crítica, tradução

Albas, por Matheus Mavericco

Fresco-showing-two-lovers-on-a-bed-attended-by-a-slave-brimus456_productlarge

“Alba” é um gênero da poesia lírica medieval que traz a situação de dois amantes que passaram uma noite danada de boa e que, quando a aurora raia, precisam partir, se separar. Algo aparentemente banal, mas que possui alguns significados dignos de nota.

O negócio é que existe uma sensualidade na alba que não costuma aparecer muito em outros gêneros poéticos. A alba é um coito interrompido. Ou coito continuado. Explico: a aurora raia e os momentos aprazíveis entre os amantes são dissipados. Eles precisam fazer sabe-se lá o quê, cada qual pro seu lado. A questão é que, de todo modo, eles passaram a noite juntos, e isso incute uma carga considerável de sensualidade no poema, fazendo com que o eu lírico, mesmo que reclame da partida ou mesmo que aguarde por outra noite igual aquela, adote pelo menos uma postura um pouco mais alegre e feliz do que sói nos outros gêneros líricos medievais. Daí o que disse de coito interrompido/continuado. Coito hoje em dia é ato sexual; mas nos idos medievais, não custa lembrar, coito era o sofrimento amoroso. Daí uma palavra como “coitado”.

Das outras figurinhas que costumam aparecer nas albas, duas são dignas de nota. Primeiro o gaita, que é o vigia, o sentinela, o guarda que diz pros amantes que a noite acabou, a aurora vem e, bem, eles precisam tomar rumo. É a presença desagradável, em suma. Em segundo, é comum que as albas se relacionem a flores e tragam aves cantando consigo. Embora cantar a passarada tenha sido uma constante na poesia desde sempre, indo do pássaro de Lésbia aos rouxinóis de Milton, Coleridge ou Keats e até o nosso Mário de Andrade empalhador de passarinhos; embora assim tenha sido, poucas épocas literárias souberam dar com tanta mestria a voz e o tom para que a passarada cantasse. Com as albas não é diferente. Os passarinhos cantando ao longo do poema criam uma atmosfera amorosa marcante, como que representando a ideia de que tudo respira amor naquela situação (algo fundamental na sistemática do locus amoenus). Claro que a simples presença dos pássaros cantando já é um prenúncio claro do dia, de modo que esses mesmos pássaros, embora alegres, se imiscuem na mescla perfeita de alegria e de tristeza que a alba retrata. Daí também, eu digo, sua carga poética, meio que paralela à figura do gaita, que, se formos parar pra pensar bem, surge quando tecnicamente não deveria ser mais requisitada: vigias, sentinelas e guardas são pensados para situações noturnas. Surgirem de dia é uma espécie de reviravolta no plano temporal do texto, como que pra mostrar que a partida deve ser feita já.

Existem albas (embora não tantas de modo geral) na poesia occitana, na poesia portuguesa e na poesia alemã. Ela também pode ser chamada de aubade ou, no caso da poesia alemã, de Tagelied. Na poesia occitana temos exemplares de Raimbaut de Vaqueiras, Guiraut de Bornelh, Guiraut Riquer. Esta postagem que vocês leem é tripartida: trago primeiro uma alba anônima datada do século XII, talvez a mais famosa, trago logo abaixo para o leitor a célebre versão que Ezra Pound fez dela e, por fim, uma alba em galego-portuguesa.

Comecemos falando da alba occitana.

Seguindo o comentário de Hugh Kenner no capítulo Motz el Son de seu monumental livo The Pound Era, podemos observar nesta alba uma intrincada cadeia sonora que ultrapassa e muito o esquema rímico externo: veja-se por exemplo como ab sa, na segunda estrofe, ecoa escria do primeiro verso e antecipa dia no final. Esta cadeia sonora possui inclusive uma construção simbólica, qual seja: Kenner nota como a assonância em A ao longo do poema se mescla à assonância em O (esta última também contando, nos versos 4 e 5, de um jogo espelhado entre jos e tro, internamente, e flor e tor externamente) até que, no fim do texto, tenhamos l’alba contraposto a jorn, como que representando o embate entre o dia e a noite. (Num âmbito tradutório isso pode parecer algo difícil pra caramba de transpôr, mas surpreendentemente não achei: palavras como “aurora” e “claro” já possuem O’s e A’s suficientemente intercalados…)

O resto a ser apontado seria a estrutura paralelística em flashes que o poema apresenta. Três tomadas: o casal de rouxinóis, os amantes e o vigia chegando. Os rouxinóis cantam no alto e cantam o dia inteiro, ininterruptamente, algo que aconteceria também com os dois amantes não fosse a presença do vigia. E esse vigia, não custa lembra, escriaEscria é exatamente o mesmo que o rouxinol fazia a seu par. Uma ambiguidade que ajuda a demonstrar a superfície densamente lírica e amorosa da situação… (Isso sim já é difícil pra caramba de transpôr.)

A cadeia sonora que me referi antes, para passarmos da primeira parte da postagem pra segunda, explica as opções tomadas por Pound. E é a ele que mais cedo ou mais tarde, quando falamos de poesia provençal, acabamos chegando.

Pound publicou sua versão para esta alba anônima do século XII na Little Review em maio de 1918. Posteriormente ela seria inclusa numa sequência maior denominada Langue d’oc, com versões para outros autores provençais (Girart Bornello, Guilhem de Peitieu, Cerclamon e Arnaut Daniel). Antes, em The spirit of romance (1910), essa mesma alba havia aparecido numa tradução em prosa. Na ocasião, Pound menciona que as primeiras albas foram escritas em latim e com referências mitológicas no meio do texto. Depois, diz que a alba de sua preferência é a que começa com “En un vergier sotz fueilla d’albespi” (ela também é anônima, mas é do século XIII).

O espectro tradutório de Pound é vasto. A detração simplista ignora isso com uma facilidade estarrecedora… Mas eu me calo, senão fujo pela tangente e vou bater asas em outros campos. Onde quero chegar é: o caso de sua versão para a alba occitana talvez seja uma espécie de meio termo. A divisão estrófica inusual e o uso de uma linguagem prosaica exacerbam algumas características do original, mas isso não quer dizer que sejam mudanças gratuitas ou insossas. Esta versão de Pound nunca chegou a satisfazê-lo, conforme ele diz numa carta para Felix E. Schelling em 1922. Mas ele se mostrou bastante atento para a cadeia sonora do texto, de modo que a maneira como sua versão vai desfiando alguns momentos do original occitano possui correspondência direta na maneira como o próprio original interconecta suas palavras. Kenner nota como, por exemplo, day, no segundo verso, ecoa mate e lateBower com flower e tower, por sua vez, é uma maneira de corresponder à assonância em O que, como vimos, também é presente no texto occitano. E por aí vai.

Além desta alba anônima do século XII e da versão de Pound, eu disse que incluo para vocês uma alba em língua portuguesa. Infelizmente, a única que nos restou. Há quem diga que, devido ao fato dela não apresentar os penduricalhos típicos da alba (marcadamente o gaita), ela não seria 100% alba. Enfim. Ela é de autoria de Nuno Fernandes Torneol, um trovador do século XIII. Nós sabemos praticamente nada de sua vida, mas isso não quer dizer que ele seja um total desconhecido nosso. A primeira estrofe de sua cantiga “Pois nací nunca vi Amor” foi musicada pela banda Legião Urbana em Love Song. A alba Leda m’and’eu requer de nossa parte um tipo de sensibilidade meio que distinta do que aplicaríamos ao caso da alba anônima do século XII. Enquanto nesta a concisão é acima de tudo admirável, a par de sua estrutura fônica e do paralelismo direto e conciso que ela apresenta, no caso da alba de Torneol temos algo realmente mais dilatado, mas que nem por isso perde em musicalidade e pungência. É muito difícil analisar um texto que na verdade era letra de música, de modo que o que poderíamos pensar como sendo repetições talvez inúteis, possuem uma função, presumimos, importante na estrutura musicada do texto.

Tem uns versos aí desse poema que são de uma musicalidade espetacular. Por exemplo “toda-las aves do mundo d’amor dízian”. A rapidez que o poeta dá ao verso, vista facilmente no turbo que ele dá ao passar de dois dátilos para três iambos, ainda hoje em dia é um efeito que poucos teriam a felicidade de alcançar. A paranomásia entre Levad’ e Leda é igualmente digna de nota, comprimindo nesta mera justaposição o cerne da alba: a alegria e a despedida. Toribio Fuente Cornejo, numa leitura acurada do poema, nos remete também ao simbolismo duplo que as estações do ano representam no poema, ou seja, enquanto a primeira parte (duas primeiras estrofes) remete a um clima invernal, a segunda parte (estrofes três e quatro) traz um clima primaveral e a terceira parte (estrofes restantes) um clima certo modo outonal. Certo modo outonal pois há no poema uma destruição do locus amoenus, essa instância que durante muito tempo se demonstrou essencial, como nos lembra E. R. Curtius, para a construção de um ambiente lírico. Sua destruição, a destruição reiterada desse locus amoenus representaria um conturbamento interior profundo, ou, ainda mais precisamente, seguindo a leitura de Toribio, a destruição dos elementos carregados de simbologia erótica e, por conseguinte, a interrupção/prolongamento violento do coito.

As albas calaram fundo na sensibilidade lírica ocidental. Como nos lembra Segismundo Spina, depois das cruzadas contra os albigenses (1209), a alba adquiriu significados religiosos, onde a noite se associava ao pecado e o raiar do dia à pureza do coração. Esta vertente se desenvolveria e desembocaria, por exemplo, na noche escura de San Juan de la Cruz. Não chego a dizer, em relação ao vezo original das albas, que ele chegou a um patamar de dominância. Calar fundo eu realmente acho que calou. Mas dominância… Nah. A situação do amor como algo impàssipossível se enraizou e se enraíza forte demais na poesia amorosa, de modo que um gênero como a alba, que pressupõe uma carnalização prévia, não grassou tanto. As pessoas fruem apenas aquela poesia amorosa que pressupõe uma distância, no geral angustiante (catártica, eu diria), para com o objeto amado. A aproximação erótica é recalcada violentamente. Mas apesar disso, calar fundo, calou: veja: nós podemos encontrar a alba por exemplo na cena do balcão de Romeu e Julieta ou então num poema como The Sunne Rising de John Donne. Se aceitarmos a relativização da aurora e pensarmos o legado da alba como sendo apenas o de uma ocasião de prazer que teve de ser interrompida, então creio que o caso moderno de Konstantinos Kaváfis possa dar excelentes ensejos, por exemplo o de quando ele nos conta de dois amantes que tiveram de sair meio que às pressas de seu quarto, no final de tarde, enquanto o sol dourava só até metade da cama. Em solo satírico e amargo nós podemos nos lembrar de Aubade de Philip Larkin (o leitor pode encontrar uma ótima tradução de Alipio Correia Neto aqui). Já em solo nacional, para não me estender muito nos apontamentos, o Poema só para Jaime Ovalle de Manuel Bandeira guarda lembranças da alba, embora seja um poema para solteiros, e, mais recentemente, a sequência Cigarros na Cama, de Ricardo Domeneck, também entra em contato com a tradição.

Além de minhas traduções para a alba occitana e da versão de Pound, incluo, para o texto occitano, a tradução de Nelson Ascher, inclusa no livro Poesia Alheia, editora Imago, 1998, p. 71, e, para a versão de Pound, a tradução de Mário Faustino, inclusa no livro Poesia, editora Hucitec e UNB, 1983, p. 102 (a célebre força-tarefa Faustino-Siamesmos-Pignatari-Grünewald), e a de Rodrigo Garcia Lopes para a Zúnai (aqui).

Matheus Mavericco

§

ALBA
Anônimo, século XII.

trad. Matheus “Mavericco”.

Se ao par o rouxinol pia
Passa noite e passa dia,
Passeio com meu amor
……Flor a flor
Até gritar o vigia:
“Parou! Pois logo, eu reparo,
Raia a aurora e o dia claro.”

*

trad. Nelson Ascher.

Quando o rouxinol
canta ao par, do pôr
ao nascer do sol,
entre flor e flor
beijo o meu amor

até que o vigia
brade torre afora:
“Amantes, é dia;
acordem, que a aurora
manda a noite embora!”

*

Quan lo rosinhols escria
ab sa part la nueg e.l dia,
yeu suy ab ma bell’amia
……jos la flor,
tro la gaita de la tor
escria: “Drutz, al levar!
Qu’ieu vey l’alba e.l jorn clar”.

§

ALBA.
Ezra Pound.

trad. Matheus “Mavericco”.

Enquanto canta o rouxinol
A seu par, tanto à noite e ao sol,
Meu amor e eu, a gente se ama
Na rama,
Na grama,
‘Té que o guarda da torre exclama:
……“Ora
……Pois!
…………De pé, os dois!
…………A branca aurora
………………Pôs
…………O escuro para
………………Fora!”

*

trad. Mário Faustino.

Enquanto o rouxinol à sua amante
Gorjeia a noite inteira e o dia entrante
Com meu amor observo arfante
Cada flor,
Cada odor,
Até que o vigilante lá da torre
Grite:
……“Levanta patife, sus!
…………Vê, já reluz
………………A luz
………………Depressa, corre,
………………Que a noite morre…”

*

trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Quando o rouxinol pra sua amada
Canta o dia todo e a madrugada
Com minha amiga deito de mãos dadas
Sob folhas,
Sobre flores,
Até que lá da torre o sentinela
Berra:
……“De pé, malandro, Vai!
……Que eu vejo a jovem
…………Luz
…………E a manhã já
………………Vem”

*

ALBA.

When the nightingale to his mate
Sings day long and night late
My love and I keep state
In bower,
In flower,
Till the watchman on the tower
Cry:
……“Up! Thou rascal, Rise,
……I see the white
…………Light
…………And the night
………………Flies”

§

Nuno Fernandes Torneol.

Levad’, amigo, que dormides as manhanas frías;
toda-las aves do mundo d’amor dizían.
……Leda m’and’eu.

Levad’, amigo, que dormide-las frías manhanas;
toda-las aves do mundo d’amor cantavan.
……Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor dizían;
do meu amor e do voss’en ment’havían.
……Leda m’and’eu.

Toda-las aves do mundo d’amor cantavan;
do meu amor e do voss’i enmentavan.
……Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’en ment’havían;
vós lhi tolhestes os ramos en que siían.
……Leda m’and’eu.

Do meu amor e do voss’i enmentavan;
vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan.
……Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que siían
e lhis secastes as fontes en que bevían.
……Leda m’and’eu.

Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan
e lhis secastes as fontes u se banhavan.
……Leda m’and’eu.

Anúncios
Padrão
poesia

4 experiências extraordinárias de rodrigo garcia lopes

rodrigo garcia lopes 2

rodrigo garcia lopes (londrina, 1965) é poeta, compositor, jornalista & tradutor, que já postamos aqui. em sua obra, constam os livros de poemas, solarium, visibilia, polivox, nômada estúdio realidade; lançou no ano passado um romance policial, o trovador. é autor de dois CD’s (polivox & canções do estúdio realidade) & de uma antologia de entrevistas com diversos poetas (vozes e visões). publicou traduções do seafarer anônimo, de whitman, rimbaud, laura riding & outros. coedita, desde 2002, a revista coyote, que, a meu ver, é sem dúvida uma das mais importantes do país. seu site é http://www.rgarcialopes.wix.com/site.

no finzinho do ano passado saiu seu sexto livro de poemas, experiências extraordinárias, editora kan. seguem abaixo quatro poemas.

guilherme gontijo flores

g1_rodrigo_capa_1

* * *

Second life

Na foto os olhos jovens, a praia, a mente fresca:
o tempo inteiro numa tela.
Grandes expectativas.
Agora a voz mais muda, a cicatriz:
isto o jogo não capta. Instantes são falsas iscas
que nos iluminam quando mudam
de lugar, um céu se desdobrando,
origami branco e blue, uma toalha.
A velha fúria dos instantes em uma
pilha de nuvens-pratos no horizonte.
Os discos voadores deixaram
esta música desconhecida, desde ontem.
Em vez de ontem, um totem de eterno quando.
Cubos, pirâmides, esferas. No céu.
A areia neste antigo caderno.
Tanto se viveu, tanta coisa percebida:
no meio do caminho
até parece uma segunda vida.
Ilhas, residentes e avatares
mirando o mar como se meditassem.
As ondas paralelas dão a você as boas-vindas.
Não é humana, como a voragem.
Não é humana, por mais que elas contem
histórias de mimetismos, istmos, mistérios
e no fim se dissolvam superlentas: isso são espumas.
As dunas bizantinas, a névoa sutil lambendo a costa
e o mar atemporal sob um aguaceiro
desafiam a foto daquele instante, tirada neste mesmo lugar, na mesma duna.
Aquela é e não é: você.
Esta é a “vida real”.
“Estamos em assembleia permanente.”
Não se vê duas vezes a mesma paisagem.
Não se entra duas vezes na mesma mente.
Nossas horas acabaram, o aroma salino e forte penetra as narinas.

§

minha mulher
molha as mãos na bacia
lua de verão

§

Trilha Sonora

A cada palma de espaço
a alma ganha amplidão
E como num lento passo
aparente rumo ao nada
Apanha no ar uma canção
na música das palavras
Em cada naco de nuvem,
cada ritmo de frase ou rio,
Pausa, mistério, passagem,
toada, à toa, estrondo de onda,
Em cada grilo, grito de pássaro,
a paisagem se faz som.

§

Outro Outono

Uma nuvem fina fia o horizonte,
paira no rosa de seus últimos
instantes, praia de pensamento.

A fragata flutua no crepúsculo
sem motivo, sem canto nem sentido.
Afirma apenas: seguimos vivos.

As ilhas também não nos perguntam
nada. Nem nos acusam. O vento sul
há três dias está se consumindo, sendo
Só o que é, e não o que será.

Incline a cabeça em direção ao céu.
Confira este espaço, a nuvem fina
que já se foi, e a ideia da noite
ganhando volume e expectativa.

Padrão
crítica, poesia, tradução

“To his coy mistress”, de Andrew Marvell (pt. 2), por Matheus Mavericco

NPG D29829; Andrew Marvell after Unknown artist

Andrew Marvell já foi apresentado pelos colegas do escamandro (clique aqui). Essa postagem é mais ou menos uma parte dois, com uma tradução minha e outras que consegui pescar internet afora.

Pois note como o poema de Marvell é estranho. Não, é sério. Ele é comumente posto dentro da caixa de acrílico do carpe diem, e claro que não está errado. Dividido em três partes, se quiséssemos incorrer na heresia da paráfrase seria o caso de dizermos que o eu lírico pede pra amada parar com esse recato bobo e, vocês sabem. Um dia eles vão bater as botas e aí, se ela quiser, não vai ter mais como. Então é melhor se apressarem, pois o tempo tá aí e pá.

O grosso é esse. Mas notem a inventividade das metáforas de Marvell. T. S. Eliot dizia, sobre os metafísicos, pensando em especial em Marvell, que existe nesse pessoal uma diferença muito pequena entre imaginação e luxúria. Em tempos barrocos, desabridos, o homem começando a entender o que era ter a Máquina do Mundo de repente arreganhada (você consegue imaginar como é ter descoberto literalmente um novo mundo?), o homem frente ao Infinito da revolução copernicana ― que reduziu a importância da Terra e da humanidade ―, o Absolutismo começando a ruir ― a Inglaterra vivia na época sua primeira Guerra Civil, e Marvell foi um poeta atento a tais acontecimentos, tanto que sua ode a Oliver Cromwell é considerada um dos poemas políticos mais perfeitos de todos os tempos ―, tudo isso era mais do que o bastante pra propelir os poetas minimamente interessados e descontentes a buscarem novas formas de expressão.

Digamos que isso explica o porquê da alcunha de “poetas metafísicos” aos poetas barrocos ingleses ser tão atacada, ainda mais considerando que se costuma pensar, a partir do termo “metafísico”, numa poesia distante de contingências corpóreas, físicas, sociais etc. José Lino Grünewald, num texto para o Correio da Manhã de 19/11/67, nota como, por exemplo, os metafísicos compunham metáforas que além de serem concisas (Augusto de Campos, aliás, faz um paralelo entre os metafísicos e João Cabral), valiam-se de instrumentos compositivos das mais diversas áreas: no caso de Marvell seriam termos que vão da religiosidade ao exotismo do lado indígena do Ganges e ao impacto do casalzinho de abutres, ou então um termo como “amor vegetal”. Marvell possui outros poemas que abordam a relação entre ser humano e natureza, destacando a perturbação que o fator antropológico causa no meio-ambiente. No poema The Mower against Gardens, por exemplo, abre dizendo: “Luxurious man, to bring his vice in use, / Did after him the world seduce, / And from the fields the flowers and plants allure, / Where nature was most plain and pure.” (“Homem luxurioso, por própria impureza, / Eis que seduz a natureza / E as flores e os cultivos fascina, / De graça até então genuína.”, trad. minha.)

Mas calma aí que existe mais. Disse pra vocês que Marvell vai argumentando e tentando convencer a amada a, digamos assim, liberar o anel. Mas notem que, nos versos 27 e 28, ele escarnece de forma meio brutal o recato da amada, dizendo que, se ela possui tanto zelo por essa virgindade, é bom que se lembre que, depois de morta, os vermes vão corroer isso daí. Na primeira estrofe ele já ridicularizara esse recato da amada dizendo que seriam precisos trinta mil anos pra louvar o corpo inteiro. Ou seja: é um poema que vai de um extremo a outro com uma potência muito grande. O terror de quando ele abre a segunda parte do poema falando da carruagem alada do Tempo em suas costas, por exemplo, foi aproveitado por Eliot na terceira parte de The Waste Land. Mas pule pro final da estrofe e observe o sarcasmo do final, em especial esse “I think”. Ora: é claro que dentro de uma sepultura ninguém se abraça. Ele está tirando sarro da cara da amada.

Num poema como The Definition of Love, o gosto pelos movimentos de transição, que George L. Craik em 1844 já apontava como admiráveis na poesia de Marvell, é revelador. Logo na primeira estrofe diz que seu amor nasceu do Desespero sobre a Impossibilidade, e, na penúltima, diz que ele e sua amada são como retas que, embora infinitas, jamais se encontrarão. Só que ele transcende o gosto de contrários antitéticos que o petrarquismo apontava ― em língua inglesa muito bem visto pelas falas de Romeu antes de conhecer Julieta na peça de Shakespeare. É como se operasse uma espécie de união de contrários, algo que Donne fez com uma radicalidade ainda maior ao tornar a carnalidade de sua poesia indissociável da sacralidade e vice-e-versa.

Enxergando assim, me parece que muito do que o To his Coy Mistress tem a oferecer se elucida, permitindo entender como ele consegue alimentar a si próprio, meio que retroativamente, de negativas que vão conduzindo a uma retórica de exageros e, o que me parece ainda mais interessante, no fato de que todo o poema caminha num solo hipotético ― e ainda assim consegue toda essa concretude esplêndida, certamente advinda eu não digo nem tanto das referências propriamente carnais, mas sim daquele movimento pendular nervoso que me referi antes, visto, pra citarmos um exemplo, no contraponto da amada achando rubis no lado indígena do Ganges ― ou seja, uma imagem claramente exótica ― enquanto o amado chora suas pitangas lá pro Humber ― isto é, um rio indiano contraposto a um estuário inglês ― e mais ― pois logo após essa metáfora, num liame tênue, Marvell nos levando ao exagero de dizer que jurará seu amor décadas antes do Dilúvio e, logo após, dizendo que, caso a amada queira, ela pode negar o amor até a conversão dos judeus, também conhecido como Juízo Final. Daí a dizer que seu amor vegetal cresce mais vasto que os Impérios é uma coisa esperada, pois o poema faz saltos que abarcam totalidades inteiras.

Quem quiser uma boa pedida acerca do poema de Marvell, recomendo A Handbook of Critical Approaches to Literature, de Wilfred L. Guerin, Earle Labor, Lee Morgan, Jeanne C. Reesman e John R. Willingham. Você pode pensar por quê o indico, se ele não parece ter nada haver com poesia barroca inglesa, e tudo bem, eu explico: é que, pra ilustrar as várias formas de abordagem crítica, os autores pegam o poema de Marvell como exemplo (na verdade eles pegam mais cinco outras obras), de maneira que você tem, aí, um não-sei-quantos-em-um. Por exemplo, exemplificando abordagens histórico-biográficas, os autores observam que a imagem do Tempo como voraz remete a Cronos devorando Zeus e seus filhos, e que a imagem do último dístico do poema, esse lance aí de parar o sol, pode ser posta ao lado do episódio em que Zeus ordena que o sol demore um pouco mais pra que ele estenda sua noite de amor com Alcmena ou ao lado do episódio bíblico em que o sol também demora um pouco mais pra que a batalha contra os amoritas seja vencida ― ou seja, tanto em um caso quanto em outro temos a intervenção divina que maneja o tempo a seu bel prazer, coisa inexistente no poema de Marvell pois, afinal, estamos falando de seres mortais.

Acerca das traduções compiladas, não creio que exista muito o que comentar. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos, indo da manutenção do verso octossilábico, por Alípio Correia Neto, à tradução de Nelson Ascher que, segundo ele mesmo conta, necessitou por parte do tradutor uma dedicação grandemente exaustiva. De minha parte, digo que traduzi por traduzir, sem estalo de lâmpada ou coisa do tipo. Pois veja que, quando você tem diante de si um poema que já foi muito traduzido, uma das estratégias mais saudáveis pra que se crie uma outra tradução é ou nutrindo uma insatisfação, um ainda-não-tem-o-que-eu-quero ― coisa que, pra falar a verdade, não aconteceu comigo, pois acho que o que tem tá bom ― ou oferecendo um projeto alternativo ― o que mais uma vez eu não vi como necessário, ainda mais depois da tacada do colega Scandolara de traduzir 10+6. Espero, contudo, que minha tradução pelo menos honre seu espaço e não fique, sei lá, tão ridícula perto das outras.

Matheus Mavericco

§§§

PARA SUA DAMA RECATADA.
trad. Matheus “Mavericco”.

Houvesse tempo e espaço e então de fato
Não seria um delito este recato.
Sentados, nós iríamos pensar
Em só pensar no outro, e assim passar.
Você, do lado indígena do Ganges,
Achando rubis, e eu, pois me confrange
A dor, junto ao Humber. Décadas antes
Do Dilúvio eu te juro amor, e, instantes
Depois, se quiser, negue os votos meus
Até que se convertam os judeus.
Meu amor vegetal cresce mais vasto,
Embora mais lento, que impérios; gasto
Séculos em louvor de tua face
E mais dois longos séculos em face
De teus seios e trinta mil se quero
O corpo inteiro. Uma era de esmero
Pra cada parte, até que a derradeira
Sirva pra revelar tua alma inteira.
Pois você, ó Senhora, é digna disto ―
E eu não sei amar por menos que isto.

Contudo, escuto sempre atrás de mim
O Tempo alado a toda pressa: e, assim,
Nós só podemos ver, mais adiante,
A vastidão deserta do incessante
E a graça que você tem hoje, extinta.
No teu fosso marmóreo é indistinta
Minha canção que ecoa; o verme tenta
Romper teu corpo virgem e fragmenta
Em pó a tua honra imensa, enquanto
Meu ardor queima em cinzas. Se o recanto
Da sepultura é íntimo, então, acho,
Ninguém lá deve dar algum abraço.

Mas agora, o vigor juvenil posto
Tal como o orvalho fresco no teu rosto,
Tua alma desejosa de que sue
Em cada poro o fogo que a imiscui,
Devoremos nós dois juntos, e agora,
Como um casal de abutres que se adora,
O tempo antes que o tempo venha a ser
O nosso algoz, voraz o seu poder.
Enovelemos rapidez e força
Num globo, para que depois se torça
E abata o nosso anseio em árdua lida
Diante dos portões de aço da vida:
Assim, se o sol não puder ser parado,
Ele será ao menos apressado.

§

À SUA AMIGA ESQUIVA.
trad. Nelson Ascher.

Sobrassem mundo e tempo, não seria
tanta esquivez, senhora, uma heresia.
Sentar-nos-íamos pensando, a cada
longo dia de amor, uma jornada.
Enquanto junto ao Ganges encontrasses
rubis, eu molharia minhas faces
chorando ao Humber. Fosse minha parte
dez anos antes do Dilúvio amar-te,
seria a tua opor desinteresse
até que o povo hebreu se convertesse.
Meu amor vegetal, mais devagar
que impérios, cresceria sem parar.
Dedicaria cem anos, perante
teus olhos, a louvar o teu semblante;
A te adorar os seios, pelo menos
O dobro; ao resto, mais trinta milênios;
E, a tudo em ti, mil eras, de maneira
A abrir teu coração na derradeira.
Porque, senhora, vales tal quantia
E, para amar-te, eu não regatearia.

Mas ouço atrás de mim, correndo insanos
num carro alado, os dias, meses, anos.
E, frente a nós, se estende sem mais nada
A vasta eternidade desolada.
Tua beleza há de perder-se ao léu;
tampouco, em teu marmóreo mausoléu,
hão de ecoar meus versos quando, inerme,
entregues o hímen obstinado ao verme,
que em pó transformará tua honra vã
E em cinzas todo o ardor do meu afã.
O túmulo é discreto e acolhedor
mas lá ninguém que eu saiba faz amor.

Agora, então, que em tua pele pousa,
feito orvalho na folha, a cor viçosa,
E em cada poro de tua alma aflora
um fogo urgente ― amemos sem demora:
mais vale devorarmos, com o brio
das aves de rapina em pleno cio,
O tempo de uma vez do que, em poder
das lentas presas dele, enlanguescer.
Unindo numa esfera dois extremos
― nossa ternura e força ― arrebatemos
prazeres com porfia desabrida
através dos portões férreos da vida.
Não há como parar o sol, mas nós
podemos ― sim ― torná-lo mais veloz.

§

PARA SUA AMADA ESQUIVA.
trad. Alípio Correia Neto. 

Com um mundo nosso, dama, e vez,
Não fora um crime tua esquivez.
Íamos sentar, pra ver qual via
Trilhar, e amar por longo dia.
Acharias, com o Ganges aos pés,
Rubis; eu, o pranto, ante as marés
Do Humber. Te daria dez anos
De amor antediluvianos!
Dirias não, por caprichos teus,
Até à conversão dos judeus;
Meu amor vegetal, mais lento
Que impérios, vasto em crescimento,
Um século pra louvações
Aos olhos, pra admirar feições,
Teria; o dobro pra adorar-te
Os seios; trinta mil às mais partes;
A cada qual, uma era, e então
Uma última, a teu coração.
Pois, dama, vales os meus reinos;
E eu não iria te amar por menos.

Mas ouço, sempre, atrás de nós,
O Carro do Tempo, veloz,
E adiante jazem vastos ermos
Da eternidade. Não havemos
De achar tua beleza afora.
Nem, na tua cripta marmórea,
Soará meu canto. E um verme há de
Testar-te a longa virgindade,
Mudando em pó tua honra altiva
E em cinzas a minha lascívia.
A cova é bom e íntimo espaço,
Mas não, penso eu, para um abraço.

Enquanto há em ti cor juvenil
Na tez, como na flor, rocio,
E a alma que anseia deita fora um
Fogo urgente em cada poro,
Vamos folgar, e semelhantes
A amáveis aves rapinantes,
Tragar o nosso tempo, isentos
De enlanguescer num bico lento,
Então enrolar nosso desvelo
E forças em um só novelo,
Rasgar prazeres na investida
Contra os portões férreos da vida.
Assim, sem termos o que impeça
O sol, o instamos a ir depressa.

§

PARA SUA TÍMIDA SENHORA.
trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,
Senhora, essa tua timidez não seria crime.
Sentados, pensaríamos no modo melhor
De gozar nosso longo dia de amor.
Tu pelas margens do Ganges
Acharia rubis, eu, no estuário langue
Do Humber, reclamaria de tudo.
Te amaria dez anos antes do Dilúvio,
E tu, se quisesses, recusarias meu eu
Até a conversão dos Judeus.
Meu amor vegetal iria assim crescendo
Mais vasto que impérios, e mais lento;
Cem anos gastos para elogiar
Teus olhos, e tua testa contemplar;
Duzentos para adorar cada seio,
Mas trinta mil para seu recheio;
Uma era ao menos para cada seção,
E a última exibiria enfim seu coração.
Senhora, bem mereces tal status.
Recusaria te amar por mais barato.

Mas ouço às nossas costas de repente
O carro alado do tempo, rente;
E além de nós ardem na tarde
Desertos de vasta eternidade.
Tua beleza, hoje, amanhã não será,
Nem na lápide marmórea há de soar
O eco dessa canção; só vermes sem piedade
A devorar tão protegida virgindade,
E tua honra antiquada virando pó,
E cinzas todo meu desejo, a sós:
A cova é discreta e confortável alcova,
Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs
Pousa em tua pele como rocio da manhã,
E enquanto tua alma transpire de desejo
E em seus poros fogos sutis revejo,
Vamos nos acabar enquanto é de matina,
E já, como amorosas aves de rapina,
De uma vez devorar o nosso tempo
Em vez de enlanguescer em seu relento.
Enrolemos nossa força, sem espera,
Nossa ternura toda numa só esfera,
E rasguemos prazeres com luta ríspida,
Ao passar pelos portões de ferro da vida;
Pois, se não podemos o sol deter
Podemos ao menos fazê-lo correr.

§

À SUA TÍMIDA AMANTE.
trad. Renato Suttana. 

Houvesse, dama, tempo e mundo à farta,
E tal reserva não seria crime.
Sentados, a escolher nosso caminho,
Do amor o longo dia passaríamos.
Buscarias rubis junto das margens
Do indiano Ganges: e eu entoaria
Junto às ondas do Humber que te amara
Por mais dez anos, até a inundação.
Eis que o recusarias, caprichosa,
Do judeu a esperar a conversão.
Meu amor, como planta, medraria
Mais vasto que os impérios e mais lento:
E cem anos passara eu a louvar
Os teus olhos, mirando a tua fronte,
E a adorar cada seio mais duzentos,
Mais trinta mil para o restante – uma era
Enfim inteira para cada parte:
E o coração revelarias na última.
Pois que és digna, senhora, de tal corte –
E a menor preço eu não quisera amar.

Mas ouço às minhas costas, sempre, a alada
Carruagem do tempo se apressando;
E à minha frente em tudo vejo abrir-se
Só desertos de vasta eternidade.
Tua graça não mais existirá,
Nem meu canto soará sob a marmórea
Abóbada; só os vermes provarão
Essa há tanto guardada virgindade:
E a tua inútil honra será pó,
E todo o meu desejo apenas cinza:
Que a sepultura é cômodo e privado
Lugar, mas às carícias – creio – impróprio.

Por isso, enquanto a cor da juventude
Como o orvalho da aurora em tua pele
Repousa e cada poro da anelante
Alma um fogo incessante ainda transpira:
Vamos gozar, enquanto nos é dado,
E devorar como aves de rapina
De uma só vez nosso tempo, sem sermos
Em suas lentas garras abatidos.
Rolemos nossa força e toda a nossa
Doçura para dentro de um só globo –
E o gozo em luta rude laceremos
Contra os portões de ferro da existência:
Pois, se este sol não podemos parar,
Que o façamos então acelerar.

§

TO HIS COY MISTRESS.

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(apresentação, organização e tradução de Matheus Mavericco)

Padrão
poesia, tradução

As “pensagens” de Laura Riding (1901 – 1991)

laura-ridingLaura Riding é uma dessas figuras polêmicas, porém subestimadas, do modernismo norte-americano. Nascida Laura Reichental, em 1901, numa família de judeus austríacos do Brooklyn, seus primeiros poemas começam a circular em revistas literárias na década de 20, assinados com o nome Laura Riding Gottschalk (“Gottschalk” sendo o sobrenome do marido à época, Loius Gottschalk; o “Riding” foi inteiramente criação dela). A partir de 1924, ela começa a publicar pela The Fugitive, uma das revistas mais importantes da época, e a conhecer outros grandes nomes das letras norte-americanas, como Hart Crane (com quem desenvolve uma forte relação de amizade), e. e. cummings, Malcolm Cowley e Edmund Wilson.

Seu casamento, porém, termina em divórcio, e em 1925 ela parte para a Europa para morar com o poeta, estudioso, tradutor e romancista Robert Graves (e sua esposa e filhos, diga-se de passagem), uma parceria emocional e intelectual que duraria 14 anos e que renderia frutos proveitosíssimos como o ensaio A survey of Modernist poetry (1927), que viria a influenciar o movimento conhecido como Nova Crítica. É em Londres que Laura assume oficialmente (no papel e tudo) o nome de Laura Riding, conhece mais alguns grandes nomes da poesia de língua inglesa (desta vez do além-mar: Eliot, Stein, Yeats, Pound…) e publica seu primeiro livro de poemas The close chaplet (1926), bem como alguns livros de ensaios – não necessariamente literários, como o Anarchism is not enough (1928). Junto com Graves, funda uma editora própria, a Seizin Press, para publicar os seus livros (e mais alguns de outros autores, como a G. Stein) e vai pouco a pouco se impondo na cena londrina hostil (e antissemita, para completar) do entreguerras.

Em 1929, porém, a vida à três tem um fim quando, após uma discussão, Riding e Graves (nessa ordem) tentam suicídio pulando do quarto e terceiro andar do prédio, respectivamente. Os dois sobrevivem, mas o acontecimento repercute em Londres, e Graves se divorcia da esposa, Nancy, para se mudar, junto com Laura, para a ilha de Majorca na Espanha, onde retomam o trabalho com a editora, publicando periódicos como o Epilogue. A Guerra Civil espanhola estoura, porém, em 1936, o que os obriga a retornar a Londres, onde Riding publica sua principal obra poética Collected poems (1938), com os 181 poemas de seus 9 livros anteriores, publicados entre 26 e 38 (os poemas anteriores a 26, publicados em periódicos, porém, não entram nesse volume). No entanto, mal imaginava Laura que ainda outra guerra estava prestes a irromper perto dela outra vez (e, lembremos, ela era judia), e por isso foi muito conveniente que em 1939 ela tivesse recebido o convite de um amigo dos EUA para retornar ao seu país natal. O casal parte, mas Laura rompe com Graves para se casar com o poeta amador Schyuler Jackson, e Graves retorna à Europa logo na sequência.

Como o fez também Paul Auster, famosamente (talvez, não por acaso, ele também um admirador da poesia de Riding), com a publicação de seus Collected poems, Laura renuncia à poesia e à vida pública. Agora Laura Jackson (ela, ao que parece, abandona o sobrenome “Riding”), ela passa a se dedicar, com o novo marido, a cuidar de um negócio de frutas cítricas e a escrever uma forma de dicionário (publicado postumamente, em 1997). É apenas em 1962 que ela retorna à cena literária, agora como prosadora, autora de livros como o meditativo The Telling (1972), dedicado ao marido, que morre em 1968. A partir de 1970, seus livros, sem reedição havia décadas, finalmente voltam a entrar em circulação. Laura morre em setembro de 1991, mesmo ano em que ganha o prêmio Bollingen de poesia. Por fim, em 1992, é lançada postumamente a coletânea First awakenings: the early poems of Laura Riding, reunindo os poemas escritos no período anterior à publicação de seu primeiro livro. Tem entre os seus admiradores nomes como Auden, Yeats, Williams, Pierre Jorris, Auster, Jerome Rothenberg, Pierre Jorris, Sylvia Plath, Charles Bernstein e John Ashbery.

MindscapesEm português, temos um volume traduzido pelo poeta, músico e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, intitulado Mindscapes, publicado pela Iluminuras, que reúne 43 poemas da autora de diversos momentos de sua trajetória, do começo ao fim. Uma “mindscape”, um jogo de palavras com o termo “landscape” (paisagem), poderia ser traduzida como uma “paisagem mental”, ou pensagem, como põe Garcia Lopes na introdução do livro (uma belíssima introdução, aliás), e é um conceito importante para começar a abordar a poesia de Riding. O que os versos dela fazem, na maioria das vezes, não é tanto trabalhar com descrições de um referencial externo, mas com os movimentos da própria mente e da própria linguagem: “mapas de uma linguagem desperta, espaços verbais onde a linguagem e o pensamento desejam-se um”, comenta Garcia Lopes, recusando-se a “ser meras descrições de um mundo externo. Ou mesmo um cacho de imagens ou ‘objetos correlativos’ que conduzem a uma epifania. Elas buscam, ao contrário, um radical estranhamento, um questionamento do visível”. E isso tem consequências técnicas muito interessantes, na medida em que o trabalho com a metáfora feito por Riding envolve “submetê-la a um teste no decorrer no poema para assim mostrar a fisicalidade da mente em ação”.

Ao que me parece, curiosamente, essa descrição de sua poética é muito semelhante à que a crítica Megan O’Rourke faz em um comentário sobre a poesia de John Ashbery publicado na revista Slate, que ela vê como uma poesia difícil de se falar a respeito, porque o assunto dessa poética é a própria “consciência estética”, a “experiência da experiência”, também sem uma referência externa propriamente. Ashbery, não por acaso, foi um dos principais poetas influenciados por Riding (apesar de que ele, como nos aponta O’Rourke, parece-nos ter mais resquícios de anseios românticos do que Riding, mais radicalmente pós-romântica). Em português, apesar de que eu não arriscaria falar em influências, poderíamos talvez pensar numa relação entre a sua obra e a de Júlio Castañon Guimarães, no que se refere a esse metapensamento e a reflexão sobre a percepção.

Compartilho com vocês cinco poemas, então, do Mindscapes, como um aperitivo do restante do livro. Eu gostaria de uma hora, quando me sobrar tempo, também poder pegar alguns poemas da autora para traduzir pessoalmente. Tem um volume, disponível na Amazon, que me parece interessante e com um preço acessível, intitulado The Poems of Laura Riding: A Newly Revised Edition of the 1938/1980 Collection, que há de me servir de referência. É uma prepotência da minha parte, em alguma medida, já que, como Garcia Lopes comenta na introdução, foram oito anos de contato com a poesia de Riding até ele se sentir seguro das suas traduções (mas, de qualquer modo, acredito, todo ato de tradução de poesia é  um ato de hybris).

Adriano Scandolara

           

ENCARNAÇÕES

Não renegue,
Não renegue, coisa vinda de coisa,
Não renegue nessa vaidade nova
O velho pó original.

De que cova, de que passado de carne e osso
Sonhando, sonhando jazo
Debaixo da maldição auspiciosa,
Enfeitiçada, viva, esquecendo minha matéria-prima…
A morte não me permite um instante para lembrar

Temendo que, tal pedra de estátua transmutada demais,
Grão por grão eu recorde o pó original
E, olhando para baixo num degrau da memória, repita:
Eu nunca fui isso.

           

INCARNATIONS

Do not deny,
Do not deny, thing out of thing,
Do not deny in the new vanity
The old, original dust.

From what grave, what past of flesh and bone
Dreaming, dreaming I lie
Under the fortunate curse,
Bewitched, alive, forgetting the first stuff…
Death does not give a moment to remember in

Lest, like a statue’s too transmuted stone
I grain by grain recall the original dust
And, looking down a stair of memory, keep saying:
This was never I.

           

O MAPA DOS LUGARES

O mapa dos lugares passa.
A realidade do papel se rasga.
Onde terra e água estão,
Estão apenas onde já estavam
Quando palavras se liam aqui e aqui
Antes de navios acontecerem ali.

Agora de pé sobre nomes nus,
Sem geografias na mão,
E o papel é lido como antigamente,
E os navios no mar
Dão voltas e voltas.
Tudo sabido, tudo encontrado.
A morte cruza consigo por toda parte.
Buracos nos mapas dão em lugar nenhum.

           

THE MAP OF PLACES

The map of places passes.
The reality of paper tears.
Land and water where they are
Are only where they were
When words read here and here
Before ships happened there.

Now on naked names feet stand,
No geographies in the hand,
And paper reads anciently,
And ships at sea
Turn round and round.
All is known, all is found.
Death meets itself everywhere.
Holes in maps look through to nowhere.

           

FIM DO MUNDO

O tímpano está no fim.
A íris ficou transparente.
O sentido se desgasta.
Até o sentido está transparente.
A pressa alcança a pressa.
A terra arredonda a terra.
A mente encosta a mente.
Claro espetáculo: cadê o olho?

Tudo perdido, nenhum perigo
Força a mão heróica.
Corpos não se opõem mais
Um contra o outro. O mundo acabado
É semelhança em toda parte.
Caem os nomes do contraste
No centro que se expande.
O mar seco estende o universal.

Nem súplica nem negativa
Perturbam a evidência geral.
A lógica tem lógica, e eles ficam
Trancados nos braços um do outro,
Senão seriam loucos,
Com tudo perdido e nada que prove
Que até o nada sobrevive ao amor.

           

WORLD’S END

The tympanum is worn thin.
The iris is become transparent.
The sense has overlasted.
Sense itself is transparent.
Speed has caught up with speed.
Earth rounds out earth.
The mind puts the mind by.
Clear spectacle: where is the eye?

All is lost, no danger
Forces the heroic hand.
No bodies in bodies stand
Oppositely. The complete world
Is likeness in every corner.
The names of contrast fall
Into the widening centre.
A dry sea extends the universal.

No suit and no denial
Disturb the general proof.
Logic has logic, they remain
Locked in each other’s arms,
Or were otherwise insane,
With all lost and nothing to prove
That even nothing can live through love.

           

OCEANO, FILOSOFIA FALSA

Primeiro de todas as falsas filosofias,
O oceano arenga para os doidos,
Os lógicos possessos do romance.
Seu olhar oscilante, essa massa oscilante,
Se abraçam em perda perpétua
Oceano é pó rejeitado
Peneirado numa metáfora
Por uma fina renúncia,
É uma lenta diluição.

À deriva, ritmos mesmerizam
O livro mudo de sonhos.
As linhas entoam mas tão inaudíveis
O trajeto é veraz demais e não conhece
Nem naufrágio nem seqüela.

Otimismos em desespero
Embarcam nesse apático frenesi.
Cérebros frustrados em seus olhos
Descansam nessa imagem de monotonia
E desmaiam, agradecidos.
Ah, corações tão peculiarmente íntegros,
O Céu vos proteja, diante de tal argumento,
Para que continueis persuadidos e íntegros,
O Céu vos proteja, se puder,
Enquanto visões se ampliam até um zero aquoso
E a profecia se expande até a extinção.

           

SEA, FALSE PHILOSOPHY

Foremost of false philosophies,
The sea harangues the daft,
The possessed logicians of romance.
Their swaying gaze, that swaying mass
Embrace in everlasting loss—
Sea is the spurned dust
Sifted with fine renunciation
Into a metaphor,
A slow dilution.

The drifting rhythms mesmerize
The speechless book of dreams.
The lines intone but are not audible.
The course is overtrue and knows
Neither a wreckage nor a sequel.

Optimisms in despair
Embark upon this apathetic frenzy.
Brains baffled in their eyes
Rest on this picture of monotony
And swoon with thanks.
Ah, hearts whole so peculiarly,
Heaven keep you by such argument
Persuaded and unbroken,
Heaven keep you if it can
As visions widen to a watery zero
And prophecy expands into extinction.

           

O VENTO, O RELÓGIO, O NÓS

Enfim o vento entrou no relógio
Cada minuto por si.
Não há mais sessenta,
Não há mais doze,
É tão tarde quanto cedo.

A chuva desbotou os números.
As árvores nem ligam para o que acontece.
O tempo virou uma paisagem
De folhas suicidas e galhos estóicos
Que se despintam tão logo pintam.
Ou talvez seja exagero dizer isso,
Com o relógio se devorando
E os minutos com licença para morrer.

O mar não tem imagem alguma.
Ao mar, então, que agora é tempo,
E cada coração mortal um marinheiro
Jurado a se vingar do vento,
A relançar a vida aos dentes frágeis
De onde saiu o primeiro sopro,
Um desafio idiota ao que não sabia
Berrando ao redor do relógio estudioso.

Agora não há tic-tacs nem brisa.
O barco foi a pique com seus homens,
O mar com o barco, o vento com o mar.
O vento enfim entrou no relógio,
O relógio enfim entrou no vento,
O mundo enfim saiu de si.
Podemos enfim fazer sentido, eu e vocês,
Sobreviventes solitárias no papel,
A ousadia do vento e o zelo do relógio
Viram uma linguagem muda,
E eu a história que nela se calou
Algo mais a ser dito sobre mim?
Direi mais que a falsidade que se afoga
Possa repetir-me palavra por palavra,
Sem que o escrito se altere por um hálito
De querer dizer talvez outra coisa?

           

THE WIND, THE CLOCK, THE WE

The wind has at last got into the clock
Every minute for itself.
There’s no more sixty,
There’s no more twelve,
It’s as late as it’s early.

The rain has washed out the numbers.
The trees don’t care what happens.
Time has become a landscape
Of suicidal leaves and stoic branches
Unpainted as fast as painted.
Or perhaps that’s too much to say,
With the clock devouring itself
And the minutes given leave to die.

The sea’s no picture at all.
To sea, then: that’s time now,
And every mortal heart’s a sailor
Sworn to vengeance on the wind,
To hurl life back into the thin teeth
Out of which first it whistled,
An idiotic defiance of it knew not what
Screeching round the studying clock.

Now there’s neither ticking nor blowing.
The ship has gone down with its men,
The sea with the ship, the wind with the sea.
The wind at last got into the clock,
The clock at last got into the wind,
The world at last got out of myself.

At last we can make sense, you and I,
You lone survivors on paper,
The wind’s boldness and the clock’s care
Become a voiceless language,
And I the story hushed in it
Is more to say of me?
Do I say more than self-choked falsity
Can repeat word for word after me,
The script not altered by a breath
Of perhaps meaning otherwise?

           

(poemas de Laura Riding, traduções de Rodrigo Garcia Lopes)

Padrão
crítica

rodrigo garcia lopes

rodrigo garcia lopes (1965, londrina, pr), nome já bem reconhecido na poesia brasileira, é – para não ficar sem apresentação, ainda que pouco útil – escritor, compositor, tradutor & jornalista. publicou uma belíssima penca de livros; como os de poesia, solarium (1994), visibilia (1996, 2. ed. 2004), polivox (2001), poemas selecionados (2001) & nômada (2004); o cd polivox (2001); traduções de sylvia plath, arthur rimbaud, laura riding, walt whitman, & d’o navegante (anônimo anglo-saxão); & o livro de entrevistas vozes e visões. além de ser editor da (felizmente) longeva revista coyote & de manter o blog estúdio realidade. este ano, ele já anunciou a publicação do seu primeiro romance policial & de um novo livro de poesia, estúdio realidade, onde creio que estarão os poemas abaixo.

o que (tenho) admir(ad)o na poesia do RGL é sobretudo a versatilidade, como aquela que comentei em ricardo domeneck (que já recebeu um post) & que também estou admirando em dirceu villa (que ainda merece receber seu post por aqui). porém, curiosamente (& felizmente para nós leitores), esses 3 poetas versáteis pouco coincidem apesar do leque amplo de cada um, o que nos dá essa variedade salutar na poesia contemporânea brasileira – não, eu não tenho o clima bilioso de ficar reclamando, em tons decadentistas, sobre como “a poesia brasileira vai mal”, “a poesia brasileira está perdida”, &c.

mas voltemos ao RGL: esta brevíssima seleção de poemas tenta mostrar exatamente algumas das variantes, que aqui resumo e facilito nos já tão famosos (& banalizáveis, como eu mesmo aqui o faço) termos poundianos: da belíssima poesia-imagem, fanopeia em estado puro de “um poema”, com matiz oriental; passando pela melopeia rápida & mais coloquial de “anatomia da rima”, ou pelo modus canção de “a pé”; & finalizando na urbanidade fanologopaica de “rush”.

o que me interessa marcar como ponto-chave dos textos aqui apresentados é sobretudo como a variedade se reintegra num corpo orgânico. ao contrário do que se poderia imaginar, a poesia de RLG é mais coerente dentro da diversidade, eu poderia dizer que a diferença aqui retorna na construção de um macro-idioleto, que não tenho tempo de comentar, mas que poderia dar um bom pano pra manga, quem sabe mais pra frente…

ps: sons (poemas e canções) também podem ser achados no myspace e no soundcloud.

guilherme gontijo flores

UM POEMA

traída pelo
vento de inverno

a bela
borboleta

lenta- (asa
flor fluindo)
mente

caindo sobre
um rio
congelado

(amargo é
voar

tão longe
pra morrer:

melhor voar pra sempre)

ANATOMIA DA RIMA 

Não existem rimas pobres.
Todo som, sim, é artifício
que o tempo atrita e consome.
Vento metafísico, isto
que nos cobre, palavra
soprando de Provença
ou greta na rocha, resma
de avenca que avança —
repetição na diferença.
Tudo rima com alguma
coisa, contanto não seja rara
Naja desnuda penumbra
Ou pegue de raspão, toante,
as palavras que instantes antes,
eram caligrafia da fala,
espécie de fada, cabala.

A PÉ

Um ritmo caminhava em minha direção
Nele o nylon das ondas como testemunhas
Uma verdade qualquer se traduzindo em som
Quantas vezes nos perdemos no carinho
Não o amor que um dia foi estranho sonho
Mas essa onda volutas linha sobre linha
Eco de luz que havia sido prometida

E a vida é mais cedo que se supunha—
O que nos apressa na voragem
É essa lentidão, não esta alegria.
Mas latimos pra lua sem culpa nenhuma,
Descascamos a pele da paisagem
Com nossas próprias unhas.

RUSH

a chuva
é este pensamento
lento

agulhas de prata
se caçam, se cruzam,
alcançam a vidraça

cortina perolada
presente
dos deuses

música suave
de quem
não diz o que sabe

abençoa a cidade
dos homens
e seus corações secos

(rodrigo garcia lopes)
Padrão
poesia, tradução

Um micro-panorama de poetas mulheres

Aproveitando a data do dia da mulher, nós do escamandro gostaríamos de compartilhar alguns poemas de nossas poetas mulheres favoritas. A ideia não é fazer um post para elaborar um comentário mais a fundo agora (o que seria, aliás, será feito melhor no futuro, com maior atenção… eu mesmo estava tentando uma tradução da Bishop, mas a tarefa acabou sendo mais difícil do que eu pensava), mas demonstrar nossa apreciação pela presença de mulheres na poesia. Apesar das raízes da lírica repousarem em Safo, o gênero acabou dominado por homens a ponto de chegar a se tornar algo separado, criando-se, assim, possivelmente como golpe de marketing, o gênero da “escrita feminina”. Pois não é assim que Bishop se via, e não é assim que nós vemos: as mulheres representadas aqui são, antes de tudo, autoras de excelente Poesia, assim, com P maiúsculo, e por isso são dignas de reconhecimento.

E vocês, nossos leitores e leitoras, se sentirem a falta de alguma autora (e com certeza falta gente aqui), sintam-se livres para contribuir nos comentários abaixo.

 

 

Emily Dickinson nasceu em 1830, morreu em 1886, e nesse tempo viveu uma vida absolutamente excêntrica e reclusa. Sua poesia foi escrita nessa reclusão e publicada muito tardiamente, chocando os editores pela versificação simples (predominância quase exclusiva do metro de balada inglês) e pela sintaxe estranha e cheia de travessões.

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!

(tradução de Augusto de Campos, Não Sou Ninguém, )

 

Elizabeth Bishop (1911 – 1979) é algo famosa por sua relação com o nosso país, tendo vindo ao Brasil e tido contato com poesia nossa como a de Manuel Bandeira, que conheceu pessoalmente, Drummond e até mesmo de nossas canções populares, que ela traduziu. Também famoso foi seu caso homossexual com a brasileira Lota de Macedo Soares, que teve um desfecho trágico. Sua obra é distinta por ser concisa, cabendo inteira em um único volume.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas)

 

Sylvia Plath (1932 – 1963), a autora do famoso romance The Bell Jar é conhecida por ter sido casada com o também poeta Ted Hughes e por ter lutado com a depressão durante toda sua brevíssima vida. Sua poesia partilha da tendência confessional do período, e assim, não surpreende que predomine as temáticas de morte e do suicídio.

Palavras

Machados
Que batem e retinem na madeira.
E os ecos!
Ecos escapam
Do centro como cavalos.

A seiva
Mina em lágrimas, como a
Água tentando
Repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e racha,
Crânio branco,
Comido por ervas daninhas.
Anos depois eu
As encontro no caminho —

Palavras secas, sem destino,
Incansável som de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, Sylvia Plath: Poemas, Illuminuras)

 

A ganhadora do Nobel de 1996, Wislawa Szymborska (1923 – 2012) morreu este ano. A polonesa, que viu a Segunda Guerra, o Holocausto, a ocupação nazista e a tirania comunista, nas palavras de Nelson Ascher, “mostrou como a sanidade e a lucidez podem brotar da terra arrasada”.

Retrato de mulher

Deve ser para todos os gostos.
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d´água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.

(tradução de Regina Przybycien, Poemas, Companhia das Letras)

 

Ingeborg Bachmann (1926-1973), poeta austríaca, doutora em filosofia, estudiosa de Heidegger e Wittgenstein. Teve um relacionamento com o poeta Paul Celan.

Uma espécie de perda

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, O tempo aprazado (Últimos poemas 1957-1967), Assírio & Alvim)

 

Hilda Hilst (1930 – 2004) tem uma obra extensa, entre diversos volumes de poesia, prosa e teatro, traduzida para diversas outras línguas e recentemente republicada pela editora Globo. O momento mais curioso de sua carreira foi o “adeus à literatura séria” dado nos anos 90, quando começa sua fase da “bandalheira”, marcada pela sua revolta com a falta de reconhecimento do público em geral. É nesta época em que publica Bufólicas, livro de poemas cômicos, e romances eróticos de diversas naturezas, como O Caderno Rosa de Lory Lamby e Cartas de um Sedutor.

Ária Amaríssima de um instante

SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa
Camada-transparência sobre as gentes. Vê só:
Eu não te olho com o teu olho que sabe
Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez
Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada
Tempo alongado onde te fizeste em viuvez.
Não perdeste a mulher ou o homem que amavas. Amamos tanto
E a perda é cotidiana e infinita. Não é isso
AGORA
Quando te olho e sei de um Tempo-Tarde-Madrugada alongada.
Olhaste à tua frente, ou do lado ou acima de ti
Ou não olhaste, ou de repente alguém entrou na tua sala
E disse claramente: devo dizer que sim àqueles da Extens Union?
Que sim? A quem? E sou eu mesmo, este que está aqui?
Distância, sigilosa incongruência, eu mesmo?
A boca do outro continua: prazo perda dez por cento solução final…
Solução final final… Te dobras inteiro com muita sobriedade
O documento na última gaveta, bem à esquerda… Meu Pai,
Entre o papel e eu, entre esta mesa e eu
E essa boca inteira debulhada, entre eu mesmo e aquele
Que repete Union Union, que filamento? Âncora,
Tempo coagulado, um dia fui descanso e pastoreio. Um dia
Tudo era eu, bulbo que seduzia, goela clarividente
Uivo gordo viscoso, uivei entre as parreiras, uivei
Porque sabia deste AGORA,
Que a cadela do Tempo me roia, ia roer, rosnava me roendo
Cadela-tempo, tu e eu… que contorno de nada, que coisa ida
Nossa dúplice aventura, que… que sim, que sim… Olha:
Diga que sim a esses da Extens Union.

(do encarte à edição de “Cadernos da Literatura Brasileira”, editado pelo Instituto Moreira Salles – São Paulo, número 8 – Outubro de 1999)

 

Claudia Roquette-Pinto, carioca, nascida em 1963, é formada em tradução literária pela PUC-RJ e publicou os volumes de poesia Os Dias Gagos (1991), Saxífraga (1993); Zona de Sombra (1997); Corola (2001, ganhador do Jabuti de Poesia) e Margem de Manobra (2005).

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pêlos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância     seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(de Zona de Sombra)

 

Nascida em Curitiba em 1957, Josely Vianna Baptista é estudiosa e tradutora de literatura hispano-americana. Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, 2001) e Roça Barroca (2011), em que, de maneira notável, funde seu trabalho de poeta com o estudo e tradução do mito poético da criação do mundo dos índios Mbyá-guarani.

Moradas Nômades

carunchos e cupins roem,
vorazes, a choupana de ripas

pendem do esteio ramos de trigo,
feito amuleto para celeiros cheios;
tachos esfarelam crostas de grãos moídos
e redes balançam seus esgarços,
perto do chão onde uma nódoa preta
mostra o antigo fogo

tudo abandono, e, no entanto,
lá fora o pomar semeado
para os que agora cruzam
(trouxas vazias), um
por um, os onze mil
guapuruvus

(de Roça Barroca)

 

Angélica Freitas, nascida em abril de 1973 em Pelotas – RS, tem poemas publicados em diversas antologias e em 2007 publicou seu primeiro livro Rilke Shake (Cosac Naify/7Letras). Anda a caminho de publicar um livro novo.

às vezes nos reveses

penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses

(de Rilke Shake)

 

P.S.: vale a pena conferir também os posts aqui no escamandro sobre Orides Fontela e os 3 poemas de Laura Antillano traduzidos pelo nosso Guilherme Gontijo Flores.

Padrão