“(…) que a vida e o amor perdurassem em Grenfell”, 7 poemas de Roger Robinson

Há quase um ano atrás, eu & Prisca Agustoni publicamos 3 poemas de Roger Robinson aqui mesmo na escamandro. Os textos fazem parte de seu aclamado, e multipremiado, A Portable Paradise. Como havia começado uma série de poemas com poetas antilhanos, a mim me pareceu interessante retomar RR por conta de suas relações com Trinidad, terra de seus pais e onde passou parte da vida. Sendo ele também um performador, e atravessar a cena poética praticando a dub poetry, tais ligações com a canto-palavra o colocam pareado ao gosto do caruru bravo, ou, melhor dito, também à poesia afro-caribenha.
Os poemas que trago, agora, também partiram da partilha interessada entre mim & Prisca. Fomos, à época, tomados não só do interesse, mas de uma súbita paixão pelos modos que Robinson empregava, em seus procedimentos, coisas que nos são caras como poetas, eu & ela. A frequentação londrina de uma multiplicidade de povos, de expressões, de mundos, acentuado pelas questões da migração, bem como também pensar a cena poética de Londres como tarefa de deslocamento das recorrências teóricas, e de certa poesia em circulação, pelas vias estadunidenses. Bastante menos autocentrado em sua experiência pessoal, voga que contagia muito da poesia feita em variados espaços, e o Brasil não escapa dessa impregnação, o projeto de RR nos atravessa como uma lufada não apenas de alguma novidade, mas por nos capacitar a ver outras modalidades de perspectiva da presença do outro.
Explico melhor: a série de poemas que vamos encontrar aqui, agora, narra o desastre na Grenfell Tower em 2017. Um incêndio ocorrido num desses prédios populares, de muitos andares, inúmeros apartamentos, sendo o retrato furioso da gentrificação. O poema narrativo acerca dos corpos desaparecidos na carcaça do incêndio e na fuligem, um pai que amarra a si e ao filho em inúmeros lençóis para escapar entre os andares, a esposa perdida e vista como fantasma na memória, entre outros movimentos, são elementos dos poemas de A Portable Paradise que nos tornam capazes de, em alguma medida, visitar a tragédia de outros numa perspectiva que não deveria nos parecer, assim, estrangeirizante, ensinando-nos um bocado acerca dos olhares que não deveriam ser desviados quando, até, em confronto com realidades que não são as nossas — muito embora tenhamos na memória do país alguns incêndios monumentais, como o Joelma, o mercadão de Madureira, a boate Kiss e, mais recentemente, o Museu Nacional, seu parecido mais próximo no tempo.
Contudo, há aspectos que podem nos parecer interessantes em alguns termos. Na composição dos poemas, não de modo gratuito, comparecem figuras & termos que tem orientação da presença islâmica, também indiana, em Londres, seja na nomeação de certas vestimentas, seja na presença da comida, entre outras perfumarias. Daí que, nos poemas que seguirão, haja um haibun, modalidade de fonte & forma oriental, cuja a composição se dá como uma narrativa de viagem, fechada por um haiku, não gera tanto estranhamento. Muito embora a forma tenha acabado sendo apropriada de maneira mais regular no ocidente, nublando um tanto o módulo original, considerando que com Robinson a ideia de viagem nem aparece. O que interessaria discutir, então, seria justamente a presença multifocal das variadas vivências, e possíveis vozes, que estiveram no centro do incêndio — experiências da perda que, obviamente, não são capazes de serem revividas/narradas pelos mortos, mas por quem pode contar de seus mortos; também as vivências de quem assistiu como espectador interessado, e eventualmente esteve engajado em alguma solidariedade na busca pelos desaparecidos e/ou no auxílio dos que sobraram.
Um passinho mais lá atrás, ainda e perto do fim, estivemos eu & Prisca às voltas na tentativa de publicação de Roger Robinson no Brasil. Houve contato com a editora da Peepal Tree Press que, ano passado, respondeu que os direitos autorais do poeta estavam vendidos para a tradução em português [no Brasil e em Portugal]. Já vai um ano desse contato e, até o momento, nada. Cheguei, chegamos até fazer contato, aqui e ali, com personagens do mundo editorial brasileiro, e nada — uma parte considerável deles nem sabia da existência do poeta, ao menos até aquela postagem. Continua um limbo acerca da sua publicação. A escamandro, embora há dez anos fazendo um serviço enorme no tocante à divulgação de poetas por meio da tradução, e consequentemente sendo plataforma de divulgação do nome e trabalho de inúmeros tradutores e incontáveis tradutoras no país, não tem por finalidade e fundo a autopromoção financista em sua prática editorial. São pequenas ações amorosas em nos colocar em contato com outros e outras de nós mesmos que, não fosse a tradução, nunca acessaríamos. Também por isso, resolvi voltar, mais uma vez, a Roger Robinson e, apesar de não haver aqui, agora e hoje, os olhos da Prisca, mesmo assim essa tradução ainda é com ela, ainda é pra ela.

The Missing
For the victims of the Grenfell Tower fire disaster

As if their bodies became lighter,
ten of those seated
in front pews began to float,
and then to lie down as if on
a bed. Then pass down the aisle,
as if on a conveyor belt of pure air,
slow as a funeral cortege,
past the congregants, some sinking
to their knees in prayer.
One Woman, rocking back and forth.
Muttered, What about me Lord,
why not me?

The Risen stream slowly, so slowly
out the gothic doors
and up the sky, finches darting
deftly between them.

Ten streets away,
a husband tries to hold onto the feet
of his floating wife. At time her force
lifts him slightly off the ground,
his grip slipping. He falls
to his knees with just her high-
heeled shoe in his hand.
He shields and squints his eyes
as she is backlit by the sun.

A hundred people start floating
from the windows of a tower block;
from far enough away they could be
black smoke from spreading flames.
A father with his child on top his shoulders,
men in sandcoloured galiibeas; a woman
with an Elvis quiff and vintage glasses,
a deep indigo hijab flapping in the wind;
an artist in a wax-cloth headwrap;
all airborne, these superheroes,
this airborne pageantry of faith,
this flock of believers.

Amongst the cirrus clouds, floating like hair,
they begin to look like a separate city.
Someone looking on could mistake them
for new arrivants to earth.
They are the city of the missing.
We, now, the city of the stayed.

Os desaparecidos
Pelas vítimas do incêndio da Torre Grenfell

Como se seus corpos ficassem mais leves,
dez dos que estavam sentados
nos bancos da frente começaram a flutuar,
e depois deitaram como se
numa cama. Depois passaram pelo corredor,
como se estivessem numa esteira de ar puro,
vagarosos como um cortejo fúnebre,
passando pelos congregantes, alguns caem
de joelhos em oração.
Uma Mulher, balançando pra trás e pra frente.
Murmurou, E quanto a mim, Senhor,
por que não eu?

Os Insurgidos fluem lentamente, tão lentamente
pelas portas góticas
e, céu acima, os tentilhões se arremessam
com perícia entre eles.

A dez ruas de distância,
um marido tenta segurar pelos pés
sua esposa flutuante. Na hora a força dela
o levanta levemente do chão,
e ele a deixa escapar. Ele cai
de joelhos segurando o salto
alto dos sapatos dela na mão.
A vista envesga e ele tapa os olhos
enquanto ela resplende sob o sol.

Um sem número de pessoas começa a brotar
das janelas de um dos blocos da torre;
lá de longe elas poderiam ser
a fumaça preta entre as chamas se espalhando.
Um pai com sua cria por cima dos ombros,
homens com galiibeas da cor da areia; uma mulher
com um topete tipo Elvis e óculos vintage,
um hijab índigo profundo balançando ao vento;
um artista com turbante de fios encerados;
todos voando pelo ar, esses super-heróis,
essa ostentação da fé voando pelo ar,
esse rebanho de crentes.

Junto aos cirros, como cabelos flutuando,
começam a parecer-se uma cidade cindida.
Alguém que os visse poderia confundi-los
com os recém-chegados à terra.
Eles são a cidade dos desaparecidos.
Nós, agora, a cidade dos restos.

§

Haibun for the lookers

The people on the ground look up at the burning building,
their faces illuminated by the glow of fire-ash floating gently down.
Pieces of burning building fall like giant sparks from a welder’s torch,
then a flaming fire-snake slides its way from the fourth floor
straight to the top. In the lights of mobile phones,
shadows wave makeshift flags, until they no longer wave them
and their silhouette fades to the roaring fiery light.

The spectacle’s now more like a painting of a building on fire than an
actual fire: black velvet night rippling orange-yellow and punch-red
acrylic flames.

The lookers are imagining their settees in flames, their orange floral
wallpaper slowly bubbling up and bursting like blisters before giving
in to a blackned charred heat. Then the swan dive of a few bodies.
Some sob for their own, some sob for others, some just sob.
The soot in the air burns in the noses of onlookers. Smoke makes
some wheeze in the branched bronchiole of their lungs, from when
they were in the building, then no totally on fire. But from corridors
of smoke, when they edged blindly towards the stairwell, hoping not
to walk into fire.

The sky’s darker now as background to the flame,
the smoke rising like an offering of burning sage.
The building has become a charred black tomb,
and the sky looks down on us saying what’s lost is lost,
gather what is left and build new lives.

As for the onlookers, whose numbers have swelled, this is what they’ll
remember: the floating ash and flaming debris, bodies in flight and
bodies in shadow, the smoke leaving discreetly into the night sky,
clouds at night and the snake, the giant snake of flaming fire.

The heat at my back,
I throw my baby out the window.
Catch him Lord!

Haibun para os espectadores

As pessoas no chão olham pro edifício em chamas,
seus rostos lumiados por clarões da brasa que desce mansamente.
Pedaços do edifício em chamas caem como grandes chispas de um maçarico,
então flameja uma serpente fogaréu que desliza do quarto andar
direto pro topo. À luz dos telefones celulares,
sombras flamulam bandeiras improvisadas, até que não mais as flamulam
e suas silhuetas desvanecem sob a ferocidade da luz ardente.

O show neste momento está mais pra um quadro de um edifício incendiando do que
um incêndio real: noite de negro veludo ondulando labaredas acrílicas ocre-açafrão
e vermelho-ponche.

Os espectadores imaginam seus sofás em chamas, os florais alaranjados
do seu papel de parede borbulhando devagar e estourando feito bolhas antes de dar
em um pretume incinerado. E então o mergulho de cisne de alguns corpos.
Uns choram por si mesmos, uns choram por outros, uns poucos apenas choram.
A fuligem na brisa arde no nariz dos espectadores. A fumaça cria
um chiado no bronquíolo ramificado dos pulmões, de quando
eles estavam no edifício, então não totalmente incinerado. Mas pelos corredores
de fumaça, quando seguiam às cegas pelas escadas, torciam pra não
cair dentro do fogo.

O céu já está um breu feito pano de fundo pras labaredas,
a fumaça subindo como uma oferta de sálvia abrasada.
O edifício tornou-se uma tumba de pretume incinerado,
e o céu olha pra nós dizendo o que está perdido, está perdido,
juntem o que sobrar e edifiquem novas vidas.

Quanto aos espectadores, cujos números subiram, é disto que eles
lembrarão: cinzas pairando e destroços flamejantes, corpos em fuga e
corpos em sombras, a discreta fumaça escapando pro céu noturno,
nuvens na noite e a serpente, a gigantesca serpente de flamejante fogaréu.

O calor nas minhas costas,
Jogo meu bebê pela janela.
Pega ele, ó Senhor!

§

Fourteen to One

As the building burned
I tied fourteen pastel
bedsheets into sturdy
knots and climbed out
the window. The fifteenth
sheet was to tie my daughter
to my back as we went down.

Quatorze pra Um

Enquanto o edifício queimava
eu amarrei quatorze pálidos
lençóis em fortes nós
e saímos pela janela.
Com o décimo quinto
lençol amarrei minha filha
nas minhas costas enquanto descíamos.

§

BLAME

The building burned,
so the council blamed the contractors
who shredded all the papers;
so the contractors blamed
health and safety for passing
all the required texts;
so the prime minister
came, saw and left,
and talked to no one
and shook no one’s hand.
Meantime its tenants are left
to grieve in sterile hotels,
with nothing to bury but ash,
and survivors walk like zombies
trying not to look up
at the charred gravestone.
People still cry.
Nobody took the blame.

CULPA

O edifício queimou,
daí o conselho culpou os empreiteiros
que picotaram todos os documentos;
daí os empreiteiros culparam
a vigilância sanitária e os bombeiros
por liberarem os alvarás exigidos;
daí a primeira-ministra
veio, viu e vazou,
e não conversou com ninguém
e a mão de ninguém apertou.
Enquanto isso, os moradores ficaram
enlutados em hotéis estéreis,
tendo só cinzas pra enterrar,
sobreviventes vagam como zumbis
sem levantar a vista
pra aquela lápide carbonizada.
Ainda tem gente chorando.
Ninguém assumiu a culpa.

Nota breve: Natan Barreto, (Salvador, n. 1966) é poeta, tradutor e intérprete formado pelo Institute of Linguists, e professor primário pela London South Bank University, nos chama atenção para um dado importante demais que não poderia passar batido. Na versão primeira do poema que foi ao ar, traduziu-se prime minister por primeiro-ministro, quando, na verdade, Theresa May é quem estava empossada no cargo quando do incêndio na Grenfell Tower, daí, agora retificado para primeira-ministra. Obrigados nós pelo alerta, atento, na leitura.

§

DOPPELGANGER

A week after the building burned
I saw my dead wife, she smiled at me.

Right now its hard for me
to tell the living from the dead.

My wedding ring is sinking
into my swollen finger.

There is pressure building there
but I do not want to the soap to slide it off.

Even though she is dead
I am still married to her.

I see children playing
who look like my wife when she was young.

I knew my wife when she was young.
I want to talk to her, this woman

who looked liked my wife,
I wanted to hold her

but what I really wanted was my wife,
who’s dead.

As I trace my thumb
over the silver ring.

DOPPELGANGER

Uma semana após pegar fogo o edifício
vi a minha esposa morta, ela sorriu pra mim.

Certo que por agora pra mim é difícil
dizer os vivos distintos dos mortos.

Meu anel de casamento está afundando
em meu dedo inchado.

Há sim pressão edificada ali
mas eu não quero que o sabão deslize-o pra fora.

Apesar de ela estar morta
eu ainda sou casado com ela.

Eu vejo crianças brincando
se parecem com minha esposa quando jovem.

Conheci minha esposa quando ela era jovem.
Eu queria falar com ela, essa mulher

que cerrou e parecia minha esposa,
eu queria abraçá-la

mas o que eu queria mesmo era minha esposa,
que está morta.

Enquanto isso eu projeto o meu polegar
sobre o anel de prata.

§

BOYS LIGHT FIREWORKS ON THE GROUND FLOOR OF GARDNER HOUSE ESTATE

They light the fireworks
like candles on a birthday
cake they’ve never had.

MENINOS ACENDEM FOGUETES NO TÉRREO DA GARDNER HOUSE ESTATE

Eles acendem os foguetes
como se fossem velas num bolo
do aniversário que nunca tiveram.

§

THE PORTRAIT MUSEUM

The morning after, the streets filled with portraits
of missing people — brothers with bushy beards,

olive-skinned, wrinkle-faced grandmothers,
pig-tailed daughters with red ribbons, smiling-

stuck on tree trunks, walls and fence boards,
the neon red MISSING floating above their heads.

In a minute of pure clairvoyance we understand
that many of these pictures are the faces of the dead,

some looking like they were saying the word goodbye
as the picture was shot at a Family gathering.

Without sleep, some struggle to keep their posters
straight, stop the sellotape sticking to itself.

These were the flimsy paper faces of hope for the living,
those not taped well are blown away on the breeze.

Many with posters refuse this first day of mourning,
as days went on, the wind blew most of them away.

O MUSEU DE FOTOS

Na manhã seguinte, as ruas cheias de fotos
de desaparecidos — irmãos de barba farta,

pele morena, avós com rostos enrugados,
filhas com fitas rosas no rabo de cavalo,

sorriso emburradíssimo, muros e cercas,
sobre as cabeças pisca em neon DESAPARECIDOS.

Num lampejo de pura clarividência sacamos:
muitas dessas fotografias são rostos dos mortos,

algumas parecem dizer a palavra adeus,
como fotografia pra álbum de família.

Sem dormir, lutam pra manter de pé os cartazes,
impedem o durex de grudar em si mesmo.

Esses eram os rostos em papel manteiga, esperando pelos vivos,
aqueles que não foram bem grudados são levados pela brisa.

Muitos que levam cartazes recusam esse primeiro dia de luto,
com o passar dos dias, o vento levou quase todos pra longe.

Roger Robinson, por André Capilé & Prisca Agustoni

Roger Robinson author photo by Naomi Woddis

Roger Robinson [Londres/Trinidad] é um poeta, músico e performer que vive entre a Inglaterra, onde nasceu, e Trinidad, onde passou boa parte da vida levado por seus pais. Conforme diz, para o sítio meet the poet: “Quando eu tinha quatro anos meus pais me levaram para morar em Trinidad. Trinidad é uma ilha minúscula onde todo mundo fala o tempo todo. Principalmente sobre outras pessoas, comida e música; no fim das contas, o que importava era sempre haver histórias. Às vezes, eram mágicas e, por outras, somente inventadas, mas eram sempre histórias divertidas”.

Seu livro mais recente, ainda sem tradução no Brasil, chama-se A Portable Paradise (Peepal Tree Press) e foi vencedor do prêmio T. S. Eliot 2019, anunciado em Londres em janeiro de 2020. Ele é o segundo escritor da herança caribenha a ganhar o prêmio, depois de Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 2010.

Toda uma nova constituição de poetas do Caribe, ou influenciados diretamente por tal produção poética, começam a aparecer com maior força, dados os avanços dos estudos diaspóricos e traduções de variados autores, como Cesáire, Glissant, o próprio Walcott, entre outros. Embora insuficiente ainda, não somente em terras brasileiras, vê-se um turno de forças mais evidenciado nos estudos antilhanos de Fred Moten, na NYU, bem como em campos mais atentos à poesia caribenha na Europa.

Robinson lida com uma variedade de temas ligados à família e ancestralidade, bem como as relações perigosas no ofício da arte, embora tenha sido bastante comentado por uma série de poemas que tratam sobre o trágico incêndio da Torre Grenfell em Londres. Os três poemas coligidos aqui, justamente, nos entregam uma pequena amostra das temáticas acima arroladas. São eles “Dolls”, que trata do incêndio mencionado, mostrando forte carga no uso de uma linguagem mista, em que certo coloquialismo ganha bom enredo; “Stubb’s Whistlejacket”, em que o poema narra, de forma tesa e precisão emocional, a constituição do quadro homônimo de Stubbs; e, finalmente, “A Portlable Paradise”, poema que dá título a seu último livro, em que a presença de uma voz ancestral dá a tônica.

Tendo a minha curiosidade atiçada por Prisca Agustoni, demos curso ao início de uma conversa tradutória, entre a complexificação da materialidade dos pronomes, até o uso técnico das dimensões sonoro-métricas no ofício tradutório. Dividimos a tradução, eu & ela, desse “residente britânico com sensibilidade Trini”, pro início de um papo que se promete a mais. Eu, de aqui, agradeço a Guilherme Gontijo Flores, outro com quem estão sedimentadas conversas intermináveis sobre poemas, poesia e tradução, que apontou valiosas dicas de estilo, em passo e outro, bem como a Paulo Henriques Britto, com quem trato, vai já década e tal, de pequenos ajustes da língua e da tecnologia do poema.

* * *

Dolls

If I could, like the gods of fate, somehow rearrange the events, I
would start with Muhammed’s fridge that exploded and started the
fire. I would give Muhammed some clue that all was not right with
it – perhaps his hummus goes off prematurely or the water collects
under the vegetable crisper. Something to make Muhammed replace
the fridge. Then I would give those who died on the top floors a
reason not to be home. I would have had the fire on the day of Carnival
and encouraged those on the top floors be a part of the festivities. I’d
let the husbands who left their wives and families home to earn some
money on night shifts or driving cabs find a little extra money in their
accounts, so that night they’d have taken their children out for
shawarma and orange juice down Marble Arch, while they smoked
shisha and talked about how good their lives felt. All the children who
died would have visited their grandparents that day, here or abroad. I’d
make the cladding that burned like dry straw be fireproofed to
international standards; let life and love continue in Grenfell.

Bonecos

Se eu pudesse, feito os deuses das sinas, de algum modo remontar os eventos, eu
começaria com a geladeira de Muhammed que explodiu e começou o
incêndio. Eu daria a Muhammed a pista de que nem tudo estava bem com
ela – talvez o homus estragando mais cedo ou a água acumulada
sob as verduras na gaveta. Um lance que fizesse Muhammed trocar
a geladeira. Então eu daria àqueles que morreram no andar de cima uma
razão pra não estarem em casa. Eu faria com que o incêndio ocorresse no Carnaval
e atiçaria aqueles do andar de cima a tomarem parte nas festas. Eu faria com que
os maridos que largaram mulher & filhos em casa pra ganhar
um troco nos serões ou como taxistas, a fim de um trocado a mais em suas
contas, naquela noite eles tivessem levado seus filhos pra lanchar
shawarma e suco de laranja sob o Marble Arch, enquanto eles fumavam
xixa e falavam sobre como estar de boa com a vida. Todas as crianças que
morreram visitariam seus avós naquele dia, aqui ou no estrangeiro. Eu faria
o revestimento que queimava feito palha seca ser à prova de fogo dentro dos
padrões internacionais; que a vida e o amor perdurassem em Grenfell.

§

Stubb’s Whistlejacket

Looking at Stubb’s horse in the dark
it becomes clear he was no glamoriser of muscle,
no fetishist of fur and skin.
Convinced that the body was host
to the horse’s spirit, he began making martyrs
of horses, subjecting them to jugular death,
beads of sweat rolling down
their barrelled torsos,
their eyelashes fluttering with a flourish,
as he pumped them with warm tallow
till their pulsing veins and arteries
slowly came to a halt.
Suspending them in a standing or trotting pose
by a series of hooks and tackles,
amid buckets of clotting blood,
first stripping off the skin,
he worked his way through, muscle
by muscle, bone by bone, dissecting
and defining limbs.
Turning the pages in this book of horse,
even in the dark of the museum
I can feel this horse breathing.

“Whistlejacket” de Stubbs

Vendo o cavalo de Stubbs no escuro
fica claro que não era de glamorizar os músculos,
nem fetichista de peles e pelos.
Convicto de que o corpo era o anfitrião
para o espírito do cavalo, ele começou a fazer cavalos
mártires, sujeitando-os à morte jugular,
escorrendo rosários de suor
por seus torsos embarrilados,
por seus cílios tremulando em floreios,
quando ele os bombeava com sebo morno
até que suas veias e artérias pulsantes
lentamente viessem a colapso.
Içando-os numa pose de trote ou repouso
por uma série de ganchos e apetrechos,
entre baldes de sangue coagulado,
primeiro arrancando a pele,
ele abria caminho, músculo
por músculo, osso por osso, dissecando
e definindo membros.
Virando as folhas deste livro de cavalos,
mesmo no escuro do museu
eu consigo sentir esse cavalo respirando.

§

A Portable Paradise

And if I speak of Paradise,
then I’m speaking of my grandmother
who told me to carry it always
on my person, concealed, so
no one else would know but me.
That way they can’t steal it, she’d say.
And if life puts you under pressure,
trace its ridges in your pocket,
smell its piney scent on your handkerchief,
hum its anthem under your breath.
And if your stresses are sustained and daily,
get yourself to an empty room – be it hotel,
hostel or hovel – find a lamp
and empty your paradise onto a desk:
your white sands, green hills and fresh fish.
Shine the lamp on it like the fresh hope
of morning, and keep staring at it till you sleep.

Um Paraíso Portátil

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.