Tristan Corbière e os seus amores amarelos

corbiere

Meu primeiro contato com a poesia de Édouard-Joachim “Tristan” Corbière foi por completo acaso, num sebo de Curitiba, ao abrir o volume da tradução do poeta e tradutor Marcos Siscar dos seus Os Amores Amarelos (editora Iluminuras) diretamente na página do poema “Bonne fortune et fortune” (apresentado na seleção abaixo), essa paródia tão espirituosa do famoso poema da passante de Baudelaire – e bastou para me ganhar como leitor.

Nascido em 1845 na região da Bretanha, filho de Antoine-Édouard Corbière, autor do romance best-seller Le Négrier, Tristan teve uma vida atormentada por uma relação angustiada com os pais, pelo sistema educativo, a solidão, a depressão e a péssima saúde (que lhe rendeu um reumatismo desfigurador). Teve uma morte precoce, de tuberculose, em 1875, sem nem completar 30 anos, e dois anos antes publicou (com o dinheiro do pai) seu único livro, Les Amours Jaunes (“Os Amores Amarelos”, que serve de título à seleção de Siscar, ainda que não seja o volume completo) . No entanto, ele só passa a ser conhecido por algum público e pelos círculos literários de Paris muito mais tarde, em 1884, com sua inclusão entre a seleção de poetas malditos de Verlaine (um título de baixeza que ele passou a carregar desde então) e com a menção que Joris-Karl Huysmans faz ao poeta e seu livro no infame romance Às Avessas, publicado no mesmo ano. No capítulo 14, um capítulo estranho deste livro estranho, dedicado à crítica literária da obra de seus contemporâneos, o narrador comenta como o dândi Des Esseintes, o protagonista, “em seu ódio pelo banal e lugar-comum” já tinha passado “muitas horas agradáveis com esse volume”, cujo estilo “mal era francês” – o que, no contexto, trata-se de um elogio.

Corbiere_amours_jaunesComo nos lembra Siscar na utilíssima introdução ao livro (parte da dissertação, aliás, do poeta/tradutor), é difícil definir ao certo o seu estilo, e agrupá-lo, como se costuma fazer, sob o termo geral do simbolismo é sempre uma classificação meio capenga, ainda que ele ocasionalmente fizesse poemas que se enquadrassem numa estética bastante baudelairiana, cuja ironia Corbière leva a um passo adiante. O crítico Edmund Wilson, no influente ensaio O Castelo de Axël, o inclui na linha da poesia chamada coloquial-irônica (em oposição à séria-estética), que influenciaria ainda Jules Laforge, na poesia francesa, e T. S. Eliot, na poesia inglesa moderna – e que, segundo Augusto de Campos (como afirma na introdução ao seu volume Keats e Byron: Entreversos), seria descendente de uma linhagem que remontaria ao Lorde Byron ácido e mordaz de Childe Harold e Don Juan. Não seria exagero dizer que esta linhagem teve muitos bons descendentes ainda em pleno no século XX, sobretudo na poesia brasileira, inclusive, o que talvez seja um dos motivos pelos quais a poesia de Corbière ainda não raro nos soa bastante contemporânea. Parece-me provável, no entanto, que esse parentesco moderno brasileiro com Corbière tenha ocorrido indiretamente, já que a recepção do próprio poeta em nosso solo foi muito tardia e não se deu na mesma escala de um poeta como Baudelaire – como nos prova o levantamento de suas traduções feito recentemente pela Denise Bottman. Não deixa de ser curiosa, porém, a relação entre a imagética recorrente do sapo em seus poemas – ao que tudo indica, o equivalente corbièriano do albatroz de Baudelaire,  no que se refere à figura do poeta – e o célebre poema hit da semana de 22 de Manuel Bandeira.

Desta vez não ofereço uma seleção de poemas traduzidos por mim, apenas as traduções de Siscar. Como ele elenca ainda, outros tradutores que já lidaram com Corbière foram Augusto de Campos, Nelson Ascher, Régis Bonvicino, Pedro Kilkerry e Luis Martins, de quem espero poder tratar em uma outra ocasião. Os poemas que escolhi para compartilhar aqui, portanto, foram sete: Um deles é um dos sonetos da sessão intitulada “Paris” (composta de 8 sonetos ao total, dos quais Siscar traduziu 3), acompanhado de “I Soneto”, uma tirada irônica do estilo parnasiano (que se desenvolveu nos círculos literários de Paris simultaneamente e algo mesclado com o estilo dito simbolista), “Aventura Galante e A Ventura” e “O Cachimbo do Poeta”, duas paródias baudelairanas, e por fim “O Sapo”, um dos poemas em que surge a imagem crua do próprio poeta como uma criatura baixa, “Natureza morta”, parte dos poemas mais apropriadamente simbolistas de Corbière, e “Desencorajoso”.Siscar-Os-Amores-Amarelos

Por fim, algumas palavras sobre a tradução de Siscar. No geral, há pouco o reclamar de seu trabalho: o poeta soube manter o estilo telegráfico, interrompido, pouco fluido, de Corbière (evidente nas frases curtas e quebradas e no uso da pontuação, especialmente no poema da passante), que outros tradutores poderiam se sentir tentados a deixar mais “natural”, e não teve pudor de recorrer  a coloquialismos como traduzir a expressão “faire le trottoir” como “fazer o ponto” (como faziam e ainda fazem as prostitutas). O que tenho a criticar seria de um ponto de vista formal, na medida em que algumas das soluções de rimas de Siscar poderiam ter sido mais elaboradas. Sons finais como “-ado(a) “, “-ida”, “-ia” e “-ão” são, talvez, um pouco frequentes demais e acabam por deixar menos convincente o efeito geral dos versos em que se veem presentes, em relação ao que se poderia fazer com sons finais menos comuns – e creio que não seja nenhuma declaração bombástica afirmar que uma rima ruim é capaz de, por assim dizer, estragar todo um verso que poderia ser bom. No poema “I soneto”, por exemplo, apesar de que a palavra “clorofórmio” (chloroforme) esteja lá apenas para fazer uma rima bizarra e inesperada com “forma” (forme) (o que retoma uma discussão que já tivemos aqui, com a girafa de Jacques Prévert), ela é uma palavra cuja estranheza expressiva (decorrente da morbidez clínica algo característica de alguns momentos de Corbière e de tantos outros poetas acometidos das moléstias do século XIX) não me parece presente na escolha da rima com o latinismo pro-forma na tradução. Enfim, são detalhes e não obscurecem a qualidade da empreitada de Siscar, nem o valor do volume como uma importante e devida apresentação e estudo do poeta, além de uma incitação para um dia talvez vermos a sua (não muito extensa) obra completa traduzida.

(Adriano Scandolara)

                                   

(de PARIS)

Bastardo de Crioula e Bretão
Ele viu Paris – aglomerado,
Bazar que da pedra é privado,
Onde o sol é um vago borrão.

– Ânimo! Em fila… à multidão
Um guarda te empurra – cuidado! –
…Incêndio sem luz, apagado;
Baldes passam, vazios ou não. –

E a Musa, donzela desdita,
Fez o ponto qual senhorita.
Diziam: Quais são seus talentos?

– Nenhum. – Estúpida ficava,
Alheia ao vazio que soava
Só olhava passar o vento…

                                   

PARIS

Bâtard de Créole et Breton,
Il vint aussi là — fourmilière,
Bazar où rien n’est en pierre,
Où le soleil manque de ton.

— Courage ! On fait queue… Un planton
Vous pousse à la chaîne — derrière ! —
… Incendie éteint, sans lumière ;
Des seaux passent, vides ou non. —

Là, sa pauvre Muse pucelle
Fit le trottoir en demoiselle,
Ils disaient : Qu’est-ce qu’elle vend ?

— Rien. — Elle restait là, stupide,
N’entendant pas sonner le vide
Et regardant passer le vent…

                                   

I SONETO
ACOMPANHADO DE MODO DE USAR

Pautar a folha e caprichar na letra;

Versos fiados à mão e de um pé uniforme,
Marcando o passo, quatro a quatro, em pelotão;
Indicando a cesura, eis que um deles dorme…
Soldado de chumbo, ele dorme em posição.

Sobre o railway de Pindo está a linha, a forma;
E nos fios do telégrafo: – são quatro, acima;
Em cada poste, a rima – um exemplo: pro forma.
Cada verso é um fio, cada estaca uma rima.

– Telegrama – 20 palavras – Tu vens e medes
(Sonetos – é um soneto – ), ó Musa de Arquimedes,
– A prova do soneto é uma adição;

– Soma-se 4 e 4 = 8! E logo em seguida
Soma de 3 e 3! – Manter Pégaso à brida:
“Ó lira! Ó delírio! Ó…”- Soneto – Atenção!

                           Pico da Maladetta. – Agosto

                                   

I SONNET
AVEC LA MANIÈRE DE S’EN SERVIR

Réglons notre papier et formons bien nos lettres :

Vers filés à la main et d’un pied uniforme,
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton ;
Qu’en marquant la césure, un des quatre s’endorme…
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.

Sur le railway du Pinde est la ligne, la forme ;
Aux fils du télégraphe : — on en suit quatre, en long ;
À chaque pieu, la rime — exemple : chloroforme,
— Chaque vers est un fil, et la rime un jalon.

— Télégramme sacré — 20 mots. — Vite à mon aide…
(Sonnet — c’est un sonnet —) ô Muse d’Archimède !
— La preuve d’un sonnet est par l’addition :

— Je pose 4 et 4 = 8 ! Alors je procède,
En posant 3 et 3 ! — Tenons Pégase raide :
“Ô lyre ! Ô délire ! Ô…” — Sonnet — Attention !

                                    Pic de la Maladetta. — Août.

                                                

AVENTURA GALANTE E A VENTURA

                                    Odor della feminità.

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                                        me deu uns tostões.

                           Rua dos Mártires.

                                  

BONNE FORTUNE ET FORTUNE

                                                 Odor della feminitá.

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,
Pour la passante qui, d’un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de ma prunelle ou la peau de mon cœur…

Et je me crois content — pas trop ! — mais il faut vivre :
Pour promener un peu sa faim, le gueux s’enivre…

Un beau jour — quel métier ! — je faisais, comme ça,
Ma croisière. — Métier !… — Enfin, Elle passa
— Elle qui ? — La Passante ! Elle, avec son ombrelle !
Vrai valet de bourreau, je la frôlai… — mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,
Et… me tendit sa main, et…
                                                       m’a donné deux sous.

                                                 Rue des Martyrs.

                                                     

O CACHIMBO DO POETA

Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.

Quando um sonho cego apanha
A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.

…Eu dou-lhe um céu de paisagens:
Nuvens, mar, deserto, miragens;
– Seu olho morto ali se perde…

E quando a névoa se faz pesada
Crê ver uma sombra passada,
– E minha boquilha ele morde…

Outra tormenta desabrida
Solta-lhe alma, corrente e vida!
…Sinto-me que apago. – Ele dorme –

···················

– Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
– Se é certo que tudo é fumaça.

                                    Paris. – Janeiro. 

                                                     

LA PIPE AU POÈTE

Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et : j’endors sa Bête.

Quand ses chimères éborgnées
Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées.

…Je lui fais un ciel, des nuages,
La mer, le désert, des mirages;
— Il laisse errer là son œil mort…

Et, quand lourde devient la nue,
Il croit voir une ombre connue,
— Et je sens mon tuyau qu’il mord…

— Un autre tourbillon délie

Son âme, son carcan, sa vie !
… Et je me sens m’éteindre. — Il dort —

···················

— Dors encor: la Bête est calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre !… la fumée est tout.
— S’il est vrai que tout est fumée…

                                    Paris. — Janvier.

                                                     

 O SAPO

Um canto na noite sem ar…
No seu metal claro o luar
Grava rasgos de verdescuro.

…Um canto: um eco, enterrado
Vivo, ali, naquele fossado…
– Calou-se: olha ali, no escuro…

– Um sapo! – Por que o pavor,
Perto do teu fiel soldado!
Vê, sem asa, um poeta tosquiado,
Rouxinol da lama… – Horror! –

…Ele canta. – Horror!! – Erro teu…
Não vês a luz que o olho irradia?…
Não: já se foi sob a pedra fria.

···················

Boa noite – o sapo sou eu.

                                Esta noite, 20 de julho.

                                   

LE CRAPAUD

Un chant dans une nuit sans air…
— La lune plaque en métal clair
Les découpures du vert sombre.

… Un chant ; comme un écho, tout vif
Enterré, là, sous le massif…
— Ça se tait : Viens, c’est là, dans l’ombre…

— Un crapaud ! — Pourquoi cette peur,
Près de moi, ton soldat fidèle !
Vois-le, poète tondu, sans aile,
Rossignol de la boue… — Horreur ! —

… Il chante. — Horreur !! — Horreur pourquoi ?
Vois-tu pas son œil de lumière…
Non : il s’en va, froid, sous sa pierre.
···················
Bonsoir — ce crapaud-là c’est moi.

                                    Ce soir, 20 Juillet.

                                                

NATUREZA MORTA

Dos cucos o Ângelus soturno
Pôs em sobressalto o noturno
Pêndulo do velho, o cuco,

E o corujão, de sentinela,
Em sua carcaça onde a vela
Incendeia o olho oco.

– Escuta: a coruja emudece…
– Ranger de roda: eis que aparece
O Carro da Morte na estrada…

E a gralha alegre voa junto
Ao teto em luto onde o defunto
Padece a festa antecipada.

                                                Bretanha. – Abril

                                               

NATURE MORTE

Des coucous l’Angélus funèbre
A fait sursauter, à ténèbre,
Le coucou, pendule du vieux,

Et le chat-huant, sentinelle,
Dans sa carcasse à la chandelle
Qui flamboie à travers ses yeux.

— Écoute se taire la chouette…
— Un cri de bois : C’est la brouette
De la Mort, le long du chemin…

Et, d’un vol joyeux, la corneille
Fait le tour du toit où l’on veille
Le défunt qui s’en va demain.

                                               Bretagne. – Avril

                                               

DESENCORAJOSO

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito – e ver é uma cegueira.

– Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,
Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

– Puro herói de romance: ele adorava a loura
Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca – Ele não tinha tempo. –

– Explorador incansável: Remos a remar
Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,
Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho – Fazer nada. –

– Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha
De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!
Vocês que, amados por seu capricho insensato,
–Tudo é vaidade! -, quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ele acariciava, como se afoga um gato,
E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

– Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!
Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!
–É isso a arte?…”
                                    – Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

                                                      Mediterrâneo.

                                   

DÉCOURAGEUX

Ce fut un vrai poète : Il n’avait pas de chant.
Mort, il aimait le jour et dédaigna de geindre.
Peintre : il aimait son art — Il oublia de peindre…
Il voyait trop — Et voir est un aveuglement.

— Songe-creux : bien profond il resta dans son rêve ;
Sans lui donner la forme en baudruche qui crève,
Sans ouvrir le bonhomme, et se chercher dedans.

— Pur héros de roman : il adorait la brune,
Sans voir s’elle était blonde… Il adorait la lune ;
Mais il n’aima jamais — Il n’avait pas le temps.

— Chercheur infatigable : Ici-bas où l’on rame,
Il regardait ramer, du haut de sa grande âme.
Fatigué de pitié pour ceux qui ramaient bien…

Mineur de la pensée : il touchait son front blême,
Pour gratter un bouton ou gratter le problème
Qui travaillait là — Faire rien. —

— Il parlait : « Oui, la Muse est stérile! elle est fille
“D’amour, d’oisiveté, de prostitution ;
“Ne la déformez pas en ventre de famille
“Que couvre un étalon pour la production!”

“Ô vous tous qui gâchez, maçons de la pensée!
“Vous tous que son caprice a touchés en amants,
” — Vanité, vanité — La folle nuit passée,
“Vous l’affichez en charge aux yeux ronds des manants!

“Elle vous effleurait, vous, comme chats qu’on noie,
“Vous avez accroché son aile ou son réseau,
“Fiers d’avoir dans vos mains un bout de plume d’oie,
“Ou des poils à gratter, en façon de pinceau!”

— Il disait: “Ô naïf Océan! Ô fleurettes,
“Ne sommes-nous pas là, sans peintres, ni poètes!…
“Quel vitrier a peint ! quel aveugle a chanté!…
“Et quel vitrier chante en râclant sa palette,

“Ou quel aveugle a peint avec sa clarinette !
“— Est-ce l’art ?… “
                                                 — Lui resta dans le Sublime Bête
Noyer son orgueil vide et sa virginité.

                                                 Méditerranée.

(traduções de Marcos Siscar)

raul pompeia, o apanhador de versos

raul pompeia
raul pompeia

raul pompeia (1863-1895) é cânone brasileiro, é cânone escolar até. dispensa apresentações. mas, pelas simplficações que todo cânone impõe, ele precisa de aprofundamentos, desdobramentos & revisões.

por isso o post de hoje: um pedaço do trabalho cuidadoso feito por bruno d’abruzzo (meu parceiro do rilke francês) e por camila duarte, um trabalho que espero ver em livro, com a edição e o comentário das canções sem metro. daí o inesperado do assunto: a poesia das epígrafes, a poesia de se colher epígrafes para ressignificá-las em novo contexto.

ao mesmo tempo, além de algumas revelações & traduções das epígrafes, seu mero destaque forma uma espécie de florilégio de fragmentos, um conjunto selecionado por raul pompeia e reagrupado por bruno & camila.

guilherme gontijo flores

O apanhador de versos

Raul Pompeia impôs-se uma vida curta, e ficou conhecido como autor de apenas um livro, de prosa, o seu romance O Ateneu – crônica de saudades. Quando muito, temos notícia de suas crônicas, ou seja, também sua prosa.
Sua obra completa, no entanto, quando reunida no começo da década de 1980 por Afrânio Coutinho, ocupou 10 volumes, incluindo outras novelas, crônicas e diversos esparsos, ou seja, tudo aí é prosa ou quase-prosa. Mesmo quando enveredou, ou pelo menos tentou, pela poesia, escolheu o “poema em prosa” para tal.
É o caso das suas canções sem metro, publicadas postumamente no livro Canções sem metro (1ª ed. 1900). E foi a estas canções que o autor dedicou a maior parte de sua vida, escrevendo e reescrevendo-as durante quase 12 anos. Apesar de todo o esforço e burilamento, foi um projeto com o qual morreu na praia, pois não o lançou em vida como pretendia (incluindo ilustrações próprias). Tirou sua própria vida antes.
O fato é que com suas canções sem metro, publicadas em diversos periódicos a partir de 1883, Pompeia inaugura, lança, o poema em prosa no Brasil. Isso em consonância com os petits poèmes en prose baudelairianos, abrindo, assim, caminhos para uma renovação estética na literatura brasileira: a ruptura das fronteiras entre os gêneros e formas literárias. Algo já iniciado, de certa maneira e assim como lá fora, no romantismo.
Pompeia não foi um autor de versos, e mesmo seus poemas em prosa podem não ser os melhores e mais belos da nossa literatura, mas suas canções são os primeiros ensaios num gênero que mesmo na Europa ainda se firmava. E em Canções sem metro, o livro, encontramos uma série de epígrafes, praticamente uma para cada “poema” e quase todas em versos, as quais Pompeia escolhera a dedo, sendo todas à época inéditas como epígrafes. Pompeia foi, assim, um apanhador beneditino de versos.
Vamos aqui reunir essas epígrafes, apresentando suas respectivas traduções. Para as de autores mais conhecidos, como Baudelaire, usaremos versões brasileiras de tradutores e traduções já consagradas. Para outras poucas, encontramos versões raras na língua portuguesa europeia. Para algumas outras poucas ainda, tivemos a ajuda de Guilherme Gontijo Flores que as verteu do latim para o nosso português; e outras, por fim, arriscamos uma tradução descompromissada. Tudo isso, apenas com o intuito de apresentar a cosmologia poética de um autor brasileiro envolto às tendências mais modernas da lírica, ainda que tenha sido um autor de prosa, mas de uma prosa que “não quer outra coisa senão ser poesia”, como já observou Haroldo de Campos a respeito de O Ateneu.
A apresentação das epígrafes a seguir, segue a ordem e a forma em que estão no livro Canções sem metro (e conforme ficaram em suas três edições), com os textos na língua original e suas traduções, sempre identificadas e acompanhadas de alguns breves comentários sobre seus autores e obras.
O livro Canções sem metro, em sua “forma definitiva”, contém 33 textos divididos em cinco partes, mais um prólogo, que dá o tom dos princípios estrutural e estético que fundamentam seus textos: o abandono do metro e da pureza dos gêneros e a adoção do ritmo e da musicalidade verbal como unidades da criação poética.
Esta apresentação de suas epígrafes e traduções faz parte de uma nova edição de Canções sem metro que preparamos para comemorar em 2013 os 150 anos de nascimento de Raul Pompeia (1863-1895), a ser publicada em breve por alguma editora.

Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte

imagem de ema, mulher de aristarco em "o ateneu", em desenho feito por pompeia
imagem de ema, mulher de aristarco em “o ateneu”, em desenho feito por pompeia

***

Les paroles qui composent le vers n’ont par elles-mêmes aucune mesure déterminée; elles n’en ont une qu’à partir du moment où elles sont prononcées dans un temps mesuré: ce qui est mesuré, ce n’est donc pas le vers, mais le temps, et la science de la mesure, la Métrique, telle que nous l’entendons dans son sens vraiment général et scientifique, peut s’appliquer à toute mesure du temps, quel qu’en soit l’agent rythmique, danse, chant ou parole.

Paul Pierson
Métrique naturelle du langage
Introduction

“As palavras que compõem o verso não possuem, nelas mesmas, qualquer medida determinada: isto só acontecerá quando forem pronunciadas dentro de um tempo medido: o que é mensurado não é o verso, mas o tempo, e a ciência da medida, a Métrica, tal como a compreendemos em seu sentido geral e verdadeiramente científico, pode se aplicar a qualquer medida do tempo, não importando seu agente rítmico, dança, canto ou palavra”. (Tradução de Sonia Brayner. In: Labirinto do espaço romanesco: tradição e renovação da literatura brasileira 1880-1920. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1979). Este trecho é o Prólogo de Canções sem metro.

***

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.

C. Baudelaire.

Segundo quarteto do soneto “Correspondances” de Charles Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira:

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.

***

Ya la esperanza a los hombres
Para siempre abandonó:
Los recuerdos son tan solo
Pasto de su corazón.

J. de Espronceda.
(El Diablo Mundo).

Logo a esperança os homens
Para sempre abandonou:
As lembranças são apenas
Pastoreio de seu coração.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

[José Ignacio Javier Oriol Encarnación de Espronceda y Delgado] Don José de Espronceda (1808-1842), poeta romântico e ativista político espanhol. O trecho desta epígrafe pertence à introdução do autor ao extenso poema El Diablo Mundo (1841), uma de suas principais obras. (In: ESPRONCEDA, J. de. El Diablo Mundo. 6ª Ed. Edición, prólogo y notas de José Moreno Villa. Madrid: Espasa-Calpe, 1969).

***

The fields breathe, sweet, the daisies kiss our feet
Young lovers meet, old wives a’sunning sit.
In every street these tunes our ears do greet
Cuckoo! Jug-jug, pu-we, to witta-woo!
Spring! the sweet spring!

Thomas Nashe.

Os campos respiram, doces, as margaridas beijam nossos pés
Jovens amantes se encontram, velhas esposas ao sol se banham.
Em cada rua esses sons saúdam nossos ouvidos
Cuco! piu-piu, bem-te-vi, tagarelar e flertar!
Primavera! A doce primavera!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

A estrofe foi extraída de uma canção presente na peça A Pleasant Comedy Called Summer’s Last Will and Testament, de Thomas Nashe (1567-1601), poeta e dramaturgo britânico. As três edições de Canções sem metro (1900; 1963; 1982) grafam equivocadamente Thomas Narh.

***

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

C. Baudelaire.

Primeira estrofe do soneto “Les deux bonnes soeurs” (“As duas boas irmãs”), de Baudelaire, em tradução de Ivan Junqueira:

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.

***

… Comme des fruits d’automne,
D’enfants beaux et vermeils la table se couronne.

A. Brizeux.

… como frutos do outono,
de crianças belas e coradas a mesa se adorna.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos extraídos da parte intitulada “Le Retour” (“O regresso”) da obra Marie, de Julien Pélage Auguste Brizeux (1803-1858), escritor bretão romântico. Marie é uma espécie de “romance em versos”, composto por doze idílios homônimos aos quais são intercalados episódios que contam uma história de amor campesina. Segundo Otto Maria Carpeaux, no romantismo francês, Brizeux representa a “nota regional […]: os seus versos, muito musicais, admirados por Leconte de Lisle, foram considerados como antecipações do Parnasse; as suas paisagens do país céltico lembram Rosalía de Castro.” (CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. IV. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1962). Brizeux foi tradutor também de A divina comédia, de Dante Alighieri.

***

E tu, lenta ginestra,
Chi di selve odorate
Queste campagne dispogliate adorni
Anche tu presto, alla crudel passanza
Soccomberai…

G. Leopardi
(La ginestra).

Versos do poema “La ginestra, o il fiore del deserto”(“A giesta, ou a flor do deserto”), de Giacomo Leopardi:

E tu, lenta giesta,
Que com matos cheirosos
Adornas estes campos despojados
Também tu, prestes, à cruel potência
Sucumbirás [ao subterrâneo fogo]…

Em tradução de Affonso Félix de Sousa (In: LEOPARDI, Giacomo. Poesia e prosa. [org. Marco Lucchesi]. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996).

***

Et cuncta, in quibus spiraculum
Vitae est in terra, mortua sunt..

Gênesis. C. VII. 22.

“Tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia na terra seca, morreu” (Gênesis 7, 22). Esta e todas as demais traduções das epígrafes da Bíblia são de João Ferreira de Almeida.

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… “Perché mi scerpi?
non hai tu spirto di pietade alcuno?
Uomini fummo, e or siam fatti sterpi.

Dante
(Divina Commedia).

… O que faz que me atormentes?
não tens de pena o espírito primeiro?

Homens fomos, e paus só remanentes.

Versos de A divina comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), contidos no livro “Inferno”, canto XIII, em tradução de Italo Eugenio Mauro (A divina comédia – 3 vols. – bilíngue italiano/português. São Paulo: Editora 34, 1998). Todas as demais traduções das epígrafes de Dante – A divina comédia – foram extraídas desta edição. Corrigimos também a grafia do texto em italiano de acordo com o original estabelecido nesta edição.

***

… Et praesit piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis, universaeque terrae, omnique reptili quod movetur in terra.

Gênesis. C. I. 26.

… Tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra (Gênesis 1, 26).

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… et replete terram, et subicite eam…

Gênesis. C. I. 28.

… enchei a terra e sujeitai-a… (Gênesis 1, 28).

***

Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!.

A. Brizeux.

Que a fornalha arda, e os pesados martelos,
Noite e dia sem cessar, atormentem os metais!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos também de uma das partes intituladas “Hymne” (“Hino”) da obra Marie, de Auguste Brizeux.

***

… Le ciel
Se ferme lentement comme une grande alcôve,
Et l’homme impatient se change en bête fauve.

C. Baudelaire.

Qual grande alcova o céu se fecha lentamente,
E em besta fera torna-se o homem impaciente.

Versos do poema “O Crepúsculo Vespertino”, em tradução de Ivan Junqueira.

***

Ne me demandez point quelle est cette province,
Ni le nom de son prince:
Vous le saurez, quand il en sera temps.

Molière
(Psyché).

Não me pergunte que província é esta,
Nem o nome de seu príncipe:
Saberás quando chegar a hora.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Molière (1622-1673), da peça Psyché (Psique), ato III, cena III.

***

Qui travaille de ses mains, pense, parle et écrit tout à la fois; et si, dans la république de l’esprit, il existe des places reservées pour les intelligences superieures, l’homme de style doit céder la place à l’homme d’action.

Proudhon
(Idées Révolutionnaires).

Quem trabalha com as mãos, pensa, fala e escreve simultaneamente; e se, na república do espírito, há espaços reservados para as inteligências superiores, o homem de estilo deve ceder lugar ao homem de ação.

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Parte do capítulo “Ce que la Révolution doit à la Littérature” (“O que a Revolução deve à Literatura”, em tradução livre), da obra Ideias Revolucionárias de Pierre-Joseph Proudhon (Paris: Garnier, 1849).

***

An amor dolor sit,
An dolor amor sit,
Utrumque nescio!
Hoc unum sentio:
Jucundus dolor est,
Si dolor amor est.

*** Phoenix Expirans.

Se amor é dor,
Se dor é amor,
De nada sei!
Só isto direi:
É prazerosa a dor,
Se há dor é amor

*** Fênix Expirada. Tradução de Guilherme Gontijo Flores. Segundo F. A. March, em sua obra Latin Hymns, trata-se de um poema anônimo, escrito provavelmente entre os séculos XIV e XVI, que tem como tema o Amor de Cristo. Não é impossível pensar que Pompeia tenha extraído tanto esta como as epígrafes das canções “Veritas” e “Conclusão” de alguma obra semelhante a esta de March, que muito provavelmente circulavam pelos colégios e bibliotecas de sua época (MARCH, Francis Andrew. Latin Hymns – with english notes – for use in schools and colleges. New York: Harper & Brothers, Publishers, 1874. {Douglass Series of Christian Greek and Latin Writers – For use in schools and colleges. Vol. I – Latin Hymns}). Usamos aqui esta edição como base para corrigir prováveis gralhas ortográficas nos textos em latim desta e das outras duas referidas epígrafes.

***

Sonnez, sonnez toujours, clairons de la pensée!

Victor HugoChâtiments.

Toquem, toquem sempre, clarins do pensamento!

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Primeiro verso da sétima parte, intitulada “Les sauveurs se sauveront” (“Os salvadores se salvarão”), da obra Les Châtiments (As punições, 1853), na qual Victor Hugo (1802-1885) ataca o Segundo Império proclamado por Napoleão III.

***

Haec carnis gloria, quae tanti penditur,
Sacris in litteris flos foeni dicitur.
Ut leve folium, quod vento rapitur,
Sic vita hominis luci subtrahitur.

JacoponusMundi vanitas.

Esta a glória da carne que se pende
Nas letras sacras, se diz flor de feno.
Qual leve folha alçada pelo vento
É a vida do homem – levada na luz

A vaidade do mundo, da canção sem metro “Veritas”, em tradução de Guilherme Gontijo Flores. Jacoponus, muito provavelmente se trata de Jacopone da Todi, franciscano heterodoxo autor de cânticos de louvor e sátiras, nascido por volta de 1230, na cidade de Todi, província de Perugia, região de Umbria, Itália, e faleceu em 1306, em Collazzone, cidade onde viveu em retiro junto às Clarissas após ter sofrido com as ações severas do Papa Bonifácio VIII e permanecido em cativeiro por longo tempo, por satirizar certos abusos e vícios dos sacerdotes. É considerado um dos mais importantes poetas italianos da Idade Média, ao qual é atribuído também o famoso poema Stabat Mater (referido na canção “Vermelho, guerra”), musicado por importantes compositores, como Pergolesi, Vivaldi, Verdi, Haydn, Rossini, entre muitos outros.

***

Sovra tutto ’l sabbion, d’un cader lento,
piovean di foco dilatate falde…

DanteDivina Commedia.

Sobre todo o areal, em jorro lento
choviam chispas de fogo dilatadas…

Versos também do livro “Inferno”, canto XIV, em tradução de Italo Eugenio.

***

Words, words, words…

ShakespeareHamlet. Act. Sc.

“Palavras, palavras, palavras…”, fala de Hamlet no ato II, cena II.

***

… Così tra questa
Immensità s’annega il pensier mio;
E il naufragar m’è dolce in questo mare.

G. LeopardiL’infinito.

… Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.

Versos do poema “L’infinito” (“O infinito”), em tradução de Ivo Barroso (In: LEOPARDI, Giacomo. Poesia e prosa. [org. Marco Lucchesi]. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996).

***

E quel medesmo, che si fu accorto
ch’io domandava il mio duca di lui
gridò: “Qual io fui vivo, tal son morto.

DanteDivina Commedia.

E esse, que percebeu, antes absorto,
que dele eu perguntava para o meu guia
gritou: como eu fui vivo, assim sou morto!

Versos também do livro “Inferno”, canto XIV, em tradução de Italo Eugenio.

***

¿Ont ets? – I, ai!, on l’hermosa solia els cors atraure,
lo pèlag responia: – Jo l’he engolida anit;
fes-te enllà! entre les terres per sempre em vull ajaure;
Ai d’elles, ai, si m’alço per eixamplar mon llit! –

J. VerdaguerL’Atlàntida.

A Atlântida é o grande poema épico da língua catalã, publicado em 1876 e criado por Jacint Verdaguer, escritor nascido em 1845 em Folgaroles, povoado da planície de Vic, ao norte da Catalunha, e falecido em Barcelona (Vallvidrera) em 1902. Viajou pelo Atlântico a bordo de um dos navios da Transatlântica do Marquês de Comilles como capelão e na travessia da América à Europa escreveu o monumental “L’Atlàntida”, vertido em versos para o português por José M. Gomes Ribeiro: “Onde estás? – E, onde a bela os corações prendia,/ – Eu a engoli, fazei-me praça, ronca o mar;/ entre os mundos lançar-me eu quero de hoje em dia…/ ai deles! Se me apraz meu âmbito alargar” (VERDAGUER, Jacint. A Atlântida. Trad. José M. Gomes Ribeiro. Lisboa: Livraria Férin, 1909). Em todas as edições anteriores de Canções sem metro, os versos desta epígrafe divergem bastante do original em catalão segundo verificamos em uma edição crítica de L’Atlàntida (VERDAGUER, Jacint. Edició crítica a cura de Narcís Garolera. Barcelona: Quaderns Crema, 2002). Mantivemos aqui o texto original de acordo com esta edição, que registra criteriosamente as modificações ortográficas do texto de Verdaguer nas edições de 1878, 1886, 1897 e 1902. A estrofe referente à epígrafe não apresenta nesta edição nenhuma nota apontando alguma diferença na grafia. Nas três edições anteriores de Canções os versos foram assim publicados: ¿Hont ets? – Y ay! hont l’hermosa/ solía’ls cars atraure,/ lo pìlach responía: – Yo l’he engolida á nit;/ feste enllá! entre les terres per sempre/ ’m vull ajaure;/ man llit!; ay d’elles! ay si ’m also per/ dixamplar.

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Las creencias que abandonas,
Los templos, las religiones
Que pasaron, y que luego
Por mentira reconoces,
¿Son, quizá, menos mentira
Que las que ahora te forges?

J. de EsproncedaEl Diablo mundo.

As crenças que abandonas,
Os templos, as religiões
Que passaram e que logo
Como mentira reconheces,
São porventura menos mentira
Que aquelas que agora crias?

(Trad. de Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte)

Versos também da introdução do autor ao poema El Diablo Mundo (In: ESPRONCEDA, J. de. El Diablo Mundo. 6ª Ed. [Edición, prólogo y notas de José Moreno Villa]. Madrid: Espasa-Calpe, 1969).

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Caeli enarrant gloriam Dei, et opera manuum eius annuntiat firmamentum.

L. Psalm. – XVIII2.

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” (Livro dos Salmos, 18, 2). A edição da Bíblia da qual tiramos esta tradução traz a referência 19, 1.

***

Les flots murmurent leur éternel murmure, le vent souffle, les nuages fuient, les étoiles scintillent, froides et indifferentes – et un fou attend reponse.

H. HeineLa mer du Nord
Trad. de Gérard de Nerval.

O trecho pertence à sétima parte intitulada “Questions” do segundo ciclo do poema “La mer du Nord” (1825-1826), de Heinrich Heine (1797-1856), poeta romântico alemão, traduzido em prosa para o frânces por Gérard de Nerval (HEINE, H. L’Intermezzo. La mer du nord. Nocturnes. Deux traductions et préfaces par Gérard de Nerval. Paris: Atelier de Jean Crès, 1946). O trecho que precede o da epígrafe é: “[Au bord de la mer, au bord de la mer déserte et nocturne, se tient un jeune homme, la poitrine pleine de doute, et d’un air morne il dit aux flots: ‘Oh! expliquez-moi l’énigme de la vie, la douloureuse et vieille énigme qui a tourmenté tant de têtes: têtes coiffées de mitres hiéroglyphiques, têtes en turbans et en bonnets carrés, têtes à perruques, et mille autres pauvres et bouillantes têtes humaines. Dites-moi ce que signifie l’homme? d’où il vient? ou il va? qui habite là-haut au-dessus des étoiles dorées?’]. Les flots murmurent leur éternel murmure, le vent souffle, les nuages fuient, les étoiles scintillent, froides et indifférentes, et un fou attend une réponse”. Que traduzimos: “[Na beira do mar, à margem do mar deserto e noturno, encontra-se um jovem homem, o peito repleto de dúvidas, e com um ar desolado diz às ondas: ‘Ó, expliquem-me o enigma da vida, o doloroso e velho enigma que atormenta tantas cabeças: cabeças com tiaras de hieroglifos, cabeças em turbantes e gorros quadrados, cabeças com perucas, e mil outras cabeças pobres e a ferver. Digam-me, o que significa o homem? De onde ele vem? Para onde ele vai? Quem habita acima das estrelas douradas?’]. As ondas murmuram seu murmúrio eterno, o vento sopra, as nuvens fogem, as estrelas cintilam, frias e indiferentes, e um louco espera uma resposta.” (Trad. Bruno D’Abruzzo e Camila Duarte).

***

Omnis mundi creatura
Quasi liber et pictura
Nobis est, et speculum;
Nostrae vitae, nostrae mortis,
Nostri status, nostrae sortis
Fidele signaculum.

Alanus Insulanus.

No mundo cada criatura,
Como que livro e pintura,
É para nós espelho!
Da nossa vida, nossa morte,
Nosso estado, nossa sorte
Um símbolo fiel.

Epígrafe da canção sem metro “Conclusão”, em tradução de Guilherme Gontijo Flores. Alanus Insulanus (ou ainda Alanus de Lille, Alain de Lille e Alanus ab Insulis) foi um teólogo e poeta francês nascido em Lille, por volta de 1128, falecendo em Cister, em 1202 (F. A. March registra 1114 para o nascimento, e 1203 para a sua morte). Foi considerado Doctor Universalis pela variedade e profundidade de seus conhecimentos.

henri cazalis: danse macabre

saint saensuma das obras musicais que mais me surtiram efeito durante minha fase de formação musical foi danse macabre, de camille saint-saëns (1835-1921, retratado ao lado). por um longo tempo eu acreditei que ela havia sido composta por franz liszt, mas a confusão se explica pelo fato de liszt tê-la arranjado para o piano pouco tempo depois de sua estréia, além de os dois serem amigos e seus estilos se assemelharem em alguns aspectos. pois bem. danse macabre consiste em um poema sinfônico (basicamente, uma obra musical baseada ou inspirada em texto) cujo debut se deu em 1874, alto período das composições programáticas, encontrando paralelos, além do próprio liszt e de beethoven, em hector berlioz e richard strauss. na gravação abaixo você poderá conferir a obra, caso ainda não conheça. há alguns elementos que merecem ser destacados para a audição, como o início com os doze toques na harpa que representam as badaladas da meia-noite; o uso do violino solo para apresentar o tema e que predomina sobre o resto da orquestra, representando (muito bem, creio) a morte que propõe a dança; o uso dos xilofones recriando de maneira fantástica o bater dos ossos dos esqueletos dançando (procedimento usado até hoje em abundância quando se trata de sonoplastia do além-mundo). note-se, aliás, que é uma peça que atingiu alto prestígio no meio pop durante o século xx, estando presente em filmes, games, seriados, desenhos da disney, etc.

 

 

Jean_Lahor_(Henri_Cazalis)mas apenas recentemente descobri qual era, afinal, o poema sobre o qual saint-saëns havia composto seu trabalho. sobre esse poema, assim como sobre seu autor, não há abundância de informações pela internet. henri cazalis (1840-1909, retratado ao lado) era médico e poeta simbolista, e sabe-se que mantinha uma relação de amizade (ou ao menos de contato estável) com mallarmé. publicava seus poemas sob os pseudônimos de jean caselli e, mais frequentemente, jean lahor. vários de seus poemas foram musicados, sendo obviamente danse macabre o mais conhecido.

ainda como último dado desta breve apresentação, danse macabre trata de uma velha superstição francesa que conta que a morte, durante o halloween, aparece à meia-noite tocando sua rabeca e invocando os mortos para dançar a ‘dança macabra’ até o amanhecer. com o aproximar da aurora, todos voltam às suas tumbas e lá permanecem até o próximo ano. é provável que tenha sido levada em conta também, para a composição do poema, a alegoria medieval da dança macabra, cujo mote é de que a morte une a todos, independente da classe ocupada em vida.

sobre a tradução: ao que me consta, depois de alguma pesquisa, não existe ainda tradução para o português desse poema. se alguém souber de algum volume empoeirado, fale aí. as rimas do original me obrigaram a usar um pouco de inventividade para achar soluções, além das onomatopéias que tiveram que ser substituídas para algo muito mais familiar ao leitor brasileiro. aliás, com relação ao ritmo, minha opção em geral e sempre que possível foi a de aproximar a leitura do poema ao ritmo ternário próprio da dança, da valsa. assim, com um tempo forte seguido por dois fracos, utilizei decassílabos que também sustentam, diversas vezes, uma anacruse no início do verso, com um tempo fraco antes do tempo forte que inicia a contagem. assim, há de ser um poema ritmado, com sorte e competência do tradutor, em tum-tá-tá tum-tá-tá. devo também dar os devidos créditos ao rodrigo gonçalves, nosso correspondente em paris, pela valiosa revisão.

enfim, obras de imaginação invejável, creio que danse macabre seja, tanto em texto quanto em música, uma peça bastante divertida, com seus tons de macabrismo, que opõe líder e séquito, solista e orquestra, la mort et l’egalité. abundantemente visual, creio que seja uma das combinações texto-música mais felizes da história.

vinicius ferreira barth

 

Danse Macabre

Zig et zig et zig, la mort en cadence
Frappant une tombe avec son talon,
La mort à minuit joue un air de danse,
Zig et zig et zag, sur son violon.

Le vent d’hiver souffle, et la nuit est sombre,
Des gémissements sortent des tilleuls;
Les squelettes blancs vont à travers l’ombre
Courant et sautant sous leurs grands linceuls,

Zig et zig et zig, chacun se trémousse,
On entend claquer les os des danseurs,
Un couple lascif s’asseoit sur la mousse
Comme pour goûter d’anciennes douceurs.

Zig et zig et zag, la mort continue
De racler sans fin son aigre instrument.
Un voile est tombé! La danseuse est nue!
Son danseur la serre amoureusement.

La dame est, dit-on, marquise ou baronne.
Et le vert galant un pauvre charron –
Horreur! Et voilà qu’elle s’abandonne
Comme si le rustre était un baron!

Zig et zig et zig, quelle sarabande!
Quels cercles de morts se donnant la main!
Zig et zig et zag, on voit dans la bande
Le roi gambader auprès du vilain!

Mais psit! tout à coup on quitte la ronde,
On se pousse, on fuit, le coq a chanté
Oh! La belle nuit pour le pauvre monde!
Et vive la mort et l’égalité!

 

dança macabra

tum tá tá tum é a morte em cadência
bate co’ a perna um batuque na tumba
morte na noite jogando uma dança,
tum tá tá tum o violino retumba

o vento frio sopra e a noite é só sombra,
choros gemidos correndo dos galhos;
vão-se esqueletos brilhando na sombra
correm e pulam seus restos tão pálios,

tum tá tá tum, cada um se estremece
um osso tilinta no outro em cantigas
lascivo um casal sobre o musgo se assenta
como a provar das doçuras antigas

tum e a morte tá tá continua
raspa sem pausa o seu acre instrumento
foi-se um véu! e a dançarina está nua!
abraça seu moço danceiro co’ alento

a dama é, comentam, marquesa ou barona.
viu-se atraída a um pobre cabrão
                                                      Horror!
e voilà como a ele se abandona
como se o bronco versasse um barão!

tum tá tá tum tá, mas que sarabanda!
as rodas de mortos, comum direção,
tum tá tá tum tá, se vai com a banda
o rei saltitando colado ao vilão!

mas psiu! toda a ronda se vai em um segundo
se empurram, se fogem, é o galo que nasce
oh! quão bela noite para um pobre mundo!
três vivas à morte e também à igualdade!

 

trad. de vinicius ferreira barth

 

danse_macabre1

reverlaine, despudor: “les amies” por leo gonçalves

o post passado, feito por adriano scandolara, em homenagem ao aniverário de 168 anos de paul verlaine me fez pensar imediatamente em leo gonçalves. lembro o dia em que o conheci em bh, na livraria-editora crisálida, como o tradutor do doente imaginário de molière & da poesia de blake, mas principalmente como o tradutor de poemas eróticos, les amies, de verlaine ainda sem publicação (havia pouco, eu tinha lido a perdida versão da jahn pela brasiliense).

em resumo, pra mim, foi a melhor das primeiras impressões. vi aquelas traduções na época, tão suaves e sonoras, ouso dizer delicadas, na formulação, pra nunca mais: ele sampou, eu curitibei, não sei bem em qual ordem. & só o verlaine do scandolara é que me engatilhou a memória (finjamos um madeleine com chá, cruzei as pernas, ajustei meus óculos e cofiei o bigode), que se agraciou de receber do leo suas traduções, que vão aqui pra vocês.

ps: leo além de também ter publicado traduções de juan gelman (isso, em parceria com andityas soares de moura) e gerenciar o blog salamalandro, também é poeta, e já lançou dois livros próprios: o levíssimo das infimidades (2004) e wtc babel s.a. (2008), que muito, mas muito mesmo me impressionou. quem sabe um dia não nos agracia também com poesia própria neste humilde blog…

guilherme gontijo flores

LES AMIES, SCÈNES D’AMOUR SAPHIQUE
AS AMIGAS – CENAS DE AMOR SÁFICO

I. Sur le Balcon

Toutes deux regardaient s’enfuir les hirondelles:
L’une pâle aux cheveux de jais, et l’autre blonde
Et rose, et leurs peignoirs légers de vieille blonde
Vaguement serpentaient, nuages, autour d’elles.

Et toutes deux, avec des langueurs d’asphodèles,
Tandis qu’au ciel montait la lune molle et ronde,
Savouraient à longs traits l’émotion profonde
Du soir et le bonheur triste des coeurs fidèles.

Telles, leurs bras pressant, moites, leurs tailles souples,
Couple étrange qui prend pitié des autres couples,
Telles, sur le balcon, rêvaient les jeunes femmes.

Derrière elles, au fond du retrait riche et sombre,
Emphatique comme une trône de mélodrames
Et plein d’odeurs, le Lit, défait, s’ouvrait dans l’ombre.

I. Na sacada

Olhavam juntas o arribar das andorinhas.
Uma, branca, os cabelos de azeviche; loura
e rosa, a outra, e os penhoares de senhora
serpeavam sinuosos na pele das meninas.

E as duas, com uma volúpia asfodelina,
Enquanto, oval e mole, ia a lua lá fora,
Saboreavam profundas a emoção da hora
E dos amores fiéis a doce-triste sina.

Assim, úmidas, braços dados, finos talhes,
Estranho par que causa pena aos outros pares,
Na sacada, sonhavam essas jovens damas.

E atrás, ao fundo, no aposento escuro, alumbra,
Enfática qual ecoar de melodramas,
A Cama (ar e aroma), desfeita, na penumbra.

II. Pensionnaires

L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;
Toutes deux dormaient dans la même chambre.
C’était par un soir très lourd de septembre:
Frêles, des yeux bleus, deus rougeurs de fraise.

Chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,
La fine chemise au frais parfum d’ambre.
La plus jeune étend les  bras, et se cambre,
Et as soeur, les mains sur ses seins, la baise,

Puis tombe à genoux, puis devient farouche
Et tumultuose et folle, et sa bouche
Plonge sous l’or blonde, dans les ombres grises;

Et l’enfant, pendant ce temps-là, recense
Sur ses doigts mignons des valses promises,
Et, rose, sourit avec innocence.

II. As pensionistas

Uma tinha quinze, a outra dezesseis;
Dormiam no mesmo quarto. E no ar de
Outono caía, pesada, a tarde.
Olhos azuis, frágeis e a tenra tez.

Tiram, para estar mais à vontade,
A fina camisa de âmbar francês.
A mais nova espreguiça, e por sua vez,
Sua irmã lhe beija, e com a mão a invade.

Cai de joelhos, tumultuosa e louca;
E com ar selvagem, afunda a boca
No seu ouro louro, nas cinzas frestas.

E a criança, ao mesmo tempo, avalia,
Nos dedos singelos, valsas promessas,
E rosa, sorri, com inocência pia.

III. Per Amica Silentia

Les longs rideaux de blanche mousseline
Que la lueur pâle de veilleuse
Fait fluer comme une vague opaline
Dans l’ombre mollement mystérieuse,

Les grands rideaux du grand lit d’Adeline
Ont entendu, Claire, ta voix rieuse,
Ta douce voix argentine et câline
Qu’une autre voix enlace, furieuse.

“Aimons, aimons!” disaient vos voix melées,
Claire, Adeline, adorables victimes
Du noble voeu de vos âmes sublimes.

Aimez, aimez! Ô cheres Esseulées,
Puisqu’en ces jours de malheur, vous encore,
Le glorieux Stigmate vous décore.

III. Per amica silentia

Os cortinões de branca musselina
Que uma leve luz de pálida vela
Faz fluir como uma vaga opalina
Na sombra misteriosamente bela,

Os cortinões do leito de Adelina
Ouviram, Clara, tua voz sincera
A tua doce voz, argentina e fina,
Que uma outra voz enlaça feito fera.

“Amemos!” Eis suas falas misturadas,
Oh, Clara, Adelina, adoráveis vítimas
Da nobre sina de suas almas íntimas.

Amai, Amai! Queridas Insuladas!
Pois mesmo a vós, nesses tempos de azar,
O glorioso Estigma vem decorar.

IV. Printemps

Tendre, la jeune femme rousse,
Que tant d’innocence émoustille,
Dit à la blonde jeune fille
Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

“Sève qui monte et fleur qui pousse,
Ton enfance est une charmille:
Laisse errer mes doigts dans la mousse
Où le bouton de rose brille,

“Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
Boire les gouttes de rosée
Dont la fleur tendre est arrosée, –

“Afin que le plaisir, ma chère,
Illumine ton front candide
Comme l’aube l’azur timide.”

IV. Primavera

Terna, essa ruivinha donzela,
Que tanta inocência nos intriga,
Diz baixinho a sua loira amiga,
Essas palavras, a capela:

“Seiva que ergue e flor que anela,
Tua infância de magia instiga:
Deixa errar minha mão que irriga
O jardim da rosa mais bela.

“Deixa, no meio da erva clara,
Que eu beba as gotas do rocio
Esparsas no broto macio,

“Pra que o prazer, ó minha cara,
Te ilumine o rosto donzel
Como a aurora o tímido céu.”

V. Été

Et l’enfant répondit, pâmée
Sous la fourmillante caresse
De as pantelante maîtresse:
“Je me meurs, ô ma bien-aimée!

“Je me meurs; ta gorge enflammée
Et lourde me soûle et m’oppresse;
Ta forte chair d’où sort l’ivresse
Est étrangement parfumée;

“Elle a, ta chair, le charme sombre
Des maturités estivales, – 
Elle en a l’ambre, elle en a l’ombre;

“Ta voix tonne dans les rafales
Et ta chevelure sanglante
Fuit brusquement dans la nuit lente.”

V. Verão

E a jovem responde, pasmada,
Sob a carícia pululante
Dessa sua ansiosa amante:
“Eu morro, ó minha bem-amada

“Eu morro; teu colo me embriaga
E me oprime por um instante,
Tua forte carne inebriante
É estranhamente perfumada;

“Ela tem a delícia redonda
das madurezas estivais, –
possui ambos: âmbar e sombra;

“Tua voz troveja em vendavais,
E a cabeleira carmesim
Se esconde na noite sem fim.”

VI. Sappho

Furieuse, les yeux caves et les seins roides,
Sappho, que la langueur de son désir irrite,
Comme une louve court le long des grèves froides,

Elle songe à Phaon, Oublieuse du Rite,
Et, voyant à ce point ses larmes dédaignées,
Arrache ses cheveux immenses par poignées;

Puis elle évoque, en des romords sans accalmies,
Ces temps où rayonnait, pure, la jeune gloire
De ses amours chantés en vers que la mémoire
De l’âme va redire aux vierges endormies:

Et voilà qu’elle abat ses paupières blêmies
Et saute dans la mer où l’apelle la Moire, –
Tandis qu’au ciel éclate, incendiant l’eau noire,
La pâle Séléné qui venge les Amies.

VI. Safo

Olhos fundos, rígido seio, envolta em fúria,
Safo, a que na volúpia do desejo se atiça.
Como loba que corre pela praia escura,

Deseja Faon, já do Rito esquecidiça,
E ao ver naquele instante o desdenhoso pranto,
Arranca a cabeleira, pálida de espanto.

Em seguida ela evoca (o remorso a fustiga)
O tempo em que irradiava a jovem e pura glória
Do amor cantado em versos para que a memória
Da alma, às virgens dormentes, pra sempre rediga.

E eis que abate as pálpebras plenas de fadigas
E lança-se no mar onde lhe chama a Moira, –
E surge pois no céu, nesta parte da história,
Selene que incendeia o mar, e vinga as Amigas.

NOTAS AOS POEMAS

Na sacada

1. Asfodelinas: de asphodelus, designação comum às plantas da família das asfodeláceas, nativas do Mediterrâneo, cultivadas como ornamentais.)

Per Amica Silentia

1. O título um tanto sinestésico deste poema é o verso 21, do Livro II da Eneida de Virgílio: “a Tenedo, tacitae per amica silentia lunae [a Tenedo, sob a silente amiga lua]”.

2. O imperativo que inicia o 9º verso, ecoa o primeiro da “Carmina V” de Catullus: “Uiuamos, mea lesbea, atque amemus.”

Safo

1. Reza a lenda que Faon, jovem rapaz nascido na ilha de Lesbos, recebera como presente de Afrodite uma beleza sem igual. Safo, devota dos ritos da deusa, teria se apaixonado intensamente pelo jovem que, por sua vez, a desdenhou, fugindo para a Sicília. Ela o teria perseguido até a Leucádia onde, inconformada e enlouquecida, lançou-se ao mar do alto do monte Leucas. Na “Epístola XV das Heroidas, Ovídio conta que uma náiade, vendo o sofrimento da poeta, teria-lhe convidado, afirmando que as águas da daquele lugar possuíam a virtude de aliviar o coração das paixões arrebatadoras. Baudelaire também evoca esta lenda em seu poema intitulado “Lesbos”.

2. Selene: A personificação grega da lua.

(tradução e notas, leo gonçalves)

Aniversário de 168 anos de Paul Verlaine: sonetos eróticos

Há 168 anos, nascia o poeta maldito Paul-Marie Verlaine.  A maioria o conhece (i.e. dos que o conhecem) por sua poesia localizada entre o simbolismo e o parnasianismo – “Des sanglot longs /Des violons / De l’automne”, etc – e por seu relacionamento conturbado com o juvenilíssimo poeta revoluncionário Arthur Rimbaud, que resultou em seu encarceramento (lembremos que “sodomia” era crime à época), um tiro na mão e uma vida, em geral, bastante miserável – para os curiosos, fica a recomendação do filme Eclipse de uma Paixão, que embora tenha um título brega e o Leonardo DiCaprio no elenco (apesar de que eu acho que ele faz um Rimbaud bastante convincente… não tanto como seria o River Phoenix, que era a intenção do diretor, mas razoável ainda assim), funciona bem para apresentar a biografia dos dois poetas. Desse aspecto de sua poesia, temos traduções muito boas de autoria de Onestaldo de Pennafort (Poesias Escolhidas, pela Livraria do Globo, bastante antiga, de 1945) e de Guilherme de Almeida (A Voz dos Botequins e Outros Poemas, mais fácil de encontrar, pela editora Hedra).

Há um lado da obra de Verlaine, porém, que não sei se muitos conhecem, e que me parece ser o mais interessante, que é sua vertente erótica. Ela é interessante não tanto pela putaria em si ou pelo aspecto cômico (como no famoso “soneto do cu”, que ele escreveu com Rimbaud), mas porque ele consegue realmente poetizar o ato sexual e fazer dele algo lírico, ao mesmo tempo em que o faz sem perder o que há de eróticoe pornográfico.

Enfim, para ilustrar o que estou dizendo, posto 3 poemas da série “Amigas”. Em tradução minha e na de Heloisa Jahn (da edição completa intitulada Para ser caluniado, editora brasiliense, bastante difícil de se achar, por sinal).

PRIMAVERA

Tenra, a ruivinha jubilante
De viço e inocência pura
Diz, com voz baixa e de ternura,
Assim, à jovem, loura amante:

“Seiva ascendente e flor pulsante,
Uma alameda, a infância tua,
Deixa ao prado ir meu dedo errante
Onde a rosa em botão fulgura.

Deixa-me, em meio à relva clara,
Sorver as gotas orvalhadas
Das tenras pétalas molhadas

A fim que o prazer, minha cara,
A tua cândida fronte acenda,
Como a alva na nuvem pudenda.”

(trad. Adriano Scandolara)

PRIMAVERA

Com ternura, a jovem ruiva
Que tanta inocência estimula,
Diz baixinho à menina loura
Estas palavras, numa voz quente:

“Seiva que aflora e flor que cresce,
A tua infância é uma alameda:
Deixa meus dedos nesse musgo
Onde o botão de rosa brilha,

“Deixa que eu, nessa erva clara,
Vá beber as gotas do orvalho
Com que é regada a tenra flor, –

Para que o prazer, ó querida,
Ilumine tua fronte pura
Como a aurora o céu indeciso.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PRINTEMPS

                                           Tendre, la jeune femme rousse,
                                           Que tant d’innocence émoustille,

                                           Dit à la blonde jeune fille
                                           Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

                                           “Sève qui monte et fleur qui pousse,
                                           Ton enfance est une charmille:
                                           Laisse errer mes doigts dans la mousse
                                           Où le bouton de rose brille.

                                           Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
                                           Boire les gouttes de rosée
                                           Dont la fleur tendre est arrosée;

                                           Afin qui le plaisir, ma chère,
                                           Illumine ton front candide,
                                           Comme l’aube l’azur timide.”

VERÃO

E a criança responde, espantada
Com tal afago fervilhante
De sua senhora ofegante
“Morro, ó, minha bem amada!

Morro; tua garganta abrasada
Pesa, opressora e sobejante,
Tua carne, de um ar embriagante,
É estranhamente perfumada.

Tua carne tem o encanto obscuro
Das madurezas estivais,
Tanto à luz do âmbar e no escuro.

Troa-te a voz nos vendavais
E a tua cabeleira sangrenta
Brilha brusca na noite lenta.”

(trad. Adriano Scandolara)

VERÃO

A menina disse, sem forças,
Com a formigante carícia
De sua amante, que arquejava:
“Ai que eu morro, minha adorada!

“Eu morro, teu colo inflamado
Me pesa, embriaga e apera;
Teu corpo forte, que inebria,
Que estranho perfume ele tem;

“Teu corpo tem o encanto turvo
Das madurezas estivais,
Feito de âmbar e de sombras;

“Tua voz repercute no vento
E tua cabeleira de sangue
Some toda na noite lenta.”

(trad. Heloisa Jahn)

                                           ÉTÉ

                                           Et l’enfant répondit, pâmée
                                           Sous la fourmillante caresse
                                           De sa pantelante maîtresse:
                                           “Je me meurs, ô ma bien-aimée!

                                           Je me meurs; ta gorge enflammée
                                           Et lourde me soûle et m’oppresse;
                                           Ta forte chair d’où sort l’ivresse
                                           Est étrangement parfumée.

                                           Elle a, ta chair, le charme sombre
                                           Des maturites estivales,
                                           Elle en a l’ambre, elle en a l’ombre.

                                           Ta voix tonne dans les rafales,
                                           Et ta chevelures sanglante
                                           Luit brusquement dans la nuit lente.”

NO INTERNATO

Com quinze e dezesseis anos de idade,
No mesmo quarto cada uma dormia
Em noite de setembro, tão sombria;
Rubores; olho azul; fragilidade.

Cada uma delas, pondo-se à vontade,
Da fina camisola se despia.
A mais nova, seus braços estendia,
E, mãos aos seios, beija-lhe a amizade.

Depois se ajoelha, e, depois, louca
Cola a cabeça ao ventre, e com a boca,
Entre as sombras, mergulha no ouro louro;

E enquanto isso, a menina vai, querida,
Com os dedos contar bailes vindouros,
E inocente sorri, enrubescida.

(trad. Adriano Scandolara)

INTERNATO

Uma quinze anos, dezesseis a outra,
Dormiam as duas no mesmo quarto.
Numa noite abafada de setembro:
Frágeis, olhos azuis, rubor de frutas.

Para ficar a gosto as duas tiram
As finas camisolas perfumadas.
A mais moça abre os braços e se arqueia
E a beija a irmã, com as mãos nos seus seios,

Depois cai de joelhos, fica atrevida
E tumultuosa e doida e sua boca
Afunda no ouro claro, em meio às sombras

Mas a menina, nos dedos mimosos
Vai recontando as valsas prometidas
E, corada, sorri com inocência.

(trad. Heloisa Jahn)

                                           PENSIONNAIRES

                                           L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize;
                                           Toutes deux dormaient dans la même chambre;
                                           C’était par un soir très lourd de septembre;
                                           Frêles; des yeux bleus; des rougeurs de fraise.

                                           Chacune a quitté, pous se mettre à l’aise,
                                           Sa fine chemise au frais parfum d’ambre.
                                           La plus jeune étend les bras, et se cambre,
                                           Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise.

                                           Puis tombe à genoux, puis devient farouche,
                                           Et colle sa tête au ventre, et sa bouche
                                           Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises;

                                           Et l’enfant pendant ce temps-là recense
                                           Sur ses doigts mignons des valses promises,
                                           Et, rose, sourit avec innocence.

 

(nota: para mais traduções de poesia erótica verlainiana, pelas mãos hábeis de Leo Gonçalves, ver o nosso outro post clicando aqui.)