crítica, xanto

XANTO | Rodrigo Tadeu Gonçalves e a transfiguração do espasmo em ironia, por Sergio Maciel

_MG_6334

Todas as fotos deste post foram feitas pelo fotógrafo Rafael Dabul e ilustram o livro Quando o verão, de Rodrigo Tadeu Gonçalves (Kotter/Patuá, 2018).

[…]
Tudo chega de um mundo antiquíssimo
Onde encontraremos pedaços desajustados de fotografias:
Recortes de pensamentos visuais
E um amor que não quer colaborar com a morte
– Vasto pássaro bicando as montanhas lavadas.

“Natureza”, de Murilo Mendes

 

Há uma miríade de sentimentos que podemos nutrir diante de situações traumáticas, e a psicologia vai dar conta disso, o que me interessa aqui, particularmente, é o modo como poeticamente utilizamos a ironia como ferramenta, como meio de transporte durante situações que se nos apresentam como desagradáveis. Tomemos como primeiro exemplo o livro de Adelaide Ivánova. Como eu disse em outra oportunidade (clique aqui), em “O Martelo temos uma narrativa, ou a tentativa de construção de uma narrativa, sobre uma situação de catástrofe. Freudianamente, dá pra dizer que se trata de uma narrativa que busca desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou. Precisamente por isso, a linguagem – que todos sabemos insuficiente – se ergue sobre a ambiguidade (ou dificuldade de definição) do gênero. Cria-se uma poética sobre uma narrativa que pretende, quase jornalisticamente, retratar um acontecimento, ao passo que essa poética constantemente parece sucumbir à apresentação dos fatos – movimento, aliás, que tensiona a mesma busca pela apresentação e aceitação dos fatos na instância jurídica do crime –, como na descrição física, no relato preciso do golpe de um martelo no primeiro poema ou na notícia que é o poema para laura. Há uma tensão constante, como é costume entre poéticas que se queiram políticas, entre aquilo que se pretende poético e aquilo que se pretende factual, quase jornalístico, mas que aqui, me parece, reflete quase que um embate entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, ou seja, o adiamento da satisfação – que ocorrerá na segunda parte do livro – através da tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”.

Bem, aquilo que eu quis dizer, mas não disse é que essas apresentações dos fatos, em Ivánova, se dão por meio de uma descrição didática de determinados eventos que se revela, no final, extremamente irônica. Lá – pintemos aqui todo o quadro que a poeta busca retratar: a violência e o silenciamento, sobretudo intelectual, que a acomete a mulher em nossa sociedade –, a ironia é moldada através do uso desse didatismo – quando não se tem outras armas que não as palavras – contra os atos, gestos construídos propositalmente para desestabilizar, para ferir. Descrever, de modo quase científico, o acontecimento físico-mecânico de um golpe de martelo é um modo irônico de se opor à violência; como se a violência velada da ironia no discurso quisesse anular a violência contra o corpo. Citando Ida Lucia Machado (clique aqui),

Por que algumas pessoas ironizam ao narrar suas vidas? Podemos arriscar algumas respostas: ironizam para tornar os acontecimentos passados mais aceitáveis, para “fazer de conta” que eles não machucaram muito o narrador que conseguiu construir uma vida, apesar de todos os obstáculos; ironizam para imaginar que essa vida é algo único e especial; mesmo se depois concluírem que todos os destinos, todas as vidas são especiais e únicas e todas podem ser objetos de narrativas.

Bem, no fundo é isso: a ironia pode servir como ferramenta para a criação de uma narrativa na qual sejamos capazes de transgredir o convencional-banal da vida, o discurso passado traumático, o medo do futuro, os dogmas, os discursos totalitários, a amargura, entre outras coisas. A ironia é uma via de trânsito possível, um escoamento clínico através do qual o sujeito pode se recompor, organizando seu tempo de vida (eu-passado, eu-presente, eu-porvir, eu-em-trânsito), e dar coerência a seu desejo em meio a um mundo completamente incoerente.

No livro de estreia de Rodrigo Tadeu GonçalvesQuando o verão (Kotter-Patuá, 2018), no entanto, ao contrário do livro de Adelaide, em que a ironia tensiona a digestão de um crime, não há um evento em específico que justifique, que deixe às claras esse recurso da ironia. Trata-se, portanto, de um modo, demasiado humano, de lidar com o medo, com a aflição, a angústia, a vivência, afinal, da morte; da transfiguração do espasmo da existência em ironia. Negar a existência dos deuses, do pós-vida, de qualquer espécie de redenção e acreditar na finitude do ser aqui mesmo na Terra não nos exime de temer constantemente esse inacabado que é viver. E, bem, é meio isso que acontece aqui no livro de Rodrigo, que se divide, basicamente, em quatro partes: i) a abertura com o longo poema que dá título ao livro; o capítulo CORPORA BARBARA, que se subdivide entre ii) corpora e iii) barbara; iv) o capítulo final psicotrópicas. A tudo isso intercalam-se fotografias de Rafael Dabul, que, pra dizer com Murilo Mendes ali em cima, parecem ‘recortes de pensamentos visuais’.

chapada-0007

O poema de abertura Quando o verão voltar instaura logo de início a relação que o eu-lírico estabelecerá com um tempo que se apresenta sempre externo a ele, i.e., com a expectativa, com a ânsia do futuro. É a partir dessa tensão, portanto, entre o tempo futuro, ansiado, e o eu-lírico, que aparece “desejando a finitude” (p. 21), que se instalará a ironia como método de suporte da vida. Trata-se, como no caso das instâncias performativas da linguagem de que trata Shoshana Felman, de uma espécie de promessa irônica que busca performar a cada verso essa própria finitude que se teme. No fundo, o eu-lírico não deseja presenciar o retorno do verão, senão desfazer-se de toda espécie de corpo, de linguagem – que ele tentará desfiar nos dois capítulos seguintes. Não por acaso, os dois primeiros poemas do capítulo seguinte tratam do corpo e da linguagem.

_MG_8799_02

É em corpora que aquela espécie de ironia didática, que comentei acima em relação à poética de Adelaide Ivánova, começa a exibir seus contornos – aliás, a relação entre essas duas poéticas fica extremamente clara no poema “O cavalo e o martelo” (p. 49), que é dedicado à própria Adelaide. O procedimento irônico aqui em Rodrigo parece muito semelhante àquele operado por Ivánova; trata-se do distanciamento do sujeito em relação ao assunto que discorre. O tom com que nos é apresentado o corpo, “sistema complexo composto por milhares de nomes”, repousa entre o pedante-informativo e o jocoso-irônico. É justamente nesse embate entre um registro que parece almejar ao enciclopédico ao mesmo tempo que descamba para o extremo banal que o corpo e toda sua vulnerabilidade vai se desmontando em pequenos pedaços de ironia até que o ser, desprovido de pele, pareça estar imune aos apelos da dor, do sofrimento e, principalmente, da morte. O corpo vai se transformando em subpartes incapazes de serem recompostas ou reordenadas em um único eu. O corpo do primeiro poema, que se incrusta no capítulo corpora, não é mais corpo, é antes língua, unha, “deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico/ do qual parece ser partícipe”. Ou seja, essa espécie de ‘desmonte’ das funções do corpo serve para escavar de suas cavidades tudo aquilo que seja humano, tudo aquilo passível de perecimento, tornando-o meio invólucro, mero meio.

Bem, se o corpo é invólucro, resta-nos então saber que coisa ele está guardando? O espírito, talvez? Possibilidade que parece ser logo descartada pelo descaso que o poema “Espírito” (p.51) revela:

ESPÍRITO

o espírito é o sopro que te leva passear
de noite, quando a insônia vai dormir cansada
o que explica mesmo com abluções recomendadas
o bafo matinal

O sopro que é o espírito aqui se equipara e equivale ao fétido e corriqueiro bafo matinal. Não é exatamente este o trato esperado com algo tão metafisicamente relevante. A linguagem, então, talvez? Vejamos o poema a seguir:

TEORIA DA LINGUAGEM

tenho a sensação
que é a imagem que impressiona.
mas a minha obsessão
não é foto,……é pathos.
o pathos que assola em reverberação associativa
por sequências de pequenas insonâncias
……..aleatórias ou não
que ritmam.

ouça este poema:
ele parte da constatação
que não foi defendida pela primeira vez por humboldt
nem por locke
nem mesmo por górgias o sofista
de que a palavra é mestre titereiro
titerando espíritos em afetos
mexendo em convulsão com seus amores;
seus sim, não dele ou dela.

apaixonando com palavra, entonação,
sotaque ou timbre,
que é muito mais paixão que peito ou olho,
que faz você escutar poema, texto,
memória de palavra ou invenção,
com a voz de quem quiser, ou corpo.

Fica claro que o trato dado aqui à linguagem, sobretudo às suas capacidades operativas no mundo, ultrapassam a faculdades do corpo. Não se trata do corpo, do espírito e nem da habilidade cognitiva linguística dos humanos. Importa a convulsão do corpo causada pelos estalos significantes da língua, pela ironia. Vejamos bem como pode funcionar esse recurso da ironia. Tomemos como exemplo o poema “Sêmen” (p.61):

SÊMEN

semente cremosa, espumosa, esbranquiçada e opalina;
em casos de abstinência sexual, amarelada
(pela morte e necrose de células haploides mais antigas)

depois de 10 a 30 minutos no ambiente
torna-se extremamente fluida
(curiosamente exposta ao ar em baixas latitudes,
a parte mais líquida evapora e fica menos fluida e mais pegajosa)
o sabor é acentuado (geralmente adstringente)
e um pouco salgado com variações relacionadas
com a alimentação de cada indivíduo

homologia une o um e o múltiplo

a ejaculação de um homem sadio varia entre 3,5 e 5 ml

Que porra, com o perdão do trocadilho, o poema acima parece introduzir de novo no mundo? Parece se tratar simplesmente da disposição em versos de uma explicação friamente científica a respeito da composição e do funcionamento biológico do sêmen, com exceção do penúltimo verso, que se pretende poético.  Isto é, semelhante à descrição do golpe do martelo citado acima no livro de Adelaide, o esmiuçamento do sêmen parece não servir a outro propósito que não o de desumanizar progressivamente qualquer resquício do corpo. É o único modo que o eu-lírico encontra de atravessar seu caminho em direção ao fim. Soma-se a esse desmembramento e consequente desumanização do corpo em corpora, a inconstância da linguagem em barbara. Gesto que parece colocar quem fala numa posição externa, indolor, capaz de assistir ao lentos avanços da morte.

chapada-9996_02

É no último capítulo, Psicotrópicas, que o tema da morte corrompe todo o dizer. É somente no final, portanto, que o eu-lírico parece contemplar o fato de que “a morte é natural/ a vida acaba” (p.122). No entanto, após o intenso processo de dessensibilização provocado pela ironia com que tratou o corpo e o próprio discurso, aliado a um forte tom epicurista adquirido a partir do contato com a poética do poeta romano Lucrécio, o eu-lírico parece ir se dissolvendo no tom grave dos poemas como se buscasse evitar que aquele verão, anunciado no primeiro poema, retornasse e, assim, ele tivesse que enfrentar toda essa travessia outra vez. É nos “destroços da linguagem claustro” (p.150), “enquanto a natureza orquestra sua cura/ e a noite apaga o quente da sua têmpora”, que se busca refúgio. Agora, e somente agora, após despir-se de toda a fantasia da morte, que o poeta permite acabar-se assim:

sentir pena de si mesmo
só por ser mortal
ter medo da claustrofobia no caixão
imaginar a dor dos outros no velório
como se você tivesse ali do lado
mão no peito do cadáver
recebendo condolências

o que te dói mesmo mesmo é
ver que isso é besteira
saber que morte é
necessariamente o fim
dessa funérea fantasia

Rodrigo, enfim, através da ironia busca lidar com os apelos incessantes da morte. Insere-se numa longa tradição de gente que, querendo assumir ou não, precisar lidar com esse fim inerente a todo ser. A poesia, ou a arte, afinal, é “um amor que não quer colaborar com a morte”, pra dizer com Murilo; e, pra dizer com João, “o amor comeu meu medo da morte”. O amor nos salva, assim como a poesia.

Anúncios
Padrão
tradução

De Rerum Natura (vv. 824-1023, III), de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

lucretius_drawn_by_michael_burghers

há quase um ano eu trouxe aqui um trecho do canto terceiro do poema épico “de rerum natura” (da natureza das coisas), do poeta romano lucrécio, na tradução de rodrigo tadeu gonçalves (clique aqui). hoje, vem à luz o trecho final deste canto e o desejo de ver logo a tradução publicada na íntegra.

sergio maciel

* * *

 

Pois, além de adoecer com doenças do corpo,
acontece de a atormentarem as coisas futuras,
e que sofra com preocupações, com o medo, ansiedade;
e, já passados os feitos e os males, os erros remordem.
Some-se a isso o furor, a loucura, o esquecer-se das coisas,
some-se a letargia que a imerge nas ondas escuras.
Nada, portanto, é a morte pra nós, nem a nós diz respeito……….830
uma vez que é mortal o ânimo por natureza.
Como nos tempos pregressos nada sofremos dos males
dos avanços guerreiros púnicos de todo lado,
todos sofrendo com trépido estrondo causado da guerra,
horrificados, tremendo sob o éter sublime,
sem saber a qual lado viria a vitória e o império
sobre todos humanos e sobre os mares e terras,
dessa maneira, quando não existirmos e quando
o discídio de ânimo e corpo nos obliterarem,
nós, que então não mais seremos, não mais sofreremos,……….840
nada, também, poderá comover sensações em nós mesmos,
mesmo se terra e mar, ou mar e céu se fundirem.
Mas, se, acaso, depois de afastada do nosso corpo
a natureza do ânimo e a ânima ainda tiverem
sensação, isso não nos importa, pois nós consistimos
da conjunção da ânima e corpo que o ser unifica.
Nem se as eras trouxessem de volta a nossa matéria
muito tempo depois de morrermos, criando de novo
como é agora e a nós novamente as luzes da vida
se restaurassem, a nós nada disso faria sentido……….850
já que as lembranças passadas a nós estariam perdidas.
E agora nada daquilo que fomos importa
nem nos afeta a angústia sofrida de outrora.
Quando contemplas o imenso espaço de tempo passado
e os inúmeros modos e conformações da matéria
fácil será acreditar que as sementes das coisas, outrora,
estas que formam agora aquilo que somos, já foram
colocadas em ordem idêntica à forma que temos.…………….[865]
Nem isso tudo podemos, porém, trazer à memória:………….[858]
entre se rompe uma pausa de vida e erraram vagando……[859] 860
os movimentos dos sentidos por toda parte.………………………[860]
E se acaso houver no futuro dor ou tristeza……………………….[861]
deve também haver alguém nesse mesmo período…………..[862]
para sofrê-los. Como a morte o proíbe, eximindo………………[863]
da existência o que concentraria os incômodos, dores,…….[864]
nós já podemos saber que nada é temível na morte
e que não pode ser mísero quem já não é, e até mesmo
nada difere se ainda não tivesse nascido
pois a vida mortal pela morte imortal foi tolhida.
Por conseguinte se vires um homem sofrer indignado……….870
por no pós morte apodrecer-lhe o cadáver deixado
ou consumir-se nas chamas, ou pelos dentes das feras,
podes saber que ele não é sincero e que estímulo cego
pende por sobre seu peito, ainda que negue que creia
que haverá qualquer sensação para si no pós morte.
Pois, como eu penso, não garante o que foi prometido
nem as razões: não se arranca da vida pelas raízes
mas, sem saber, supõe que algo de si ainda sobra.
Quando, contudo, cada ser vivo antepõe sua morte
já prevendo que as aves e feras laceram seu corpo,………880
ele de si se apieda; mas sem separar-se do morto
nem afastar-se o bastante do cadáver prostrado,
como se estivesse a seu lado e ainda sentisse.
O ter sido criado mortal o faz indignado
e ele não vê que na morte real não terá outro ele
que poderá, ainda vivo, de pé, ao seu lado, de luto,
condoer-se de si a queimar ou ser dilacerado.
Pois se é um mal que na morte a mordida ou molares das feras
nos estraçalhe, não sei como pode não ser-nos terrível
sermos cremados com o corpo lançado em tórridas chamas,……..890
ou sufocados imersos em mel ou no frio congelados
quando nos deitam no plano topo da gélida rocha,
ou esmagados pelo grave peso da terra.
“Já não mais casa alegre te acolherá, nem esposa
ótima, nem verás os teus filhos correndo a roubar-te
beijos, ternura tácita, doce, que toca teu peito.
Não verás mais florescerem com prósperos feitos
os cuidados com os teus. Ó, pobre,” dirão, “um nefasto e
único dia arrancou-te os frutos todos da vida.”
Isto, contudo, não acrescentam: “nem dessas coisas………….900
tu sentirás jamais nenhuma saudade ou desejo.”
Se isso bem entendessem e a cabeça seguisse as palavras,
afastariam do ânimo todo medo e angústia.
“Tu, de fato, assim como dormes o sono da morte,
sempre estarás, privado de toda dor e doença.
Nós, ao redor do terrífico busto pulverizado
te velamos insaciáveis, e nosso eterno
sofrimento dia algum tirará destes peitos.”
Deve-se lhe perguntar para que tanto amargor se
toda a questão se reduz ao sono e à quietude perene:………..910
quem poderia, assim, em luto eterno agastar-se?
Isto dizem também alguns, quando, deitados,
segurando copos, coroas umbrando suas faces,
ditos do ânimo: “breve é tal fruição para os pobres
homens: logo se vai, jamais a teremos de novo”.
Como se na morte tal fosse o pior de seus males:
sede queimando-os, e árida carestia os secando,
ou que os assaltaria o desejo de alguma outra coisa.
Nem a si nem à vida ninguém reclama, de fato,
quando igualmente o corpo e a mente repousam no sono.……….920
Quanto a nós, poderá o sono, assim, ser eterno
pois nenhum desejo a nós nos afeta na morte.
Mas, durante o sono, os primórdios de forma nenhuma
vagam pra longe demais dos sensíferos motos nos membros,
pois, arrancado do sono, o homem recobra a si mesmo.
Deve-se considerar que, pra nós, a morte é ainda menos
se é que pode existir algo a menos daquilo que é nada,
pois maior dispersão de matéria se segue na morte
do que no sono e ninguém desperta e levanta
uma vez que o tocou a gélida pausa da vida.…………….930
Se, de repente, a natureza das coisas lançasse
sua voz e ela mesma a qualquer um de nós censurasse:
“Ó, mortal, por que sofres tanto com a morte e indulges
tanto em lamentos e lutos, por que tanta lágrima e grito?
Pois, se a vida que levaste te foi agradável
se as alegrias não se te escaparam tal como num vaso
cheio de furos e pereceram não aproveitadas,
como um conviva feliz, satisfeito, por que não te vais da
vida e, tranquilo, abraças a calma segura, idiota?
Mas, se as coisas de que desfrutaste se desperdiçaram,…………940
se a vida é uma ofensa, pra que querer mais um pouco,
já que tudo acaba mal e se vai, e perece,
não é melhor pores fim aos labores, às penas, à vida?
Pois o que mais eu possa inventar, maquinar, que te agrade
não existe: tudo é agora tal como foi sempre.
Se teu corpo ainda não pesa dos anos, se os membros
inda não minguam exaustos, tudo está como era antes,
mesmo se vivesses mais tempo que todas as vidas,
tudo daria no mesmo, até mesmo se nunca morresses.”
Que responder, senão que o processo é justo e a causa…………….950
da natureza é exposta com veras e fortes palavras?
Se, por acaso, alguém já muito mais velho deplora……………..[955]
e, miserável, lamenta sua morte bem mais que devia……………..[952]
não terá mais direito de censurar com voz acre?”……………………[953]
Leva daqui as tuas lágrimas, frouxo, e deixa de queixas,………..[954]
tendo fruído de todos prazeres da vida definhas,
mas como sempre desejas o ausente, e o presente desprezas,
imperfeita gastou-se pra ti, e ingrata, tua vida,
e sem que queiras, a morte se põe a teu lado e te afaga
antes que saias da vida feliz, satisfeito com as coisas.…………….960
Vai, abandona todas as coisas alheias à idade
tua, e concede, com ânimo calmo, o lugar aos que ficam.”
Com justiça, penso, agiria, justas censuras.
Pois a velhice sempre cede, assolada do novo,
sempre, e uma coisa se reconstrói a partir de uma outra.
Não se desce ao profundo do tártaro atroz, aos infernos.
Pois é preciso matéria para que os pósteros cresçam;
estes, também, a ti seguirão, ao fim de suas vidas,
Logo cairão, não menos que os de antes de ti já caíram:
algo nunca deixará de nascer de outra coisa…………….970
Nunca ninguém tem posse da vida, somente usufruto.
Veja, também, como as eras passadas do tempo infindável
de antes de nós foram nada – de antes de termos nascido,
essas também a natura nos mostra tal como um espelho
que nos revela o tempo vindouro depois de morrermos.
Mas o que tem de horrível nisso, o que de tão triste,
não é mais calmo morrer do que todo tipo de sono?
Não nos admiremos: tudo que é dito que habita
o Aqueronte profundo estão todos, de fato, conosco.
Nem a enorme pedra teme pendente nos ares…………….980
mísero Tântalo, paralisado de medo, tal dizem:
mas é na vida que o medo dos deuses aos homens fulmina,
esses que temem da fortuna sua queda, seus golpes.
Nem no Aqueronte os abutres achegam-se a Títio jazendo
nem o que encontrar por sobre o peito tão vasto
podem achar por todos os tempos com que se alimentem;
não importa qual seja a extensão enorme do corpo
mesmo que com os membros cubra não só nove jeiras
mas até mesmo cubrisse o orbe inteiro da terra,
nem assim dor eterna ele poderia sofrer, nem…………….990
oferecer para sempre alimento de seu próprio corpo.
Títio, porém, para nós é aquele jazente de amores
que dilaceram abutres, ou seja, a angústia ansiosa,
ou qualquer coisa que rasgue com dores, desejos perenes.
Sísifo, em vida, diante dos olhos também é aquele
que do povo procura beber os cetros selvagens
mas amiúde retira-se sempre triste e vencido.
Pois a busca do império inane que nunca se mostra
a nenhuma pessoa e por isso sofrer os labores
incessantes é o mesmo que o monte escalar com a rocha……….1000
que, quando quase chegando no vértice, mais uma vez se
precipita rolando de volta até o plano terreno.
E nutrir a ingrata natura do ânimo sempre,
para preenchê-la com bens mas sem nunca alcançar saciedade
tal como as estações do ano fazem conosco
quando sempre retornam e trazem os frutos e agrados,
sem que jamais satisfaçam-nos com as benesses da vida,
isto, tal penso, é o que fazem as moças de idade florente
que, dizem, tentam encher um vaso furado com água
o que, contudo, de modo nenhum jamais realizam.…………….1010
Cérbero e Fúrias, bem como a carência completa das luzes,
Tártaro em erupção, com suas fauces horríveis, de chamas,
estes não há, nem jamais, de modo nenhum, são possíveis.
Mas na vida os medos imensos de imensos castigos
por nossas faltas, para expiar nossos crimes e males:
cárcere, horrível queda forçada do alto da rocha,
vergas, algozes, tronco, piche, tochas, fogueira;
mesmo se ausentes, a mente, contudo, ciente dos feitos,
terrificada se exibe os estímulos: fogo, flagelos,
sem perceber qual seria o possível termo pros males…………….1020
nem qual seria por fim o limite das penas, e ainda
mais angustia-se achando que agravam depois de sua morte.
Tal é a vida infernal que se plasmam pra si os idiotas.

praeter enim quam quod morbis cum corporis aegret,
advenit id quod eam de rebus saepe futuris
macerat inque metu male habet curisque fatigat,
praeteritisque male admissis peccata remordent.
adde furorem animi proprium atque oblivia rerum,
adde quod in nigras lethargi mergitur undas.
Nil igitur mors est ad nos neque pertinet hilum,
quandoquidem natura animi mortalis habetur.
et vel ut ante acto nihil tempore sensimus aegri,
ad confligendum venientibus undique Poenis,
omnia cum belli trepido concussa tumultu
horrida contremuere sub altis aetheris auris,
in dubioque fuere utrorum ad regna cadendum
omnibus humanis esset terraque marique,
sic, ubi non erimus, cum corporis atque animai
discidium fuerit, quibus e sumus uniter apti,
scilicet haud nobis quicquam, qui non erimus tum,
accidere omnino poterit sensumque movere,
non si terra mari miscebitur et mare caelo.
et si iam nostro sentit de corpore postquam
distractast animi natura animaeque potestas,
nil tamen est ad nos, qui comptu coniugioque
corporis atque animae consistimus uniter apti.
nec, si materiem nostram collegerit aetas
post obitum rursumque redegerit ut sita nunc est,
atque iterum nobis fuerint data lumina vitae,
pertineat quicquam tamen ad nos id quoque factum,
interrupta semel cum sit repetentia nostri.
et nunc nil ad nos de nobis attinet, ante
qui fuimus, [neque] iam de illis nos adficit angor.
nam cum respicias inmensi temporis omne
praeteritum spatium, tum motus materiai
multimodi quam sint, facile hoc adcredere possis,
semina saepe in eodem, ut nunc sunt, ordine posta
haec eadem, quibus e nunc nos sumus, ante fuisse.
nec memori tamen id quimus reprehendere mente;
inter enim iectast vitai pausa vageque
deerrarunt passim motus ab sensibus omnes.
debet enim, misere si forte aegreque futurumst;
ipse quoque esse in eo tum tempore, cui male possit
accidere. id quoniam mors eximit, esseque prohibet
illum cui possint incommoda conciliari,
scire licet nobis nihil esse in morte timendum
nec miserum fieri qui non est posse, neque hilum
differre an nullo fuerit iam tempore natus,
mortalem vitam mors cum inmortalis ademit.
Proinde ubi se videas hominem indignarier ipsum,
post mortem fore ut aut putescat corpore posto
aut flammis interfiat malisve ferarum,
scire licet non sincerum sonere atque subesse
caecum aliquem cordi stimulum, quamvis neget ipse
credere se quemquam sibi sensum in morte futurum;
non, ut opinor, enim dat quod promittit et unde
nec radicitus e vita se tollit et eicit,
sed facit esse sui quiddam super inscius ipse.
vivus enim sibi cum proponit quisque futurum,
corpus uti volucres lacerent in morte feraeque,
ipse sui miseret; neque enim se dividit illim
nec removet satis a proiecto corpore et illum
se fingit sensuque suo contaminat astans.
hinc indignatur se mortalem esse creatum
nec videt in vera nullum fore morte alium se,
qui possit vivus sibi se lugere peremptum
stansque iacentem [se] lacerari urive dolere.
nam si in morte malumst malis morsuque ferarum
tractari, non invenio qui non sit acerbum
ignibus inpositum calidis torrescere flammis
aut in melle situm suffocari atque rigere
frigore, cum summo gelidi cubat aequore saxi,
urgerive superne obrutum pondere terrae.
‘Iam iam non domus accipiet te laeta neque uxor
optima, nec dulces occurrent oscula nati
praeripere et tacita pectus dulcedine tangent.
non poteris factis florentibus esse tuisque
praesidium. misero misere’ aiunt ‘omnia ademit
una dies infesta tibi tot praemia vitae.’
illud in his rebus non addunt ‘nec tibi earum
iam desiderium rerum super insidet una.’
quod bene si videant animo dictisque sequantur,
dissoluant animi magno se angore metuque.
‘tu quidem ut es leto sopitus, sic eris aevi
quod super est cunctis privatus doloribus aegris;
at nos horrifico cinefactum te prope busto
insatiabiliter deflevimus, aeternumque
nulla dies nobis maerorem e pectore demet.’
illud ab hoc igitur quaerendum est, quid sit amari
tanto opere, ad somnum si res redit atque quietem,
cur quisquam aeterno possit tabescere luctu.
Hoc etiam faciunt ubi discubuere tenentque
pocula saepe homines et inumbrant ora coronis,
ex animo ut dicant: ‘brevis hic est fructus homullis;
iam fuerit neque post umquam revocare licebit.’
tam quam in morte mali cum primis hoc sit eorum,
quod sitis exurat miseros atque arida torrat,
aut aliae cuius desiderium insideat rei.
nec sibi enim quisquam tum se vitamque requiret,
cum pariter mens et corpus sopita quiescunt;
nam licet aeternum per nos sic esse soporem,
nec desiderium nostri nos adficit ullum,
et tamen haud quaquam nostros tunc illa per artus
longe ab sensiferis primordia motibus errant,
cum correptus homo ex somno se colligit ipse.
multo igitur mortem minus ad nos esse putandumst,
si minus esse potest quam quod nihil esse videmus;
maior enim turbae disiectus materiai
consequitur leto nec quisquam expergitus extat,
frigida quem semel est vitai pausa secuta.
Denique si vocem rerum natura repente.
mittat et hoc alicui nostrum sic increpet ipsa:
‘quid tibi tanto operest, mortalis, quod nimis aegris
luctibus indulges? quid mortem congemis ac fles?
nam [si] grata fuit tibi vita ante acta priorque
et non omnia pertusum congesta quasi in vas
commoda perfluxere atque ingrata interiere;
cur non ut plenus vitae conviva recedis
aequo animoque capis securam, stulte, quietem?
sin ea quae fructus cumque es periere profusa
vitaque in offensost, cur amplius addere quaeris,
rursum quod pereat male et ingratum occidat omne,
non potius vitae finem facis atque laboris?
nam tibi praeterea quod machiner inveniamque,
quod placeat, nihil est; eadem sunt omnia semper.
si tibi non annis corpus iam marcet et artus
confecti languent, eadem tamen omnia restant,
omnia si perges vivendo vincere saecla,
atque etiam potius, si numquam sis moriturus’,
quid respondemus, nisi iustam intendere litem
naturam et veram verbis exponere causam?
grandior hic vero si iam seniorque queratur
atque obitum lamentetur miser amplius aequo,
non merito inclamet magis et voce increpet acri:
‘aufer abhinc lacrimas, baratre, et compesce querellas.
omnia perfunctus vitai praemia marces;
sed quia semper aves quod abest, praesentia temnis,
inperfecta tibi elapsast ingrataque vita,
et nec opinanti mors ad caput adstitit ante
quam satur ac plenus possis discedere rerum.
nunc aliena tua tamen aetate omnia mitte
aequo animoque, age dum, magnis concede necessis?’
iure, ut opinor, agat, iure increpet inciletque;
cedit enim rerum novitate extrusa vetustas
semper, et ex aliis aliud reparare necessest.
Nec quisquam in baratrum nec Tartara deditur atra;
materies opus est, ut crescant postera saecla;
quae tamen omnia te vita perfuncta sequentur;
nec minus ergo ante haec quam tu cecidere cadentque.
sic alid ex alio numquam desistet oriri
vitaque mancipio nulli datur, omnibus usu.
respice item quam nil ad nos ante acta vetustas
temporis aeterni fuerit, quam nascimur ante.
hoc igitur speculum nobis natura futuri
temporis exponit post mortem denique nostram.
numquid ibi horribile apparet, num triste videtur
quicquam, non omni somno securius exstat?
Atque ea ni mirum quae cumque Acherunte profundo
prodita sunt esse, in vita sunt omnia nobis.
nec miser inpendens magnum timet aëre saxum
Tantalus, ut famast, cassa formidine torpens;
sed magis in vita divom metus urget inanis
mortalis casumque timent quem cuique ferat fors.
nec Tityon volucres ineunt Acherunte iacentem
nec quod sub magno scrutentur pectore quicquam
perpetuam aetatem possunt reperire profecto.
quam libet immani proiectu corporis exstet,
qui non sola novem dispessis iugera membris
optineat, sed qui terrai totius orbem,
non tamen aeternum poterit perferre dolorem
nec praebere cibum proprio de corpore semper.
sed Tityos nobis hic est, in amore iacentem
quem volucres lacerant atque exest anxius angor
aut alia quavis scindunt cuppedine curae.
Sisyphus in vita quoque nobis ante oculos est,
qui petere a populo fasces saevasque secures
imbibit et semper victus tristisque recedit.
nam petere imperium, quod inanest nec datur umquam,
atque in eo semper durum sufferre laborem,
hoc est adverso nixantem trudere monte
saxum, quod tamen [e] summo iam vertice rusum
volvitur et plani raptim petit aequora campi.
deinde animi ingratam naturam pascere semper
atque explere bonis rebus satiareque numquam,
quod faciunt nobis annorum tempora, circum
cum redeunt fetusque ferunt variosque lepores,
nec tamen explemur vitai fructibus umquam,
hoc, ut opinor, id est, aevo florente puellas
quod memorant laticem pertusum congerere in vas,
quod tamen expleri nulla ratione potestur.
Cerberus et Furiae iam vero et lucis egestas,
Tartarus horriferos eructans faucibus aestus!
qui neque sunt usquam nec possunt esse profecto;
sed metus in vita poenarum pro male factis
est insignibus insignis scelerisque luela,
carcer et horribilis de saxo iactus deorsum,
verbera carnifices robur pix lammina taedae;
quae tamen etsi absunt, at mens sibi conscia factis
praemetuens adhibet stimulos torretque flagellis,
nec videt interea qui terminus esse malorum
possit nec quae sit poenarum denique finis,
atque eadem metuit magis haec ne in morte gravescant.
hic Acherusia fit stultorum denique vita.

Padrão
poesia

Rodrigo Gonçalves (1981-)

 

14045671_331249307264663_1548994486688430252_n

Foto de Gabriela Leão.

Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú, 1981) é professor de Língua e Literatura Latina na Universidade Federal do Paraná, além de tradutor e ensaísta. Atualmente ocupa também o cargo diretor da Editora UFPR. Publicou em 2015 o livro Performative Plautus: Sophistics, Metatherater and Translation e organizou a obra A Comédia e seus duplos: o Anfitrião de Plauto, publicada em 2017, pela Koetter Editorial. Com Guilherme Gontijo Flores e Rafael Dabul, publicou em 2017 o livro Algo infiel: corpo performance tradução (Cultura e Barbárie/n-1). É membro fundador do grupo de performace tradutória Pecora Loca. Ainda é inédito em livro.

 

sergio maciel

* * *

 

tem algo na vazante do orifício que se adumbra no penoso fímbrio calcutado no …..penhasco
tem algo que se encera no tonante perfurar do céu intenso azul polar
tem algo na linguagem do penhasco militar que enfrenta vasos do vermelho que …..ancestral
tem algo intenso austero no verbera-se entroncado no orifício
tem algo de cheirar que adentra a venta suprimindo ocaso velho pirilampo magiar
tem algo solta fosco no bolero enternecido fugaz tem
algo que se esconde nos escombros seculares do recurso alveolar
tem algo que se encrava no orifício pendular que solta farpas nas vidraças
……………tem
algo que atropela a deus dará e ao fim e ao cabo isenta tem algo
tem algo que de algo se faz alto no entrementes do vagar no mundo auspício
estranho algo tem algo tem muito tem mais que algo que soçobra
tem algo na circunferência dessa terra que se encontra ao circundar tem
algo nesse drama que anuncia que algo tem algo não

tem algo

§

 

verme

respirando devagar dissolve o sopro
rareia o ar que insopra alento morno
no corpo que imediato vaza o quente e se enrijece
esfria e ganha a cor que só cadáver tem
nasce um algodão na boca e em outros orifícios
na espera longa pela tampa de madeira enquanto lágrimas
são insuficientes pra hidratar a pele
já mumificada em ocre-cinza
a tampa fecha, cai a caixa
buraco torna-se só terra
daquilo que envolvia os algodões começa a brotar verme
que tateia rasteja se enfia no vão da pálpebra
o eterizado asséptico vira chorume
o toque do recém-nascido verme torna tudo
de volta ao pó que veio, terra, húmus
o verme então é responsável pela decomposição
dos átomos compostos com tamanho empenho
reorganizando-se de volta ao universo
a terra permanece, recebe novo aporte
de matéria-prima

 

§

 

axioma

tal qual paroxismo, hipóstase,
anátema, zeugma, apócope,
hipoclorito
osteogênese imperfeita
……tanatofórica
golpe, glande, corpo cavernoso,
é palavra que ninguém entende
nem quer ter que usar boca língua dente pra falar.

mas que lá na fonte é fonte de autoritarismo
e ortodoxia,
e a ortopraxia ocidental
nos ensina que não se pode questionar sentido
sob pena de incorrer em
petição de princípio

metástase, gangrena
então amém e aleluia
rosana nas alturas
proceleusmática
jônica maior
como uma deusa.

§

 

unha

serve pra rachar e se enroscar em fios que de outra forma jamais existiriam
que vêm a ser para esta única finalidade
pra cair no futebol ou na primeira maratona ou no cuidadosamente
localizado chute involuntário em pé de cama
serve pra escavar as cavidades
apaziguando momentaneamente comichões
serve pra crescer depois que os movimentos
involuntários cessam
deixando inexplicado o acordo de cooperação entre orgânico e inorgânico
do qual parece ser partícipe também a coma, vasta ou rala
serve pra arrancar com alicate em caso de tortura
sendo este o caso em que se exemplifica, no perfazer das partes que a compõem
o supracitado cessar dos movimentos involuntários.

 

Padrão
tradução

De Rerum Natura de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

lucretius_drawn_by_michael_burghers

Gravura de  Michael Burghers

tito caro lucrécio (99 a.C. – 55 a.C.) já apareceu por aqui, em tradução de mario domingues (clique aqui). naquela ocasião, trouxemos um excerto do livro vi, conhecido também como o “livro do clima e da terra”. agora, outro excerto (III, vv. 417-505) vem à luz, desta vez do livro iii, ou “livro da mortalidade e da alma”, em tradução rítmica de rodrigo tadeu gonçalves.

rodrigo vem trabalhando nos mais de 7 mil hexâmetros do poeta latino há dois anos. por falta de tempo e por não querer mais se autoplagiar, o tradutor não pôde escrever uma introdução à tradução ora apresentada. todavia, pediu que fosse deixado aqui, ao acesso de texto, um texto seu sobre o poema épico (clique aqui).

cumprido estando o pedido, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

 

Vamos, então, pra que possas saber que as ânimas leves
e os ânimos são mortais e nativos nos seres
vivos, perseguirei os achados em doces labores
e os disporei em versos dignos de tua vida. 420

Faz com que juntes ambos sob um único nome
e, por isso, quando eu disser da ânima que ela
é mortal, poderás conceber que do ânimo falo
na medida em que ambos formam uma única coisa.

Em princípio, como ensinei que ela é tênue e consiste
de diminutos corpos, princípios muito menores
do que o líquido humor da água ou mesmo que a névoa
ou que a fumaça, pois longe em mobilidade os excede
e se move bem mais se tocada por tênue causa,
move-se mesmo tocada de imagens de fumo e de névoa. 430
Quando, pois, tomados de sono nós vimos ao alto
exalarem vapores altares, os fumos levando,
não há dúvida alguma, vêm-nos os simulacros;

E se de vasos chacoalhados pra todos os lados
vês fugir todo o humor e a água se espalha efluindo,
e se também a névoa e o fumo dispersam-se aos ares
crê tu que a ânima efunde-se e muito mais rápido esvai-se,
muito mais veloz dissolvendo-se em corpos primevos
logo que seja afastada dos membros dos corpos dos homens.
Mais, como o corpo, que é como se fosse pra ânima um vaso 440
vês que não pode contê-la, por algo concussionado
ou rarefeito, com sangue todo vazando das veias,
como crerias que pode ela ser coibida por ares,
já que esses ares do que os nossos corpos são bem mais esparsos?

Nós percebemos, também, que juntamente com o corpo
nasce a mente, e ao mesmo tempo cresce e envelhece.
Pois, assim como o infante vaga com tenro e infirme
corpo, também segue assim da ânima a tênue sentença.
Quando, pois, adolesce a idade em robusta virência,
cresce o conselho e maior é da ânima a verve. 450
Pós, quando, já chacoalhado por forças ferozes do tempo
nosso corpo, nos falham os membros com feras feridas,
claudicando o engenho, a língua delira e a mente,
tudo é deficiente e desaba e de súbito falta.

Logo, também convêm que da ânima toda a natura,
tal como o fumo, dissolva nas altas auras dos ares.
Já que junto nasce e cresce conjunta com o corpo,
vimos, e tal como expus, com ele sucumbe ao cansaço.
Segue-se então que vejamos que, tal como o corpo ele mesmo
é suscetível de imanes morbosidades e duras 460
dores, assim ao ânimo as acres agruras e o luto;
por tal motivo convém que lhe seja partícipe em morte.

Pois, como sempre em mórbido corpo ínvio vagueia
o ânimo, e fala somente delírios de língua demente,
e, vez ou outra, em letargo tremendo se deixa ir a um alto
sono, e eterno, cadente a cabeça, olhos pesados,
donde nem pode exaurir as vozes, vultos não vendo,
nem pode reconhecê-los à vida invocando de volta,
circunstantes, a lágrima rola – orvalho dos olhos.
Deve-se então admitir que o ânimo enfim se dissolve 470
quando quer que nele penetrem contágios do morbo.
Pois são a dor e o morbo ambos fabricadores da morte –
nisso somos perdoutos diante do exício de muitos.

Sigo: por quê, quando a um homem a verve do vinho penetra,
acre, e em meio às veias o ardor distribui-se, disperso,
segue-se gravidade, vacilam e trançam-se as pernas,
entardesce-se a língua, a mádida mente se mela,
nadam os olhos, soluços, clamores e tretas escalam, 480
desse gênero ainda outras coisas logo se seguem?
Qual é a causa, se não que a veemente violência do vinho
pode e costuma aturdir a ânima dentro do corpo?
Se algo pode ser assim aturdido e impedido,
nos significa que se uma causa um pouco mais dura
nele insinua-se, perecerá sem sua posteridade.

Mais ainda, se alguém, coagido de súbito morbo
diante dos nossos olhos, tal como atingido de um raio,
cai e baba espuma, geme e treme nos membros,
pira, retesa seus nervos, contorce-se, ofega anelante, 490
inconstante e em tais convulsões os seus membros fadiga.
Não é de se admirar: destroçadas as juntas e membros
pela verve do morbo, a ânima turba as espumas,
como no mar as ondas fervilham com a verve do vento.
Mais ainda, o gemido se exprime por conta dos membros
inflamados de dor e, principalmente, por conta
das sementes da voz que se lançam pra fora da boca
aglomeradas, pela via usual, em conjunto.

É quando a verve do ânimo-ânima é conturbada
que a loucura se faz, como já ensinei; de si mesma 500
é destroçada, divide-se pelo mesmo veneno.
Quando, porém, já retrocede a causa do morbo
e o acre humor do corpo corrupto volta pras sombras,
ergue-se, então, como se vacilante primeiro e então todos,
pouco a pouco, seus sentidos a ânima acolhe.

(tradução de rodrigo gonçalves)

 

Nunc age, nativos animantibus et mortalis
esse animos animasque levis ut noscere possis,
conquisita diu dulcique reperta labore
digna tua pergam disponere carmina vita. 420
tu fac utrumque uno sub iungas nomine eorum
atque animam verbi causa cum dicere pergam,
mortalem esse docens, animum quoque dicere credas,
quatenus est unum inter se coniunctaque res est.
Principio quoniam tenuem constare minutis
corporibus docui multoque minoribus esse
principiis factam quam liquidus umor aquai
aut nebula aut fumus – nam longe mobilitate
praestat et a tenui causa magis icta movetur;
quippe ubi imaginibus fumi nebulaeque movetur. 430
quod genus in somnis sopiti ubi cernimus alte
exhalare vaporem altaria ferreque fumum;
nam procul haec dubio nobis simulacra geruntur –
nunc igitur quoniam quassatis undique vasis
diffluere umorem et laticem discedere cernis
et nebula ac fumus quoniam discedit in auras,
crede animam quoque diffundi multoque perire
ocius et citius dissolvi <in> corpora prima,
cum semel ex hominis membris ablata recessit.
quippe etenim corpus, quod vas quasi constitit eius, 440
cum cohibere nequit conquassatum ex aliqua re
ac rarefactum detracto sanguine venis,
aere qui credas posse hanc cohiberier ullo,
corpore qui nostro rarus magis incohibens sit?
Praeterea gigni pariter cum corpore et una
crescere sentimus pariterque senescere mentem.
nam velut infirmo pueri teneroque vagantur
corpore, sic animi sequitur sententia tenvis.
inde ubi robustis adolevit viribus aetas,
consilium quoque maius et auctior est animi vis. 450
post ubi iam validis quassatum est viribus aevi
corpus et obtusis ceciderunt viribus artus,
claudicat ingenium, delirat lingua, <labat> mens,
omnia deficiunt atque uno tempore desunt.
ergo dissolui quoque convenit omnem animai
naturam, ceu fumus, in altas aeris auras;
quandoquidem gigni pariter pariterque videmus
crescere et, <ut> docui, simul aevo fessa fatisci.
Huc accedit uti videamus, corpus ut ipsum
suscipere immanis morbos durumque dolorem, 460
sic animum curas acris luctumque metumque;
quare participem leti quoque convenit esse.
quin etiam morbis in corporis avius errat
saepe animus; dementit enim deliraque fatur
interdumque gravi lethargo fertur in altum
aeternumque soporem oculis nutuque cadenti,
unde neque exaudit voces nec noscere voltus
illorum potis est, ad vitam qui revocantes
circumstant lacrimis rorantes ora genasque.
quare animum quoque dissolui fateare necessest, 470
quandoquidem penetrant in eum contagia morbi.
nam dolor ac morbus leti fabricator uterquest,
multorum exitio perdocti quod sumus ante.
[et quoniam mentem sanari, corpus ut aegrum
et pariter mentem sanari corpus inani]
denique cur, hominem cum vini vis penetravit
acris et in venas discessit diditus ardor,
consequitur gravitas membrorum, praepediuntur
crura vacillanti, tardescit lingua, madet mens,
nant oculi, clamor singultus iurgia gliscunt, 480
et iam cetera de genere hoc quaecumque sequuntur,
cur ea sunt, nisi quod vemens violentia vini
conturbare animam consuevit corpore in ipso?
at quaecumque queunt conturbari inque pediri,
significant, paulo si durior insinuarit
causa, fore ut pereant aevo privata futuro.
quin etiam subito vi morbi saepe coactus
ante oculos aliquis nostros, ut fulminis ictu,
concidit et spumas agit, ingemit et tremit artus,
desipit, extentat nervos, torquetur, anhelat 490
inconstanter, et in iactando membra fatigat.
nimirum quia vi morbi distracta per artus
turbat agens anima spumas, <ut> in aequore salso
ventorum validis fervescunt viribus undae.
exprimitur porro gemitus, quia membra dolore
adficiuntur et omnino quod semina vocis
eiciuntur et ore foras glomerata feruntur
qua quasi consuerunt et sunt munita viai.
desipientia fit, quia vis animi atque animai
conturbatur et, ut docui, divisa seorsum 500
disiectatur eodem illo distracta veneno.
inde ubi iam morbi reflexit causa reditque
in latebras acer corrupti corporis umor,
tum quasi vaccillans primum consurgit et omnis
paulatim redit in sensus animamque receptat.

(lucrécio, de rerum natura, ed. cyril bailey, 1910)

Padrão
poesia

“Dora”, de Rodrigo Tadeu Gonçalves

Noite de São João, de Alberto da Veiga Guignard

Noite de São João, de Alberto da Veiga Guignard

rodrigo, meu irmão de perto, gabi, minha irmã, oli, minha quase-filha,

algumas datas são impossíveis, porque têm de ser tudo entrelaçado, entre dor e alegria, o último fio da dora, o primeiro ano do dante, nossos entreafilhados, amores partilhados que a gente leva adiante, com ou sem silêncio. não sei muito o que dizer, só que acredito mesmo que o amor seja revolucionário, o amor pelos nossos mortos, pelos nossos vivos, porque todos seguem vivos conosco, no baixo profundo da casca do afeto; acredito que seja revolucionário porque convulsiona as nossas vidas o tempo inteiro e nos salva da banalidade que a vida tantas vezes é.

sinto falta da dora, uma falta que me dá no corpo mesmo, e só posso imaginar uma centelha do que atravessa vocês. sinto um afeto forte por esses poemas do rodrigo, que — acho de verdade — tocam ainda além de tudo que precisamos viver com a dora.

amo vocês.

guilherme gontijo flores

* * *

o sofrimento se agastou nos recônditos cardíacos

o sofrimento se agastou nos recônditos cardíacos
fez mansões mansardas ilhargas promontórios
e afeito ao pouco espaço
do torpor
acostumou-se às vagas da oxigenação
criou raiz tão forte que, insentido,
criou topografias insensíveis
insensificou
e aí ficou.

***

a dor de uma criança interrompida

antes, nada
enquanto, tudo e mais
depois, eternidade
a vida é o que acaba quando vai.

***

dora

enorme nobre vida de cabelo arrepiado
que fala tudo em olho arregalado
num ser gigante que mal cabe nos seus ossos
que vem e vai tão rápido que dói
que vive mais que oitenta anos em dois meses
presente ao mundo, ausente agora
pequena flor que

§

dora II

a morte é natural,
a vida acaba.
ficam as palavras,
todas, que a gente queria te dizer, que a gente disse,
que afundam no recôndito soluço
que insiste em não sair.
se nada vem do nada e nada vai pro nada,
de onde você veio, flor,
pra onde foi?

03/09/2015

§

dora III

nem dois meses
aqui.
duas fogueiras
no frio de são joão.
contigo.

outra ainda que te levou,
nem pude ver.
sobraram cinzas.

hoje, em volta
do fogo sagrado,
terceira vez envolto,
canto de novo:
são joão
são joão
acende a fogueira
do meu coração.

25/06/2016

§

dora IV

nomen –

presente
que dói

– omen

§

dora V

senta aqui que a gente precisa conversar. to aqui na metade da minha vida, ou mais e você, na metade da sua, ou menos, mais um ano. tenho muito pra te dizer, mas preciso que você me entenda. 53 dias não são suficientes. queria te dar conselhos, rir.

você não conseguia entender, e hoje você não estar aqui não impede que eu não não diga. queria contar. de quando soube que você viria até quando soube que você seria uma anã, e depois não seria uma anã, mas que teria ossos de cristal, de vidro. e depois que talvez nem pudesse respirar fora da sua mãe.

e depois que nasceu. e que eu chorei porque achei que você ia ficar aqui. até depois de nós. mas você foi. sem entender o que eu dizia e sem eu conseguir dizer. depois do frio do inverno, depois dos seus ossos moles, depois de aceitarmos que toda nossa vida seria sua,

você desafiou o mistério
e parou de respirar.

Padrão
crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

O urubu, de Edgar Allan Poe – uma tradução-exu

tumblr_urubu rei

“The Raven”, de Edgar Allan Poe, é uma das peças fundamentais da modernidade poética, que costuma ver seu auge na obra de Baudelaire (que traduziu a obra de Poe ao francês); mais que isso, “The Raven” é um poema repetidamente traduzido e comentado em língua portuguesa, um texto que já passou pelas mãos de Machado de Assis, Fernando Pessoa e Haroldo de Campos, dentre tantos outros, e que encarna uma certa noção do que é poesia moderna. Trata-se de uma pedra de toque, pela ourivesaria do verso obsessivo, bem como pelo enfrentamento de um eu-lírico diante da falta de sentido que a morte apresenta. A importância da forma do poema já foi bem demonstrada pelo próprio Poe em seu ensaio “Filosofia da composição”, onde explicou como tinha criado o poema; e tudo indica que essa apresentação formal do próprio Poe moldou parte significativa de sua recepção.

No entanto, poderíamos fazer uma pergunta crucial: é possível a recriação obsessiva de uma forma poética ir além do servilismo que diviniza o original? Não seria mesmo isso o que poderíamos supor a partir das críticas à tradução de Fernando Pessoa (poeta que mais emulou a forma do original), que insistem em nos lembrar como as rimas em -ais seriam mais abertas e, portanto, menos pesadas e soturnas do que as rimas em -ore? Daí as visões de intraduzibilidade, que caem num simbolismo fonético intransponível: para elas, no limite, o original é santo e intocável; toda tradução pode, no máximo, emular o que se perde. Mas e se a recriação obsessiva da forma for em si uma forma de perversão? Se -ore anunciava o horror diante da falta de sentido da morte, seria possível rimar ainda mais fechado? O que estaria em jogo nessa escolha, ou na recriação do ritmo original? Tendo inúmeras vezes compulsado as versões de outrora de Machado e de Pessoa, este poema nos semblava intraduzível. Mas a pulga atrás da orelha se acendia igual centelha lamentando a eterna falta de uma bela rima em –u.

Se, por um lado, a insistência na recuperação estrita feita por Pessoa das estrofes em octonários trocaicos e septenários trocaicos cataléticos e das complexas rimas internas em posições de cesuras hemistíquias de Poe* nos parece demasiado servil e, por conta dessa mesma obsessão, perder a força das vogais médio-altas arredondadas das inúmeras rimas ominosas em -ore — o que corroboraria a ideia de que uma tradução perfeita não existe —, a própria percepção dessa impossibilidade da perfeição tradutória imanente nos instiga a partir da falta, da impossibilidade de rimar nevermore com nuncamais, e, aceitando perder justamente o sentido — noteucu não é a mesma coisa que nuncamais — fazemos a mesma recuperação: ritmo, rimas, forma. Mas algo mudou.

A escolha de urubu e noteucu, à primeira vista, parece mero jogo (pré-)adolescente de prazer escatológico. Mas a tradução como paródia é também possibilidade de política. No poema original de Poe, já víamos o germe de um homem branco burguês romântico que lamentava a morte de sua amada angélica (Lenore=nevermore), porém enfrentado pelo mote antiaristotélico do discurso nevermore do corvo. Aliás, não podemos nos furtar a aceitar que, se o sentido se constrói no ponto da recepção, não conseguimos mais ler este poema de Poe sem pensar e visualizar as várias camadas de (pseudo)paródia propostas por artistas ricos, complexos e muito diversos como Sopor Aeternus e Tim Burton. Seria possível, no entanto, ver nessa insistência de um animal já elevado na literatura fúnebre e na palavra evocada, nevermore, um apelo à transcendência: “nunca mais” se iguala a “mais além”. Mas um raven pouco diz para a cultura latino-americana, assim como o frio de dezembro nos parece paradoxal; por isso, o deslocamento de raven em urubu é também a desmistificação transcendental das identidades animais (Lévi-Strauss nos mostra com os mitos da raposa na América do Sul refletem os mitos do coiote na América do Norte — haveria uma traduzibilidade mítica entre corvo e urubu?). Mas o urubu nos leva além na imanência, sugere uma possibilidade de reversão anticolonial (contra o colonialismo norte-americano), já que sempre foi um animal associado ao negro, escravo, social-sexual-simbolicamente oprimido; sua insistência em pousar sobre o busto de Palas Atena (deusa da filosofia e símbolo da democracia ateniense/ocidental), num gesto arrogante de contrassentido**, pode ganhar ainda mais com um insistente “noteucu” (Lulu=noteucu) — nome, palavra, frase — que, tal como nevermore, desregula as expectativas racionais; porém, para além do apontamento ao nunca mais, “noteucu” rompe as cadeias do sentido e termina a conversa nunca iniciada; “noteucu”, nome e mote do urubu, é também uma resposta via tradução aos nossos modelos colonizados de saber, corresponde a uma recusa do branco filosófico transcendental — tradução-exu.

Este risco de tradução paródica se deseja ao mesmo tempo como homenagem e perversão. O ritmo rímico do raven de Poe, recriado com toda obsessão formal, como abertura do sentido, como chance de reversão desse mesmo sentido. Urge o urubu do corvo-Poe. Pra quem pensava que, dada a tanta bela e intocável tradição, nunca mais dever-se-ia — assim, na mesóclise golpista — refazer.

Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves

PS: Esta tradução não aconteceria sem uma conversa ominosa com nossos alunos Sérgio, Guilherme, Mariana, Diego  e João. A eles o nosso agradecimento.

Notas

* — u — u — u — u | — u — u — u — u
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u — u | — u — u — u — u
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u — u | — u — u — u —
— u — u — u —
[— = sílaba tônica; u = sílaba átona; | = cesura obrigatória]

**Antecipando, em uma cadeia construída por “discourse”, “meaning”, “relevancy” (nona estrofe), mais de um século de estudos das teorias linguísticas, em uma teleologia que envolve a cadeia filologia > estruturalismo > discurso > pragmática > cognição. O discurso do corvo/urubu, ao mesmo tempo que sugere uma teoria contemporânea da relevância discursiva, desestabiliza a relação entre signo/significante e significado/uso/recepção na resposta agourenta do eu-lírico.

* * *

O URUBU

(Edgar Allan Poe, trad. Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves)

Meia noite em meu terreiro — eu cansado e já cabreiro
compulsava por inteiro velhos livros de vodu;
já pescava, adormecendo, quando ouvi alguém batendo,
gentilmente me rangendo, range em meu vestíbulo.
“Deve ser uma visita junto ao meu vestíbulo”,
eu dizia “sem rebu”.

Eu me lembro com desgosto, num moroso mês de agosto,
quando o fogo no seu posto fenecia ainda cru;
e eu varava a noite escura procurando na leitura
um remédio para dura, dura falta de Lulu —
essa moça radiante – nome angélico – Lulu,
jaz num pouso anônimo.

E a sedosa triste sina que corria na cortina
já me invade e me alucina com pavor de algum exu,
quando o coração batia, e eu, corado, repetia:
“É visita em noite fria junto ao meu vestíbulo,
só visita que tardia bate em meu vestíbulo,
é só isso, sem rebu”.

Mas então fiquei mais forte, mais altivo no meu porte
“Moço ou moça, me desculpa, peço por obséquio;
fato é que eu, adormecendo, vem você aqui batendo
de levinho aqui rangendo e range em meu vestíbulo,
mal ouvi, abri a porta” – aqui do meu vestíbulo,
só o escuro, sem rebu.

Nesse escuro tão profundo, resto triste e tremebundo,
duvidando dos demônios que podiam dar chabu;
mas silêncio ali reinava e mais parado o ar ficava
e esse som que martelava, era o nome da “Lulu”?
Sussurrei o nome dela e ouço o eco, só “Lulu” –
simples, isso, sem rebu.

Para dentro já voltando, toda a alma me queimando,
logo escuto alguém batendo, pulo feito um cururu.
“Deve ser vento que encana e passa na veneziana;
anda logo, desencana, e já desfaço todo o angu,
fico calmo num instante e já desfaço todo o angu;–
foi o vento, sem rebu!”

Abro a tranca da janela sem deixar de pensar nela,
ali pousa, majestoso belo, arcaico – um urubu;
não fez gesto de respeito, só pousou no parapeito,
com orgulho no seu peito; e eu no meu vestíbulo
vejo o ser empoleirar-se em Palas no vestíbulo,
repousando sem rebu.

Esse bicho tez-noturna logo alegra a dor soturna
com o sério e decoroso ar de um ser impávido.
“Tua crista sem alarde diz que tu não és covarde,
urubu da cinza tarde dessa eterna noite azul,
dize enfim qual é teu nome na plutônia noite azul!”
Urubu diz: “Noteucu”.

Galináceo petulante, se pasmei de o ver falante,
seu discurso irrelevante pareceu ridículo.
Ora, vamos e venhamos, que jamais nós encontramos,
nesta vida que levamos, ave num vestíbulo –
bicho ou besta sobre um busto belo no vestíbulo,
com tal nome: “Noteucu”.

E o urubu tão solitário sem sequer um dicionário
inseria a sua alma nesse termo críptico.
Sem palavras mais amenas, nem mexia suas penas,
murmurei a duras penas: “Aves passam sem tabu,
passam todas esperanças que guardei no meu tabu”.
A ave insiste “Noteucu”.

Assustado pela rara intervenção que me tomara,
eu falei “O que essa fera fala vem do seu baú,
que algum dono distraído, desastrado e destruído
ensinara por ruído em canto melancólico,
‘té que em desespero resta o canto melancólico:
‘Noteucu’ e ‘Noteucu’”.

E o urubu de tez noturna logo alegra a dor soturna,
e eu me sento em frente a busto e besta em meu vestíbulo.
Me afundei nessa cadeira e meditei uma hora inteira
sobre a fala sobranceira e ominosa do urubu
sobre o som insano, seco e ominoso do urubu
com aquele “Noteucu”.

Eu me engajo matutando, som nenhum articulando
para a fera cujos olhos cravam meu espírito;
e eu pensava nisso tudo com o couro cabeludo
na almofada de veludo sob a luz de um abajur;
ela sobre esse veludo, sob a luz desse abajur
nunca mais porá o cu!

Pareceu-me o ar mais denso perfumado por incenso
que algum anjo ali passando porta em seu turíbulo.
“Deus mandou-te de repente por um anjo penitente
como alívios e nepente pras lembranças de Lulu;
Bebe, bebe o bom nepente, esquece a morte da Lulu!”
O urubu diz “Noteucu”.

“Mau profeta, ó ser trevoso!–seja bicho ou o tinhoso!–
se te trouxe um tentador ou se és de longe um náufrago,
desolado mas ousado, neste deserto encantado,
num castelo enfeitiçado – conta, por obséquio –
Tem alívio em Gileade? Diz, diz, por obséquio!”
“Tem alívio Noteucu.”

“Mau profeta, ó ser trevoso! – seja bicho ou o tinhoso! –
Pelo santo paraíso – por bom Deus ou por Jesu –
dize ao peito que hoje impedem dores, lá no arcaico Éden
onde encontra quanto pede, em nome angélico, Lulu,
onde encontra alguma sede, em nome angélico, Lulu.”
O urubu diz “Noteucu”.

“Que isso seja a despedida!”, eu gritei, “Ave atrevida,
vai, retorna à tempestade da plutônia noite azul!
Não me deixes pluma rude da mentira que me ilude!
Deixa a minha solitude! Sai do meu vestíbulo!
Tira o bico deste peito e some do vestíbulo!”
O urubu diz “Noteucu”.

E o urubu jamais revoa, mas repousa nessa proa
sobre o busto da alva Palas junto ao meu vestíbulo;
no seu olho já centelha algum demônio que se espelha,
e a lanterna agora velha lança a sombra do urubu,
e minha alma dessa sombra persistente do urubu
se liberta? Noteucu!

Padrão
crítica, crítica de tradução, poesia, tradução

A adormecida – Poe

Poe (1809 – 1849), como deixou claro um post anterior aqui no escamandro, escrito pelo Vinicius Ferreira Barth sobre o poema “O Corvo”, é um autor que dispensa apresentações. Todos sabem quem ele é, etc. Mas há algo de curioso no modo como recebemos a obra de Poe. Em vida, ao que tudo indica, ele era mais conhecido como crítico do que como autor, e, depois de morto, os esforços de seu inimigo, Rufus Griswold – que se tornou, ironicamente, algo como o detentor dos seus direitos autorais –, para manchar sua reputação, tiveram um sucesso considerável nos EUA. Mas seus contos de mistério e o poema do Corvo encontraram um solo fértil nas imaginações dos simbolistas franceses, de Baudelaire a Mallarmé, seus maiores defensores no século XIX – e o resto é história. Não consigo deixar de achar curiosíssimo o modo como essa questão da recepção parece antecipar o que aconteceria, no cinema, com Hitchcock no século XX, i.e. ele foi visto mais ou menos como “mais um cineasta lançando um filminho de suspense todo ano”, mas outra vez quem veio a reconhecer algo de genial nele foram os franceses, no caso o pessoal dos Cahiers du cinéma, o que incluía os que viriam a ser os diretores da Nouvelle Vague, como Godard, Truffaut, etc. Nos dois casos, temos um americano mórbido (e possivelmente com uma fixação por aves) não sendo levado a sério em sua terra natal, mas precipitando um movimento inovador via seus leitores franceses. Mas, tudo bem, esta digressão me parece assunto para ser desenvolvido em outra discussão e por alguém mais versado no assunto do que eu.

O ponto em que eu queria chegar é que, apesar de Poe ser conhecido pelos seus contos de mistério (e não tanto, por exemplo, por contos satíricos como “O Milésimo Segundo Conto de Xerazade”) e pelo poema “O Corvo” (bem como pelo seu ensaio que o acompanha, a “Filosofia da Composição”), não me parece que a lírica dele em geral seja das mais lidas. Imagino que ela possa soar “romântica” demais talvez aos ouvidos modernos, que haja algo nessa musicalidade fácil que nos atinge como ingênuo e que escritores como Huxley ou Yeats viram como “vulgar”. Outra vez, no entanto, a questão da perspectiva é importante. Tendo sido nós mesmos formados tanto por Poe quanto por outros românticos como leitores (e certamente algo de sua influência deve partir dele para os franceses e para a poesia moderna), talvez seja por isso que seja difícil de enxergar o que exatamente faz com que ele seja relevante. A crítica parece dividida quanto a isso. Harold Bloom publicou um ensaio dos mais infames no New York Review of Books há 30 anos chamado “Inescapable Poe”, em que o condena de forma brutal, como parte, ao que tudo indica, de sua própria frustração por não conseguir gostar de um autor que permanece longevo e, a contragosto de Bloom, poderíamos dizer, canônico. Já Northrop Frye vai na contramão e o usa, inclusive, em sua Anatomia da Crítica, para ilustrar diversos exemplos de uma poética mitopeica (outro termo, ironicamente, importante para Bloom). Joseph Adamson, professor de literatura comparada na McMaster University em Hamilton, Ontario, e autor de um livro sobre Frye intitulado Northrop Frye: A Visionary Life, resume do seguinte modo a visão do crítico sobre a lírica de Poe:

O mais significativo, talvez, na Anatomia da Crítica, é a importância crucial de Poe para a elucidação de Frye da “criação rítmica da beleza”, para usar o termo de Poe, isto é, o ritmo discontínuo e oracular da poesia lírica como um gênero distinto do verso, um gênero que se torna autônomo e ascendente somente nos últimos dois séculos. Num contraste evidente a críticos como Harold Bloom, cujo ensaio de 1984 sobre Poe publicado no New York Review of Books, com seu desdém simplista, é um caso egrégio do quanto são obtusos.aqueles a quem Wilbur chama de “resistentes a Poe”. Frye vê Poe como sendo, senão um grande poeta lírico, pelo menos, no mínimo, um dos fundadores importantes do domínio da lírica, ligando, por exemplo, suas improvisações métricas a experimentos semelhantes em T. S. Eliot, entre outros. O mais importante para Frye é a articulação lúcida de Poe ao princípio da intensidade fragmentária presente em boa parte da escrita pós-romântica. Frye observa que há um anarquismo caracteristicamente americano em Poe, sendo “difícil fazer jus à sua significância como um portento de muitos aspectos da literatura contemporânea. Poe escreveu um ensaio intitulado ‘O Princípio Poético’ em que afirma que um poema longo era uma contradição em termos, que todos os poemas de qualidade genuína consistiam de momentos de intensa experiência poética unidos a tecidos conjuntivos de narrativa ou argumentação que seriam, na verdade, prosa versificada”. Essa doutrina cabe à narrativa também: o conto, o que não é de se surpreender, se torna um gênero em ascensão nesse mesmo período.

(retirado do post “Frye and Poe” em seu blog (clique aqui))

Por esses motivos me parece que talvez valha a pena, então, o esforço extra de se calibrar o ouvido para o que é que a lírica de Poe pode nos dizer.

O poema que compartilho com vocês abaixo, então, é uma tradução de “The Sleeper”, de 1831, republicado revisado depois em 36 e 45 (de quando data a versão final). Assim como os mais famosos “O Corvo” e “Annabel Lee”, ele tem como tema a morte da amada, aqui chamada, não Lenore ou Annabel Lee, mas Irene.

A tradução é, assim como foi o nosso Milton, uma tradução coletiva, proposta pelo tradutor e professor da UFPR Rodrigo Tadeu Gonçalves (que já deu as caras aqui no escamandro antes, tanto como parte do comitê tradutório miltoniano quanto como tradutor de Eliot) e realizada por suas alunas do bacharelado em estudos da tradução Gisele Leocádia,  Andréa Brüning Beltrão e Daia Sehnem, e o seu projeto foi, como elas mesmas disseram, trabalhar “com um poema que utilizasse uma métrica diferente da do cânone da língua portuguesa”. No caso, o tetrâmetro jâmbico, que consiste na sequência de quatro jambos, isto é, unidades formadas por uma sílaba fraca e uma sílaba forte, assim:

At mid | night, in | the month | of June

As sílabas fortes estão marcadas por um negrito, e os pés métricos, separados pela barra. A métrica é um assunto que muitas vezes intimida quem não está acostumado a lidar com isso, mas, neste caso, temos um exemplo bastante claro e, ao que me parece, fácil de entender, não?

Temos aqui, portanto, um metro tradicionalíssimo da balada de língua inglesa, e as preocupações das tradutoras, então, foram em reproduzir essa mesma estrutura métrica em português, cuja versificação, pensada à moda francesa, não costuma se valer dos conceitos de pés métricos. Para quem se interessar por isso, recomendo o (algo difícil de encontrar) Tratado de Versificação do Glauco Mattoso, que trata longamente do assunto. Eu mesmo tentei fazer algo semelhante em minhas traduções mais recentes de Shelley, Coleridge e Browning – e esse é um método particularmente vantajoso para tradução de poetas mais virtuosos da forma poética, porque contempla a possibilidade de incluir inversões e variações métricas, i.e., temos aqui em Poe como o metro padrão estabelecido o tetrâmetro jâmbico, mas há momentos em que ele se desvia (de propósito, podemos presumir) desse padrão. Se traduzíssemos o tetrâmetro como uma redondilha maior só ou um verso de oito sílabas sem atentarmos à posição das tônicas, seria difícil conseguir reproduzir esse efeito da variação sobre o padrão estabelecido.

No entanto, eu diria que eu me permiti uma abordagem um pouco mais frouxa, pois, ao traduzir um verso como “The rain set early in to-night”, em Browning, por “Chegou ligeira a chuva à noite”, eu me dei o luxo de dar a um verso de final “masculino” uma tradução de final “feminino”: o “-te” átono de “noite” em vez do “night” tônico de “to-night”. Essa possibilidade é contemplada pelo Tratado de Mattoso, visto que é típico do português desconsiderarmos as átonas após a última tônica, e, de fato, essa permissibilidade facilita muito na hora de traduzir de uma língua em que abundam monossílabos (e, portanto, rimas oxítonas) para uma língua mais possilábica de tendência paroxítona como o português, assim como trabalhar com subtônicas também permite reproduzir a estrutura de pés métricos sem descartarmos 80% do nosso vocabulário – e, de fato, sem esses dois recursos teria sido uma tremenda dificuldade eu ter traduzido o Prometeu de Shelley como o traduzi.

As três tradutoras aqui, no entanto, foram muito mais extremas do que eu e se ativeram pontualmente ao metro, reproduzindo em todos os versos os finais “masculinos” do verso jâmbico, e assim “At midnight, in the month of June / I stand beneath the mystic moon ” se torna “À meia-noite, ao sexto mês / A áurea lua em minha tez”, que escandimos do seguinte modo:

À mei | a-noi | te, ao sex |to mês

A áu | rea lu | a em mi | nha tez.

O que deixa o ritmo ainda mais marcado e é um modo particularmente mais desafiador de se traduzir – motivo pelo qual tiro o meu chapéu para o trabalho das 3 tradutoras. E, o que é mais impressionante, esta é a primeira vez que o trio traduz poesia, e já começaram com um batismo de fogo desses. Meus primeiros experimentos com tradução poética, por acaso, também começaram com Poe (uma tentativa abortada de traduzir “O Corvo”, mas sem pensar em pés métricos) antes de eu mudar meu enfoque para o Shelley, mas foram bem menos ambiciosos. Por esses motivos, acredito que podemos perdoar quaisquer possíveis eventuais problemas de tradução que o poema possa apresentar, porque é realmente um trabalho admirável para uma primeira tradução, e esperamos todos poder ler mais coisas delas no futuro.

Adriano Scandolara

        

A adormecida

I.

À meia-noite, ao sexto mês
A áurea lua em minha tez.
De sua orbe um vapor
Exprime orvalho em torpor,
Pingando suave ali perfaz,
No topo da montanha, paz.
Dormente esta névoa vem
Enquanto cobre o vale além.
À cripta pende o alecrim
E os lírios sobre o mar carmim,
Neblina envolve o busto teu,
Ruína que repousa ao breu;
O lago, afim a Lete o rio,
O léu, alerta, assumiu,
Do sono então jamais saiu.
As Belas dormem! – vê! Jazer,
Irene, tua Sina sê!

II.

Amada! Podes me assentir
P’ra noite a janela abrir?
O ar alegre e fugaz
Por copas verdes tranças faz –
O ar etéreo, em carretel,
Perpassa por teu mausoléu,
Enleia o véu de ondas em
Espasmos – temerosos – bem
Acima do tenaz caixão
Que encerra ali teu coração,
Tal como assombrações em gris,
As sombras perambulam vis.
Querida, não temeis o mal?
Quais são teus sonhos, afinal?
Pois de país distante vens
E toda atenção reténs!
Estranha a tua alvura é,
Estranhas mechas tens, até
Estranha é a tua fé!

III.

Que a dama possa repousar,
Seu sono o céu a vigiar
E profundo venha a ficar!
O leito torna-se um calvário
E o mausoléu um santuário.
Que para sempre, eu peço a Deus,
Cerrados olhos sejam teus
A os fantasmas camafeus!

IV.

O meu amor a repousar,
Os vermes sobre ti passar
E teu descanso aprofundar!
Floresta adentro, que algum
Jazigo, belo, incomum,
Suas portas abra para ti
E que, imponente, possa ali,
Zelar por ti sob os umbrais
De familiares ancestrais.
De sua infância o que restou
Foi a memória que bradou
Das muitas pedras que jogou
Na porta que jamais irá
Algum ruído ecoar lá.
Criança, sabes que a voz
Dos mortos é um som atroz.

        

The Sleeper

I.

At midnight, in the month of June,
I stand beneath the mystic moon.
An opiate vapor, dewy, dim,
Exhales from out her golden rim,
And softly dripping, drop by drop,
Upon the quiet mountain top,
Steals drowsily and musically
Into the universal valley.
The rosemary nods upon the grave;
The lily lolls upon the wave;
Wrapping the fog about its breast,
The ruin moulders into rest;
Looking like Lethe, see! the lake
A conscious slumber seems to take,
And would not, for the world, awake.
All Beauty sleeps!—and lo! where lies
Irene, with her Destinies!

 II.

   Oh, lady bright! can it be right—
This window open to the night?
The wanton airs, from the tree-top,
Laughingly through the lattice drop—
The bodiless airs, a wizard rout,
Flit through thy chamber in and out,
And wave the curtain canopy
So fitfully—so fearfully—
Above the closed and fringéd lid
’Neath which thy slumb’ring soul lies hid,
That, o’er the floor and down the wall,
Like ghosts the shadows rise and fall!
Oh, lady dear, hast thou no fear?
Why and what art thou dreaming here?
Sure thou art come o’er far-off seas,
A wonder to these garden trees!
Strange is thy pallor! strange thy dress!
Strange, above all, thy length of tress,
And this all solemn silentness!

III.

The lady sleeps! Oh, may her sleep,
Which is enduring, so be deep!
Heaven have her in its sacred keep!
This chamber changed for one more holy,
This bed for one more melancholy,
I pray to God that she may lie
Forever with unopened eye,
While the pale sheeted ghosts go by!

IV.

My love, she sleeps! Oh, may her sleep,
As it is lasting, so be deep!
Soft may the worms about her creep!
Far in the forest, dim and old,
For her may some tall vault unfold—
Some vault that oft hath flung its black
And winged pannels fluttering back,
Triumphant, o’er the crested palls
Of her grand family funerals—
Some sepulchre, remote, alone,
Against whose portals she hath thrown,
In childhood, many an idle stone—
Some tomb from out whose sounding door
She ne’er shall force an echo more,
Thrilling to think, poor child of sin!
It was the dead who groaned within.

(poema de Edgar Allan Poe, tradução de Andréa Brüning Beltrão, Daia Sehnem e Gisele Leocádia,  sob orientação de Rodrigo Tadeu Gonçalves)

Padrão