes tu quem te fez?

Cordeiro, eu te direi,
Cordeiro, eu te direi!
Por teu nome ele é chamado,
pois assim se tem nomeado:
Ele é meigo e pequenino,
e um dia se fez menino:
Cordeiro tu, menino eu –
nos une um nome que é Seu.
Cordeiro, Deus te guarde.
Cordeiro, Deus te guarde.

Tradução de Renato Suttana

O Cordeiro

Cordeirinho, quem te fez?
Sabes quem é que te fez?
Deu-te vida, deu-te pasto,
Um riacho no campo vasto;
Deu-te roupa que delicia,
Lã clara, fina e macia;
Deu-te também terna voz
Para alegrar os vales sós?
Cordeirinho, quem te fez?
Sabes quem é que te fez?

Cordeirinho, eu o direi,
Cordeirinho, eu o direi:
Teu nome tomou inteiro,
Também se chama Cordeiro;
Humildade meiga e mansa,
Que se tornou uma criança.
Eu, menino, tu, cordeiro,
Temos Dele o nome inteiro.
Cordeirinho, que Deus rei
Te abençoe, como o farei!

Tradução de Sidnei Schneider

O Cordeiro

Cordeirinho, quem te fez?
Você sabe quem te fez?
Te deu vida, & te fez pés
Entre rios & sapés,
Te deu roupa de deleite
Leve roupa, cor de leite;
E essa doce voz que bale
Eco alegre em todo o vale?
Cordeirinho, quem te fez?
Você sabe quem te fez?

Cordeirinho, eu sei quem fez.
Cordeirinho, eu sei quem fez.
Do teu nome ele é herdeiro,
Pois o chamam de cordeiro.
Força meiga & força mansa,
Ele também foi criança.
Eu criança, & tu cordeiro
Somos do seu nome herdeiros.
Deus te guarde, doce rês.
Deus te guarde, doce rês.

Tradução de Guilherme Gontijo Flores

The Lamb

Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?
Gave thee life & bid thee feed
By the stream & o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing, wooly, bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice?
Little Lamb, who made thee?
Dost thou know who made thee?

Little Lamb, I’ll tell thee,
Little Lamb, I’ll tell thee:
He is callèd by thy name,
For he calls himself a Lamb.
He is meek, & he is mild;
He became a little child.
I a child, & thou a lamb,
We are callèd by his name.
Little Lamb, God bless thee!
Little Lamb, God bless thee!

William Blake

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