poesia, tradução

Sarah Maguire, por Rob Packer

Sarah Maguire (1957–2017) foi uma poeta inglesa que morreu no ano passado em Londres, deixando uma obra enxuta e expansiva ao mesmo tempo. Em três coletânea (Spilt Milk, 1991; The Invisible Mender, 1997; The Pomegranates of Kandahar, 2007), ela explorou questões do corpo e da natureza, com um olhar que sempre considerava a geografia e história. Um dos poemas traduzidos aqui, por exemplo, trata da expulsão de todos os animais fêmeos do Monte Atos na Grécia; outro prevê o fluxo de migração através do Mediterrâneo que parece influenciar cada vez mais as políticas europeias mais assombrosas. Em outras ocasiões, ela escrevia sobre plantas ou juntou uma antologia sobre poemas sobre flores – uma influência clara da horticultura que ela aprendeu como jardineira depois de deixar a escola cedo.

Além de poeta, ela foi (talvez) ainda mais importante na esfera da tradução. Em 2004, ela fundou o Poetry Translation Centre (PTC) o qual ainda se dedica a traduzir poetas africanos, asiáticos e latino-americanos ao inglês, convidando poetas consagrados como tradutores ou convocando oficinas de tradução, para trabalhar com poemas escritos em zapoteca, dari, georgiano e, sobretudo, o árabe. Ela traduziu poemas dos palestinos, Mahmoud Darwish e Ghassan Zaqtan, e do sudanês, Al-Saddiq Al-Raddi. Além disso, nenhum outro poeta de expressão inglesa em vida teve um livro de poesia traduzido ao árabe.

Rob Packer

* * *

Split Milk

Two soluble aspirins spore in this glass, their mycelia
fruiting the water, which I twist into milkiness.
The whole world seems to slide into my drain by my window.

It has rained and rained since you left, the streets black
and muscled with water. Out of pain and exhaustion you came
into my mouth, covering my tongue with your good and bitter milk.

Now I find you have cashed that cheque. I imagine you
slipping the paper under steel and glass. I sit here in a circle
of lamplight, studying women of nine hundred years past.

My hand moves into darkness as I write, The adulterous woman
lost her nose and ears; the man was fined. I drain the glass.
I still want to return to that hotel room by the station

to hear all night the goods trains coming and leaving.

Leite derramado

Os esporos de duas aspirinas dissolvem no copo,
os micélios frutificam a água que eu viro láctea.
O mundo inteiro escorrega pelo ralo à minha janela.

Não para de chover desde que você partiu, as ruas escuras
e musculosas com a água. Dolorido e exausto você gozou
na minha boca, cobrindo a língua com seu leite bom e amargo.

Agora descubro que você descontou aquele cheque. Imagino
você deslizando o papel sob o aço e o vidro. Estou sentada aqui
no círculo de luz, estudando mulheres de novecentos anos atrás.

Minha mão entra na escuridão enquanto escrevo, A adúltera
perdeu o nariz e as orelhas; o homem foi multado. Viro o copo.
Ainda quero voltar ao quarto de hotel perto da estação

para ouvir a noite toda os trens de carga entrando e partindo.

§

The Garden of the Virgin

‘In the Gospel of the Egyptians … the Saviour himself said,
I am come to destroy the works of the female.’
– CLEMENT OF ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

The monks who came to cultivate
the Virgin’s garden
obeyed her law.

St Theodosius the Studite wrote:
Keep no female animal
for use in house or field:

the holy fathers
never used such –
nor does nature need them.

Ewelambs and their ewes
were slaughtered. Cows
butchered. Heifers slain.

The sow, the gilt
and the nanny goat:
all dead and banned.

Bitches murdered one
by one. Each hen
felt the press of thumbs

about her throat, the neck
snapped taut – and then
the slump. Each egg

was gathered up, each eggshell
crumpled in a viscid mess of yolk,
thrown oozing down the cliffs,

where, boiling in the waves,
it made a salty broth
the gulls sucked up.

Only the cats stayed on:
the cats to catch the rats
that dropped their young

despite the monks,
despite the Virgin’s stern
injunction. At night

it was the cats
who ran the place:
softening the hands and throats

of anchorites and cenobites,
their lithe fur
soothing the flesh made stiff

through deprivation.
And at night the wolves
roamed yowling

through the Virgin’s garden:
the sole beast
with cunning enough

to breach the fine neck
of isthmus.
Miles up, alone

in his stone cottage,
reaching only by chains
hung over cliffs,

a hermit wakes up, sodden
from a lycanthropic nightmare,
with his hair

on end. He had sensed
the slow breath
of the wolf, had stared

deep into her lemon eyes,
as still as oil
or candlelight, then

felt himself run off with her –
feral, hirsute, opening out his lungs
to greet the moon.

O jardim da Virgem

‘No Evangelho dos Egípcios … o Salvador mesmo disse,
Vim a destruir a obra da fêmea.’
– CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

Os monges que vieram a cultivar
o jardim da Virgem
obedeceram a sua lei.

São Teodósio o Estudita escreveu:
Não mantenha nenhuma fêmea animal
para uso em casa ou campo:

os pais santos
nunca usaram dessas –
nem a natureza precisa delas.

As ovelhas e recém-nascidas
foram abatidas. Vacas
mortas. Novilhas arrasadas.

A porca, a leitoa
e a cabra fêmea:
todas mortas e banidas.

Cadelas assassinadas uma
atrás da outra. Cada galinha
sentiu o aperto de dedões

na garganta, o pescoço
estalou tesamente – e depois
despencou. Cada ovo

foi coletado, cada casca amassada
em uma imundície víscida de gemas,
jogada esvaindo nos rochedos,

onde, borbulhando nas ondas,
virou um caldo salgado
que as gaivotas sugavam.

Apenas as gatas ficaram:
foi para caçar as ratazanas
cuja prole seguia caindo

apesar dos monges,
apesar da injunção severa
da Virgem. À noite

foram as gatas
que regiam o monte:
amolecendo as mãos e gargantas

dos ancoretas e cenobitas,
os seus pelos macios
confortavam a carne

endurecida pela privação.
E à noite as lobas
erravam e uivavam

pelo jardim da Virgem:
o único bicho
suficientemente astuto

para violar a garganta fina
do ismo.
Sozinho numa cabana de pedra,

em um lugar altíssimo
aonde só se chega através de correntes
penduradas nos rochedos,

um eremita acorda, encharcado
de um pesadelo licantropo,
com os cabelos

arrepiados. Tinha sentido
a respiração lenta
da loba, olhado

nos olhos amarelos profundos,
calmos como o óleo
ou a luz de vela, logo

sentiu como escapava com ela –
feral, hirsuto, abrindo os seus pulmões
para saudar a lua.

§

Europe

Merely an idea bruising
the far horizon, as a cold mist tightens into rain –

but at dusk we still wait
by the Bay of Tangiers, on the old city walls, gazing northwards

till the night comes on,
and a necklace of lights gathers the throat of the sea.

The young men burn –
lonely, intent on resolving that elusive littoral

into a continent of promises
kept, clean water, work. If they stare hard enough, perhaps

it will come to them.
Each night, they climb these crumbling ramparts

and face north
like true believers, while the lighthouse of Tarifa blinks

and beckons,
unrolling its brilliant pavement across the pitiless Straits.

Europa

Apenas uma ideia machucando
o horizonte distante, enquanto a névoa fria se adensa em chuva –

mas ao pôr-do-sol ainda esperamos
na Baía de Tanger, na muralha da cidade velha, fitando o norte

até que a noite avança,
e um colar de luzes enlaça a garganta do mar.

Os rapazes ardem –
solitários, determinados a resolver aquele litoral esquivo

em um continente de promessas
cumpridas, água limpa, trabalho. Se olharem fixamente demais, talvez

venha até eles.
Toda noite, eles sobem nestas muralhas decadentes

e encaram o norte
como fieis convictos, enquanto o farol de Tarifa pisca

e acena,
desenrolando sua calçada brilhante sobre o desapiedado Estreito.

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entrevista

Entrevista com Leonardo Fróes

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É possível ler às entrevistas que tenho feito clicando aqui. Esta entrevista, em específico, difere um pouco das anteriores. Certo dia, conversando com Rob Packer achamos que seria interessante incluir o poeta Leonardo Fróes nesse círculo de entrevistas que vem sendo feito por aqui, mas também achamos que seria muito mais interessante uma entrevista ao vivo, no terreno particular do poeta. A partir disso, formulei algumas perguntas, que já venho fazendo aos outros entrevistados, e o Rob utilizou-as como uma base para a entrevista que se segue. Trata-se, portanto, de uma entrevista a quatro mãos, modulada sempre pela experiência viva do afeto e do diálogo. Imaginem por um momento, olhando para a foto acima, que aquele cachorro é meu espírito animal. Estamos todos ali, em comunhão. Felizes.

Sem mais. Com vocês, Leonardo Fróes.

* * *

SERGIO MACIEL – Quero pedir licença aqui e começar com as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo?

LEONARDO FRÓES – Aprender a se tornar pessoa e, consequentemente, aprender a morrer.

SM – E o que é amor?

LF – Ah, amor. O amor é o doce da vida, é bom. É para adoçar qualquer ameaça de amargor.

SM – Qual foi a experiência mais importante em toda sua vida?

LF – A experiência do amor. O fato de eu ter encontrado a mulher que eu amo, com a mesma intensidade dos primeiros dias.

ROB PACKER – E isso de encontrar o amor se refletiu como em sua poética?

LF – Como? Bem, não sei. A minha poética inicial, juvenil, de morador das grandes cidades, era uma poética sempre em confronto com a ordem estabelecida pela sociedade. Eu era um dissidente da sociedade que escrevia versos de forte oposição ao modelo de vida que me era proposto. A experiência do amor, portanto, me transfigurou. Eu passei a ver coisas com outros olhos; a quatro olhos, frequentemente. Conviver com outra pessoa é conviver com uma multidão, porque cada um de nós é uma multidão em si mesmo. De forma que a solidão a dois é um ensinamento permanente, diário, transformador e, por isso, produtivo.

RP – Uma coisa interessante na sua resposta é esse ato de rebelar-se contra um modo de vida. O que dentro desse modo de vida você acha importante desse fato de rebelar?

LF – De rebelar? Bem, eu discordei do modo de vida que me era proposto e a solução que encontrei foi me ausentar dele o mais possível, ficar distante o mais possível. Portanto, em primeiro lugar, fui morar fora do Rio de Janeiro, que era minha base, sempre foi minha base profissional. Depois, precisei conseguir manter alguns vínculos que me garantissem sobreviver com certa dignidade, mas abrindo mão de brilhantes carreiras, de ganhos muito grandes de dinheiro. Por fim, foi aprender a viver de maneira mais simples, mais de acordo com o que eu penso.

RP – Antes de ir embora do Rio você morou vários anos no exterior. Você também enxerga isso como uma forma de rebelar? Ou é outro tipo de experiência?

LF – Acho que são todas elas outras experiências. Eu fui muito precoce como jovem, comecei as coisas sempre muito na rapidez. Comecei a trabalhar muito moço, por exemplo. Com 20 anos eu já estava morando em Nova Iorque, trabalhando numa editora de lá. Meu primeiro apartamento de solteiro, logo que eu saí da casa dos meus pais, foi em Nova Iorque. Fiquei seis anos por lá e isso tudo foi para mim a faculdade que eu não fiz, porque durante esse período eu estava, evidentemente, aperfeiçoando meu conhecimento de línguas – eu havia estudado seis línguas estrangeiras desde os onze anos de idade. É claro que morando tantos anos fora eu pude aperfeiçoar esse conhecimento, mas também algo que me interessava muito era o conhecimento da literatura dos países onde eu vivi, porque foi lá que eu tomei contato inicial mais forte com os livros que eu leio até hoje. Na verdade, eu acabei lendo muito mais da tradição europeia, da tradição ocidental.

SM – Como é seu processo de escrita? Tudo lhe corre fácil e natural como um riacho de roça ou vem de um trabalho interior consciente e demorado?

LF – Eu diria que uma proposta não exclui a outra. O trabalho consciente foi sendo realizado ao longo dos anos, desde a minha adolescência, quando eu comecei a escrever. Acho que sobre o escrito eu devo ter refletido muito, sobre aquilo que eu tinha escrito. Eu não me lembro, nem mesmo quando muito jovem, de ter escrito a partir de uma decisão teórica voluntária, como, por exemplo, decidir que iria escrever um soneto – nunca escrevi um soneto, aliás – ou um sextilha, ou um poema de amor, enfim, uma definição qualquer, um rótulo qualquer. Sempre me aconteceu sair escrevendo.

Essa coisa de inspiração ficou tão gaiato, não é? Já foi tão pechado, muita gente não acredita, mas eu não sei outra palavra. Todas as vezes em que eu escrevi eu saí do meu estado habitual para um estado no qual – bem, é complicado – o cérebro, a inteligência e as emoções estão perfeitamente articulados. Um estado no qual eu não vejo mais uma distinção entre consciente e inconsciente. Tanto é assim que muitas vezes eu me surpreendo com o que escrevi. Eu só consigo compreender certas coisas a meu respeito quando eu vejo um verso que, frequentemente, parece tão enigmático, mas que continha, depois de tê-lo escrito, e essa impressão é muito forte na hora, um recado para mim, alguma coisa que eu precisava ouvir e que me foi soprado, sei lá, do além, de uma forma meio enigmática.

RP – É muito interessante essa coisa de pensar através da escrita, isto é, a ideia de o poeta não saber, mas só saber através da própria escrita.

LF – Acho que é exatamente isso. Há um verso meu, por exemplo, que me ocorre agora, de um poema que termina assim: “a seiva que me silva num silêncio sem queixa” e só eu sei o que este verbo silvar quer dizer, num segredo meu. É algo que só eu sei. Eu sei que havia ali alguma coisa contida que eu precisava ouvir. Eu ouvi e não passo adiante.

RP – Tendo versos assim enigmáticos, o que você acha da interpretação de outras pessoas? O modo como você entende esse verso pode ser muito diferente do modo como outra pessoa entenderá. Há poetas que realmente acreditam que existe somente um significado, mas há outros que deixam o poema de modo mais livre, permitindo que cada um interprete o que quiser.

LF – Sim, sim. Sim. No meu caso, acho que eles são polivalentes. Cada pessoa pode entender de um jeito próprio e eu fico feliz se souber disso. Vou citar um exemplo concreto. Eu tenho um poema, talvez seja dos mais conhecidos, que se chama O apanhador no campo [Nota: este poema estará ao final da entrevista] e descreve uma cena acontecida aqui, a poucos metros, aliás, de onde estamos, naquele pé de caqui – que agora está decadente, mas isso há alguns anos. A cena é: o homem está subindo para pegar um caqui no ponto mais alto do pé de caqui e o atira para a mulher que está esperando embaixo, no ponto mais alto é o caqui mais doce que ele atira para a mulher. Uma moça que eu conhecia na ocasião, ao ler esse poema me disse: “Olha, tudo bem, esse poema descreve uma cena realista do sujeito colhendo um caqui para a mulher, mas, para mim, ele também descreve uma relação sexual entre um homem e uma mulher. Repare que o homem está por cima e ele vai dar para ela o caqui mais doce. Momento de prazer.” Partindo disso, eu passei a ver esse subtexto no poema também por conta da leitura dela. Hoje, lendo esse poema, digo “engraçado, acho que tem isso mesmo aqui, por trás do que eu descrevo”.

Então, acho que isso é característico, talvez, de todo o meu trabalho. Isto é, os sentidos não estão fechados. Eu jogo um monte de imagens, de emoções e de impressões que podem ser vistas de diferentes maneiras. Acho que a poesia mais convincente, no meu entender, é justamente esta que não fecha o sentido. Claro, há poesias muito bonitas feitas sobre temas determinados, a pessoa pegou um tema e fez um verso bonito, um poema bonito, mas a que me toca mais é justamente essa poesia que parece não se fechar nunca, que parece mais alfinetadas que o cantor dá no auditor.

RP – Pensando desse modo o poema se torna contínuo, passa a fazer parte de uma conversa entre o homem e a natureza, entre o homem e a solidão, o homem e o amor, não necessariamente o homem e a época em que vive.

LF – Porque a época é circunstancial. É como o país, eu poderia ter nascido em qualquer outro país. Por acaso, eu nasci aqui e me sinto bem no Brasil, mas eu poderia ter nascido na Bolívia, ou na França, ou na África ou onde quer que fosse. A época, dessa forma, seria outra. O meu problema humano – problema, na verdade, é uma palavra pesada –, a minha condição humana, com seus problemas, seria totalmente outra. Por um acidente de nascimento eu nasci e tenho que me situar neste país, mas não acho que seja uma obrigação minha estar vivendo a minha época. Inclusive porque pela literatura, que é minha grande paixão e a minha grande ocupação, vivi e vivo até hoje em diferentes épocas.

RP/SM – Estando aqui no seu sítio, nós ouvimos muitos barulhos: o som dos pássaros, do rio, o latido dos cachorros, mas não ouvimos o som da voz humana. Você já experimentou sentir-se em solidão, profunda solidão?

LF – Não, nunca. Quer dizer, sempre vivi aqui, a maior parte do tempo sozinho ou com a Regina, minha mulher – a solidão a dois também é um privilégio –, mas posso dizer que nunca, porque estou rodeado de seres vivos. Eu estou é distante da minha espécie. Em contrapartida, essas árvores maravilhosas que eu acompanho nascendo e crescendo há quase meio século, muitas delas plantadas por mim mesmo, para mim são os seres que protegem, que me rodeiam numa boa, porque me circundam de silêncio, de tranquilidade. É claro, há vendavais. A vida no campo também possui um lado violento. Recentemente, um vendaval dizimou parte da vegetação que corre lá no beira do rio, derrubou árvores enormes, mas faz parte da vida. Agora, solidão não há, porque a vida aqui – nestes quase 50 mil metros quadrados de terreno que nós temos – é abundante, é tudo cheio de vida, com os animais, os bandos de animais, quatis, lagartos, micos, jacus etc que vivem rodeando por aqui. Corujas, morcegos, enfim, há distração para todos os tipos. Quer dizer, a vida aqui é muito movimentada para quem sabe apreciar o contato com a natureza. Claro, eu acompanho o germinar de sementes, fato que talvez muitas pessoas nem sequer notem. Hoje de manhã, por exemplo, havia um concerto de abelhas aqui neste pé de pitanga, pois elas estão polinizando, a pitangueira está em flor. Era uma coisa estranhíssima. O zumbido delas era um concerto natural. De forma que é isso, eu presto atenção às abelhas, às formigas, aos menores seres que eu posso ver e tudo isso é vida que me rodeia. Ou seja, pelo contrário, ao invés de ficar confinado aos espaços do humano e às tragédias humanas, eu aqui me abro para todas as alegrias e as tristezas de todas as espécies. É um contato direto com a vida, na sua maior significação.

RP – Essa vivência com a natureza é um fato na sua poesia. Acho que muita gente que lê sua poesia entende isso, sobretudo a partir de poemas como “O apanhador no campo” ou “Mulheres de milho”, por exemplo, que têm muito a ver com a agricultura em si. Você entende essa interação com a natureza como um gesto político?

LF – Sim. No final das contas, em cada gesto nosso sempre há algo de político. Claro, há uma posição política mesmo, afinal eu discordo frontalmente da sociedade tal como é organizada em meu país. Então, o que eu fiz? Criei um principado fictício. Aqui dentro eu sou o rei. É espantoso, mas é verdade, sabe? Aqui ninguém nunca me incomodou, sempre respeitaram os meus domínios. Por exemplo, se eu quiser andar nu aqui, como frequentemente acontece, eu posso, ninguém vai me prender por isso. Lá na cidade eu não posso. Eu me lembro de quando eu morava em Nova Iorque, ainda nos anos 60, um jovem resolveu tirar a roupa para se banhar num laguinho que tem lá no centro da praça e a polícia o prendeu no mesmo momento. Levou-o em cana, porque não se pode tirar a roupa em público. Aqui eu posso. Posso fazer o que eu bem quiser. Sobretudo escrever poesia, que foi o que eu mais fiz, e plantar.

É curioso isso que você menciona na sua pergunta, porque “Mulheres de milho” foi feito em cima da primeira roça de milho de que eu plantei na minha vida. O poema aconteceu dentro da roça de milho, que foi toda feita por mim. É trabalhoso fazer um roçado de milho, não sei se você sabe, é preciso fazer ao menos três capinas ao longo do tempo de floração, de frutificação do milho. O poema aconteceu assim, eu estava no meu êxtase. Quer dizer, além de escrever essas bobices que escrevo no papel, eu sou capaz de plantar pé de milho, que eu vou comer, que vai alimentar meus filhos. E assim foi. Portanto, é muito forte essa ligação entre um homem de cultura e um homem de agricultura, até mesmo por necessidade de sobrevivência, porque naquela época nós vivíamos e dependíamos muito daquilo que se plantava aqui.

RP/SM – É interessante a ligação entre essas duas palavras: cultura e agricultura. Mas voltando um pouco à poesia, você tem algum poeta que permaneceu com você desde a primeira a leitura, que vem atravessando os anos ao seu lado e, de alguma forma, te influencia?

LF – Eu não diria um poeta, diria um conjunto de poetas, que são os nossos mestres modernistas, que é como gosto de me referir a eles. Os brasileiros: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Joaquim Cardoso, Jorge de Lima. Todos esses poetas eu comecei a ler na adolescência, ali por volta dos quinze anos, comecei a descobri-los todos, um atrás do outro, e eles me encantaram muito. Eu tive uma educação secundária muito sólida no colégio Pedro II, que era o melhor da época no Brasil, mas era toda clássica, de modo que nós não chegávamos ao Modernismo de 22, parávamos na altura do parnasianismo. Ou seja, estudávamos versificação, que era parte do currículo, eu aprendi regras de versificação como matéria básica do currículo. Então, quando à margem do colégio descobri esses poetas modernistas, a poesia ganhou outra significação para mim – por mais que eu já adorasse poesia, gostasse dos poetas românticos e tudo aquilo da tradição –, porque eu descobri homens falando dos meus próprios problemas, das minhas inquietudes. Esses que eu mencionei e vários outros, como João Cabral de Melo Neto, que eu fui conhecer depois e gosto muito.

Eu acho que o Brasil deu, no século XX, um conjunto de poetas extraordinários. Eu diria mais que apenas um conjunto de poetas, deu uma poesia de valor, que só não repercutiu mais no mundo por conta da barreira linguística. Se escrevêssemos em espanhol, por exemplo, talvez nossos poetas tivessem conseguido uma audiência muito maior no mundo.

RP – Agora uma pergunta sobre formas poéticas. Você menciona a versificação e é curioso que no início da sua obra há mais poemas versificados e ao longo do tempo vão aparecendo mais poemas em prosa, por exemplo. Como você entende a diferença entre essas formas? Há alguma influência no tipo de poema que você escreve?

LF – Não. Eu simplesmente não entendo. E essa é uma coisa que eu nunca consegui entender: qual é a diferença entre verso medido, metrificado e bem composto e a prosa. Eu não consigo entender muito bem. Isso é uma coisa que foi acontecendo comigo de maneira muito espontânea. Durante anos escrevi meus poemas direto na máquina de escrever, dava o espaço, pulava de uma linha para outra. Fazia versos. De repente, deixei o carro da máquina correr até o final, preenchi a lauda toda. Isso, na minha cabeça, foi a mudança, uma mudança física. Eu comecei a pensar por que eu parava de escrever, por que eu não deixava continuar escorrendo. Talvez muitos dos meus poemas em prosa possam ser distribuídos em unidades de versos, numa outra paginação, não duvido. Eu mesmo já experimentei fazer isso em certas páginas do Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa, e descobri que há passagens que estão em redondilha maior, isto é, em versos de sete sílabas.

Por outro lado, o meu conhecimento, o meu estudo, quando jovem, de versificação me foi muito útil nas minhas traduções. Eu, pessoalmente, nunca escrevi um soneto, mas consegui, graças à minha instrução, traduzir os 44 sonetos de Sonetos da portuguesa, de Elizabeth Barrett Browning. Por causa do meu saber, sou capaz de fazer aquilo metrificado e rimado, mas se eu não tivesse esse preparo eu provavelmente não faria, ou não faria com a mesma qualidade com que acredito ter feito. Agora, no meu próprio trabalho eu não utilizo esse tipo de coisa. A única coisa que ficou patente para mim, depois de eu ter uma obra escrita, é que eu não quis ficar me repetindo. O que eu sinto hoje, olhando para o que já foi feito, é que de um livro para outro eu tenho uma mudança muito grande. Publiquei os livros, em geral, com grande intervalo, nunca fui de publicar um livro todo ano. Passavam-se cinco, seis, sete anos, até mais, entre os livros. Há muito anos não publico um livro totalmente novo. Portanto, eu noto que há um salto, que eu estou sempre me arriscando por um caminho novo, por uma solução nova. Acho que isso foi sempre muito interessante. Como se um pintor pudesse lidar sempre com diferentes formas, um escultor com diferentes volumes, a minha poesia tendeu muitas vezes, não sei bem se por conta dos meus estudos de belas artes, a ser plástica, representativa plasticamente. Desse modo, tanto faz se é em verso ou em prosa. Não me preocupa essa classificação. Acho que deveríamos falar somente de textos, porque no fundo são somente textos que assumem diferentes formas.

SM – Agora, para encerrarmos, uma pergunta final: o que você espera de um poema?

LF – De um poema meu ou de qualquer poema?

RP – De ambos.

LF – De um poema meu eu espero algo que eu não tenho palavra para dizer, teria que inventar uma palavra. Não sei. Um prazer de uma qualidade tão rara que é mais do que prazer, é um sobreprazer, é uma alegria, alguma coisa assim. Como se eu tivesse feito o que de melhor eu posso fazer. Uma coisa tal que me deixa muito satisfeito, muito contente. Acho que o primeiro sentimento que me inunda é este, como se algo me dissesse “eu fiz o meu melhor”. Agora, de poemas alheios eu espero sempre algum ensinamento, alguma coisa de aprendizado. Aprendi muito, tenho aprendido muito com poetas, não só brasileiros, mas de todas as línguas em que consigo ler, e é uma alegria permanente. Acho que a leitura de poesia é parte da minha condição de poeta.

* * *

 

O APANHADOR NO CAMPO

Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar os galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.

§

MULHERES DE MILHO

Milhares de mulheres de milho
brotam do meu olho calado como espigas
fortes. No ar elas se endireitam

como folhudas criaturas carnosas
que ao vento se transmudam, de fêmeas,
em formosos penachos machos.

Acho graça na cruza; penso nisso
que é ser mulher a passo
de, sob a vertigem solar, virar confusa

hibridação. Abro-me. Brinco
de me dar. Rapto-me e opto-me
como se eu mesmo fosse me comer inteiro

enquanto as coisas simplesmente nascem.

 

Padrão
poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

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um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

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Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

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A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

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