sérgio blank

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Sérgio Blank (Cariacica – ES, 1964) é poeta, autor dos volumes Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1987), Um, (1988), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além da fábula infanto-juvenil ilustrada Safira (1991). Toda sua obra foi reunida no volume Os Dias Ímpares (2011), publicado pela editora Cousa. Abandonou a escrita da poesia após seu último livro, mas continuou trabalhando com literatura como promotor de lançamentos de livros e coordenador de oficinas literárias, inclusive para pacientes com transtornos mentais do CPTT (Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos) e do CPAS (Centro de Atenção Psicossocial), instituições da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Vitória. Atualmente reside em Vitória e trabalha na Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo.

Logo abaixo, um de seus poemas (originalmente publicado em A Tabela Periódica) presentes em nosso dossiê Sérgio Blank a ser publicado logo no primeiro número impresso do escamandro, que conta também com um texto introdutório e retrospectivo de sua carreira poética, de autoria de Adriano Scandolara.

PS: Confiram nossas postagens anteriores sobre o livro Pus, de Blank, contendo poemas e comentário, clicando aqui e aqui.

escamandro

           

POEMA QUATRO
o amor platônico

armazém atacado & varejo
entrega a domicílio

os pulmões em plena pane
o amor platônico
o planeta sem plural & plêiades
de prazer longo & longe
a prazo preso na palavra
planta carnívora aos meus pés
sai da cauda desta fênix fajuta
pardal ao dia pavão na noite
pobre & podre no plano horizontal
naftalina & pulga em duelo
coração de platina ou plástico ou plutônio
problema plissado que não se desmancha
implode em silêncio aplicado
impune ao pulso de plutão

(Sérgio Blank)

Comentário crítico: sobre Pus, de Sérgio Blank

Faz já quase um mês desde que eu postei uma pequena seleção de 7 poemas do livro Pus, do poeta capixaba Sérgio Blank, com a promessa de tecer algum comentário crítico a respeito. Pois bem, agora é (finalmente) hora de honrar a promessa e não deixar nenhuma pendência para o ano novo.

Gostaria de começar a partir da citação que Valdo Motta faz na contracapa do livro, especialmente o trecho em que diz: “Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”. De fato, a demolição de um certo tipo de linguagem parece ser um tema recorrente neste livro de Blank, na medida em que ele utiliza diversas técnicas para distorcer o discurso cotidiano, o discurso dos chavões e o discurso da mídia e meios de comunicação.

Um dos poemas que postei, “O que dita a dor”, é o que  apresenta esse recurso de modo mais evidente, valendo-se de uma terminologia burocrática para compor um discurso amoroso (caso raro neste livro), bastante ambíguo por conta das quebras sintáticas e frases que não fecham; podemos supor, pela chave dada pelo título e pelo verso final, que se trata de um discurso do próprio sentimento requisitando o padecimento do amante, ou ainda, mais tipicamente do gênero, um discurso de um eu lírico amante para uma pessoa amada. De qualquer modo, no entanto, o resultado é cômico e aviltante, conforme a linguagem usada compõe não poesia de amor elevado, mas um poema que sugere uma desvalorização amorosa ao aproximar este amor a um ditador e a um burocrata. O crítico Sinval Paulino, autor de Sol, Solidão, ao tratar de um outro poema de Pus,o primeiro, “O Ilustre Desconhecido” (que se abre com o verso “figura eu te amo”), que há uma “impossibilidade de amar e ser amado”, na medida em que se dá uma “valorização do simulacro ao invés do real” no poema, e acredito que o mesmo ocorra aqui; em vez da emoção pura e descontrolada, há a frieza do papel, do documento oficial. O mais icônico disso é o final, em que um dos versos se destaca pelo contraste da expressão “carinhos da paixão”, o tipo de expressão que  beira o brega, mas que é sufocada logo em seguida por “decreto a lei / assino em baixo”.

Além da destruição da sintaxe, a linguagem em Blank é deformada por trocadilhos, aproximações sonoras e usos ambíguos de palavras. Podemos observar isso, por exemplo, no próprio título de “O que dita a dor”, bem como em alguns de seus versos (“propriedade de estado / de meu espírito”); no título de “Opusdapeste”, em que fica deliberadamente ambíguo se é “o pus da peste” ou “opus da peste” (e, na dúvida, aceitamos ambos os sentidos simultaneamente, claro); em “O ovo todo vazio”, na ambiguidade da palavra “rio” (se referindo tanto à coisa “rio” quanto ao verbo “rir”, um tipo de ambiguidade a que Paulino também trata em seu comentário crítico) no verso “rio à margem”, explicitada pelo verso seguinte “eu rio muito”, bem como em “estátua gípseo alvo” na “Valsa do ócio”, em que o adjetivo “gípseo”, no masculino, não parece estar adjetivando a palavra feminina “estátua”, como deveria ser o esperado, lançando, assim, ao léu três palavras em algum grau desconexas: estátua, gípseo e alvo (outra palavra sintaticamente ambígua); no verso de “Anátema”, “cristã taram tantã”, que faz simultaneamente uma piada com o adjetivo “cristã” e simula algo como o som musical de uma trombeta, mencionada nos versos seguintes; e, mais excessivamente, em “O anel que tu me deste”, nos versos “de bossa à beça / basta de bosta na festa / besta com fama de lenda / bis de novo / nada de neo / herói demitido / a moto mata os mitos” em que as imagens são compostas não tanto por alguma lógica quanto pela aproximação sonora bossa-beça-basta-bosta-festa-besta e moto-mata-mito. A essas aproximações sonoras se somam as rimas ocasionais, jamais sistematizadas, como cidade-grade, em “Opusdapeste”, situação-coração-oposição-paixão em “O que dita a dor”, analítico-político e deu(zeus) em “Anátema”, traços-braços, voz-albatroz-avestruz em “Avestruz”, e assim por diante.

E aí eu creio ser necessária uma digressão para tratar do trocadilho e da rima. Não se pode falar dessas duas coisas na poesia brasileira atual sem se pensar no nome de Paulo Leminski. De fato, Leminski foi um mestre no emprego do trocadilho, técnica depois banalizada por seus imitadores tardios, mas essa não parece ser uma influência principal em Pus, que nos permita situá-lo ao lado desses tais imitadores. E isso se dá talvez porque a rima e o trocadilho leminskianos são estruturados e se encontram no cerne do poema: em linhas gerais, quando aparecem, eles tendem a dar o sentido de todo o poema, fechando uma ideia, motivo pelo qual costumam aparecer com frequência no último verso. Blank parece rejeitar estruturas poéticas como rejeita estruturas de poder (na medida em que se insere numa tendência de anti-autoritarismo oposicionista, ao lado de inúmeros outros poetas dos anos 80, como aponta Paulino), e, nele, seus jogos sonoros de palavras tendem a dar uma impressão de que o poema está sendo construído na hora, conforme uma ideia, um som, uma imagem surgem, são explorados durante alguns versos – como quem faz variações sobre um tema – para então darem lugar a novas ideias, sons e imagens. É mais ou menos como a lógica do improviso, para fazer uma comparação musical, embora obviamente isso não queira dizer que os poemas sejam improvisados de fato, mas é a impressão que passam. Assim, no solto “rio à margem / eu rio muito / página a página”, etc, Blank se distancia bastante de, por exemplo, “rio do mistério / que seria de mim / se me levassem a sério?” de Leminski. Essa lógica do improviso parece aproximá-lo de um outro poeta contemporâneo, porém estrangeiro, que é John Ashbery, cujo funcionamento dos poemas se dá desse mesmo modo, naquilo que gosto de chamar de “imagens em tremolo (em oposição ao stacatto de imagens soltas e imediatamente desconexas), começando com uma imagem e indo gradualmente além dela, conforme cada verso toca apenas tangencialmente o verso anterior. Ashbery, no entanto, tem uma poética mais prosaica e tende a versos e poemas mais longos, enquanto Blank é, em todos os sentidos, fragmentário.

Outra aproximação-distanciamento que podemos fazer seria com o poeta Roberto Piva, no que condiz à capacidade de destruição da linguagem. Como brevemente comentado e ilustrado pelo nosso companheiro do Escamandro, Guilherme Gontijo Flores, em seu blog pessoal, os livros Paranóia e Piazzas são destrutivos, causando uma demolição poética através de seus excessos de imagens, frequentemente absurdas, para então se criar o espaço necessário para erigir a poética mais esotérica e positiva da poesia tardia, xamanista, de Piva. Em comparação, porém, Blank, com suas distorções e deformações, também destrói, mas não é um diluidor de Piva, imitando um tipo de poética 20 anos mais tarde, pois destrói já construindo outra coisa no lugar – só que essa outra coisa se compõe dos próprios destroços daquilo que destruiu. Para ilustrar esse argumento, recorro à questão da unidade dos poemas: é difícil dizer exatamente onde um poema acaba e outro começa nesta fase inicial, destrutiva, de Piva. E isso é especialmente observável nas Piazzas, que reteriam sua força poética mesmo que seus poemas fossem repartidos, cortados, fundidos. É, por assim dizer, uma poética líquida.

Já em Blank, como pode ser visto nos 7 poemas postados aqui, há uma temática por trás de cada um que o represa e objetifica cada conjunto de versos num poema separado. “Opusdapeste” é um ótimo exemplo disso, na medida em que se abre explorando o tema da jaula e se conclui traçando sua delimitação, como ele mesmo diz, na “décima quinta linha”. O poema “Avestruz” é ainda mais impressionante, pois o que o amarra é a imagem lugar-comum do avestruz como uma ave que enfia a cabeça no chão, representando, assim, alguém que foge dos próprios problemas. Essa atitude – com o semblante caído até o chão, esfregando no tapete, e os olhos escondidos – mantém a coesão do poema enquanto ele oscila entre imagens grotescas (“a mãe com beijos molhados te quer / o pai com muitos dotes te possui”) e ordens autoritárias (“sai do banheiro e desfila no corredor / e não chore / porque eu não quero”). E o discurso se constrói de tal modo que, através da técnica, mencionada acima, do tremolo, ocorre uma metamorfose nos versos finais em que o próprio indivíduo do poema se transforma num avestruz, a princípio com “uma ave na voz”, depois com uma referência indefinida a várias aves, para então surgir uma pena e a própria palavra “avestruz” aparecer, enfim, no último verso. Desse modo, em cada um desses poemas, a linguagem é destruída para dar lugar a uma nova construção de linguagem, fechada em si, esculpida a partir de seus próprios escombros.

Obviamente, seria fútil tentar fechar o sentido desses poemas através de comentário crítico – como seria fútil tentar fazer o mesmo com praticamente qualquer poeta moderno que valha a pena ser lido. No entanto, espero que, com essas breves observações aqui feitas, eu possa fornecer algum começo rudimentar para se pensar a poesia de Sérgio Blank.

Lembro, novamente, que, para quem se interessar, existem os livros de análise e comentário crítico Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino (que empreguei neste comentário), e que, além disso, a Editora Cousa muito recentemente fez o lançamento do volume Os dias Ímpares – Toda Poesia de Sérgio Blank, reunindo toda sua obra produzida até então, uma excelente oportunidade para conhecer o poeta.

Adriano Scandolara

Atualização de 24/8/12: à convite do prosador e poeta Reinaldo Santos Neves, apresentei uma palestra intitulada “Hermetismo e Expressão: a Trajetória Poética de Sérgio Blank”, no evento Bravos Companheiros e Fantasmas: V Seminário Sobre o Autor Capixaba (link aqui para a programação e resumo do evento), que ocorreu ontem e anteontem em Vitória. Em antecipação a esse evento, publiquei um pequeno artigo na edição de hoje do caderno Pensar, de Vitória (link aqui), intitulado “O pus das palavras”. O texto ainda está disponível online aqui. Pode-se conferir também mais 3 poemas deste livro de Blank neste link na mesma página.

Sete poemas de Sérgio Blank

Acredito que tudo que eu possa dizer para apresentar Sérgio Blank (1964) é que ele é um poeta capixaba meio lado B, deixado de lado pelo eixo Rio-São Paulo (velha história), embora tenha certo reconhecimento local, com pelo menos dois livros de estudo crítico a respeito (Porque e por Quê, de Reinaldo Santos Neves & Sol, Solidão de Sinval Paulino). É autor dos livros de poesia Estilo de ser assim, tampouco (1984), Pus (1986), Um (1989), A Tabela Periódica (1993) e Vírgula (1996), além do infanto-juvenil Safira (1998). De resto, cito as palavras do também poeta, também capixaba, Valdo Motta, que na contracapa do Pus mais do que eu pode fazer jus ao poeta: “Sérgio Blank é um poeta preocupado em exprimir o pus de sua alma agraciada com a peste, o pathos, o tormento da lucidez. Demolindo e reelaborando a linguagem do mundo, deformada com efeitos de estranhamento que incomodam, Blank espicaça consciências entorpecidas”.

Gostaria, assim, de compartilhar alguns de seus poemas com nossos leitores, transcritos abaixo, para, na sequência, poder tecer algum comentário crítico sobre o tipo de trabalho que Blank desenvolve em Pus – que eu, mesmo sem ter conhecido antes de começar a escrever poesia, poderia considerar como um precursor dessa poética que, aqui entre nós do escamandro, passamos a designar como “lira de lixo”.

Seguem os poemas. Mais tarde, no dia 19/12, postei então meu comentário crítico a respeito.

AVESTRUZ

disfarça e sai dessa cena
o quarto com lençóis te aguarda
a mãe com beijos molhados te quer
o pai com muitos dotes te possui
desce os cílios e segue a vista
vire o rosto para o lado de lá
cai o semblante até o chão
e esfregue a face no tapete
uma carreira até em casa
trancafie-se entre os braços
limpe seus traços
e não chore e não chore
aos prantos corre até o próximo ônibus
sai do banheiro e desfila no corredor
e não chore
porque eu não quero
e não chore
aos prantos ergue a cabeça
porque eu não gosto
ostenta cortes no pescoço
na ponta dos dedos esconda os olhos
e não chore
uma ave na voz
uma avis rara
pelicano ou ganso ou albatroz
no caminho de volta deixe cair uma pena
penugem & plumagem de avestruz

ANÁTEMA

(ju)deus obtusos ou
usos e costumes
humildes e
úmidos ou
ju(ízes)
tema analítico político
luz ilustre
deu(zeus)
cálculo de matemática
prova a existência
cristã taram tantã
trombetas do juízo
final

VALSA DO ÓCIO

estátua gípseo alvo
dance em vida
balé vulgar e clássico
dance em vida
música por par
ímpar do viver
veste iridescente
dance em vida
neste ímpeto bestial

O OVO TODO VAZIO

te quis
lei cortês
delicada liturgia à toa
li à altura
rio à margem
eu rio muito
página a página
capricho a interessante besteira
a crase trágica
busque as coisas
se for feio
meigo gosto de cortesia
o mês já era
passe outra hora.

O QUE DITA A DOR

estou aqui
representando o sentimento
vim solicitar
o seu município
corpo de belos membros
propriedade de estado
de meu espírito
exijo, você
tem que aderir
ao partido da situação
em que fico
lapsos no coração
o dito cujo, amor
inadmissível oposição
sua plataforma política
deve ser calcada
nesses carinhos da paixão
decreto a lei
assino em baixo

OPUSDAPESTE
(solidão)

o maior espetáculo da terra
a minha tragédia
jaula de circo
uma grande cerca
acordo cedo com o fim
deixo de ser estrela
brilhe o segredo da rua
a chave da cidade
afinal fecha a grade
além disso
obriga a praga do dia e dia
não receie ir tão longe
ali onde o grito é o lance
a décima quinta linha

O ANEL QUE TU ME DESTE

parte um

gente que nasceu em meu ano
não pensa a guerra
pedala sem tocar qualquer chão
pessoas que são poucas coisas
passeios suados de bicicletas
findando nos ônibus de rodoviárias
nas caronas já caretas

partem dois

escritórios de textos poéticos
de bossa à beça
basta de bosta na festa
besta com fama de lenda
bis de novo
nada de neo
herói demitido
a moto mata os mitos
o destino dos mortos
máquina de moer carne
resta meu rosto
farelo de rosca
risco de farsa e elo
entre tudo mesmo
eu não falo mais nada
eu não valho
a tensão presta serviço
escreve o lucro do escravo boçal
cabeça caída em távola de bar
agora eu vou
um tanto além de embora
morrer de rir
engasguei com a gargalhada
gargarejo de papo e papel
encalhe no brasil

partem todos

(da infância esquecida
ao ultrapassado das rugas)

chega