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Elizabeth Bishop tradutora

Como já comentei anteriormente, Elizabeth Bishop, além de poeta e prosadora, foi também tradutora nas horas vagas. Em 1972, Emanuel Brasil edita o volume de poemas traduzidos por Bishop intitulado An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry, e ela me pareceu bastante talentosa no ofício. Gostaria de transcrever, então, 3 poemas de autores brasileiros que ela verteu para o inglês (e, só de curtição, 4 sambas, como bônus), de Drummond (aproveitando o momento de homenagem a ele), Bandeira e Vinícius de Moraes, que teve recentemente seu aniversário de morte. São eles os famosos “Poema de sete faces”, “Tragédia brasileira” e “Soneto de intimidade”.

Ela também traduziu trechos, um pouco mais longuinhos, de Morte e vida severina do João Cabral, que só não reproduzo por conta da extensão, e também porque talvez tenha sido sua tradução que, ao meu ver, seja a que menos funciona, por conta do problema das rimas toantes típicas do Cabral, que ela não conseguiu captar tão bem.

Há algumas coisas que podemos comentar sobre suas traduções. A mais evidente, em Drummond, é como ela resolveu o problema do “se eu me chamasse Raimundo”, substituindo o “Raimundo” pelo nome igualmente peculiar “Eugene“, que então rima com “that’d not be what I mean“, e deixa o “universe“, que substitui o “mundo”, para rimar com “verse“, e “faster” com “vaster“. Um malabarismo engenhoso para reproduzir o jogo de palavras do original, digno de nota. No mais, é louvável também a sensibilidade de Bishop para o ritmo (que muitos tradutores menos cuidadosos ignoram quando traduzem poemas em ditos versos livres) e a expressividade oral, evidente, por exemplo, em “my eyes / Ask nothing at all.” e o verso final, com a expressão “play the devil“.

No poema de Bandeira, além dessa questão de um ritmo escondido, porém ainda presente, por uma forma ainda mais prosaica, é interessante o trabalho que Bishop faz na tradução dos nomes dos lugares por onde passaram Misael e Maria Elvira, que eu não sei se são de fato os nomes pelos quais essas regiões do Rio de Janeiro eram/são conhecidas em inglês ou se são invenção dela.

E, por fim, há o poema de Vinícius de Moraes, onde a forma do soneto faz exigências formais mais rigorosas que as dos poemas anteriores. É aqui onde podemos observar algumas alterações mais marcantes na tradução, como a troca do esquema de rimas de abba abba ccd dee para abba cddc efg efg. É notável, sobretudo, nos tercetos, a troca do esquema emparelhado do original (estrume / ciúme / ferve // verve / nenhuma / espuma) por um esquema interpolado (delicious / unenviously / hiss / unmalicious / unemotionally / piss), que, na minha opinião, somado ao adiamento da palavra “piss” para o último verso do poema somente (enquanto “mijar” aparece duas vezes no original), cria um efeito mais dramático na cena final, que funciona quase como uma quebra cômica de expectativa.

Houve também uma exigência de concisão maior, na medida em que ela altera a versificação dodecassilábica por pentâmetros jâmbicos (portanto, uma versificação decassilábica). É uma situação comum, na tradução do inglês para o português, traduzir o pentâmetro jâmbico por dodecassílabos, visto a tendência do português de ter palavras silabicamente mais longas. Assim, Bishop, presumivelmente seguindo a mesma lógica, opta pelo inverso na hora de traduzir o português para o inglês. Por isso as omissões em sua tradução, “Farm afternoons” em vez de “In farm afternoons” (“Nas tardes de fazenda”); o “(I) spit its blood at the corral” para “Vou cuspindo-lhe o sangue nos currais“; as construções com prefixos negativos “unenviously“, “unmalicious“, “unemotionally” em vez de locuções com “without“; e a concisão das frases soltas, quase telegráficas, de “The smell of cow manure is delicious. / The cattle look at me unenviously” em vez da discursividade de uma sintaxe mais amarrada: “Fico ali respirando o cheiro bom do estrume / Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme”. Ao mesmo tempo, apesar de valer-se de um número mais limitado de sílabas, ela sentiu a necessidade de alongar-se mais no 3º verso, onde o singelo “capim” vira “a blade of sticky grass“. Felizmente, ela realiza esse alongamento sem apelar para uma linguagem mais palaciana, e o “sticky” mantém algo do elemento oral, que ela também capta muito bem na redundância do primeiro verso: “há muito azul demais“: “there’s much too much blue air“. Enfim, acredito que a “perda” mais palpável tenha sido a da “festa de espuma” do último verso, que, apesar de ser uma expressão sonora, eu tenho lá minhas dúvidas sobre ser uma grande perda, ou sobre como seria possível verter para o inglês sem ficar estranho (e uma tradução mais próxima do literal, “a foamy party” seria horrorosa).

Assim sendo, me parece que as traduções de Elizabeth Bishop fazem um ótimo trabalho em apresentar um aperitivo (ela, infelizmente, assim como com sua produção poética própria, não traduziu em grande volume) do modernismo brasileiro para o público anglófono interessado na produção do nosso país, além de ser uma curiosidade das mais interessantes para quem tem gosto por sua poesia e por questões de relação entre como os poetas produzem poesia própria e traduzem a poesia alheia.

Adriano Scandolara

Seven-sided Poem

When I was born, one of the crooked
angels who live in shadows, said:
Carlos, go on! Be gauche in life.

The houses watch the men,
men who run after women.
If the afternoon had been blue
there might have been less desire.

The trolley goes by full of legs:
white legs, black legs, yellow legs.
My God, why all the legs?
my heart asks. But my eyes
ask nothing at all.

The man behind the moustache
is serious, simple, and strong.
He hardly ever speaks.
He has a few, choice friends,
the man behind the spectacles and the moustache.

My God, why has Thou forsaken me
if Thou knew’st I was not God,
if Thou knew’st I was weak?

Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.

I oughtn’t to tell you,
but this moon
and this brandy
play the devil with one’s emotions.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

(Carlos Drummond de Andrade)

Brazilian Tragedy

Misael, civil servant in the Ministry of Labor, 63 years old,
Knew Maria Elvira of the Grotto: prostitute, syphilitic, with ulcerated fingers, a pawned wedding ring and teeth in the last stages of decay.
Misael took Maria out of “the life”, installed her in a two-storey house in Junction City, paid for the doctor, dentist, manicurist… He gave her everything she wanted.
When Maria Elvira discovered she had a pretty mouth, she immediately took a boy-friend.
Misael didn’t want a scandal. He could have beaten her, shot her, or stabbed her. He did none of these: they moved.
They lived like that for three years.
Each time Maria Elvira took a new boy-friend, they moved.
The lovers lived in Junction City. Boulder. On General Pedra Street, The Sties. The Brickyards. Glendale. Pay Dirt. On Marquês de Sapucaí Street in Villa Isabel. Niterói. Euphoria. In Junction City again, on Clapp Street. All Saints. Carousel. Edgewood. The Mines. Soldiers Home…
Finally, in Constitution Street, where Misael, bereft of sense and reason, killed her with six shots, and the police found her stretched out, supine, dressed in blue organdy.

Tragédia Brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura… Dava tudo o que ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos…
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

(Manuel Bandeira)

Sonnet of Intimacy

Farm afternoons, there’s much too much blue air.
I go out sometimes, follow the pasture track,
Chewing a blade of sticky grass, chest bare,
In threadbare pajamas of three summers back,

To the little rivulets in the river-bed
For a drink of water, cold and musical,
And if I spot in the brush a glow of red,
A raspberry, spit its blood at the corral.

The smell of cow manure is delicious.
The cattle look at me unenviously
And when there comes a sudden stream and hiss

Accompanied by a look not unmalicious,
All of us, animals, unemotionally
Partake together of a pleasant piss.

Soneto de Intimidade

Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

(Vinícius de Moraes)

Bônus:
FOUR SAMBAS

Rio de Janeiro,
My joy and my delight!
By day I have no water,
By night I have no light.

—-

Kick him out of the office!
He’s a greedy boy!
I’ve nothing to investigate,
What I want is joy!
Justice has arrived!
“Pull” won’t work again!
Some have fled to Uruguay;
Some have fled to Spain!

Marshál, Illustrious Marshál,
Consider the problem
Of the suburbs of the Centrál!
I’m sorry for poor Juvenal
Hanging in the old Central
All year long…
He works in Leblon
And lives in Delight,
And gets to work mornings
Late at night.
Marshál!

Come, my mulatta,
Take me back.
You’re the joker
In my pack,
The prune in my pudding,
Pepper in my pie,
My package of peanuts
The moon in my sky.

(translations by Elizabeth Bishop)

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Sobre o Heine de André Vallias

Faz quase um ano já que André Vallias fez o lançamento oficial de seu livro Heine, hein? – poeta dos contrários, uma antologia de 120 poemas (mais colagens de trechos de cartas e prosa, com uma introduçãozinha e notas bem razoáveis) do poeta judeu de língua alemã Heinrich Heine (1797 – 1856), também conhecido como Harry ou Henri Heine. O lançamento de Curitiba foi mais recente (em outubro, quando o escamandro ainda estava engatinhando) e certamente foi uma apresentação e tanto, com leitura dos poemas, recursos multimídia, música de fundo… enfim, a primeira vez que vi um projetor não ser utilizado para mera exibição de slides de Powerpoint. Além disso, foi uma apresentação das mais informativas, abordando tudo que precisávamos saber sobre o poeta, sua complicada história de vida e suas várias identidades – tudo convergindo para um único ponto que é, idealmente, o trabalho crítico de todo tradutor, a formação ou solidificação de uma identidade poética do autor que está sendo traduzido.

Há alguns outros textos já na internet sobre a tradução de André Vallias… este aqui, por exemplo, publicado na Cronópios pelo próprio, serve para referência sobre quem é o poeta, sua influência e um pouco de sua biografia, o que, para o leitor que não conhece o poeta, já vale a visita, pois me poupa de ter de repeti-lo. Há ainda um outro artigo, também da Cronópios, escrito pelo poeta e pesquisador André Dick, comentando a questão da modernidade em Heine, e mais outro texto, publicado – pasmem – no Terra Magazine, escrito por “Paquito”, um pouco mais acessível, sem a parafernália das referências acadêmicas, comentando a linguagem inspirada na canção popular empregada por Vallias na tradução, o que é muito interessante, considerando que, como me lembrou o Guilherme aqui do escamandro, o alemão do Heine era um alemão mais leve e popular, que é muito bem recuperado por Vallias nessa linguagem de canção. Comparativamente, este meu comentário está muito mais atrasado, mas foi necessário algum tempo para a leitura e a absorção da obra, e acredito que o que direi agora ainda não foi comentado.

É já algo recorrente, entre o pessoal da pesquisa em estudos da tradução (e poderíamos citar alguns autores que afirmam isso… dentre, famosamente, eles os irmãos Campos), a questão de que o tradutor faz também o papel de crítico. Na prática, isso significa que, quando se traduz algo de poesia, o próprio ato de traduzir é semelhante ao de se escrever um texto comentando o que e o porque de um autor e tais e tais de seus poemas serem bons ou não. Essa é a questão no cerne da canonização: por que escolher um autor e não outro – ninguém tem tempo em vida para se traduzir todos – , este poema e não aquele? Nisso, o tradutor pode ser ainda mais eficaz que o crítico, pois o crítico precisa, necessariamente, expor, argumentar, explicar, enquanto o ato crítico da tradução repousa já na elaboração e capacidade de execução do projeto do tradutor. Com o tempo, então, o resultado é que uma identidade vai sendo formada.

Pensemos num exemplo rápido, que é o da poesia de Lord Byron. Os nossos românticos, em geral, não eram leitores do inglês (e um dos poemas de Castro Alves, em Espumas Flutuantes, inclusive, tem uma epígrafe tirada de Shakespeare… em francês), e, assim, nossa língua o recebeu por intermédio do francês – o francês do romantismo de Musset e Lamartine, mais sentimental e trevoso do que o Byron ácido e satírico que podemos ler, por exemplo, em Don Juan. Por causa disso, durante muito tempo tivemos uma imagem de Byron como não sendo mais do que um poeta melancólico, afetado e emotivo – o modelo gringo para a poesia mais adolescente de Álvares de Azevedo. E o próprio Augusto de Campos, na introdução ao seu volume Byron e Keats – Entreversos, onde traduz uma pequena parte da obra dos dois poetas, confessa que tinha esse preconceito em relação ao poeta. Ao optar por traduzir dele o que há de mais moderno, Augusto estava realizando um ato crítico, operando uma mudança sobre a identidade de Byron que revisa essa imagem estereotipada.

Infelizmente, nem todos os tradutores parecem ter essa consciência. Ainda em se tratando de romantismo (o romantismo parece ser um problema ainda para nós, como um trauma), eu acabo tendo de retornar a Shelley, que, como mencionei no meu primeiro post aqui sobre o poeta, foi traduzido por José Lins Grünewald (em Grandes Poetas de Língua Inglesa do Século XIX, pela editora Nova Fronteira) sem qualquer critério, com uma escolha de poemas questionável (poemas curtíssimos, não totalizando mais do que 50 versos, e fragmentos de menor relevância) e uma execução mais questionável ainda. Perpetua-se, com isso, o estereótipo de Shelley como um romântico afetado e como poeta menor, conforme até os seus aspectos mais brilhantes em inglês, como a forte melopeia (evidentes mesmo numa seleção mais fraca de poemas), são destruídos pela má tradução.

Por isso (e agora justifico essa minha digressão), é louvável o trabalho que André Vallias desenvolveu com Heine. Heine, como tantos os românticos, sofre também desse estigma do poeta romântico que só sabe falar de amor de um modo meloso e piegas – o que se tornou o lugar-comum da palavra “romântico”. Quando se fala, por exemplo, em “música romântica”, poucas pessoas pensariam em Beethoven, Schubert ou Liszt em vez de música pop brega dos séculos XX-XXI. E a questão não é que Heine jamais tenha escrito poemas mais melosos – sim, tanto Heine, quanto Byron, Shelley e outros escreveram alguns poemas de amor nesse sentido mais lugar-comum da palavra “romântico”, mas eles tiveram seus motivos (que não irei desenvolver aqui, mas que envolvem romper, através da emoção, com o domínio da razão sobre a poética anterior neoclássica) e essa parte de suas produções não somente não é a única, como também não é a mais interessante. E é muito triste que eles tenham sido, com o tempo, reduzidos a esses estereótipos grosseiros.

Vallias, ao selecionar sua antologia, não omitiu esse aspecto da poesia de Heine, mas soube incluí-lo lado a lado com uma vertente mais irônica, cínica e autoconsciente, de um gosto mais moderno. Em “Novo Hospital Israelita de Hamburgo”, por exemplo, que transcrevi abaixo, o poeta comenta a inauguração do hospital homônimo pelo seu tio rico, Salomon Heine, e a ironia é evidente: primeiro consigo mesmo, ao dizer que ser judeu é uma praga (o que, de certa forma, faz parte do clássico senso de humor judaico); depois com seu tio, ao chamá-lo de “homem valoroso” enquanto afirma que o hospital foi conquistado, algo mesquinhamente, com a “féria de um dia”; e, por fim, com o próprio gênero poético de que faz uso aqui, ao perverter essa linguagem elevada e grandiloquente numa piada de humor negro. O “Hospital Israelita” talvez seja o exemplo mais extremo, mas essa ironia pode ser facilmente encontrada em tantos outros poemas. Dentre os que transcrevi abaixo, “Desastrado” (uma tradução muito boa para o alemão “Unstern“, brincando com o sufixo de negação “un” e a palavra estrela (“Stern“), que aparece no poema numa situação das mais infelizes, portanto des-astr(o)-ado) e “As garrafas pelo chão” demonstram bem essa ironia em relação ao amor, enquanto “Com roupinhas de domingo” mistura uma posição satírica (tendo a burguesia mesquinha e “filistina” como alvo) com uma guinada, no final, para o melancólico.

A execução das traduções é também louvável. Eu estou longe de ser um bom leitor do alemão, mas seus poemas me pareceram bons poemas em português. Como comentado num dos artigos que mencionei acima, Vallias se inspirou na música popular brasileira, sobretudo no samba, para a linguagem utilizada na tradução. Daí as palavras, fortemente coloquiais, como pode-se ver aqui, na pequena seleção que transcrevi, “descarado”, “chamego” (para traduzir “Kind“), “azucrina”, “programa”. Heine é um dos poetas mais musicados da história, e Vallias não deixou com que esse aspecto musical de sua obra se perdesse em tradução, como poderia fazer, por exemplo, ao atravancar o ritmo para manter uma rima, o que é comum em tradução de poesia, ou deixar que um contrato métrico predominasse sobre o ritmo geral.  Talvez pusesse ser feita a crítica de que Vallias force um pouco as rimas, observando como ele faz uso frequente de rimas toantes e imperfeitas, mesmo em momentos quando o original faz uso de rimas mais certinhas – vide o primeiro poema transcrito abaixo, “O mundo é tolo, o mundo é cego”, onde Heine rima “abgeschmackter” com “Charakter“, que na tradução ficaram como “descarado” e “caráter”. Mas essa reclamação não passaria de uma mínima pecuinha, ainda mais diante de uma antologia de 120 poemas – e quem já traduziu poesia rimada sabe bem qual é a dificuldade da empreitada. Não sei se Heine (como fazia Shelley) empregava com frequência a rima imperfeita, o que daria carta branca para o recurso na tradução, mas de qualquer modo seu uso já fica muito bem justificado pela apelo da proposta à música popular e não a, digamos, uma poética (neo)parnasiana – bate na madeira – e pelo fato de que, ao evitar a rima perfeita na quadra popular, muito empregada pelo Heine, Vallias evita o banalizador efeito “batatinha quando nasce” que atormenta tantos autores da forma.

Assim, com perdão da rasgação de seda, fica o elogio pelo peso da obra de Vallias: um número grande de poemas, bem traduzidos e representativos, não somente de um lado do poeta, mas daquilo que Vallias nos mostrou, em suas palestras de lançamento, ser a capacidade de Heine de assumir mais de uma identidade – como ilustrado pela sua própria história de vida: nascido em Düsseldorf como o judeu Harry Heine em 1797, rebatizado Christian Johann Heinrich Heine por um pastor evangélico em 1825 e morto em Paris em 1856 como Henri Heine. Com esse único volume, que poderíamos muito bem chamar de definitivo (em oposição à prática de se publicar poemas esparsos por aí ou de pequenos volumes com poemas escolhidos como se fosse à esmo; como diz o Guilherme, só não digo nomes para evitar o vitupério), Vallias está firmando uma identidade plural e devidamente modernizada para Heine que provavelmente acabará de vez com sua imagem lugar-comum de poeta piegas.

A única coisa com que não concordo é com o comentário de André Dick, no link postado acima, na Cronópios, de que Heine “nada tem de romântico”. O romantismo não foi apenas uma moda que veio e passou, mas  algo que mudou profundamente toda a nossa noção de literatura – esta própria palavra, aliás, sendo uma noção romântica. Não há vergonha nenhuma em se ter sido um poeta romântico, e ser moderno não necessariamente exclui ser um romântico, o que vale igualmente para os outros profetas da modernidade do século XIX, como Baudelaire e Whitman. Na minha opinião, Heine foi um romântico – e ele não teria o estigma que teve se não o tivesse sido – com um pé firmemente plantado no moderno. Mas isso é assunto para outra hora.

Adriano Scandolara

(Sem mais delongas, então, apresentamos 5 dos poemas de Heinrich Heine traduzidos por André Vallias. Entre parênteses abaixo do título em português está o título em alemão, com um link externo para o poema no original)

O mundo é tolo, o mundo é cego
(Die Welt ist dumm, die Welt ist blind)

O mundo é tolo, o mundo é cego,
E cada vez mais descarado;
Que disparate, meu chamego,
Dizerem que não tens caráter!

O mundo é tolo, o mundo é cego,
Não saberá te dar valor
Nem ver os beijos que recebo
No caldeirão do teu amor.

Com roupinhas de domingo…
(Philister in Sonntagsröcklein)

Com roupinhas de domingo,
Filistinos fazem festa;
Tal cabritos dão pulinhos,
Passeando na floresta.

Os seus olhos vibram tanto
Na romântica paisagem;
Todo-ouvidos para o canto
Dos pardais entre a ramagem.

Eu, porém, cubro as janelas
Com a mais negra cortina;
Sob a luz do dia ou velas,
Grei de espectros me azucrina.

Surge então o velho amor,
Senta junto a mim e chora,
Vem da morte; e num tremor –
O meu coração descora.

As garrafas pelo chão
(Die Flaschen sind leer)

As garrafas pelo chão; que agradável
O café; as raparigas – quanta empáfia! –
Coradinhas, afrouxando os corpetes,
Desconfio que ficaram de pileque.
Ombros claros, que peitinhos tão bonitos!
Estremeço, o coração me põe aflito.
De repente, correm todas para o quarto
De dormir, dando risada a três por quatro,
E se enfiam embaixo do edredom.
Em instantes – que fiasco! – escuto o som
Dos seus roncos pondo a pique o bom programa:
Solitário, este imbecil contempla a cama.

Desastrado
(Unstern)

Brilhava a estrela com vigor:
Caiu do céu, perdeu o lume.
Perguntas o que é o amor?
Estrela no montão de estrume.

Um cão faminto e judiado,
Agonizando no cercado.
A porca grunhe, o galo clama,
Enquanto o amor engole a lama.

Ah, se eu caísse no jardim
De flores lá da minha amada,
Onde sonhava para mim
A cova limpa e perfumada!

Novo Hospital Israelita de Hamburgo
(Das neue Israelitische Hospital zu Hamburg)

Um prédio pro judeu doente e pobre,
Aos homens triplamente miseráveis,
Pr´aqueles que padecem de três pragas:
Pobreza, enfermidade e judaísmo.

Das três, a mais terrível – a terceira:
Doença hereditária e milenar
Trazida para cá, em contrabando,
Do Egito antigo, a crença-epidemia.

A peste tão cruel quanto incurável!
Não tem compressa, banho ou cirurgia,
Nem há qualquer remédio na farmácia
Que trate e nem vacina que previna.

Será que o Tempo, deus eterno, um dia
Há de livrar-nos da moléstia escura
Que os pais vão transmitindo para os filhos?
E os netos – hão de ter saúde e tino?

Não sei! Mas no ínterim vamos louvar
Aquele coração compadecido
E sábio que procura o que é possível
Pôr bálsamo ligeiro nas feridas.

Um homem valoroso! Construiu
Um teto pra desgraça que a perícia
Do médico (ou da morte!) se dedica
A dirimir com trato e terapia.

Um feito de quem fez o que é factível;
A féria, que o suor de só um dia
Conquista, e no crepúsculo da vida,
Doou pra refazer-se da fadiga.

Com copiosa mão fez doação;
A dádiva dos olhos, todavia,
Foi bem maior: as lágrimas rolaram
Em face à dor sem cura dos irmãos.

Traduções de André Vallias.

Heine, hein? – poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. Editora Perspectiva, Coleção Signos, 2011. 543 páginas. R$50-60,00.

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