Alfredo Mario Ferreiro, por Matheus José Mineiro

11805901_1014745708565377_1563716181_n

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

Alfredo Mario Ferreiro nasceu em Montevidéu, em 1 de março de 1899. No meio da década de 1920 começou a destacar-se como um dos mais ativos agitadores de vanguarda no Uruguai. Seus dois livros de poemas, O homem que comeu um ônibus (poemas com odor de NAFTA) (1927) e Por favor não apertar as mãos (poemas profiláticas com base em imagens de chão) (1930), são exemplos de uma partícula estética latino-americana que nutriu-se do futurismo de Marinetti e Verhaeren bem como do surrealismo de Breton e Soupault.

Meu primeiro contato com a produção poética do Alfredo foi através da antologia AVIONES PLATEADOS: 15 POETAS FUTURISTAS LATINOAMERICANOS, organizada por Juan Bonilla, onde figuram excelentes manejos de poesia que traçam um panorama até então “novo” na América ao qual retrata esta relação de aproximação do poema com a novidade urbana, a tecnologia e a densidade demográfica e social.

AMF quebra regras tradicionais, exalta a máquina e a novidade. Está em contato com outros escritores dessa linhagem na América Latina como Alberto Hidalgo, Saralengui, Huidobro, José Sucre, Cardoza y Aragon como seus conterrâneos Herrera y Reissig, Delmira Augustini, Juana de Ibarbourou e Juan Parra Del Riego. A seguir, abrangendo uma característica peculiar desta safra produzida nos meados do século vinte pela America Latina, exponho em espanhol os últimos versos do poema “Perifonico ” :

mí timpano está allá arriba.
es una hamacã paraguaya
que se balancea em el aire.
velocidades espantosas
me traen las palabras.
un tísico me habla desde del Brasil.
La Tierra entra las ondas
con un estrecemecimiento de espanto.

E segue a imagem de mais um poema:

Poema sin obstáculo del trânsito ligero
Poema sin obstáculo del trânsito ligero

AMF valoriza o fonema e a espacialidade da palavra no papel, maneja a cotidianidade inédita que a metrópole propunha, como um êxodo sofisticado, fazendo uso de imagens urbanas com a proposta do concreto e do aço na arquitetura. No poema Trem em marcha, ele ressalta o uso de uma ferramenta pouco explorada, sendo o poema totalmente construído a partir onomatopeias. E carrega consigo toda destreza no manejo de diversas figuras de sintaxe que lhe propiciam fertilidade nesta produção de imagens correlacionadas ao tempo-espaço em que se encontra o autor.

11824263_1014745811898700_1839749828_nInteressante frisar e citar os títulos dos poemas que compõe  El hombre que se comió um autobus como; “Radiador”, “ Radiotelefonia”, “ El dolor de ser Ford”, “Carburador”, ilustrando bem esta sensação a qual poema foi submetido a partir da aproximação das figuras de linguagem com a automação e o ineditismo industrial que o século configurava em alta escala, conduta similar a de um Jeremias Sem Chorar na obra do Cassiano Ricardo. Este choque, esta surpresa, este novo olhar que foi instalado diante do poema mediante as novidades das metrópoles e da era industrial se estende ate nossos dias, com os avanços tecnológicos e eficientes que o século anuncia e que a produção poética, desde as vanguardas do século xx vem acompanhando e, sobretudo, segue experimentando novas expressões com mesmo semblante estupefato, irônico, contestador e contemplativo.

Como foi São Paulo para Mário e Luis Aranha, Buenos Aires para Olivero Girondo e Aldo Pellegrino, Lima para Oquendo de Amat; Alfredo foi mais um destes poetas que se deparou com a cidade, o automóvel, o concreto armado, o tráfego aéreo, a urbanização, a arquitetura, a futura metrópole, ainda em fase embrionária, num alto grau de efervescência e novidade. Nas palavras de José María Bon:

Su producción no cuida las formas, no tiene borradores, no se esconde detrás del traje y la corbata. Por el contrario, recorre las calles llenas de novedad, sube a un autobús en pijama sin importarle el “qué dirán” y se arriesga a lo diferente. La división entre lo público y privado no existe en este escritor, la diferencia entre alta y baja cultura no es de importancia porque las fronteras se difuminan y se pierden detrás del humo que emana el caño de escape de algún automóvil en marcha.

Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta - 1927
Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta – 192

Ao longo de sua vida, ele manteve contato com outros escritores nacionais e internacionais, como Gervasio Guillot Muñoz, Nicholas Olivari, Jules Supervielle, Oliver Girondo, e Raul Gonzalez Tunon. Em alguns poemas que foram escritos no Uruguai dos anos vinte usou procedimentos formais para aliar humor, ironia e contemplação diante dos avanços que a cidade oferecia  para tentar apanhar com paradigmas europeus e em alguns casos procurando a soprar a poesia modernista. O primeiro fator foi o uso do verso livre, lendo Mallarmé, Verhaeren, Whitman, Apollinaire e Marinetti.. Em suma, um desconto para a solenidade das palavras e os temas de prestígio (morte, amor, angústia) muitas vezes ao longo do humor corrosivo e juvenil.

Alfredo Mario Ferreiro foi um dos poetas esquecidos da avant-garde  do Uruguai. Sua figura começou a se destacar nos últimos anos. Em 1999 o livro O Homem que Comeu um ônibus foi reeditado. Uma vanguarda que não desiste, que reúne textos inéditos em livro do autor e artigos sobre sua poesia e jornalismo. Além disso, o Presidente da Secção Uruguaio de Literatura e o Arquivo e Documentação do Instituto de Artes da Faculdade de Humanidades e Educação, organizou seminários chamados de “Abordagens para a arte latino-americana (Alfredo Mario Ferreiro de 1899 à 1959).

Ele morreu em Montevidéu, em 24 de junho de 1959.

Arquivo do livro EL HOMBRE QUE SE COMIO UM AUTOBUS, em espanhol:

Clique para acessar o elhombreque.pdf

Matheus José Mineiro

* * *

Poemas de Alfredo Mario Ferreiro

Traduções de Antonio Miranda

POEMA DO ARRANHA-CÉU DE SALVO

O arranha-céu é uma girafa de cimento armado
com a pele manchada de janelas.

Uma girafa estacionada em Andes y 18,
incapaz de atravessar a rua,
com medo de que os automóveis
se metam entre as patas e a derrubem

Que idéia de repouso daria um arranha-céu
deitado no chão!

Com quase todas as janelas
olhando para o céu.
E sangrando pelas tubulações
da água quente
e da refrigeração.
O arranha-céu de Salvo
é a girafa de cimento
que completa o zoológico edifício
de Montevidéu.

POEMA DEL RASCACIELOS DE SALVO

El rascacielos es una jirafa de cemento armado
con la piel manchada de ventanas.

Una jirafa un poco aburrida 
porque no han brotado palmeras de 100 metros.

Una jirafa empantanada en Andes y 18,
incapaz de cruzar la calle,
por miedo de que los autos
se le metan entre las patas y le hagan caer.

¡Qué idea de reposo daría un rascacielos 
acostado en el suelo!

Con casi todas las ventanas
mirando cara al cielo.

Y desangrándose por las tuberías
del agua caliente
y de la refrigeración.

El rascacielos de Salvo
es la jirafa de cemento
que completa el zoológico edifício
de Montevideo.

§

AVIADOR

Protótipo de homem.

Na aurora da Morte
Eu vi tuas quedas
Para o outro lado.

De um golpe de timão
Afugentaste os cães calados

Do Mais Além.

Protótipo de homem.

Odor de civilização
Encontrei nas válvulas
de teu motor.

Moedor de sol
Com moinho vertiginoso
Da hélice,
Para fazer pão de luz.

Ventilador do céu.
Perfurador do ar.
Assombro dos pássaros.

Inveja das árvores
Que estendem, por via das dúvidas,
Seus ramos.

Moedor do sol,
Punching-ball dos ventos,
Acoitador de nuvens,
Alisador de nuvens.

Tua cabeça, aviador,
É o ponto necessário
Para o i latino de teu avião.

AVIADOR

Prototipo del hombre.

En la aurora de la Muerte
He visto tus caídas
Hacia el otro lado.

De un golpe de timón
Ahuyentaste los perros callados
Del Más Allá.

Prototipo del hombre.

Olor a civilización
Encontré dentro de las válvulas
De tu motor.

Moledor de sol
Con el molino vertiginoso
De la hélice,
Para hacer pan de luz.

Abanicador del cíelo.
Horador del aire.
Asombro de los pájaros.

Envidia de los árboles
Que tienden, por las dudas,
Sus ramas.

Moledor de sol,
Punching-ball de los vientos,
Azotador de nubes,
Alisador de miedos.

Tu cabeza, aviador,
Es el punto necessário
Para la i latina de tu avión.

§

POEMA AVIÔNICO DO TÉRMINO DE RAID

Aterrizo com extrema força,
Os hangares em prontidão.
Cheiro de gasolina de carícia queimada.
E, em seguida, silenciador de beijos.

Ah, a áspera dinâmica
de querer-te em mecânica!

Loura maquinaria,
com tantos quilômetros de ação
dentro do território da ternura.

Viajo só.
“Águia solitária.”
sobre o mar de teus sentimentos.
Desejos de aquatizar…
mas estas rodas!

A imantação de teus desejos
torce os lemes de profundidade.

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

POEMA AVIóNICO DEL TÉRMINO DE RAID

Aterrizo con demasiada fuerza.
Hay premura en los hangares.
Olor a nafta de caricia quemada.
Y, en seguida, silenciador de besos.

¡Ah, la dinámica áspera
de quererte en mecánica!

Maquinita rubia,
con tantos kilómetros de acción
dentro del territorio de la ternura.

Viajo solo.
«Águila solitaria»
sobre el mar de tus sentimientos.
Deseos de acuatizar…
¡pero estas ruedas!

La imantación de tus deseos
vuelca los timones de profundida,

Vuelo tan bajo
que necesito más las ruedas
que las alas.

 

4 traduções no jornal relevo

Essas quatro traduções – feitas por nós quatro do escamandro, cada um trabalhando com um idioma diferente e com um autor já trabalhado aqui – foram publicadas no Jornal RelevO, edição de novembro de 2012, disponível em versão impressa, mas também online, clicando aqui.

Um poema de Rumi, via Coleman Barks

I

eis a alquimia da condição humana:
no momento em que são aceitas as fadigas
portas se abrem

abraçar a dificuldade como a um antigo companheiro
alegrar-se na tormenta
remendar as roupas velhas com a tristeza
e em seguida retirá-las

esse despir
o corpo que se encontra por baixo
é a doçura que vem
após a dor

II

contemplo a ascensão de Maomé
o Amigo está aqui
em toda parte

o amor é uma corrente
e o corpo
fogo

peço-lhe que me mostre o caminho
ele me exorta a deixar a cabeça
sob as solas dos pés

tantos são os caminhos de ascensão
quanto preces
ao amanhecer

III

um jarro de água não mais nos basta
desejamos rio
a face da paz
o Sol

não mais a lua sob as nuvens
mas a manhã clara
e a presença daquele cujo trabalho
permanece inacabado

para que também o realizemos
ociosos e atentos
ao sair de cena

IV

você que dá vida ao planeta
você que vai para além da lógica, venha!
sou uma flecha que se estende
no arco do Amado
prestes a alçar vôo

por causa do amor
a tigela caiu do telhado
deixe de lado a escada
para recolher os pedaços

onde está o telhado?
de onde quer que a alma venha
para onde quer que ela vá durante a noite
ali ele está

de onde quer que surja a primavera para dar vida ao solo
de onde quer que se manifeste o desejo da busca

a procura mesma é um traço
do que procuramos

mas nos assemelhamos mais ao homem
que monta em um burro
e lhe pergunta para onde ir

espere!
pode ser que o oceano
que tanto desejamos
nos queira aqui na terra firme um pouco mais

todos os variados caminhos que traçamos
sempre acabam por encontrar o mar

(Jalaluddin Rumi, tradução de Bernardo Brandão, via Coleman Barks)

Amargo acorde

Ou mesmo ao meio-dia de um outubro
De harmônicas colinas
Em meio a densas nuvens descedentes
Os cavalos dos Dióscuros,
Perante cujas patas
Eis um menino extático,
Sobre as ondas andavam

(Por um amargo acorde recordado
À sombra de bananas
E gigantes errantes
Tartarugas nos blocos
Da enorme água impassível:
Sob outra ordem de astros
Entre incomuns gaivotas)

Eu voo até a planície onde o menino
Revirando a areia,
Pelo fulgor dos raios inflamada
A transparência dos queridos dedos
Banhados pela chuva contra o vento,
Apreendia os elementos todos.

Mas a morte é incolor e sem sentido
E como sempre, desatenta às leis,
Já o tocava
Com dentes impudicos.

(Giuseppe Ungaretti, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

Areia movediça

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

(Jacques Prévert, tradução de Adriano Scandolara)

Preciosa e o ar

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem
por um anfíbio sendeiro
de cristais e de louros leves.
O silêncio sem estrelas,
fugindo do sonsonete,
cai onde o mar bate e canta
sua noite cheia de peixes.
Nos altos picos da serra
carabineiros dormecem
vigiando as brancas torres
onde vivem os ingleses.
E a ciganagem da água
levanta co’ algum prazer,
carrosséis de caracóis
e ramos de pinho verde.

*

Sua lua de pergaminho
Preciosa tocando vem.
Ao vê-la se põe erguido
o vento que não dormece.
São Cristóvão desnudado,
cheio de línguas celestes,
olha a menina tocando
uma doce gaita ausente.

Moça, deixa que levante
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos arcaicos
a rosa azul de teu ventre.

Preciosa atira o pandeiro
e corre sem se deter.
O vento-machão persegue
com espada incandescente.

Franze seu rumor o mar.
Olivas empalidecem.
Cantam as flautas de sombra
e o liso gongo da neve.

Preciosa, corre, Preciosa,
que te agarra o vento verde!
Preciosa, corre, Preciosa!
Olha por onde ele vem!
Sátiro de estrelas baixas
com suas línguas reluzentes.

*

Preciosa, cheia de medo,
entra na casa existente,
mais acima dos pinheiros,
consulado dos ingleses.

Assustados pelos gritos
três carabineiros vêm,
suas negras capas cingidas
e gorros em suas frentes.

O inglês dá à cigana
um copo de um morno leite,
e uma taça de genebra
que Preciosa, então, não bebe.

E enquanto conta, chorando,
a aventura àquela gente,
nas telhas de ardósia o vento,
furioso, mete-lhe os dentes.

(Federico García Lorca, tradução de Vinicius Ferreira Barth)

         

Learn the alchemy…

I.
learn the alchemy true human beings know
the moment you accept what troubles you’ve been given, the door opens.

Welcome difficulty as a familiar comrade.
Joke with torment brought by a Friend.

Sorrows are the rags of old clothes and jackets
that serve to cover
and then are taken off.

That undressing
and the beautiful naked body underneath
is the sweetness that comes after grief

II.
today I see Muhammad ascend
the friend is everywhere, in every action
love, a lattice
body, a fire
I say, show me the way

you say, put your head under your feet
that way you rise through te stars
and see a hundred other ways to be with me

there are as many as there are
flightpaths of prayer at dawn

III.
jars of springwater are not enought anymore
take us down to the river
the face of peace, the sun itself

no ore the slippery cloudlike moon
give us one clear morning after another
and the one whose word remains unfinished
who is our word as we diminish
idle, though occupied, empty, and open

IV.

You that give new life to this planet,
you that transcend logic, come.
I am only an arrow. Fill your bow with me
and let fly. Because of this love for you,
my bowl has fallen from the roof.
Put down a ladder and collect the pieces.

People ask, Which roof is your roof?
I answer, Wherever the soul came from
and wherever it goes back to at night,
my roof is in that direction.

From wherever spring arrives
to heal the ground, from wherever searching rises

(Rumi)

         
Amaro accordo

Oppure in un meriggio d’un ottobre
Dagli armoniosi colli
In mezzo a dense discendenti nuvole
I cavalli dei Dioscuri,

Alle cui zampe estatico
S’era fermato un bimbo,
Sopra i flutti spiccavano

(Per un amaro accordo dei ricordi
Verso ombre di banani
E di giganti erranti
Tartarughe entro blocchi
D’enormi acque impassibili:
Sotto altro ordine d’astri
Tra insoliti gabbiani)

Volo sino alla piana dove il bimbo
Frugando nella sabbia,
Dalla luce dei fulmini infiammata
La trasparenza delle care dita
Bagnate dalla pioggia contro vento,
Ghermiva tutti e quattro gli elementi.

Ma la morte è incolore e senza sensi
E, ignara d’ogni legge, come sempre,
Già lo sfiorava
Coi denti impudichi.

(Ungaretti)

         

Sables mouvants

Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Démons et merveilles
Vents et marées
Et toi
Comme une algue doucement caressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s’est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

(Prévert)

         

Preciosa y el aire

Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene
por un anfibio sendero
de cristales y laureles.
El silencio sin estrellas,
huyendo del sonsonete,
cae donde el mar bate y canta
su noche llena de peces.
En los picos de la sierra
los carabineros duermen
guardando las blancas torres
donde viven los ingleses.
Y los gitanos del agua
levantan por distraerse,
glorietas de caracolas
y ramas de pino verde.
          *
Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene.
Al verla se ha levantado
el viento que nunca duerme.
San Cristobalón desnudo,
lleno de lenguas celestes,
mira la niña tocando
una dulce gaita ausente.
Niña, deja que levante
tu vestido para verte.
Abre en mis dedos antiguos
la rosa azul de tu vientre.
          *
Preciosa tira el pandero
y corre sin detenerse.
El viento-hombrón la persigue
con una espada caliente.
Frunce su rumor el mar.
Los olivos palidecen.
Cantan las flautas de umbría
y el liso gong de la nieve.
¡Preciosa, corre, Preciosa,
que te coge el viento verde!
¡Preciosa, corre, Preciosa!
¡Míralo por dónde viene!
Sátiro de estrellas bajas
con sus lenguas relucientes.
          *
Preciosa, llena de miedo,
entra en la casa que tiene,
más arriba de los pinos,
el cónsul de los ingleses.
Asustados por los gritos
tres carabineros vienen,
sus negras capas ceñidas
y los gorros en las sienes.
El inglés da a la gitana
un vaso de tibia leche,
y una copa de ginebra
que Preciosa no se bebe.
Y mientras cuenta, llorando,
su aventura a aquella gente,
en las tejas de pizarra
el viento, furioso, muerde.

         
(García Lorca)

Mais textos de Murilo Mendes

Aproveitando o texto sobre o eterno nas letras brasileiras modernas que postei aqui, gostaria de indicar alguns links para outros textos de Murilo Mendes que estão no Anuário de Literatura, n. 9, 2001, da UFSC. São artigos interessantes para compreendermos melhor as concepções filosóficas que estão no fundo de alguns dos poemas de Murilo dos anos 30-40, bem como para mostrar o seu trabalho como crítico literário e cultural.

Eis os links:

A revista: Anuário de Literatura, n. 9.

E alguns dos textos de Murilo:

Breton, Rimbaud e Baudelaire

Perfil do catolicão

Carta aos fariseus

Poesia católica

 

bernardo lins brandão

6 poemas de Jacques Prévert

Não sei vocês, mas meu primeiro, e até pouco tempo, único, contato com a poesia de Jacques Prévert havia sido um poeminha engraçadinho chamado “Mea culpa”, que transcrevo abaixo:

C’est ma faute
C’est ma faute
C’est ma très grande faute d’orthographe
Voilà comment j’écris
Giraffe

(in Histoires)

…que traz consigo também uma discussão chata que ronda os estudos da tradução sobre a tradução de Mário Laranjeiras do poema, que, para sermos breves, considera a “girafa” (escrita errado em francês) do último verso semanticamente irrelevante – i.e. ela serve para rimar com “orthographe” e para estar escrito errada (o certo é girafe) – e a substitui por uma “bassia”, assim:

Minha culpa
Minha culpa
Minha máxima culpa em ortografia
Vejam como escrevi
Bassia

A discussão sobre se a decisão de Laranjeiras é uma boa decisão ou não e blá blá blá já foi repetida inúmeras vezes e quem tiver paciência, pode ter alguma ideia sobre ela nos artigos da primeira página de busca do google por “mea culpa” prévert laranjeiras. Eu, pessoalmente, acho válida a substituição, mas me incomoda um pouco a “bassia”… não é por nada, não, mas sinto que falta algo da expressividade sonora e da exoticidade da palavra girafa, que acho que tem a ver com a poética do Prévert. Eu pensei, talvez, em algo como harpia (arpia) ou lichia (lixia), que são mais estranhos do que uma “bacia”, mas para não fazer uma tradução que seja mera cópia de uma já existente com uma alteração do último verso, eis uma versão minha tentando manter a rima, a girafa e o erro de ortografia:

Eu errei
Eu errei
Eu errei muitíssimo como se ortografa
Olhem como escrevi
Jirafa.

Agora esqueçam este poema, que a obra do poeta é infinitamente mais rica do que este pequeno chiste.

Nascido em 1900 e morto em 1977, Jacques Prévert foi um importante membro do surrealismo francês, ao lado de Marcel Duchamp e do cofundador da Oulipo, Raymond Queneau. Ele escreveu 7 livros de poemas (Paroles, SpectacleGrand bal du printemps, La pluie et le beau temps, Histoires, Fatras e Choses et autres), alguns livros infantis e redigiu roteiros para uma dezena de filmes e animações, sobretudo para o diretor Marcel Carné, cujo filme Boulevard do Crime (Les infants du Paradis) é considerado por muitos um dos melhores do cinema francês. E ainda em se falando de aproximações com o cinema, acredito que não seria um exagero aproximar Prévert de Buñuel, não o Buñuel que todo mundo conhece de Um Cão Andaluz, mas de sua obra mais tardia como a bizarra comédia O Fantasma da Liberdade – ou poderíamos ainda aproximá-lo a filmes posteriores ainda mais bizarros como A Montanha Sagrada, de Jadorowski, e Eu irei como um cavalo louco, de Fernando Arrabal –, em que a famosa porralouquice de imagens do surrealismo se encontra carregada de uma dimensão política e de crítica social, que, convém lembrar, são parte integrante já do surrealismo, pois, afinal de contas, Prévert não só viveu e escreveu durante o período da guerra, como estava na França na época da invasão nazista. Esse é um “detalhe” que parece se perder no meio das imagens loucas de Dali que são mais prováveis de vir a mente ao se falar em “surreal”.

Seu projeto mais curioso, na minha opinião, é o livro Fatras – que, em francês significa algo como “baderna”, “bagunça”, “zona”- , de 1966, uma obra esquisita, que faz jus ao título, ao misturar poemas com imagens surreais, feitas pelo autor através de colagens, mais uns textos em prosa, que, às vezes compõem sketches teatrais, às vezes simulam colagens de frases de outras pessoas, reais ou imaginárias. Procurei algumas das imagens no google para compartilhar com vocês, para não ter que scanear o livro, e, embora não tenha achado exatamente as que eu queria, pelo menos eu as encontrei a cores (enquanto as da minha edição são em preto e branco).

Infelizmente, Prévert se encontra pouco traduzido para o português. A única edição de que tenho notícia é a da editora Nova Fronteira, entitulada simplesmente Poemas, um antologia traduzida por Silviano Santiago. Sua escolha de poemas é boa, porém a execução com frequência deixa muito a desejar, especialmente quando alguma dificuldade de tradução se apresenta. O problema principal que podemos citar é que o tradutor parece ter seguido o caminho da tradução literal, perdendo as rimas e ignorando a expressividade do vocabulário de Prévert. No poema “O meteoro”, por exemplo, Santiago traduz a palavra “éclaboussé” por “sujo”, e, embora ele não esteja errado, “sujo” me parece mais adequada para traduzir a palavra “sale” do que “éclaboussé“, cujo comprimento de 4 sílabas e o uso das consoantes sugere algo mais icônico, mais sujo… por isso optei por “lambuzado”, que acho que passa melhor essa noção.

Compartilho com vocês, então, 2 poemas da antologia de Santiago (originalmente de Histoires), em retradução minha, mais 3 poemas do 3º livro de Prévert, La pluie et le beau temps (A chuva e o tempo bom) e um de Fatras, estes inéditos. Um desses poemas, creio, merece alguma explicação sobre sua problemática de tradução, o “Sceaux d’hommes égaux morts”, cujo título, que significa literalmente “Selos de homens iguais mortos”, revela, em sua sonoridade, as palavras “Sodome et Gomorrhe“. Dois versos próximos do final do poema também repetem esse efeito e confirmam a sugestão feita pelo título: “Seaux d’eau / Mégots morts” (literalmente “Balde d’água / Bitucas mortas”), como comenta Eclair Antonio Almeida Filho, neste artigo da Revista Agulha. Daí a necessidade de quebrar um pouco com a semântica para se manter o efeito na tradução.

E, como disse, a “jirafa” lá de cima é o menos interessante por aqui.

Adriano Scandolara

O Meteoro

Pelas grades do bloco penitenciário
uma laranja
passa como um raio
e cai como uma pedra
dentro do sanitário
E o prisioneiro
todo lambuzado de merda
resplandece
todo iluminado de alegria
Ela não me esqueceu
Ela pensa sempre em mim ainda.

Le Metéore

Entre les barreaux des locaux disciplinaires
une orange
passe comme un éclair
et tombe dans la tinette
comme une pierre
Et le prisonnier
tout éclaboussé de merde
resplendit
tout illuminé de joie
Elle ne m’a pas oublié
Elle pense toujours à moi.

(in Histoires)

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

(in Paroles)

Confissão pública (Loteria crítica)

Misturamos tudo
é fato
Aproveitamos o dia de Pentecostes pra pendurar os ovos de Páscoa de São Bartolomeu na árvore de Natal do Catorze de Julho
Teve um mau efeito
Os ovos estavam vermelhos demais
A pomba se safou
Misturamos tudo
é fato
O dia e o ano o desejo e o remorso e o leite e o café
No mês de Maria que parecia o mais belo colocamos a Sexta-feira Treze e o Grande Domingo dos Camelos o dia da morte de Luís XVI o Ano terrível a Hora do amante e cinco minutos da pausa pro almoço.
E somamos sem rima nem razão nem ruína nem mansão sem fábrica e sem prisão a grande semana de quarenta horas e aquela das quatro quintas-feiras
E um minuto de baderna
por favor
Perdemos nosso tempo
é fato
Um minuto de surto de alegria de canções pra rir e ruídos e longas noites pra dormirmos no inverno com as horas suplementares pra sonharmos que é verão e longos dias pra fazermos amor e rios pra nos banhar e grandes sóis pra nos secarem
Perdemos nosso tempo
é fato
mas era um mau tempo
Avançamos o pêndulo
Arrancamos as folhas mortas do calendário
Mas não tocamos as campainhas
é fato
Só o que fizemos foi escorregar pelo corrimão das escadas
Falamos de jardins suspensos
vocês já vinham em fortalezas voadoras desbastar a cidade mais rápido do que um pequeno barbeiro desbasta a própria vila num domingo de manhã
Ruínas em vinte e quatro horas
o próprio tintureiro morre
Como você quer que se fique de luto

Confession publique (Loto critique)

Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Nous avons profité du jour de la Pentecôte pour accrocher les oeufs de Pâques de la Saint-Barthélemy
dans l’arbre de Noël du Quatorze Juillet
Cela a fait mauvais effet
Les oeufs étaient trop rouges
La colombe s’est sauvée
Nous avons tout mélangé
c’est un fait
Les jours avec les années les désirs avec les regrets et le lait avec le café
Dans le mois de Marie paraît-il le plus beau nous avons placé le Vendredi treize et le Grand Dimanche des Chameaux le jour de la mort de Louis XVI l’Année
terrible l’Heure du berger et cinq minutes d’arrêt bufet.
Et nous avons ajouté sans rime ni raison sans ruines ni maisons sans usines et sans prison la grande semaine des quarante heures et celle des quatre jeudis
Et une minute de vacarme
s’il vous plaît
Une minute de cris de joie de chansons de rires et de bruits et de longues nuits pour dormir en hiver avec des heures supplémentaires pour rêver qu’on est en été et de longs jours pour faire l’amour et des rivières pour nous baigner de grands soleils pour nous sécher
Nous avons perdu notre temps
c’est un fait
mais c’était un si mauvais temps
Nous avons avancé la pendule
nous avons arraché les feuilles mortes du calendrier
Mais nous n’avons pas sonné aux portes
c’est un fait
Nous avons seulement glissé sur la rampe de l’escalier
Nous avons parlé de jardins suspendus
vous en étiez déjà aux forteresses volantes
et vous allez plus vite pour raser une ville que le petit
barbier pour raser son village un dimanche matin
Ruines en vingt-quatre heures
le teinturier lui-même en meurt
Comment voulez-vous qu’on prenne le deuil

A riviera

Teus jovens seios brilhavam ao luar
Mas arremeti o
Gelo frio
Da pedra gélida do ciúme
Contra o rio
Que refletia o
Dançar de tua nudez na riviera
Pelo esplendor do estio.

La rivière

Tes jeunes seins brillaient sous la lune
Mais il a jeté
Le caillou glacé
La froide pierre de la jalousie
Sur le reflet
De ta beauté
Qui dansait nue sur la rivière
Dans la splendeur de l’été.

Soldados mas iguais morrem

Nas nádegas do chefe decapitado estava tatuado o nome familiar do soldado
e o nome do chefe estava tatuado no peito do homem fuzilado
Nos dedos crispados e enlaçados parecia ainda haver algum calor
Misoginia mãe das guerras
Xícaras e talheres
O sol doma
Ego mor
Dois corpos nos escombros
sob a sombra do pudor.

Sceaux d’hommes égaux morts

Sur les fesses du chef décapité était tatoué le prénom du soldat familier
et le prénom du chef était tatoué sur la poitrine de son homme fusillé
Leurs mains enlacées et crispées faisaient semblant de vivre encore
Misogynie mère des guerres
Tasses et théières
Seaux d’eau
Mégots morts
Deux corps sous les décombres
dans l’ombre du décor.

(in La pluie et le bon temps)

O bailado velado

Na encruzilhada impossível da imobilidade
uma turba de objetos inertes
não consegue parar de se mover fremir dançar
E os carteiros do vento
como os do mar
espalham a correspondência aqui e lá
Cada coisa sem dúvida se destina a alguém
       ou a alguma coisa talvez
A pluma da ave
como a concha da ostra
a cruz da legião de honra
como a estrela do mar
ou a pinça do siri e a âncora da fragata
a perereca verde de lata
e a boneca de som
e a coleira do cão
E nesta paisagem onde nada parecia se mexer
exceto a vela do náufrago na lanterna em ferrugem
é o bailado velado
o bailado dos objetos inanimados.

La fête secrète

Au carrefour impossible de l’immobilité
une foule d’objets inertes
ne cesse de remuer de frémir de danser
Et les facteurs du vent
comme ceux de la marée
éparpillent le courrier
Chaque chose sans doute est destinée à quelqu’un
       ou à quelque chose peut-être
La plume de l’oiseau
comme l’écaille de l’huître
la croix de la légion d’honneur
comme l’étoile de mer
ou la patte du crabe et l’ancre du navire
la grenouille de fer vert
et la poupée de son
et le coller du chien
Et dans ce paysage où rien ne semble bouger
sauf la bougie du naufrageur dans la lanterne rouillée
c’est la fête secrète
la fête des objets.

(in Fatras)

Traduções de Adriano Scandolara.

alejandra pizarnik: la tierra más ajena (1955), pt. 2

caros, segue abaixo a segunda e última parte de la tierra más ajena de alejandra pizarnik.
veja aqui o primeiro post.

vinicius ferreira barth

 

pizarnik 

 

… DO MEU DIÁRIO

Olhava os carros em arranjo
sem suas vestimentas metálicas
as partes dianteiras pareciam
caveiras recém libertadas.
Um sol amarelo deixava cair indiferente
pedaços luminosos de algo colorido
mas as sombras persistiam
ainda nos retalhos do astro.
Sentia-se cansada ante os nevoeiros
que não se moviam
um blue ruminava enfadado em seu interior
passos extravagantes marcavam seus dedos
mobilidade compassada de carpete e ballet.

 

 

REMINISCÊNCIAS QUIROMÂNTICAS

duas mãos de flores pendentes resumem a
tosca escultura de exóticas formas que
brilham vendendo às bruxas o
augusto signo de vida por morte
lendo nas linhas as milhares de
vezes que vences ou gemes ou choras ou ris ou
inicias caminho a um passo firme que
luta na noite repelindo os
vis ataúdes que brande o fracasso

 

 

DESENHO

o joelho da enseada
cheira a primores bem escritos
geadas salientes molham seu
corpo arqueado
mil relógios zumbem
as horas das mil distâncias
e o floreiro renasce
embaixo à sombra de uma catacumba

 

 

XADREZ

ainda assim a enclítica não destrói
os peões reverentes ante as
milhares de montanhas
rebentam prazerosas
diante do sol rubro
(não sol amarelo)
pensar inato em moldadas barras
torta transfumegante de vela sem fogão
quisera ser massa linguística
para cortar-lhe a barba
ondas em precioso lume
alçar bandeira gratuita
quilômetros de nozes
e golpes em relevante torniquete

 

 

HOMEM COMUM

sempre renega azuis
conforme a rota
negra a linha reta
negra a terra sana
tremor estranho que não se agita
peitos sim e não peludos
esperanças não fundidas misturam
a ele a ela a todos
vede! sua carne transborda
reminiscências gado opaco

 

 

SEGUIREI

molde partido centra este todo
da árvore castrada chorando
medir cada passo aos poucos
se não se perturba a lua
a luz redondeia brancuras
de nabos ralados
tirar cada envoltura
se não se distorce o negro
a música enrubesce a rota
de cada pequeno úmido
girar girar girar
perceber junto ao molde partido
sentires de tacos e dentes
querer agarrá-lo todo

 

 

UM BILHETE OBJETIVO

          1

entre os sopros de tantas artérias
tateio encolhida nos bolsos de
                  minha jaqueta
tratando de achar algo que faça
                  pairar minha destripada
                  aurora

          2

vejo rostos busco rostos acho rostos
a imagem de sua igualdade esfria a
                  estética
da janela sobre os trilhos meu
                  assento é o topo
                  do mundo

          3

voam unhas braços anéis peixes
volvem sons azuis vermelhos verdes
desfile que ferve em tremendos
                  borbulhares
mas nada altera insinuante a
                  segurança em meu
                  assento

 

 

EU SOU…

minhas asas?
duas pétalas podres

minha razão?
pequenas taças de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho no assento

meu vaivém?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meu olhos?
ah! nacos de infinito

 

 

DÉDALUS JOYCE

Homem funesto de chaves noturnas e corpo desnudo junto ao rio profundo de brilhantes escarradas. Homem de olhos anti-míopes exploradores de infinidade. Homem de rosto em sombra e corpo gênio abstrato. Homem sem medo de pena em mãos nem de olhos em ser nem sorriso supremo. Homem deus chegaste só de infinitudes assombrofantasmais ornado de lágrimas de superioridade envergonhada. Homem destruidor de tabus e céus estrelados. Homem dos frágeis vestidos que caem deixando irmãos desnudos. Homem sem alimento para outorgar aos que buscam. Homem de altos mares de sulcos desolados. Homem-barco branco. Homem arrancaste o vômito para sepultar o mito. Homem de tempo e espaço que arrastam sadias loucuras. Homem superhomem, frigidez e frouxidão conjuntas. Homem.

 

 

PORTO ADIANTE

Noite morna. Sensação prazerosa. Os sons abstratos das vias enchiam seus ouvidos eufóricos. Pensava no porto que via tão frequente… porto de cores impressionistas e homens sujos de braços molhados e brilhosos e cabelo crescido e úmido. Homens impassíveis à distância maravilhosa, ao céu entre os barcos, à paisagem combinada, ao solo recheado de objetos de lugares remotos como pedaços de mundo no melancólico coração de um mar…
Sim. Afundar-se uma noite nas ruas do porto. Caminhar, caminhar…
Sim. Sozinha. Sempre sozinha. Lenta, tão lentamente. E o ar estará suavizado, será um ar cosmopolita e o solo cheio de papéis de cigarros que alguma vez existiram, brancos e belos.
Sim. Seguirá caminhando. Afundar-se, escuridão, caminhar…
Sim. E uma estrela dará sua cor à âncora de prata que levava em seu peito. Jogar a âncora. Sim. Muito próximo a esse barco gigante de listras vermelhas e brancas e verdes… ir-se, e não voltar.

 

 

NO PANTANINHO

                  a don Federico Valle

          1

Mil passos arrastam pacientes as solas maduras em rochas diversas.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (balbuciante de colorido impuro, de sol inibido, de água cobreada, de potros com caudas etéreas, de pranto de cacto impotente…). A cascata reverdeia os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregarem-nas alegremente em frágeis topos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar sob tanto céu, tanta luz cromática, tanta conjectura de lugar.

          2

Meus dedos teclam iguais… (quem sabe contribuam com seus ruídos para aumentar os fundos dos ruídos naturais).
As vozes que se elevam querendo matizar as aspirações de solidão a que obrigam os espaços. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem surpreendentemente na névoa. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem sob a opressão tensa do ungido manto de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinza…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um maior espaço na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim se segue, assim se caminha, assim se veem esfumar as brancoepretas folhinhas deste calendário que transpira o suor de um calor intangível.

          3

As montanhas permanecem impávidas. Tremenda dúvida: arranhar-se sob o manto carnal ou remover os talos difusos tratando de encontrar à luz de um embelezo descolorido o perfil da flor única.

alejandra pizarnik: la tierra más ajena (1955), pt. 1

alejandra pizarnik

alejandra pizarnik nasceu em buenos aires em 1936, publicou seus primeiros poemas com vinte anos e licenciou-se em filosofia e letras pela universidad de buenos aires. no começo da década de 1960 viveu em paris, onde estudou história da religião e literatura francesa, na sorbonne, e tornou-se amiga de nomes como andré pieyre de mandiargues, octavio paz, julio cortázar e rosa chacel. foi tradutora de artaud e marguerite duras. de volta a buenos aires, passou o resto da vida dedicada a escrever. suicidou-se em buenos aires em 25 de setembro de 1972.

trata-se de uma das figuras mais emblemáticas da poesia hispanoamericana, especialmente da argentina. sua poesia tornou-se febre entre os jovens dos anos 80 e 90, sendo caracterizada por um “fundo intimismo e severa sensualidade”, como atesta ana becciú na edição que realizou da poesia completa de alejandra. octavio paz, admirador de sua obra, diz que ela “leva a cabo uma cristalização verbal por amálgama de insônia passional e lucidez meridiana em uma dissolução de realidade submetida às mais altas temperaturas”. impressões nonsenses à parte, não se pode discordar de um comentário desse depois que se tenha lido a poesia de pizarnik. os comentários, aliás, que insiro até aqui nesta introdução estão contidos na edição da poesia completa de alejandra que tenho em mãos e cujo texto base é o que utilizo para a tradução:

alejandrapizarniklibroPIZARNIK, Alejandra. Poesía completa. Edición a cargo de Ana Becciú. Barcelona: editorial Lumen, 2010.

seu primeiro livro, que traduzi integralmente, chama-se la tierra más ajena, datado de 1955. nota-se influências da poesia de rimbaud, epígrafe ao livro, e também de octavio paz e cecilia meireles, por exemplo. repleta de uma poética escura e úmida (um dos melhores adjetivos que encontrei), alejandra fala muito da morte, do desejo de ir-se, da melancolia. não é de se estranhar que seja do gosto dos jovencitos, mas vai muito além. com uma técnica magistral, que despedaça a sintaxe e se constrói sobre panos de imagéticas surrealistas, a poeta como que pinta suas emoções numa tela. por vezes, confesso como tradutor, é difícil dar-se conta dos caminhos tortuosos pelos quais ela nos leva. entretanto, por outro lado, sua emoção nos transparece muito clara e comovente. e essa emoção, a memória, a água e a noite são temas recorrentes em alejandra. a morte percorre seus temas de maneira bastante, embora apenas aludida. (tão diferente do que eu próprio escrevo, mas tão viciante). é a recorrente figuração de imagens esfumaçadas, desfocadas, escuras, até mesmo asquerosas, que torna sua poesia tão forte e visual. uma poeta que se vê e se reflete tanto em seus poemas, que se figura, e que ao mesmo tempo tanto nos pode causar angústia com seu úmido isolamento.

sobre a tradução:

como se poderá ver com facilidade logo a partir do primeiro poema, clareza não é regra aqui. com métrica e sintaxe bastante livres, às vezes retorcidas, e ausência de pontuação, tentei seguir os passos do texto em espanhol para que não me distanciasse por demais das formas que os versos de alejandra apresentavam. a proximidade entre o espanhol e o português me permitiram diversas vezes a simples transposição vocabular, mas houve momentos em que eu simplesmente me perdia nos pântanos dessa terra tão ao longe, e voltar de lá era sofrido. por isso revisei o que pude até agora, mas sempre há a possibilidade de uma revisão mais detida. outra coisa é a aparência de erro que podem suscitar alguns versos, como alguns do primeiro poema, dias contra o sonho. o que posso dizer é que é estranho mesmo, mas tava lá. por fim, resolvi deixar de lado nesta postagem os poemas no original em espanhol, dado o espaço que iriam ocupar e o trabalho que me dariam pra digitar.

dividi a postagem desse livro em duas partes. os onze primeiros poemas estão neste post. amanhã posto os outros onze. assim a leitura pode ser feita com calma e atenção, em doses homeopáticas. espero muito que gostem como eu gostei dessa doida porteña magnífica.

vinicius ferreira barth

 

alejandra pizarnik
a terra mais ao longe (1955)

Ah! O infinito egoísmo da adolescência,
o otimismo estudioso: quão pleno de
flores estava o mundo nesse verão! Os
ares e as formas morrendo…
A. Rimbaud

 

DIAS CONTRA O SONHO

Não querer brancos rodando
em planta movível.
Não querer vozes roubando
germinais arqueada aéreas.
Não querer viver mil oxigênios
nímias cruzadas ao céu.
Não querer trasladar minha curva
sem encerar a folha atual.
Não querer vencer ao ímã
no fim a alpargata se esfiapa.
Não querer tocar abstratos
chegar ao meu último cabelo castanho.
Não querer vencer caudas brandas
as árvores situam as folhas.
Não querer trazer sem caos
portáteis vocábulos.

 

FUMO

marcos rosados em osso calado
agitam um cocktail fumacento
milhões de calorias desvanecem
ante uma repicante austeridade
das fumaças vistas detrás
duas mãos de trevo roto
quase enredam os dentes separados
e castigam as gengivas escuras
sob ruídos recebidos ao segundo
os pelos riem-se movendo
os vestígios de vários marcianos
cognac bordeaux-amarelado
ébrio banheiros sanguíneos
três vozes foneam três beijos
para mim para ti para mim
pescar a calandria eufórica
em chapas penosas
ascendente faina!

 

REMINISCÊNCIAS

e o tempo estrangulou minha estrela
quatro número giram insidiosos
enegrecendo os confeitados
e o tempo estrangulou minha estrela
caminhava reles sobre poço escuro
os brilhos choravam a meus verdores
e eu olhava e eu olhava
e o tempo estrangulou minha estrela
recordar três rugidos de
ternas montanhas e raios escuros
duas taças amarelas
duas gargantas raspadas
dois beijos comunicantes da visão de
      uma existência a outra existência
duas promessas gementes de
      tremendas loquacidades distantes
duas promessas de não ser de sim ser de não ser
dois sonhos jogando a ronda do sino ao
      redor de um cosmos de
      champagne amarelo esbranquiçado
dois olhares afirmando a avidez de uma
      estrela tiquinha
e o tempo estrangulou minha estrela
quatro números riem em cambalhotas desgostosas
morre um
nasce um
e o tempo estrangulou minha estrela
sons de nenúfares ardentes
desconectam minhas futuras sombras
um vapor desconcertante recheia
      meu soalhado recanto
a sombra do sol tritura a
      esfinge de minha estrela
as promessas se coagulam
frente ao signo de estrelas estranguladas
e o tempo estrangulou minha estrela
mas sua essência existirá
em meu intemporal interior
brilha essência de minha estrela!

 

ÁGUA DE LUME 

                                        Sim. Chove…
o céu geme montanhas exaustas
sombras molhadas recolhem suas partes
cavidades barrosas tremendas
simplórias gotas de água sulfurada
se bem não sei como recolho as massas
de ver se me agita o pálido lume
tremenda espessura de cães e gatos
as gotas seguem

 

SER INCOLOR

(ao coelhinho que
comia as unhas)

costura instável em meu caos humor diário
repicar harpa listrada
cadáveres chorosos mar salino

tua opacidade tirará fontes de verde sabão
bandeirolas coradas
em mão direita de unhas comidas

 

 

NEMO

não irá longe o dia raro de verdor
em que cantarei para a lua odiada que dá luz à minha espessa cabeça cortada
                                                                                                  [a navalha
que dá luz aos ventos brutais
às flores agudas que ardem nos dedos sob benignos band-aids
à estrela que se oculta quando é chamada
à chuva úmida rebolando-se em sua nudez repulsiva
ao sol amarelo que trespassa as peles marcando escuras pegadas
ao reloginho enviado do inferno interruptor dos belos sonhos
aos mares gelados arrastando sujeiras ondas cintilhos dourados ardores
                                                                                                  [nos olhos

 

 

VAGAR NO OPACO

minhas pupilas negras sem inelutáveis faíscas
minhas pupilas grandes pólen cheio de abelhas
minhas pupilas redondas disco riscado
minhas pupilas graves absoluta sem ginga
minhas pupilas retas sem gesto inato
minhas pupilas cheias poço bem cheiroso
minhas pupilas coloridas água definida
minhas pupilas sensíveis rigidez do desconhecido
minhas pupilas salientes beco preciso
minhas pupilas terrestres remedos celestes
minhas pupilas escuras pedras caídas

 

TRATANDO A SOMBRA VERMELHA

sua solidão que mia
zeros e zeros
vertente de valores ingênuos
retina ante o desconhecido
as brisas sonoras
retornam ferindo
seu ser de sorrisos
e dentes abertos
rir numa noite ensolarada
do vigoroso particípio

 

NOITE

correr não sei onde
aqui ou lá
singulares dobrares desnudos
basta correr!
tranças apegam meu anoitecer
de caspa e água de colônia
rosa queimada fósforo de cera
criação sincera em sulco capilar
a noite desamarra sua bagagem
de brancos e negros
tirar deter o seu ressurgir

 

 

MEU BOSQUE

acumular desejos em plantas ingratas
referir o teu
em verdor somente
e então surgirão dez cavalos
a atirar a cauda ao vento negro
moverão as folhas
suas crinas molhadas
e virá a esquadra
redondeando versos

 


POEMA AO MEU PAPEL

relendo próprios poemas
penas impressas transcendências cotidianas
sorriso orgulhoso equívoco perdoado
é meu é meu é meu!!
relendo letra cursiva
latir interior alegre
sentir que o verbo se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de sentires inatos
cálice harmonioso e autônomo
limite em dedo gordo de pé cansado e
cabelo lavado em cabeça crespa
não importa:
é meu é meu é meu!!

 

pizarnik2

O essencialismo de Ismael Nery

Ainda na série sobre a filosofia essencialista de Ismael Nery e sua relação com a poesia do próprio Nery e de Murilo Mendes, transcrevo aqui a parte inicial do texto O Essencialismo de Ismael Nery, que foi publicado como capítulo do livro Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos.

bernardo brandão


O essencialismo de Ismael Nery

A arte de Ismael Nery, diz-nos Jorge Burlamaqui, “não é só uma percepção da vida pelos sentidos. A grande produção artística deixada por Ismael obedece a um conjunto filosófico gerado de um pensamento constantemente preocupado com o absoluto, o essencial e com a unidade”. Esse “conjunto filosófico” foi batizado por Murilo Mendes de essencialismo. Não é fácil, no entanto, dizer em que consiste essa filosofia. Ismael não nos deixou nada substancial escrito sobre o tema. Dizia que “se suas idéias eram verdadeiras, haveriam de se transmitir na sucessão das idades, não importando que aparecessem com o nome dele ou de outro”.

Nossas principais fonte são os textos escritos por Jorge Burlamaqui e pelo próprio Murilo Mendes, aos quais Ismael de preferência expunha as suas idéias. Nas Recordações, Murilo sintetiza a filosofia essencialista do seguinte modo:

 Ismael tinha apenas 25 ou 26 anos de idade, e já os seus próximos sabiam que havia construído um sistema filosófico muito original, apesar de o não escrever. Era o essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço, na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade, na evolução sobre si mesmo para a descoberta do próprio essencial, na representação das noções permanentes que darão à arte a universalidade. Já se vê que ele não improvisou um tal sistema. Suas raízes vinham de longe: embora muito pouco dado a leituras, era Ismael extremamente curioso de todas as experiências humanas, passando sempre em revista as teorias mais diversas. Sua vida e as poucas notas que deixou provam que Ismael Nery viveu seu sistema, julgado por ele próprio uma introdução ao catolicismo.

A relação da filosofia essencialista com o catolicismo deve ser notada. Murilo Mendes nos conta que, nos anos 20 e 30, os intelectuais brasileiros eram, na sua grande maioria, avessos à religião: “o catolicismo era sinônimo de obscurantismo, servindo só para base de reação. Não era possível, sobretudo a uma pessoa de bom gosto, ser católica”. Mas, apesar de imerso nesse meio intelectual, Ismael Nery era um católico fervoroso. Sabendo da indisposição existente na época contra as idéias de sua religião, Ismael resolveu apresentar algumas delas de um modo laico, buscando fundamentá-las racionalmente. Eis uma nota sua sobre o assunto, citada nas Recordações:

A grande e única tragédia consiste no desvirtuamento do objetivo do homem: eis por que sou católico. No catolicismo aprendo a priori o que verifiquei no curso da vida. A vida é construtiva e o homem desvirtuado precisa demolir. Eis por que criei o essencialismo, que não passa de um método para ajudar o homem a ser homem. Ele sendo homem será católico: atingindo a justiça será santo, desejo máximo de Deus e interesse máximo do homem.

Não se deve, no entanto, pensar a partir dessas considerações que o essencialismo seja uma mera repetição de dogmas religiosos. Como escreveu Murilo Mendes: “o essencialismo é uma teoria filosófica e artística criada por Ismael Nery sobre bases católicas. Ismael imprimiu-lhe o caráter da sua fortíssima personalidade, sujeitando-a, porém, aos eternos princípios do catolicismo”. De acordo com Jorge Burlamaqui, o essencialismo podia ser dividido em três campos: o filosófico, o moral e o artístico. Na verdade, o método filosófico do essencialismo, baseado na abstração do espaço e do tempo, fundamentava as idéias morais e artísticas de Ismael Nery. É esse método que dava unidade ao conjunto da filosofia essencialista. No entanto, se de acordo com o próprio Nery, o essencialismo tinha como objetivo “ajudar o homem a ser homem”, era o campo moral a principal aplicação essencialista. Por sua vez, foi na arte que a filosofia de Ismael atingiu seus mais duradouros resultados, ao se concretizar na sua produção artística, bem como na de alguns de seus amigos.

Poemas de Ismael Nery

Continuando a série sobre poesia essencialista, posto aqui os poemas completos de Ismael Nery, ao menos os que chegaram até nós.

 

bernardo brandão

 

POEMA POST-ESSENCIALISTA (1931)

O silencio provocou-me uma necessidade irreprimível de correr. Abalei como uma flecha através dos mares e montanhas com incrível facilidade e sem cansaço. Eis-me agora sentado diante de uma paisagem em formação, ainda não colorida. O meu pensamento agora é que percorre o que acabei de percorrer, e admiro-me, então, de nada ter encontrado, senão ao chegar o rastro fosforescente que deixei ao partir. Os mares são agora ridículos lençóis d’água, de uns três ou quatro palmos de profundidade. As montanhas são nuvens estáticas, que o eterno medo dos homens transformará em granito. Tudo é pavorosamente desabitado. Não há leões nem elefantes nos desertos da África. Não existem as pirâmides nem a Torre Eiffel. Existe apenas eu mesmo, que me percebo inversamente por uma idéia que chamo mulher e que paira rarefeita sobre a superfície do globo – idéia incompreensível porque nada existe na terra além de mim mesmo. Volto a percorrer novamente o espaço, porém, desta vez, com a lentidão do crescimento das plantas, multiplicando-me progressivamente na minha idéia para mostrar-me a mim mesmo. Os mares, agora, são profundos e as montanhas se solidificaram. Aparecem leões e elefantes nos desertos da África. Construíram as pirâmides no Egito e levantaram a Torre Eiffel, em Paris, no ano em que um outro eu nascia em Belém do Pará. Tudo se povoou transbordantemente. Acho-me agora sentado na prisão, olhando sereno através das grades, aguardando o julgamento do crime nefando que cometi de usar a mim mesmo, na minha mãe, mulher, filha, neta, bisneta, tataraneta, nora e cunhada. Voltarei, ainda uma vez, para ser o meu próprio Juiz. Nada existe, além de mim mesmo, senão para mim.
Silêncio.

POEMA (1931)

Estou com o olho no telescópio que está dentro da barriga aberta da cúpula. Observo a lua, a filha da lua, a neta da lua, toda a família da lua, menos o marido dela. Eu gosto da cor da lua mas acho incompleta a sua forma. A lua é uma mulher gorda, que parece magra, magríssima, abstrata. Eu gosto das mulheres abstratas que vêm ao mundo sem pai nem mãe nem irmãos, e que não nasceram em nenhum país nem tão pouco no mar. Gosto mais de ter uma mulher em pé na minha cabeça do que pendurada em meu pescoço. O meu pescoço, às vezes, não agüenta bem o peso da minha cabeça, porque ela está cheia de coisas que quase sempre eu não gosto. Tenho uma formidável atração pelo que detesto, inclusive eu mesmo. Ismael Nery: nunca consegui ouvir nem dizer este nome sem sentir uma comoção – mas não sei bem que espécie de comoção eu sinto ouvindo ou dizendo este nome. Há nomes também que me emocionam e me obrigam a inventar um físico para eles. Nunca vi ninguém que escapasse completamente a uma crítica minha – nem eu próprio. Terei que captar a minha sinceridade em alguém que não seja eu, e até muito pelo contrário – que seja bem diferente de mim. Preferiria olhar as mulheres de cabeça para baixo e suspenso por um fio de aço, do que de outra maneira qualquer. A desorganização das coisas não me agrada, também como a organização .Gostaria de ter um criado moral para arrumar o meu cérebro e consolar nas minhas ausências aqueles que moram comigo, de mim e para mim. O meu maior instinto é o da paternidade que aplico a tudo e a todos. A minha maior vontade era ser a sombra de tudo e de todos, afim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos. Não haverá um homem que me determine moral e fisicamente? Sou o gérmen de um Deus, toda a gente o é também.

A VIRGEM INÚTIL (1932)

Eu não lhe pertenci porque não quis
Não fui de ninguém e nem sou minha.
Nasci no dia 9 de julho de 1909
E não sei quando morrerei.
Fui criança que não brincou
E moça que não namorou.
Sou mulher que não tem desejos.
Serei velha sem passado.
Só gosto de estar deitada
Olhando não sei p’ra onde.
Passo horas sem pensar,
Passo dias sem comer,
Passo anos sem mexer
No quarto azul que me deram.
Nasci nele, vivo nele e nele talvez morrerei.
Se não aparecer aquele
Que sempre esperei sem cansaço
Que me fará levantar, andar e pensar,
Que me ensinará o nome de meus pais e das partes do meu corpo.
Eu espero alguém que talvez não venha
Mas sei que existe,
Porque sei que existo.

A NOIVA DO POETA (1932)

A minha noiva se reparte toda nas minhas quatro amantes,
Sarah, Esther, Ruth e Rachel.
Sarah tem o seu ar e o seu corpo,
Esther tem a sua cor e seus cabelos,
Ruth tem o seu olhar e seu andar,
Rachel tem sua boca e sua voz.
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.

ISMAELA (1932)

A minha irmã é minha edição feminina e meu castigo.
Dá a todos o que eu nunca de mulher alguma recebi.
Se eu não soubesse que sou também o seu castigo
Há muito tempo que seria fratricida ou suicida.

POEMAS PRÉ-ESSENCIALISTAS (1932)

1

Três mulheres pariram de mim três filhos iguais
Samuel, Ismael e Israel.
O primeiro no mar, o segundo no ar, o terceiro no fogo.
A terra toda percorreram os três irmãos
Sem nunca se terem encontrado,
Sem nunca terem sabido o nome de seu pai
Que com eles andou,
Que pra eles deixou três mulheres iguais
Com as quais tiveram três filhos,
Samuel, Ismael e Israel.

2

Desde Eva que tu te repetes em formas inúteis
Para Samuel
Para Ismael
Para Israel
De quem és filha, mulher e mãe.
Ainda não atinaste, ó mulher!
Que só em mim, que só pra mim e só comigo
Não repetirás mais as tuas formas inúteis?!

3

Os filhos de minhas noras se parecem comigo
No andar
No pensar
No falar
E no ciúme que tenho
Da minha mãe,
Da minha mulher,
Da minha filha.
Os filhos das minhas noras se parecem com a avó.
Gostam de mim!

A MANHà(1932)

Acordei hoje com a desagradável e estranha sensação de que sou o único ser humano sobre a superfície da terra. Os outros homens me parecem animais que nenhuma relação poderão estabelecer comigo. Olho-os com uma indiferença notável – nem mesmo a profunda piedade que costumo ter por eles estou sentindo hoje. Recordo-me de fatos da minha vida, como se fossem histórias que me contaram. Noto que não me deixara marca nenhuma. A vida para mim está parecendo a coisa menos importante deste mundo. Poderei continuar a viver como poderei morrer neste instante. Isto me é absolutamente indiferente. Não sinto a necessidade de me mover nem de tomar resoluções. Uma senhora passou e me cumprimentou. Confesso que não a reconheci. Meu espírito está vagando sem curiosidade alguma sobre todas as coisas e idéias. Talvez por hábito. As vozes das pessoas que estão perto de mim me parecem ruídos sem nenhuma significação, como, por exemplo, o barulho que está fazendo a água que cai na caixa do banheiro. Olhei-me no espelho e achei excessiva a anatomia do meu corpo, sobretudo da minha cara. Para que olhos, para que boca, para quer nariz? Minha barbicha no queixo me parece mais inútil do que um seio para uma mulher que não foi mãe. O homem deveria ser uma bola com pensamentos. E das mulheres, que penso eu hoje? Nada! Aliás sempre pensei nelas muito pouco. Só costumo pensar no que me interessa. Creio que não existem neste mundo três mulheres que me possam interessar – pelo menos ao ponto de pensar nelas. E dos homens, que penso eu? Penso que foram feitos para as mulheres, muito mais do que o contrário . E de mim? Creio que eu seja uma coisa qualquer sem classificação, apenas com um a aparência humana. Será que minha inapetência pela vida seja resultado de falta de compreensão dela? Não creio! Creio mesmo o contrário. Mais do que o instinto de conservação, penso que seja a curiosidade a mola que nos impele para a vida – digo isto por experiência própria. Tenho a impressão de que nada mais poderei apreender e descobrir na vida. Esta deve ser a única razão do meu desinteresse por ela e do meu profundo desânimo. E a outra vida, como desejaria eu que ela fosse? Um repouso eterno numa paz infinita? Não! Isto mais ou menos foi o que eu sempre tive!… Eu queria que ela fosse a correção da minha vida da terra numa progressão infinita. Eu sou bastante medíocre!

A UMA MULHER (1932)

Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros.
Eu queria ser tua camisa que te conhece em segredo,
Eu queria ser o leito onde te abandonas ao teu próprio frio.
Eu queria ser teu filho e teu amante.
Eu queria que fosses eu.
Eu queria ser teu amor e teu Deus.
Eu queria não existir.

INÉRCIA

O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

O ENTE DOS ENTES (1933)

A minha mão gigante rasgou o céu e apareceu a figura do Ente dos entes. Houve confusão tremenda e os homens se misturavam, gritando; gritos de alegria, de dor, de espanto e de medo. Os sentidos dos homens se aperfeiçoaram e eles viram, ouviram e sentiram o que nunca tinham visto, ouvido e sentido. Houve, depois, consciência e todos se calaram. E olhavam pasmos a figura do Ente dos entes, que, para os homens era uma mulher e para as mulheres era um homem, e que apontava para três estrelas que giravam loucamente em volta de uma grande esfera de aço polido, que tinha a cabeleira como a de uma mulher e que, serena, caminhava girando sobre si mesma, para o ocidente. Depois, o Ente dos entes abriu suas vestes e mostrou no seu corpo fosforescente três nódoas vermelhas, duas na altura do ventre e uma em cima do coração. E falou em linguagem desconhecida. Ninguém entendeu o que disse o Ente dos entes, mas todos, no fim, sentiram um grande consolo. Na noite deste acontecimento os homens amaram como nunca tinham amado as suas amadas e estas conceberam filhos para que pudessem ver também o Ente dos entes, que prometeu voltar.
Houve paz temporária.

CONFISSÃO (1933)

Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável.
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus.
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.

PRIMEIRA PARTE DO MEU POEMA (1933)

Os gemidos das nossas mães se misturaram na noite.
— A tua te punha na vida para mim,
A minha me lançava no mundo para todas.
És porém a minha grande favorita!
Tudo o tenho tem um pouco de ti.
— Os meus filhos, por exemplo,
Que aliás são teus.

POEMA PARA ELA (1933)

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para eterna lembrança do maior amor.

A poesia de Ismael Nery

Saindo um pouco da Pérsia e chegando ao Brasil da primeira metade do século XX, gostaria de tratar aqui no Escamandro da poesia de Ismael Nery, Murilo Mendes e Jorge de Lima que foram inspirados, em muitos de seus poemas que parecem seguir fielmente os preceitos surrealistas, pela filosofia essencialista formulada pelo próprio Ismael nos anos 20. Começo minha série sobre o assunto com um ensaio que escrevi para a revista pequena morte.

bernardo brandão

Ismael Nery, poeta essencialista

Ismael Nery foi um dos pintores mais singulares do Brasil dos anos 1920 e 1930. Fortemente influenciado pela arte de vanguarda da época — Picasso, Chagall, o surrealismo etc. —, teve uma carreira curta, morrendo aos 33 anos em 1934. Em vida, teve o talento reconhecido apenas no seu círculo de amizades, do qual faziam parte Murilo Mendes e Aníbal Machado. Foi apenas nos anos 1960 que a crítica descobriu seu trabalho, que teve a consagração definitiva em 1972, quando seu Auto-retrato, com o Pão de Açúcar e a Torre Eiffel ao fundo, alcançou em um leilão o maior preço até então pago por um quadro no Brasil.

Em Ismael Nery, poeta essencialista, artigo dedicado à “teoria da poesia segundo Ismael Nery”, Murilo Mendes resumia a fórmula poética do amigo: “sensibilidade micrométrica mais visão intemporal dos acontecimentos.” Para Nery, era necessário organizar a matéria poética obtida através dos sentidos pelo método essencialista, seu sistema filosófico, baseado na abstração do espaço e do tempo, o que possibilitaria a contemplação da totalidade e a realização de uma vida essencial, na qual o repulsivo à moral e o supérfluo seriam eliminados. Dessa forma, acreditava que, melhor que escrever poesia, era praticá-la. “A vida de Ismael Nery é o maior monumento de sua poesia.” [4]

Talvez seja por isso que Nery só tenha passado a escrever poemas nos últimos anos de vida, a partir de 1931. Antes disso, quando interpelado por Murilo Mendes sobre tal possibilidade, dizia que “não desejava ser poeta oficial”. [5] De fato, ele parece ter dado ainda menos importância à sua obra escrita que às suas pinturas. Eis o que diz José Fernando Carneiro, seu amigo e médico no Sanatório Correias, em carta dirigida a Antônio Bento:

Os poemas de Ismael, ele os escrevia em pedaços de papel, que depois a arrumadeira do sanatório recolhia e jogava no lixo. Ele jamais se preocupou em guardar qualquer poema que houvesse composto.

Essa indiferença de Ismael pela publicação de suas obras vinha da noção profunda de que não havia pressa em divulgá-las. Elas viriam a ser conhecidas, senão já, amanhã, ou seja, no dia do Juízo Final. O espaço entre o hoje e o amanhã do Juízo Final se lhe afigurava curto demais. Havia no Sanatório uma menina de 12 a 13 anos, que se chamava Adelaide. Era uma menina boa, simples e, por acaso, ficou hospitalizada num quarto próximo ao de Ismael. Ele então fazia poemas de brincadeira e dava-os a Adelaide, que depois os jogava fora. Interceptei alguns desses poemas, escritos – ora em português, ora em francês. Não tenho comigo o número de A ordem de 1935. Mas, se a memória não me falha; se a memória (que é um sentido conexo à imaginação) não distorceu os fatos, eu creio que os poemas publicados nessa revista foram exatamente esses que eu recolhi. [6]

Ismael Nery esteve internado no Sanatório Correias de 1931 a 1933. Foram justamente os três anos de sua produção poética. É provável que parte desta produção tenha sido perdida:

Os poemas de Ismael, ele os escrevia em pedaços de papel, que depois a arrumadeira do sanatório recolhia e jogava no lixo (o mesmo acontecia – acrescento eu – com os seus desenhos, que as empregadas domésticas também recolhiam, a pedido de Murilo Mendes). Ele jamais se preocupou em guardar qualquer poema que houvesse composto. [7]

Edições

Em parte pela despreocupação de Nery, seus poemas nunca chamaram a atenção. Apesar disso, sua poesia possui qualidade, tendo sido admirada por aqueles que a leram: Fernando Carneiro considerava “belíssimo” o poema Para ela, e Antônio Bento afirmou que “é realmente fantástica a atmosfera do Poema post-essencialista”. [8] Murilo Mendes, o amigo mais exaltado, considerava o Poema post-essencialista e O ente dos entes, “depois de os ter relido inúmeras vezes, extraordinários, com uma atmosfera única na poesia brasileira” [9], que os poemas Os filhos de DeusA virgem inútil e Eu comoveriam a todos por sua “complexa substância poética e pelas suas raízes biológicas” [10]. Ainda, já no fim de sua vida, no prefácio ao livro de Antônio Bento, Murilo escreveu: “além de quadros e desenhos, Ismael deixou também alguns textos escritos nos últimos anos: poesias, poemas em prosa. (Dois ao menos destes, Poema post-essencialista e O ente dos entes, devem ser inseridos entre os mais altos da espécie escritos no Brasil)”. [11]

A totalidade dos poemas de Ismael Nery que chegaram até nós foi publicada por Murilo Mendes nas revistas A ordem e Boletim de Ariel. Na edição de fevereiro de 1935 de A ordem, apareceram oPoema post-essencialista (escrito por Ismael em 1931), O ente dos entes (1933), a Oração (1933), Virgem inútil (1932), Poema(1933), Confissão (1933), A noiva do poeta (1932), Ismaela(1932), Primeira parte do meu poema (1933), Fragmentos do meu poema (1933). Na revista de março, Eu (1933), Confissão do poeta (1933), Poemas pré-essencialistas (1932), Manhã (1932),Poema (1932), A uma mulher (1932), Poema para ela (1933),Vontade de quem? (1933), Inércia (1932) e Poema (1931). NoBoletim de Ariel de junho de 1935 foram publicados Eu (1933), A uma mulher (1933), Poema (1933), A virgem imprudente (1932) eA virgem prudente (1932). Na edição de agosto de 1935, o poemaMusa decadente. Murilo Mendes ainda publicou seus dois poemas preferidos de Ismael, O Poema post-essencialista e O ente dos entes no suplemento Letras e artes do jornal A manhã de 20 de junho de 1948.

Manuel Bandeira também incluiu alguns poemas de Nery na suaColetânea de poetas bissextos contemporâneosOraçãoA virgem inútilConfissãoA noiva do poetaPrimeira parte do meu poema,PoemaPoema para ela e Vontade de quem? , coletânea que também incluía poemas de Afonso Arinos, Di Cavalcanti, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Pedro Nava e outros.

Em 1973, Antônio Bento incluiu os poemas OraçãoFragmentos do meu poemaPara elaInérciaA uma mulherPoemas pré-essencialistasA noiva do poetaPoema (1933) Fragmentos do meu poemaConfissãoPrimeira parte do meu poema e Eu no quinto capítulo de seu livro Ismael Nery. [12] Ali, também menciona as lembranças de Fernando Carneiro sobre o início e do fim do texto original em francês de Para ela (“Les temps sont finis” e “Pour l’eternel souvenir du plus grand amour”) e fragmentos de um poema que se perdeu, que também fora escrito em francês (apesar da citação feita em português):

Somos como dois líquidos jogados num mesmo vaso.
……………………………………………………………………
Eu era vermelho, tu eras branca.
Agora somos róseos, etc.

Os poemas foram ainda publicados em livros dedicados como Ismael Nery, 50 anos depois, editado por ocasião dos 50 anos da morte de Nery e Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito (no centenário do nascimento).

A poesia

Formalmente, a poesia de Nery é totalmente livre: alguns poemas em prosa, versos brancos, sem metrificação e imagens inusitadas de influência surrealista. Mas, antes de tudo, é uma experiência essencialista que deve transcender o espaço e o tempo e buscar a totalidade. Isso é bem claro nestes versos de Confissão:

… Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável,
Crescente…

O essencialismo também aparece no Poema post-essencialista(1931), que consiste em uma aplicação sistemática do método. A abstração do espaço é empregada já nas primeiras frases:

O silêncio provocou-me uma necessidade irreprimível de correr. Abalei como uma flecha através dos mares e montanhas com incrível facilidade e sem cansaço.

Por sua vez, a abstração do tempo é usada a partir do segundo parágrafo. No início dos tempos, apenas existe o poeta, que contempla o desenvolvimento da vida:

…Não há leões nem elefantes nos desertos da África. Não existem pirâmides nem a Torre Eiffel. Existe apenas eu mesmo, que me percebo inversamente por uma idéia que chamo mulher e que paira rarefeita sobre a superfície do globo – idéia incompreensível porque nada existe na terra além de mim mesmo. Volto a percorrer novamente o espaço, porém, desta vez, com a lentidão do crescimento das plantas, multiplicando-se progressivamente na minha idéia para mostrar-me a mim mesmo…

Em seguida, contempla a sua própria história de vida e o futuro, misturando realidade (o seu nascimento em Belém do Pará) e ficção:

…Aparecem leões e elefantes nos desertos da África. Construíram pirâmides no Egito e levantaram a Torre Eiffel, em Paris, no ano em que um outro eu nascia em Belém do Pará. Tudo se povoou transbordantemente. Acho-me agora sentado na prisão, olhando sereno através das grades, aguardando o julgamento do crime nefando que cometi de usar a mim mesmo na minha mãe, mulher, filha, neta, bisneta, tataraneta, nora e cunhada…

O poema termina de um modo enigmático, que só pode ser corretamente compreendido tendo-se em mente uma premissa fundamental do método essencialista: “deve o essencialista procurar manter-se na vida sempre como se fosse o centro dela, para que possa ter sempre a perfeita relação entre as idéias e fatos” [13]:

Nada existe, além de mim mesmo, senão para mim.
Silêncio.

Essa mesma centralidade necessária constitui um dos motivos de Eu (1933). Aqui, a idéia de um poeta essencialista, que contempla a totalidade e concilia os opostos se encontra em um crescendode grande força e expressividade:

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe e entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos,
Eu sou o marido e a mulher,
Eu sou um deus com princípio
Eu sou poeta!

Em Arte e artista, Ismael Nery diz que “a idéia justa das coisas só poderemos conseguir pelo método essencialista, que consiste em receber sem parti-pris todas as emoções que operem em nosso inconsciente e que se transformem em afinidades ou repulsas segundo a dose que temos de instinto de conservação, ponteiro da moral”. É necessário emoções variadas e opostas ao essencialista. Estas podem ser vividas concretamente ou apenas intelectualmente, retiradas do patrimônio “acumulado pelos homens de outras épocas”. [14]

A poesia, dessa forma, transforma-se em um campo privilegiado para a aplicação do método essencialista, pois é capaz de exprimir tais emoções de um modo preciso. É por isso que, entre tais poemas, encontramos representações de experiências interessantíssimas que não poderiam ter sido vividas por seu autor. Para Nery, como para Fernando Pessoa, “o poeta é um fingidor”.

Em Confissão do poeta (1933), Nery fala de “sua esposa falecida”. Ora, Adalgisa Nery, sua verdadeira esposa, morreria mais de 30 anos depois dele. Mais do que uma confissão autobiográfica ou “cultivo do temperamento”, repudiado em Arte e artista, este poema é uma exploração de desejos intensos – um ciúme terrível, uma saudade mortal, o desejo de ser o outro ou o nada:

Eu tenho um ciúme terrível da minha sogra e do meu genro
E uma saudade mortal da minha esposa falecida.
Eu queria ter sido meu pai ou ser agora a minha nora.
Ou ter morrido como meu irmão…
No instante em que nasci.

Da mesma forma, em Ismaela (1932), o poeta fala sobre a sua irmã, que nunca existiu na realidade, mas que torna possível a exploração dos paradoxos do homem em face à alteridade feminina:

A minha irmã é minha edição feminina e meu castigo,
Dá a todos o que eu nunca de mulher alguma recebi.
Se eu não soubesse que sou também o seu castigo
Há muito tempo que eu seria fratricida ou suicida.

O tema da relação entre o homem e a mulher, sua complementaridade, tendência à união e os problemas que surgem pela distância entre o ideal e a realidade também aparece em A uma mulher (1932):

Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros… [15]

Por trás de todos os motivos que aparecem na poesia de Nery, o anseio que animou todos eles e lhes deu unidade foi o desejo pela totalidade, por “ser a sombra de tudo e de todos, a fim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos” [16]. Esse desejo, que mediado pelo essencialismo não se conformava “nem com o espaço nem com o tempo/ Nem com o limite de coisa alguma” [17] deu origem a “uma preocupação constante com o essencial, o absoluto e a unidade” [18], o que, para seus amigos, era a grande marca do artista.

NOTAS

[1] MENDES, M. Recordações de Ismael Nery. São Paulo: Edusp, 1996, p. 29.
[2] Ibid. 
[3] MENDES, M. “Ismael Nery, poeta essencialista”. Boletim de Ariel, ano III, n. 10, julho de 1934.
[4] Ibid.
[5] MENDES, 1996, p. 29.
[6] BENTO, A. Ismael Nery. São Paulo: Brunner, 1973, p. 35.
[7] Ibid.
[8] Ibid., p. 36.
[9] MENDES, 1996, p. 30.
[10] MENDES, 1935
[11] BENTO, 1973, p. 8.
[12] BENTO, 1973, p. 34-40
[13] MENDES, 1996, p. 52.
[14] Ibid., p. 51.
[15] Trecho inicial de A uma mulher.
[16] Poema (1933).
[17] Confissão (1933).
[18] BURLAMAQUI, J. “Abstração do espaço e do tempo”. A ordem, fev./março de 1934.