poesia, tradução

A minha última duquesa – Robert Browning

Agnolo_Bronzino_-_Ritratto_di_Lucrezia_de_Medici

Agnolo Bronzino – Ritratto de Lucrezia (di Cosimo) de’ Medici (1559)

Num momento anterior fiz uma postagem aqui no escamandro sobre um poema chamado “O amante de Porfíria”, do poeta vitoriano Robert Browning, em tradução minha (clique aqui). Na ocasião, mencionei a existência de um volume de traduções já para o português de alguns dos seus monólogos dramáticos, vertida por João Almeida Flor – uma edição, no entanto, infelizmente rara. Mas, por sorte, graças ao Flávio Penteado, um estudioso da poesia de Pessoa que esteve há pouco em Lisboa (agradeço enormemente, Flávio!), eu tive acesso ao volume e gostaria de compartilhar uma de suas traduções aqui.

O Monólogos Dramáticos (publicado em 1980 pela editora A Regra do Jogo) conta com 12 poemas, a saber: “O amante de Porfíria”, “A minha última duquesa (Ferrara)”, “Pictor ignotus (Florença 15 – )”, “O bispo encomenda o seu túmulo na igreja de Santa Praxedes”, “Confessionário (Espanha)”, “Evelyn Hope”, “Mulher fácil”, “Uma tocata de Galuppi”, “A nossa última cavalgada”, “Na opinião de um contemporâneo”, “Na Campagna a dois” e “Prospice”. Não parece ser muita coisa, mas, como é uma edição bilíngue e os poemas são longos, chega fácil a 91 páginas. O método de tradução usado por Almeida Flor é orientado mais pela semântica, optando pelo verso livre no lugar do metro e da rima. Não é o nosso modus operandi mais típico no escamandro (eu arriscaria dizer que me parece também que é mais comum esse tipo de tradução de poesia em Portugal do que no Brasil, mas não posso afirmar isso com muita certeza), e eu também acredito que as diferenças entre o português brasileiro e lusitano hão de dificultar um pouco uma avaliação mais razoável da minha parte. Em todo caso, é um trabalho ainda assim muito digno de atenção.

Este poema, “My last duchess”, é mais uma vez um monólogo na voz de um homem frio e cruel, como era o amante-assassino de Porfíria, mas desta vez a figura é um pouco mais próxima da vida real: é reconhecido que se trata de uma representação de Alfonso II d’Este, duque de Ferrara (1533–1598). Sua “última duquesa”, a quem o poema alude, foi Lucrécia de Médici, com quem ele se casou quando ela tinha apenas 14 anos (e ele, 25) e que morreu aos 17, possivelmente de tuberculose – mas dizem as más línguas que ela poderia ter sido envenenada, o que deixa a situação toda ainda mais sinistra, especialmente quando se considera que ele teria desprezo pela esposa (sua família não tinha toda a tradição dos “novecentos anos” do nome dos Este) e que os dois teriam se casado só pelo dote. O pano de fundo do poema é que o Duque está para desposar uma nova mulher (anos depois da morte de Lucrécia, Alfonso casou-se com a filha de Ferdinando I, conde de Tirol), por isso recebe o emissário da sua família e o acompanha num tour pelo seu palácio, quando ele abre uma cortina para mostrar o retrato de Lucrécia e começa a falar dela, a princípio num tom algo neutro, mas que logo dá lugar ao ressentimento por causa dos modos da dama: “Oh senhor ela sorria sem dúvida / quando eu passava à sua beira mas a quem / não concedia ela igual sorriso?” O duque possessivo se sente agravado pelo humor jovial da duquesa e pela facilidade com a qual ela distribuía sua afeição por aí, e agora que ela está morta e só lhe resta a representação na parede, ele aproveita para exercer uma última demonstração de dominação e poder que é sobre a cortina que a oculta (“pois ninguém corre / a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu”), de modo que agora ela só pode sorrir para ele.

É doentio, sinistro e ao mesmo tempo patético. E a frivolidade com a qual o poema termina, com o duque prosseguindo no tour pelo palácio e demonstrando outros objetos de decoração, só reforça essa sensação. Não por acaso é também um dos monólogos mais famosos do autor. A inspiração para o poema, com a sua temática italiana, veio enquanto Browning pesquisava e reunia material para o seu longo poema narrativo Sordello (1840), sobre o trovador lombardo homônimo do século XIII. “A minha última duquesa” foi a princípio publicado em conjunto com outro monólogo dramático, chamado “Count Gismond”, que, com sua inspiração mais francesa (os dois poemas faziam parte de uma seção intitulada “Italy and France”), lhe serve de contraponto – mas, infelizmente,  “Count Gismond” não consta em Monólogos Dramáticos e, até onde tenho notícias, ainda não foi traduzido.

Atualização: quando fiz essa postagem inicialmente, a intenção era demonstrar o trabalho de tradução de João Almeida Flor, ilustrando com o que deve ser o poema mais marcante dos selecionados para o Monólogos Dramáticos. Mas acabei esquecendo na hora que havia uma outra tradução, esta em português brasileiro, feita pelo Décio Pignatari e presente em seu famoso volume 31 poetas 214 poemas, tal como o Flávio me chamou a atenção também. Para propósitos de comparação, então, compartilho agora, junto da tradução de Almeida Flor, a de Pignatari, ilustrando sobretudo as diferenças de projeto tradutório.

Adriano Scandolara

 

A Minha Última Duquesa

(Ferrara)

Aquela é a minha última Duquesa pintada na parede,
parece mesmo que está viva. Agora considero
aquela peça um encanto; as mãos de Fra Pandolfo
trabalharam um dia diligentes e ali está ela.
Não quer sentar-se a contemplá-la? Eu disse
Fra Pandolfo de propósito, pois nunca
estranhos como o senhor fitaram aquele semblante
com a profundidade e a paixão do seu olhar sincero
que não se voltassem para mim (pois ninguém corre
a cortina que abri para o senhor ver, a não ser eu)
parecendo perguntar-me, se a tanto ousassem,
como é que um olhar assim ali se oculta; por isso não é
o senhor o primeiro a voltar-se e a perguntar. Não foi, senhor,
só a presença do marido    que deu aquele esplendor
às faces da Duquesa. É provável que
Fra Pandolfo tivesse dito por acaso «Esse manto
encobre demasiado o vosso pulso, senhora» ou «As tintas
nunca podem imitar o suave rubor
que se esbate ao longo do pescoço» – coisas assim
eram favores, pensava ela, e motivo bastante
para despertar aquele rubor de alegria. Ela tinha
um coração – como direi? – que depressa exultava
impressionável facilmente; ela gostava de tudo
quanto via e o seu olhar tudo alcançava.
Senhor, tudo era igual! Os meus favores no seu regaço,
a luz do dia declinando no poente,
o ramo de cerejeira que um louco solícito
apanhava no pomar, e a mula branca
que ela montava à volta do terraço – tudo e cada coisa
lhe merecia as mesmas palavras satisfeitas
ou um rubor ao menos. Ela agradecia às pessoas – bom! mas
de um modo – não sei bem como – como se atribuísse
à dádiva do meu nome quase milenário
o mesmo valor de qualquer outra coisa. Quem iria censurar
coisas sem importância como estas? Mesmo se tivesse jeito
para falar (e não tenho) explicando claramente
o que se espera de uma pessao assim e dissesse «É isto
ou aquilo que em ti me desagrada; aqui pecas por defeito
além por excesso» e se ela se deixasse ensinar
deste modo sem frontalmente
opor sua vontade, pedindo até desculpa,
mesmo assim seria humilhante. E eu não quero nunca
humilhar-me. Oh senhor ela sorria sem dúvida
quando eu passava à sua beira mas a quem
não concedia ela igual sorriso? A coisa tomou vulto. Dei ordens.
Sumiram-se os sorrisos. Ali está ela
como se estivesse viva. Não quer levantar-se. Vamos
ao encontro das pessoas lá a baixo. Repito:
a conhecida generosidade do Conde, vosso amo,
é garantia de serem satisfeitas minhas justas pretensões
em matéria de dote.
Embora, como disse a princípio, o meu interesse
seja a filha dele que é linda. Não. Desceremos,
senhor, os dois juntos. Mas repare naquele Neptuno
domando um cavalo marinho (uma raridade, dizem)
que eu, a Claus de Innsbruck, mandei fundir em bronze.

(tradução de João Almeida Flor)

 

Minha Última Duquesa

Ali está a minha última duquesa
Na parede. Parece viva. Que beleza
De obra! Fra Pandolfo não poupou esforço
E ei-la de corpo inteiro, não em busto ou torso.
Você não quer sentar-se para ver melhor?
Não por acaso mencionei o seu pintor,
Pois não costumo a estranhos olhos desvelar
A profundeza da paixão que há nesse olhar,
Que só a mim é dirigido (pois só eu
Abro a cortina), mas eu sinto, percebeu?,
Que quem a vê logo se indaga: de onde veio
Esse olhar? Com você, meu caro, não receio,
É a mesma coisa. Pois eu digo: simplesmente,
A presença do esposo é pouco para a mente
Que procura a razão daquela mancha rosa
De prazer no seu rosto. Uma frase ociosa,
Talvez, de Fra Pandolfo. “Eu acho que o seu manto
Cobre demais o seu pulso”, ou: “Não pode tanto
A arte, não, reproduzir não pode o leve
Rubor em sua garganta, a ir e vir tão breve”.
Galanteria cortês, não mais – o suficiente
Para fazer brilhar um rosto, de repente.
Tinha um jeito, a duquesa, um coração aberto
Ao gostar… ao olhar… Contentamento certo,
O dela; incerto, o meu… Ela não distinguia
Entre gozar das graças que eu lhe concedia,
O declínio da luz ao sol poente, o ramo
De cerejas que um bobo serviçal do amo
Lhe oferecia, a mula branca que montava
Pela terraça, a rir – a tudo ela igualava
Com uma boa palavra, ou um rubor, ao menos.
Que agradecesse, tudo bem – mas é somenos
Equiparar o dom dos novecentos anos
Do meu nome a presentes sem nome? Até planos
De dissuadi-la… Rebaixar-me a isso… O dom
Da palavra me falta… E como, alto e bom som,
Chegar a ela, assim: “Olhe, sua atitude
Me desagrada, passou do ponto, mude”?
Que aceitasse o sermão e até mostrasse medo,
Isto, pra mim, seria ceder, e eu nunca cedo.
Claro, meu caro, de passagem, um sorriso
Ela me dava – mas a quem não dava? Aviso
Não dei, dei ordens: os sorrisos, de imediato,
Murcharam. Mas já pode levantar-se… É fato…
Nesse retrato, agora, ela parece viva…
Podemos ir? Embaixo, a companhia festiva
Nos aguarda. Repito: a generosidade
Do conde, seu senhor, sem dúvida há de
Saber pesar a minha justa pretensão
Ao dote da menina, a cujas graças vão
Os meus melhores sentimentos. De passagem,
Olhe essa peça de escassíssima tiragem:
É um bronze de Netuno domando um delfim,
Que Claus de Innsbruck fez fundir só para mim.

 

My last Duchess

(Ferrara)

That’s my last Duchess painted on the wall,
Looking as if she were alive. I call
That piece a wonder, now: Fra Pandolf’s hands
Worked busily a day, and there she stands.
Will’t please you sit and look at her? I said
“Fra Pandolf” by design, for never read
Strangers like you that pictured countenance,
The depth and passion of its earnest glance,
But to myself they turned (since none puts by
The curtain I have drawn for you, but I)
And seemed as they would ask me, if they durst,
How such a glance came there; so, not the first
Are you to turn and ask thus. Sir, ’twas not
Her husband’s presence only, called that spot
Of joy into the Duchess’ cheek: perhaps
Fra Pandolf chanced to say “Her mantle laps
Over my lady’s wrist too much,” or “Paint
Must never hope to reproduce the faint
Half-flush that dies along her throat”: such stuff
Was courtesy, she thought, and cause enough
For calling up that spot of joy. She had
A heart—how shall I say?—too soon made glad,
Too easily impressed; she liked whate’er
She looked on, and her looks went everywhere.
Sir, ’twas all one! My favour at her breast,
The dropping of the daylight in the West,
The bough of cherries some officious fool
Broke in the orchard for her, the white mule
She rode with round the terrace—all and each
Would draw from her alike the approving speech,
Or blush, at least. She thanked men,—good! but thanked
Somehow—I know not how—as if she ranked
My gift of a nine-hundred-years-old name
With anybody’s gift. Who’d stoop to blame
This sort of trifling? Even had you skill
In speech—(which I have not)—to make your will
Quite clear to such an one, and say, “Just this
Or that in you disgusts me; here you miss,
Or there exceed the mark”—and if she let
Herself be lessoned so, nor plainly set
Her wits to yours, forsooth, and made excuse,
—E’en then would be some stooping; and I choose
Never to stoop. Oh sir, she smiled, no doubt,
Whene’er I passed her; but who passed without
Much the same smile? This grew; I gave commands;
Then all smiles stopped together. There she stands
As if alive. Will’t please you rise? We’ll meet
The company below, then. I repeat,
The Count your master’s known munificence
Is ample warrant that no just pretence
Of mine for dowry will be disallowed;
Though his fair daughter’s self, as I avowed
At starting, is my object. Nay, we’ll go
Together down, sir. Notice Neptune, though,
Taming a sea-horse, thought a rarity,
Which Claus of Innsbruck cast in bronze for me!

(Robert Browning, tradução de João Almeida Flor)

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O Amante de Porfíria – Robert Browning

O período romântico inglês é uma coisa cronologicamente complicada. A primeira geração começa com William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge (que juntos publicam as famosas Lyrical Ballads em 1798) e, à parte deles, William Blake. No entanto, os dons de Wordsworth e Coleridge são muito menos longevos do que eles próprios, que nascem em 1770 e 1772, respectivamente, e morrem só em 1850 e 1834. O fracasso de Wordsworth, sobretudo, em manter o seu brilho poético é famoso e comentado, inclusive, por Shelley e Byron, além de Ezra Pound, Harold Bloom e outros críticos. Já a segunda geração dos românticos ingleses é a dos nascidos perto da virada do século XVIII para o XIX. Eles, no entanto, junto de Blake, morrem todos na década de 1820: Keats em 21, Shelley em 22, Byron em 24 e Blake em 27. E isso é algo engraçado: se lembrarmos que Victor Hugo nasce em 1802, Almeida Garrett, em 1799, Gonçalves de Magalhães, em 1811, vemos logo que, enquanto o romantismo ainda estava se desenvolvendo no Brasil e maior parte da Europa – exceto pela Alemanha, cujo romantismo antecede o inglês, e a Suécia, estranhamente, que o acompanha – os grandes poetas do romantismo inglês já haviam fechado o seu círculo. A geração que veio depois ainda escreve sob essa estética romântica, mas já não dá para dizer que é bem a mesma coisa. A Inglaterra, ao contrário do Brasil e da França, não teve nem simbolismo, nem parnasianismo (apesar de identificarmos em Oscar Wilde tendências decadentistas, que de qualquer modo, é levemente distinto do simbolismo de fato) e continua com essa estética até o momento do modernismo – cujas principais figuras são, curiosamente, norte-americanas.

Robert Browning (1812 – 1889) é dessa geração seguinte do romantismo inglês tardio e, juntamente com Lord Alfred Tennyson (1809 – 1892) e Gerard Manley Hopkins  (1844 – 1889), escreveu, possivelmente, o que há de melhor da poesia do período. Toda essa geração (se é que é justo falar de todo esse pessoal nascido em datas diferentes como pertencentes à mesma geração… mas em geral se fala, de qualquer modo) é muito pouco discutida e, em parte, é com razão. Perto do que estava sendo feito no além-mar, por Whitman e Dickinson, ou na França, com todos os simbolistas, a poesia vitoriana (fora essas exceções) parece muito fraca. Eliot comenta sobre como Algernon Swinburne (1837 – 1909), por exemplo, perde feio para “seu mestre” Shelley – e isso apesar de Eliot detestar Shelley -; Pound, em sua fortuna crítica, também faz a sua cota de comentários negativos sobre a geração apesar de, em geral, louvá-los como bons tradutores (e ele mesmo teve de lidar com a influência dela sobre a sua própria poesia. Vide o seu famoso poema “Hugh Selwyn Mauberley”, de 1920); G. K. Chesterton tem um livro inteiro sobre o assunto (The Victorian Age in Literature), onde aponta alguns problemas como a “miopia” dos vitorianos e “o modo como a individualidade romântica se degenerou neles em individualismo”, entre outras questões; George Steiner dedica algumas páginas da introdução de seu Depois de Babel para apontar o que há de errado com um soneto ecfrástico de Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882), e por aí vai. E o modo como os vitorianos reescreveram e censuraram o que havia de mais rebelde nas gerações anteriores para conformá-las às suas próprias noções conservadoras de poesia, moral, religião e ideologia certamente também não ajudou – e, nisso, Swinburne e Matthew Arnold (1822 – 1888) têm lá suas parcelas de culpa.

Mas, dito isso, há ainda assim bons poemas escritos por poetas vitorianos, e alguns deles são os chamados monólogos dramáticos de Browning. Um que eu traduzi recentemente e que compartilho abaixo se chama “Porphyria’s Lover” e é escrito na voz de um homem (que não é o próprio Browning, nem uma forma de eu-lírico dele, mas um personagem de fato) que, tomado de paixão por sua amada Porfíria, após ela confessar seu enorme amor por ele, e desejando tornar imortal esse amor, a estrangula com o próprio cabelo louro. O poema, famoso e muito presente em antologias, data de 1836, mas, dada a temática, essa sondagem da psicologia deturpada do personagem que ele aborda, creio que não seria de todo estranhado por Baudelaire ou Lautreàmont (se é que eles, de fato, não foram leitores de Browning).

Antes de traduzi-lo, eu procurei por traduções já existentes, mas elas são raras, porque, mais ainda do que os românticos em geral, a popularidade dos vitorianos está muito em baixa. Fora a célebre fábula infantil do Flautista de Hamelin, só encontrei referências online a uma tradução, do lusitano João Almeida Flor, intitulada Monólogos Dramáticos. Mas ela é difícil de encontrar e, pior do que isso, muito cara. Por isso peço que perdoem minha omissão aqui da tradução de Almeida Flor.

Os recursos formais do poema são simples de se explicar: versos em tetrâmetros jâmbicos dispostos, visualmente, no que parece ser uma única estrofe, mas que, estruturalmente, se mostra, na verdade, ser uma sucessão de 12 estrofes de 5 versos, com esquema de rimas sempre ABABB. E essas características, inclusive no funcionamento do ritmo (na medida, claro, em que minhas capacidades me permitem) foram o que eu tentei manter em minha tradução.

(Adriano Scandolara)

O Amante de Porfíria

Chegou ligeira a chuva à noite,
         E alçou-se logo o triste vento,
Que os olmos pune em seu açoite
         E vexa o lago com contento:
         Eu escutava em desalento.
Foi quando entrou Porfíria; logo
         Botando fora a chuva e o frio,
Aquece o chalé com o fogo
         Que aviva, ajoelhada e gentil;
         Depois, pondo-se em pé, despiu
As luvas sujas, a sua capa
         E o xale então encharcado;
Do chapéu seu cabelo escapa,
         E enfim sentou-se ao meu lado
         E me chamou. Quando o chamado
Não respondi, meu braço pôs
         Em seu quadril, o ombro nu em pelo,
E a loura coma ela dispôs,
         E ali me pôs, como um apelo,
         E espalhou seu louro cabelo,
Murmurando que me amava —
         Tão fraca, queria somente
Livrar do peito, que lutava,
         Do vão orgulho que se sente,
         E dar-se a mim eternamente.
E às vezes a paixão domina,
         E o festim desta noite bela
Não freia a ideia repentina
         De alguém palente de amor: ela,
         Pois,viera sob vento e procela.
Certo é que em seu olho eu olhava
         Feliz e orgulhoso; pois vi
Que Porfíria me idolatrava:
         Co’o choque, o coração, senti,
         Crescia, e eu me decidi.
Perfeita e pura: no momento,
         Pois, ela era minha, minha,
E o seu cabelo, em meu intento
         Passei em uma áurea linha
         Três vezes por sua gargantinha,
E a estrangulei. Foi indolor;
         Foi indolor, disso estou certo.
Como uma abelha presa em flor,
         Abri os olhos azuis de perto:
         E riram, puros e abertos.
Soltei do pescoço a trança
         E a face outra vez corava,
Rubente ao meu beijo em ânsia:
         Eu a ergui como costumava,
         Só que meu ombro segurava
Sua cabecinha ainda pendente:
         Feliz co’o desejo cumprido,
A fronte rósea e sorridente,
         Que o que desprezava é fugido,
         E eu, seu amor, possuído!
O amor de Porfíria: insciente
         De sua vontade realizada.
E assim sentamos juntos, rente,
         E eis-nos quietos na madrugada,
         E ainda Deus não disse nada!

(tradução de Adriano Scandolara)

        
Porphyria’s Lover

The rain set early in to-night,
         The sullen wind was soon awake,
It tore the elm-tops down for spite,
         And did its worst to vex the lake:
         I listened with heart fit to break.
When glided in Porphyria; straight
         She shut the cold out and the storm,
And kneeled and made the cheerless grate
         Blaze up, and all the cottage warm;
         Which done, she rose, and from her form
Withdrew the dripping cloak and shawl,
         And laid her soiled gloves by, untied
Her hat and let the damp hair fall,
         And, last, she sat down by my side
         And called me. When no voice replied,
She put my arm about her waist,
         And made her smooth white shoulder bare,
And all her yellow hair displaced,
         And, stooping, made my cheek lie there,
         And spread, o’er all, her yellow hair,
Murmuring how she loved me — she
         Too weak, for all her heart’s endeavour,
To set its struggling passion free
         From pride, and vainer ties dissever,
         And give herself to me for ever.
But passion sometimes would prevail,
         Nor could to-night’s gay feast restrain
A sudden thought of one so pale
         For love of her, and all in vain:
         So, she was come through wind and rain.
Be sure I looked up at her eyes
         Happy and proud; at last I knew
Porphyria worshipped me; surprise
         Made my heart swell, and still it grew
         While I debated what to do.
That moment she was mine, mine, fair,
         Perfectly pure and good: I found
A thing to do, and all her hair
         In one long yellow string I wound
         Three times her little throat around,
And strangled her. No pain felt she;
         I am quite sure she felt no pain.
As a shut bud that holds a bee,
         I warily oped her lids: again
         Laughed the blue eyes without a stain.
And I untightened next the tress
         About her neck; her cheek once more
Blushed bright beneath my burning kiss:
         I propped her head up as before,
         Only, this time my shoulder bore
Her head, which droops upon it still:
         The smiling rosy little head,
So glad it has its utmost will,
         That all it scorned at once is fled,
         And I, its love, am gained instead!
Porphyria’s love: she guessed not how
         Her darling one wish would be heard.
And thus we sit together now,
         And all night long we have not stirred,
         And yet God has not said a word!

(Robert Browning)

Padrão