poesia, tradução

luis de góngora, por érico nogueira

gongora

Nascido em Córdoba, sul da Espanha, em 1561, e falecido na mesma cidade em 1627, Luis de Góngora y Argote viveu o ápice do chamado “siglo de oro” das letras espanholas. Escreveu, diz-se, em “castelhano imperial”, uma língua não raro obscura eivada de helenismos, latinismos, figuras retóricas e alusões mitológicas. Sua paixão pela metáfora – ou, antes, pelo processo analógico que Gracián chamou de agudeza e que propicia toda metáfora – chegou ao cúmulo do paroxismo e da obsessão.

Abaixo, segue um soneto de Góngora traduzido por Érico Nogueira  para a segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente (nela, Nogueira também traduz poemas de Hugo von Hofmannsthal e Torquato Tasso). Comenta o tradutor: “Aos vinte anos, contudo, [Góngora] escreveu sua profissão de fé. É um soneto à moda de Petrarca, com algo de Camões, e superior a ambos. Eu diria que é a cumulação da arte do soneto, de suas possibilidades formais e, por que não, também expressivas, e foi imitado por nosso Gregório de Matos”.

Érico Nogueira (Bragança Paulista – SP, 1979) é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal de São Paulo. Autor de O Livro de Scardanelli (poesia, 2008), Dois (poesia, 2010) e Verdade, Contenda e Poesia nos Idílios de Teócrito (estudo e tradução, 2012), Poesia Bovina (poesia, 2015). Tem publicado artigos sobre versificação greco-latina e portuguesa. Nomes como Paulo Henriques Britto e João Angelo Oliva Neto já escreveram sobre sua poesia. Traduzido em inglês pelo crítico britânico Chris Miller, tem recebido destaque nas principais revistas literárias da Inglaterra, onde foi capa da The Warwick Review, editada pelo Department of English and Comparative Literary Studies da Universidade de Warwick. Vive e trabalha em São Paulo.

escamandro

 

Soneto

Enquanto, ao competir com teu cabelo,
ouro brunido ao sol deslumbra em vão;
enquanto com desprezo ao rés-do-chão
olha tua alva frente o lírio belo;

enquanto atrás do lábio, por querê-lo,
mais olhos que da rosa agora vão;
e enquanto triunfa com afetação
do luzente cristal teu ser de gelo;

goza gelo, cabelo, lábio e frente,
antes que esta que foi hora dourada
– ouro, lírio, rosal, cristal luzente –

não só em prata ou flor estiolada
se torne, mas tu e tudo juntamente
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada.

 

Soneto

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

(poema de Luis de Góngora y Argote, tradução de Érico Nogueira)

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Maria Luise Weissmann, por Gabriel Rübinger-Betti

Maria_Luise_WeissmannMaria Luise Weissmann nasceu em Schweinfurt no ano de 1899. Ainda criança, mudou-se para Hof e, em seguida, Nuremberg, onde viveu durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Publicou suas primeiras obras em 1918 no jornal Fränkischer Kurier sob o pseudônimo de M. Wels. A partir de então, Weissmann passou a tecer amizades com várias figuras da literatura de seu tempo, como Georg Britting, que publicou alguns de seus poemas no seu jornal expressionista Die Sichel. Nesse mesmo ano também conheceu seu futuro cônjuge, o editor Heinrich F. S. Bachmair.

Em 1919 mudou-se para Munique e passou a trabalhar na livraria recém-fundada Die Bücherkiste. Nessa época, além de se aproximar do budismo, participou da associação literária revolucionária Das Junge Franken. Em 1920 mudou-se para Pasing, logo após a libertação de Bachmair, que estivera preso por um ano e meio por motivos políticos. Os dois casaram-se em 1922, passando a viver nos anos seguintes em Pasing, Dresden e Munique. Naquele ano publicou, na editora de Bachmair, seu primeiro livro: Das frühe Fest. Publicou, em seguida, o ciclo de poemas Robinson (1924), uma série de sonetos sob o título Mit einer kleinen Sammlung von Kakteen (1926), além de traduções de Paul Verlaine (1927) e Pierre Louÿs (1931).

Faleceu repentinamente aos 30 anos, em Munique, em decorrência de uma angina. Vários textos e ensaios foram publicados de maneira póstuma por Bachmair no livro Gesammelte Dichtungen (1932).

Embora a obra de Weissmann seja pouquíssimo conhecida fora da Alemanha, seus poemas possuem uma qualidade literária indiscutível, dialogando com a literatura de sua época, principalmente Rilke. Os três poemas aqui traduzidos foram retirados de Das frühe Fest (1922).

Gabriel Rübinger-Betti

 

Percursos

Devo seguir, todo o dia, a te procurar,
que o presságio de te circundar me sustenta
com tua segurança, que a luzir me alenta:
um cacto, fulgor de ouro, ave a cantar,

violino e neve, que uma vez te miraram,
bandeiras de brilhantes cidades e o vento.
Acaso morres quando o sol se extingue lento?
É teu o grito dessas crianças que brincaram?

Vagueio nos tufões, pelo cristal do mar,
– um perfume, talvez, traz a tua lembrança –
nas aleias escuras, e a tanto lugar

devo seguir, rindo ou chorando, na esperança,
devo seguir, todo o dia, a te procurar,
nas trilhas da púrpura noite que não cansa.

 

Fährte

Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn
Und ist so viel, was rings Dich mir verheißt,
Mich mit Gewißheit Deiner schimmernd speist:
Ein Vogelrufen, Glanz des Golds, Kakteen,

Schnee, ach, und Geige, die gesehn Dich haben,
Fahnen der blanken Städte, Windeswehn –
Starbst Du in einer Sonne Untergehn?
War dies Dein Schrei in wehem Spiel der Knaben?

Ich wandre durch Taifun, kristallnen Strahl der Seen,
– Vielleicht, daß Dich ein Duft gefunden macht? –
Durch schwarze und die silbernen Alleen,

Durch Jenen, der geweint, und Den, der lacht, –
Durch allen Tag muß ich Dich suchend gehn,
Zu Dir noch wandert purpurn Pfad der Nacht.

 

Meus olhos

Quando tu vens,
meus olhos voltam-se
à escuridão
como à morte.

Desde que deixaram-te
entrar, (traidores!),
agora vivem sempre
sob a guilhotina.

 

Meine Augen

Wenn Du kommst
Müssen meine Augen
Ins Dunkel kehren
Wie in den Tod.

Seit sie Dich einließen:
Verräterinnen –
Nun leben sie immer
Unterm Beil.

 

Estou muito cansada

Na noite, ao longe, minha janela se inclina.
Sobre os telhados, as nuvens, ramos de flor fina;
a brisa me afaga, bondosa e delicada.
Eu, porém, mantenho as mãos fechadas, pois estou cansada
e escuto, admirada, alados sons de passos,
das pessoas, na rua, a passar. Seus braços
e pés, parecem-lhe tão leves. Somente eu
me deito, em meu grande cansaço acamada.
Às vezes ouço o som de um passo como o teu,
e então, amado, como a música dos passos, leve fico eu,
como as nuvens sobre os telhados – ramo de flor prateada.

 

Ich bin sehr müde

Mein Fenster lehnt sich weit in den Abend hinaus,
Die Wolken stehen über den Dächern, ein Blumenstrauß,
Die Luft streichelt mich und ist sanft und voll großer Güte.
Ich aber halte die Hände gefaltet, denn ich bin müde,
Und höre verwundert auf das beschwingte Schreiten
Der Menschen, die auf der Straße vorübergleiten,
So sehr sind ihnen heute die Glieder leicht.
Nur ich liege, schwergebettet in meine Müde.
Manchmal höre ich einen Schritt, der Deinem gleicht,
Dann bin ich, Geliebter, wie die Musik der Schritte leicht
Und wie die Wolken über den Dächern silberne Blüte.

 

(poemas de Maria Luise Weissmann, tradução de Gabriel Rübinger-Betti)

Gabriel Rübinger-Betti é poeta e tradutor, nascido em Juiz de Fora – MG. De produção diversificada, participou de antologias literárias (entre elas, Lira da Morte, 2012), escreveu peças de caráter teatral (Auto da Fé e Ciência, 2011; A Princesa, 2015) e participou de exposições literárias em São Paulo e Brasília (2010, 2011). Atualmente, se dedica a traduzir escritoras germanófonas.

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Elizabeth Barrett Browning (1806 – 1861), por Matheus Mavericco

Elizabeth_Barrett_BrowningDo pensador político William Godwin & a pioneira do feminismo Mary Wollstonecraft (e sua filha e genro, Mary e Percy Shelley) até, digamos, Sartre & Beauvoir, temos muitos exemplos fascinantes de casais de escritores famosos na história da literatura e das humanidades em geral, mas me parece que são poucos os casais de poetas propriamente dito – o que faz com que eles sejam casos ainda mais fascinantes, como Arthur Rimbaud & Paul Verlaine, Sylvia Plath & Ted Hughes, Pagu & Oswald de Andrade, Leminski & Alice Ruiz… e, como vocês já devem ter antecipado pelo título da postagem, Robert & Elizabeth Barrett Browning. Já postamos em dois momentos aqui poemas de Robert Browning, e agora enfim, por sorte, me surgiu a oportunidade de compartilhar com vocês, leitores do escamandro, algo da Elizabeth.

Nascida Elizabeth Barrett Moulton-Barrett em 1806, ela foi autora de alguns livros de poesia, dos quais podemos comentar a sua impressionante juvenília The Battle of Marathon (1820, um poema em imitação homérica, imaturo ainda, claro, mas mesmo assim melhor do que qualquer coisa que qualquer um de nós teria escrito aos 14) e An Essay on Mind, with Other Poems (1826), mais a tradução de Ésquilo Prometheus Bound (1833, depois revisada, melhorada e republicada em 1838) e depois os volumes The Seraphim and Other Poems (1838) e Poems (1844) – que fez com que ela ficasse famosa praticamente da noite para o dia em todo o mundo anglófono. Como coloca a sua biografia no site da Poetry Foundation, foi então que ela deixou de ser só mais uma “jovem poeta promissora” e se tornou uma “celebridade internacional”, “aclamada como uma das grandes vozes vivas da Inglaterra”. Por causa desse livro, Robert Browning (6 anos mais novo que ela, aliás) se interessou por Elizabeth e começou a lhe escrever, e foi essa relação entre os dois que inspirou os seus “Sonnets from the Portuguese”, um ciclo de sonetos amorosos disfarçados como traduções do português (tanto por motivos de privacidade quanto por causa da admiração dos dois poetas por Camões). O título é um pouco complicado de traduzir, já que pode ser entendido como “sonetos dos portugueses”, “sonetos (traduzidos) do (idioma) português” ou “sonetos da portuguesa”, considerando a perspectiva feminina deles e que “minha portuguesinha” era um dos apelidos carinhosos que Robert tinha por Elizabeth (não me perguntem). Escrito entre 45 e 46, ano em que os dois se casam, esse ciclo de sonetos foi incluído na reedição de 1850 de Poems. Ela também depois escreve o longo poema narrativo Aurora Leigh (1857), em 9 livros, e o seu último volume publicado chama Last Poems (1862), organizado por Robert um ano após a sua morte precoce, causada por uma doença misteriosa e o seu tratamento com láudano (ópio em solução alcoólica) que lhe deixou com a saúde ainda mais debilitada.

Do outro lado do Atlântico, Elizabeth foi uma influência imensa para poetas como Edgar Allan Poe e Emily Dickinson e, em nosso idioma, foi admirada e traduzida por figuras como Pessoa e Bandeira. De meu conhecimento, temos pelo menos três volumes de traduções de poemas dela: Sonetos da Portuguesa, de Leonardo Fróes (ed. Rocco), e Três Mulheres Apaixonadas, de Sérgio Duarte (Companhia das Letras), num volume que inclui, junto da Browning, também traduções de Gaspara Stampa e Louise Labé – e a esses dois volumes, soma-se também uma tradução em português lusitano chamada Sonetos Portugueses, de Manuel Corrêa de Barros (ed. Relógio d’Água).

Dito isso, deixo vocês com o nosso colaborador-convidado do dia, Matheus de Souza Almeida, conhecido como “Mavericco”. Eu “descobri” o Mavericco por acaso via o seu blog “Quanto ganha por ano em dólares Pedro Velásquez, em Havana”, onde ele posta traduções e comentários críticos sobre poetas diversos – leitura que recomendo a todos os nossos leitores, aliás. O Mavericco é goiano, nascido em 1992 e estudante de Direito e se descreve como “Aprendiz de tradutor e crítico mirim, tem a convicção de que quem não gosta de poesia contemporânea é doente do pé”. Ele me mandou 6 traduções (primorosas, eu diria) dos “Sonnets from the Portuguese”, mais um texto introdutório comentando a poeta e as suas traduções para o português, que eu compartilho abaixo.

E, ah, como um bônus também para os mais sentimentais, vocês podem conferir as cartas de Elizabeth (incluindo as trocadas com seu então futuro esposo) digitalizadas e publicadas online pela biblioteca da Baylor University, clicando aqui.

(Adriano Scandolara)

***

"Why how could I hate to write to you; dear Mr. Browning?" 3 de fevereiro de 1845, carta de Elizabeth a Robert.

“Why how could I hate to write to you; dear Mr. Browning?”
3 de fevereiro de 1845, carta de Elizabeth a Robert.

Elizabeth Barrett Browning (1806 – 1861) é quase que uma poeta nacional. Chamada carinhosamente por Mário de Andrade de Belinha Barreto, a autora encontrou nas mãos de Manuel Bandeira um intérprete que a fez se tornar um clássico quase tão firme quanto o é em sua língua de partida. Certo que existe todo um debate se as traduções de Bandeira são traduções mesmo; se olharmos de maneira mais detida, vamos observar que estão mais para paráfrases. Seja como for, é inegável a felicidade das recriações, ponhamos assim, de Bandeira, tanto que, sem espanto nenhum, ele incluiu algumas de suas traduções da autora (ao todo quatro) dentro do coração de sua obra: Libertinagem.

Sobre a vida da autora, o que primeiro impressiona é sua infância a um só tempo prodigiosa e mantida sob a égide da opressão patriarcal. Quem quiser procurar por informações acerca disso encontrará várias fofocas que demonstram o verdadeiro crápula que seu pai, Edward Moulton-Barrett, era. Por exemplo, lembram-se do Flush, aquele cãozinho simpático que a Virginia Woolf depois retrataria num romance delicioso? Pois é. Dizem que, quando a Elizabeth se casou, o pai dela matou o Flush… Aí vocês vejam que, basicamente, a vida de Belinha foi a vida de uma poeta de grande talento que até conheceu o biscoito fino de seu tempo, como um Wordsworth, mas que viveu presa num ambiente familiar graças às garras paternas e graças à sua saúde frágil. À sua personalidade também, podemos dizer.

Sua vida mudou inteiramente quando conheceu Robert Browning, o grande poeta vitoriano. Aí foi uma história de amor danada de linda, com direito a casamento escondido e troca de poemas, especialmente por parte de Elizabeth, até o momento em que ela conseguiu engravidar e viver sua vida curta de maneira alegre e pacata.

Do cortejo amoroso que travou com Robert, surgiram os Sonetos da portuguesa. Ao todo 44, são certamente uma das coletâneas poéticas mais queridas de toda a história da língua inglesa. Postos comumente ao lado de Shakespeare, é de se notar o apreço especial que Elizabeth tinha para com nosso Camões, donde uma das possibilidades de análise do título original (Sonnets from the portuguese). Ambiguidade esta que, dado conteúdo íntimo que percorrem os sonetos, encontra razão de ser. Lógico que em muitos sentidos isso é de uma hipocrisia enorme, pois o que os sonetos de Elizabeth expressam não é nada de mais, especialmente se comparados com os momentos mais acalorados do Bardo. Mas o machismo da época era assim e nós sabemos que até hoje ele não deixou muito de ser.

Elizabeth também escreveu o longo poema Aurora Leigh, cujo resumo é o de, numa estrutura até certo ponto autobiográfica, descrever o percurso da heroína rumo à carreira literária. Um retrato da artista quando jovem, digamos assim. Um forte contraponto ao The Prelude de Wordsworth.

Em relação à minha tradução, desde já eu deponho loas no caminho para os tradutores que vieram antes de mim, e aqui eu me refiro em especial ao próprio Manuel Bandeira, a Leonardo Froés e a Sérgio Duarte. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos.

Em Bandeira podemos louvar o pioneirismo e, malgrado o fato de que, enquanto traduções, deixam a desejar, podemos louvar também, é claro, os bons resultados a que chegou enquanto textos e enquanto divulgação da obra da autora em solo nacional. É um projeto que particularmente gosto de colocar ao lado do de Fernando Pessoa ao traduzir o “Catharina to Camoens”, onde, mais uma vez, podemos ver muito mais de Pessoa do que de Elizabeth.

Em Leonardo Froés, podemos destacar a grande seriedade em traduzir a obra toda, malgrado o fato de que aqui e ali ele acabe incorrendo em inversões sintáticas nem sempre presentes no texto original. E já em Sérgio Duarte, que talvez tenha sido o mais equilibrado entre os três, podemos perceber um contato em verdade mais próximo com os sonetos de Elizabeth especialmente no que tange a estrutura sintática tortuosa mas muitas das vezes clara, ou seja, veiculada sem inversões, mas com frequentes interrupções que até me lembram Emily Dickinson e a posterior aventura rumo ao monólogo interior, e no pequeno detalhe de que Sérgio Duarte traduziu os sonetos mantendo estritamente o esquema rímico do original.

Em meu projeto, quis manter a radicalidade das estruturas sintáticas de Elizabeth, algumas vezes até de forma mais radical que ela mesma, e adicionar um clima de pessoalidade ao substituir o “tu” por “você”. Em relação ao esquema rímico, busquei manter o ABBA/ABBA nos quartetos enquanto, nos tercetos, me vali de um esquema mais livre. A explicação acaba sendo simples, pois, na história do soneto, os tercetos sempre foram, digamos, muito problematizados, encontrando vários esquemas rímicos mesmo em Camões, enquanto os quartetos, por sua vez, no começo sempre ostentaram o esquema interpolado com dois ecos.

(Matheus de Souza “Mavericco” Almeida)

 

SONETOS DA PORTUGUESA

(…ou do português, ou dos portugueses, ou da portuguesinha)

VII.

O mundo inteiro está mudado, penso,
Desde que ouvi tua alma se movendo
Perto, perto de mim, entre o horrendo
Extremo do decesso óbvio e denso

E eu mesma, onde eu, em meu naufrágio intenso,
Fui pega pelo amor e o mais que vem do
Afeto: a vida em novo ritmo. Tendo
Aceito o pouco que Deus dá, convenço

A mim a mesma a louvá-Lo, e a te louvar.
E então o nome dos países muda
Tão logo você venha a se mudar;

E isto… esta canção!, agora muda,
(Os anjos sabem) com a tua ajuda
Eu sei que um dia irá se eternizar.

VII.

The face of all the world is changed, I think,
Since first I heard the footsteps of thy soul
Move still, oh, still, beside me, as they stole
Betwixt me and the dreadful outer brink
Of obvious death, where I, who thought to sink,
Was caught up into love, and taught the whole
Of life in a new rhythm. The cup of dole
God gave for baptism, I am fain to drink,
And praise its sweetness, Sweet, with thee anear.
The names of country, heaven, are changed away
For where thou art or shalt be, there or here;
And this… this lute and song… loved yesterday,
(The singing angels know) are only dear
Because thy name moves right in what they say.

 

XI.

E porque amar pode ser deserto,
Não sou de todo indigna. Rosto tal
Como o que você vê, joelhos mal
Aguentando um coração tão incerto —

Velho menestrel — certa vez desperto
Pra que escale o Aorno, e que igual
Ao rouxinol se põe a cantar, tal
Modo é triste — mas por quê disserto

Acerca disso? Amado, é simples: não
Sou digna de você! E, todavia,
Em te amar, eu recebo da paixão

A graça sem culpa de que eu te ame
Ainda, embora de forma vazia —
Pra te negar, por mais que eu te proclame.

 

XI.

And therefore if to love can be desert,
I am not all unworthy. Cheeks as pale
As these you see, and trembling knees that fail
To bear the burden of a heavy heart,–
This weary minstrel-life that once was girt
To climb Aornus, and can scarce avail
To pipe now ‘gainst the valley nightingale
A melancholy music,–why advert
To these things? O Beloved, it is plain
I am not of thy worth nor for thy place!
And yet, because I love thee, I obtain
From that same love this vindicating grace
To live on still in love, and yet in vain,–
To bless thee, yet renounce thee to thy face. 

XII.

De fato este amor é minha vanglória,
A qual, crescendo de meu rosto ao peito,
Me enaltece com joias de tal jeito
Nobres, que deixa aos outros bem notória

Minh’alma — meu amor, a minha glória,
Deste amor eu jamais terei proveito,
A não ser que você lembre o sem jeito
Com que cruzamos nossa trajetória

E amor se disse amor. Assim, não posso
Dizer do amor enquanto coisa minha:
Minhas forças sem forças, sem esforço

Você raptou e pôs em alto posto —
E o que sinto (ó alma!, eu desejo, eu torço!)
É por você, a quem amo sozinha.

XII.

Indeed this very love which is my boast,
And which, when rising up from breast to brow,
Doth crown me with a ruby large enow
To draw men’s eyes and prove the inner cost,–
This love even, all my worth, to the uttermost,
I should not love withal, unless that thou
Hadst set me an example, shown me how,
When first thine earnest eyes with mine were crossed,
And love called love. And thus, I cannot speak
Of love even, as a good thing of my own:
Thy soul hath snatched up mine all faint and weak,
And placed it by thee on a golden throne,–
And that I love (O soul, we must be meek!)
Is by thee only, whom I love alone.
XIII.

E que você me faça falar desse
Amor que sinto, procurando frases,
E guarde a chama, enquanto em nossas faces
O vento é áspero — pra que a acendesse

Em nós? — Jogo-a a teus pés. A mim me desse
A força de afastar meus capatazes
De mim — de mim — e as frases mais capazes
De dizer meu amor — que eu as professe!

Mas não. Que meu silêncio de mulher
Me faça ser mulher — e por você —,
Vendo que não me entrego ao que se exprime

Como amor — dando a joia mais sublime
Por insignificâncias — a não ser que,
Coragem muda, eu conte o que me oprime.

XIII.

And wilt thou have me fashion into speech
The love I bear thee, finding words enough,
And hold the torch out, while the winds are rough,
Between our faces, to cast light on each?–
I drop it at thy feet. I cannot teach
My hand to hold my spirits so far off
From myself–me–that I should bring thee proof
In words, of love hid in me out of reach.
Nay, let the silence of my womanhood
Commend my woman-love to thy belief,–
Seeing that I stand unwon, however wooed,
And rend the garment of my life, in brief,
By a most dauntless, voiceless fortitude,
Lest one touch of this heart convey its grief.

 

XX.

Meu amor, meu amor… E imaginar que
Você há um ano atrás vivia além,
Quando sozinha eu sentei sobre a neve e, em
Não ver você, via ninguém deixar

Que você me falasse… mas, me abarque
Toda, e me acorrentasse, como bem
Não soubesse que um golpe seu, meu bem,
A arrasaria num possível ataque…

Bebo a taça da vida! Deslumbrante,
Não ver você, de noite ou dia, adiante,
Com fala ou ato pessoal — colher

Presciência no branco florescer
Que você viu!… É tolo o ateísta
Que não pressente Deus à sua vista.

XX.

Beloved, my Beloved, when I think
That thou wast in the world a year ago,
What time I sat alone here in the snow
And saw no footprint, heard the silence sink
No moment at thy voice, but, link by link,
Went counting all my chains as if that so
They never could fall off at any blow
Struck by thy possible hand,–why, thus I drink
Of life’s great cup of wonder! Wonderful,
Never to feel thee thrill the day or night
With personal act or speech,–nor ever cull
Some prescience of thee with the blossoms white
Thou sawest growing! Atheists are as dull,
Who cannot guess God’s presence out of sight.

 

XXVI.

Convivi com visões por companhia
E não com homens e mulheres, há
Anos, e os tive por amigos, já
Que um bem maior que este eu desconhecia.

Mas logo sua glória se perdia
No poeira de tudo, e a canção vinha a
Acabar e, sob seu efêmero olhar,
Eu definhava. — E você veio — e ia

Ser tudo o que eles foram: a aparência,
A música e o esplendor (o mesmo, e mais,
Como as águas em santa confluência)

Se encontram em você — e em você ponho
O regojizo que encontrei jamais:
Frente a Deus, quão pequeno é o nosso sonho!

 

XXVI.

I lived with visions for my company
Instead of men and women, years ago,
And found them gentle mates, nor thought to know
A sweeter music than they played to me.
But soon their trailing purple was not free
Of this world’s dust, their lutes did silent grow,
And I myself grew faint and blind below
Their vanishing eyes. Then thou didst come–to be,
Beloved, what they seemed. Their shining fronts,
Their songs, their splendours, (better, yet the same,
As river-water hallowed into fonts)
Met in thee, and from out thee overcame
My soul with satisfaction of all wants:
Because God’s gifts put man’s best dreams to shame.

 

(poemas de Elizabeth Barrett Browning, tradução de Matheus de Souza “Mavericco” Almeida)

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A Lírica Involuntária de Aaron Shurin

Aaron_ShurinAaron Shurin (1947 – ) é um poeta norte-americano que, apesar de ter o que parece ser um reconhecimento pequeno, é autor de um grande número de livros de poemas, ensaios e de poesia em prosa. Meu contato com ele foi – como tem sido algo recorrente por aqui – por completo acaso, através de uma postagem no blog do célebre crítico e poeta da language poetry, Ron Silliman. Em um post de 2005 (clique aqui para ler), Silliman comenta um livro de Shurin intitulado Involuntary Lyrics, recém-lançado à época, que marca o retorno do autor à poesia versificada após 15 anos de publicação exclusiva de poesia em prosa. O que é crucial, porém, para a poética de Involuntary Lyrics – e o que mais me surpreendeu, considerando o meu interesse recente por poesia apropriativa, instigado pela crítica Marjorie Perloff – é que o livro todo se ancora completamente sobre a produção sonetística de William Shakespeare. Em seu blog, Silliman reproduz o primeiro poema do livro (intitulado I à moda da enumeração clássica em algarismos romanos dos sonetos shakespearianos) e tece o seguinte parágrafo de comentário, que faço questão de traduzir abaixo, junto com o poema em questão:

If the judgment’s cruel
that’s a wake-up call: increase
energy, attention. These little pumpkins ornament
themselves with swells, die
pushing live volume packed spring-
form hard as a knock: Decease
and resist. Content
surges exactly as memory
closes its rear-guarding
eyes
— the world rushes in not by! just be
steady, receptors, measure is fuel:
whatever moves move with the
drift which moving never lies.

Sim, isso é um soneto. Sim, ele depende de rimas:  eyes/lies, increase/decease, cruel/fuel, provavelmente em ordem de importância. Sim, o poema é na verdade sobre si mesmo, tão cheio de sons & informações quanto qualquer coisa que se possa encontrar em Zukofsky ou até mesmo em Shakespeare. Sim, esse poema é mesmo parte humor & parte paixão & parte sinceridade, tudo na mesma medida, imediatamente jocoso & completamente sério. Sim, pode haver um eco de Jack Spicer no leve sarcasmo do senso de humor dos primeiros dois versos & sim, há absolutamente um eco de Robert Duncan audível nas primeiras três ocorrências do verbo move nos últimos dois versos. Sim, se você prestar bastante atenção, as rimas nos fins de verso do primeiro soneto do próprio Shakespeare são precisamente nessas mesmas palavras, ainda que em ordem diversa – as duas “exceções” sendo the no lugar de thee & guarding no lugar de niggarding. E, sim, essa única mudança apodera o problema político das presunções seiscentistas do próprio Shakespeare, incorporadas como discurso, enquanto a mudança operada sobre o the apodera o fabuloso enjambment do penúltimo verso, uma pausa tão sensorial quanto se pode, movimentando-se, imaginar.

(Ron Silliman)

    

É um comentário, digamos, bastante empolgado, como imagino que dê para notar. Para refrescar a memória de quem talvez não tenha a referência imediata de Shakespeare em mente, reproduzo abaixo agora também o soneto I:

I

From fairest creatures we desire increase
That thereby beauty’s rose might never die,
But as the riper should by time decease
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed’st thy light’s flame with self-substancial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel.
Thou that art now the world’s fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, mak’st waste in niggarding.
Pity the wold, or else this glutton be:
To eat the world’s due, by the grave and thee.

    

Para quem quiser lê-lo em português, segue a tradução de Jorge Wanderley (do volume Sonetos, publicado pela Civilização Brasileira), que o tradutor e professor John Milton, da USP, elege como autor das melhores traduções dos sonetos do bardo para o português:

Dos raros, desejamos descendência,
Que assim não finde a rosa da beleza,
E morto o mais maduro, sua essência
Fique no herdeiro, por inteiro acesa.
Mas tu, que só ao teu olhar te alias,
Em flama própria ao fogo te consomes
Criando a fome onde fartura havia,
Rival perverso de teu próprio nome.
Tu que és do mundo o mais fino ornamento
E a primavera vens anunciar,
Enterras em botão teus suprimentos:
– Doce avareza, estróina em se poupar.
Doa-te ao mundo ou come com fartura
O que lhe deves, tu e a sepultura.

    

De fato, os versos do poema de Shurin terminam todos com as palavras que encerram os versos do soneto de Shakespeare – e, ao que tudo indica, esse jogo é reproduzido e reformulado nos poemas posteriores do livro, ainda que nem sempre seja mantida uma estrutura de 14 versos rimados. São essas as palavras: increase, die, decease, memory, eyes, fuel, lies, cruel, ornament, spring, content, niggarding (que vira guarding), be, thee (que vira the), num esquema de rimas clássico abba cdcd efef gg, que, em Shurin, se torna abcdebcdefgagf. E aqui só posso descrever o que houve comigo como um momento clássico do que se chama, na teoria da tradução, de pulsão (ou talvez fosse melhor denominar compulsão) tradutória… não só por traduzir o poema reproduzindo as rimas, mas pensando em construir a tradução através do mesmo método que o poeta usou para compor o “original” (muitas aspas aqui), tomando por base um outro poema – no meu caso, o próprio Shakespeare, em português.

Por ser uma das melhores, pensei em basear essa tradução de Shurin na tradução de Shakespeare de Jorge Wanderley, mas não consegui chegar a um resultado adequado com a sequência de palavras finais que ele me disponibiliza (descendência, beleza, essência, acesa, alias, consomes, havia, nome, ornamento, anunciar, suprimentos, poupar, fartura, sepultura)… então recorri, por isso, à tradução de Ivo Barroso (do volume 30 Sonetos, da Nova Fronteira):

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.

    

…que oferece prole, extinga, colhe, vinga, contrais, energias, jaz, crucias, galardão, botão, Natureza, avareza, fundo, mundo. A dificuldade permanece, é claro: perdemos a equivalência fácil do ornament que Wanderley nos dá de lambuja como “ornamento”, mas me parece mais fácil encaixar palavras como “natureza” ou “crucia(s)” do que “descendência”, “beleza” ou “sepultura”.

Assim, com base nessas palavras como possibilidades para terminações de verso, proponho a seguinte tradução para o poema de Aaron Shurin:

Se o juízo crucia
é pra ficar esperto: vinga
força, atenção. Da aboboreira essa pequena prole
se orna de inchaços, quem as colhe
mata vivo volume que se contrai
duro igual pancada: Extinga
e resista. Os contéudos dão
saltos bem quando do seu fundo
a memória fecha os olhos de avareza
– o mundo
colide, não evade! Firme em botão,
receptores, a mesura é a energia:
tudo que se move move-se por natureza
na deriva em que o movimento nunca jaz.

Como o autor, eu me dei à liberdade de cortar um ou outro pedaço das palavras, extraindo dão de galardão (como o guarding que Shurin extrai do niggarding de Shakespeare) e cortando os -s finais de verbos na segunda pessoa (crucias e contrais). Acabei perdendo a possibilidade de encontrar uma solução melhor para o jogo de palavras decease and resist – uma referência para cease and desist, literalmente “cessar e desistir” (que vira “falecer e resistir”), mas que significa um tipo de ordem jurídica que já vi ser traduzida como “cessação” ou “cessação de atividade” ou ainda “injunção” -, e o esquema de rimas de Shurin acabou tendo de ser alterado, tornando-se abccdbefgfeagd. De qualquer modo, imagino que o resultado seja interessante, pelo menos como uma abertura para uma discussão sobre esse tipo de literatura apropriativa e as suas possibilidades de tradução.

(Adriano Scandolara)

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poesia, tradução

8 poemas de Paul Verlaine, em 3 tradutores

Caricatura-Paul-Verlaine-Les-Hommes-Daujour-dhui-por-Emile-CohlHá exatamente um ano eu postei umas traduções minhas e da editora e tradutora Heloisa Jahn de alguns poemas eróticos de Verlaine, em comemoração aos 168 anos do poeta – ao que acompanhou, logo na sequência, um outro post com traduções e notas do Leo Gonçalves, sobre o mesmo assunto.  Retornamos agora ao velho poeta maldito para relembrarmos, desta vez, a parte mais “séria”, por assim dizer, da sua poesia.

A esta altura acredito que todos já conheçam em alguma medida as características principais da poesia simbolista, como a importância da musicalidade, o gosto pelo preciosismo das palavras, a ideia de que a poesia deve sugerir – ideias, imagens, sensações – em vez de declarar, etc. São todas elas características que norteiam boa parte da poesia de Verlaine – conforme declarado, inclusive, em seu famoso poema “Arte poética” –, embora devamos lembrar que há ainda algum grau de sobreposição entre o simbolismo e o parnasianismo, visto que, na França, ambos os grupos se reuniam, conversavam e eram publicados juntos nas mesmas antologias (Mallarmé e Verlaine, por exemplo, foram ambos publicados no periódico O Parnaso Contemporâneo, de 1866-1876). É sempre bom apontar que essas coisas de categorização são complicadas, sobretudo quando pensadas cronologicamente. Lembrem-se que até 1885 Victor Hugo, o maior expoente do romantismo francês, ainda estava vivo e ativo…

Do “Big 4” do simbolismo francês, eu arriscaria dizer que Verlaine é o mais virtuosista no emprego e na variedade do metro e da rima (mais que Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, eu diria), uma característica que, no entanto, não lhe valeu muito para a posteridade, na medida em que, dentre esses 4, ao passo em que é forte a influência de Verlaine na poesia do século XIX (em português, visível em Cruz e Souza e Alphonsus de Guimarães), os outros 3 parecem ter sido muito mais influentes para os movimentos do século XX, do surrealismo ao concretismo. Isso não quer dizer que não encontremos em sua obra poemas que agradem à nossa sensibilidade moderna, mas a consequência dessa menor popularidade é que não temos ainda uma obra completa do poeta. A melódica e romântica “Canção de outono” é, sem dúvida, o seu poema mais famoso e musicado em mais de uma voz (de Charles Trenet e Leo Ferré a uma banda contemporânea de shoegaze chamada Les Discrets), enquanto as cores urbanas de “A voz dos botequins” (especialmente como traduzido por Guilherme de Almeida, puxando para o tom mais popularesco) e o tom irônico de “Colóquio sentimental” (cujo diálogo me lembra, com o perdão da referência tosca, coisas que diriam o personagem do Al Bundy da sitcom Married with Children) sejam o que, talvez, nos chame mais a atenção.

Vide a "Canção de outono". E não é verdade?

Vide a “Canção de outono”. E não é verdade?

Não por acaso esses poemas foram traduzidos mais de uma vez, e mais ou menos no mesmo período, ao que tudo indica. Tenho em mãos aqui uma edição antiga, de 1945, que achei por acaso num sebo (completa com dedicatória assinada por alguém já bem velhinha ou falecida agora), intitulada Poesias Escolhidas, de seleção e tradução de Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987), juntamente com outro volume (de 1944), de traduções de Guilherme de Almeida (1890 – 1969), reeditada pela ed. Hedra. O que é curioso é que me parece que ambos os tradutores se focaram, com frequência, sobre os mesmos poemas (convém comentar, no entanto, que a seleção de Pennafort é mais extensa, mas talvez menos instigante que a tradução de Guilherme de Almeida, na minha opinião).

Daí a ideia para esta postagem: contrapor 2 traduções para cada um desses 8 poemas. No último caso, como Pennafort não traduziu o “Arte poética”, para não desfazer a dinâmica de manter as traduções sempre em dupla, contrapus a tradução de Guilherme de Almeida com a de Augusto de Campos (retirada do volume O Anticrítico). Portanto, 8 poemas, 3 tradutores. Uma introdução razoável, acredito, a quem tiver curiosidade pelo poeta.

Adriano Scandolara

                                                 

                                                  De Poèmes saturniens (1866):

                        

Mon rêve familier

Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D’une femme inconnue, et que j’aime, et qui m’aime,
Et qui n’est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m’aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d’être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l’ignore.
Son nom? Je me souviens qu’il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L’inflexion des voix chères qui se sont tues.
                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Meu sonho familiar

Muitas vezes, o sonho estranho me surpreende
de uma ignota mulher que eu amo e que me adora,
e que a mesma não é, certamente, a toda hora,
não sendo outra, porém, e me ama e me compreende.

Todo o meu coração deixo que ela o desvende.
Ela somente o faz transparente e o avigora,
E se eu sofro, se a dor minha fronte descora,
ela é o consolo ideal que sobre mim se estende.

É ela trigueira, ou loira, ou ruiva? – Eu o ignoro.
Seu nome? Apenas sei que ele é doce e sonoro
como o de quem se amou e da vida fugiu.

Seu olhar, como o olhar de uma estátua, é sem alma,
e tem na sua voz, grave, longínqua e calma,
a inflexão de uma voz cara que se extingiu.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Meu sonho familiar

Sonho às vezes o sonho estranho e persistente
De não sei que mulher que eu quero e que me quer,
E que nunca é, de fato, uma única mulher
E nem outra, de fato, e me compreende e sente.

Compreende-me, e este meu coração, transparente
Para ela, não é mais um problema qualquer,
Só para ela, o meu suor de angústia, se quiser,
Chorando, ela transforma em frescura envolvente.

Se é morena, ou se loura, ou se ruiva – eu ignoro.
Seu nome? É como o nome ideal, doce e sonoro,
Dos amados que a vida exilou para além.

Seu olhar lembra o olhar de alguma estátua antiga,
E sua voz longínqua, e calma, e grave, tem
Certa inflexão de emudecida voz amiga.

                        

Chanson D’Automne
 
Les sanglots longs
Des violons
     De l’automne
Blessent mon cœur
D’une langueur
     Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
     Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
     Et je pleure;

Et je m’en vais
Au vent mauvais
     Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
     Feuille morte.
                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Canção do outono

Os longos sons
dos violões,
     pelo outono
me enchem de dor
e de um langor
     de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
     bater a hora,
lembrando os dias
e as alegrias
     e ais de outroa.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
     me transporta
de cá p’ra lá,
como faz à
     folha morta.

    

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Canção de outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
     Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
     De sono.

E soluçando,
Pálido quando
     Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doudos
     De outrora.

E vou à-toa
No ar mau que voa,
     Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
     E morta.                     

    

                         De Fêtes galantes (1869):

                        
L’amour par terre

Le vent de l’autre nuit a jeté bas l’Amour
Qui, dans le coin le plus mystérieux du parc,
Souriait en bandant malignement son arc,
Et dont l’aspect nous fit tant songer tout un jour!

Le vent de l’autre nuit l’a jeté bas ! Le marbre
Au souffle du matin tournoie, épars. C’est triste
De voir le piédestal, où le nom de l’artiste
Se lit péniblement parmi l’ombre d’un arbre,

Oh! c’est triste de voir debout le piédestal
Tout seul! Et des pensers mélancoliques vont
Et viennent dans mon rêve où le chagrin profond
Évoque un avenir solitaire et fatal.
    
Oh! c’est triste! – Et toi-même, est-ce pas! es touchée
D’un si dolent tableau, bien que ton oeil frivole
S’amuse au papillon de pourpre et d’or qui vole
Au-dessus des débris dont l’allée est jonchée.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O amor por terra

O vento da outra noite atirou em baixo o Amor
que num canto do parque, o mais misterioso,
brandindo o arco traidor, sorria, malicioso,
e que um dia nos fez sonhar com tanto ardor!

O vento da outra noite o derrubou! O mármore
à brisa matinal rola, esparso. E contrista
olhar-se o pedestal, onde o nome do artista
se lê dificilmente entre as sombras de uma árvore.

Oh! como é triste ver somente o pedestal
de pé! E, no meu pobre e atormentado sonho,
os pensamentos maus vão e vêm, no medonho
pressentimento de um futuro ermo e fatal.

Como é triste! E tu mesma estás enternecida
com esse quadro, se bem que te distraia o olhar
aquela borboleta, ouro e púrpura, a voar
sobre as ruínas do Amor que juncam a avenida.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

O amor por terra

O vento derrubou ontem à noite o Amor
Que, no recanto mais secreto do jardim,
Sorria retesando o arco maligno, e assim
Tanta coisa nos fez todo um dia supor!

O vento o derrubou ontem à noite. À aragem
Da manhã gira, esparso, o mármore alvo. E à vista
É triste o pedestal, onde o nome do artista
Já mal se pode ler à sombra da ramagem.

É triste ver ali de pé o pedestal
Sozinho! e pensamentos graves vêm e vão
No meu sonho em que a mais profunda comoção
Imagina um porvir solitário e fatal

É triste! – E tu, não é?, ficas emocionada
Ante o quadro dolente, embora olhando à toa
A borboleta de oiro e púrpura que voa
Sobre os destroços de que a aléa está juncada.

                                                 

En Sourdine

Calmes dans le demi-jour
Que les branches hautes font,
Pénétrons bien notre amour
De ce silence profond.

Fondons nos âmes, nos coeurs
Et nos sens extasiés,
Parmi les vagues langueurs
Des pins et des arbousiers.

Ferme tes yeux à demi,
Croise tes bras sur ton sein,
Et de ton coeur endormi
Chasse à jamais tout dessein.

Laissons-nous persuader
Au souffle berceur et doux
Qui vient à tes pieds rider
Les ondes de gazon roux.

Et quand, solennel, le soir
Des chênes noirs tombera,
Voix de notre désespoir,
Le rossignol chantera.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Em surdina

Calmo, na paz que difunde
a sombra nos altos ramos,
que o nosso amor se aprofunde
neste silêncio em que estamos.

Coração, alma e sentidos
se confundam com estes ais
que exalam, enlanguescidos,
medronheiros e pinhais.

Fecha os olhos mansamente
e cruza as mãos sobre o seio.
Do teu coração dolente
afasta qualquer anseio.

Deixemo-nos enlevar
ao embalo desta brisa
que a teus pés, doce, a arrulhar,
a relva crestada frisa.

E quando a noite sombria
dos carvalhos for baixando,
o rouxinol a agonia
da nossa alma irá cantando.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Em surdina

Calmos, na sombra incolor
Que dos galhos altos vem,
Impregnemos nosso amor
Deste silêncio de além.

Juntemos os corações
E as almas sentimentais
Entre as vagas lassidões
Das framboesas, dos pinhais.

Cerra um pouco o olhar, no teu
Seio pousa a tua mão,
E da alma que adormeceu
Afasta toda intenção.

Deixemo-nos persuadir
Pelo sopro embalador
Que vem a teus pés franzir
As ondas da relva em flor.

A noite solene, então,
Dos robles negros cairá,
E, voz da nossa aflição,
O rouxinol cantará.

                        

Colloque sentimental

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l’heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l’on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

– Te souvient-il de notre extase ancienne?
– Pourquoi voulez-vous donc qu’il m’en souvienne?

– Ton coeur bat-il toujours à mon seul nom?
Toujours vois-tu mon âme en rêve? – Non.

Ah ! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches! – C’est possible.

– Qu’il était bleu, le ciel, et grand, l’espoir!
– L’espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

Colóquio sentimental

No velho parque frio e abandonado
duas sombras passaram, há bocado.

Dos olhos mortos, seus lábios, tristes, pendem
e as palavras que dizem mal se entendem.

No velho parque frio e abandonado,
dois espectros evocam o passado.

– Recordas-te do nosso enlevo, outrora?
– Para que queres que me lembre agora?

– Ainda, se ouves meu nome, o coração
te bate? Ainda me vês em sonho? – Não.

– Ai, o bom tempo de êxtase indizível
em que as bocas unimos! – É possível.

– Como era azul o céu e esperançoso!
– A esperança se foi no céu umbroso.

Tais, pela relva trêmula seguiam
e só a noite ouviu o que diziam.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Colóquio sentimental

No velho parque frio e abandonado
Duas formas passaram, lado a lado.

Olhos sem vida já, lábios tremendo,
Apenas se ouve o que elas vão dizendo.

No velho parque frio e abandonado,
Dois vultos evocaram o passado.

– Lembras-te bem do nosso amor de outrora?
– Por que é que hei de lembrar-me disso agora?

– Bate sempre por mim teu coração?
Vês sempre em sonho minha sombra? – Não.

– Ah! aqueles dias de êxtase indizível
Em que as bocas se uniam! – É possível.

– Como era azul o céu, e grande, o sonho!
– Esse sonho sumiu no céu tristonho.

Assim por entre as moitas eles iam,
E só a noite escutou o que diziam.

                                                 

                         De La bonne chanson (1870):

                        
Le foyer, la lueur

Le foyer, la lueur étroite de la lampe;
La rêverie avec le doigt contre la tempe
Et les yeux se perdant parmi les yeux aimés;
L’heure du thé fumant et des livres fermés;
La douceur de sentir la fin de la soirée;
La fatigue charmante et l’attente adorée;
De l’ombre nuptiale et de la douce nuit,
Oh ! tout cela, mon rêve attendri le poursuit
Sans relâche, à travers toutes remises vaines,
Impatient mes mois, furieux des semaines!
                        

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O lar, o resplendor

O lar, o resplendor da lâmpada velada;
o divagar com a fronte entre as mãos apoiada
e os olhos se perdendo entre os olhos amados;
a hora do chá sutil e dos livros fechados;
o êxtase de sentir a tarde agonizante;
o lânguido cansaço; a espera inebriante
da sombra nupcial dentro da noite mansa…
Oh! atrás disso tudo o meu sonho se lança,
a contar, apesar de demoras insanas,
impacientemente, os meses e as semanas!

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

O lar, a estreita luz

O lar, a estreita luz de uma lâmpada honesta:
O desvaneio com um dedo contra a testa
E os olhos a sumir nos olhos bem-amados;
A hora do chá cheiroso e dos livros fechados;
O prazer de sentir o fim de uma noitada;
A adorável fadiga e a espera idolatrada
De uma sombra nupcial e de uma noite doce,
A tudo isso o meu sonho terno dedicou-se
Sem tréguas, contra vãs dilações cotidianas,
Devorando, impaciente, os meses e as semanas!

                        

                        
Le bruit des cabarets

Le bruit des cabarets, la fange des trottoirs,
Les platanes déchus s’effeuillant dans l’air noir,
L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,
Et roule ses yeux verts et rouges lentement,
Les ouvriers allant au club, tout en fumant
Leur brûle-gueule au nez des agents de police,
Toits qui dégouttent, murs suintants, pavé qui glisse,
Bitume défoncé, ruisseaux comblant l’égout,
Voilà ma route — avec le paradis au bout.

 

                        

                         tradução de Onestaldo de Pennafort:

O ruído dos cafés

O ruído dos cafés; a lama das calçadas;
os plátanos pelo ar desfolhando as ramadas;
o ônibus, furacão de rodas e engrenagens,
enlameado, a ranger num rumor de ferragens
e girando o olho verde e rubro das lanternas;
os operários a caminho das tavernas,
com os cachimbos à boca a afrontarem os guardas;
paredes a ruir; telhados de mansardas;
sarjetas pelo chão resvaladiço e imundo, –
tal meu caminho, – mas com o paraíso ao fundo.

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

A voz dos botequins

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
Os plátanos largando no ar as folhas pretas,
O ônibus, furacão de ferragens e lodo,
Que entre as rodas se empina e desengonça todo,
Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
Cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
Paredes e beirais transpirando imundícia,
A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.

                     

                         De Jadis et naguére (1884):

                        
Art poétique

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.

C’est des beaux yeux derrière des voiles,
C’est le grand jour tremblant de midi,
C’est, par un ciel d’automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles !

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance !
Oh ! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor !

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L’Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l’Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine !

Prends l’éloquence et tords-lui son cou !
Tu feras bien, en train d’énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l’on n’y veille, elle ira jusqu’où ?

O qui dira les torts de la Rime ?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d’un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime ?

De la musique encore et toujours !
Que ton vers soit la chose envolée
Qu’on sent qui fuit d’une âme en allée
Vers d’autres cieux à d’autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym…
Et tout le reste est littérature.
                                                 

                        

                         tradução de Guilherme de Almeida:

Arte poética

                         a Charles Morice

Música acima de qualquer cousa,
E prefere o Ímpar, menos vulgar,
Que é bem mais vago e solúvel no ar,
Que nada pesa e que em nada pousa.

É bom também que saibas medir
Teus termos, não sem certo descuido:
Nada melhor do que o poema fluido
Que ao Indeciso o Preciso unir.

É um lindo olhar entre rendas raras,
É a luz que treme ao sol vertical,
É, por um céu de calma outonal,
A mescla azul das estrelas claras!

Nós só queremos o meio-tom,
Nada de Cor, somente a Nuança!
Oh! A Nuança é que faz a aliança
Do sonho ao sonho e do som ao som!

Evita sempre a Ponta daninha,
O cruel Espírito e o Riso alvar,
Que apenas fazem o Azul chorar,
E esse alho, enfim, de baixa cozinha!

Toma a eloquência e esgana-a! Farás
Bem em agir energicamente,
Tornando a Rima um tanto obediente.
Quem sabe lá do que ela é capaz?

Oh! quem diria os males da Rima?
Que criança surda, ou negro imbecil
Terá forjado essa joia vil
Que soa falsa e vã sob a lima?

Música, sempre e cada vez mais!
Seja o teu verso a cousa evolada
Que vem a nós de uma alma exilada
Em outros céus para outros ideais.

Seja o teu verso a boa aventura
Esparsa ao áspero ar da manhã,
Que vai cheirando a giesta e hortelã…
E tudo mais é literatura.

                        

                         tradução de Augusto de Campos:

Arte poética

                         A Charles Morice

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto, o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Pesar palavras será preciso,
Mas com certo desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
O lusco-fusco no meio-dia
A turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a Nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
nuance, só, que nos afiance
o sonho ao sonho e a flauta na alma!

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,
Frase de espírito, Riso alvar,
Que o olho do Azul faz lacrimejar,
Alho plebeu de baixa cozinha!

A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
E convém empregar de uma vez
A rima com certa sensatez
Ou vamos todos parar no fosso!

Quem nos dirá dos males da rima!
Que surdo absurdo ou que negro louco
Forjou em jóia este toco oco
Que soa falso e vil sob a lima?

Música ainda, e eternamente!
Que teu verso seja o vôo alto
Que se desprende da alma no salto
Para outros céus e para outra mente.

Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enche de aroma ótimo e a hortelã…
E todo o resto é literatura.

                        

(poemas de Paul Verlaine, traduções de Guilherme de Almeida, Onestaldo de Pennafort e Augusto de Campos)

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Tristan Corbière e os seus amores amarelos

corbiere

Meu primeiro contato com a poesia de Édouard-Joachim “Tristan” Corbière foi por completo acaso, num sebo de Curitiba, ao abrir o volume da tradução do poeta e tradutor Marcos Siscar dos seus Os Amores Amarelos (editora Iluminuras) diretamente na página do poema “Bonne fortune et fortune” (apresentado na seleção abaixo), essa paródia tão espirituosa do famoso poema da passante de Baudelaire – e bastou para me ganhar como leitor.

Nascido em 1845 na região da Bretanha, filho de Antoine-Édouard Corbière, autor do romance best-seller Le Négrier, Tristan teve uma vida atormentada por uma relação angustiada com os pais, pelo sistema educativo, a solidão, a depressão e a péssima saúde (que lhe rendeu um reumatismo desfigurador). Teve uma morte precoce, de tuberculose, em 1875, sem nem completar 30 anos, e dois anos antes publicou (com o dinheiro do pai) seu único livro, Les Amours Jaunes (“Os Amores Amarelos”, que serve de título à seleção de Siscar, ainda que não seja o volume completo) . No entanto, ele só passa a ser conhecido por algum público e pelos círculos literários de Paris muito mais tarde, em 1884, com sua inclusão entre a seleção de poetas malditos de Verlaine (um título de baixeza que ele passou a carregar desde então) e com a menção que Joris-Karl Huysmans faz ao poeta e seu livro no infame romance Às Avessas, publicado no mesmo ano. No capítulo 14, um capítulo estranho deste livro estranho, dedicado à crítica literária da obra de seus contemporâneos, o narrador comenta como o dândi Des Esseintes, o protagonista, “em seu ódio pelo banal e lugar-comum” já tinha passado “muitas horas agradáveis com esse volume”, cujo estilo “mal era francês” – o que, no contexto, trata-se de um elogio.

Corbiere_amours_jaunesComo nos lembra Siscar na utilíssima introdução ao livro (parte da dissertação, aliás, do poeta/tradutor), é difícil definir ao certo o seu estilo, e agrupá-lo, como se costuma fazer, sob o termo geral do simbolismo é sempre uma classificação meio capenga, ainda que ele ocasionalmente fizesse poemas que se enquadrassem numa estética bastante baudelairiana, cuja ironia Corbière leva a um passo adiante. O crítico Edmund Wilson, no influente ensaio O Castelo de Axël, o inclui na linha da poesia chamada coloquial-irônica (em oposição à séria-estética), que influenciaria ainda Jules Laforge, na poesia francesa, e T. S. Eliot, na poesia inglesa moderna – e que, segundo Augusto de Campos (como afirma na introdução ao seu volume Keats e Byron: Entreversos), seria descendente de uma linhagem que remontaria ao Lorde Byron ácido e mordaz de Childe Harold e Don Juan. Não seria exagero dizer que esta linhagem teve muitos bons descendentes ainda em pleno no século XX, sobretudo na poesia brasileira, inclusive, o que talvez seja um dos motivos pelos quais a poesia de Corbière ainda não raro nos soa bastante contemporânea. Parece-me provável, no entanto, que esse parentesco moderno brasileiro com Corbière tenha ocorrido indiretamente, já que a recepção do próprio poeta em nosso solo foi muito tardia e não se deu na mesma escala de um poeta como Baudelaire – como nos prova o levantamento de suas traduções feito recentemente pela Denise Bottman. Não deixa de ser curiosa, porém, a relação entre a imagética recorrente do sapo em seus poemas – ao que tudo indica, o equivalente corbièriano do albatroz de Baudelaire,  no que se refere à figura do poeta – e o célebre poema hit da semana de 22 de Manuel Bandeira.

Desta vez não ofereço uma seleção de poemas traduzidos por mim, apenas as traduções de Siscar. Como ele elenca ainda, outros tradutores que já lidaram com Corbière foram Augusto de Campos, Nelson Ascher, Régis Bonvicino, Pedro Kilkerry e Luis Martins, de quem espero poder tratar em uma outra ocasião. Os poemas que escolhi para compartilhar aqui, portanto, foram sete: Um deles é um dos sonetos da sessão intitulada “Paris” (composta de 8 sonetos ao total, dos quais Siscar traduziu 3), acompanhado de “I Soneto”, uma tirada irônica do estilo parnasiano (que se desenvolveu nos círculos literários de Paris simultaneamente e algo mesclado com o estilo dito simbolista), “Aventura Galante e A Ventura” e “O Cachimbo do Poeta”, duas paródias baudelairanas, e por fim “O Sapo”, um dos poemas em que surge a imagem crua do próprio poeta como uma criatura baixa, “Natureza morta”, parte dos poemas mais apropriadamente simbolistas de Corbière, e “Desencorajoso”.Siscar-Os-Amores-Amarelos

Por fim, algumas palavras sobre a tradução de Siscar. No geral, há pouco o reclamar de seu trabalho: o poeta soube manter o estilo telegráfico, interrompido, pouco fluido, de Corbière (evidente nas frases curtas e quebradas e no uso da pontuação, especialmente no poema da passante), que outros tradutores poderiam se sentir tentados a deixar mais “natural”, e não teve pudor de recorrer  a coloquialismos como traduzir a expressão “faire le trottoir” como “fazer o ponto” (como faziam e ainda fazem as prostitutas). O que tenho a criticar seria de um ponto de vista formal, na medida em que algumas das soluções de rimas de Siscar poderiam ter sido mais elaboradas. Sons finais como “-ado(a) “, “-ida”, “-ia” e “-ão” são, talvez, um pouco frequentes demais e acabam por deixar menos convincente o efeito geral dos versos em que se veem presentes, em relação ao que se poderia fazer com sons finais menos comuns – e creio que não seja nenhuma declaração bombástica afirmar que uma rima ruim é capaz de, por assim dizer, estragar todo um verso que poderia ser bom. No poema “I soneto”, por exemplo, apesar de que a palavra “clorofórmio” (chloroforme) esteja lá apenas para fazer uma rima bizarra e inesperada com “forma” (forme) (o que retoma uma discussão que já tivemos aqui, com a girafa de Jacques Prévert), ela é uma palavra cuja estranheza expressiva (decorrente da morbidez clínica algo característica de alguns momentos de Corbière e de tantos outros poetas acometidos das moléstias do século XIX) não me parece presente na escolha da rima com o latinismo pro-forma na tradução. Enfim, são detalhes e não obscurecem a qualidade da empreitada de Siscar, nem o valor do volume como uma importante e devida apresentação e estudo do poeta, além de uma incitação para um dia talvez vermos a sua (não muito extensa) obra completa traduzida.

(Adriano Scandolara)

                                   

(de PARIS)

Bastardo de Crioula e Bretão
Ele viu Paris – aglomerado,
Bazar que da pedra é privado,
Onde o sol é um vago borrão.

– Ânimo! Em fila… à multidão
Um guarda te empurra – cuidado! –
…Incêndio sem luz, apagado;
Baldes passam, vazios ou não. –

E a Musa, donzela desdita,
Fez o ponto qual senhorita.
Diziam: Quais são seus talentos?

– Nenhum. – Estúpida ficava,
Alheia ao vazio que soava
Só olhava passar o vento…

                                   

PARIS

Bâtard de Créole et Breton,
Il vint aussi là — fourmilière,
Bazar où rien n’est en pierre,
Où le soleil manque de ton.

— Courage ! On fait queue… Un planton
Vous pousse à la chaîne — derrière ! —
… Incendie éteint, sans lumière ;
Des seaux passent, vides ou non. —

Là, sa pauvre Muse pucelle
Fit le trottoir en demoiselle,
Ils disaient : Qu’est-ce qu’elle vend ?

— Rien. — Elle restait là, stupide,
N’entendant pas sonner le vide
Et regardant passer le vent…

                                   

I SONETO
ACOMPANHADO DE MODO DE USAR

Pautar a folha e caprichar na letra;

Versos fiados à mão e de um pé uniforme,
Marcando o passo, quatro a quatro, em pelotão;
Indicando a cesura, eis que um deles dorme…
Soldado de chumbo, ele dorme em posição.

Sobre o railway de Pindo está a linha, a forma;
E nos fios do telégrafo: – são quatro, acima;
Em cada poste, a rima – um exemplo: pro forma.
Cada verso é um fio, cada estaca uma rima.

– Telegrama – 20 palavras – Tu vens e medes
(Sonetos – é um soneto – ), ó Musa de Arquimedes,
– A prova do soneto é uma adição;

– Soma-se 4 e 4 = 8! E logo em seguida
Soma de 3 e 3! – Manter Pégaso à brida:
“Ó lira! Ó delírio! Ó…”- Soneto – Atenção!

                           Pico da Maladetta. – Agosto

                                   

I SONNET
AVEC LA MANIÈRE DE S’EN SERVIR

Réglons notre papier et formons bien nos lettres :

Vers filés à la main et d’un pied uniforme,
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton ;
Qu’en marquant la césure, un des quatre s’endorme…
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.

Sur le railway du Pinde est la ligne, la forme ;
Aux fils du télégraphe : — on en suit quatre, en long ;
À chaque pieu, la rime — exemple : chloroforme,
— Chaque vers est un fil, et la rime un jalon.

— Télégramme sacré — 20 mots. — Vite à mon aide…
(Sonnet — c’est un sonnet —) ô Muse d’Archimède !
— La preuve d’un sonnet est par l’addition :

— Je pose 4 et 4 = 8 ! Alors je procède,
En posant 3 et 3 ! — Tenons Pégase raide :
“Ô lyre ! Ô délire ! Ô…” — Sonnet — Attention !

                                    Pic de la Maladetta. — Août.

                                                

AVENTURA GALANTE E A VENTURA

                                    Odor della feminità.

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                                        me deu uns tostões.

                           Rua dos Mártires.

                                  

BONNE FORTUNE ET FORTUNE

                                                 Odor della feminitá.

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,
Pour la passante qui, d’un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de ma prunelle ou la peau de mon cœur…

Et je me crois content — pas trop ! — mais il faut vivre :
Pour promener un peu sa faim, le gueux s’enivre…

Un beau jour — quel métier ! — je faisais, comme ça,
Ma croisière. — Métier !… — Enfin, Elle passa
— Elle qui ? — La Passante ! Elle, avec son ombrelle !
Vrai valet de bourreau, je la frôlai… — mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,
Et… me tendit sa main, et…
                                                       m’a donné deux sous.

                                                 Rue des Martyrs.

                                                     

O CACHIMBO DO POETA

Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.

Quando um sonho cego apanha
A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.

…Eu dou-lhe um céu de paisagens:
Nuvens, mar, deserto, miragens;
– Seu olho morto ali se perde…

E quando a névoa se faz pesada
Crê ver uma sombra passada,
– E minha boquilha ele morde…

Outra tormenta desabrida
Solta-lhe alma, corrente e vida!
…Sinto-me que apago. – Ele dorme –

···················

– Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
– Se é certo que tudo é fumaça.

                                    Paris. – Janeiro. 

                                                     

LA PIPE AU POÈTE

Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et : j’endors sa Bête.

Quand ses chimères éborgnées
Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées.

…Je lui fais un ciel, des nuages,
La mer, le désert, des mirages;
— Il laisse errer là son œil mort…

Et, quand lourde devient la nue,
Il croit voir une ombre connue,
— Et je sens mon tuyau qu’il mord…

— Un autre tourbillon délie

Son âme, son carcan, sa vie !
… Et je me sens m’éteindre. — Il dort —

···················

— Dors encor: la Bête est calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre !… la fumée est tout.
— S’il est vrai que tout est fumée…

                                    Paris. — Janvier.

                                                     

 O SAPO

Um canto na noite sem ar…
No seu metal claro o luar
Grava rasgos de verdescuro.

…Um canto: um eco, enterrado
Vivo, ali, naquele fossado…
– Calou-se: olha ali, no escuro…

– Um sapo! – Por que o pavor,
Perto do teu fiel soldado!
Vê, sem asa, um poeta tosquiado,
Rouxinol da lama… – Horror! –

…Ele canta. – Horror!! – Erro teu…
Não vês a luz que o olho irradia?…
Não: já se foi sob a pedra fria.

···················

Boa noite – o sapo sou eu.

                                Esta noite, 20 de julho.

                                   

LE CRAPAUD

Un chant dans une nuit sans air…
— La lune plaque en métal clair
Les découpures du vert sombre.

… Un chant ; comme un écho, tout vif
Enterré, là, sous le massif…
— Ça se tait : Viens, c’est là, dans l’ombre…

— Un crapaud ! — Pourquoi cette peur,
Près de moi, ton soldat fidèle !
Vois-le, poète tondu, sans aile,
Rossignol de la boue… — Horreur ! —

… Il chante. — Horreur !! — Horreur pourquoi ?
Vois-tu pas son œil de lumière…
Non : il s’en va, froid, sous sa pierre.
···················
Bonsoir — ce crapaud-là c’est moi.

                                    Ce soir, 20 Juillet.

                                                

NATUREZA MORTA

Dos cucos o Ângelus soturno
Pôs em sobressalto o noturno
Pêndulo do velho, o cuco,

E o corujão, de sentinela,
Em sua carcaça onde a vela
Incendeia o olho oco.

– Escuta: a coruja emudece…
– Ranger de roda: eis que aparece
O Carro da Morte na estrada…

E a gralha alegre voa junto
Ao teto em luto onde o defunto
Padece a festa antecipada.

                                                Bretanha. – Abril

                                               

NATURE MORTE

Des coucous l’Angélus funèbre
A fait sursauter, à ténèbre,
Le coucou, pendule du vieux,

Et le chat-huant, sentinelle,
Dans sa carcasse à la chandelle
Qui flamboie à travers ses yeux.

— Écoute se taire la chouette…
— Un cri de bois : C’est la brouette
De la Mort, le long du chemin…

Et, d’un vol joyeux, la corneille
Fait le tour du toit où l’on veille
Le défunt qui s’en va demain.

                                               Bretagne. – Avril

                                               

DESENCORAJOSO

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito – e ver é uma cegueira.

– Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,
Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

– Puro herói de romance: ele adorava a loura
Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca – Ele não tinha tempo. –

– Explorador incansável: Remos a remar
Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,
Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho – Fazer nada. –

– Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha
De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!
Vocês que, amados por seu capricho insensato,
–Tudo é vaidade! -, quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ele acariciava, como se afoga um gato,
E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

– Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!
Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!
–É isso a arte?…”
                                    – Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

                                                      Mediterrâneo.

                                   

DÉCOURAGEUX

Ce fut un vrai poète : Il n’avait pas de chant.
Mort, il aimait le jour et dédaigna de geindre.
Peintre : il aimait son art — Il oublia de peindre…
Il voyait trop — Et voir est un aveuglement.

— Songe-creux : bien profond il resta dans son rêve ;
Sans lui donner la forme en baudruche qui crève,
Sans ouvrir le bonhomme, et se chercher dedans.

— Pur héros de roman : il adorait la brune,
Sans voir s’elle était blonde… Il adorait la lune ;
Mais il n’aima jamais — Il n’avait pas le temps.

— Chercheur infatigable : Ici-bas où l’on rame,
Il regardait ramer, du haut de sa grande âme.
Fatigué de pitié pour ceux qui ramaient bien…

Mineur de la pensée : il touchait son front blême,
Pour gratter un bouton ou gratter le problème
Qui travaillait là — Faire rien. —

— Il parlait : « Oui, la Muse est stérile! elle est fille
“D’amour, d’oisiveté, de prostitution ;
“Ne la déformez pas en ventre de famille
“Que couvre un étalon pour la production!”

“Ô vous tous qui gâchez, maçons de la pensée!
“Vous tous que son caprice a touchés en amants,
” — Vanité, vanité — La folle nuit passée,
“Vous l’affichez en charge aux yeux ronds des manants!

“Elle vous effleurait, vous, comme chats qu’on noie,
“Vous avez accroché son aile ou son réseau,
“Fiers d’avoir dans vos mains un bout de plume d’oie,
“Ou des poils à gratter, en façon de pinceau!”

— Il disait: “Ô naïf Océan! Ô fleurettes,
“Ne sommes-nous pas là, sans peintres, ni poètes!…
“Quel vitrier a peint ! quel aveugle a chanté!…
“Et quel vitrier chante en râclant sa palette,

“Ou quel aveugle a peint avec sa clarinette !
“— Est-ce l’art ?… “
                                                 — Lui resta dans le Sublime Bête
Noyer son orgueil vide et sa virginité.

                                                 Méditerranée.

(traduções de Marcos Siscar)

Padrão
crítica, poesia, tradução

gaspara stampa (1523-54)

gaspara stampa, edição de 1738

gaspara stampa, edição de 1738

gaspara stampa (1523-54) é provavelmente a maior poetisa italiana do renascimento; mas insistir especificamente no fato de que seria a maior “poeta mulher” pode parecer prêmio de consolação, já que não havia tantas escrevendo em seu tempo, num espaço patriarcal como se pode imaginar para a itália dos séculos xv & xvi.

não se trata disso, portanto. ela é uma poeta maior, sem qualquer distinção de gênero (não à toa, recebeu elogios de rainer maria rilke & de grabriele d’annunzio); porém que fez do seu gênero, de sua feminilidade amorosa, a chave-mestra do jogo do poético. a maior parte dos seus poemas, publicados postumamente por sua irmã cassandra, no ano de sua morte, tratam do seu amor por collaltino di collalto, conde de treviso. nesses poemas, dois problemas principais entram em jogo: 1) a diferença de status entre os dois, já que gaspara – apesar de ter recebido a melhor das educações & de ser uma virtuose na música & na poesia – provinha de uma antiga família nobre já empobrecida & próxima de uma certa classe média (seu pai teve de se tornar joalheiro para sustentar a família); enquanto collaltino vivia a plenitude de sua nobreza, criando uma espécie de abismo para o relacionamento dos dois; fato que levou, & ainda leva, muitos comentadores a pensarem que gaspara stampa talvez fosse uma espécie de cortesã (pessoalmente, prefiro acreditar que sua educação & sua vida de musicista a poderiam deixar mais livre na vida amorosa). 2) a diferença dos sexos, que por ela é invertida: collaltino, embora nobre, aparece na poesia de gaspara como uma figura fugidia, que despreza a sua amante, bem na linha esperada do petrarquismo que assolava toda a itália (&, por que não? quase toda a europa); de modo que gaspara parecia tentar – & conseguir – criar uma certa originalidade dentro do modelo, com o crescimento da figura feminina, que supera a masculina tanto no intelecto quanto no sentimento, atravessando o abismo social e sexual, ao mesmo tempo que o desvela no seu sofrimento de modo mais violento que a média dos escritores de seu tempo.

como se pode esperar, pouco sabemos da vida de gaspara stampa, mas seu relacionamento com collaltino di collalto foi, além de conturbado, muito curto.  muito curta também, infelizmente, foi a sua vida, & e a jovem morreu com apenas 31 anos, ao que tudo indica por envenenamento, enquanto sofria uma doença aparentemente crônica. sobre sua morte, muito se discutiu & ainda pouco ou nada se sabe: alguns supõe envenenamento acidental, outros suicídio (ninguém, creio, insistiu na ideia de assassinato); das hipóteses de suicídio, por muito tempo se julgou que estaria relacionado com o casamento de collaltino, mas hoje sabemos que ele só veio a se casar 3 anos depois da morte da poeta; & também é importante lembrar que gaspara já havia passado por outro relacionamento, que parece ter sido muito mais tranquilo – até pela falta de poemas sobre o assunto…

importa, portanto, ler nessa poesia não a biografia que nela se possa encontrar (& que, ao que tudo indica, de fato se encontra), mas a potência que as emoções retratadas alcançam no seu texto. para isso, traduzi alguns sonetos & coletei outras traduções, de éric ponty (no blog o paideuma de zenão), de ivo barroso &, finalmente, de sérgio duarte, o único que publicou em livro algumas traduções numa obra interessantíssima intitulada três mulheres apaixonadas (cia. das letras, 1999), onde, além de gaspara stampa, aparecem também poemas de louise labé e de elizabeth barrett browning. por fim, acrescentei ainda um madrigal, por considerar de grande importância o aspecto musical da sua obra, já que parte dela foi conhecida em vida, não apenas pelas declamações nas rodas poéticas, como também em apresentações musicais, muitas delas performadas pela própria gaspara stampa. por fim, julgo interessante fazer uma breve citação da edição americana que sigo (sellected poems, de 1994), feita por laura stortoni & mary lillie, & que parece resumir o que eu pretenderia expressar aqui:

“Seus poemas reunidos têm um fio narrativo, solto que seja, e tal como nos poemas de Petrarca, cada um é um arco de seu amor. Porém, enquanto ela trabalhava dentro da tradição petrarquista – que era praticamente obrigatória para um poeta lírico de seu tempo – ela transcendeu os limites com sua natureza original e tempestuosa. Sua educação musical e seu ouvido excepcional concederam-lhe o dom de escrever versos altamente musicais e, ao mesmo tempo, ela desdenhava do excesso de polimento, do excesso de melodia. Sua paixão era agressiva, e os versos que a expressavam eram diretos e fortes. Também a persona que ela escolheu assumir na história de amor era ”masculina’, ela era a perseguidora, ela era a caçadora.”

deixo então com vocês, em nossas tentativas de recriação, um pouco do som (& que som) & da fúria da sua poesia.

guilherme gontijo flores

suposto retrato de gaspara stampa

suposto retrato de gaspara stampa

2

É próximo do fez-se do Criador,
que nem a alteza honrada restou dor,
da forma humana vem se explicar,
ventre virginal parir cena dar.
Quando fez do honrado do meu senhor,
por que eu fiz tantos prantos esparsos,
pode alçar-me ninho mais presunçosos,
tecer ninhos e amparo interior.
Onde eu dela fiz rara alta ventura,
aceite alegre, que meu sol se tarda,
é minha fé de lei de eterna cura.
Meu pensamento só faz com olhares,
recua eles todos, dúbio alcance ares,
claro e belo, com sol gira resguarda.

(trad. éric ponty)

Era vicino il dì che ‘l Creatore,
che ne l’altezza sua potea restarsi,
in forma umana venne a dimostrarsi,
dal ventre virginal uscendo fore,
quando degnò l’illustre mio signore,
per cui ho tanti poi lamenti sparsi,
potendo in luogo più alto annidarsi,
farsi nido e ricetto del mio core.
Ond’io sì rara e sì alta ventura
accolsi lieta; e duolmi sol che tardi
mi fè degna di lei l’eterna cura.
Da indi in qua pensieri e speme e sguardi
volsi a lui tutti, fuor d’ogni misura
chiaro e gentil, quanto ‘l sol giri e guardi.

SONETO DE AMOR (6)

Se quereis conhecer o meu senhor,
Suponde alguém de vago e doce aspecto,
Jovem na idade e velho no intelecto,
A imagem do triunfo e do valor;
Claro o cabelo e a tez de viva cor,
De boa altura e de garboso peito,
Em tudo quanto faz um ser perfeito,
Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.
E se quiserdes conhecer meu porte,
Vede alguém que nos gestos e semblante
É a imagem dos martírios e da morte;
Fortaleza da fé, pura e constante,
Alguém que embora sofra, arda e suporte,
Não faz piedoso ao seu cruel amante.

(trad. ivo barroso)

Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,
Miri un signor di vago e dolce aspetto,
Giovane d’anni e vecchio d’intelletto,
Imagin della gloria e del valore.
Di pelo biodo, e di vivo colore,
Di persona alta e spazioso petto,
E finalmente in ogni opra perfetto,
Fuor ch ‘un poco (oimè lassa!) empio in amore.
E chi vuol poi conoscer me, rimiri
Una donna in effetti ed in sembiante
Imagin de la morte e de’ martìri,
Un albergo di fé salda e costante,
Una, che, perché pianga, arda e sospiri,
Non fa pietoso il suo crudel amante.

9

Se acaso Amor me devolver-me um dia
para afastar-me deste ímpio senhor;
pois mais do que desejo, incita horror
este gozo que à dor já se alicia;
em vão me invocarás a idolatria,
a fé, o imenso e desmedido amor,
por tua crueldade e teu error
tardo em remorso; e quem pois te ouviria?
Mas eu, cantando a minha liberdade,
solta de nós cruéis e sem esp’rança,
alegre alcançarei futura idade.
E se a um justo pedido o céu afiança,
até verei nas mãos da Crueldade
a tua vida envolta em minha vingança.

(trad. guilherme gontijo flores)

S’avien ch’un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l’immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltá, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da cosí duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s’ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.

56

Fazei depois também o meu retrato,
Como vereis que sou na realidade:
Sem alma e coração, pela vontade
Do milagroso Amor, que não combato.
Sou nave sem comando ou imediato
Sem vela ou mastro, em meio à tempestade,
Buscando essa bendita claridade
Que em toda parte aponta o rumo exato.
E prestai atenção que meu semblante
Seja do lado esquerdo aflito e incerto
E do direito, alegre e triunfante;
A dupla face exprimirá, decerto,
Tanto o prazer de estar com meu amante
Quanto o temor de que outra ande por perto.

(trad. sérgio duarte)

Ritraggete poi me da l’altra parte,
come vedrete ch’io sono in effetto:
viva senz’alma e senza cor nel petto
per miracol d’Amor raro e nov’arte;
quasi nave che vada senza sarte,
senza timon, senza vele e trinchetto,
mirando sempre al lume benedetto
de la sua tramontana, ovunque parte.
Ed avvertite che sia ‘l mio sembiante
da la parte sinistra afflitto e mesto;
e da la destra allegro e trionfante:
il mio stato felice vuol dir questo,
or che mi trovo il mio signor davante;
quello, il timor che sarà d’altra presto.

104

Ó noite, em mim mais clara e abençoada
que os mais abençoados dias claros,
noite digna dos grandes e mais raros
engenhos, não só meu, por ser louvada;
tu, a fiel ministra para cada
um dos gozos; os prantos mais amaros
da vida tu trouxeste doces, caros,
para os meus braços, quando acorrentada.
Pois só faltava transformar-me agora
na afortunada Alcmena, pra quem tanto
se demorou em retornar a aurora.
Não sei falar de ti com tanto espanto
ó noite branca, pra que então não fora
vencido pelo assunto o dom do canto.

(trad. guilherme gontijo flores)

O notte, a me più chiara e più beata
che i più beati giorni ed i più chiari,
notte degna da’ primi e da’ più rari
ingegni esser, non pur de ma, lodata;
tu de le gioie mie sola sei stata
fida ministra; tu tutti gli amari
de la mia vita hai fatto dolci e cari,
resomi in braccio lui che m’ha legata.
Sol mi mancò che non divenni allora

la fortunata Alcmena, a cui stè tanto
più de l’usato a ritornar l’aurora.
Pur così bene io non potrò mai tanto
dir di te, notte candida, ch’ancora
da la materia non sia vinto il canto.

208

Amor me arrasa até que viva em brasa,
qual nova salamandra ao mundo, e igual
àquele outro estranhíssimo animal,
que vive e morre nesta mesma casa.
Minha delícia é onde eu abro a asa:
viver ardendo e não sentir seu mal,
sem nem pensar que quem me induz a tal
com meu bem ou meu mal já se compraza.
Mal se extinguira o meu primeiro ardor,
queimou-me um outro Amor, que agora sinto
e chega a ser mais vivo e bem maior.
Mas eu de arder amando não ressinto,
desde que aquele que me deu fervor
encontre em meu ardor um bem distinto.

(trad. guilherme gontijo flores)

Amor m’ha fatto tal ch’io vivo in foco,
qual nova salamandra al mondo, e quale
l’altro di lei non men stranio animale,
che vive e spira nel medesmo loco.
Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco
viver ardendo e non sentire il male,
e non curar ch’ei che m’induce a tale
abbia di me pietà molto né poco.
A pena era anche estinto il primo ardore,
che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento
fin qui per prova, più vivo e maggiore.
Ed io d’arder amando non mi pento,
pur che chi m’ha di novo tolto il core
resti de l’arder mio pago e contento.

221

Para o alto-mar, onde vaguei três anos
Em traiçoeiro vento, e quase aporto,
Reconduziu-me Amor, por meus enganos
Tão generoso em dar-me desconforto.
E exarcebando os sonhos meus arcanos
Pôs em meus olhos a visão de um porto
Que me consola os prantos mais insanos
E do sofrer sem fim me traz conforto.
Calor como o primeiro agora sinto;
E se em tão pouco tempo há tanto ardor
Temo que este arda mais que o fogo extinto.
Mas como hei de deixar arder de amor
Se por desejo meu passar consinto
De um fogo a outro, e de uma dor a outra dor?

(trad. sérgio duarte)

A mezzo il mare, ch’io varcai tre anni
fra dubbi venti, ed era quasi in porto,
m’ha ricondotta Amor, che a sì gran torto
è ne’ travagli miei pronto e ne’ danni;
e per doppiare a’ miei disiri i vanni
un sì chiaro oriente agli occhi ha pòrto,
che, rimirando lui, prendo conforto,
e par che manco il travagliar m’affanni.
Un foco eguale al primo foco io sento,
e, se in sì poco spazio questo è tale,
che de l’altro non sia maggior, pavento.
Ma che poss’io, se m’è l’arder fatale,
se volontariamente andar consento
d’un foco in altro, e d’un in altro male?

232

Se o prato que aos seus servos nutre Amor
é de dor e sofrer,
como posso eu morrer
nutrida pela dor?
O peixe mais vulgar,
que vive dentro d’água e ali respira,
num só instante expira
se sair do seu lar;
e o animal que vive em flama e brasa,
morre ao trocar de casa.
Se tu queres que eu morra,
Amor, dá gozo e tira-me a modorra;
porque com o pranto, o meu prato vital,
tu não me fazes mal.

(trad. guilherme gontijo flores)

Se ’l cibo, onde i suoi servi nutre Amore,
è ’l dolore e ’l martìre,
come poss’io morire
nodrita dal dolore?
Il semplicetto pesce,
che solo ne l’umor vive e respira,
in un momento spira
tosto che de l’acqua esce;
e l’animal, che vive in fiamma e ’n foco,
muor come cangia loco.
Or, se tu vòi ch’io moia,
Amor, trammi di guai e pommi in gioia;
perché col pianto, mio cibo vitale,
tu non mi puoi far male. 

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